<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872</id><updated>2012-03-18T00:09:44.160-03:00</updated><title type='text'>Alegres colóquios</title><subtitle type='html'>"Oras, só depois de muitos esforços e de esfregarmos, por assim, dizer, uns nos outros, e compararmos nomes, visões, sensações, e de discuti-los nesses alegres colóquios em que perguntas e respostas se formulam sem o menor ressaibo de inveja, é que brilham sobre cada objeto a sabedoria e o entendimento, com a tensão máxima de que for capaz a inteligência humana." (Platão, Carta VII)</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>121</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8040802348730888133</id><published>2012-03-11T08:48:00.007-03:00</published><updated>2012-03-11T13:01:01.200-03:00</updated><title type='text'>Como assim, "direito de colar" ?</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-yFFGeGaNE48/T1zMN0C_25I/AAAAAAAAApI/7AvIEGy4CBY/s1600/anglo%2Bsoro%2B92%2Ba.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; width: 280px; height: 400px; text-align: center; display: block; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5718670164535270290" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-yFFGeGaNE48/T1zMN0C_25I/AAAAAAAAApI/7AvIEGy4CBY/s400/anglo%2Bsoro%2B92%2Ba.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-Lhaamb7Tlig/T1ySBPnELdI/AAAAAAAAAo8/lxJxRIxjpmY/s1600/alte_schulklasse.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;“O aluno tem o direito de colar, mas o professor também tem o direito de tomar a prova do aluno caso isso seja percebido”. Como assim, "&lt;em&gt;direito de colar&lt;/em&gt;” ? Ouvi a frase acima muitas vezes em diversas salas de professores por aí, e sempre me surpreendi com a naturalidade com que essa ideia é exposta e aceita. A meu ver, trata-se de raciocínio grosseiro e sem fundamento, cuja análise ajuda a lançar uma luz sobre a delicada relação entre ética e educação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Refuto o argumento do “direito de colar” de duas formas. Em primeiro lugar, no estrito âmbito do direito. Percebe-se que o direto (do aluno) de colar e o direito (do professor) de tomar a prova, enquadram-se no que costuma ser chamado de direitos conflitantes. Se o aluno tiver sucesso em colar, o professor não poderá exercer seu direito de tomar a prova; da mesma forma, no momento em que o professor tomar a prova do aluno, seu direito de colar é automaticamente abolido. Uma situação de direito conflitante é resolvida lançando-se mão de uma autoridade jurídica de instância superior, um Supremo Tribunal, que possa decidir a questão e, dessa forma, criar jurisprudência.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Oras, o “Supremo Tribunal” em uma escola é a sua Direção ou Coordenação Pedagógica, e me parece que desde há muito já foi criada uma jurisprudência sobre o assunto: cada vez que o “direito de colar” entra em confronto com o direito de tomar a prova, a Direção da escola sempre se pronuncia em defesa do professor, ou seja, afirmando a superioridade do direito de tomar a prova sobre o suposto “direito de colar”. Nesse sentido, não se pode imaginar uma situação em que o “direito de colar” seja reconhecido, com o direto do professor sempre prevalecendo. A partir daqui, pode-se começar a questionar se o “direito de colar” é efetivamente um direito. A sua própria forma sigilosa, enquanto única forma como o ato de colar pode ser exercido, ajuda o questionamento. A cola é essencialmente uma prática sigilosa que, uma vez identificada, deve ser interrompida; dificilmente tal prática pode ser caracterizada como um direito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas há uma segunda forma de refutar o assim chamado “direito de colar”. Estamos cansado de saber que o país vive uma situação de verdadeiro &lt;em&gt;déficit ético&lt;/em&gt;. Nas práticas do cotidiano e, lamentavelmente, nas práticas de uma certa política formal patrimonialista e– por que não ? – coronelística, predomina a ética do &lt;em&gt;primeiro eu&lt;/em&gt;, cujo fundamento se encontra no princípio infelizmente consagrado de &lt;em&gt;levar vantagem&lt;/em&gt;. Seu maior atributo é a &lt;em&gt;esperteza&lt;/em&gt;, definida como a habilidade de contornar a lei buscando um benefício próprio, que resulta quase na obtenção de bens materiais ou dinheiro, ou simplesmente em uma vantagem que torna possível contornar um obstáculo ou resolver um problema. Ora, a cola apresenta-se como a quintessência da ética do &lt;em&gt;primeiro eu&lt;/em&gt;, reunindo em si tanto seu fundamento quanto seu atributo. Caracterizar a cola como direito significa, de certa forma, consagrar a prática e, sobretudo, atrelar a ela um valor positivo, a ideia de direito, o que me parece  errado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O direito do professor de tomar a prova do aluno só é possível de ser exercido se a cola é proibida, e chamar de direito uma atividade que, uma vez exercida, será reprimida, me parece um contra-senso evidente. Afirmar o “direito de cola”significa, em última instância, praticar o jogo da &lt;em&gt;esperteza&lt;/em&gt;: quem é mais esperto, o aluno que cola ou o professor que vigia ? Conseguirá o aluno obter vantagens pessoais enganando os outros, contornando a norma ? Ou será o professor astuto o suficiente para surpreender os alunos (e lembro aqui do sorriso de satisfação de alguns colegas professores ao surpreender uma cola). Afirmar o “direito de cola” é reforçar o &lt;em&gt;déficit ético&lt;/em&gt; em que vivemos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Interlúdio perturbador: Mas e nos casos em que a norma estabelecida é incorreta ou arbitrária ? Não seria aqui o desrespeito a norma um ato de resistência, portanto eticamente aceitável – a até admirável ? No caso específico da  questão que examino, a cola, cabe a pergunta: a forma de avaliação (provas individuais e sem consulta) é adequada ? Não seria a cola um ato de resistência à prática autoritária das avaliações escolares como são realizadas atualmente ? Deixo a questão em aberto, para ser abordada em outra oportunidade. Hoje simplifico minha reflexão assumindo que as avaliações são adequadas; e assumir esse pressuposto ajuda a delimitar melhor a questão da cola.]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Diante do &lt;em&gt;déficit ético&lt;/em&gt; em que vivemos, me parece que o caminho a ser adotado pela escola seja o de um tratamento absolutamente intransigente em relação a questões éticas. Muitos consideram essa intransigência como a simples adoção de uma série de práticas repressivas voltadas contra aqueles que transgrediram normas contidas em um “manual ético” ou “guia disciplinar” ou qualquer outra monstruosidade do gênero. Não é disso que falo. Por intransigência refiro-me ao tratamento ético de todas as questões envolvendo o cotidiano da escola, e não mais chamar a cola de direito me parece um exemplo de medida a ser tomada. Não peço aqui uma simples correção linguística – que nos levaria para as perigosas fronteiras do “politicamente correto” – mas principalmente um tratamento ético da questão da cola. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Termino lembrando o sorriso de satisfação de alguns professores quando são mais “espertos”que algum aluno e o surpreendem colando. A cola, uma vez identificada e interrompida, não deve jamais ser celebrada. A simples ocorrência da prática da cola significa: a escola ainda tem muito trabalho pela frente, a educação contra a barbárie, a educação visando combater o &lt;em&gt;déficit ético&lt;/em&gt; não está funcionando. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8040802348730888133?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8040802348730888133/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8040802348730888133&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8040802348730888133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8040802348730888133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2012/03/como-assim-direito-de-colar.html' title='Como assim, &quot;direito de colar&quot; ?'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-yFFGeGaNE48/T1zMN0C_25I/AAAAAAAAApI/7AvIEGy4CBY/s72-c/anglo%2Bsoro%2B92%2Ba.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4751453717668659737</id><published>2012-03-01T08:29:00.012-03:00</published><updated>2012-03-01T09:19:20.082-03:00</updated><title type='text'>Cadê a sanidade ?</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-pH5rkasqMGU/T09fGEYtZxI/AAAAAAAAAoY/uRZ0lrNPlEg/s1600/sport%2Bd.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; width: 400px; height: 297px; text-align: center; display: block; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5714891010017683218" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-pH5rkasqMGU/T09fGEYtZxI/AAAAAAAAAoY/uRZ0lrNPlEg/s400/sport%2Bd.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt; Esporte é chato. Muito chato. &lt;em&gt;Mens sana in corpore sano&lt;/em&gt; só pode ter sido uma ironia dos romanos, aqueles brincalhões. Além disso, a expressão “uma mente sã em um corpo são” carrega uma contradição em termos, como observou A.J.Liebling, meu gordo favorito. Uma mente sã é aquela que demonstra sua capacidade de discernimento ao escolher deliberadamente ingerir coisas que eventualmente provocam efeitos negativos no corpo, mas que são &lt;em&gt;boas,&lt;/em&gt; que ampliam seu repertório de experiências – portanto de conhecimento – sobre o mundo, vá lá, fenomênico. Por outro lado, a manutenção de um corpo são é uma meta que, se levada às últimas consequências, implica em viver trancafiado em um &lt;em&gt;bunker&lt;/em&gt; de concreto anti-terremoto, anti-tsunami, anti-nuclear, alimentando-se exclusivamente de, sei lá, leite materno. O que não me parece um modo de vida que expresse sanidade mental. E, cá entre nós, a história do século XX seria bem diferente se o pessoal da cervejaria em Munique desconfiasse um pouco do rapaz de bigodinho que só bebia água mineral. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os esportistas e professores de esporte sabem disso, e tentam seduzir os leigos inventando novas modalidades de esporte, cada vez mais bizarras. O objetivo é atrair a feliz massa de sedentários e, quem sabe, salvar suas vidas. Comecei a reparar nisso da primeira vez que ouvi falar em “Pilates”, atividade física cujas características ignoro, mas cujo nome bíblico me encanta. Está aí uma atividade em que o aluno não se responsabiliza pelos resultados. Ou ainda, no glorioso Tênis Clube, cuja atividade de maior sucesso no verão foi nada menos que Acqua-TaiChi-KungFu.  &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Espera aí. Tai Chi e Kung Fu ? E dentro da piscina, ainda por cima ? Por mais que eu seja um completo ignorante em artes (?) marciais, me parece que é bem difícil uma conciliação entre Tai Chi e Kung Fu. Até onde sei, o Tai Chi está para o Kung Fu assim como o chá de camomila está para o expresso doppio. Ou como Elton John está para o Sepultura, como Geraldo Alckmin para qualquer outra pessoa, ou ainda como uma sopa de legumes para o sanduíche Psicodélico do Guanabara (copa, queijo roquefort, aliche e picles, lá no Bar Guanabara, no centro. Eu acrescento pimenta). &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há sempre aqueles que usam os argumentos científicos, em uma época de culto &lt;em&gt;in extremis&lt;/em&gt; à felicidade. A atividade física faz o corpo produzir uma substância química (hummm... endorfina ?), que provoca no organismo uma sensação de prazer e bem-estar. Como assim, prazer e bem estar ? E quanto ao cansaço, esgotamento e suores ? Olha, não consigo imaginar coisa menos prazerosa do que a atividade física, e devo confessar que poucas coisas me provocam menos felicidade do que o sofrimento físico auto-impingido. (Nessas horas, me ocorre um episódio atribuído a Vinícius de Moraes, saindo de um bar no Rio de Janeiro. Já com o sol nascendo, percebeu que os primeiros entusiastas do esporte começavam a correr no calçadão diante da praia. De dentro do táxi, não se conteve e começou a gritar pela janela: “Canalhas ! Pulhas !”).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se por um lado é divertido explorar radicalmente a crítica ao esporte, por outro não tenho lá muita vontade de morrer tão cedo: pratico natação, duas ou três vezes por semana, 30 ou 40 minutos de cada vez. Gosto da sensação da água no corpo, gosto de sentir meus movimentos em outra dimensão. Mas cada vez que saio da piscina, lembro das palavras de Martín, no filme &lt;em&gt;Medianeras&lt;/em&gt; (um daqueles filmes argentinos tão infinitamente melhores que os nossos): gosto de nadar. Mas odeio tudo aquilo que precede ou se segue ao ato de nadar: fazer a mochila, ir ao clube, frequentar o vestiário, trocar de roupa, usar touca e óculos de natação, fazer exame médico, enxugar, tomar banho fora de casa, ficar com cheiro de cloro, descobrir estranhas berebas na perna. Isso para não falar da fome brutal que a natação provoca, do sono pavoroso, além daquela irascível vontade de urinar que começa assim que se entra na água. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não há dúvida, esporte é chato, muito chato. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.....................................................................&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(PS.: na foto, a Juventude Hitlerista pratica arremesso de granadas, esporte muito popular na Alemanha da época)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4751453717668659737?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4751453717668659737/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4751453717668659737&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4751453717668659737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4751453717668659737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2012/03/esporte-e-chato.html' title='Cadê a sanidade ?'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-pH5rkasqMGU/T09fGEYtZxI/AAAAAAAAAoY/uRZ0lrNPlEg/s72-c/sport%2Bd.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-6157937742335942014</id><published>2012-02-16T09:28:00.006-02:00</published><updated>2012-02-16T09:35:57.254-02:00</updated><title type='text'>O Retorno do Ser - 2ª parte</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-cG7FXpnUjwg/TzzodkAxDXI/AAAAAAAAAoA/T80ih2AVyYs/s1600/godfather_l.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; width: 400px; height: 300px; text-align: center; display: block; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5709694022179687794" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-cG7FXpnUjwg/TzzodkAxDXI/AAAAAAAAAoA/T80ih2AVyYs/s400/godfather_l.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Além disso, agora “sou italiano”. Ou seja, concluí o longo processo burocrático que me concedeu cidadania italiana, com a consequente emissão de passaporte, etc. O que diabos significa, a essa altura da vida, “ser italiano” ? Nada, provavelmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento traçar a origem do processo. Pensei pela primeira vez em ser italiano em algum momento da adolescência, época em que é normal para qualquer pessoa tentar “ser” alguma cosia, o que quer que seja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Interlúdio comportamental: lembram o saudoso Orkut ? Lembram como multidões de adolescentes adotaram o Orkut, que tinha a incrível capacidade de definir o Ser das pessoas bastando para isso participar dessa ou daquela comunidade ? Quanto maior a crise de identidade, maior o número de comunidades adicionadas pelo indivíduo. Com o tempo, essas comunidades compartilhadas ajudavam a definir identidades coletivas, e talvez daí a avidez com que grupos fascistóides – como as torcidas organizadas – adotaram o Orkut. Mais tarde, conforme a classe C foi aderindo ao Orkut, nossas hierarquias sociais brasileiras falaram mais alto e as “classes altas” começaram a mudar para o Facebook. Que, por sua vez, diz: sou moderno, sou internacional.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, imaginava que um passaporte italiano um dia poderia ser – quem sabe ? – um motivo de segurança: nos anos 1990, a possibilidade do Brasil se transformar em um caos completo era bem real, e a doce península, embalada na prosperidade europeia, poderia ser uma eventual tábua de salvação. Finalmente, uma cidadania europeia poderia dar status, poderia resultar em vantagens práticas (e tolas) como evitar filas em aeroportos, não necessitar de visto para determinados países, enfim, milhares de pequenas coisas que me permitiriam contar vantagem em mesa de bar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, finalmente, depois de mais de uma década na fila, tenho o passaporte vermelho e posso me perguntar mais seriamente qual o significado disso tudo. O que significa ser cidadão de um determinado país? Em linhas gerais, pertencemos a um país quando, vá lá, concordamos em ficar: por mais problemas que o Brasil tenha, é aqui que se constituiu meu Ser, através, por exemplo, da memória e da linguagem, esses dois pilares absolutamente essenciais da identidade. Isso para não falar dos afetos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia, há uma concepção de identidade nacional que parte de um princípio distinto. Ao conceder cidadania para filhos e netos e bisnetos de italianos mesmo que morando em outro país, a lei italiana parte do princípio de que existe uma &lt;em&gt;italianidade&lt;/em&gt; que se transmite de pessoa a pessoa – e somente por linhagem masculina, o que, convenhamos, é bizarro –, independente da sociedade em que se vive, da língua que se fala, dos hábitos e costumes, das memórias e afetos construídos ao longo de uma vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O princípio é arcaico, e remete a ideias ao mesmo tempo ultrapassadas e perigosas – pois alimentam o racismo –, como a do “direito de sangue”. Acredito que o princípio de uma &lt;em&gt;italianidade&lt;/em&gt; hereditária chega a ser contrário ao espírito republicano, uma vez que uma República e suas leis são para todos os cidadãos, independente do sangue e da ascendência. Aqui começa a ser patética minha ambição de levar vantagem em fila de aeroporto, uma vez que parte da rejeição ao princípio republicano que acabei assumindo quando resolvi ser cúmplice e participar do truque de “ser italiano”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento buscar uma saída. Talvez a &lt;em&gt;italianidade&lt;/em&gt; não deva ser vista como fruto do “direito de sangue”, mas sim compreendida em chave cultural. Ser italiano e participar de uma família de origem italiana talvez signifique incorporar um modo de vida que tenha lá suas origens na península e que, ao sobreviverem, passaram a fazer parte do meu Ser. Assim, sou italiano não porque tenho um eventual “sangue italiano”, mas porque... porque o quê ? Gosto de fettuccine ? Prefiro sangiovese a merlot ? Transformo o “e” final das palavras em “i” ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até concedo que um filho de italiano se sinta italiano e veja na italianidade uma parte de seu Ser. Mas, no meu caso, desconfio que a Itália já ficou para trás.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-6157937742335942014?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/6157937742335942014/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=6157937742335942014&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6157937742335942014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6157937742335942014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2012/02/o-retorno-do-ser-2-parte.html' title='O Retorno do Ser - 2ª parte'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-cG7FXpnUjwg/TzzodkAxDXI/AAAAAAAAAoA/T80ih2AVyYs/s72-c/godfather_l.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-6525633941718273390</id><published>2012-02-06T17:18:00.017-02:00</published><updated>2012-02-07T09:40:21.583-02:00</updated><title type='text'>O Retorno do Ser</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-ju8-QkEeiVM/TzAoSL45s-I/AAAAAAAAAnc/TIDy6X7EneE/s1600/il-padrino_mafia.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; width: 400px; height: 258px; text-align: center; display: block; cursor: pointer;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5706105020772627426" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-ju8-QkEeiVM/TzAoSL45s-I/AAAAAAAAAnc/TIDy6X7EneE/s400/il-padrino_mafia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;“Eu sou...” não se começa uma frase assim impunemente. Dizer “eu sou” trás infinitas implicações e a mais séria delas talvez seja a crença de que o Ser se define pelo próprio sujeito, quando na verdade é bem possível que aquilo que somos só seja efetivamente percebido pelo  Outro. “Você é...” certamente causa muito mais preocupação – e está muito mais próximo do verdadeiro - do que um simples e surrado “eu sou”. Aliás, sempre desconfiei das pessoas que insistem em começar frases com "Eu sou...” e chega até a ser meio comum ouvir aqueles que começam frases com “sou o tipo de pessoa que....”. Essas frases costumam ser mais profissões de fé do que qualquer outra coisa – &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;wishful thinking&lt;/i&gt;, alguns diriam. Ou então, pura insegurança: &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;tenho &lt;/i&gt;que sair por aí dizendo o que sou, caso contrário corro o risco de ser &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;nada&lt;/i&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;. &lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Conto pela milésima vez a mesma história, que envolve meu sobrinho (“quando deus não dá filhos o demônio manda sobrinhos”), então com uns 5 ou 6 anos de idade. Sua mãe e sua professora conversavam na saída da escola e eis que a &lt;em&gt;tia&lt;/em&gt; diz: “Mas este menino tem muito boa índole !”, ao que a mãe orgulhosa respondeu, “Sim é verdade, ele tem boa índole !”. O moleque, perplexo ficou contemplando os adultos: pois e não é que sua mãe (principal enunciadora da verdade quando se tem 6 anos de idade) e a professora (mãe &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;ersatz &lt;/i&gt;durante parte do dia) concordavam que ele possuía &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;boa índole&lt;/i&gt;, e o moleque não fazia a mínima ideia do que isso queria dizer. Ou seja, afirmava-se o Ser do pimpolho, mas ao mesmo tempo ele era mantido na ignorância sobre seu significado, uma situação francamente perturbadora. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;. &lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;O fato é que nos últimos meses, o mundo acabou acrescentando dois novos complementos ao meu Ser. A primeira delas é “Eu sou chefe”, fruto de uma evolução profissional mais ou menos normal ou previsível. Porém, certas coisas mudaram desde que “Eu sou chefe”. Amigos tratam-me diferente, as pessoas em geral tornaram-se mais atenciosas: ouço &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;bom dia&lt;/i&gt; onde antes não ouvia, percebo subitamente que minhas piadas tornaram-se tremendamente engraçadas. Além disso, há uma tendência muito maior de as pessoas ouvirem o que eu falo, mesmo com o conteúdo da minha fala permanecendo o mesmo do tempo em que “Eu não era chefe”. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;A nomeação burocrática mudou a minha forma de inserção no trabalho, bem como parte da minha interação social. Querendo ou não, passei a ter nas mãos um certo &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;poder;&lt;/i&gt; bem escroto, é verdade, mas ainda assim um &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;poder&lt;/i&gt;. Minha fala deixa de ser descompromissada: agora tudo que digo tem efeitos de poder, que podem se realizar ou não. Por exemplo, meu mau-humor matinal, que me levava a dizer raros bons-dias, agora deve ser combatido: não posso ser um “chefe arrogante”. Ou então, quando digo, “Fulano é...” pareço estar enunciando uma sentença, pois sei que cada palavra minha vai ser interpretada, escrutinizada, torturada até que dela se extraiam todos os significados possíveis. Tenho que me policiar, ao mesmo tempo que, querendo ou não, espera-se que eu policie os outros.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;. &lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;As pessoas me telefonam. Colegas passaram a me procurar, trazendo demandas que já não tem mais nada a ver com a profissão. Colegas com quem pouco conversei nos últimos anos se abrem para mim, até em questões familiares ou emocionais: a posse do &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;poder&lt;/i&gt; me transforma em uma figura forte &lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt; &lt;/span&gt;– penso no &lt;em&gt;istos&lt;/em&gt; (&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="color: rgb(41, 48, 59);"&gt;&lt;span style="font-family:Calibri;"&gt;ιστός)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt; grego – mesmo que eu na verdade continue sendo um ser humano precário, inseguro e chorão. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;. &lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt; &lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;Da mesma forma que as pessoas dependem de mim, eu perco a minha independência. Em princípio, sempre valorizei a postura profissional de dizer o que penso, “e se não gostarem, tchau, peço demissão, vocês não me merecem”. Isso já não é mais possível. Há trabalhos em andamento, há projetos (alguns francamente empolgantes) dos quais eu quero participar, eu quero que funcionem como eu pensei. E é aqui que justifico meu &lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;poder &lt;/i&gt;escroto: com ele tenho a possibilidade de transformar o trabalho em algo estimulante, desafiador, rompendo com a mesmice de anos anteriores. Evito os detalhes técnicos, apenas penso na velha concepção marxista de realização do homem através do trabalho.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt; .&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);font-family:Times New Roman;font-size:100%;"  &gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;O segundo novo “Eu sou...”, deixo para a próxima semana.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 0, 0);"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p style="margin: 0cm 0cm 0pt; text-align: justify; line-height: normal;" class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-6525633941718273390?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/6525633941718273390/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=6525633941718273390&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6525633941718273390'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6525633941718273390'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2012/02/o-retorno-do-ser.html' title='O Retorno do Ser'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-ju8-QkEeiVM/TzAoSL45s-I/AAAAAAAAAnc/TIDy6X7EneE/s72-c/il-padrino_mafia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-5774084622160259691</id><published>2011-10-24T08:50:00.008-02:00</published><updated>2012-02-07T06:47:58.304-02:00</updated><title type='text'>O horror.</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-tw7VgNDGn1E/TqVDPLd2edI/AAAAAAAAAnE/IZrpDODxeN4/s1600/grafico%2B01.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; width: 300px; height: 217px; text-align: center; display: block;" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5667009634170730962" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-tw7VgNDGn1E/TqVDPLd2edI/AAAAAAAAAnE/IZrpDODxeN4/s400/grafico%2B01.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Durante a Guerra do Vietnã, boa parte da estratégia norte-americana foi dirigida pelo secretário de defesa Robert MacNamara, gênio da administração privada, trazido para aumentar os parâmetros de eficiência do governo norte-americano. Em meio a infinitos relatórios e busca de uma racionalização extrema, MacNamara definiu parâmetros rígidos para a realização de operações militares, bem como para sua avaliação. Em uma guerra de guerrilhas, em que “ganhos territoriais” não serviam para avaliar avanços na direção da vitória, a equipe de MacNamara definiu o conceito de &lt;em&gt;body count&lt;/em&gt;, a partir do qual a eficiência das operações militares seria medida. Tratava-se nada menos do que a contagem rigorosa do número de inimigos mortos: quanto mais mortos, mais os Estados Unidos estariam próximos da vitória. Daí para a barbárie (ou para o surgimento dos coronéis Kurtz) foi um passo. “The horror, the horror”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis que no último fim de semana fui solicitado para avaliar a prova de História do ENEM. Dificuldade da prova, abrangência do conteúdo, pertinência da questão, tempo necessário para resolução, esses foram alguns dos itens avaliados, e eu deveria dar uma nota de 1 a 5 para cada um. O objetivo era obter um banco de dados que fosse sendo criado ao longo das edições do ENEM, com o objetivo de adequar o material didático e os cursos oferecidos pelo Anglo a um determinado perfil de prova, levando-se também em consideração suas mudanças ao longo do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, tive um primeiro problema: qual é a melhor nota, 1 ou 5 ? Uma rápida consulta ao burocrata de plantão me trouxe como resposta: “Considere sempre 5 como o melhor”. Ok, retornando ao trabalho, me deparo com o primeiro item a ser avaliado, o grau de dificuldade da prova. Segundo problema: o que é melhor, uma prova fácil ou uma prova difícil ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por aí afora, foi uma longa tarde. Conto essa história para chamar atenção para a distância que surge entre o trabalho que exige qualificação técnica (no caso, avaliar provas) e o trabalho administrativo: muitos vezes os encarregados da administração sequer compreendem a linguagem dos setores que administram, quanto mais as particularidades técnicas do trabalho realizado. A questão é infinita. Quem é melhor para administrar uma fábrica, o engenheiro ou o administrador ? E para dirigir uma escola, o professor ou o administrador ? Levo a questão ao extremo: quem é melhor para comandar o exército: o general ou o gerente ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão tem algo de falacioso: já vi mais de uma escola particular sucumbir devido à espetacular falta de preparo dos professores que se tornaram seus proprietários e administradores. Muitas vezes ao técnico falta a visão de conjunto do administrador, muito embora essa virtude não seja obtida automaticamente, digamos, com um diploma de Administração de Empresas ou em um desses afamados programas de MBA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, a grande questão que me perturba é outra, e envolve a espetacular necessidade que certa burocracia tem de obter números, cifras, dados numéricos em geral. Toda ação precisa ser justificada, e os números oferecem uma ferramenta aparentemente ótima, pois são de fácil compreensão e manuseio. Daí o famoso sistema de metas, em que todos precisam ter metas numéricas que devem ser atingidas. A contrapartida é clara: quanto mais a quantidade (medida por números) ocupa espaços, menos importa a qualidade (de difícil medida ou, a priori, impossível de ser medida em escala numérica).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há outros fetiches no mundo corporativo-gerencial-administrativo. Um dos meus preferidos é o dos gráficos. Lembro que anos atrás, ao visitar os escritórios de uma grande empresa que queria contratar temporariamente meus serviços de escriba, fui falar com um vice-diretor e, enquanto esperava em sua ante-sala, tive tempo para observar que uma das paredes estava coberta de gráficos. A legenda desses gráficos me escapava, mesmo porque eram muitos, e a única coisa que pude fixar foi seu aspecto geral: &lt;em&gt;todos os gráficos apontavam para cima&lt;/em&gt;. Não havia nenhum exceção, nem um mínimo repique em qualquer das curvas: todas elas, números transformados em traço, eram vigorosas, sólidas, indestrutíveis no seu caminho para cima. Me senti na beira do precipício, correndo o risco de despencar de vez no mundo tenebroso do &lt;em&gt;capitalismo fálico&lt;/em&gt;. Tentei me recompor e dando asas ao pensamento, imaginei: até onde vão essas curvas ? Para que infinito metafísico elas apontam ? Um infinito que só pode resultar na acumulação interminável de capital, ou na destruição incontornável dos recursos do planeta. No final das contas, nada pode sobreviver a uma ascensão tão vigorosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase em pânico, pretextei qualquer desculpa para a secretária e saí correndo daquele lugar de tortura mental.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-5774084622160259691?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/5774084622160259691/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=5774084622160259691&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5774084622160259691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5774084622160259691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/10/durante-guerra-do-vietna-boa-parte-da.html' title='O horror.'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-tw7VgNDGn1E/TqVDPLd2edI/AAAAAAAAAnE/IZrpDODxeN4/s72-c/grafico%2B01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2461280919199667741</id><published>2011-09-26T08:08:00.024-03:00</published><updated>2011-09-26T13:22:35.864-03:00</updated><title type='text'>Serviço pesaaaado é comigo mesmo.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-R3ke8AnxkNE/ToBfjtiXAYI/AAAAAAAAAmk/_spSZNIwk7U/s1600/ventosa%2B02.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 299px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5656626199101112706" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-R3ke8AnxkNE/ToBfjtiXAYI/AAAAAAAAAmk/_spSZNIwk7U/s400/ventosa%2B02.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; Tudo começou com uma preocupação estética: dias atrás, ao trocar um pneu de carro pela milionésima vez na vida, enegreci minhas mãos – como só uma troca de pneus consegue – e em seguida borrei a manga da camisa, manchei a calça, emporcalhei o estofamento do carro, deixei marcas de dedos pelo rosto. É sempre assim. Decidi, finalmente, comprar luvas, daquelas luvas que já vi usarem em demolição, carpintaria, essas coisas. Luvas para serviço pesado, que me seriam úteis nas futuras trocas de pneus e, de quebra, ainda serviriam para finalmente dar algum sentido àquele espaço do automóvel estranhamente chamado de “porta-luvas”. Mas onde encontrar luvas para serviços pesados ? Em uma Loja de Material de Construção, e lá vou eu em pleno sábado à noitinha para uma certa Leroy-Merlin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos lugares me causam mais estranhamento do que uma Loja de Material de Construção, a começar pelo endereço. Por que as Lojas de Material de Construção sempre ficam em avenidas afastadas, na Marginal ou nas saídas da cidade ? Sua localização e o tipo de coisa vendida nessas loja são quase que um convite ao crime. “Por favor, me veja uma serra elétrica e uma mala grande, rapidinho”. Ou à fuga rápida que se segue ao crime cometido. Se Janet Leigh em &lt;em&gt;Psicose&lt;/em&gt; tivesse roubado os dólares em uma Loja de Material de Construção na Marginal Tietê, sua fuga não seria percebida, e sua vida, certamente muito mais fácil. O aspecto megalômano da coisa também me assusta um pouco e, conforme fui entrando, imaginei como seria bem mais legal fazer compras na loja de Ricardo Darín em &lt;em&gt;Um conto chinês&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, me dirigi à loja – que insisto em pronunciar &lt;em&gt;Le Roi Merlin&lt;/em&gt;, só para dar um ar mais afrancesado e chique – e assim que cheguei senti o mal estar habitual. Trata-se de uma estranha e não muito bem vinda sensação de não-pertencimento, junto com a impressão de que eu realmente &lt;em&gt;deveria&lt;/em&gt; me interessar por aquelas coisas todas. De fato, o meu repúdio ao trabalho manual talvez seja fruto do reconhecimento de que sou incapaz de fazê-lo. Ok, acho terrível perder tempo, digamos, trocando um varal de roupa, mas como minha vida seria mais fácil se eu tivesse a iniciativa de fazer esse tipo de serviço ! E, o mais instigante: quando finalmente encaro algum trabalho manual doméstico sinto um inesperado prazer ao concluí-lo, mais ou menos idêntico ao que eu tinha nas raras vezes que conseguia resolver um difícil exercício de Matemática no Ensino Médio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, deixo as neuroses do cotidiano para depois e descrevo minha visita à Leroy Merlin. Combati a sensação de não-pertencimento já desde a entrada, assobiando, pelo menos mentalmente, a música &lt;em&gt;Bad Leroy Brown&lt;/em&gt; ("The baddest man in the whole downtown/ Badder than the old King Kong/ Meaner than a junkyard dog"), e sentindo-me como se fosse o próprio. Peguei uma cestinha e juntei-me aos trogloditas que habitualmente frequentam essas lojas, com camisas do Corinthians e tudo. De cara, procurei um vendedor e perguntei, enquanto coçava o saco: “Tem luva pra serviço pesaaaaaado ?” O rapaz me indicou a seção de ferramentas, enquanto explicava para um grupo as vantagens de uma determinada bomba hidráulica (ou seria um motor de popa ?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando na tal seção de ferramentas, tive quase uma epifania. Nas prateleiras, a quantidade de equipamentos e objetos absolutamente desconhecidos por mim era espantosa. Minha ignorância sobre suas utilidades – e, na maior parte dos casos, a falta da mais vaga idéia sobre seu emprego – fizeram com que eu os percebesse apenas como objetos materiais, formas desprovidas de significado. Imediatamente, meu cérebro começou a achar usos para aqueles trastes todos, e a visita à Loja de Material de Construção ganhou um aspecto lúdico inesperado. Misturadores de tinta que se pareciam com esquis para anões, serras elétricas portáteis que pareciam &lt;em&gt;discmen &lt;/em&gt;pré-históricos, ventosas para pegar vidro que pareciam o telefone usado pelo comissário Gordon para chamar o Batman (veja foto acima) Mas... espera aí. Ventosas ? Várias imagens do Homem-Aranha vieram à mente, e comecei a pensar em quantas daquelas ventosas eu precisaria para escalar uma parede vertical.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo, ninguém mais me segurava. Vesti o cinto de ferramentas, e imaginei-me dando aula com vários gizes e apagadores pendurados na cintura. Pus uma máscara de soldar preta e gritei “Nooooooooo”, como Darth Vader em &lt;em&gt;O Retorno de Jedi&lt;/em&gt; (&lt;a href="http://bit.ly/bTSPh5"&gt;http://bit.ly/bTSPh5&lt;/a&gt; ), para espanto de uma família que passava pelo corredor justo naquela hora. Finalmente, topei com uma prateleira de verdadeiras bazucas, cujo uso descobri assustado, ao ligar uma delas por engano. Tratava-se de um soprador de folhas – um soprador de folhas ! Pode existir algo mais divertido que um soprador de folhas ? Imaginei-me passeando pelos corredores da Editora Scipione com meu soprador de folhas, conturbando o ambiente, provocando um verdadeiro tornado no setor de entrega de originais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz as minhas compras feliz e contente, saí de alma lavada, ansioso para usar ou instalar todos os trastes que acabei comprando. E aí está o ponto. Qualquer trabalho torna-se interessante quando nele se descobre um aspecto lúdico. Qualquer ocupação ou serviço é interessante quando se projeta nele o humano, seja na forma da relação pessoal (“fazer amiguinhos”), do lidar com objetos (“brincar de construção”) ou simplesmente, jogar com as coisas. Ganho a vida brincando de professor e escrevendo textos para publicação. Escrevo como se estivesse fazendo uma redação para a tia corrigir, e como nem todas as vezes ela me dava 10, tenho que continuar tentando. Sempre.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2461280919199667741?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2461280919199667741/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2461280919199667741&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2461280919199667741'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2461280919199667741'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/09/servico-pesaaaado-e-comigo-mesmo.html' title='Serviço pesaaaado é comigo mesmo.'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-R3ke8AnxkNE/ToBfjtiXAYI/AAAAAAAAAmk/_spSZNIwk7U/s72-c/ventosa%2B02.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-1997849963725289053</id><published>2011-09-08T12:28:00.007-03:00</published><updated>2011-09-08T12:40:50.866-03:00</updated><title type='text'>Terceiro Aniversário</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-WRRXM7E57U4/Tmjg2gEa5MI/AAAAAAAAAls/nZffyDebSW0/s1600/3%2Baniversario%2Bbest.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 378px; DISPLAY: block; HEIGHT: 357px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5650012959462319298" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-WRRXM7E57U4/Tmjg2gEa5MI/AAAAAAAAAls/nZffyDebSW0/s400/3%2Baniversario%2Bbest.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lá pelas tantas, em &lt;em&gt;Apocalypse Now&lt;/em&gt;, ouve-se a voz do coronel Kurtz (Marlon Brando), em uma gravação interceptada pelo exército americano: “Eu vi um caracol se arrastando pelo fio de uma navalha. Esse é meu sonho... e meu pesadelo. Arrastar-me pelo fio de uma navalha e sobreviver”. A imagem é perturbadora, e foi considerada um dos indícios da insanidade do bravo coronel. (A cena ocorre logo no início do filme, quando ainda ecoam na cabeça da platéia os acordes da música da abertura e a voz de Jim Morrison cantando &lt;em&gt;The End&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagem semelhante aparece em uma parábola de Kafka: no meio de um caminho apresentam-se dois adversários, um persegue o caminhante enquanto o outro barra o seu caminho. O que vem por trás na verdade o ajuda na luta contra o da frente, pois que o empurra; enquanto o da frente faz o mesmo, pois o segura. Mas a luta é apenas teórica, pois há um terceiro oponente, o próprio caminhante. Quem sabe, na verdade, quais são suas verdadeiras intenções ? Estaria ele, mesmo esmagado, favorecendo um dos adversários ? Em um momento imprevisto o personagem sonha – “e isso exigiria uma noite mais escura que jamais o foi nenhuma noite” – pular para fora da luta e tornar-se juiz dos adversários que se enfrentam. Na leitura de Hannah Arendt, o salto para fora da luta é uma operação do pensamento, a busca do entendimento que é a única forma de conciliação do homem com o mundo, de evitar que sejamos esmagados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro da descrição de Nietzsche do espírito livre, como uma corda estendida entre o Homem e o Além-do-homem (&lt;em&gt;Übermensch&lt;/em&gt;), e trata-se de uma corda estendida sobre um abismo. E lembro também do famoso texto de Benjamin, ao qual sempre retorno, sobre o Anjo da História (e aproveito para antecipar o aniversário do blog, que começou em setembro de 2008 com o nome de &lt;em&gt;Angelus Novus&lt;/em&gt;): trata-se de um anjo empurrado irremediavelmente para frente, mas que não consegue deixar de encarar as ruínas ou fragmentos do passado que são deixadas para trás conforme o vento do progresso vai soprando. Trata-se da interpretação de um quadro de Paul Klee, que mantenho ainda como decoração desta página, no alto, à esquerda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As situações todas se parecem, pois colocam em cena um &lt;em&gt;limiar&lt;/em&gt; e tentam expressá-lo através de imagens. O limiar só existe quando se empreende um movimento, que só pode ser o da busca do sentido. Essa busca é a própria justificativa da existência do blog que, nos últimos 3 anos, sempre procurou o entendimento e mesmo em seus textos mais leves nunca abdicou da busca do sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Limiar. A caminhada rumo ao sentido. O risco de desabar e descobrir que simplesmente &lt;em&gt;não há sentido&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No próximo dia 15, o blog completará o terceiro aniversário. Em crise, como se percebe pelo seu mais longo silêncio. Agradeço a todos os alegres leitores, que continuaram acessando esta página mesmo sem nenhuma atualização. E dedico esse terceiro aniversário a D., que tem me ajudado a seguir em frente nos últimos meses, não importando a lentidão do caracol, a força dos adversários, o tamanho do abismo ou os fragmentos do passado. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-1997849963725289053?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/1997849963725289053/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=1997849963725289053&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1997849963725289053'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1997849963725289053'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/09/feliz-aniversario.html' title='Terceiro Aniversário'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-WRRXM7E57U4/Tmjg2gEa5MI/AAAAAAAAAls/nZffyDebSW0/s72-c/3%2Baniversario%2Bbest.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4448704777211860985</id><published>2011-07-15T08:42:00.013-03:00</published><updated>2011-07-15T12:49:17.314-03:00</updated><title type='text'>Pairando no ar</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-FTBsaaP-EzY/TiAoADHtxbI/AAAAAAAAAlM/9ENWMjjOO_A/s1600/TRAPEZISTAS.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 251px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5629543515515897266" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-FTBsaaP-EzY/TiAoADHtxbI/AAAAAAAAAlM/9ENWMjjOO_A/s400/TRAPEZISTAS.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nunca dei muita bola para o Circo, cuja “magia e encanto” jamais me seduziram, talvez porque sempre cercados de uma pobreza atroz. Muitos vêem nessa pobreza uma certa expressão da “autenticidade” do espetáculo circense, enquanto que eu sempre a vi como aquilo que realmente é: pobreza mesmo. E aqui não falo da pobreza material do circo precário, mas da pobreza de conteúdo de suas atrações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo criança, as piruetas e fanfarronices dos palhaços me tiravam poucos sorrisos, se é que algum. Como é que alguém acostumado com boa literatura ou boas comédias ou bons roteiros pode se deixar levar pelo humor de palhaços mambembes sem recorrer a uma dose imensa de boa vontade ? Quanto aos malabaristas e suas habilidades com pinos de boliche ou bolas coloridas ou tochas de fogo, sempre me remeteram ao universo de uma existência precária, por exemplo, aquela que se leva nos cruzamentos de avenidas das grandes cidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os animais de circo representam um espetáculo deprimente à parte. Não é necessário ser um amigo dos animais ou defensor radical da natureza ou mesmo um vegetariano ético para sentir o mal-estar provocado pela visão de jaulas claustrofóbicas, pelo estalar dos chicotes ou pelo adestramento de elefantes à base de choques elétricos. Isso para não falar da falta completa de sentido que há em condenar um leão – animal da savana por excelência – a levar uma vida &lt;em&gt;on the road&lt;/em&gt;, encarapitado numa minúscula gaiola na caçamba de um caminhão fedendo a diesel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, há um momento no espetáculo circense que sempre me chamou a atenção, que é a parte final do número dos trapezistas. É quando as redes de segurança são desamarradas, e aquele conjunto de piruetas aéreas ganha uma tensão aparentemente de vida ou morte. Anuncia-se uma manobra ousada, algo como um duplo ou triplo salto mortal, rufam os tambores e o trapezista põe-se em movimento, sabendo que um erro qualquer fará com que se arrebente no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as redes de segurança são desamarradas, a manobra do trapezista ganha um novo sentido, carregada de tensão e capaz de modificar a própria forma de percepção do movimento. Na hora em que o corpo salta no ar e por um instante fica imóvel, o tempo parece suspenso e esse momento como que se eterniza. As forças que movem os corpos, como a gravidade, também são suspensas e assim, a relação com o espaço deixa de ser a habitual. Além disso, a manobra do trapezista pede a confiança do seu companheiro, que deve saber estender as mãos no momento e local exatos, para que o corpo em movimento seja acolhido. Nesse segundo tempo da manobra, a sensação é sublime: ocorre uma nova suspensão do tempo e do espaço e tudo parece se imobilizar ou eternizar quando mãos estendidas se tocam e se apertam fortemente. Os movimentos se complementam, dois corpos passam a ser um. (Será que os trapezistas sorriem quando estão concluindo a manobra ?). Enquanto isso, lá embaixo, o chão permanece à espreita, ameaçador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando dizemos para alguém “Eu amo você”, é como se todas as redes de segurança do mundo fossem desamarradas. Mas elas já não importam mais. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4448704777211860985?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4448704777211860985/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4448704777211860985&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4448704777211860985'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4448704777211860985'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/07/pairando-no-ar.html' title='Pairando no ar'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-FTBsaaP-EzY/TiAoADHtxbI/AAAAAAAAAlM/9ENWMjjOO_A/s72-c/TRAPEZISTAS.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4862346051481471771</id><published>2011-07-12T20:55:00.007-03:00</published><updated>2011-07-13T00:19:26.097-03:00</updated><title type='text'>Para onde vamos ?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-u41WdHfNEio/Thzg4EaRFkI/AAAAAAAAAk0/vkTR0y8KoQQ/s1600/C%25C3%25B3pia%2Bde%2Bflick%2Ba.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 272px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5628620888167487042" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-u41WdHfNEio/Thzg4EaRFkI/AAAAAAAAAk0/vkTR0y8KoQQ/s400/C%25C3%25B3pia%2Bde%2Bflick%2Ba.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; É da natureza do segredo que uma separação deva acontecer: uma ou mais pessoas devem permanecer afastadas de um acontecimento ou informação. Certamente muitos já intuíram a mesma origem das palavras &lt;em&gt;segredo&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;segregação&lt;/em&gt;, palavra que tem um sentido odioso. Na verdade, ambas originam-se do latim &lt;em&gt;secernere&lt;/em&gt;, que significa separar, por de lado, esconder, e que também deu origem à palavra &lt;em&gt;secessão&lt;/em&gt;. Se você quiser enlouquecer, vá ver como o verbo latino &lt;em&gt;secernere&lt;/em&gt; originou-se a partir dos tempos verbais do grego κρίνω (&lt;em&gt;kryno&lt;/em&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segredo, enquanto separação, pode ser obtido através da mentira, e isso é o que eu costumo chamar de &lt;em&gt;produção ativa de segredo&lt;/em&gt;. Um sujeito, plenamente consciente, toma a decisão de dizer algo que não corresponde à realidade, criando assim um obstáculo à apreensão do real. Tal iniciativa é bastante eficiente, não só por produzir efeitos imediatos mas também, quando do desvendamento da mentira, por possibilitar a emissão de juízo: aquele que mentiu falhou com a ética, a descoberta da mentira torna o deslize evidente. Diante da mentira desvendada o mundo permanece inteligível e o universo de valores inalterado: cabe apenas perdoar ou não o mentiroso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Momento desabafo: os que me lêem e me conhecem pessoalmente frequentemente observam que a rigidez ética dos meus escritos não tem muito a ver com os atos da pessoa real que escreve. Pouco importa. Considero os valores elevados que enuncio como um ideal, e acredito neles sinceramente. Uma vez que não ambiciono nem a perfeição nem a santidade, sei que falhei e ainda falho e, no caso, choro lágrimas de sangue cada vez que lembro as vezes em que minhas mentiras provocaram segredo, segregação, separação.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segredo também pode ser obtido através do ocultamento, e isto é o que chamo de &lt;em&gt;produção passiva de segredo&lt;/em&gt;. A falta de uma informação ou a omissão de um detalhe podem criar o segredo, principalmente quando acompanhados de algumas verdades próximas e evidentes. Nesse caso, ao invés de escolhas éticas claras, somos colocados diante da zona nebulosa da incerteza. Quando se estende um véu sobre o real, o que está por trás pode permanecer muito bem oculto. Mas o próprio véu acaba se tornando visível e muitas vezes, mesmo quando não existe nada por trás do véu, surge a pergunta: por quê foi estendido ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, porém, uma dimensão bastante atraente o segredo, e que tem a ver com a forma surpreendente com que ele consegue, às vezes, criar aproximação. Falo aqui do segredo compartilhado, principalmente quando se dá no universo das relações amorosas, onde o segredo pode ter um estranho poder de atração. Amantes secretos, encontros secretos e desejos secretos criam um universo de erotismo que, para alguns, seduz bem mais que a certeza das relações estabelecidas e do sexo cotidiano e regular. Nesse caso, trata-se do segredo a dois que, por criar cumplicidade acaba provocando aproximação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Separados do real, os amantes cúmplices – secretos ou já não mais secretos – constroem um mundo à parte, ao mesmo tempo isolado e melhor do que o mundo real.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4862346051481471771?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4862346051481471771/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4862346051481471771&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4862346051481471771'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4862346051481471771'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/07/para-onde-vamos.html' title='Para onde vamos ?'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-u41WdHfNEio/Thzg4EaRFkI/AAAAAAAAAk0/vkTR0y8KoQQ/s72-c/C%25C3%25B3pia%2Bde%2Bflick%2Ba.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8755887957647118850</id><published>2011-07-01T17:33:00.017-03:00</published><updated>2011-07-03T00:18:57.852-03:00</updated><title type='text'>Ainda o encantamento...</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-S3qXAATlv9E/Tg4vLnEyjoI/AAAAAAAAAkk/KyZGfLB6s6o/s1600/turkish%2Bviagra%2Bb.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5624484861146467970" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-S3qXAATlv9E/Tg4vLnEyjoI/AAAAAAAAAkk/KyZGfLB6s6o/s400/turkish%2Bviagra%2Bb.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Anthony Bourdain, meu cozinheiro pop preferido, observa em seus livros que muitas culturas, principalmente em países pobres, orgulham-se de possuir comidas ou bebidas que aguçam o apetite sexual. Essas iguarias afrodisíacas costumam ser oferecidas por vendedores morenos, bigodudos ou asiáticos para turistas ricos, que exploram locais cada vez mais “exóticos” conforme os destinos turísticos tradicionais vão se esgotando cada vez mais rapidamente. Agindo assim, esses vendedores acrescentam mais cor ao país distante, e aquelas velhinhas americanas ou inglesas, protestantes e semi-castas, podem rir das ofertas feitas por vendedores nativos, enquanto se abanam desesperadamente sob o calor – ficando cada vez mais vermelhas – e pensam como seria bom se seus maridos desinteressados e desinteressantes cedessem por pelo menos uma noite às tentadoras ofertas dos trópicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mercados de Istambul, outrora freqüentados por genoveses ricos e venezianos gananciosos, local de um comércio sofisticado de seda e porcelana, além de caras especiarias, hoje em dia oferecem “Turkish viagra”, assim mesmo, em inglês, sob a forma de tâmaras secas com recheio de nozes. Pelos mercados do mundo, anunciam-se as propriedades miraculosas do ginseng, guaraná e catuaba, bem como do açafrão, canela, cardamomo, endro, gengibre, alho e até aspargo. Para os carnívoros, sempre existe a possibilidade de ganhar vigor ingerindo testículos de boi, ovos de codorna, sopas de tartaruga e cobras preparadas de várias maneiras. Parece mesmo que em algumas regiões da África os rabos de leão são bem apreciados. Mas há ainda os frutos do mar, lembrança tardia dos testículos de Urano jogados no oceano, e cuja espuma em ondas fez nascer Afrodite: mexilhões, ostras, vieiras e o próprio caviar disputam a primazia do afrodisíaco marinho por excelência. Isso para não falar das frutas, abacate, romã, figo, cereja e morango. Um pouco mais elaborados, encontramos amendoim torrado, paçoca, mel, chantilly e chocolate. E as bebidas, como gemada, vinho, tequila, licores, absyntho, bloody mary e dry martini.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro, há os estimulantes químicos e a caixa de entrada de meu email, com seu precário filtro de SPAM, me transformou em um profundo conhecedor das nuances desse mercado. Diariamente me oferecem viagra, cialis, levitra e até o exótico PPG, o “viagra cubano”. Raro é o dia que não recebo várias dessas propagandas que, curiosamente, vêm sempre identificadas da mesma forma, tendo como assunto “Aumente seu p* !”. Curiosamente também recebo várias mensagens intituladas “Aumente seus lucros !”, o que me faz pensar no caráter fálico da economia capitalista, com seus gráficos reluzentes e arranha-céus majestosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens, escravos do olhar, deixam-se levar pelas imagens, e esse é todo o segredo do império de Hugh Heffner. Não há nada mais afrodisíaco do que contemplar corpos femininos desnudos, seios, pernas, nádegas. E pescoço, costas, ombros, alem, claro, dos genitais. Ou mesmo a sutil ocultação dessas partes: decotes, mini-saias, biquínis. Alguns se fixam em locais pouco comuns, como pés ou mãos, e já conheci ao menos uma pessoa que tinha uma estranha fixação por axilas. Mas os olhos podem ter efeitos afrodisíacos, bem como o cheiro que exala da pele, para alguns o perfume e para outros o próprio suor. Levando as fantasias adiante, há pessoas que se ligam em visuais de bombeiro, enfermeira, operário, empregadinha chique, batman, sei lá mais o que pode inventar uma mente humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulheres, essas criaturas românticas, encontram o estímulo afrodisíaco em &lt;em&gt;situações&lt;/em&gt;, como a luz de velas, dançar junto uma música romântica, o simples ato de dar as mãos em um momento especial. Uma massagem delicada. Ou mesmo uma mera caminhada noturna (talvez sob a chuva, talvez em Paris), uma manifestação pública de afeto, palavras sinceras cochichadas no ouvido. Foi de uma mulher que ouvi pela primeira vez um comentário sobre o “estranho efeito afrodisíaco que é provocado pela inteligência masculina”, e eu não sei até hoje se ela se referia a mim. Longe de um comentário machista, essa constatação demonstra a delicadeza da percepção feminina: enquanto homens gostam de “bundas”, mulheres admiram coisas como a inteligência. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas nada disso importa. A infinidade de afrodisíacos que existe acaba escondendo aquele que talvez seja o único real estimulante físico que conhecemos, e que acaba englobando todos os outros. Pois o único afrodisíaco verdadeiro que existe é nada menos que o próprio amor. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8755887957647118850?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8755887957647118850/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8755887957647118850&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8755887957647118850'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8755887957647118850'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/07/ainda-o-mundo.html' title='Ainda o encantamento...'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-S3qXAATlv9E/Tg4vLnEyjoI/AAAAAAAAAkk/KyZGfLB6s6o/s72-c/turkish%2Bviagra%2Bb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8162426004760787695</id><published>2011-06-23T15:49:00.013-03:00</published><updated>2011-06-24T15:16:21.352-03:00</updated><title type='text'>O encantamento do mundo</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-9EKi3DUfCPY/TgOMScjH1HI/AAAAAAAAAkc/cgdxZpNVIxc/s1600/estacionamento.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 267px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621491008417551474" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-9EKi3DUfCPY/TgOMScjH1HI/AAAAAAAAAkc/cgdxZpNVIxc/s400/estacionamento.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Havia uma propaganda em um desses canais de TV a cabo da vida – talvez o &lt;em&gt;History&lt;/em&gt; – , que mostrava uma moça passeando por uma praia deserta. Lentamente, a imagem da moça ia sumindo e em seu lugar aparecia na mesma praia uma cena de batalha monstruosa, com fuzileiros navais desembarcando sob fogo e morrendo aos montes na areia. Porém essa imagem logo desaparecia e voltava a moça caminhando, ouvindo-se agora o grito solitário de uma gaivota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chama-me atenção essa capacidade de encantamento do mundo, ou seja, de dotar as coisas (objetos, gestos, lugares, seja o que for) de propriedades que elas aparentemente não possuem. A &lt;em&gt;memória &lt;/em&gt;do passado tem a capacidade de criar encantamento e, na propaganda que descrevi, a simples passagem do tempo se encarregou de transformar a simples praia de um local de veraneio em um lugar cheio de significado. Na historiografia francesa isso é chamado de &lt;em&gt;lieu de mémoire&lt;/em&gt;, lugar da memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além do tempo (portanto, além da memória e da história), a &lt;em&gt;linguagem&lt;/em&gt; também tem essa capacidade de promover o encantamento, seja através da poesia e literatura, seja através do discurso. Por exemplo, a humilde rua dos Douradores é uma rua como as outras no bairro da Baixa em Lisboa – uma rua até desinteressante se comparada com as outras próximas – , mas foi ali que viveu Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, autor do &lt;em&gt;Livro do Desassossego.&lt;/em&gt; No começo do ano, procurando os Correios em Lisboa, perguntei para nossa guia, a doce Idália, onde ficava a agência mais próxima do glorioso Hotel Mundial onde estávamos. “Tem uma logo aqui na rua dos Douradores", ela disse. E perguntou: "Você conhece ?”. Respondi: “Bem mais do que você imagina”, lembrando que minha alma costuma vagar por essa rua mesmo quando estou do lado de cá do Atlântico. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Orhan Pamuk, no seu último romance, &lt;em&gt;Museu da Inocência&lt;/em&gt;, constrói uma densa narrativa a partir de objetos (e lugares) recolhidos mais ou menos ao acaso. Não contente em tecer um romance a partir dos objetos, Pamuk efetivamente transformou-os no acervo de um Museu, organizado por ele em Istambul com essa finalidade. O ingresso se dá através da apresentação de um bilhete que vem impresso no livro; na edição brasileira, à página 550.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, o &lt;em&gt;tempo compartilhado&lt;/em&gt; também tem essa capacidade de criar encantamento. É quando do convívio de um homem e uma mulher cria-se memória, através da associação de objetos a momentos vividos, ao tempo passado em conjunto. O local onde foi trocado um olhar mais significativo ou onde foi dado um beijo mais apaixonado ou simplesmente onde simples mãos dadas expressaram emoções mais fortes, todos esses locais ganham significado e permanecem impressos na memória de forma encantada. Assim, um mísero, sei lá, estacionamento, pode se transformar em um local que jamais voltará a ser visitado sem provocar o assalto da memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um homem e uma mulher conseguem produzir encantamento, juntos eles criam mundos. Trata-se de mundos que só têm significado para eles, e que andam entrelaçados com o mundo real, transformando lugares (e objetos e gestos) bobos do cotidiano em lugares enfeitiçados. Mas talvez seja essa a única forma possível de dar realidade a esses lugares frios e funcionais: pode existir algo mais irreal do que um estacionamento vazio com suas paredes de concreto ? A única realidade possível do mundo talvez seja o encantamento. O encantamento dá sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o acaso junta duas pessoas e elas descobrem seu poder de criar mundos e em seguida elas passam a habitar esses mundos enfeitiçados, não conhecendo outro lugar melhor para habitar, então não há dúvida: impossível explicar esse encontro senão pelo seu nome mais grandioso. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8162426004760787695?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8162426004760787695/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8162426004760787695&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8162426004760787695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8162426004760787695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/06/o-encantamento-do-mundo.html' title='O encantamento do mundo'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-9EKi3DUfCPY/TgOMScjH1HI/AAAAAAAAAkc/cgdxZpNVIxc/s72-c/estacionamento.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-6661786556994604420</id><published>2011-05-29T20:08:00.003-03:00</published><updated>2011-05-29T20:17:59.825-03:00</updated><title type='text'>A balada de Helmwig</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-aUuzEBNTvPo/TeLT0g9KRPI/AAAAAAAAAkA/sC3RDsh5QrM/s1600/aaa%2Bhelmwig.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 267px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/-aUuzEBNTvPo/TeLT0g9KRPI/AAAAAAAAAkA/sC3RDsh5QrM/s400/aaa%2Bhelmwig.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5612280984810177778" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;(no intuito de entreter os alegres leitores do blog, inauguro hoje um Folhetim, cuja continuidade é bastante duvidosa. Apesar da pesquisa histórica rigorosa, os fatos aqui narrados e os personagens citados são todos fictícios. Ou não, porque essas coisas, no fundo, a gente nunca sabe.) (trilha sonora: &lt;a href="http://bit.ly/jdZH1m"&gt;http://bit.ly/jdZH1m&lt;/a&gt; )&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;i&gt;O grande Simonbert&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Nossa história começa na época das grandes migrações, quando Simonbert atravessou o Reno e vagou por alguns anos pelos territórios do antigo Império. Seus olhos viram coisas que jamais iria esquecer: cidades em ruínas, povos em fuga, a fome fazendo seus estragos. Mães degolaram os filhos, e com seus corpos saciaram a fome. Diante de tanto sofrimento, o jovem Simonbert chorava, mas seu coração endurecia. Entrou em contato com a doutrina do homem na cruz e mesmo sem se converter passou a crer na sua mensagem de paz, sem no entanto descuidar da prática da guerra.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; S&lt;/o:p&gt;imonbert tornou-se um grande guerreiro, mais por necessidade do que pelo gosto. Em pouco tempo, sua habilidade com as armas ficou conhecida, manejando com igual competência a espada e a maça, o martelo e a lança. Alguns guerreiros, provenientes de outros povos, passaram a segui-lo e certa ocasião, após sangrenta batalha, os bravos de Simonbert tomaram o castelo de Thamandor, que se tornou sua residência permanente. Das terras vizinhas vieram os camponeses, humildes, trazendo presentes e explicando os costumes da terra.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Thamandor prosperou. Seus guerreiros eram os mais habilidosos da região, fazendo incursões à cavalo pela Raetia e Panônia , navegando até a Mércia e Anglia. Partiam para fazer a guerra na primavera, retornando no outono com suas listas de territórios atravessados e castelos saqueados. Após a leitura das listas, realizava-se a maior festa do ano, com o sacrifício de bois e ovelhas, além de iguarias trazidas de longe e jarras de hidromel à vontade. Simonbert, ele mesmo participante de várias incursões, contava com o apoio e fidelidade de seus homens, e freqüentava alegremente as assembléias de guerreiros, tanto em torno da grande mesa do salão de Thamandor quanto em volta das altas fogueiras nos acampamentos de guerra.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;E Simonbert acabou tornado-se rei, muitas vezes concedendo feudos a seus guerreiros. Mesmo assim, estes ainda frequentavam as assembléias, onde conversavam sobre seus feitos, trocavam suas experiências e prestavam homenagem ao maior de todos eles, Simonbert.&lt;span style="mso-spacerun:yes"&gt;  &lt;/span&gt;Um dia, o rei passou a medir a habilidade de seus guerreiros através das orelhas cortadas de cavaleiros inimigos abatidos. Duas vezes por ano, Simonbert recebia gordos sacos de estopa cheios de orelhas, com os guerreiros recebendo os prêmios ofertados pelo rei para quem atingisse as maiores marcas. Foi quando Zydguell, que soltava fumaça pelas ventas, trouxe pela primeira vez um saco com 93 orelhas. Anos depois, Usbengar, que era bravo como os lobos, atingiu a marca de 95 orelhas. Finalmente, o bardo Marcylbert, que andava com o alforje sobre os ombros, começou a trazer 98 orelhas em cada saco.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;i&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;O pequeno Helmwig&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Pobre Simonbert, que jamais teve um herdeiro à sua altura. Seu filho, o pequeno e taciturno Helmwig, bem que tentou. Após alguns anos de treinamento formal, que incluíram uma viagem aos locais sagrados do Oriente, Helmwig passou a freqüentar as reuniões de guerreiros, sob os olhares suspeitos de Simonbert que não confiava na forma como o filho manejava a espada. Certo dia, após uma reunião &lt;st1:personname productid="em que Helmwig" st="on"&gt;em que Helmwig&lt;/st1:personname&gt; se gabava de sua habilidade e das mudanças que faria quando assumisse o lugar do pai – de acordo com o costume do reino –, Simonbert perdeu a paciência. Chamou sua atenção na frente dos guerreiros e disse:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;– Você não está preparado para sentar-se à essa mesa. Venha, dê-me essa espada, farei melhor em guardá-la para você.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Cabisbaixo diante de tal humilhação, o pequeno Helmwig não teve coragem sequer de encarar os guerreiros que, com honra, não expressaram sua satisfação íntima de vê-lo derrotado e preferiram ocultar qualquer sorriso de escárnio diante daquele que, um dia, por bem ou por mal, ainda viria a ser seu rei. Para completar a humilhação, Simonbert ainda acrescentou:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;– Vá. Vá ter com as mulheres, talvez elas lhe ensinem algo antes que você possa ter o respeito de todos.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Durante longos invernos, Helmwig vagou desapercebido pelos salões e terraços de Thamandor. Esteve com as mulheres, que o acolheram com simpatia. Elegeu como preferidas Angelred, que fazia contas como ninguém; Elanfled, que chefiava todas as outras e Hosarwid, que veio das altas montanhas e acreditava no deus como outrora acreditara no demônio. Nesse tempo todo, o pequeno Helmwig – sempre acompanhado de Milwin, o eunuco – ouvia o ruído infinito das conversas femininas e presenciava suas intrigas, participando delas como juiz supremo. Lentamente e sem saber, Helmwig passou a ter o gosto da conversa, porém sempre diante das mulheres e calando-se ou desaparecendo silenciosamente quando da aproximação de um guerreiro, praticando diante deles o silêncio hesitante e se escondendo, desconfiado, por trás da falta de ação&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;i&gt;O reinado de Helmwig&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; A&lt;/o:p&gt; morte de Simonbert foi chorada por todos, mulheres e homens, tanto guerreiros como camponeses e clérigos. Para evitar uma luta interna, respeitou-se o costume da terra, e Helmwig tornou-se rei. De imediato, construiu uma sala do trono em Thamandor, alguns andares acima do salão onde se reuniam os guerreiros e próximo dos aposentos das mulheres que tanto lhe inspiravam confiança. Mandou dizer aos guerreiros que continuassem com suas campanhas de verão, que mantivessem o ritual das listas e que as orelhas decepadas continuariam sendo premiadas. Mas ele, Helmwig, jamais desceu à assembléia ou confraternizou com os guerreiros, para quem sequer conseguia olhar. Diziam até que ele se aconselhava com as mulheres. Pois em cada guerreiro Helmwig via uma sombra de seu pai e de sua humilhação na juventude. Em cada audiência ou conversa fortuita com um guerreiro, Helmwig mostrava sua insegurança.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Com o tempo, aprendeu a falar com os guerreiros, descobriu que o simples uso da coroa poderia provocar respeito. Por medo de ser humilhado e para não ter que ouvir a voz dos guerreiros, Helmwig passou a tecer uma fala ininterrupta. Entrevistas de quinze minutos acabavam sem que o guerreiro solicitante pudesse balbuciar uma ou duas palavras.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Ao mesmo tempo, Helmwig começou a mandar habilidosas embaixadas para territórios distantes, oferecendo proteção aos povos de longe. Vários senhores em vastos territórios, mesmo os mais afastados, todos conhecedores da força bélica dos guerreiros de Thamandor e temerosos de uma conquista, submeteram-se em vassalagem, configurando os Novos Territórios do reino. E aquilo que era um reino acabou se tornando quase um império.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Vinte anos após a passagem do cometa, iniciaram-se as incursões dos saxões, que passaram o ocupar os velhos guerreiros bem como uma nova e habilidosa geração de combatentes que já surgia à sombra da antiga. Enquanto os saxões eram derrotados, e pilhas cada vez maiores de orelhas eram coletadas, Helmwig desviava seu olhar para os Novos Territórios vassalos e suas riquezas aparentemente fabulosas. Foi quando teve a idéia de reforçar o império que se formava enviando os velhos guerreiros para instruir jovens cavaleiros em todos os Novos Territórios vassalos. Convocou uma reunião e, com empáfia, desceu para falar com os guerreiros reunidos &lt;st1:personname productid="em assembl￩ia. Tomou" st="on"&gt;em assembléia. Tomou&lt;/st1:personname&gt; a palavra, como de hábito sem aceitar interrupções, e falou da importância de reforçar os Novos Territórios para mantê-los, pois a disputa com outros reinos era intensa. Sugeriu que alguns dos velhos guerreiros passassem temporadas nos Novos Territórios, com a finalidade de adestrar os mais jovens.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;– É do interesse de todos, é até um pedido que os guerreiros dos Novos Territórios nos fazem. Eles querem ser instruídos, saber como manejamos as armas e como nos preparamos para a guerra.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Em seguida, Helmwig começou a indicar as atribuições de cada guerreiro. Foi quando Grimann, que volta e meia trazia 100 orelhas de suas incursões, ergueu-se e ousou interromper a fala do rei:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;– Posso estar enganado, mas não convém nos afastarmos do litoral quando a cada ano os saxões batem à porta. Se eu partir para Linz, no Danúbio, para onde me pretende enviar, e receber a notícia de que os saxões mais uma vez desembarcaram, terei que voltar às pressas. Chegarei exausto, assim como meu cavalo, e terei dificuldade para executar a atividade de guerreiro que sempre tão bem desempenhei.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;Nesse momento, Helmwig se transformou. Vendo-se contestado e sentindo-se ameaçado, Helmwig sentiu a sombra do pai passando mais uma vez pela sua frente. Transtornado, gritou, feito uma criança:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;– Sabe o que eu penso de você, na verdade, Grimann ? Que você tem medo ! Que você tem medo de encarar os guerreiros de Linz. Você tem medo que eles saibam que você não é tão melhor que eles assim... medo ! Medo !! MEDO !!!&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;E assim termina a triste história do pequeno Helmwig.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-6661786556994604420?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/6661786556994604420/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=6661786556994604420&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6661786556994604420'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6661786556994604420'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/05/balada-de-helmwig.html' title='A balada de Helmwig'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-aUuzEBNTvPo/TeLT0g9KRPI/AAAAAAAAAkA/sC3RDsh5QrM/s72-c/aaa%2Bhelmwig.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-3706035679089381228</id><published>2011-05-15T08:33:00.010-03:00</published><updated>2011-07-03T00:19:40.986-03:00</updated><title type='text'>Oh, shyn Higienópolis !</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-gSu4KUfZTzo/Tc-7VuybjTI/AAAAAAAAAjg/UuBCFdJ31Yk/s1600/vilaboim.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 266px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5606906043110755634" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-gSu4KUfZTzo/Tc-7VuybjTI/AAAAAAAAAjg/UuBCFdJ31Yk/s400/vilaboim.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; Se me perguntassem quais os maiores problemas da cidade onde moro, não hesitaria em responder: violência e pobreza, feiúra e um trânsito impossível. Deixo a violência e a pobreza para outra ocasião: são dois problemas imensos cuja solução está além da esfera de atuação da administração municipal e, portanto, menos sujeitos a atuação cotidiana dos cidadãos, bem diferente da feiúra e do trânsito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Décadas de escolhas erradas fazem do trânsito de São Paulo ser o inferno que é. O postulado do urbanismo – já provado desde as reformas de Robert Moses em Nova York na década de 1960 – segundo o qual avenidas “criam” o seu próprio trânsito, tem sido ignorado desde há muito. O furor pavimentador bem como a idéia de que o prefeito deve deixar grandes obras para a população (de preferência concluídas durante o mandato de quatro anos) faz com que realizações de longo prazo, como o metrô, sejam solenemente ignoradas, incluindo aí o descaso do governo estadual. (Sempre lembrando a bela oportunidade de “fazer caixa” que uma grande obra viária proporciona em apenas quatro anos) Ao mesmo tempo, o desprezo com a estética faz com que a cidade seja uma das últimas do mundo que ainda tem fiação elétrica aérea, tornando a paisagem uma verdadeira plantação de postes de concreto irremediavelmente desalinhados e carregados de uma fiação pesada, suja e a cada vez mais densa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por trás desses descalabros, a mentalidade paulistana que valoriza o privado em detrimento do público. Se eu consigo ter ( = pagar por) um espaço privado satisfatório, para que me preocupar com o público ? Se eu tenho um belo automóvel – que me permite passar como um raio pelas ruas feias e cheias de gente, de preferência por um túnel – para que me preocupar com transporte coletivo ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade é um lixo, é só vai começar a deixar de ser com uma mudança de comportamento. Falo da necessidade de volta às ruas, de valorizá-las como local de encontro e não só de passagem. Por que Paris é legal e São Paulo não é legal (excetuando-se os lugares privados, claro) ? Porque &lt;em&gt;as ruas&lt;/em&gt; de Paris são legais, andar pelos bairros - qualquer bairro - é legal. Oras, o espaço público deve ser convidativo e não agressivo, e um ponto de partida é lutar pela sua estética: calçadas regulares, fiação elétrica subterrânea, mais verde. Por que não aproveitar a queda na criminalidade (peraí, alguém acredita nos números oficias ? Bem, são os que temos) e promover o retorno às ruas ? Sair dos carros e ocupar as calçadas. Disso tudo faz parte valorizar o metrô. É a nossa única saída. “Ah, mas o metrô é cheio”; lógico, as linhas são poucas. “Ah, mas metrô é solução para longo prazo”; ok, faz vinte anos que acompanho o debate público e ouço esse argumento, já está mais do que na hora de fazer algo a respeito, não ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Essa semana, alguns moradores de Higienópolis rejeitaram uma estação do metrô planejada usando como o argumento o fato de que traria muita gente e muita movimentação para o bairro, isso para não falar da possibilidade de instalação de comércio de rua, de camelôs, diante do local da futura estação. Amigo meu, morador do bairro, disse com convicção: “Queria ver se fosse você, que tivesse que conviver com um camelódromo na porta de casa”. Péssimo argumento, porque eu adoraria ter uma estação na porta de casa. Um estação do metrô não é sinônimo de camelódromo. Ter na porta de casa duas ou três barracas precárias é um preço mínimo a se pagar por mais metrô na cidade. Dizer “não” ao metrô, sob que circunstância for, significa contribuir para que a cidade continue um lixo. A forma como os bravos moradores bravos de Higienópolis reagiram denunciou sua excepcional opção pela afirmação do interesse privado diante do público, justamente em assunto vital para a cidade.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-3706035679089381228?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/3706035679089381228/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=3706035679089381228&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3706035679089381228'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3706035679089381228'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/05/oh-shyne-higienopolis.html' title='Oh, shyn Higienópolis !'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-gSu4KUfZTzo/Tc-7VuybjTI/AAAAAAAAAjg/UuBCFdJ31Yk/s72-c/vilaboim.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8454215462618237835</id><published>2011-05-04T07:57:00.017-03:00</published><updated>2011-05-04T19:47:36.221-03:00</updated><title type='text'>Tentando entender (e me divertindo enquanto isso)</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-QAXaS7TOyLo/TcEytMlTSGI/AAAAAAAAAjA/V5icxMwvay8/s1600/flags.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 375px; DISPLAY: block; HEIGHT: 386px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5602815163478788194" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-QAXaS7TOyLo/TcEytMlTSGI/AAAAAAAAAjA/V5icxMwvay8/s400/flags.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sem dúvida, o mundo da Guerra Fria era bem mais fácil de entender. Na época existiam dois blocos, duas ideologias, duas visões de mundo, e se você escolhia uma, a outra tornava-se inimiga. A ética subordinava-se a escolhas que eram bem mais do que simplesmente ideológicas: ser de esquerda implicava em abraçar a causa da Humanidade, que tudo justificava, ser de direita significava combater a possibilidade do totalitarismo, que tudo massacrava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos antes da Guerra Fria, o presidente norte-americano Franklyn Roosevelt teria dito uma frase que exprime bem o universo de valores que logo se tornaria predominante. Falando sobre o ditador anti-comunista da Nicarágua, Anastasio Somoza, que ainda sobreviveria no poder por longos anos, Roosevelt disse: “&lt;em&gt;Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch&lt;/em&gt;”. Na importa o que você faça, o importante é jogar no time certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Brasil, a situação era mais clara ainda. Havia a ditadura, e tudo se justificava diante do primado de combatê-la. Ou então, em um registro um pouco mais sinistro: haviam os “terroristas” de esquerda, e tudo se justificava para enfrentá-los. Tal postura refletia-se no cotidiano. Meu amigo mente... tudo bem, ele é de esquerda. Meu colega rouba... tudo bem, ele é anti-comunista. Após o final da luta armada, lá por volta de 1975, os radicalismos se abrandaram, mas a ética permaneceu dissolvida: não importavam os atos que se cometiam, mas a bandeira que se desfraldava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino que em certos casos viver ou crescer nesse mundo acabou gerando um, digamos, &lt;em&gt;deficit ético&lt;/em&gt;. Pior ainda se levarmos em consideração que a geração que foi jovem nos anos 1970 teve em seguida que encarar as assim chamadas décadas perdidas de 1980 e 1990, talvez o pior momento da história econômica do Brasil em todos os tempos. As oportunidades de trabalho minguavam, as remunerações eram irrisórias e, durante muito tempo, a inflação devastadora. O clima generalizado de “salve-se quem puder” era deprimente. Diante da dura luta pela sobrevivência, os valores foram mais uma vez chacoalhados: tenho filhos para alimentar, pais idosos para cuidar... vou lá me preocupar com detalhes ? Abre logo o caixa dois. Fraude no imposto de renda. Caixinha. Esquemas. Foi a instauração generalizada dos fins justificando todos os meios. Agora, não era mais o caso de salvar a Humanidade ou enfrentar a barbárie: tratava-se de continuar vivo. Talvez o maior símbolo da época tenha sido o Plano Collor: em nome do combate à inflação, vale tudo, portanto que se confisquem as contas bancárias !&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei tarde para luta contra a ditadura. Quando comecei a pensar no mundo para além do quintal de casa, o AI-5 já havia sido revogado. Meu “combate” se limitou a uma participação rápida no comício das Diretas-Já na Praça da Sé. O do Anhangabaú ? “Ah, vai estar muito cheio...”. (Mais tarde, teria fôlego para vaiar o candidato Collor em praça pública e, pela primeira vez, levar um spray de gás lacrimogêneo na cara). Porém, tive que encarar as décadas perdidas. Comecei a trabalhar no final dos anos 1980 e jamais esquecerei que com todo o meu impressionante primeiro salário, comprei um livro. Repito, &lt;em&gt;um &lt;/em&gt;livro (o &lt;em&gt;Drácula&lt;/em&gt;, de Bram Stoker).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época, diante de tais circunstâncias, deslizei na ética uma ou duas vezes (quem sabe três etc...). Porém, acredito que há pessoas que passaram por esses tempos sombrios e carregam um &lt;em&gt;deficit ético&lt;/em&gt; até hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia desses identifiquei um comportamento bem pouco virtuoso em um Dinossauro sobrevivente da Guerra Fria. Ao denunciar certo procedimento duvidoso, tive que ouvir uma reação furiosa que começou com: “Puxa Gian, isso é patrulha ideológica, você está pior que a ditadura !” A frase saiu assim, de chofre, transbordou do inconsciente como verdadeira revelação: diante de fraqueza ética, desfraldaram-se bandeiras ideológicas, na tentativa de delimitar campos políticos para desqualificar o interlocutor. Insisti na argumentação serena (ok, fui irônico pra cacete), e ouvi em seguida: “O que você quer, tomar meu dinheiro ?”. De repente, o meu comentário técnico (vá lá, em tom de denúncia), provocou o medo da perda de meios de sobrevivência. Percebi que aquela conversa estava começando a provocar uma reação catártica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para encerrar, lá pelas tantas o Dinossauro me disse mais uma frase reveladora: “Pega essa sua ética e enfia no c. !” Nesse momento, dei um drible no &lt;em&gt;esprit de l’escalier&lt;/em&gt; e respondi: “Bom, se eu enfiar a sua, não vai nem fazer cosquinha !”. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8454215462618237835?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8454215462618237835/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8454215462618237835&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8454215462618237835'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8454215462618237835'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/05/sem-duvida-o-mundo-da-guerra-fria-era.html' title='Tentando entender (e me divertindo enquanto isso)'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-QAXaS7TOyLo/TcEytMlTSGI/AAAAAAAAAjA/V5icxMwvay8/s72-c/flags.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-5149222794778551932</id><published>2011-04-24T09:27:00.011-03:00</published><updated>2011-04-24T20:51:22.797-03:00</updated><title type='text'>Notas sobre a multidão</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-nj5dqfSmecs/TbQYH0nkGHI/AAAAAAAAAiw/tzk9Xo25_6c/s1600/aaa%2Bcosmo%2B002.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5599126759391107186" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-nj5dqfSmecs/TbQYH0nkGHI/AAAAAAAAAiw/tzk9Xo25_6c/s400/aaa%2Bcosmo%2B002.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Ce grand malheur, de ne pouvoir être Seul&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Em 1840, o escritor norte-americano Edgar Alan Poe escreveu o pequeno conto “O homem da multidão” (&lt;em&gt;The man of the crowd&lt;/em&gt;). Trata-se da breve narrativa de um personagem (o narrador) que, de dentro de um café ou bar, contempla a passagem das pessoas na rua até que avista um certo indivíduo na multidão, “um velho decrépito de sessenta e cinco a setenta anos de idade”, com a expressão marcada por uma “absoluta idiossincrasia”. Obcecado com a visão, o narrador passa a segui-lo pelas ruas de Londres, tarefa que se estende por horas a fio e termina somente ao amanhecer, com o velho prosseguindo na sua caminhada aparentemente interminável e o narrador concluindo: “Esse velho (...) é o tipo e o gênio do crime profundo. Recusa-se a estar só. É o homem da multidão. Será escusado segui-lo: nada mais saberei a seu respeito ou a respeito de seus atos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O interesse histórico despertado na narrativa está no fato de que o principal “personagem” colocado em cena pelo autor, e objeto acurado de descrição nas primeiras páginas do conto, é nada menos do que a &lt;em&gt;multidão&lt;/em&gt;. Trata-se de uma novidade, trazida à cena pelos avanços da Revolução Industrial ao longo do século XIX e pela acelerada urbanização daí decorrente. O fenômeno chamou atenção dos contemporâneos, que passaram a ver na multidão ao mesmo tempo um objeto de admiração e medo, e a descrevê-la alternadamente como massa amorfa e soma de infinitos detalhes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O advento da multidão e, sobretudo, fazer parte da multidão, acabou implicando no desenvolvimento de certas habilidades. O morador da grande cidade deve aprender novas operações do &lt;em&gt;olhar&lt;/em&gt;, que possibilitem a sua sociabilidade e possam servir até como garantia de sobrevivência. “Viver numa grande cidade implica o reconhecimento de múltiplos sinais. Trata-se de uma operação do olhar, de uma identificação visual, de um saber adquirido, portanto. Se o olhar do transeunte que fixa fortuitamente uma mulher bonita e viúva ou um grupo de moças voltando do trabalho, pressupõe um conhecimento da cor do luto e das vestimentas operárias, também o olhar do assaltante ou do policial, buscando ambos a sua presa, implica um conhecimento específico da cidade” (M.S.Bresciani – &lt;em&gt;Londres e Paris no século XIX&lt;/em&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O narrador de Poe, observador da multidão de dentro do café, demonstra possuir um olhar bastante arguto que utiliza para caracterizar minuciosamente os personagens da multidão, como mostram bem as primeiras páginas do conto. Devemos acreditar nele quando vê algo “diabólico” no velho e passa a segui-lo: nesse momento, o narrador deixa de ser um observador da multidão e passa a fazer parte dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que significa estar na multidão, ou ser parte da multidão ? Multidão é anonimato, refúgio: estar na multidão e não sair dela por si só já implica em possibilidade de crime cometido. Ou, como observou Walter Benjamin, a multidão atrai quem não se sente seguro na sua própria sociedade. Além disso, a leitura arguta de Benjamin chama atenção para o seguinte trecho no conto de Poe, que fala do fluxo das pessoas na rua: “pareciam apenas pensar em abrir caminho através da multidão...se recebiam um encontrão de outros transeuntes não se mostravam irritados, ajeitavam a roupa e seguiam em frente... se tivessem que parar, paravam de murmurar... se eram empurrados, cumprimentavam as pessoas que as tinham empurrado e pareciam muito embaraçadas”. No trecho, Benjamin identifica no comportamento da multidão uma mimese do trabalho na fábrica: age-se por reflexo, impensadamente. Estar na multidão traz alguma alienação, implica na familiaridade com o próprio processo de produção, cada vez mais automatizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ruas da Londres de Poe são iluminadas por lampiões a gás cuja luz, mesmo quando mais intensa, é apenas “trêmula” e provoca “fanáticos efeitos” (“&lt;em&gt;wild effects of light&lt;/em&gt;”). A “neblina úmida e espessa” apenas contribui para dar à multidão um aspecto cada vez maior de &lt;em&gt;fantasmagoria&lt;/em&gt;. Ainda seguindo Benjamin, o conceito de fantasmagoria é fundamental para a própria compreensão da sociedade capitalista que ganhava corpo ao longo do século XIX: é a imagem de algo que está ausente, de uma projeção do pensamento sobre, por exemplo, um objeto. Na sociedade capitalista, essa imagem é considerada como o real: trata-se de considerar a ilusão como imagem mental que percebe o mundo. Já o indivíduo convertido em fantasmagoria é aquele cujo trabalho tornou-se mera abstração, não estando mais vinculado a uma habilidade específica ou tarefa a ser realizada, mas simplesmente unidade de força medida através do tempo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;................................&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;(O texto acima foi escrito como parte de uma atividade da cadeira de inglês do Anglo, com o nosso querido professor Pantoja. O conto de Poe, em inglês, pode ser lido na íntegra em: &lt;a href="http://bit.ly/f3MwCK"&gt;http://bit.ly/f3MwCK&lt;/a&gt; )&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-5149222794778551932?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/5149222794778551932/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=5149222794778551932&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5149222794778551932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5149222794778551932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/04/notas-sobre-multidao.html' title='Notas sobre a multidão'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-nj5dqfSmecs/TbQYH0nkGHI/AAAAAAAAAiw/tzk9Xo25_6c/s72-c/aaa%2Bcosmo%2B002.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2998317265707880640</id><published>2011-04-09T09:20:00.023-03:00</published><updated>2011-04-10T12:47:42.853-03:00</updated><title type='text'>Alô, alô, torcida do Flamengo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-SJnF8tiGfS4/TaBPi0Xb-1I/AAAAAAAAAiQ/6j8wBs1wlIs/s1600/beijam%25C3%25A3o.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 288px; DISPLAY: block; HEIGHT: 212px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5593558196785249106" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-SJnF8tiGfS4/TaBPi0Xb-1I/AAAAAAAAAiQ/6j8wBs1wlIs/s400/beijam%25C3%25A3o.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;1&lt;/em&gt; Me pergunto por que diabos no Brasil as tragédias atraem multidões. Quase sempre vestindo bermudão, chinelo e camiseta, pessoas podem ser vistas se acotovelando diante das câmeras de TV ou apenas paradas ao longe, contemplando a cena, mãos para trás e com os quadris inclinados, numa tentativa de descansar as pernas depois de tantas horas em pé. Se o episódio for no Rio de Janeiro, a camiseta invariavelmente será do Flamengo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acredito que o que leva essa gente para o palco das tragédias é o estranho e jamais confessado desejo de ver o sofrimento alheio, o que no fundo expressa uma forma de regozijo diante da própria sobrevivência. Acho até que é esse mesmo sentimento que leva as pessoas a darem uma desaceleradinha no carro e espichar a cabeça para fora da janela quando se passa ao lado de um acidente. Nessa hora, pouco importa piorar o trânsito que vai se formando em uma via já parcialmente interditada, o que interessa é ver sangue. Ou então, não é nada disso, apenas o desejo de se distrair do tédio.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O fenômeno está longe de ser novo. Lima Barreto, em &lt;em&gt;Triste fim de Policarpo Quaresma&lt;/em&gt;, dá uma viva descrição da Revolta da Armada de 1893 no Rio de Janeiro, episódio que ele presenciou:&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Os soldados já estavam nas trincheiras, armas à mão; o canhão tinha ao lado a munição necessária. Uma lancha avançava lentamente, com a proa alta assestada para o posto. De repente, saiu de sua borda um golfão de fumaça espessa: &lt;/em&gt;Queimou! &lt;em&gt;-- gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto, zunindo, cantando, inofensiva. A lancha continuava a avançar impávida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um destes que gritara:&lt;/em&gt; queimou! &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E assim sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa, às trincheiras, atrapalhando o serviço; em outras, um cidadão qualquer, chegava ao oficial e muito delicadamente pedia:&lt;/em&gt; O senhor dá licença que dê um tiro?&lt;em&gt; O oficial acedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;em&gt;2&lt;/em&gt; Na tragédia do Realengo, a imagem mais impressionante talvez tenha sido a de um desses observadores anônimos (devidamente vestido de bermuda &lt;em&gt;sem&lt;/em&gt; camiseta) beijando a mão do policial que deteve o Atirador. A mão direita, que efetuou o disparo. Nessa foto, a estúpida busca de heróis convive com o desejo de santificá-los, demonstrado por um ato de subserviência normalmente praticado em cerimônias religiosas (e mesmo nessas, o beija-mão sempre causa algum constrangimento). Parece que não era somente o Atirador que vivia em um estado de pobreza espiritual compensada por uma religiosidade mórbida: sua platéia também. &lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;3&lt;/em&gt; “Lavem meu corpo, me enrolem em branco, me enterrem ao lado de minha mãe”, diz o testamento do Atirador. E pronto, está tudo resolvido. Estranha essa relação com deuses que tudo perdoam. Até quando vamos continuar insistindo nessa bobagem de vida eterna e perdão para os “puros de alma” ? Penso que, no passado, quando o discurso da virtude era predominante e os vícios ocultados, qualquer pessoa que se achasse “anormal” (assassino, estuprador, pecador) remoía-se em uma culpa que, em casos extremos, talvez até contivesse seus piores impulsos. A isso dou o nome de &lt;em&gt;Medo do Inferno&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se outrora o “anormal” sentia-se doente diante da aparente virtude das demais pessoas, hoje, em plena liberdade dos costumes, ocorre uma inversão: é o “anormal” que passa a se achar virtuoso diante da sociedade corrompida. O mundo está errado, porém eu ainda entendo a palavra de deus. Daí o desejo de purificar as pessoas ou mesmo puni-las em nome de um deus que aceita e perdoa os poucos que ainda o seguem. A isso dou o nome de &lt;em&gt;Certeza do Paraíso&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2998317265707880640?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2998317265707880640/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2998317265707880640&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2998317265707880640'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2998317265707880640'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/04/alo-alo-torcida-do-flamengo.html' title='Alô, alô, torcida do Flamengo'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-SJnF8tiGfS4/TaBPi0Xb-1I/AAAAAAAAAiQ/6j8wBs1wlIs/s72-c/beijam%25C3%25A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-1826010056804469491</id><published>2011-03-30T15:47:00.011-03:00</published><updated>2011-04-10T09:14:05.163-03:00</updated><title type='text'>O Velho Escritor</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-6h7hbT62QYU/TZN8OBsO59I/AAAAAAAAAh4/3KOW78BqZ8Q/s1600/livr%2Bcultura.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 267px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5589948142910891986" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/-6h7hbT62QYU/TZN8OBsO59I/AAAAAAAAAh4/3KOW78BqZ8Q/s400/livr%2Bcultura.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Foi no meio da agitação de fim de tarde de uma grande livraria que eu vi o Velho Escritor. Ele estava afundado em uma daquelas poltronas que fazem as pessoas parecerem menores do que efetivamente são, diante de prateleiras de DVDs e jovens vendedores e compradores, todos eles muito apressados. Anônimo, discreto, cinza, com visível dificuldade de locomoção – percebida pela bengala apoiada a seu lado – e gestos muito lentos, o Velho Escritor contemplava as pessoas coloridas à sua volta. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A lembrança de muitas fotos que vi fez com que eu o identificasse, e imediatamente me chamou atenção o contraste entre a pessoa frágil, que parecia quase esquecida em um canto da Livraria, e a mente ágil, que eu conhecia através de seus escritos. Na verdade eu li apenas um livro de sua autoria, que considero uma pequena obra-prima, mas também o conheço pelo seu trabalho realizado ao traduzir grande parte dos livros de Kafka. Sua dedicação à obra de Kafka certamente é um indício de seus interesses e do seu pensamento e, na pequena obra prima que escreveu, a descrição de uma certa cidade do interior paulista muitas vezes alcança tons surreais dignos do autor tcheco. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Interlúdio Biblioteca-de-Babel: tenho orgulho de minha biblioteca particular e ciúmes dos livros que a compõem. Acredito possuir uns 4 ou 5 mil volumes, quase todos expostos em prateleiras projetadas por mim e adequadas não só aos seus tamanhos diversos, mas também à exibição meio arrogante de minha (vã) cultura. Divirto-me organizando as prateleiras, “promovendo” livros queridos aos lugares mais nobres e “rebaixando” livros dos quais já cansei a lugares mais remotos. Já faz alguns anos que a pequena obra-prima do Velho Escritor encontra-se em lugar nobre, na altura dos olhos, quase no centro da prateleira dos livros de ficção.] &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A idéia foi imediata, sequer pensei quando me dirigi ao andar inferior da Livraria e, buscando na letra C, lá encontrei um exemplar da sua pequena obra-prima. Imediatamente tomei o exemplar em mãos e fui ter com o Velho Escritor, ainda afundado na sua poltrona. Aproximei-me pedindo desculpas (quais pensamentos nobres eu estaria interrompendo ? Ok, talvez ele só estivesse pensando na sopa que tomaria no jantar) e disse que ficaria muito feliz se tivesse uma dedicatória em meu exemplar. “Que curioso”, disse o Velho Escritor, “eu estava justamente pensando em que fim levou este livro”. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Trocamos algumas palavras rapidamente, tive oportunidade de lembrar que conhecia a cidade do interior em que se desenrola a trama do livro. Acrescentei que, além de me provocar lembranças, o livro sempre me surpreendeu pela firmeza da narrativa e delicadeza da história. Logo nos despedimos – “Boa sorte”, disse ele – e seguimos cada um para um canto. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Seja como for, hoje posso ler a singela inscrição logo no início do segundo exemplar que agora possuo do &lt;em&gt;Resumo de Ana&lt;/em&gt;: &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;"Ao Gian, com o prazer e a surpresa, o melhor abraço do &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Modesto Carone &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;30 / março 2011"&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-1826010056804469491?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/1826010056804469491/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=1826010056804469491&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1826010056804469491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1826010056804469491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/03/o-velho-escritor.html' title='O Velho Escritor'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-6h7hbT62QYU/TZN8OBsO59I/AAAAAAAAAh4/3KOW78BqZ8Q/s72-c/livr%2Bcultura.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2685111995545131316</id><published>2011-03-16T19:22:00.010-03:00</published><updated>2011-03-16T21:37:19.386-03:00</updated><title type='text'>Sobre textos difíceis</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-vYi039TQbN0/TYE8TppcgDI/AAAAAAAAAhg/CmXaQSzWvIE/s1600/reading-3710.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; DISPLAY: block; HEIGHT: 225px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5584811321210994738" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/-vYi039TQbN0/TYE8TppcgDI/AAAAAAAAAhg/CmXaQSzWvIE/s400/reading-3710.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-BePU17PDuNU/TYE63kcEmOI/AAAAAAAAAhY/ZFX2VR9AZcM/s1600/C%25C3%25B3pia%2Bde%2Baaa%2Btired%2Ba.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Como lidar com textos considerados “difíceis” ? O que fazer diante de uma leitura hermética, que parece não conduzir a lugar nenhum ou que se perde em meandros labirínticos ? A questão é tanto mais premente quanto constato que um número expressivo de meus jovens leitores é, sobretudo, formado por universitários recém entrados na academia e, não raro, ferozes críticos da erudição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adoro a ferocidade de jovens universitários. Orgulhosos de seus feitos acadêmicos – que são basicamente limitados, nessa altura, a entrar em uma boa faculdade – acabam usando isso como fundamento “espiritual” e inconsciente para assumir posturas iconoclastas. Meus cabelos brancos e meu suposto pertencimento ao &lt;em&gt;stablishment&lt;/em&gt; (embora eu não saiba exatamente qual, além das fileiras humildes do proletariado) acabam por me transformar em alvo de certas investidas intelectuais. Já vi esse filme: cabe a mim desviar-me das pedras arremessadas e tentar levar adiante um debate que, se por um lado nunca dura muito tempo, por outro torna-se interessante justamente devido à fúria iconoclasta juvenil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois eis que, recentemente, em rápido colóquio pela internet (não menos alegre por causa disso), saí em defesa dos textos “difíceis”. Comecei usando a famosa citação de Theodor Adorno segundo a qual a complexidade da realidade faz com que os textos que a descrevem ou tentem entendê-la sejam também necessariamente complexos. Claro que é provocação, pois sabemos que linguagem e mundo são coisas bastante diferentes. (Mas até que ponto ? Longa história). Após uma saudável e inteligente troca de argumentos com meus interlocutores – cuja ferocidade logo deu lugar à serenidade – surgiu um consenso segundo o qual o emprego de uma linguagem “difícil” pode ser perdoado, desde que não seja feito inutilmente (ou seja, quando há alternativas “fáceis”) e nem seja simples exibição de erudição (o que resulta em mera arrogância).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os consensos me irritam, e a questão continuou me perseguindo mesmo depois do fim do colóquio. Mesmo porque poucos meses atrás, diante da obrigação de ler determinado livro de um “certo” Gilles Delleuze e da minha hesitação em iniciar a leitura do texto, comecei a reclamar longamente sobre a prolixidade e, sobretudo, sobre a aparente falta de sentido de sua escrita. A grande ironia é que eu estava diante de um livro de Delleuze justamente intitulado &lt;em&gt;Lógica do sentido&lt;/em&gt;. Fui obrigado a enfrentar e resolver certas questões referentes à minha opinião sobre textos difíceis antes de começar a ler o a tal &lt;em&gt;Lógica do sentido&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A forma como resolvi essas questões me fizeram encarar com mais coragem os “textos difíceis” e me levaram ao ponto de me tornar defensor deles, como por exemplo no recente colóquio citado. O emprego freqüente da palavra “ciência” pelos meus jovens interlocutores me chamou atenção para a forma como lidamos com os textos. Acredito que os que cobram a simplicidade da escrita buscam, acima de tudo, objetividade nos textos lidos. Se um autor pensa de uma determinada maneira, que ele diga claramente o que pensa e pronto. Parece racional, não ? Afinal, tantos autores na “história da ciência” foram simples e claros em suas proposições e argumentos... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Oras, me pergunto se não haveria uma outra ordem de textos (correspondente a um outro tipo de pensamento), que deva fazer da "dificuldade" sua própria matéria, partindo do pressuposto de que o pensamento não se esgota no texto. Tento ser mais claro: se eu tenho uma opinião e tento transmiti-la, é meu dever ser claro. Porém, se eu parto do princípio que minha opinião não é definitiva – por exemplo, devido à complexidade do tema abordado – tenho a possibilidade de multiplicar os planos possíveis de leitura do meu texto (ou seja, sua complexidade/dificuldade) para que o leitor possa ir além do que fui na investigação do problema proposto. Nesse sentido, um texto passa a se abrir para várias possibilidades de leitura, para muito além daquilo que o autor “quis dizer”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A analogia que faço é com a pintura. Todos podem ver e apreciar uma pintura figurativa. Há uma infinidade de discursos ou interpretações possíveis a partir da contemplação, por exemplo, de uma &lt;em&gt;Mona Lisa&lt;/em&gt;. Porém todos eles devem necessariamente partir do fato incontestável de que se trata de uma mulher parada, vestida de preto e contemplando os observadores com um sorriso discreto. Queiramos ou não, essa é a figura que se apresenta diante dos nosso olhos, e identificamos sua forma porque temos o referencial incontornável da realidade a partir do qual fazemos uma comparação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, como agir diante de uma tela abstrata ? O trabalho, mental ou interpretativo, solicitado é certamente maior do que no caso de uma tela figurativa. Muitas vezes, o artista sequer imagina o alcance daquilo que vai ser pensado ou sentido a partir da contemplação de sua obra. Uma tela abstrata, assim como textos “difíceis”, representa sobretudo uma abertura para o pensamento, um convite para um trabalho do pensamento que pode ser bastante árduo. da mesma forma, em um texto “difícil” trata-se da possibilidade de “ir além do conceito”, só para citar o velho Adorno ainda uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso também na poesia. O sentido de uma poesia não se esgota no significado das palavras empregadas. Ler uma descrição sobre o &lt;em&gt;rio que passa na minha aldei&lt;/em&gt;a pode ser entediante, mas também pode nos levar a verdadeiras sínteses metafísicas. Ou então, para continuar com as metáforas líricas, &lt;em&gt;pedras que surgem no meio do caminho&lt;/em&gt; devem ser vistas menos como simples objetos e mais como uma possibilidade de criação de sentido. Quando um texto nos leva a isso, ele certamente cumpriu sua função, tenhamos ou não entendido exatamente o que o autor quis dizer.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2685111995545131316?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2685111995545131316/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2685111995545131316&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2685111995545131316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2685111995545131316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/03/sobre-textos-dificeis.html' title='Sobre textos difíceis'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-vYi039TQbN0/TYE8TppcgDI/AAAAAAAAAhg/CmXaQSzWvIE/s72-c/reading-3710.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-7090693464773120446</id><published>2011-02-21T09:46:00.017-03:00</published><updated>2011-02-21T20:24:02.750-03:00</updated><title type='text'>Bostonians</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-SFXvLUoKoXA/TWJhSBdUjdI/AAAAAAAAAgw/jL0jb9XVQzw/s1600/Boston%2Bb.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 280px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5576126250895052242" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-SFXvLUoKoXA/TWJhSBdUjdI/AAAAAAAAAgw/jL0jb9XVQzw/s400/Boston%2Bb.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;17 de fevereiro, 13h35, Logan Airport, Boston.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boston é o berço da independência dos Estados Unidos, mas é também o berço de uma certa cultura WASP. Penso nisso assim que chego na cidade e vejo as figuras assustadoras de bostonianos loiros de olhos azuis e rostos duros saindo da classe executiva do vôo American Airlines 2062 Miami-Boston. Dessas figuras engravatadas emana poder, quase tanto quanto dos engravatados de Wall Street. Porém, em Boston, ao contrário de Nova York, não se trata do poder econômico mas do político. Boston lembra os Kennedys, lembra Obama e a Harvard Law School que, por sua vez, alimenta a Suprema Corte dos Estados Unidos. Mas não esqueçamos que Boston é também a cidade de Sacco e Vanzetti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17 de fevereiro, 14h30, M.I.T., Cambridge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego correndo para uma aula no glorioso Massachussetts Institute of Technology. O assunto é História da Física, o professor vai continuar abordando o desenvolvimento da teoria da relatividade como tem feito nas últimas aulas. Que esperar de uma aula em um dos institutos de tecnologia mais avançados do mundo ? Pois a aula foi basicamente giz, lousa e um professor inspirado. Sem nenhum recurso material mais sofisticado, o professor deu o seu recado com uma competência e serenidade profissional exemplares. Sem querer, me vejo aprendendo algo sobre os diagramas de Minkowski.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17 de fevereiro, 14h45, M.I.T., Cambridge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto aos alunos do M.I.T., ao invés de uma multidão de Sheldons e Leonards, encontro uma turma bem normalzinha, inclusive no seu desinteresse pela aula. À minha frente, alguns dos alunos que usam note-book checam email e facebook a cada 15 minutos. Ao meu lado, uma imbecil passou metade da aula se dedicando a um joguinho qualquer no seu iPhone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18 de fevereiro, 9h50, Haymarket, Boston&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nevou muito neste inverno, embora eu tenha sido agraciado com alguns dias bem amenos. Porém, a neve permanece acumulada nas ruas em volume espantoso. Não é raro caminhar pela calçada em uma pequena trilha, entre compridos montes de neve empilhada que chegam a um metro e meio de altura. Nos parques, impressionantes montanhas de neve são empilhadas para permitir a circulação de carros e pessoas nas redondezas. E a previsão do tempo anuncia mais nevascas para a próxima semana. Que fazer com tanta neve ? O prefeito sugere nada menos do que uma mega operação para jogá-la no mar. A imprensa, bem humorada, chama o projeto de &lt;em&gt;Boston Snow Party&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18 de fevereiro, 16h20, M.I.T., Cambridge&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há turistas que se dão ao trabalho de visitar o M.I.T., e verdadeiras excursões são organizadas com esse propósito. Alguns laboratórios chegam a afixar cartazes em suas janelas proibindo fotos. Mas os turistas são insaciáceis, e observo que a maior parte deles são chineses. Curiosamente, enquanto chineses fazem turismo em Universidades, os japoneses em geral se concentram nos Museus de arte. Já os brasileiros vão às compras. E assim está traçado o destino do século XXI: a tecnologia será chinesa, a estética japonesa e os trouxas seremos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18 de fevereiro, 19h25, Kendall Hotel, Cambridge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cambridge – cidade vizinha a Boston e sede do M.I.T. e Harvard – transpira vida universitária. Divido o simpático hotel onde me hospedo com pais em visita aos filhos universitários e jovens estudantes que vieram passar o fim de semana na cidade, para participar de uma Olimpíada de Matemática ou algo do gênero. No lobby do hotel, tomando um vinho da Califórnia, converso com um engenheiro espacial italiano que veio encontrar o filho. Passo toda a conversa segurando o riso e me contendo para não soltar uma ironia qualquer sobre o insuspeito Programa Espacial Italiano. Quais seriam suas metas ? Colocar um &lt;em&gt;rigatoni &lt;/em&gt;em órbita até o final da década ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18 de fevereiro, 21h15, Union Oyster House, Boston&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resumo de Boston: peixe, marisco, peixe, peixe, lagosta, marisco, peixe, ostras e peixe. E, para esquentar, um prato de &lt;em&gt;clam chowder&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19 de fevereiro, 11h25, Museum of Fine Arts, Boston&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um belo Museu de Artes em Boston, com uma simpática e abrangente coleção de arte ocidental e incluindo peças que vão do Egito antigo até a época contemporânea, e tudo isso sem descuidar das particularidades locais, com vasto espaço dedicado à arte norte-americana (incluindo &lt;em&gt;afro-american&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;native-american&lt;/em&gt;). Pode-se questionar a validade de um Museu tão enciclopédico, mas seu efeito didático é excepcional. A possibilidade de encontrar Picasso a poucos corredores de distância de máscaras africanas é francamente estimulante. Da sala dedicada ao "impressionismo em Boston” destaquei o quadro que abre o post, de um certo Frederick Childe Hassam, chamado &lt;em&gt;Boston Common at twilight&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19 de fevereiro, 16h10, North End, Boston&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em uma cidade tão WASP, há católicos por todos os lados, irlandeses, portugueses e, sobretudo, italianos. Estes se concentram em North End, bairro simpático pela sua arquitetura &lt;em&gt;red brick&lt;/em&gt; e pelo sotaque de seus habitantes: pelas ruas, todas as pessoas falam como se fossem membros da família Corleone. Além disso, North End cheira bem graças ao saboroso aroma que sai de suas muitas cantinas, doceiras, padarias e pizzarias. Entro na Mike’s Pastry, famosa pelos seus &lt;em&gt;cannoli&lt;/em&gt; e peço um simples. O atendente leva meu doce até o caixa, mas a moça do caixa se atrapalha tentando abrir um pacote de chicletes e me ignora por um instante. Não resisto. Finjo de bravo e digo a ela: &lt;em&gt;“Leave the gum, take the cannoli”.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;20 de fevereiro, 10h15, Miami International Airport, Miami&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há vôos diretos de Boston para São Paulo, devo fazer uma conexão. Chegando ao aeroporto de Miami, ouço por toda a parte pessoas falando em espanhol. Ufa, finalmente estou de volta aos Estados Unidos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;__________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Agradeço ao alegre casal Lucas e Clarissa pela calorosa acolhida em pleno inverno da Nova Inglaterra)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-7090693464773120446?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/7090693464773120446/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=7090693464773120446&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/7090693464773120446'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/7090693464773120446'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/02/bostonians.html' title='Bostonians'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-SFXvLUoKoXA/TWJhSBdUjdI/AAAAAAAAAgw/jL0jb9XVQzw/s72-c/Boston%2Bb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-1575507614174088634</id><published>2011-02-12T16:11:00.006-02:00</published><updated>2011-02-13T20:56:07.602-02:00</updated><title type='text'>Drops</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-0cKexBurq4E/TVbOoqxqSaI/AAAAAAAAAgg/Ac_PDoOQEXs/s1600/a%2Blimbo%2Bc.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 242px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5572868786990238114" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-0cKexBurq4E/TVbOoqxqSaI/AAAAAAAAAgg/Ac_PDoOQEXs/s400/a%2Blimbo%2Bc.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Nem lá nem cá&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Legalmente, minhas férias acabaram. Estou em um “período sem atividades, à disposição do Curso”, mas sei que nada acontece nesses dias. Um ano acabou e outro ainda não começou, para alguns ainda estamos em férias para outros não. Para muitos é época de matrículas em faculdade, mudança de cidade. Na TV, campeonatos estaduais de futebol; no cinema, filmes do ano passado. Quanto a mim, já voltei de uma viagem, mas ainda há outra por fazer. E o calor só aumenta a sensação de limbo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Memória&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“De que afinal somos feitos” – perguntou-se Ferreira Gullar –, “de matéria ou de memória ? Memória não é passado ? Tendo a pensar, fora da lógica aparente, que tudo é presente, todo o vivido, só que, em geral, estamos ocupados demais com o agora para nos darmos conta disso”. Portanto, resta-nos a memória, que nos constitui. E eu acrescento: em épocas de limbo, quando o “agora” fica suspenso, o que nos resta é jogar com a memória.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Borges&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Citando Homero, na Odisséia: “Os deuses provocam desventuras entre os homens para que as gerações futuras tenham o que cantar”. Claro que esse cantar invoca a poesia e, como os gregos bem sabiam, a memória. Borges conclui: “Fomos feitos para a arte, fomos feitos para a memória e a poesia; ou fomos feitos, quem sabe, para o esquecimento [&lt;em&gt;pois somos mortais&lt;/em&gt;]. Mas algo sobra; e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente distintas”. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-1575507614174088634?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/1575507614174088634/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=1575507614174088634&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1575507614174088634'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1575507614174088634'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/02/drops.html' title='Drops'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-0cKexBurq4E/TVbOoqxqSaI/AAAAAAAAAgg/Ac_PDoOQEXs/s72-c/a%2Blimbo%2Bc.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8332540296308609700</id><published>2011-02-04T08:19:00.006-02:00</published><updated>2011-02-04T22:30:24.725-02:00</updated><title type='text'>Fazer amor</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TUvU1YD78DI/AAAAAAAAAfk/G6DiR10fcyI/s1600/carnetremula.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 218px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5569779377630867506" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TUvU1YD78DI/AAAAAAAAAfk/G6DiR10fcyI/s400/carnetremula.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incomodam-me certos usos do verbo fazer. Agora, recém chegado de viagem, penso nas muitas conversas que tive com as multidões barulhentas de brasileiros que viajam para o exterior hoje em dia. Nessas conversas, as referências a viagens realizadas frequentemente eram acompanhadas do verbo &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt;. Dessa forma, conheci pessoas que esse ano &lt;em&gt;fizeram&lt;/em&gt; Inglaterra, Espanha e França, ou quando foram para a Itália &lt;em&gt;fizeram&lt;/em&gt; Roma, Florença e Veneza, e até um mais inspirado que pretende &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt; o litoral da Croácia no verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fúria realizadora não se limita aos destinos das viagens, mas a locais específicos. Assim, pode-se &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt; o Louvre e a Torre Eiffel em um dia, deixando para &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt; Versalhes e Champs Elisées no outro. O ponto culminante dessa orgia empreendedora está na história que ouvi em um alegre colóquio, em que foi citado um parente de não sei mais quem e que, ao visitar museus, ia passando pelos quadros sem parar, apontando rapidamente para cada um e dizendo: “Já vi... já vi... já vi...”. Acho que é essa a mentalidade que faz com que as pessoas tirem fotos ao lado de quadros famosos: fiz o Louvre, &lt;em&gt;já vi&lt;/em&gt; tudo e aqui está a prova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há também a possibilidade de usar esse verbo tão dinâmico para as compras. Assim, é sempre bom reservar um tempo da viagem para &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt; a Zara, &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt; a galeria Lafayette, &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt; o free-shop, e por aí afora. A meu ver, o uso excessivo do verbo &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt; reflete a instrumentalidade em que se converteu a experiência que está sendo descrita. Não importa o lugar visitado, mas o ato da visita. Não importa o quadro contemplado, mas o ato físico de percorrer o Museu. Não importa o objeto comprado, mas o fato de compras terem sido realizadas. Trata-se da própria essência do “empreendedorismo”, palavra tão em moda nesses tristes dias: a ênfase está no agir, não importa em relação a que. Fazer é um fim, e não um meio para usufruir das coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[interlúdio bem pouco pop: lembro de velhos filósofos alemães que chegaram a essa mesma conclusão, mas não a partir da análise de viagens ou visitas a museus ou compras, mas investigando as origens do totalitarismo, ou mesmo tentando entender o Holocausto. O deslocamento de ênfase para os fins acaba resultando em um desprezo em relação aos objetos que se encontram no caminho da realização, mas acontece que às vezes esses objetos são pessoas. Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa no &lt;em&gt;Livro do Desassossego&lt;/em&gt;, teve essa mesma intuição, e eu escrevi uma dissertação de mestrado falando disso.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui chegamos ao ponto. &lt;em&gt;Fazer amor&lt;/em&gt;, uma expressão que é usada amiúde e, lamento constatar, com o mesmo sentido instrumental dos outros usos do verbo &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt;. Outrora, achava que &lt;em&gt;fazer amor&lt;/em&gt; era mero anglicismo, simples tradução impensada de &lt;em&gt;make love&lt;/em&gt;. Eu evitava usar a expressão, mas há poucos equivalentes adequados. &lt;em&gt;Transar&lt;/em&gt; soa para mim como uma gíria dos anos 70 que teve uma sobrevida, e &lt;em&gt;meter&lt;/em&gt; é quase tão chulo quanto &lt;em&gt;trepar. Fazer sexo&lt;/em&gt; parece artificial, enquanto &lt;em&gt;copular&lt;/em&gt; parece saído dos manuais de medicina e &lt;em&gt;fornicar&lt;/em&gt; soa proibitivamente bíblico. Claro, minha dificuldade em encontrar uma palavra adequada para descrever o ato sexual já foi objeto de escrutínio, eu apenas poupo os leitores de conclusões que me desvendariam mais do que posso tolerar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, passei a me acostumar com o termo &lt;em&gt;fazer amor&lt;/em&gt;, pois de fato muitas vezes há uma instrumentalização do ato sexual. Longe de qualquer puritanismo, acho que essa instrumentalização pode ser autêntica: damo-nos prazeres físicos de diversas formas, fazer amor é uma delas. Em outras palavras, às vezes realizamos o ato sexual como comemos chocolates.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, muito além de fazer amor, há outra forma de realizar o ato sexual, da mesma forma que podemos viajar ou visitar museus de forma diferente da instrumental. Trata-se de deslocar a ênfase do &lt;em&gt;fazer&lt;/em&gt; para o &lt;em&gt;amor&lt;/em&gt;, incluindo todas as implicações transcendentes contidas nesta palavra. Trata-se de experiência sobre a qual temos bem pouco controle, e felizes são aqueles que – tendo encontrado um objeto para esse afeto profundo que chamamos amor – acabam por consumá-lo no ato sexual. Pois não existe experiência mais completa que o amor físico acompanhado do amor espiritual que, ao mesmo tempo, amplia a elevação espiritual (temos vontade de dizer “eu te amo” durante o ato) e multiplica a sensação física (que, mesmo restrita ao plano material, passa a ir além do gozo puro e simples).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de tudo isso, a única coisa que posso concluir é: amemos, seja lá como for. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8332540296308609700?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8332540296308609700/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8332540296308609700&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8332540296308609700'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8332540296308609700'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/02/fazer-amor.html' title='Fazer amor'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TUvU1YD78DI/AAAAAAAAAfk/G6DiR10fcyI/s72-c/carnetremula.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-3030359007845379603</id><published>2011-01-18T22:54:00.009-02:00</published><updated>2011-01-19T08:38:40.735-02:00</updated><title type='text'>"On the road again"</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TTY36CGgaMI/AAAAAAAAAfQ/qi29N5YoPPw/s1600/ligne%2B6%2Bb.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5563695859798927554" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TTY36CGgaMI/AAAAAAAAAfQ/qi29N5YoPPw/s400/ligne%2B6%2Bb.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Talvez por ter sido a primeira, aquela foi a viagem mais mal planejada de todos os tempos. Tinha hospedagem barata e transporte coletivo gratuito garantidos na cidade durante um mês, mas logo percebi que meu dinheiro só iria durar esse tempo todo se eu levasse uma existência quase miserável. Em pouco tempo estabeleci uma rotina (eu precisava de uma rotina para não enlouquecer): acordava pelas 9h, tomava o humilde café da manhã (café puro, uma baguete com manteiga) no &lt;em&gt;foyer&lt;/em&gt; de estudantes da inacreditável Faculdade de Teologia Protestante de Paris e saía para a cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia sim dia não, comprava um &lt;em&gt;Libération&lt;/em&gt; e ficava lendo diante da Fonte dos Médici. Em seguida batia perna pelo &lt;em&gt;quartier latin&lt;/em&gt;, ia às livrarias, fuçava as prateleiras, lia toneladas de histórias em quadrinhos sem pagar. Por volta de 13h, voltava para o &lt;em&gt;foyer&lt;/em&gt;, comia um &lt;em&gt;croissant&lt;/em&gt; no caminho, cochilava, muitas vezes ouvindo o barulho peculiar das sirenes da polícia francesa – havia um quartel logo ao lado. Às vezes ficava apenas olhando as árvores pela janela. Naquela hora fazia calor, muito calor, o mês de julho daquele ano é preservado na memória dos parisienses como o mês da &lt;em&gt;canicule&lt;/em&gt;, do calor infernal, com temperaturas que chegavam a 35°. O calor excessivo secava as árvores e amarelava as folhas, dando à paisagem um inesperado aspecto outonal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando refrescava um pouco eu saía, pegava o metrô e ia andar pela a cidade. Fui a todos os lugares possíveis (e também a alguns imaginários), visitei todos os locais que não precisava pagar, conheci a rede de metrô de Paris como poucos. Fui a lugares muitas vezes ignorados pelos turistas, como o parque Buttes-Chaumont e as casinhas em volta da Place d’Italie, os ateliers de La Ruche e a Cité Universitaire. Mais tarde, 20h, com o dia ainda claro, voltava para o &lt;em&gt;foyer&lt;/em&gt; tomava um banho (as duchas ficavam no fim do corredor e mesmo com o calor eu era um dos poucos hóspedes que as utilizava) e ia perambular pela rue Daguerre, comer comida de rua boa e barata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi em um desses dias quentes, voltando de metrô para meu “lar” parisiense, que vivi uma pequena epifania. Estava na linha 6, no trecho elevado ainda próximo à torre Eiffel [foto acima], quando dois turistas americanos, jovens, cabeludos e carregando um violão, entraram no vagão e começaram a cantar. Da linha elevada via-se pelas janelas do trem o céu alaranjado e, diante dessa moldura, a dupla muito afinada cantava o &lt;em&gt;country&lt;/em&gt; “On the road again”, de Willie Nelson. Pediam moedas para os passageiros. Foi naquele exato momento – ouvindo os dois cabeludos em um vagão lotado e mal cheiroso de metrô, ao mesmo tempo em que me sentia muito solitário e sem dinheiro – percebi: nada daquilo importava. Eu estava na estrada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por pior que seja a viagem, ela é sempre melhor que não viajar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.......................................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos próximos dias, os alegres colóquios serão realizados em outras cidades, sob outros ares. Boas viagens para todos nós. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-3030359007845379603?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/3030359007845379603/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=3030359007845379603&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3030359007845379603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3030359007845379603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/01/on-road-again.html' title='&quot;On the road again&quot;'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TTY36CGgaMI/AAAAAAAAAfQ/qi29N5YoPPw/s72-c/ligne%2B6%2Bb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-163129845819102743</id><published>2011-01-13T09:47:00.008-02:00</published><updated>2011-01-15T12:26:30.357-02:00</updated><title type='text'>O banho</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-a13cddc142b5b6be" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v16.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3Da13cddc142b5b6be%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1334249491%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3DE32C3A91DEF0D350896BD8A1C1D2F9C66CC14D8.15BB342E163609850415644E688835656F8D8A19%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Da13cddc142b5b6be%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DLOI_Vxf38tNb5fGB-nVyqMgsxXs&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v16.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3Da13cddc142b5b6be%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1334249491%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3DE32C3A91DEF0D350896BD8A1C1D2F9C66CC14D8.15BB342E163609850415644E688835656F8D8A19%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Da13cddc142b5b6be%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DLOI_Vxf38tNb5fGB-nVyqMgsxXs&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hesitei bastante antes de apresentar esse vídeo, mas não resisti. A hesitação tinha a ver com a divulgação ou uso da imagem de uma pessoa real... com que direito eu poderia fazer uma coisa dessas ? Evito imprimir ao blog um caráter confessional (e nem sempre consigo), tendo por justificativa o princípio de que a minha pessoa privada deve ser resguardada. Portanto, com que direito eu poderia divulgar algo sobre outra pessoa privada ? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas, que se dane, trata-se de uma pessoa pequenina, e não tenho nada de dramático a revelar (ainda que essa pessoinha apareça &lt;em&gt;nua&lt;/em&gt; na imagem que divulgo !). Trata-se do pequeno R. - como se fossem necessário tantos pudores a essa altura - em uma imagem feita quando ele tinha lá seus sete ou oito meses de idade. Quando recebi esse vídeo por email, não consegui parar de assistí-lo, e mesmo hoje, quando o vejo, é muito difícil me limitar a uma única reprodução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cena toda é de uma simplicidade inacreditável. Vejam o vídeo. O pequeno R. toma banho e se concentra na seríssima atividade de bater a mão na água, gesto que ele faz repetidas vezes. Com sua atenção despertada, talvez, por um som ou um movimento, o pequeno olha para o lado e vê uma pessoa, justamente quem o gravava. Trata-se de uma pessoa querida, R. a reconhece e não consegue conter um sorriso imenso. E pronto, acabou a cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que há de tão encantador nessas imagens ? O que me faz assisti-la ininterruptamente, com a mesma concentração do pequeno R. batendo suas mãos na água ? Por que chego à beira das lágrimas quando vejo imagens aparentemente tão banais ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque, na verdade, elas não tem nada de banais. Chamo atenção para o fato de que o nosso pequeno personagem principal está se dedicando a uma experiência importantíssima, bater as mãos na água, que faz parte daquele conjunto de atividades extremamente complexas que realizamos sem parar lá por essa idade. Trata-se, nada mais e nada menos, de apreender formas de espaço e tempo, bem como o movimento das coisas, justamente relacionado a essas variáveis. Durante aquele momento captado na imagem que vemos, o cérebro de R. está em uma atividade intensa, realizando operações provavelmente muito mais complexas do que aquelas que eu realizo enquanto escrevo esse texto ou quando você o lê. Daí a sua concentração e dedicação que o desligam do mundo ao redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, na segunda parte do vídeo, o pequeno olha para o lado. É quando podemos perceber a sua interioridade, que também se encontra em construção. Seu sorriso é espontâneo, não tem mediação nenhuma, é pura expressão do afeto, justamente no momento em que esses afetos são construídos. O pequeno R. já consegue reconhecer as pessoas e, quando ele identifica alguém que até o momento foi fonte inesgotável de amor, ele não consegue evitar o sorriso. Trata-se de resposta afetuosa à quem primeiro lhe dedicou o afeto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impossível não nos projetarmos no pequeno R. Sua capacidade de concentração em uma atividade simples, e a forma como essa atividade simples o entretém, me faz pensar em nossos vãos divertimentos. Penso na complexidade inútil dos aparelhos eletrônicos e digitais que nos trazem uma infinidade de sons e imagens e que nos ocupam por horas e horas a fio. Notebooks. Celulares. Wii. Playstation. Atualizar redes sociais. Fazer compras. Em 2010, me entretive loucamente com um Fiat Cinquecento. Conheço uma pessoa que se entretém lendo “Mil Platôs” de Delleuze nos intervalos de suas atividades diárias. Não abro mão de me ocupar com essas coisas, mas as imagens de R. me fazem pensar se não estou deixando para trás coisas simples, se não estou me deixando de dar valor para coisas que seriam, por sua simplicidade, mais autênticas, mais reais. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;br /&gt;Mas há algo mais perturbador no vídeo. Todos passamos pelo que o pequenino passou, e aqui me refiro à descoberta dos afetos. Me pergunto o que fazemos com a espontaneidade desses afetos, se eles não acabam submersos em uma rede complexa de jogos sociais e obrigações materiais. O pequeno R. nos lembra que diante das atividades do cotidiano, por mais envolventes que sejam, não existe nenhuma que seja mais intensa que o afeto, e todas essas atividades deveriam ser deixadas de lado, a qualquer momento, e sempre, para podermos responder com um sorriso àqueles que nos amam. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-163129845819102743?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/163129845819102743/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=163129845819102743&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/163129845819102743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/163129845819102743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2011/01/o-video-do-ano-2010.html' title='O banho'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8974239349790087800</id><published>2010-12-26T10:06:00.007-02:00</published><updated>2010-12-26T12:50:51.685-02:00</updated><title type='text'>Outra citação</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TRcxQdv9udI/AAAAAAAAAeE/3s4DcQ50owc/s1600/bianca%2Bt.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 266px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5554962824318269906" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TRcxQdv9udI/AAAAAAAAAeE/3s4DcQ50owc/s400/bianca%2Bt.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Eu me inclino perante a memória, perante a memória de qualquer pessoa. Quero deixá-la intacta, pois ela pertence ao ser humano que existe para ser livre. Não oculto minha repugnância por aqueles que se permitem submetê-la a operações cirúrgicas, até que ela se assemelhe à memória dos demais. Que operem o nariz, os lábios, as orelhas, a pele e os cabelos, o quanto quiserem operar; que implantem olhos de outra cor, se tiver que ser assim; também corações estranhos, que pulsem por mais de um ano; que apalpem tudo, aparem, alisem, igualem, mas que deixem a memória em paz.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Elias Canetti, &lt;em&gt;Uma luz em meu ouvido&lt;/em&gt;. Instigante mesmo é o conceito de liberdade que surge do texto: ser livre é possuir memória.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;..............................&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A partir de hoje, começo a ilustrar os &lt;em&gt;posts&lt;/em&gt; com imagens captadas por pessoas "reais". A foto acima foi devidamente roubada de Bianca T.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8974239349790087800?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8974239349790087800/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8974239349790087800&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8974239349790087800'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8974239349790087800'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/12/outra-citacao.html' title='Outra citação'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TRcxQdv9udI/AAAAAAAAAeE/3s4DcQ50owc/s72-c/bianca%2Bt.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-1546924486128718362</id><published>2010-12-20T10:07:00.009-02:00</published><updated>2010-12-20T16:11:14.242-02:00</updated><title type='text'>Luz e sombra</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TQ9IJB80TmI/AAAAAAAAAdw/3jKjXRji1UA/s1600/santa%2B02.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5552736185550655074" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TQ9IJB80TmI/AAAAAAAAAdw/3jKjXRji1UA/s400/santa%2B02.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Luz&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Adoro as decorações de Natal, as luzes fazem-me rir. Quase sempre, nos condomínios, a iluminação de Natal é de um mau gosto assombroso. O roteiro é quase sempre o mesmo: o síndico libera uma verba, manda um funcionário comprar alguns rolos de luzinhas feitas na China e orienta-o vagamente sobre como e onde instalar as luzes. O funcionário, mal remunerado e desanimado, não raro recém chegado de um distante rincão da pátria amada idolatrada salve-salve, tem lá suas idéias. E aí começam as tragédias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora da compra, ninguém percebeu uma sutil diferença: dois dos rolos de luzinhas coloridas são de um tipo e três rolos são de outro tipo. Resultado, quando a instalação fica pronta, uma parte pisca e outra não. Depois de alguns anos, algumas luzes já queimaram, outras não, a a instalação vai ficando cada vez mais assimétrica, torta, sem sentido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou então: a verba para as luzinhas não foi suficiente, algumas árvores serão totalmente cobertas de luz, enquanto outras só terão um metro de tronco iluminado. Ou ainda (uma das minhas decorações preferidas): as luzes comprados são do estilo “mangueira”, e a árvore enfeitada parece subitamente estar sendo estrangulada por uma cobra (veja a imagem). Nesse sentido, ao invés da remissão ao nascimento de Cristo, a iluminação faz referência à iconografia cristã da Queda: uma serpente envolve a árvore do fruto proibido, Adão e Eva acabaram de ser expulsos do Éden.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto muito também daqueles condomínios que se omitem, e o resultado é cada apartamento instalando uma luz diferente em suas janelas ou sacadas. Algumas coloridas outras não, algumas piscando outras queimadas. Também gosto quando o inspirado morador compra dezenas de metros de luzes e faz seu próprio desenho na janela, com um resultado ininteligível: aquilo que vejo piscando no prédio em frente é um Papai Noel sorridente ou os sargentos Yegorov e Kantariya hasteando a bandeira soviética no &lt;em&gt;Reichstag&lt;/em&gt; em 1945 ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, também temos as luzes de Natal na avenida Paulista, que trafegam entre o bom gosto e o novo-riquismo kitsch. Mas nada se compara às verdadeiras luzes de Natal dos automóveis parados na avenida, à noite, com famílias inteiras “passeando de carro”, um hábito paulistano que eu imaginava abolido desde o século passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sombra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;Santa is how satan spells his name when he wants to trick us&lt;/em&gt;, diz a sabedoria anglo-saxônica. Palavras que devem ser levadas a sério se lembrarmos que a figura do bom velhinho nasceu de uma adaptação norte-americana da lenda do santo grego São Nicolau. Dizem que foi em 1822 que um professor de literatura grega em Nova York, um certo mr. Moore, escreveu um poema para seus filhos, adaptando a lenda do santo, famoso por deixar sacos de moedas na chaminé da casa de pessoas que se encontravam em dificuldades financeiras. No poema de Moore, Nicolau virou uma bondoso e sorridente velhinho, que saía do pólo norte em um trenó puxado por renas e distribuía presentes para crianças no Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história toda tem um ar nórdico, germânico ou escandinavo, ainda mais se lembrarmos que o Natal no dia 25 de dezembro foi uma invenção da Igreja em seus primórdios, e que pretendia adaptar suas cerimônias aos costumes bárbaros. Assim, a celebração do nascimento de Cristo - cujo dia exato ninguém tem a mais vaga idéia de quando foi - passou a ser comemorada durante o solstício de inverno, tradicional cerimônia religiosa germânica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há outra tradição nórdica na jogada: desde há muito a Finlândia se orgulha de ser a casa oficial do bom velhinho, que viveria no norte do país, na Lapônia, já bem dentro do Círculo Polar Ártico. Até hoje o correio da Finlândia se dá ao trabalho de responder todas as cartas endereçadas a &lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Santa Claus / FIN-96930 Arctic Circle / Rovaniemi - Finlândia&lt;/span&gt; . Tente escrever uma cartinha, ainda há tempo, veja o que acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A preocupação em traçar as origens nórdicas do personagem reflete uma tentativa de entendê-lo melhor. Deixo de lado o nome “Papai Noel” e me detenho em “Santa Claus”. O jogo de palavras &lt;em&gt;santa/satan&lt;/em&gt; torna-se mais instigante quando lembramos que, no inglês, Old Nick é um apelido usado normalmente como referência ao demônio, e Claus, lembramos, vem de Nicolau. A cor vermelha ligada a ambos pode ser mera coincidência, mas a identificação tanto do demônio quanto do bom velhinho com as chamas – lembre-se que o local de chegada do Papai Noel é a lareira – nos faz pensar que talvez não seja tanta coincidência assim. E o golpe de misericórdia que faz com que deixemos de lado de uma vez por todas as nossas ilusões infantis: a atuação do demônio e do Papai Noel tem o mesmo fundamento ético. Pois trata-se de punir quem não tem um bom comportamento. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Feliz Natal, se puder.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-1546924486128718362?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/1546924486128718362/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=1546924486128718362&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1546924486128718362'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1546924486128718362'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/12/luz-e-sombra.html' title='Luz e sombra'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TQ9IJB80TmI/AAAAAAAAAdw/3jKjXRji1UA/s72-c/santa%2B02.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-5437997764848475071</id><published>2010-12-14T14:15:00.003-02:00</published><updated>2010-12-14T20:50:53.282-02:00</updated><title type='text'>Uma citação</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TQeY-CHRm2I/AAAAAAAAAdY/UOlLLIXqBAU/s1600/schule.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 294px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5550573257244121954" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TQeY-CHRm2I/AAAAAAAAAdY/UOlLLIXqBAU/s400/schule.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;A multiplicidade dos professores era surpreendente; é a primeira diversidade de que se é consciente na vida. Que eles ficassem tanto tempo parados à nossa frente, expostos em cada um de seus movimentos, sob incessante observação, hora após hora o verdadeiro objeto do nosso interesse, sem poderem se afastar durante um tempo precisamente delimitado; a sua superioridade, que não queremos reconhecer de uma vez por todas e que nos torna perspicazes, críticos e maliciosos; a necessidade de acompanhá-los sem que queiramos nos esforçar demais, pois ainda não nos tornamos trabalhadores dedicados e exclusivos; também o mistério que envolve sua vida fora da escola, quando não estão à nossa frente como atores, representando a si próprios; e, mais ainda, a alternância dos personagens, um após outro, no mesmo papel, no mesmo lugar e com a mesma intenção, portanto, eminentemente comparáveis - tudo isso, em seu efeito conjunto, é outra escola, bem diferente da escola formal, uma escola que ensina a diversidade dos seres humanos; se a tomarmos um pouco a sério, resulta na primeira escola em que conscientemente estudamos o homem.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Elias Canetti, &lt;em&gt;A língua absolvida&lt;/em&gt;. O texto me chamou atenção de um jeito peculiar: despertou lembranças de quando era aluno.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-5437997764848475071?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/5437997764848475071/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=5437997764848475071&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5437997764848475071'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5437997764848475071'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/12/uma-cita%C3%A7%C3%A3o.html' title='Uma citação'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TQeY-CHRm2I/AAAAAAAAAdY/UOlLLIXqBAU/s72-c/schule.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-1418987918112480757</id><published>2010-12-01T22:28:00.005-02:00</published><updated>2010-12-02T21:28:48.129-02:00</updated><title type='text'>L’esprit de l’escalier</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TPboWUiQL9I/AAAAAAAAAdA/-H0GHJWcTBA/s1600/escalier%2B01.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 365px; DISPLAY: block; HEIGHT: 380px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5545875461320486866" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TPboWUiQL9I/AAAAAAAAAdA/-H0GHJWcTBA/s400/escalier%2B01.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A expressão é francesa, e remonta à Revolução, aos dias de debates árduos e violentos no recém criado Legislativo. Muitas vezes, um orador subia à tribuna da Assembléia ou Convenção de deputados e tinha que enfrentar as críticas barulhentas de seus opositores, bem como as ironias dirigidas contra ele, ditos jocosos e insinuações maliciosas: a Revolução Francesa foi como que uma idade de ouro da retórica. E foi quando despontaram oradores brilhantes como Robespierre e Danton, cujos discursos – seja da tribuna ou das galerias – cortavam como uma lâmina (a metáfora chega a ser sombria).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes, um orador era criticado no meio do discurso e não conseguia argumentar a altura. Provavelmente vaiado ou apupado, descia as escadas de tribuna e, frequentemente, era só nessa hora que vinha uma boa resposta às críticas que tinha ouvido. Mas já era tarde, sua espirituosidade só se manifestou na escadaria. Esse é o “espírito da escada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhecemos bem a sensação em todo tipo de discussão da vida cotidiana: a resposta esperta, o argumento decisivo só nos visita quando acabou a conversa, no dia seguinte, na semana seguinte. Nas Ciências Humanas, no debate, a experiência é recorrente. Historicamente, o grande mestre das respostas rápidas é Winston Churchill, inúmeros episódios são atribuídos a ele. O meu preferido envolve um debate no Parlamento inglês, no início do século XX, envolvendo ativistas do nascente movimento feminista, então em plena luta pelo direito de voto feminino. O qual Churchill, claro, era contra. Depois de debates acalorados, a líder das ativistas, furiosa, disse a ele: “O senhor é uma pessoa odiosa. Saiba que se fosse meu marido, eu poria veneno no seu chá”. Ao que Churchill respondeu, de imediato: “Se eu fosse seu marido, tomaria o chá”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há algo melhor. Grande rival de George Bernard Shaw, Churchill certa ocasião teria recebido convites para a estréia da mais recente peça do dramaturgo irlandês. Shaw, irônico, enviou os convites e uma carta tremendamente irônica: “Apesar de nossas diferenças de opinião, ficaria feliz com sua presença na estréia de minha mais recente peça. Envio dois convites: um para o senhor e outro para um amigo... se tiver”. O inabalável Churchill respondeu com amabilidade, dizendo em carta: “Lamentavelmente, compromissos me impedem de comparecer na estréia de sua mais recente peça. Porém faço questão de presenciar uma próxima exibição... se tiver”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas aulas, julgam-me espirituoso, mas é engano. Depois de anos e anos, já antecipo reações dos alunos, e já tenho um repertório de respostinhas inteligentes que sempre parecem inventadas na hora, mas não são: não raro, eu simplesmente as roubei anos atrás de alunos verdadeiramente espirituosos. Porém, uma única vez o espírito da escada não me abandonou, inspirando-me em um episódio meio grosseiro do cotidiano. Foi em uma padaria meio vazia, em um domingo à noite. Além de mim, encontrava-se na padaria somente um outro freguês, um jovem negro, de gestos e vestimenta francamente afeminados. Logo na minha frente, ele falou algo para o caixa, com forte sotaque de algum lugar do nordeste, pagando sua conta e partindo logo em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que se foi, o dono da padaria, que estava no caixa, olhou para mim com um sorriso unilateralmente cúmplice e teve o disparate de dizer: “Esse aí, além de preto e viado é baiano”. Mesmo sem a elegância de um Churchill, respondi de bate-pronto: “E o senhor, além de português e burro é fascista”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca mais voltei naquela padaria. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-1418987918112480757?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/1418987918112480757/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=1418987918112480757&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1418987918112480757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1418987918112480757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/12/lesprit-de-lescalier.html' title='L’esprit de l’escalier'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TPboWUiQL9I/AAAAAAAAAdA/-H0GHJWcTBA/s72-c/escalier%2B01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2039521588696343018</id><published>2010-11-24T09:22:00.010-02:00</published><updated>2010-11-24T19:50:29.634-02:00</updated><title type='text'>Cultura de boteco</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TOz2rtqZgwI/AAAAAAAAAcg/si7IcWXzbQ4/s1600/veloso.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 240px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5543076472238473986" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TOz2rtqZgwI/AAAAAAAAAcg/si7IcWXzbQ4/s400/veloso.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em uma terça-feira chuvosa, chego no Veloso dez minutos antes de abrir, e já vejo pessoas se amontoando na calçada, enquanto os garçons se apressam em preparar as mesas e abrir os toldos diante da fachada. Refiro-me ao bar Veloso de São Paulo, que aproveita do fato de estar situado na rua Conceição Veloso, na Vila Mariana, para fazer uma discreta homenagem ao homônimo carioca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que as portas finalmente se levantam, em pouco tempo o bar está lotado e começa a se formar o tradicional aglomerado em sua porta. Um aglomerado feliz, pois os garçons servem os clientes normalmente, no meio da rua, igualzinho ao tradicional Bar do Léo da rua Aurora. Dentro do Veloso, grupos conversam, bebem, pedem petiscos, se conhecem. Lembro do sambista Monarco, da Velha Guarda da Portela, contando um causo no documentário sobre Paulinho da Viola: “Saímos de lá e paramos em um boteco. Pedimos uma cerveja e fomos ficando por ali, esperando a vida melhorar...”. Lembro também do impagável Chico Bacon de Caco Galhardo, que leva um tubo de super bonder no boteco e aplica no assento da cadeira antes de sentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São pessoas que praticam a cultura de boteco, que sempre me intrigou. Não me refiro a sair sábado à noite para encontrar os amigos em um bar e sociabilizar, mas de uma prática muito mais sutil, que chega a ser essencial para alguns, quase um estilo de vida: passar no boteco em um dia de semana, depois do trabalho ou a qualquer hora, ir ao boteco sem compromisso ou mesmo sozinho, sabendo que lá sempre tem alguém pra conversar. Ou, como dizia Vinicius de Moraes, apenas para “falar sem dizer grande coisa”. Cultura de boteco implica em freqüentar os mesmos botecos (que existem faz tempo e não são modas passageiras), conhecer os garçons e ser chamado pelo nome (e não pelo impessoal “doutor”), fazer pedidos sem ver o cardápio, e, finalmente – suprema glória – ter um lugar fixo, seja em mesa ou balcão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde vem essa disposição de passar horas conversando, bebendo, fazendo nada ? Por que algumas sociedades tem cultura de boteco e outras não ? &lt;em&gt;Pub, izakayá, brasserie&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;cafe, biergarten&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;brauhaus, pivo bar, meyhane.&lt;/em&gt;.. na verdade, é bem capaz que todas as culturas valorizem sua modalidade de boteco. A pergunta passa a ser: porque algumas culturas não tem boteco ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro imediatamente da cultura norte-americana de classe média, dos &lt;em&gt;suburbs&lt;/em&gt; com quadras e quadras de casinhas brancas e gramados verdinhos: esses bairros residenciais não tem botecos. Cercados de &lt;em&gt;highways&lt;/em&gt; e sem transporte coletivo viável (lembre-se, trata-se da cultura do automóvel), partindo dos &lt;em&gt;suburbs&lt;/em&gt; é praticamente inviável freqüentar um boteco ou &lt;em&gt;pub&lt;/em&gt; decente &lt;em&gt;downtown&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(interlúdio pop: em um dos infinitos episódios de &lt;em&gt;Os Simpsons&lt;/em&gt;, Homer sobe de vida e muda-se para um &lt;em&gt;suburb&lt;/em&gt; elegante. Com o marido no trabalho, as crianças na escola e empregados mexicanos para cuidar da casa, Margie... bebe. O tédio da vida no &lt;em&gt;suburb&lt;/em&gt; acaba por transformá-la em uma alcoólatra solitária. No mesmo registro, &lt;em&gt;Cheers&lt;/em&gt; foi uma série de sucesso, que se passava em um &lt;em&gt;pub&lt;/em&gt; na velha Boston. Após o fim da série, um de seus personagens muda-se para a moderna Seattle e deixa de freqüentar botecos. Em &lt;em&gt;Frasier&lt;/em&gt; – uma das minhas séries favoritas de todos os tempos – boteco é visto como algo decadente, pouco sofisticado e ultrapassado. Sem freqüentar &lt;em&gt;pubs&lt;/em&gt;, o personagem Frasier lamenta-se da solidão e tem nostalgia dos tempos de Boston, dos tempos de &lt;em&gt;pub&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto ao Veloso. Meses atrás, enquanto tomava um chope na calçada esperando uma mesa vagar (e de posse de uma comanda que identificava meu lugar como “poste”), vi uma cena deslumbrante. Desequilibrando-se em meio à multidão, um garçom e uma bandeja com no mínimo uma dúzia de chopes – em copos tulipa, dos antigos – tropeçaram diante de mim. Subitamente, vi na minha direção um jorro amarelo, de chope gelado, despencando como uma verdadeira cachoeira de desenho animado do Pica-pau. Não apenas a imagem foi linda, uma cascata dourada de chope espumante, mas também o som daquele líquido vertendo na minha direção e, infelizmente, sem me atingir (acho que naquele dia quente eu ansiava por um banho gelado). Seguiu-se o splash! no asfalto e o som estranhamente excitante de uma dúzia de copos quebrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o mais curioso foi o silêncio consternado que se fez em seguida, em todo bar e na calçada lotada. Foi como se todos fizessem um minuto de silêncio em lembrança ao chope desperdiçado. Em seguida, voltaram aos seus assuntos e continuaram no bar, esperando a vida melhorar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2039521588696343018?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2039521588696343018/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2039521588696343018&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2039521588696343018'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2039521588696343018'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/11/cultura-de-boteco.html' title='Cultura de boteco'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TOz2rtqZgwI/AAAAAAAAAcg/si7IcWXzbQ4/s72-c/veloso.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-3644679456761314468</id><published>2010-11-11T18:02:00.011-02:00</published><updated>2010-11-12T20:25:15.771-02:00</updated><title type='text'>Fachadas antigas</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TNxMBPQwH8I/AAAAAAAAAcQ/OKkm8cSCF6I/s1600/fachada%2Bsp%2B01.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 264px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5538385225919242178" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TNxMBPQwH8I/AAAAAAAAAcQ/OKkm8cSCF6I/s400/fachada%2Bsp%2B01.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há um tipo de casa que cada vez menos se vê em São Paulo, mas que já foi a cara da cidade. Construídas em terrenos compridos – pouca frente e muito fundo – foram residências de famílias de classe média (numa época em que São Paulo era uma cidade de classe média), e seus últimos exemplares podem ser vistos em velhos bairros italianos como Liberdade, Bexiga e no começo da Zona Leste, a partir da Móoca. Essas casas eram feitas por habilidosos mestres pedreiros de origem européia, que aprenderam seu ofício trabalhando com gesso, torcendo ferro e entalhando pedra nos canteiros de obras europeus do final do século 19.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei essas casas pelo interior do estado, em Campinas, Sorocaba e Jundiaí, e me pergunto se elas existem em número expressivo por outros estados. Ao longo do século 20 essas casas foram se deteriorando: na minha infância, cheguei a ver muitas delas transformadas em pensões, verdadeiros cortiços onde se amontoavam trabalhadores pobres e migrantes recém chegados do nordeste. Mais tarde, essas casas foram sendo simplesmente derrubadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas fachadas se repetem: duas janelas gradeadas baixas que iluminam o porão, duas janelas mais acima que se abrem para a sala e um portão lateral, quase sempre de ferro trabalhado, e que infelizmente não aparece na foto acima. O aspecto retangular e simétrico das fachadas, em que pese o portão lateral, sugere uma inspiração neo-clássica. Porém, os excessos ornamentais de diversos estilos acabam “poluindo” a obra, notadamente no alto da fachada, onde o pedreiro dava o seu toque pessoal enchendo o frontão quadrado de volutas e meandros de inspiração art-nouveau, bem como de cornijas e ornamentos em geral. No centro do frontão, a data em que foi concluída a obra: 1900, 1910, 1915, acompanhando mais ou menos os últimos momentos do surto de urbanização trazido pela cafeicultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A planta dessas casas é sempre a mesma, com poucas variações. O portão lateral e a pequena escada logo à sua frente dão acesso a um comprido terraço que acompanha a extensão da casa em um de seus lados, com o chão coberto de ladrilhos de cimento hidráulico, no nível dos aposentos. Logo no começo do terraço, uma porta se abre para a sala, iluminada pelas duas janelas abertas para a rua. Da sala sai um comprido e escuro corredor que se abre para dois ou três quartos, cujas janelas se abrem para o também comprido terraço lateral. No fundo desse corredor, a área de serviço, com banheiro e cozinha lado a lado, mais a escada para o porão. Um pequeno quintal ao fundo completa o conjunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca entrei em uma casa dessas, me limitando a observar as fachadas, estudar as plantas e imaginar o tipo de vida que se levou nesses aposentos. Na escola, tive que ler “Éramos seis”, e imaginava que Dona Lola e sua família vivessem em uma casa como essa. Mais tarde, em meus momentos “The Sims”, cansei de construir bairros inteiros de casas como essas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos anos 1920, tais casas começaram a escassear. A industrialização construiu bairros operários de casas geminadas, bem mais modestas. Quanto à classe média, a década iria trazer um estranho surto de nacionalismo arquitetônico, que assumiu a forma de um neo-colonial bastante peculiar. A foto abaixo mostra um posto de gasolina da Shell (ou Anglo-mexican Oil Company), em estilo neo-colonial dos anos 20. A Shell construiu dezenas de postos idênticos e espalhou-os pelo país, há pelo menos dois deles bastante bem conservados no alcance de uma caminhada da minha casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já nos anos 1930, esse neo-colonial caducou, e o “modernismo” chegou à arquitetura paulistana, importado sob a forma de Art-deco. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-3644679456761314468?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/3644679456761314468/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=3644679456761314468&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3644679456761314468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3644679456761314468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/11/fachadas-antigas_11.html' title='Fachadas antigas'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TNxMBPQwH8I/AAAAAAAAAcQ/OKkm8cSCF6I/s72-c/fachada%2Bsp%2B01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-5441878871169539641</id><published>2010-11-11T17:58:00.005-02:00</published><updated>2010-11-11T18:02:10.976-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TNxLq1WPVDI/AAAAAAAAAcI/FT1d-0zgH6U/s1600/shell.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 287px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5538384841005814834" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TNxLq1WPVDI/AAAAAAAAAcI/FT1d-0zgH6U/s400/shell.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TNxLTRjw7aI/AAAAAAAAAb4/NZiDTlV3mPE/s1600/shell.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-5441878871169539641?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/5441878871169539641/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=5441878871169539641&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5441878871169539641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5441878871169539641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/11/fachadas-antigas.html' title=''/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TNxLq1WPVDI/AAAAAAAAAcI/FT1d-0zgH6U/s72-c/shell.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-6976765921699859558</id><published>2010-10-30T14:03:00.007-02:00</published><updated>2010-10-30T19:28:18.449-02:00</updated><title type='text'>O direito à paisagem. Vista da rua.</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TMxCvnxOK9I/AAAAAAAAAbY/ba9WqPOLFg0/s1600/sophis+b.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 254px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5533871428028214226" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TMxCvnxOK9I/AAAAAAAAAbY/ba9WqPOLFg0/s400/sophis+b.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Costuma-se chamar “revolução copernicana” a transformação operada por Kant na teoria do conhecimento. O termo refere-se à mudança que Copérnico teria provocado na nossa forma de olhar: o que veríamos, ou COMO veríamos o universo se não estivéssemos em seu centro ? Pois a teoria de Kant implica justamente em uma mudança no olhar, superando tanto a visão racionalista quanto a empirista, que dominaram a Filosofia por uns bons dois mil anos. Sem entrar em detalhes, para a tradição do racionalismo (que, passando por Descartes remonta a Platão), &lt;em&gt;a mente cria coisas&lt;/em&gt;, enquanto que para a tradição do empirismo (que, passando pelos ingleses, encontra suas raízes em Aristóteles), &lt;em&gt;a mente se adapta às coisas&lt;/em&gt;. A revolução copernicana de Kant criou a concepção de que &lt;em&gt;as coisas se adaptam à mente&lt;/em&gt;, ou seja, é impossível o conhecimento das coisas sem o seu processamento pelas estruturas cognitivas do homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em certo sentido, também a Ética kantiana fundava-se nessa operação do olhar. Como um desdobramento do imperativo categórico, Kant escreveu: “Age de tal maneira que tartes a humanidade em tua própria pessoa e na pessoa de cada outro ser humano, jamais meramente como um meio, porém sempre ao mesmo tempo como fim”. Isso significa que agira moralmente implica na árdua tarefa de reconhecer no Outro um Sujeito, e não um mero objeto, um meio diante da satisfação de nossas necessidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;__________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem da propaganda, em página dupla, me chamou atenção durante a leitura dos jornais no domingo passado, e continuou aparecendo nos periódicos desde então. Mais do que chamar atenção, na verdade levei um susto quando virei a página e vi a imagem. Por trás da idílica paisagem de bosques e lago, rapidamente identificada pelo texto como o Parque do Ibirapuera, surge a aparição ao mesmo tempo monstruosa e fantasmagórica de uma torre de uns trinta andares; e o traçado do edifício em linha branca, deixando transparecer o fundo azul, reforça o caráter espectral da imagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segue-se o texto: “Mais do que uma simples paisagem, uma obra de arte viva”. Dispenso qualquer comentário sobre o caráter artístico do prédio, mais um exemplo da má arquitetura paulistana. Também deixo passar o contraste entre o emprego da palavra “vivo” para descrever a ilustração fantasmagórica. O que mais me chamou atenção foi a referência à paisagem, reforçada pelo texto seguinte: “Dois magníficos terraços que emolduram perfeitamente o cenário marcante do Ibirapuera ao fundo”. Foi aqui que lembrei de Kant e sua operação do olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Ibirapuera aparece aqui como mera paisagem vista da janela, jamais se concebendo que alguém vá freqüentá-lo de fato, levando, portanto, seu olhar para o Parque. Ou então, o Ibirapuera será freqüentado sim, mas a paisagem vista do Parque estará irremediavelmente destruída, cercado cada vez mais por torres medonhas. Mas pouco importa. O horizonte visto do espaço público não interessa, desde que seja preservada a paisagem que vejo de dentro do meu espaço privado, ainda mais se emoldurada por "magníficos terraços". E é sempre assim. Em São Paulo, ignora-se a paisagem vista da rua, constroem-se torres ao lado de igrejas centenárias, tampa-se o horizonte com uma profusão de paredes e superfícies verticais cinzas, sempre cinzas. Às vezes, chega-se ao requinte de tapar o céu com um viaduto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois reclamam quando o pixo contra-ataca. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-6976765921699859558?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/6976765921699859558/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=6976765921699859558&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6976765921699859558'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6976765921699859558'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/10/o-direito-paisagem-vista-da-rua.html' title='O direito à paisagem. Vista da rua.'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TMxCvnxOK9I/AAAAAAAAAbY/ba9WqPOLFg0/s72-c/sophis+b.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8134194835356449586</id><published>2010-10-15T15:53:00.013-03:00</published><updated>2010-10-16T12:53:25.850-03:00</updated><title type='text'>Uma foto qualquer</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TLijWS5M4iI/AAAAAAAAAaw/FqJUU8WSMGA/s1600/foto.JPG"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5528348146021491234" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TLijWS5M4iI/AAAAAAAAAaw/FqJUU8WSMGA/s400/foto.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A foto é aparentemente banal, e o fotógrafo certamente não pensou em suas múltiplas implicações quando, meio ao acaso, apontou para mim a câmara e registrou a cena: à bordo de um barco, olhando para o horizonte, em uma manhã de sol. A única justificativa para a foto ser tirada: o braço de mar por onde passa o barco é o Bósforo e, no horizonte, começa a Ásia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha primeira reação à foto também foi trivial e, como sempre acontece quando vemos nossas próprias fotos – ou, pior, ouvimos nossa voz gravada – egocêntrica e autocrítica: que perfil horrível ! Que barba escandalosa ! Que nariz turco, que faz de mim uma espécie de xerox do sultão Mehmet VI (sem o &lt;em&gt;harem&lt;/em&gt;, infelizmente), que quase sempre se fazia retratar de perfil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por pior que achasse a foto, não conseguia deixar de observá-la e, lentamente, suas formas foram se revelando para mim. Talvez fosse o jeito como meu braço (no primeiro plano) e o litoral da Ásia (ao fundo), ajudem a determinar espaços geométricos no plano da foto, quadrados, triângulos. Sempre tem algo de cubismo na decomposição das imagens em formas geométricas, gosto muito quando o efeito é obtido através de fotos. Por exemplo, veja a imagem feita por Cristiano Mascaro, “Árvore em Cachoeira” (2002): &lt;a href="http://bit.ly/bgM7kE"&gt;http://bit.ly/bgM7kE&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, muito mais do que dividir o espaço em formas geométricas, o meu braço e o litoral da Ásia apresentam uma estranha simetria: estendidos em um sentido vagamente horizontal (pois a foto está um pouco torta, o litoral está levemente inclinado para a direita), apresentando um suave ondulado, como que reproduzindo as ondas do Bósforo que eles emolduram. Pois meu braço e o litoral da Ásia foram o que me chamou atenção para o conjunto surpreendente de simetrias que essa imagem apresenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Refletir o céu no mar já é quase um lugar comum, e aqui céu e mar como que têm vida própria (um é quadrado, outro é triângulo). Mas os reflexos da luz no mar repetem-se no céu, sob a forma de fiapos de nuvens, e aqui está uma simetria. Da mesma forma, as finas barras brancas que sustentam o parapeito onde apoio meu braço como que se reproduzem no meu ombro, nas dobras da camisa embranquecidas pela luz do sol; e a agressividade das linhas repetidas é suavizada pelo semi-círculo que as envolve, sob a forma de uma bóia, além do parapeito, ou de minha gola redonda, de onde irradiam os vincos da camisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar atento percebe ainda mais uma simetria no litoral ao fundo. À esquerda, o mastro onde tremula uma bandeira turca, símbolo da República secular; e á direita a torre de um minarete, de onde os clérigos gritam as orações diárias, símbolo do Islamismo. Trata-se da maior tensão que existe na Turquia de hoje, ser ocidental ou oriental, moderno ou tradicional, religioso ou leigo. Ou na tensão de sempre: viver nas margens do Bósforo implica este ponto de inflexão, onde cada um coloca em jogo o seu próprio ser. As margens do Bósforo são como espelhos - invertidos, quase sempre -, e enxergar a própria imagem implica no trabalho cuidados de desconstruir todas as inversões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envolvida nesse jogo curioso, paira, na foto, uma única imagem que não tem seu duplo, aparentemente escapando de qualquer simetria. Sou EU, reduzido a um mero rosto que se projeta olhando sabe-se lá para quê. Pairando como forma maciça, escura, e dominando todo canto esquerdo da foto, só posso buscar um paralelo à minha frente, no local para onde olho, infelizmente fora do enquadramento da foto. Mas quem disse que eu olho para algum lugar ? Tenso, quem sabe imerso em pensamentos, apenas tenho diante de mim o CÉU, diáfano, claro, dominando todo canto direito da foto, justamente lá onde há poucas nuvens. E é somente nele que posso traçar alguma simetria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como em todas as imagens criadas na foto, trata-se de uma imagem refletida. Pois eu sou o oposto do céu e, por mais que pense diferente e tenha os pés no chão, só consigo uma aproximação de mim mesmo diante desse mesmo céu.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8134194835356449586?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8134194835356449586/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8134194835356449586&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8134194835356449586'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8134194835356449586'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/10/uma-foto-qualquer.html' title='Uma foto qualquer'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TLijWS5M4iI/AAAAAAAAAaw/FqJUU8WSMGA/s72-c/foto.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8965739026555326330</id><published>2010-10-02T21:28:00.011-03:00</published><updated>2011-06-23T18:40:18.785-03:00</updated><title type='text'>Istanblues</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TKfQKHhQI5I/AAAAAAAAAac/7qF6o5BHsdM/s1600/ara+guler+d.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 267px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5523612340228989842" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TKfQKHhQI5I/AAAAAAAAAac/7qF6o5BHsdM/s400/ara+guler+d.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;24 de setembro, hora indeterminada, sobre o Atlântico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor, solicitamos a presença de um doutor. Comparecer com urgência à cabine do fundo do avião”, grita o alto falante à bordo do vôo TK0014 da Turkish Airways rumo à Istambul. Achei curioso que não chamaram um médico, mas um doutor. Será que podia ser alguém de Humanas ? Será que eles estavam necessitando de um doutor, digamos, em Filosofia ? Imagino a emergência: o doutor em Filosofia chega afobado na cabine do fundo e encontra um passageiro angustiado, sofrendo calafrios, que pergunta com a voz rouca (enquanto a aeromoça tenta afrouxar sua gravata): “Doutor... me ajude... será que a ontologia pura serve apenas para dar forma ao entendimento ?” E o filósofo responde – como se fosse um dentista chamado para atender um ataque cardíaco: “Xeeeeee, lamento, mas minha área é a Estética”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24 de setembro, 18h34, Aeroporto Internacional de Istambul&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vingança turca. Ressentidos por não serem aceitos na União Européia, os turcos se vingam. A entrada na Turquia só é permitida mediante um visto que é emitido no próprio Aeroporto, quando se chega no país. Porém, para algumas nacionalidades o tal visto não é necessário. No Aeroporto, vejo uma fila enorme de italianos, alemães, franceses, espanhóis, todos eles aguardando o demorado visto. Como brasileiro, sou dispensado de visto, e passo ao lado da fila dançando um samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24 de setembro, 23h49, um &lt;em&gt;meyhane&lt;/em&gt; em Sultanahmet&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som das borbulhas de dezenas de narguiles sendo aspirados ao mesmo tempo. Cheiro adocicado de tabaco. Café turco, forte. Ao meu lado, dois turcos jogam gamão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25 de setembro, 11h36, mesquita de Sultanahmet&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É gratuita a entrada na famosa Mesquita Azul, aquela que foi construída diante de Santa Sofia para rivalizar em grandeza com o templo bizantino. Na saída, um funcionário pede uma contribuição em dinheiro para a manutenção da mesquita. Sensibilizado pela generosidade do ingresso grátis (e estimulado pelo pouco valor do dinheiro turco), deposito 5 liras na urna. Imediatamente, o funcionário me passa um recibo. Penso comigo: “Uma indulgência !” Agora, o paraíso islâmico é todo meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26 de setembro, 16h32, porta de hotel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversa com um turco: “O que você acha de Orhan Pamuk ?”. “Ah, aqui não gostamos muito dele, não. É um filhinho de papai, sua opinião é a da elite rica da cidade”. Tento argumentar que condenar a estética em função da origem social é um procedimento arriscado, e que seus escritos provavelmente irão sobreviver até bem depois que a atual estrutura de classes da Turquia mudar. E chamo atenção para o conceito de &lt;em&gt;hüzün&lt;/em&gt; (=melancolia), que passou a ser fundamental para se pensar a cidade desde que Pamuk o discutiu. “Isso é bobagem”, diz o interlocutor turco, “a tal &lt;em&gt;hüzün&lt;/em&gt; de Istambul não existe”. Como não existe ? Então eu posso dizer que o princípio segundo o qual “só Alá é Deus e Maomé é seu profeta” não existe só porque eu não acredito nisso ? Subitamente, o turco perde interesse na conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26 de setembro, 19h05, entrada do mosteiro de dervixes de Mevlana&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses tempos tão corretos, me provoca um sorriso o cartaz afixado na entrada do mosteiro: “Este edifício NÃO é adequado para cadeiras de rodas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26 de setembro, 19h34, salão do mosteiro dos dervixes de Mevlana&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entra a banda dos dervixes, com seus longos chapéus cilíndricos. Em meio à solenidade de seus movimentos rituais de apresentação, subitamente lembro-me dos Keystone Cops, e sinto uma vontade desesperada de rir. Porém, logo começa a música e eu fico mudo de admiração. Quando os dervixes começam a rodopiar, chego próximo de um transe extático.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27 de setembro, 10h59, Palácio do Sultão (Topkapi)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A entrada do harem continua sendo um lugar assustador. Um beco estreito, ganchos para iluminação com lâmpadas de óleo, uma fileira de portas entreabertas com os aposentos dos truculentos eunucos, um corredor escuro no final. Era essa a primeira visão que as moças – seqüestradas em todo Império Otomano – tinham do palácio luxuoso onde passariam o resto de suas vidas. Sua maior aspiração: serem escolhidas como uma das “favoritas” e, com sorte, gerarem o príncipe herdeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27 de setembro, 21h05, Sultanahmet&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A comida de rua em Istambul é boa, aprendi isso da outra vez que aqui estive. Morrendo de vontade de comer um &lt;em&gt;kokoreç - &lt;/em&gt;uma espécie de &lt;em&gt;kebab&lt;/em&gt; feito com intestinos de carneiro - pergunto ao garçon de um dos muitos restaurantes de Sultanahmet, bairro dos hotéis ao lado de Santa Sofia: “Onde eu posso comer um &lt;em&gt;kokoreç&lt;/em&gt;?”. Assutado, ele me responde, “&lt;em&gt;Hayir&lt;/em&gt; ! Não, &lt;em&gt;kokoreç&lt;/em&gt; não tem mais ! É contra as normas de higiene da União Européia !”. Penso se seria elegante da minha parte lembrar que a Turquia não faz parte da União Européia, mas prefiro ser simpático. Depois de muito insistir, ele me passa, quase em segredo, um endereço em Beyoglu. E acrescenta em voz baixa: “Best &lt;em&gt;kokoreç&lt;/em&gt; in town !”. (&lt;a href="http://sampiyonkokorecci.com/"&gt;http://sampiyonkokorecci.com/&lt;/a&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28 de setembro, 9h45, rua Akbiyik&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Conversa com um turco: “Você se sente mais asiático ou mais europeu ?”. A resposta vem direto: “Ah, sem dúvida, mais asiático.” Suspeito que se um turco fizesse a mesma pergunta ele responderia: “Mais europeu”. Viver entre o Oriente e o Ocidente, o tradicional e o moderno, deixa todos os turcos meio esquizofrênicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28 de setembro, 17h52, Santa Sofia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde vêm esses olhos azuis e cabelos claros de alguns turcos ? Várias origens, e uma delas se encontra nos guerreiros vikings contratados como mercenários a partir do século X pelos imperadores bizantinos. Tais guerreiros, denominados varegues, chegaram a ter um papel importante na defesa de Constantinopla contra o saque realizado pela Quarta Cruzada (1204). Enquanto não se dedicavam a atividades guerreiras, os varegues deviam perambular por Constantinopla e eis que, nos parapeitos internos da Santa Sofia, encontram-se inscrições feitas por esses guerreiros nórdicos em seu alfabeto rúnico. Gravadas no mármore por espadas, assinalam os nomes de “Halfdan” e “Ari”, verdadeiros precursores da pichação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29 de setembro, 8h12, Aeroporto Internacional de Istambul&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na livraria do aeroporto, encontra-se à venda a edição de bolso (completa, em turco) de &lt;em&gt;O Capital&lt;/em&gt; de Marx &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;********************&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;(foto: Ara Güler)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8965739026555326330?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8965739026555326330/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8965739026555326330&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8965739026555326330'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8965739026555326330'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/10/istanblues.html' title='Istanblues'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TKfQKHhQI5I/AAAAAAAAAac/7qF6o5BHsdM/s72-c/ara+guler+d.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-3610829174992458953</id><published>2010-09-23T16:25:00.008-03:00</published><updated>2010-09-23T17:13:57.134-03:00</updated><title type='text'>Considerações desapaixonadas sobre as eleições</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TJut1ZpRtyI/AAAAAAAAAZ0/sQDM4bG77QA/s1600/voto.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 360px; DISPLAY: block; HEIGHT: 331px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5520196901201360674" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TJut1ZpRtyI/AAAAAAAAAZ0/sQDM4bG77QA/s400/voto.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;1 – O que mais chama a atenção nas eleições, ultimamente, é que elas não mais envolvem questões de vida ou morte. No fim do regime militar e durante os anos da chamada consolidação democrática (anos 1990) simplesmente não se cogitava em votar nos esbirros da ditadura (ARENA/ PDS), em seus filhotes (Maluf, Sarney), nos sobreviventes de outra era (Jânio) ou na barbárie pura e simples (Collor). Quem votasse ou apenas demonstrasse simpatia por essas figuras simplesmente não era digno de pertencer a um círculo de amizades ou então gerava piedade (“Coitado, vai votar no Maluf...”). Nesse sentido, os 16 anos de FHC e Lula civilizaram o jogo político, ou pelo menos afastaram das eleições presidenciais as figuras mais sinistras. Diante dos Berlusconis e Bushes da vida, FHC e Lula são papa fina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2 – Curiosamente, a polarização PT x PSDB às vezes ainda gera estranhos ódios: há tucanos que não conversam com petistas (afinal, “Lula é Mussolini”), e há petistas que assumem ar de denúncia quando se referem ao tucanato como “a direeeeeeita!”. Curioso, pois sabemos que tanto Dilma quanto Serra, uma vez eleitos, vão adotar as mesmas diretrizes básicas de governo: manutenção da estabilidade econômica, algum tipo de gerenciamento da miséria (esquemas do tipo Bolsa Família) e aliança com a parte da banda podre da política que lhe cabe. Isso para não falar da sórdida tendência que os membros de seus partidos têm de cuidar do Estado como se fosse um condomínio privado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3 – Com Lula e o PT, consolidou-se a idéia de que o Estado é um papai provedor, e isso causa danos à política: o voto entra no esquema do “é dando que se recebe”, e a política passa longe de princípios ou projetos de longo prazo, reduzindo-se a uma sucessão de promessas rasteiras e troca de favores visando fins imediatos. Mas quem disse que com o PSDB é diferente ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4 – Diante desse contexto – e sabendo que, seja qual for o resultado, a barbárie não irá vencer – começo a vislumbrar uma saída: diante da permanência da polarização PT x PSDB, votar sempre em quem for oposição, como forma de punir os escândalos da vez. Otimista, imagino que isso talvez resulte em moderação na prática de transformação do Estado em condomínio privado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5 – Porém, é um erro partir das muitas semelhanças e concluir que não há diferença alguma entre PT e PSDB, Dilma e Serra. Em princípio, espera-se de um governo PT uma ênfase na distribuição, como exemplificado no governo Lula pela saudável tendência de aumento do salário mínimo. Porém, e a produção ? Os ventos internacionais favoráveis e a hábil ação de Lula na crise de 2008/2009 ajudaram a criar o clima de otimismo vigente. Mas, há algum plano que vá além de aproveitar a maré ? O país corre o risco de desindustrialização (mas corre mesmo ? qual o tamanho desse risco ?) e, sendo assim, não seria o caso de aproveitar o momento e adotar uma política industrial consistente, visando promover um profundo avanço no setor produtivo (para além da exportação de produtos primários ou semi-manufaturados) ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6 – Em Serra, há uma promessa de valorizar a produção, embora nem sempre fique muito claro como. E a tão proclamada competência gerencial dos tucanos é altamente suspeita: veja a situação de caos prolongado em que a capital do Estado de São Paulo se mantém, após anos de gerenciamento tucano. Seja como for, a promessa de ênfase na produção traz a possibilidade de um resultado social que vai além do mero assistencialismo: aproveitar a expansão econômica e ampliar maciçamente o número de assalariados com carteira assinada. Mas isso basta ?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;7 – Enfim, o que são as eleições ? Seu aspecto ritual me encanta: um feriado, um dia diferente, amplo movimento de pessoas, ruas cheias, encontros que se repetem a cada quatro anos. Por trás do rito, a lembrança: a coisa toda (o Estado, a política) deve existir em nome das pessoas, do “povo”. Para além da prática ritual das eleições, há que consolidar instituições que, de fato, ponham o Estado para funcionar em benefício dessas pessoas. Resta saber se a tarefa é possível.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-3610829174992458953?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/3610829174992458953/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=3610829174992458953&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3610829174992458953'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3610829174992458953'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/09/consideracoes-desapaixonadas-sobre-as.html' title='Considerações desapaixonadas sobre as eleições'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TJut1ZpRtyI/AAAAAAAAAZ0/sQDM4bG77QA/s72-c/voto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-7602056368959914163</id><published>2010-09-15T10:29:00.005-03:00</published><updated>2010-09-15T10:35:29.021-03:00</updated><title type='text'>Segundo aniversário</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TJDKvEHMn7I/AAAAAAAAAZY/Njmy-dbjmAk/s1600/2nd-birthday.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 286px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5517132453435449266" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TJDKvEHMn7I/AAAAAAAAAZY/Njmy-dbjmAk/s400/2nd-birthday.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;De onde vem a vontade de aprender ? Acredito que, em seus primeiros anos, a criança até se empolga com a escola, que satisfaz o seu desejo de tornar-se mais “espertinha”, portanto digna do afeto dos pais que a parabenizam pelas notas e pelo desempenho escolar em geral. No entanto, logo sobrevém o tédio: a criança amadurece, suas demandas afetivas deslocam-se para além do espaço familiar e, por essa época, a escola passa a divulgar um saber meramente instrumental. Uma multidão de atividades carregadas de lógica matemática, a descrição racional de uma infinidade de objetos do mundo e da melhor forma de utilizá-los visando o bem-estar do homem, uma coleção de objetos isolados que devem ser descritos e suas relações racionalmente explicadas, de preferência sem dar margem a nenhuma dúvida (afinal, como fazer provas depois ?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante de cada pergunta, uma resposta; diante de cada dúvida, uma certeza; diante de cada conseqüência, uma causa. Observando a forma como se organiza o Ensino Médio e a exposição dos alunos a esse discurso ininterrupto de uma razão que tudo explica, eu me indago: onde ficam as incertezas e as surpresas ? Onde ficam as perguntas sem respostas ? Onde ficam as conseqüências sem causas ? Oras, tais indagações são importantes, pois é graças a elas que continuamos perguntando e, no limiar desse questionamento, encontra-se nós mesmos, como já sabia Sócrates. O problema é que não há muito espaço na escola para a indagação sobre o &lt;em&gt;sujeito&lt;/em&gt;, e justamente numa época da vida – a adolescência – em que esse questionamento é fundamental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essa altura, difícil é a função do professor, que deve fazer renascer o desejo de aprender. Seus instrumentos incluem a &lt;em&gt;sedução&lt;/em&gt;, através da enunciação de um discurso adequado aos seus ouvintes, e a &lt;em&gt;identificação&lt;/em&gt;, pois os alunos devem reconhecer no professor o depositário de um saber que deve ser obtido. Desejo-sedução-identificação: o jogo do saber, como bem sabia Platão, traz junto uma série de riscos e, para o professor, o maior deles é a &lt;em&gt;vaidade&lt;/em&gt;. Trata-se do saber-se amado, e é necessário um certo esforço para agir em conformidade com essa situação mantendo-se à altura do desejo de saber dos alunos, nada mais do que isso. Quanto aos alunos, o risco é a &lt;em&gt;idolatria&lt;/em&gt;, primeiro passo para deixar de pensar por conta própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No seu segundo aniversário, lembro que o blog surgiu da vontade de alimentar esse desejo de saber, que nasce na sala de aula e que às vezes é limitado pelas restrições práticas que nos cercam. Sei que quanto mais alimento nos outros o fogo do saber, mais brilha o meu próprio fogo, e disso se extrai – assim espero – uma experiência compartilhada que ajuda a manter a vida de cada um de nós em constante escrutínio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feliz aniversário e obrigado a todos os alegres seguidores.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-7602056368959914163?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/7602056368959914163/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=7602056368959914163&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/7602056368959914163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/7602056368959914163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/09/de-onde-vem-vontade-de-aprender.html' title='Segundo aniversário'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TJDKvEHMn7I/AAAAAAAAAZY/Njmy-dbjmAk/s72-c/2nd-birthday.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-6144671781704836005</id><published>2010-09-07T22:34:00.007-03:00</published><updated>2010-09-08T06:16:17.569-03:00</updated><title type='text'>Pas de faune ce soir</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TIbouROouOI/AAAAAAAAAY8/5xIHFdWQY_I/s1600/trees+d.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 356px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5514350675358169314" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TIbouROouOI/AAAAAAAAAY8/5xIHFdWQY_I/s400/trees+d.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não sei exatamente que horas eram, mas eu estava no terraço quando começou a chover no fim de semana. A chuva começou fraca e mesmo o vento não chegava a perturbar, a temperatura apenas começava a cair naquela hora. Notei que as árvores estavam esquisitas: depois da longa seca, as folhas – algumas amareladas – estavam apenas frouxamente presas em seus cabos e agitavam-se de forma singular, pois o vento não tinha força suficiente nem para dobrar os galhos, nem para arrancá-las. Nas árvores imóveis, apenas folhas balançavam, como que rodopiando em torno de seus eixos, fazendo rápidos movimentos giratórios. Dessa forma, as folhas, as árvores pareciam bastante &lt;em&gt;alegres&lt;/em&gt;, é como se celebrassem a chegada da chuva depois de tanto tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem que me veio à cabeça, imediatamente, foi a de um &lt;em&gt;ballet&lt;/em&gt;, com centenas de folhas-bailarinas se agitando em uma fremente coreografia. O &lt;em&gt;insight&lt;/em&gt; veio em seguida: imaginei que talvez o homem tenha inventado a dança por mimese, copiando as árvores, as folhas das árvores em um vento de chuva. Não é difícil imaginar uma situação em que grupos humanos, coletores-caçadores, talvez já agricultores ou seja lá o que fossem, saindo de seus abrigos, felizes com a chuva e identificando no movimento das folhas a mesma alegria que sentiam. E imediatamente copiando esses movimentos com seus corpos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Interlúdio: “Consulte sempre um Antropólogo”, é um adesivo que jamais vi afixado em nenhum vidro de carro. Mas, que eles fazem falta às vezes fazem, e poderiam estar agora nos entretendo, a falar sobre coisas arquetípicas como danças-da-chuva e tudo mais. Um brinde a Jimmy Cliff-ord Geertz e seu estudo seminal sobre as brigas de galo na Jamaica.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, tive uma estranha epifania ao perceber que experimentava um sentimento idêntico ao de meus ancestrais neolíticos. Por um instante, tive o impulso de dançar com as árvores, no terraço mesmo, conforme a chuva começava a apertar. A vontade era de sair na chuva, fechar os olhos e deixar o corpo acompanhar o vento e o movimento das folhas, sentindo ao mesmo tempo o frio da água escorrendo pelo corpo. Seria um espetáculo bizarro diante das janelas dos vizinhos, mas estes, que se danem, a essa altura já viram de tudo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Claro que não fiz nada disso, apenas voltei para o sofá e comecei a refletir sobre a dança, e tudo que ela tem de impensado e espontâneo. Distanciando-se de outras artes, a dança pode ser a mais irracional expressão estética humana, e nem por isso a menos bela ou autêntica. Na dança, não há necessariamente uma “moral” ou “mensagem” a ser passada, trata-se sobretudo de entrega, com tudo que isso traz de risco, de coragem, de &lt;em&gt;vontade&lt;/em&gt;. A dança é exaltação dionisíaca, para usar o termo do velho Nietzsche, figura constante nestes alegres colóquios. Sabemos que duas das mais perigosas características de Nietzsche são escrever em aforismos e usar metáforas. Com os aforismos, tornou-se pop: todo mundo sempre tem uma ou duas de suas frasezinhas bem decoradas (e mal compreendidas) guardadas no bolso do colete para usar em uma culta mesa de bar. Com as metáforas, tornou-se mais pop ainda, com as pessoas adorando histórias sobre velhos eremitas que descem da montanha e saem gritando que deus morreu e outras coisas divertidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois o andarilho de Sils-Maria frequentemente usava a metáfora da dança e, para ficar em seus mais rápidos e conhecidos aforismos, cito: “É necessário que o caos vos habite para que possa dar a luz a uma estrela bailarina” e “Só acreditaria em um deus que soubesse dançar”. Nos dois casos a dança surge como a metáfora da realização humana mais sublime, ou melhor, daquele tipo de realização que nos leva para além do humano.&lt;br /&gt;.....................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os interessados, a São Paulo Companhia de Dança apresentará nesse fim de semana um programa altamente promissor, incluindo o “Prélude à l’aprés-midi d’un faune”, de Debussy (que – lembremos – quando coreografado por Nijinsky em 1912 provocou um impacto semelhante ao que teria no ano seguinte a “Sagração da Primavera”, que tanto tenho citado por aí).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-6144671781704836005?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/6144671781704836005/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=6144671781704836005&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6144671781704836005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6144671781704836005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/09/pas-de-faune-ce-soir.html' title='Pas de faune ce soir'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TIbouROouOI/AAAAAAAAAY8/5xIHFdWQY_I/s72-c/trees+d.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-1733852045920550129</id><published>2010-08-22T16:53:00.017-03:00</published><updated>2010-08-23T21:12:49.969-03:00</updated><title type='text'>Da desculpa como auto-de-fé</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/THGAj2f0ehI/AAAAAAAAAYY/HX582rvyya4/s1600/autodefe+goya.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 245px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5508325172663581202" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/THGAj2f0ehI/AAAAAAAAAYY/HX582rvyya4/s400/autodefe+goya.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em 1481, a Inquisição espanhola - sempre tão precoce - realizou o primeiro auto-de-fé, cerimônia pública de expiação dos pecados. A prática se generalizou pela cristandade, sendo particularmente comum nas monarquias ibéricas. Consta que o último auto-de-fé foi realizado na Espanha, já em 1821. Goya, artista espanhol, pintou o quadro acima poucos anos antes, mostrando uma dessas cerimônias: os acusados assumem publicamente sua culpa e envergam os &lt;em&gt;sambenitos&lt;/em&gt;, trajes especiais e particularmente ridículos e humilhantes, de uso obrigatório pelos condenados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reduzindo o ritual do auto-de-fé ao seu padrão básico, temos: cerimônia pública, humilhação ritual e perdão como resultado. Impossível deixar de pensar em como existe, hoje em dia, o estranho hábito de praticar um pedido de desculpas como se fosse um auto-de-fé. Um erro é cometido, alguém sofre os efeitos e, depois do mal feito, tudo se resolve com um humilde pedido de desculpas, muitas vezes visto como expressão de grandeza de caráter, mas que é na realidade um mero artifício para se por uma pedra no que agora virou passado. Acho que é nesse contexto que as pessoas “perdoam”, ou seja, aceitam as desculpas: perdoar/&lt;em&gt;per-donare&lt;/em&gt; (= por presente), é quando damos um presente para aquele que errou, que fez um mal, independente de qualquer arrependimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, isso não basta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro de meu sobrinho, criança, aprendendo o significado das palavras lá com seus dois ou três anos de idade. Após descobrir o significado da palavra “desculpa” (ou melhor, após descobrir os efeitos provocados pela simples enunciação da palavra "desculpa") o pequeno, durante alguns dias, passou a ter o hábito de fazer coisas sabidamente erradas, para em seguida testar o amor dos pais pedindo desculpas. Lembro de um almoço de família e do moleque, ao meu lado, pegando o copo de plástico cheio de coca-cola, inclinando-se para o lado e derramando propositalmente o conteúdo no chão, enquanto olhava para os adultos na mesa. Antes de qualquer manifestação de reprovação o monstrinho já foi lançando um “di-cu’pa”, ao mesmo tempo encantador e malandro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meu ver, uma desculpa envolve dois aspectos que quase nunca são cogitados por quem a pede, na pressa de ver sua situação resolvida e de ser perdoado. Primeiro, o reconhecimento do erro; segundo, e intimamente relacionado a isso, a garantia de que o erro nunca mais irá se repetir. Mas não é isso que vejo acontecer: as pessoas saem disparando suas desculpas por aí a torto e a direito, como se fossem fogos de artifício, e tudo se resolve. E daqui a uns poucos dias novas desculpas serão necessárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, este não é um &lt;em&gt;post&lt;/em&gt; confessional. Fujo deles, como todos sabem. Se você cruzou comigo - sei lá, na última semana - não pense que aqui vai alguma indireta. Apenas andei pensando no assunto, é só. E me desculpem os que não gostaram.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-1733852045920550129?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/1733852045920550129/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=1733852045920550129&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1733852045920550129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1733852045920550129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/08/da-desculpa-como-auto-de-fe.html' title='Da desculpa como auto-de-fé'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/THGAj2f0ehI/AAAAAAAAAYY/HX582rvyya4/s72-c/autodefe+goya.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-7684974156155005390</id><published>2010-08-12T22:01:00.008-03:00</published><updated>2010-08-22T20:59:56.534-03:00</updated><title type='text'>"...uma forma luminosa"</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TGWaOmogQ7I/AAAAAAAAAYQ/2LgRp5vYk3Q/s1600/trabalho.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 222px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5504975695209579442" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TGWaOmogQ7I/AAAAAAAAAYQ/2LgRp5vYk3Q/s400/trabalho.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TGSZwD29zuI/AAAAAAAAAYA/LLlKR6xEnvM/s1600/work+c.png"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt;Curioso como algumas expressões se tornam um jargão, que progressivamente vai se afastando de seu sentido original. No mundo escolar uma das mais comuns, de uns tempos pra cá, é &lt;em&gt;discutir conceito&lt;/em&gt;. As pessoas adoram discutir conceitos, vivem sofisticando suas práticas discursivas dizendo que discutiram conceitos quando, na verdade, na maior parte dos casos, apenas apresentaram definições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há diferenças entre &lt;em&gt;conceito&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;definição&lt;/em&gt;. Como de hábito, lanço mão da etimologia para começar a entender as diferenças. A palavra &lt;em&gt;definição&lt;/em&gt; vem do latim &lt;em&gt;de-finitio&lt;/em&gt;, em que &lt;em&gt;finitio&lt;/em&gt; dá idéia de fim, final, encerramento. Pois é esse justamente o sentido das definições: elas encerram um significado dentro de limites bem precisos. Trata-se, sem dúvida, de uma função importante. Pois as palavras devem ter significados precisos, sem isso é impossível um pensamento rigoroso e, em última análise, a própria filosofia. Todavia, definições não constroem conhecimento, e uma consulta ao dicionário, por mais instrutiva que seja, não faz o saber avançar sequer um milímetro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já &lt;em&gt;conceptus&lt;/em&gt; tem o mesmo radical de conceber, concepção. Aqui, o sentido é de criar, portanto ir além do limite estreito das definições, que agora serão tomadas apenas como ponto de partida. Trata-se do procedimento filosófico por excelência, e Delleuze, no seu livro &lt;em&gt;O que é Filosofia?,&lt;/em&gt; é taxativo: “Filosofar é criar conceitos”. Adorno falava de “ir além do conceito, através do conceito”, enquanto Francisco Bosco – meu filósofo pop preferido, em citação que vivo repetindo por aí – dá uma ideia melhor do árduo trabalho do conceito quando escreve: “O conceito é portanto uma pequena batalha que se trava em meio ao caos, a fim de fazer dele ressair, por meio de um meticuloso bordado semântico, uma forma luminosa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo, uma &lt;em&gt;definição&lt;/em&gt; da palavra &lt;em&gt;trabalho&lt;/em&gt; pode ser encontrada no dicionário: trata-se de “aplicação da força e faculdades humanas para atingir um determinado fim”. Porém, uma discussão do &lt;em&gt;conceito&lt;/em&gt; de trabalho inclui levar em consideração que essa atividade pode ser vivida de diferentes formas, resultando não apenas em práticas de trabalho distintas, mas também abrindo caminho para a identificação de diferentes éticas do trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro sentido da palavra trabalho remonta à etimologia latina do verbo trabalhar, &lt;em&gt;tripaliare&lt;/em&gt;, com o significado original de “extrair as tripas”. Trata-se de uma referência ao sofrimento imposto aos escravos. Nesse sentido, o trabalho é visto como um sacrifício a que se deve dedicar em troca de uma remuneração em dinheiro e quando vejo os olhares sombrios de muitas pessoas em seus postos de trabalho, imagino que elas de fato “deixaram suas almas” na porta de entrada da fábrica ou empresa, para poderem pegá-la de volta na saída. A expressão deixar a alma na porta do trabalho é da pensadora francesa Simone Weil que, na década de 1930, abandonou o conforto de sua família para experimentar a vida de operária. Da experiência resultou um relato pungente, “Da condição operária”, que deveria ser leitura escolar obrigatória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, há outro significado para a palavra trabalho, que pode ser entendido enquanto &lt;em&gt;praxis&lt;/em&gt;, uma prática constitutiva do ser. Essa visão está presente em Marx que, inclusive, identificava na habilidade e organização para o trabalho uma especificidade do humano (que ele pretendia resgatar criando um novo sistema social e econômico etc). O trabalho como &lt;em&gt;praxis&lt;/em&gt; implica em fazer da atividade uma parte inseparável da sua vida, e chegam a ser comuns os casos daqueles que caem em profunda &lt;em&gt;melancolia &lt;/em&gt;quando afastados do trabalho por algum motivo. Sem entrar em detalhes, lembro da interpretação psicanalítica da melancolia, um sentimento associado ao &lt;em&gt;luto&lt;/em&gt;, uma vez que ambos resultam em conviver com a perda. Aqui, estamos lidando com nada menos que a perda de uma parte de si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro caso - &lt;em&gt;tripaliare&lt;/em&gt; - existe uma separação entre o mundo da vida e o mundo do trabalho, e o próprio conceito de &lt;em&gt;lazer&lt;/em&gt; só pode ser pensado a partir dessa separação. Pois lazer é a negação do trabalho, é o tempo que deve ser aproveitado, pois se encontra longe do sofrimento. É o tempo que deve ser preenchido, uma vez que, se o trabalho não constitui o ser, o tempo torna-se vazio e sem sentido. Já no segundo caso - &lt;em&gt;praxis&lt;/em&gt; - o mundo do trabalho é parte integrante do mundo da vida, não cabendo a separação &lt;em&gt;tempo livre x&lt;/em&gt;&lt;em&gt; tempo de trabalho&lt;/em&gt;. Oras, as duas formas de vivenciar a experiência do trabalho (ou os dois significados que são ao mesmo tempo parte integrante do conceito e indissolúveis da experiência do trabalho), implicam em duas &lt;em&gt;éticas do trabalho&lt;/em&gt; distintas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os que vivem o trabalho como sofrimento, o que conta é a sobrevivência, uma vez que a atividade é vista como pouco mais que um ganha pão. Neste caso, o trabalho incorpora os &lt;em&gt;jogos de poder&lt;/em&gt;, fundamentais na luta pela sobrevivência dentro do ambiente de trabalho, e o resultado é uma atuação marcada pelo &lt;em&gt;medo&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;paralisia&lt;/em&gt;. Já para os que vivem o trabalho como parte constitutiva de si mesmo, a realização encontra-se no trabalho bem-feito, visto como finalidade e parte integrante do conhecimento próprio enquanto sujeito. Aqui abre-se o espaço para a &lt;em&gt;cooperação&lt;/em&gt; ( lembrando do caráter social e coletivo do trabalho), que incorpora o &lt;em&gt;diálogo&lt;/em&gt; entre as partes e a constituição de laços que incluem a tão difícil &lt;em&gt;amizade&lt;/em&gt; entre adultos. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-7684974156155005390?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/7684974156155005390/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=7684974156155005390&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/7684974156155005390'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/7684974156155005390'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/08/uma-forma-luminosa.html' title='&quot;...uma forma luminosa&quot;'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TGWaOmogQ7I/AAAAAAAAAYQ/2LgRp5vYk3Q/s72-c/trabalho.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-806105778991964184</id><published>2010-07-20T16:45:00.006-03:00</published><updated>2010-08-22T21:00:39.507-03:00</updated><title type='text'>Em busca da música perfeita 2</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TEX95oV_drI/AAAAAAAAAXc/eyLnqlHL1j0/s1600/areito+a.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 340px; DISPLAY: block; HEIGHT: 249px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5496078086799586994" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TEX95oV_drI/AAAAAAAAAXc/eyLnqlHL1j0/s400/areito+a.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Yo me voy temprano para el batey&lt;br /&gt;Que en La Habana, se acabo el yarey&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Revolução de 1959 matou um pouquinho a música cubana. As gravadoras multinacionais deixaram a ilha, os grandes cassinos e &lt;em&gt;night-clubs&lt;/em&gt; foram inicialmente fechados e depois reestruturados, com seus donos mafiosos muitas vezes sendo presos ou simplesmente fugindo para Miami. O bloqueio norte-americano também não ajudou muito, fechando as gravadoras aos músicos que não se exilassem. Seja como for, de uma hora para outra, os grandes da música cubana perderam seus palcos e microfones: o novo regime sempre desconfiou de suas ligações seja com o submundo do crime organizado, seja com as multinacionais norte-americanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns músicos fugiram da ilha, outros amargaram uma espécie de “exílio interno”: Ruben Gonzáles conta que ficou anos sem encostar em um piano. Outros simplesmente morreram, como Benny Moré e seu fígado estraçalhado. Enquanto isso, o novo regime nomeou novos artistas e mesmo o novo estilo oficial: a &lt;em&gt;nueva trova&lt;/em&gt;, misto de bossa-nova com &lt;em&gt;folk-song&lt;/em&gt; e música de protesto. Imagine João Gilberto cantando uma música de Bob Dylan com uma letra falando sobre Che Guevara. Aí está a nueva trova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Me gusta la población, el bullicio e el gentio&lt;br /&gt;También me gusta el bohio que yo tengo em el batey&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Certamente, saíram coisas boas. Há músicas de Silvio Rodrigues, Pablo Milanés ou Carlos Puebla que acabaram se transformaram em clássicos cubanos. Mas o inebriante ritmo do &lt;em&gt;son&lt;/em&gt; cubano, bem como seu apelo dançante se perderam. Nas ruas de Havana, fora dos palcos oficiais, veio o contra ataque a partir dos anos 70: a música de &lt;em&gt;barrio&lt;/em&gt;, com grandes bandas marcadas pela forte seção de metais e muita, mas muita percussão de alta qualidade. Tocada em lugares improvisados, por todos os cantos e periferias de Havana, o &lt;em&gt;son&lt;/em&gt; dançante dos bairros faz lembrar as&lt;em&gt; big bands&lt;/em&gt; da era de ouro da música cubana pré-revolucionária, incluindo uma nova geração de instrumentistas de alto padrão, tocando longos e impressionantes improvisos que fizeram renascer as famosas &lt;em&gt;descargas&lt;/em&gt; cubanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, os sobreviventes da velha geração iam definhando. Em 1997, o músico americano Ry Cooder foi à Cuba, fez um filme e gravou uma compilação com os músicos que sobraram da época de ouro, intitulando o projeto de “Buena Vista Social Club”. Infelizmente, o tal do Ry Cooder meteu a mão na tradição cubana e elegeu um monte de cantores de bolero para formar sua coletânea, com um ou outro cantor de &lt;em&gt;guajira&lt;/em&gt; (música “caipira” cubana) entoando suas músicas mais melancólicas. Para piorar, nosso &lt;em&gt;bluesman&lt;/em&gt; branco acrescentou seus próprios solos de &lt;em&gt;slide-guitar&lt;/em&gt; em várias gravações, criando uma sonoridade no mínimo bizarra e certamente bem pouco cubana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Me gusta ver como el rio, por el valle se prolonga&lt;br /&gt;Y ver del arbol la sombra, que adorna el sitio mio&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O que poucos sabem é que, anos antes, em 1979, a gravadora estatal cubana Egren havia lançado o mesmo projeto – de resgatar os grandes nomes do passado –, e isso numa época em que muitos ainda estavam vivos. E aqui eles foram deixados à vontade, gravaram o que quiseram, improvisaram, inventaram, se divertiram. O resultado foi um dos discos mais vibrantes de todos os tempos, &lt;em&gt;Los Heroes&lt;/em&gt;, e o enorme conjunto de mais de trinta músicos foi chamado de “Estrellas de Areito”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É de chorar de tão bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi nessa compilação que encontrei a minha segunda música perfeita de todos os tempos: “Mi amanecer campesino”, com gloriosos 14 minutos e 55 segundos de duração (e o final em &lt;em&gt;fading&lt;/em&gt;, pois os músicos poderiam ter continuado tocando e improvisando sobre o tema por mais alguns meses).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Mañana me voy temprano, me marcho al amañecer&lt;br /&gt;Com el machete em la mano y el sombrero de yarey&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A estrutura dessa música é a do tradicional son cubano: prelúdio (uma introdução, neste caso feita pelo coro); &lt;em&gt;largo&lt;/em&gt;, quando o vocalista (ou sonero, aqui Pio Leyva) estabelece o tema da canção; e &lt;em&gt;montuno&lt;/em&gt;, quando o sonero desenvolve frases introdutórias e o coro as responde. O &lt;em&gt;montuno&lt;/em&gt; é o clímax de todo son cubano, pois é quando se fazem improvisações vocais e a demonstrações de virtuosismo instrumental. Em &lt;em&gt;Mi amanecer campesino&lt;/em&gt;, sucedem-se solos de violino (Pedro Hernandéz), &lt;em&gt;tres&lt;/em&gt; (Niño Rivera) e piano (Ruben Gonzalez), além do arrepiante trombone de Juan Pablo Torres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria impossível descrever aqui, com palavras, o grau de maestria atingido por esses músicos. Chamo atenção, apenas, para uma certa passagem em que Ruben González começa a desenvolver seu solo no piano e, de repente, começa a tocar &lt;em&gt;Alma de mujer&lt;/em&gt;, um antigo bolero. Do nada, sem nenhuma combinação prévia, entra a seção de cordas (os violinos) e continua a canção. Gonzalez reage e toma o bolero de volta, tudo isso enquanto a “cozinha” (baixo e percussão) mantém o ritmo. Até que o trombone de Juan Pablo Torres se insinua para acabar com a baderna e avisa que a música está acabando. Causa arrepios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Yo me voy temprano para el batey&lt;br /&gt;Que en La Habana, se acabo el yarey&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-806105778991964184?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/806105778991964184/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=806105778991964184&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/806105778991964184'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/806105778991964184'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/07/em-busca-da-musica-perfeita-2.html' title='Em busca da música perfeita 2'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TEX95oV_drI/AAAAAAAAAXc/eyLnqlHL1j0/s72-c/areito+a.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-3117136855096987656</id><published>2010-07-20T09:52:00.002-03:00</published><updated>2010-07-20T09:54:22.978-03:00</updated><title type='text'>#piadasnerds</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(ou: falta de assunto também dá post)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na Filosofia, brincava de escolher títulos bizarros para minha dissertação de mestrado. Criei um jogo que consistia em redigir títulos praticamente incompreensíveis (e algo bizarros), mas que ainda assim significassem alguma coisa. Agora, planejando o doutorado, trago de volta os melhores títulos. Escolha o seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1) A realidade enquanto auxiliar apriorístico de uma ética não-naturalista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) A hipóstase e o isolamento do puro livre-arbítrio enquanto pedra de toque do bolo ético-cultural dos epígonos kantianos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) A inversão de pólos do sujeito para o dessujeito: realce de uma agonística que faz da subjetivação uma imanência em exercício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4) O pessimismo de matizes éticos em relação ao presente: inflexão geral de Hegel a Fichte ou simples kierkegaardização da dialética histórica hegeliana ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5) O problema central da forma romanesca: acerto de contas artístico com as formas fechadas e totais que nascem de uma totalidade do ser integrada em si (com cada mundo das formas em si imanentemente perfeito).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6) A consciência da unidade total interna alcançada através do pensamento e da apreensão: a não manifestação da alma na natureza em que a unidade subjetiva não aparece como unidade em si . &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-3117136855096987656?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/3117136855096987656/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=3117136855096987656&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3117136855096987656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3117136855096987656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/07/piadasnerds.html' title='#piadasnerds'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-3758067234726236885</id><published>2010-07-09T17:43:00.007-03:00</published><updated>2010-07-13T06:20:32.429-03:00</updated><title type='text'>Viagem infinita</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TDeNEnxZxuI/AAAAAAAAAXE/BVOGpfE09Gk/s1600/hockney_pearblossom-highway.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 272px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5492013381136795362" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TDeNEnxZxuI/AAAAAAAAAXE/BVOGpfE09Gk/s400/hockney_pearblossom-highway.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TDeM6TeGx-I/AAAAAAAAAW8/tZPL9Jb9GyM/s1600/hockney_pearblossom-highway.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Costumo chamar de “trama da existência” toda aquela teia que construímos no cotidiano e da qual fazem parte desde o nosso de universo de relações pessoais até o espaço por onde circulamos habitualmente. Enredar-se na teia da existência significa estar cercado de um universo de referências seguras, dentro do qual podemos efetivamente habitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamo atenção para a semelhança entre o verbo &lt;em&gt;habitar&lt;/em&gt; e as palavras &lt;em&gt;habitual&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;hábitos&lt;/em&gt;. É na nossa trama da existência que praticamos os &lt;em&gt;hábitos&lt;/em&gt; que resultam na criação de nossa &lt;em&gt;habitação&lt;/em&gt;, o local onde nos sentimos seguros. O filósofo Martin Heidegger vai além, lembrando da semelhança que existe no alemão entre o tempo verbal &lt;em&gt;bin&lt;/em&gt; (de &lt;em&gt;ich bin&lt;/em&gt;, eu sou) e o verbo &lt;em&gt;bauen&lt;/em&gt; (construir). Parte daí para apontar que a maneira como somos é a maneira como construímos o espaço em que habitamos. As múltiplas referências à etimologia das palavras alemãs e gregas – tão comum em Heidegger, e de que lanço mão tão frequentemente no blog – devem ser vistas como uma forma de aproximação da linguagem primitiva (ou &lt;em&gt;Ursprache&lt;/em&gt;) indo-européia, ou seja, do sentido original das coisas no momento mesmo em que essas coisas começaram a ser nomeadas. Da sua &lt;em&gt;essência&lt;/em&gt;, diria o eremita da Floresta Negra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa forma, através da trama da existência construímos o nosso ser. Mas isso não basta. Quantas vezes não desejamos simplesmente sumir, desaparecer desse entorno ? Se por um lado a teia que nos envolve é garantia de segurança, por outro deixa muito pouco a ser descoberto, por mais que deixemos certos espaços a serem explorados como se fossem novos. “Hoje vou sair com uma pessoa diferente” ou “Amanhã vou para a churrasco em um bairro novo” ainda fazem parte dessa teia, constituindo uma brecha antecipada, com a finalidade de evitar o tédio puro e simples. (Mas quantas pessoas não se negam mesmo essas pequenas aberturas, permanecendo seguramente instaladas em seu tédio cotidiano ?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí a necessidade da &lt;em&gt;viagem&lt;/em&gt;, palavra da qual tiram-se dois significados possíveis. Em primeiro lugar existe a viagem física, o deslocamento para além dos espaços habituais. Além disso, existe a viagem enquanto operação do pensamento, que é experiência bastante comum: quantas vezes não percebemos que uma pessoa “está viajando”, ou seja, completamente descolada da realidade que a cerca ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego ao meu ponto de reflexão. Só vejo a viagem física como ruptura da teia da existência quando ela é feita dentro de uma certa radicalidade, que inclui transformá-la também em experiência do pensamento. “Descer para o litoral no fim de semana” ou “Ir para Campos com os amigos” podem ser aventuras válidas, mas dificilmente constituem uma experiência que leve para além do conhecido ou que rompa com a teia da existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como transformar a vigem física na experiência transcendente do pensamento ? Talvez partindo da própria especificidade de atravessar um espaço de dimensões tão grandes que implicam em uma redefinição da relação com o tempo. Durante a longa viagem, dentro do espaço sem graça do avião ou do ônibus, abre-se a possibilidade para um momento de introspecção. Além disso, na chegada, o contato com hábitos culturais diferentes (língua, alimentação, clima) exige uma redefinição do habitual em cada um, com Heidegger nos lembrando da importância de habitar na constituição do ser. Perdemos o nosso chão, devemos nos redescobrir, e daí vem o medo, como bem apontou Camus:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O que dá valor à viagem é o medo. É o fato de que, num certo momento quando estamos tão longe de nosso país, somos tomados por um vago receio e pelo desejo instintivo de voltar à proteção de velhos hábitos. Nesse momento, atravessamos uma cascata de luz e ali está a eternidade. Viajar é uma ciência grande e grave que nos traz de volta a nós mesmos.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, a viagem se transforma em experiência transcendente quando, antes da partida, antecipamos mentalmente sua realização e, após a chegada, reconstruímos cada etapa com ajuda da memória. Nesses momentos, viajar em grupo ganha significado: cada um antecipa e, sobretudo, reconstrói a viagem através de seu próprio olhar. A troca das experiêncais, o contato com a multiplicidade dos olhares e narrativas de quem esteve junto viajando, permite que cada viagem seja repetida mil vezes, com a transformação das experiências vividas em algo novo cada vez que elas se repetem em nossa mente ou em alegres colóquios com os companheiros de viagem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aos que partem de férias, boas viagens.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-3758067234726236885?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/3758067234726236885/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=3758067234726236885&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3758067234726236885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3758067234726236885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/07/viagem-infinita.html' title='Viagem infinita'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TDeNEnxZxuI/AAAAAAAAAXE/BVOGpfE09Gk/s72-c/hockney_pearblossom-highway.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-5643771852307233012</id><published>2010-06-20T09:35:00.010-03:00</published><updated>2010-06-21T21:56:50.791-03:00</updated><title type='text'>Drops</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TB4OQl6JfjI/AAAAAAAAAWU/N306jqvoxvI/s1600/platao.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 155px; HEIGHT: 200px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5484837074400542258" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TB4OQl6JfjI/AAAAAAAAAWU/N306jqvoxvI/s200/platao.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TB4OQ1F12lI/AAAAAAAAAWc/7XwjtVlZ0hs/s1600/platao+b.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 162px; HEIGHT: 200px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5484837078476118610" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TB4OQ1F12lI/AAAAAAAAAWc/7XwjtVlZ0hs/s200/platao+b.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TB4N5N8p0nI/AAAAAAAAAWE/EBZe3raoZs4/s1600/platao.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TB4N5kHaXjI/AAAAAAAAAWM/lf7-qzEwtK4/s1600/platao+b.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Inteligere&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sempre me incomodou o uso da palavra &lt;em&gt;inteligência&lt;/em&gt;. O que queremos dizer quando falamos que alguém é inteligente ? Da etimologia, sabemos que a palavra vem do latim &lt;em&gt;inter&lt;/em&gt; (entre) e &lt;em&gt;legere&lt;/em&gt; (ler). Porém, o sentido original de &lt;em&gt;legere&lt;/em&gt; é do grego, &lt;em&gt;legein&lt;/em&gt;, palavra de múltiplos sentidos, desde descrever/falar ate selecionar/escolher. O termo aparece, por exemplo, em Homero e vejam como grego é divertido: para combater os troianos era necessário λέγω άνδρας άρίστους /&lt;em&gt;lego andras aristous&lt;/em&gt;, "escolher os homens mais valentes". E é claro que &lt;em&gt;legein&lt;/em&gt; no sentido de dizer nos remete diretamente a &lt;em&gt;logos&lt;/em&gt;, a palavra falada racional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas considerações nada tem a ver com o uso comum da palavra &lt;em&gt;inteligente&lt;/em&gt;. Seu uso reflete a forma como fetichizamos a inteligência: identificamos a pessoa &lt;em&gt;inteligente&lt;/em&gt; como aquela capaz de realizar raciocínios lógicos-dedutivos. Assim, o &lt;em&gt;inteligente&lt;/em&gt; é aquele que tem uma alta performance, por exemplo, resolvendo problemas matemáticos. Existe até um “quociente de inteligência” (deus me livre!), obtido através de um teste; muito embora seja evidente que a simples idéia de que &lt;em&gt;inteligência&lt;/em&gt; possa ser medida e expressa em números já reflete uma visão de mundo tremendamente instrumental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois há componentes na inteligência que vão muito além do raciocínio lógico. Claro, não se deve confundir inteligência com &lt;em&gt;erudição&lt;/em&gt;, esta outra forma de fetichização da inteligência, dessa vez no âmbito das assim chamadas Ciências Humanas. Pois a verdadeira inteligência, a capacidade de inter-legere, implica em uma forte dose de criatividade, e esta, lamento constatar, não pode ser medida mas somente praticada. E aqui surgem os pré-requisitos para o seu despertar: a reflexão (enquanto atividade solitária, parente do repouso; se possível, próxima do devaneio, aquele estado intermediário entre pensamento e sonho) e mesmo o diálogo (o &lt;em&gt;alegre colóquio&lt;/em&gt; de Platão, inspiração constante do blog e expressão de suas ambições intelectuais).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a criatividade enquanto parte da inteligência, escreveu Andrew Wiler: “Para alcançar essa (...) idéia nova, é necessário um longo período de atenção ao problema sem qualquer distração. É preciso pensar só no problema e nada mais – só se concentrar nele. Depois você para. Então parece ocorrer uma espécie de relaxamento durante o qual o subconsciente aparentemente assume o controle. E é aí que surgem as idéias novas”. O autor é um matemático inglês, que simplesmente demonstrou o teorema de Fermat, e sua referência ao relaxamento e à entrega ao subconsciente são significativas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Copa do Mundo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O goleiro da Alemanha chama-se Neuer (pronuncia-se Nóia, imagino-o fumando crack nas ruas do Centro); o atacante grego Salpingidis é tremendamente parecido com Platão (dos relatos que temos: baixo, atarracado, costas largas, nariz grego clássico). O som das vuvuzelas me faz pensar no zumbido interminável de insetos no meio de uma floresta africana úmida (nada menos parecido com a gélida África do Sul de junho).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou até a padaria e vejo um grupo se aglomerando junto a uma TV, para acompanhar o vibrante &lt;em&gt;match&lt;/em&gt; entre Eslováquia e Paraguai. Enquanto isso, planejo onde assistir o próximo jogo do Brasil, se em casa, no bar ou no trabalho, e quem vou encontrar, quais as comidinhas, o que vou beber. Acredito que um imenso vazio irá tomar conta de nossas vidas quando a Copa do Mundo acabar.  &lt;em&gt;Mistah Kurtz, he dead.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-5643771852307233012?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/5643771852307233012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=5643771852307233012&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5643771852307233012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5643771852307233012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/06/drops.html' title='Drops'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TB4OQl6JfjI/AAAAAAAAAWU/N306jqvoxvI/s72-c/platao.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4775416692812811513</id><published>2010-06-04T18:19:00.008-03:00</published><updated>2010-08-22T18:38:17.254-03:00</updated><title type='text'>Ouro Preto</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TAluORyS9JI/AAAAAAAAAVc/CEitn_RF3MQ/s1600/C%C3%B3pia+de+s+franc+noite.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 227px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5479031613244503186" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TAluORyS9JI/AAAAAAAAAVc/CEitn_RF3MQ/s320/C%C3%B3pia+de+s+franc+noite.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O primeiro frio do ano aguça a memória. O inverno traz Ouro Preto, cidade para qual nunca se deve deixar de voltar. Em cada viagem algo novo sempre é descoberto e, a partir da regularidade da viagem (todo ano, em julho, de ônibus, levando um grupo) uma questão surge e fica no ar: se a cidade é sempre a mesma e os lugares visitados são os mesmos, o que muda ? Só pode ser o viajante, que vai se descobrindo como uma pessoa diferente a cada retorno; sabemos que é isso que dá valor a uma viagem. Ouro Preto sempre foi e sempre será uma cidade infinita.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Gostaria de poder falar sobre Ouro Preto da mesma forma que o Paulão, antigo professor de História do Brasil do Anglo. Se não com as mesmas palavras com que ele me apresentou a cidade pela primeira vez, pelo menos com a mesma paixão com a qual ele descrevia Ouro Preto em sala de aula, falando da Inconfidência Mineira, e que fez com que um aluno, em um momento qualquer da década de 1980 desabafasse: “Pô, Paulão, por que você não leva a gente pra Ouro Preto ?”. Assim nasceu a primeira viagem do Anglo para as cidades históricas de Minas Gerais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei na aventura bem mais tarde, como convidado, e jamais esquecerei &lt;em&gt;cada detalhe&lt;/em&gt; da primeira vez que estive em Ouro Preto, em 1999. A paisagem surpreendente, o ar da montanha, a visão noturna do Colégio onde sempre nos hospedamos, a arquitetura da cidade explicada minuciosamente pelo Paulão. Nomes escritos com giz no chão do Colégio. Becos estreitos cobertos de névoa, ganhando ares de mistério. O frio da cidade contrastando com o fogo das paixões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, o aspecto mais encantador da viagem sempre foi a possibilidade do convívio entre as pessoas sem as restrições habituais do cursinho, como os horários rígidos balizados pelo toque do sinal ou mesmo o número excessivo de pessoas. Em Minas, os encontros se multiplicam e – sob o impacto das descobertas do dia ou mesmo da cachaça de Minas – acabam por transformar cada conversa em um Alegre Colóquio. Paulão era mestre no colóquio de botequim, falando de história, de música, da MPB que ele tanto gostava, das lembranças de viagens anteriores com outras turmas, de sua vida dura de estudante durante o regime militar. Paulão falava sobre o que era ser negro no Brasil. E tudo isso no meio de noites intermináveis, sob o espetacular firmamento de Ouro Preto, pelo menos antes que a névoa começasse a cair na alta madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Herdei a viagem em 2003 (estranha herança sem testamento), e imprimi o meu caráter ao roteiro: menos história do Brasil, mais história da Arte; menos pinga com mel, mais Filosofia. Foi quando fiz as minhas próprias descobertas, imediatamente compartilhadas com os alunos, como a obra do mestre Athaíde e seus anjinhos ou a igreja do Rosário e sua surpreendente fachada curva. Todavia, a parte que mais me honra nessa herança é a possibilidade de ser o novo anfitrião de Alegres Colóquios cada vez mais vibrantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As turmas de 2007 e 2008 foram talvez as melhores em todos os tempos, e passaram a fazer parte dessa longa corrente que dura já mais de vinte anos. E é isso que me empolga em manter a tradição da viagem: compartilhar descobertas, ir além da nossa experiência de cursinho limitada por quatro paredes, sentir o impacto da memória das minas, ter renovado o mesmo espanto que tive da primeira vez, ao contemplar o barroco mineiro (que me ensinou um novo olhar). Me empolgo ao proporcionar a todos a possibilidade de fazer parte dessa corrente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leio comentários no blog de pessoas que estiveram na viagem cinco, seis anos atrás e hoje acompanham minhas divagações: agora não são mais alunos, mas continuam sendo companheiros de descobertas. Fico sensibilizado e não consigo deixar de imprimir a esse post um caráter emotivo, assumindo o lado confessional que sempre tento evitar desde que inaugurei o blog.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço a todos que me lêem um convite para participar de Alegres Colóquios nas cidades históricas de Minas Gerais, do dia 22 ao 26 de julho (Anglo Sergipe), ou então de 27 a 31 (Anglo Tamandaré). Quem não for mais do Anglo que se sinta convidado do mesmo jeito, sempre fico feliz em receber ex-alunos no grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;..........................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na foto, a turma de 2007 descobre, perplexa, as imagens que se escondem nas sombras da escultura de Aleijadinho. As caras são ótimas: alguns enxergam, ficam encantados; outros ainda não e forçam a vista apertando os olhos. À direita, um menino esfrega as pálpebras, exausto. Nessa hora, minha explicação não basta: as pessoas tentam se ajudar umas às outras, tentam ensinar como olhar diferente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;........................&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;(postado originalmente em junho de 2009)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4775416692812811513?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4775416692812811513/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4775416692812811513&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4775416692812811513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4775416692812811513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/06/ouro-preto.html' title='Ouro Preto'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TAluORyS9JI/AAAAAAAAAVc/CEitn_RF3MQ/s72-c/C%C3%B3pia+de+s+franc+noite.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4210655110772213326</id><published>2010-05-30T09:51:00.008-03:00</published><updated>2011-05-14T23:18:00.792-03:00</updated><title type='text'>Whatever works</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TAJhNcxlurI/AAAAAAAAAVU/ALB6eKBhHSQ/s1600/hello+nietzsche.bmp"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 317px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5477046980526324402" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TAJhNcxlurI/AAAAAAAAAVU/ALB6eKBhHSQ/s320/hello+nietzsche.bmp" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trecho acima me veio logo à mente ao ouvir o monólogo que inicia o novo filme de Woody Allen, &lt;em&gt;Whatever works&lt;/em&gt;, e expressa de alguma forma a visão de mundo de seu personagem principal Boris Yelnikoff (interpretado por Larry David, aliás, um dos criadores de &lt;em&gt;Seinfeld&lt;/em&gt;). Essa visão nietzscheana esta presente, por exemplo, não só na sua desconfiança em relação ao “sentido” das coisas, mas à denúncia engajada de quem busca esse sentido. A visão mordaz da religião (facilitada pela estupidez explícita dos personagens religiosos do filme) e o elogio do acaso fazem parte do discurso nietzscheano de Yelnikoff.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além de uma certa propensão ao isolamento (e a constatação de que possuem mentes brilhantes não reconhecidas pelos seus contemporâneos, meros &lt;em&gt;inchworms&lt;/em&gt;), tanto o mal-humorado novaiorquino quanto o bigodudo alemão têm em comum a afirmação da pequenez do ser humano: somos nada, e nosso conhecimento e apenas uma frágil teia que construímos basicamente por que temos medo. Grãos de poeira jogados em um universo hostil, criamos fantasias que vão da moral à metafísica, da ciência à verdade, basicamente para nos sentirmos seguros. A metáfora da “teia” está no mesmo texto de onde foi tirado o fragmento que abre o post, &lt;em&gt;Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral,&lt;/em&gt; de 1873.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com essa visão, Yelnikoff surge como um personagem niilista, e contagioso, ainda por cima. A própria Melody incorpora seu olhar e reclama após voltar de seu primeiro “date” novaiorquino: pessoas vazias, riem de tudo, se empolgam com tudo. Ou mesmo quando ela cruza com um rapagão boa pinta, Perry Singleton, passeando com os cachorros: “Posso caminhar com você ?”; “Ah, tudo bem, tanto faz, afinal todos estamos condenados mesmo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Melody é a primeira a deixar de lado esse &lt;em&gt;niilismo passivo&lt;/em&gt; (sigo os parágrafos 22 e 23 do livro de Nietzsche &lt;em&gt;A Vontade de Poder&lt;/em&gt;). Sim, Melody aprendeu o niilismo passivo e logo passou a exercer o caráter destrutivo da visão de mundo de Yelnikoff, sempre pronto a não deixar pedra sobre pedra do universo de valores conhecido. Mas isso não satisfez Melody, ela seguiu em frente na sua busca... na sua busca por o quê ? Provavelmente na busca que ela iniciou quando fugiu de sua cidadezinha perdida no fim de mundo do Deep South norte-americano. Seguindo adiante com sua busca Melody passou a manifestar sintomas do que Nietzsche chamou de &lt;em&gt;niilismo ativo&lt;/em&gt;: não se trata de substituir um artigo de fé por outro, mas seguir em frente rumo à realização da própria vida. Melody não se acomoda, rompe com Yelnikoff, segue em frente subvertendo seus valores como, aliás, seus pais fizeram (de forma radical) após chegarem em Nova York. Melody e seus pais de alguma forma expressam a &lt;em&gt;vontade de poder&lt;/em&gt;, enquanto princípio criador e lei originária por trás de todo movimento do universo. São pessoas que estão se re-criando, enquanto Yelnikoff afunda na negatividade (até chegar ao ponto em que só a morte é solução).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Yelnikoff é mais arguto que pensamos, ele aponta para outro tema nietzscheano, inseparável do princípio da &lt;em&gt;vontade de poder&lt;/em&gt; (cuja explicação apenas esbocei logo acima): trata-se do &lt;em&gt;eterno retorno&lt;/em&gt;. Considerando, como princípio, a existência de uma força constante no universo atuando em tempo infinito, toda idéia de finalidade ou sentido passa a ser descartada (desde que descartemos também o princípio de um deus criador); da mesma forma, o tempo infinito faz com que todas as conjunções de força possíveis já tenham ocorridos e só devam se repetir (acredite, a “eternidade” é tempo pra cacete!). Se todos os momentos vividos devem se repetir infinitas vezes pela eternidade, melhor aproveitá-los, vivê-los em sua plenitude. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ao invés da ética cristã de responder pelos seus atos (e ser punido pelas faltas) no futuro, surge uma nova ética fundada em viver corretamente, aproveitando os momentos ao máximo (“s&lt;img class="gl_photo" border="0" alt="Adicionar imagem" src="http://www.blogger.com/img/blank.gif" /&gt;em prejudicar os outros”, acrescentaria Yelnikoff), para que sua repetição seja sempre bem-vinda. Sem buscar algum sentido ou finalidade, sem dogmas ou planos. Sem receitas. &lt;em&gt;Whatever works&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4210655110772213326?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4210655110772213326/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4210655110772213326&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4210655110772213326'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4210655110772213326'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/05/em-algum-remoto-rincao-do-universo.html' title='Whatever works'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/TAJhNcxlurI/AAAAAAAAAVU/ALB6eKBhHSQ/s72-c/hello+nietzsche.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4086780272046764034</id><published>2010-05-15T09:52:00.009-03:00</published><updated>2010-05-15T10:09:27.616-03:00</updated><title type='text'>Em busca da música perfeita</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S-6ZsCMbhuI/AAAAAAAAAUc/LZxAAuUo8M0/s1600/Louis+Armstr+c.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 276px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5471479579084031714" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S-6ZsCMbhuI/AAAAAAAAAUc/LZxAAuUo8M0/s320/Louis+Armstr+c.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se sobrou alguma coisa de Deus no Ocidente, ela se encontra no vasto repertório de imagens, plásticas ou mentais, que o Cristianismo criou nos últimos dois mil anos. E continua criando, queiramos ou não. Por exemplo, nas imagens de Inferno e Paraíso que se oferecem à imaginação para que sejam constantemente recriadas, e eu me divirto inventando infernos e paraísos possíveis. Minha preferida, de longe, é certa visão do Paraíso que tive um dia, quando ouvia &lt;em&gt;West End Blues&lt;/em&gt;, na gravação de Louis Armstrong em 1928, talvez&lt;em&gt; &lt;/em&gt;a &lt;em&gt;música perfeita&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei nisso pela primeira vez quando me perguntei sobre a trilha sonora do paraíso. Qual música é tocada no céu, sendo repetida por toda a eternidade sem que ninguém jamais enjoe ? Claro, não se trata aqui de pensar seriamente em paraíso e inferno, mas simplesmente descobrir uma música que, de tão boa, provoque nada menos que uma epifania. Pois então, ponha &lt;em&gt;West End Blues&lt;/em&gt; para tocar (&lt;a href="http://bit.ly/9C70GP"&gt;http://bit.ly/9C70GP&lt;/a&gt;) e compartilhe minha visão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;introdução, trompete&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Imagine que você agora morreu. A paisagem diante dos seus olhos, aparentemente desolada, é formada apenas por nuvens. (Talvez você vista um grande lençol branco, como o de Beatriz na &lt;em&gt;Divina Comédia&lt;/em&gt;). Trata-se das portas do céu e, por um instante, você imagina o que acontecerá, se haverá um julgamento, se sua entrada será permitida. Subitamente, soa um trompete, anunciando que algo irá acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;todos tocam juntos&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Por todos os lados, surge uma revoada de anjos mulatinhos, como os que foram pintados pelo mestre Ataíde na Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto. Eles tocam instrumentos, e flutuam à sua volta. Em pouco tempo, você percebe trombone, piano, clarinete, percussão. Alguns anjinhos talvez tragam uma lira nas mãos, mais para efeito visual do que sonoro (anjos &lt;em&gt;devem&lt;/em&gt; carregar liras, mesmo que silenciosas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;um trombone se destaca&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Um dos anjinhos toma a frente e sopra seu trombone. Ele é a cara do Raul de Souza. Você percebe que seu pé, descalço e mesmo sem querer, começa a acompanhar a música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;solo de clarinete com uma voz ao fundo&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Mais um anjinho surge à sua frente, agora tocando um clarinete. Sua música vem junto com uma voz que surge sabe-se lá de onde. Uma voz meio rouca, que diz palavras incompreensíveis. Seria Deus ? Mesmo sem entendê-lo, você se deixa levar pela musicalidade e, pela primeira vez, percebe que o chão onde se encontra é de nuvens: você flutua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;solo de piano&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Outro anjinho tem um piano. Ele toca sozinho agora (mas quantas mãos ele tem ?), e conforme toca, as nuvens vão se abrindo. Você percebe alguém se aproximando, um vulto, talvez ele traga um trompete nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;solo de trompete&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;É Deus. Ele se projeta das nuvens na sua direção, imenso, negro, tocando trompete. Como na imagem acima, como uma imagem em 3D no cinema. Ele segura a nota (si bemol ?) por um tempo infinito, talvez quatro compassos, e é justamente nesse momento que você começa a perceber o que é a eternidade. E Deus toca o instrumento usando todos os seus atributos: é divino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;final com piano&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando volta o piano, acompanhando o trompete, você já não tem mais dúvidas. É o Paraíso. E você faz parte dele.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4086780272046764034?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4086780272046764034/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4086780272046764034&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4086780272046764034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4086780272046764034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/05/se-sobrou-alguma-coisa-de-deus-no.html' title='Em busca da música perfeita'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S-6ZsCMbhuI/AAAAAAAAAUc/LZxAAuUo8M0/s72-c/Louis+Armstr+c.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-1812627630563236895</id><published>2010-05-09T15:33:00.004-03:00</published><updated>2010-05-09T21:24:33.338-03:00</updated><title type='text'>Da amizade</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S-cB3D3TYAI/AAAAAAAAAUE/A4dglp91lu0/s1600/a+friends.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5469342317906452482" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S-cB3D3TYAI/AAAAAAAAAUE/A4dglp91lu0/s320/a+friends.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sempre achei estranho que, quando criança, sempre tinha um “melhor amigo”, e depois de uma certa idade isso desapareceu. Deixei de ter amigos ou perdeu-se o sentido de destacar um deles como “o melhor”? Penso nos critérios que usava para eleger um melhor amigo: sobretudo, era necessário que a primazia da amizade fosse mútua, mas, além disso, o quê mais ? Talvez uma certa afinidade nas brincadeiras. Com M., meu melhor amigo dos 8 aos 10 anos, líamos Asterix furiosamente; sabíamos os diálogos de cor e nos divertíamos fazendo citações que os outros não entendiam (se estivesse no Twitter, acrescentaria o tópico &lt;span style="color:#3366ff;"&gt;#infâncianerd&lt;/span&gt;). Com L. melhor amigo dos 11 aos 13, o que nos unia era a paixão por carrinhos de ferro em miniatura (muito embora, para ele o valor das miniaturas estava nos carros propriamente ditos – tornou-se engenheiro –; enquanto para mim, a graça era a possibilidade de recriar o mundo em uma dimensão controlável – tornei-me historiador). Seja como for, já com 14 anos não tinha mais necessidade ou interesse em eleger o “melhor amigo”. Talvez porque com essa idade as prioridades sociais passassem a ser outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um texto em que Borges fala dessas estranhas “amizades inglesas, que começam por excluir as confidências e que logo também omitem o diálogo”. Esse trecho me faz pensar no estatuto que as amizades masculinas ganham com o tempo. Pois a partir de uma certa idade, surge a &lt;em&gt;experiência compartilhada do trabalho&lt;/em&gt;, criadora de laços que dificilmente podem ser chamados por outro nome que não amizade. Com os colegas de trabalho, não buscamos interesses comuns (ou estes aparecem apenas como secundários), apenas realizamos o trabalho que deve ser feito. Não há espaço para expor a interioridade, embora esta transpareça como parte de nosso ser (e um colega de trabalho atento irá percebê-la). No trabalho, simplesmente acumulamos a experiência do &lt;em&gt;viver junto&lt;/em&gt;, e com o tempo vai nascendo essa solidariedade das trincheiras, o sentimento de que estamos todos no mesmo barco, por mais estranheza que cause o colega ao lado. Não importam se seus interesses são distintos do meu ou não, não importa se sua interioridade é mais fraturada que a minha: o que importa é que amanhã estaremos lá, juntos, como estivemos ontem. No trabalho, eu não irei eleger a figura transcendente do “melhor amigo”, mas jamais irei deixar o colega na mão. Com o tempo, as amizades do trabalho começam a lembrar as amizades infantis, pois sabemos quais colegas compartilham dos nossos gostos ou manias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Interlúdio pop. &lt;em&gt;Friends&lt;/em&gt; parece louvar a amizade, mas é meio irreal: seus personagens são essencialmente infantis, aliás toda a graça da série vem de observar como crianças grandes lidam com as coisas da vida adulta. Por outro lado, &lt;em&gt;Seinfeld&lt;/em&gt; é mais real, ao mostrar uma rede de amizades masculinas (e Elaine é tremendamente masculina na sua relação com os rapazes). Toda a graça de &lt;em&gt;Seinfeld&lt;/em&gt; vem da forma sarcástica como eles se agridem ou tiram vantagem da fraqueza do outro no dia a dia; porém, na hora da necessidade, o amigo sempre estará presente. Os personagens de &lt;em&gt;Friends&lt;/em&gt; usam o termo “melhor amigo”, os de &lt;em&gt;Seinfeld&lt;/em&gt;, não.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estranho mesmo é a amizade entre homem e mulher, talvez a única forma possível de amizade adulta que não necessita nem da sociabilidade gerada pelo trabalho, nem do simples compartilhamento infantil de gostos e manias. Em uma amizade entre homem e mulher, cria-se uma cumplicidade e um grau de envolvimento encantadores, porém, sempre à beira do abismo: o risco da amizade transformar-se em algo além. Quando isso ocorre, valores que fundam a amizade são colocados em cheque: o desprendimento é substituído por um sentimento difuso de posse; a dedicação unilateral é substituída pelo desejo de ter algo em troca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o sentimento que leva a ultrapassar a amizade é mútuo, ela se transforma em outra coisa: uma relação, que deixa de ser objeto de minha reflexão. Mas quando esse sentimento é unilateral, então o melhor é tomar fôlego e construir uma travessia por cima do abismo: uma ponte, formada de &lt;em&gt;silêncio&lt;/em&gt; e que, depois de uma árdua superação e contando com o efeito analgésico do &lt;em&gt;tempo&lt;/em&gt;, acaba por levar a amizade para o plano mais elevado que possamos encontrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessas horas – e, sobretudo, durante a travessia – o importante é não olhar para o abismo. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-1812627630563236895?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/1812627630563236895/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=1812627630563236895&amp;isPopup=true' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1812627630563236895'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1812627630563236895'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/05/da-amizade.html' title='Da amizade'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S-cB3D3TYAI/AAAAAAAAAUE/A4dglp91lu0/s72-c/a+friends.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-6312641628459541662</id><published>2010-04-28T18:37:00.013-03:00</published><updated>2010-05-09T21:25:40.502-03:00</updated><title type='text'>Depois do espelho</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S9irBkx7FEI/AAAAAAAAATs/uRkOn3ChmR0/s1600/alice+mirror+b.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 295px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5465306191355384898" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S9irBkx7FEI/AAAAAAAAATs/uRkOn3ChmR0/s320/alice+mirror+b.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; (continuação)&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Alberto Manguel, em seu famoso ensaio sobre &lt;em&gt;Alice no País das Maravilhas&lt;/em&gt;, desenvolve o tema da irracionalidade do mundo capitalista, analisando o comportamento do Chapeleiro Maluco. Trata-se do arquétipo do burguês, dispondo daquilo que não lhe pertence (afinal, a mesa de chá, na qual ele é soberano, pertence ao Coelho) e profundamente egoísta: lembremos que cada vez que o chá acaba, todos avançam uma cadeira, ou seja, somente ele, Chapeleiro, primeiro da fila, terá sempre uma xícara limpa diante de si. A mesa de chá pode ser entendida como o próprio mundo, que se torna devastado após a passagem do burguês. Senhor do tempo (“Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu”, diz a Alice, ameaçadoramente), ele ainda exerce a censura (calando a boca de Alice, mal ela começa a falar) e jamais prestando conta de seus atos: ao final do livro, no Julgamento, o Chapeleiro recusa-se a tirar o chapéu que, afinal, não lhe pertence, ele é apenas um vendedor de chapéus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, voltando à busca de Alice, qual o resultado de sua jornada ? Em que momento da narrativa (se é que em algum) nossa personagem se reconcilia com si mesmo, respondendo à pergunta que não para de persegui-la, “quem é você” ? A resposta aparece logo no capítulo 1, embora Alice não se dê conta. Após beber de uma garrafa e começar a encolher, Alice teme diminuir até desaparecer. E pergunta: “Nesse caso, como eu seria ? E tentou imaginar como é a chama de uma vela depois que ela se apaga. Pois não conseguia se lembrar de jamais ter visto tal coisa”. Desatenta, Alice ! Pois ela sabe muito bem o aspecto que algo tem depois que desaparece. Poucas páginas antes, enquanto caía na toca do Coelho, Alice pensou em Dinah, sua gata, e observou que esta sentiria sua falta à noite. Ou seja, uma vez que Alice desaparece, a única coisa que restaria seria sua memória, a saudade de Alice. E é aqui que ela passaria , finalmente, a existir, a &lt;em&gt;ser&lt;/em&gt;: nós somos o que os outros percebem de nós. Nossa existência só é real na medida em que vivemos na mente de outra pessoa (metaforicamente, a gata Dinah).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com essa conclusão, a frase da Duquesa (cap.9), aparentemente uma das frases mais confusas ou insanas de todo aquele universo louco, ganha uma nova dimensão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“... e a moral disso é: ‘seja o que você parece ser’... Ou, trocando em miúdos, ‘Nunca imagine que você mesma não é outra coisa senão o que você poderia parecer aos outros do que o que você fosse ou poderia ter sido não fosse o que você não tivesse sido parecido a eles ser de outra maneira”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Através da memória, resgatamos essa presença na mente dos outros, portanto, nos damos conta da nossa existência. E a memória de Alice só irá ser provocada em Dinah porque entre as duas existe um afeto: a própria Alice passa a aventura recordando-se (chamando à memória) da sua gata querida. Nós só existimos nos outros - portanto, só percebemos nossa existência - quando provocamos afetos, que alimentam a memória e provocam a lembrança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, como diria a Duquesa: &lt;em&gt;“... e a moral disso é, ‘Oh, é o amor, é o amor que faz o mundo girar’ ”.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;...............................................................................&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[O ensaio de A.Manguel chama-se "À mesa com o Chapeleiro Maluco" e está no livro do mesmo nome (pela Cia.das Letras) / A observação da Duquesa lembra tremendamente o último verso da Divina Comédia, quando Dante se refere a "&lt;em&gt;l'amor che move il sole e l'altre stelle&lt;/em&gt;" / Agradeço ao pessoal do seminário PET-Direito (USP) pela inspiração].&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-6312641628459541662?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/6312641628459541662/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=6312641628459541662&amp;isPopup=true' title='21 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6312641628459541662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6312641628459541662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/04/depois-do-espelho.html' title='Depois do espelho'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S9irBkx7FEI/AAAAAAAAATs/uRkOn3ChmR0/s72-c/alice+mirror+b.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>21</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-208865037796236120</id><published>2010-04-25T09:29:00.008-03:00</published><updated>2010-04-25T14:57:26.702-03:00</updated><title type='text'>Que mundo é esse ?</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S9Q2q-3dBxI/AAAAAAAAATM/Xk1IhO22_Sg/s1600/cheshire_cat.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 193px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5464052359965247250" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S9Q2q-3dBxI/AAAAAAAAATM/Xk1IhO22_Sg/s320/cheshire_cat.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;"Sei que alguma coisa interessante sempre acontece – pensou – cada vez que eu tomo qualquer coisa; então vou só ver o que é esta garrafa".&lt;/em&gt; (Alice, 4)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"... mordiscou uma ponta do pedaço de cogumelo da mão direita para experimentar o efeito: num instante sentiu uma pancada violenta".&lt;/em&gt; (Alice, 5)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto das modas. Elas nos permitem pensar em coisas que, em outras circunstâncias, passariam desapercebidas. O mega-lançamento do super filme em 3D (que ainda não vi) “Alice no País das Maravilhas”, serve como desculpa para revisitar o clássico de Lewis Carroll, bem como para entrar em contato com a vasta bibliografia a seu respeito. Aproveitando os lançamentos – e todo fuzuê editorial – provocado pelo filme, tenho agora em mãos duas edições caprichadas de Alice, a da Editora Zahar (que inclui as figuras originais de John Tenniel, bem como a segunda história de menina, “Através do espelho”); e a da Editora Cosacnaify (com tradução e comentário de Nicolau Sevcenko e gravuras por Luiz Zerbini).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começando a leitura, descubro que jamais havia lido o texto original, mas apenas versões ou adaptações infantis. Além disso, há o peso da versão Disney em desenho animado, cujas imagens – que eu julgava esquecidas – me vêm à memória frequentemente ao ler as diversas cenas do livro. Mas, o que mais me chamou a atenção foi a riqueza da narrativa e a multiplicidade de leituras sugeridas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar, percebo que Alice é uma personagem que se entedia. Primeira página: “Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada ao lado da irmã na ribanceira, e de não ter nada que fazer...”. Fugindo do tédio, Alice parte em sua aventura, que pode ser considerada uma &lt;em&gt;busca&lt;/em&gt;. Alberto Manguel, leitor atento de Lewis Carroll, identifica na jornada de Alice uma semelhança com a busca de Ulisses na Odisséia. Em conversa com o gato Cheshire, já bem avançada a aventura, Alice pergunta sobre a saída, qualquer saída “desde que chegue em algum lugar”. E o gato observa que, nesse caso, tanto faz o caminho a ser tomado, lembrando do aspecto labiríntico da busca de Alice (sobre labirintos, veja o &lt;em&gt;post&lt;/em&gt; de 22 de março).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certamente a busca de Alice é nada menos do que a busca de si mesmo. Ou seja, de sua identidade. Logo ao entrar na toca do coelho, marcando o início da sua jornada, Alice &lt;em&gt;cai&lt;/em&gt;. Bem devagar, mas cai, e a perda do chão é uma metáfora forte demais para ser ignorada: trata-se da perda do referencial espacial mais básico. (Lembremos que no País das Maravilhas, o próprio Tempo tem um significado todo próprio, conforme o Chapeleiro Maluco revela a Alice em meio a um chá das 5 infinito). Aliás, os próprios pensamentos que passam pela cabeça de Alice durante aquela queda inicial sugerem uma tentativa de reafirmação de seu próprio eu: Alice observa atentamente e toca os objetos que vê durante a queda (guarda-louças, estantes de livros, potes de geléia – talvez buscando uma reconciliação com o espaço); Alice apela para a memória, lembrando de casa (e da opinião que teriam sobre ela, “corajosa” – é no âmbito do lar, ouvindo os pais, que a criança constrói sua primeira identidade) e lembrando de seus afetos (a gata Dinah, que “vai sentir minha falta essa noite”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já em meio às andanças pelo País das maravilhas, ou seja, durante sua busca, Alice cruza várias vezes com o questionamento explícito sobre sua identidade. Assim logo no começo da aventura, quando as coisas começam a acontecer de um jeito diferente, Alice pergunta: “Eu era a mesma quando me levantei esta manhã ?... Afinal, quem sou eu ? Ah, este é o grande enigma!”. Mais adiante, a lagarta pergunta, “Quem é você ?” e, no mesmo diálogo, Alice disse que está mudada depois que caiu no País das Maravilhas, e explica: “Não consigo me lembrar das coisas como antes”. Sem memória, como constituir uma identidade ? Diante da Pomba, ainda no mesmo capítulo, Alice, bastante “insegura”, balbucia: “Eu... eu sou apenas uma menininha !” Impossível maior precisão: “Com todas essas mudanças... nunca sei ao certo o que vou ser de um minuto para o outro”. Ou seja, ser implica em estabilidade, permanência. Criar hábitos. Alice não habita o País das Maravilhas, e essa é a fonte de sua insegurança, da perda do seu chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, existe algo de tremendamente perturbador nessas mudanças aparentemente insensatas que ocorrem no País da Maravilhas e que o aproximam do nosso mundo. Pois todas as esquisitices e estranhas mudanças que ocorrem no País das Maravilhas &lt;em&gt;seguem uma&lt;/em&gt; &lt;em&gt;racionalidade&lt;/em&gt;. Apenas não estamos habituados com ela. O gato Cheshire argumenta racionalmente para provar aquilo que foi identificado como sua “loucura”. Diz ele: “um cachorro rosna quando está zangado e abana a cauda quando está contente. Oras, eu rosno quando estou contente e abano o rabo quando estou zangado. Portanto, sou louco”. &lt;em&gt;Quod erat demonstrandum&lt;/em&gt;. O mais perturbador no diálogo não é a argumentação racional do louco provando sua suposta loucura, mas sim o fato de que por trás do comportamento pouco convencional do gato está um método, uma razão. O gato não rosna e abana a cauda aleatoriamente, há causas específicas que provocam cada um desses atos. Da mesma forma, quando a Lebre lhe oferece “mais chá”, Alice responde: “Como não tomei nenhum, não posso tomar mais”. Ao que o Chapeleiro Maluco, com lógica impecável, argumenta: “Você quer dizer que não pode tomar menos; é muito mais fácil tomar mais do que nada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui chegamos ao grande encanto do livro. Criando um País das Maravilhas cuja racionalidade resulta em episódios e comportamentos aparentemente loucos, Carroll põe em jogo uma reflexão sobre o nosso próprio “país”. Pois o nosso mundo também está fundado em um certa racionalidade, que instrui os nossos atos, constrói a nossa lógica. E muitas vezes o resultado de nossa ação racional aparece como loucura e nós simplesmente não enxergamos essas loucuras, de tão bem disfarçadas de razão que elas estão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;........................................................................ (continua)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-208865037796236120?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/208865037796236120/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=208865037796236120&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/208865037796236120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/208865037796236120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/04/que-mundo-e-esse.html' title='Que mundo é esse ?'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S9Q2q-3dBxI/AAAAAAAAATM/Xk1IhO22_Sg/s72-c/cheshire_cat.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2968428869099154735</id><published>2010-04-15T22:37:00.009-03:00</published><updated>2010-04-15T22:57:11.361-03:00</updated><title type='text'>Lugares malditos 2</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S8fBKZH2mJI/AAAAAAAAASk/khY6kY8Er24/s1600/C%C3%B3pia+de+mube+g+norm.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 107px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5460545457496692882" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S8fBKZH2mJI/AAAAAAAAASk/khY6kY8Er24/s320/C%C3%B3pia+de+mube+g+norm.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Museu Brasileiro de Esculturas – MuBE – foi inaugurado em 1995, uma placa comemorativa afixada em uma de suas paredes relembra a efeméride. A placa traz o suspeitíssimo nome do prefeito de então, ele, Maluf, e só isso já bastaria para caracterizar o Museu como um lugar maldito. Lembro da herança maldita formada por tudo que carrega o tenebroso rótulo de “obra de Maluf”, e que provavelmente resulta em dinheiro sujo circulando por aí em paraísos fiscais. Mas, sejamos justos, a obra toda foi demorada, tendo se iniciado em 1987 na gestão de, vejam só, ninguém menos que Jânio Quadros. Apesar desse passado, aproveitei a quinta-feira de sol para uma visita ao local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impossível não comparar essa visita com meu o último safári cultural, o Parque da Juventude no Carandiru. Semana passada chovia, fui parar nos espaços abertos e verdes da Zona Norte. Hoje fazia sol, me enfurnei naquela espécie de fortificação de concreto armado, naquele verdadeiro bunker da Chancelaria que é o prédio do MuBE.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo na chegada, o susto habitual: os onipresentes bancos de concreto sem encosto, totalmente refratários ao uso e estranha preferência dos arquitetos brasileiros. A arquitetura do prédio, orgulhosamente assinada por Paulo Mendes da Rocha – moderno que só ele – é exemplo típico daquilo que já chamei de “arquitetura de maquete”, tão bem apropriada para as linhas modernistas: empilhamento de volumes geométricos simples, que ficam lindos em uma maquete mas que, em escala humana, tornam-se francamente repelentes. Fico imaginado figuras como Jânio e Maluf, cuja competência em estética acredito ser duvidosa, contemplando a maquete e achando o máximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhando pelos espaços planos de concreto aparente da nossa Linha Maginot paulistana, uma surpresa: no Museu Brasileiro de Escultura praticamente não há esculturas ! Excetuando-se algumas obras &lt;em&gt;doadas pelos artistas&lt;/em&gt;, a sensação de abandono é total. Descendo nas entranhas do nosso U-bootbunker da Avenida Europa, encontrei alguns espaços com exposições temporárias de pintura. Em primeiro lugar, os quadros de um certo Carlos Araújo, inspirados em trechos bíblicos. Que se louve a coragem de alguém pintar uma Anunciação da Virgem Maria nos dias de hoje, mas o recinto todo da exposição era francamente apelativo: musiquinha sacra ao fundo, dezenas de fotos de Kim Phuc espalhadas pelo chão, em meio a lâmpadas acesas representando velas. Para quem não sabe, Kim Phuc é a famosa menina mártir da Guerra do Vietnã. Mais adiante, cruzei com uma exposição que reunia quadros surrealistas e abstratos de um mau gosto tremendo, ou, no mínimo, de uma irrelevância atroz. Finalmente, procurando um banheiro nos meandros de concreto da nossa Flakturm tropical, me perdi por um instante em espaços vazios, rampas desoladas e janelas que não iluminavam. Um laguinho de águas sujas com carpas infelizes completava o clima geral de desolação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a maldição do lugar continua. Atuando em terreno público e com prédio devidamente bancado pelo Município, o MuBE tem sido administrado pela Sociedade de Amigos do Museu. Não se estranhe essa nomenclatura, tal tipo de sociedade é bastante comum por todo mundo, como forma de administrar instituições culturais. A própria Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), de competência indiscutível, tem (ou teve) a sua sociedade de amigos. Pois os amigos do MuBE (ou “turma do MuBE”, como me parece mais adequado chamá-los), fracassou monstruosamente nos últimos muitos anos na tarefa mínima que deles se esperava: a montagem de um acervo para o Museu. E, o que é pior, nesses anos todos o espaço do Museu (não esqueçam, concessão pública) tem sido utilizado freqüentemente para todo tipo de festinhas e festonas, corporativas e particulares. O aluguel, obviamente, vai para o bolso da turma do MuBE, agora transformado em um verdadeiro Museu Brasileiro de &lt;em&gt;Eventos&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma pendência jurídica por aí. Ao que parece, o prefeito pediu a devolução da concessão, na prática, o afastamento da “turma”. A pendência vai se arrastando e, enquanto isso, contemplanos melancolicamente o nosso Luftschutzbunker do Jardim Europa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2968428869099154735?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2968428869099154735/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2968428869099154735&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2968428869099154735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2968428869099154735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/04/o-museu-brasileiro-de-esculturas-mube.html' title='Lugares malditos 2'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S8fBKZH2mJI/AAAAAAAAASk/khY6kY8Er24/s72-c/C%C3%B3pia+de+mube+g+norm.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8090848433742666409</id><published>2010-04-08T18:19:00.013-03:00</published><updated>2010-04-11T20:38:25.463-03:00</updated><title type='text'>Lugares malditos</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S75Lu1KzA4I/AAAAAAAAASc/_kW3tdCYrfU/s1600/parque-da-juventude.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 240px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5457883066338050946" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S75Lu1KzA4I/AAAAAAAAASc/_kW3tdCYrfU/s320/parque-da-juventude.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Toda cidade tem seus lugares malditos, onde a memória de uma grande catástrofe ou de muitos mortos sobrevive, em que pese a total remodelação do local. Em Paris, meu lugar maldito favorito é o aprazível parque Buttes-Chaumont, onde as criancinhas brincam alegremente sem saber que lá era o cadafalso da cidade, onde enforcados ficavam pendurados durante semanas, onde um poço fundo servia para despejar cadáveres e, eventualmente, algum vivo indesejável. Em São Paulo, temos o agradável Parque da Juventude na Zona Norte, construído no local da antiga penitenciária do Carandiru. Lembremos que em outubro de 1992 uma rebelião no presídio terminou com a invasão do complexo pela Polícia Militar e a morte de nada menos que 111 presos (muito embora já tenha ouvido pelo menos um relato de pessoa que esteve presente – um repórter – e que jura que o número de mortos foi bem mais elevado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, o tempo estimulante da quarta-feira (nublado, chuva fina) fez com que eu me deslocasse até o Parque para conhecê-lo. Descendo do metrô, quase um susto: falta de árvores (ou árvores mirradas) e bancos de concreto, daqueles sem encosto, quase que à prova de conforto. Mas, a primeira má impressão foi logo se dissolvendo. Entrando mais dentro no Parque, cruzei com uma paisagem agradável de grama impecavelmente cuidada em terreno suavemente ondulado, tendo como fundo uma mata densa, de árvores antigas [foto]. Descanso para os olhos após a vista agressiva da cidade no entorno. Pelos caminhos, bancos de madeira, com encosto !&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda caminhando, me deparei com o súbito surgimento do inesperado, aquelas pequenas surpresas que têm o poder de tornar tão agradável uma caminhada. Uma estátua simpática, uma estrutura de ferro em meio a árvores altas, uma ponte sobre o córrego (infelizmente fedido). Claro, notei uma freqüência estranha no Parque. Ninguém corria pelos gramados, ninguém jogava bola, os brinquedos infantis (de madeira) estavam às moscas. “Onde estão as crianças ?”, pensei. Talvez fosse o tempo frio. Mas havia pessoas no parque: casais jovens esgueirando-se entre as árvores, homens adultos caminhando sozinhos e de forma suspeita (imaginei que fosse a habitual fauna de tarados que sempre freqüenta parques. Depois pensei, “Ops, sou um homem adulto caminhando sozinho pelo Parque !”)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notei que o Parque era intensamente vigiado: PMs, Guarda Metropolitana, seguranças privados. De fato, alguns personagens simplesmente tenebrosos apareceram pelo caminho, imaginei que sem policiamento, aquele Parque seria um local assustador. Triste, mas essa é toda tragédia de nossas cidades: aqui jamais pode ser criado um espaço público agradável. Uma vez construído, esse espaço será transformado em residência por moradores de rua, em seguida atraíra foras-de lei em geral, incluindo aquela turma de pixadores que acha "bonito" a transgressão (e usa isso como justificativa para escrever o nome da crew nos muros, u-hu, estamos mudando o mundo ! Mais um espaço "liberado" da sociedade burguesa hipócrita !). Em seguida, vêm os traficantes, violência, abandono, degradação... quantas vezes não vimos o filme ?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Seja como for, reconheci o local em uns 15 minutos e me dirigi para o atraente e recém construído prédio da Biblioteca de São Paulo, em cuja Sala de Leitura eu pretendia passar algumas horas agradáveis. Levei até meu &lt;em&gt;sac aux livres&lt;/em&gt; à tiracolo, com o livro do Giannotti sobre Marx, o quarto volume da &lt;em&gt;História da Vida Privada&lt;/em&gt; e o &lt;em&gt;Dance, dance, dance&lt;/em&gt;, romance de Murakami, meu autor pop preferido. Porém, ao entrar na Biblioteca, uma surpresa: eu deveria deixar meus livros no guarda-volumes. Justificativa singela do funcionário:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É proibido entrar com livros na Sala de Leitura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lugar maldito. Saí de lá e pixei na primeira parede F*U*C*K*T*H*E*S*Y*S*T*E*M, com letras góticas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8090848433742666409?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8090848433742666409/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8090848433742666409&amp;isPopup=true' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8090848433742666409'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8090848433742666409'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/04/lugares-malditos.html' title='Lugares malditos'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S75Lu1KzA4I/AAAAAAAAASc/_kW3tdCYrfU/s72-c/parque-da-juventude.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-6624785592518301106</id><published>2010-04-03T12:18:00.008-03:00</published><updated>2010-04-05T17:54:46.341-03:00</updated><title type='text'>O mundo como ele é (ou: assépticos e insossos)</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S7deWW2N_NI/AAAAAAAAAR8/DroRzN39srY/s1600/kissing_grandpa.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 314px; DISPLAY: block; HEIGHT: 296px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5455933211765767378" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S7deWW2N_NI/AAAAAAAAAR8/DroRzN39srY/s320/kissing_grandpa.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S7ddi52xRiI/AAAAAAAAAR0/5qaXod5iu7U/s1600/copiste02.gif"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Os bárbaros estão à solta pela Europa; a devastação da epidemia faz igualmente vítimas; a tirania dos cobradores de impostos pilha os fundos e as fortunas escondidas nas cidades; os soldados se esgotam. Uma fome tão atroz e abateu, que sob seu domínio os homens devoraram a carne humana; mães degolaram seus filhos, os cozinharam, e com seus corpos saciaram a fome. Os animais, acostumados aos cadáveres daqueles que pereciam pela fome, pelo ferro, pela epidemia, matam os que ainda estão vivos: não contentes com a carne dos cadáveres, atacam a espécie humana. Assim, as quatro pragas do ferro, da fome, da epidemia e dos animais devastam o mundo inteiro, e as previsões do senhor pelos seus profetas se realizam.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para muitos, essas palavras soam familiares: trata-se de um trecho das crônicas de Idácio, bispo de Aquæ Flaviæ, cidade romana na península ibérica. Escrevendo no século V, Idácio presenciou os momentos finais do Império Romano, notadamente a invasão dos bárbaros suevos e seu estabelecimento no norte da península. Na suas crônicas – e particularmente no trecho acima – chamam atenção os aparentes exageros, por exemplo, ao falar de mães que degolaram e cozinharam seus filhos para aplacar a fome. Além disso, o bispo fala de animais atacando a espécie humana, afirmação que causa espanto se lembrarmos que ele vivia em uma cidade, e os tipos de animais com que ele cruzava (cães ? gatos ? galinhas ?) não me parecem muito ameaçadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A meu ver, o bom bispo até era bem intencionado: ele apenas descrevia o mundo de forma a adaptá-lo a suas, digamos, estruturas mentais. Impregnado de religiosidade e observando o que parecia ser o fim dos tempos (afinal, o poderoso e aparentemente inabalável Império Romano desmoronava), Idácio ajustava a realidade que via à narrativa bíblica que tinha na cabeça, e cuja verdade era inquestionável. E essa narrativa falava do fim dos tempos, da realização das profecias. Oras, ao final da Bíblia, no livro da Revelação ou Apocalipse, o apóstolo João descreve as visões que teve sobre o fim dos tempos, incluindo a terceira visão, onde aparecem os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (representando a Guerra, a Fome, a Epidemia e a Besta). Difícil para Idácio não julgar que presenciasse o Juízo Final, pois o Império desmoronava diante da Guerra (as agressivas incursões de povos bárbaros), que deixava um rastro de Fome e Epidemia (em corpos fragilizados pela ausência de alimentos). Para completar, faltava a Besta, sob a forma dos animais, e Idácio forçou a barra para adequar seu comportamento à profecia bíblica que tinha na cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa tendência é rir de Idácio, talvez com um sorriso condescendente: “Nossa, as pessoas eram tão bobinhas na Idade Média !” Ou então: “Olha só o que a religião faz com a cabeça das pessoas, impede que elas vejam o mundo como ele realmente é !”. Mas, me pergunto, será não fazemos o mesmo ? Será que não torturamos o mundo o tempo todo, para que ele se revele conforme nossas estruturas mentais ? Temos essa estranha dificuldade de enxergar as coisas “como elas realmente são”, a tal ponto que deveríamos colocar em cheque a própria existência de coisas “como elas realmente são”. Talvez as coisas não “sejam”: as coisas apenas “são” a partir da nossa elaboração. Ou seja, nossa percepção faz parte do Ser das coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada um, suas idiossincrasias O que me interessa aqui é apenas contrapor, em linhas gerais, a mentalidade de um bispo Idácio – que só consegue ver o mundo a partir da janela da Igreja – e a nossa, impregnada de racionalidade e cientificismo. Essa nossa janela ou filtro técnico-científico se manifesta, por exemplo, na crescente dificuldade que temos em lidar com nuances de comportamento. Sempre uso como exemplo a &lt;em&gt;melancolia&lt;/em&gt;, verdadeiro estado de espírito em extinção, substituída pela depressão. Diagnosticada a depressão (ou seja, uma vez construído um discurso científico sobre a depressão), ela se converte em doença, da qual fugimos. O resultado não é uma vida mais sadia, mas sim &lt;em&gt;viver com medo&lt;/em&gt;. Hoje, qualquer tristeza é sintoma, qualquer melancolia é suspeita – quando na verdade tristeza e melancolia são apenas estados de espírito, muito humanos, e apenas isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho a intuição de que a depressão causa um efeito colateral chamado “medo a depressão” e que, por sua vez, é fator causador de depressões. Me aprece um escândalo a forma como a medicina lida com isso. Seja como for, em outros tempos o melancólico escrevia um samba (“pois o samba é tristeza que balança...”), enquanto hoje ele busca um médico, tremendo diante do fantasma da depressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mesmo registro, certos estados de alegria ou euforia, que costumam ser descritos pelo discurso científico como resultado da liberação de endorfina na corrente sanguínea. Claro, a partir de uma descrição como essa, para que tentar ser alegre, se os efeitos da alegria podem ser provocados quimicamente através da ingestão de uma substância sintética ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o caso mais sério ainda me parece o das doenças degenerativas cerebrais. Antigamente, um velho ficava “gagá”; hoje em dia, uma pessoa idosa tem o mal de Alzheimer. Sem dúvida, a palavra “gagá” pode trazer algo de depreciativo, porém nos remete a um universo familiar, a uma linguagem de criança. Talvez na sua origem, a palavra “gagá” tenha sido usada pela primeira vez por um neto referindo-se ao avô. Já a palavra “Alzheimer” tem algo ao mesmo tempo tenebroso e áspero, na sua cientificidade germânica. O simples uso da palavra “Alzheimer” causa apreensão, nos remete a um mundo de corredores brancos, médicos de jaleco, cheiro de éter e, finalmente, de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aqui chego onde queria. A preponderância do discurso científico e a consequente multiplicação das patologias não apenas define a forma como vemos o mundo, mas também resulta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1 – na ingestão em larga escala de substâncias químicas, cujos efeitos finais mal conhecemos com exatidão.&lt;br /&gt;2 – na &lt;em&gt;Grande Internação&lt;/em&gt;, uma vez que TUDO pode (e deve) ser tratado. Aqui volta o exemplo dos idosos: o que é melhor para o paciente, ser tratado de Alzheimer no hospital asséptico ou permanecer no lar junto a pessoas queridas (como o neto que o chama de gagá) ?&lt;br /&gt;3 – no estreitamento do âmbito do &lt;em&gt;normal&lt;/em&gt;. Atualmente, a normalidade torna-se impossível, pois todos temos um desvio (e todo desvio foi classificado). Além disso, a plena normalidade torna-se não apenas inalcançável, como também insossa: não existe nada mais chato que o normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esse é o nosso mundo. Diante de cada nuance de comportamento há uma patologia, diante de cada problema um remédio. E o resultado final é nada menos que o &lt;em&gt;empobrecimento da experiência.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-6624785592518301106?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/6624785592518301106/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=6624785592518301106&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6624785592518301106'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/6624785592518301106'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/04/o-mundo-como-ele-e-ou-assepticos-e.html' title='O mundo como ele é (ou: assépticos e insossos)'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S7deWW2N_NI/AAAAAAAAAR8/DroRzN39srY/s72-c/kissing_grandpa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-945468755846928099</id><published>2010-03-22T09:59:00.006-03:00</published><updated>2010-03-24T14:22:50.511-03:00</updated><title type='text'>E depois da saída ?</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S6dp1NJXlYI/AAAAAAAAARk/Wj0mvRaJbXU/s1600-h/labirinto+mantova+da+vinci.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 279px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5451442236738213250" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S6dp1NJXlYI/AAAAAAAAARk/Wj0mvRaJbXU/s320/labirinto+mantova+da+vinci.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Existe em inglês a palavra &lt;em&gt;maze&lt;/em&gt;, que significa labirinto ou qualquer arranjo confuso, complicado. Com o acréscimo do prefixo &lt;em&gt;a&lt;/em&gt;- (no sentido de determinação de uma forma particular), temos o verbo &lt;em&gt;amaze&lt;/em&gt;, que significa surpreender ou espantar. Essa curiosa etimologia chama atenção ao fato de que a língua inglesa preservou o sentido de admiração que um labirinto provoca. Em que consiste essa admiração ou espanto ? Por que um labirinto costuma provocar algum tipo de reação extrema, que vai do medo ao encanto ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de mais nada, chamo atenção para a existência de duas formas de labirinto. A primeira, histórica, é aquela na qual o labirinto tem um centro, e a finalidade é justamente atingi-lo. Desde a Antiguidade, essa busca e nada menos que a busca pelo &lt;em&gt;sentido&lt;/em&gt;: um ponto fixo que, após atingido, provocaria o fim das angústias. A partir da época clássica, esse sentido só pode ser o conhecimento de si mesmo. A tarefa é árdua e implica em perigos, há monstros caminhando pelo labirinto. A lenda do Minotauro é bem a gosto dos gregos, da mesma forma que a Odisséia, na qual Ulisses, perdido em meio a mares e ilhas e lidando com mil perigos, jamais abandona o projeto de retornar ao seu lar mítico, o reino de Ítaca, centro de seu labirinto pessoal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tradição cristã incorporou a forma do labirinto, colocando em seu centro nada menos que a salvação. Alguns homens do Renascimento, como Leonardo da Vinci, impregnados de cultura grega, identificavam na busca da salvação o ideal socrático da busca de si mesmo. E brincavam com isso, jogando com a forma do labirinto como, por exemplo, no teto do Palazzo Ducale da cidade de Mantova (imagem acima), desenhado por da Vinci, que certamente deixou &lt;em&gt;amazed&lt;/em&gt; todos que o viram. Mais tarde, labirintos foram erguidos em jardins, para deleite da aristocracia do Antigo Regime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, existe uma outra forma de labirinto que se popularizou, talvez, a partir do século XIX. Essa segunda forma de labirinto – vamos chamá-lo de labirinto moderno – é aquela na qual entra-se por um lado e sai por outro. Ou seja, o objetivo não é mais atingir o centro, o &lt;em&gt;sentido&lt;/em&gt;, mas sim a &lt;em&gt;saída&lt;/em&gt;. Suas dificuldades serão superadas, há uma saída que leva necessariamente a algum lugar. Mas este não pode mais ser considerado o centro, o lugar de repouso e equilíbrio, o lar que encerra as dúvidas e incertezas. Além disso, não há monstros no labirinto moderno, o grande terror é simplesmente não encontrar a saída, permanecer perdido para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oras, há uma produção literária copiosa a partir do século XIX que lida com o deslocamento espacial: a viagem de um lugar para outro em busca de alguma coisa, embora o objetivo nunca seja o retorno ao centro, mas o caminhar permanente. Por exemplo, Marlow subindo o rio em o &lt;em&gt;Coração das Trevas&lt;/em&gt; ou mesmo Alice descendo ao País das Maravilhas. O &lt;em&gt;Quixote&lt;/em&gt; de Cervantes talvez tenha sido um precursor, em sua labiríntica região da Mancha. Borges levou a exploração e descrição dos labirintos ao extremo, leiam, por exemplo, o conto “A Biblioteca de Babel”. Já Fernando Pessoa explodiu seus limites: no &lt;em&gt;Livro do Desassossego&lt;/em&gt;, Bernardo Soares transforma o traçado geométrico do bairro da Baixa em Lisboa em um intricado labirinto, que ele percorre sem encontrar nem centro nem saída. Paradoxalmente, o errante Fernando Pessoa encontra-se hoje convertido em estátua, imobilizado em frente a um café lisboeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranho é o labirinto moderno, porque ele se funda na busca de uma saída que, uma vez encontrada, sugere a seguinte pergunta: e depois ? Pois o caminho prossegue. O que haverá depois da saída ? Talvez uma continuação do labirinto. A forma do labirinto moderno, comparado com o labirinto histórico, indica que a saída é externa ao ser. Assim, ele oculta o fato de que a busca continua, ele oculta o próprio fato de que existe uma busca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Proponho nada menos que um retorno ao labirinto histórico, com todos seus perigos. Sabemos que todos os perigos desse labirinto estão contidos em nós mesmos. O Minotauro é parte homem, parte monstro: ele constitui a parte monstruosa de cada um de nós. Pois a busca do sentido significa enfrentar nossos próprios monstros, e enfrentá-los, e exorcizá-los se possível. A maior angústia do labirinto histórico é nos colocar diante de nós mesmos, com tudo que somos, como que diante de um espelho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;* * * * * * * * * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha infância, no PlayCenter, havia um Labirinto de Espelhos. Ele me deixava aterrorizado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-945468755846928099?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/945468755846928099/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=945468755846928099&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/945468755846928099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/945468755846928099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/03/e-depois-da-saida.html' title='E depois da saída ?'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S6dp1NJXlYI/AAAAAAAAARk/Wj0mvRaJbXU/s72-c/labirinto+mantova+da+vinci.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2432648786198660694</id><published>2010-03-14T11:07:00.003-03:00</published><updated>2010-03-14T18:08:50.069-03:00</updated><title type='text'>Dois personagens ilustres</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S5zu1NLXOwI/AAAAAAAAARc/tai-iszvBxc/s1600-h/biblioteca_babel.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 207px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5448492247049255682" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S5zu1NLXOwI/AAAAAAAAARc/tai-iszvBxc/s320/biblioteca_babel.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Mindlin&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca dei muita bola para José Mindlin. Dele só sabia aquilo que se lê nas manchetes: empresário, rico, colecionador de livros. Apesar de não ter muito interesse ou curiosidade sobre sua pessoa, pensava que era bastante saudável um empresário gastar seu rico dinheirinho com livros e não com um mega apartamento em Miami e uma Ferrari na garagem. Porém, sempre me intrigou o uso do termo “colecionador de livros”. Seriam os livros objeto de coleção ? A manutenção de uma “coleção de livros” não seria a antítese de uma biblioteca ? Para pensar sobre o assunto, melhor começar com a identificação precisa do que é um objeto colecionável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoas colecionam selos, moedas antigas, imãs de geladeira, celulares ultrapassados, miniaturas de avião, latinhas de cerveja. Conheço pessoas que colecionam pedras e carros antigos. Leio sobre coleções de bonecas Barbie, curiosamente sempre mantidas por homens. Pensando em exemplos de objetos colecionáveis, pode-se começar a perceber suas características: são objetos materiais que não tem mais uso prático. Selos e moedas tornam-se objeto de coleção quando antigos, sem valor. Bonecas são colecionadas por homens adultos. Eu mesmo, quando criança, colecionava mapas de cidades do mundo: adulto, passei a visitá-las e a coleção deixou de existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desprovidos de uso prático, os objetos colecionáveis ganham valor com o tempo: a raridade é um atributo sempre desejado nesse tipo de objeto. Finalmente, objetos colecionáveis permitem a formação de uma série, estando abertos à classificação. Gosto de pensar que todo colecionador tem algo em comum: um certo tipo de mente, uma propensão a arquivista. Mais ainda, os colecionadores parecem ter um desejo de ordenamento do mundo, o que reflete, certamente, uma sensação de estranhamento diante do mundo. Desajustado no mundo, o colecionador busca ordená-lo, passando a ser "dono" de uma coleção, senhor supremo de uma fatia desse mesmo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há dúvida que os livros passam longe de toda essa caracterização de objeto colecionável, pois o que dá valor ao livro não é necessariamente sua materialidade. Me parece que um “leitor de livros” tem uma relação muito mais estimulante com livros do que um mero “colecionador de livros”. Reconheço que a materialidade do objeto livro é um dado em si, e a própria preservação de livros antigos é um trabalho de inestimável valor. Mas, ainda assim, a idéia de uma coleção de livros soa mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a coleção de livros é a antítese de uma biblioteca. Uma biblioteca é algo vivo, dinâmico, a que se tem acesso através da leitura. Muitas vezes algumas pessoas visitam meu apartamento e, após passarem pela biblioteca (que estranhamente é caminho obrigatório para o banheiro), perguntam, “Puxa, Gian, quantos livros ! Vc já leu todos ?”. Costumo responder coisas como: “Não, os dicionários, por exemplo, só li pela metade” (Umberto Eco diverte-se criando respostas novas para essa pergunta) . O fato é que bibliotecas não são depósitos de livros, lidos ou não lidos, colecionados ou não, classificados ou meramente empilhados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas os objetos colecionáveis podem trazem outra característica. Muitas vezes, eles lidam com a memória. Assim, uma coleção acaba criando um espaço que transporta seu dono para algum lugar no passado. O ato de colecionar é mexer com esse passado, trazê-lo de volta e, quem sabe, reordená-lo. O colecionador se sente à vontade diante de sua coleção, e talvez aqui possamos entender o colecionador de livros, que simplesmente sente-se bem cercado de prateleiras cheias. Mindlin, que eu saiba, jamais escreveu algo como uma tese: o conteúdo dos seus livros nunca originou um pensamento original que merecesse ser divulgado. Porém, escreveu vários livros sobre sua coleção de livros, descrevendo as edições, explicando as condições que resultaram em uma determinada aquisição ou como foi obtida uma certa dedicatória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após sua morte, fiquei sabendo que a biblioteca de Mindlin era aberta, e parece que o próprio empresário facilitava a atuação de pesquisadores interessados em consultá-la. Assim, ele acabou convertendo sua coleção de livros em algo muito maior, uma verdadeira biblioteca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Glauco&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para minha geração, Glauco não era apenas “aquele cara que desenhava na Folha”, mas um dos responsáveis pelo furacão que foi a produção de quadrinhos paulistana nos anos 1980. Não só ele, mas também Laerte e Angeli, o grupo conhecido como “Los Três Amigos”, título de uma série hilariante desenhada a seis mãos. Em uma época meio conservadora (como a atual) Glauco pôs em cena nada menos que um solteirão encalhado que queria transar com a mãe, o Geraldão, além de outros personagens impagáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia de sua relação com a religião. Não sabia que sua religião era baseada no santo Daime. Não sabia que pessoas auto-intituladas Jesus Cristo batiam à sua porta. Só sei que tudo isso é uma pena.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2432648786198660694?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2432648786198660694/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2432648786198660694&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2432648786198660694'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2432648786198660694'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/03/dois-personagens-ilustres.html' title='Dois personagens ilustres'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S5zu1NLXOwI/AAAAAAAAARc/tai-iszvBxc/s72-c/biblioteca_babel.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8665515504828107047</id><published>2010-03-03T17:34:00.012-03:00</published><updated>2010-03-03T19:55:24.910-03:00</updated><title type='text'>Hey, apple !</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S47IC5M2YzI/AAAAAAAAARU/cFIiW-uRl6g/s1600-h/orange+a.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 293px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5444508951577518898" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S47IC5M2YzI/AAAAAAAAARU/cFIiW-uRl6g/s320/orange+a.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para quem não a conhece, trata-se da Annoying Orange, uma laranja tremendamente chata que vive perturbando os outros, quase sempre a partir da mesa ou bancada de cozinha onde vive. Em seus vídeos a Annoying Orange inferniza a vida de: uma maçã (Apple, sua vítima preferida, que a Annoying Orange busca sempre reencontrar), uma abóbora, uma pera, um tomate, um maracujá, um grapefruit, uma berinjela, duas bananas, um limão e outras laranjas; mas também do Papai Noel, de uma bola de futebol americano, outra de &lt;em&gt;soccer&lt;/em&gt;, de um iPhone (que a laranja confunde com uma maçã – “Hahahaha, get it ? An Apple !” - diria a Annoying Orange), um Blackberry e do Jigsaw (o vilão da série de filmes “Jogos Mortais”).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus vídeos curtos (apenas dez, até agora) podem ser vistos em &lt;a href="http://bit.ly/8Raq3y"&gt;http://bit.ly/8Raq3y&lt;/a&gt; , e eu lembro da primeira vez que li uma referência à respeito, meio por acaso, ano passado, no Twitter. Desde então, tornei-me cada vez mais um fã da série e fui lentamente desvendando a personagem. Descobri que sua chatice reflete uma alma trágica, que vive em busca de companhia e, sobretudo, de aceitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Annoying Orange é um personagem trágico por ser tremendamente solitário e infeliz na sua solidão. De fato, a Annoying Orange contempla a vida de uma posição absolutamente passiva, fruto de sua incapacidade de movimento e de suas sérias deficiências físicas: não tem braços nem pernas, sequer possui um nariz. Porém, essas deficiências jamais são vistas como obstáculos ou limitações, pelo contrário. A Annoying Orange passa o tempo todo exibindo suas proezas físicas, por mais que estas se limitem a coisas como: mover freneticamente a língua (fazendo ruídos), arrotar, cuspir sementes, cuspir suco de laranja, soprar bolhas de cuspe e tentar encostar a língua no nariz (mesmo não tendo nariz). Mas o que mais alegra a Annoying Orange é cantar e, sobretudo, contar piadas, sendo para isso necessário uma audiência que ela aguarda ansiosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ausência de companhia esvazia sua vida. “I’m bored” é seu comentário habitual nessas horas, “bored, bored, bored”. A chegada de outras frutas ou objetos é capaz de transfigurar a Annoying Orange, que imediantamente abre um imenso sorriso e começa a conversar. Na verdade, a Annoying Orange dispara uma série aparentemente interminável de piadas, que expressam um uso muito criativo da língua, multiplicando os jogos de palavra, expressões de duplo sentido e denominações originais. Assim, para a criatividade infinita da Annoying Orange um tomate torna-se um &lt;em&gt;toe-may-toe&lt;/em&gt;, uma abóbora (&lt;em&gt;pumpkin&lt;/em&gt;) torna-se &lt;em&gt;plumpkin&lt;/em&gt;, Santa Claus torna-se Sandy Claus (após confessar que gosta de praia) e uma grande berinjela roxa torna-se ninguém menos do que o dinossauro Barney. Muitas vezes, é verdade, seu humor beira a escatologia. Seja como for, nada inibe a Annoying Orange em sua busca de contato “humano”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seu caminho, a Annoying Orange encontra a maçã, Apple, por quem ela nutre um grande afeto. De fato, em diversos episódios a Annoying Orange imagina ter reencontrado sua querida Apple, o que sempre lhe causa muita alegria. A solidão faz com que a Annoying Orange busque desesperadamente alguém, como a abóbora (que ela confunde com uma grande laranja, “um irmão mais velho”). Isso para não falar do maracujá, fêmea, que visivelmente seduz a Annoying Orange.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, as frutas que passam pelo caminho da Annoying Orange costumam ter um fim miserável: quase sempre são “mortas” a golpes de faca manipulada por um humano, de quem só vemos o braço. E aqui começo a explicar porque a Annoying Orange tanto me encanta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A morte das frutas a golpes de faca quase sempre ocorre após um momento de desabafo, em que elas reclamam da chatice da Annoying Orange e pedem desesperadamente que as deixe em paz. Assim, no primeiro episódio, a Apple dá uma bronca imensa na Annoying Orange e pede que ela se cale: “I can’t even hear myself thinking ! - segue-se o golpe de faca, matando a maçã. No segundo episódio, a abóbora também pede que a Annoying Orange se cale, destruindo suas ilusões ao dizer, quase gritando “I’m not your brother!” - segue-se a faca, matando a abóbora. No quinto episódio, a Annoying Orange encontra outra laranja, tremendamente arrogante, que diz, “I tell the best jokes in the world!” - segue-se o golpe de faca matando a laranja arrogante, e assim por diante. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Chama atenção que, em todos os casos: 1) a Annoying Orange anuncia o golpe friamente, dizendo: &lt;em&gt;knife&lt;/em&gt;; 2) suas mortes sempre ocorrem após uma demonstração de arrogância ou de recriminações feitas ao comportamento da Annoying Orange. Oras, certa ocasião, revendo um dos vídeos pela centésima vez, me ocorreu que antes de cada morte a Annoying Orange talvez não diga &lt;em&gt;knife&lt;/em&gt;, mas &lt;em&gt;naive&lt;/em&gt;. Isso aponta para a possibilidade de a Annoying Orange ter um olhar tremendamente crítico sobre as outras pessoas, ou melhor, frutas. Sempre que uma delas exibe um comportamento arrogante ou tenta ensinar modos e dar uma lição de moral, a Annoying Orange friamente percebe como elas são bobas, inocentes, dizendo, &lt;em&gt;naive&lt;/em&gt;. É como se ela dissesse: “De que adianta tudo isso ? Para que essa pose toda, vamos todos morrer um dia ! Vc fica aí fazendo pose e mal sabe que uma faca vai despencar sobre sua cabeça a qualquer momento".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A Annoying Orange lembra que, como as demais frutas, talvez não devessemos nos levar assim tão á sério. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8665515504828107047?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8665515504828107047/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8665515504828107047&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8665515504828107047'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8665515504828107047'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/03/hey-apple.html' title='Hey, apple !'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S47IC5M2YzI/AAAAAAAAARU/cFIiW-uRl6g/s72-c/orange+a.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4220250624820309889</id><published>2010-02-28T09:35:00.007-03:00</published><updated>2010-02-28T09:41:44.354-03:00</updated><title type='text'>Duas culturas</title><content type='html'>Metrô de Paris: coelhos meigos .&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 207px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5443272302380021634" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S4pjUb8Vd4I/AAAAAAAAARE/f19418XszyA/s320/lapin+01.jpg" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Metrô de Tóquio: kamikazes alucinados. &lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 226px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5443272651402684978" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S4pjowJ0qjI/AAAAAAAAARM/jC_TZiedR6g/s320/tokyo+metro.gif" /&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4220250624820309889?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4220250624820309889/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4220250624820309889&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4220250624820309889'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4220250624820309889'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/02/duas-culturas.html' title='Duas culturas'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S4pjUb8Vd4I/AAAAAAAAARE/f19418XszyA/s72-c/lapin+01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4478225088236491006</id><published>2010-02-25T10:42:00.022-03:00</published><updated>2010-12-20T10:30:30.085-02:00</updated><title type='text'>"Foodies"</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S4aAqIwaZ0I/AAAAAAAAAQ0/yHJStu2cC_Q/s1600-h/tang-wei-interview.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 228px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5442178661117224770" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S4aAqIwaZ0I/AAAAAAAAAQ0/yHJStu2cC_Q/s320/tang-wei-interview.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;– Amanhã eu vou levar a Dani até Santos para ver a avó, daí eu aproveito e dou uma esticada até o Guarú pra pegar onda. &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A informação foi gritada na mesa ao lado, por um rapaz muito grande, muito forte, que mal sentou à mesa e já começou a falar no celular em um volume muito maior do que o ambiente permitia. Muitas pessoas fazem isso, elevam o volume alguns decibéis quando falam ao celular. Outras – percebam, é muito curioso ! – aumentam o volume quando falam de algo de que se orgulham. Avós falando dos feitos dos netos, pessoas tolas falando de seus estilos de vida glamurosos, o Gian citando Nietzsche. (Sério, uma vez me vi fazendo isso e olhando para o lado, para perceber se as pessoas repararam na minha erudição. Quando me dei conta que ninguém sequer dava a bola para mim, percebi a arrogância).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ambiente em que eu me encontrava era um restaurante excepcionalmente bom, mas também excepcionalmente cheio de novos-ricos. Suspeitei disso na primeira vez que lá fui, e agora confirmava meus temores na segunda vez que visitava o lugar. O grupo ao meu lado incluía não só o surfista de fim de semana, mas também uma mulher extremamente perfumada (que felizmente sentou na cadeira mais distante; seu caro perfume não iria estragar meu paladar) e uma terceira pessoa, mais discreta. Assim que o troglodita falastrão desligou o celular, virou para seus amigos de mesa e disse, no mesmo volume de sua conversa telefônica:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;– Então.... amanhã eu vou levar a Dani para Santos para ver a avó, daí eu aproveito e dou uma esticada até o Guarú pra pegar onda.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O sentido todo dessa conversa não é, pela enésima vez, exibir minha intolerância (como sempre, coberta por uma espessa máscara de civilidade), mas observar que, de fato, existem infinitos fatores que fazem da refeição uma experiência prazerosa, e o &lt;em&gt;entorno&lt;/em&gt; é fundamental. Como usufruir de um suculento &lt;em&gt;côte de boeuf niçoise&lt;/em&gt; ouvindo gritos na mesa ao lado ? Como aproveitar um borgonha Dominique-Laurent sentindo o aroma de &lt;em&gt;J’Adore&lt;/em&gt; que vem da perua mais próxima ? Uma grande refeição pede alguma seriedade e há outros fatores, além da comida, que são fundamentais no sentido de elevar a experiência. Por exemplo, recentemente concluí que apreciar uma refeição tem algo a ver com o suave estado de euforia provocado pelo vinho, uma vez que ele aguça os sentidos. Outro exemplo: uma grande refeição pede uma certa preocupação estética e, convenhamos, todos nós por aqui aprendemos isso com a culinária japonesa a partir dos anos 90.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que eu gosto de gritar em certas mesas (ou &lt;em&gt;debaixo&lt;/em&gt; de certas mesas, mas é melhor não entrar em detalhes aqui). Claro que os perfumes Dior são provocantes e sedutores. Claro que eu como coisas acompanhadas de coca-cola. Claro que eu como gororobas feiosas e gosmentas tipo vatapá, aliás eu adoro vatapá. Mas cada coisa em seu lugar, e comportamentos adequados nos locais adequados são uma expressão da tal civilidade que se confunde com arrogância. Uma refeição deve expressar essa civilidade, essa adequação ao local. Diria até que uma refeição pode ser uma experiência tão rica que, no seu apelo a todos os sentidos, se aproxima da &lt;em&gt;Gesamtkunstwerk &lt;/em&gt;de Wagner, a obra de arte total. Sim, citações em alemão também têm algo de arrogante, fazer o quê ? Não dá mais pra voltar atrás e mudar o repertório da minha vida. Sigamos em frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anthony Bourdain, meu cozinheiro pop preferido, nos diz coisas interessantes. Ele é um grande crítico da arrogância no trato com a comida, com a vida - claro, ele denuncia a arrogância enquanto belisca, por exemplo, um &lt;em&gt;coronet de tartare&lt;/em&gt; de salmão, mas isso não vem ao caso. O fato é que Bourdain observa que, se perguntarmos a um condenado à morte qual seria sua preferência para uma última refeição, ou seja, qual o sabor que ele gostaria de levar como última lembrança terrena, a resposta jamais seria uma refeição gloriosa de um chef premiado em restaurante superior. Na hora H, todos dispensariam as novas sensações, refugiando-se no inesperado: o feijão com arroz que se comia na infância, o bolinho de chuva que a vó fazia, a pizza da esquina nos sábados à noite em Praia Grande quando não se tinha mais o que fazer. E aqui contemplamos o eterno retorno da &lt;em&gt;bête noire&lt;/em&gt; do blog: a memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As grandes experiências gastronômcias brincam com nossa memória. Cada gosto que sentimos imediatamente provoca mil lembranças, e isso acontece mesmo quando não encontramos nele nenhum paralelo, nada para comparar. Nesse caso, estamos diante do “gosto novo”: não uma mistura de gostos antigos, mas algo essencialmente novo, e isso é uma experiência e tanto, pois cria-se uma nova camada na memória. Diante de uma experiência tão íntima como essa, chamamos as pessoas queridas, e compartilhamos com elas a nossa mesa, nossa memória, nossa intimidade. Há algo de profundamente social, de humano em uma refeição compartilhada. Tal reflexão nos faz entender melhor a experiência oposta, o significado dos refeitórios e dos “por quilo” da hora do almoço. Diante de simples colegas de trabalho, nada de intimidades; no lugar de uma refeição séria, apenas uma experiência alimentar quase que pré-histórica, pré-civilização: sair para buscar a comida, tendo como arma uma bandeja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto ao episódio que iniciou o blog. Na mesa ao lado, um quarto convidado chegou, pouco mais tarde que o trio original. Logo que sentou, perguntou para todos na mesa, “E aí, o que vocês vão fazer no fim de semana ?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O troglodita sorriu, preparando sua resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;..................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[PS: A foto do post não tem nada a ver, apenas cansei de abrir o blog e ver essa imagem deprimente logo abaixo, sobre trotes. Então, resolvi dar o primeiro passo no sentido de transformar o blog em &lt;em&gt;Gesamtekunstwerk&lt;/em&gt;: apresentar uma imagem bela, na sua aparente simplicidade. A moça é Tang Wei, conhecida pelo filme &lt;em&gt;Desejo e perigo&lt;/em&gt;. O fotógrafo, infelizmente, ignoro. Já o restaurante onde ocorreu o episódio citado é o Pomodori.]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4478225088236491006?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4478225088236491006/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4478225088236491006&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4478225088236491006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4478225088236491006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/02/amanha-eu-vou-levar-dani-para-santos.html' title='&quot;Foodies&quot;'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S4aAqIwaZ0I/AAAAAAAAAQ0/yHJStu2cC_Q/s72-c/tang-wei-interview.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2015194987044754200</id><published>2010-02-17T10:22:00.012-02:00</published><updated>2010-02-17T10:47:10.254-02:00</updated><title type='text'>Tá rindo de quê ?</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S3viCKDtOEI/AAAAAAAAAQM/zb7sieiGTqo/s1600-h/a+trote+3.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 244px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5439189501667522626" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S3viCKDtOEI/AAAAAAAAAQM/zb7sieiGTqo/s320/a+trote+3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nada como viajar. Onde mais poderia recolher essas cenas ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 1: Estação do metrô Montparnasse, 18h, muito movimento. Na catraca, meu bilhete não é aceito, sabe-se lá porque. Ao dar meia volta para tentar passá-lo novamente, causo um transtorno infinito na multidão em movimento. à minha frente, uma jovem senhora diz: “Passe comigo, rápido”. Hesitei por uma fração de segundo. Seu impulso de bondade significaria que eu seria obrigado a passar pela catraca dando-lhe nada menos que uma bela e inevitável encoxada. “Allez-y!”, disse ela, e eu fui, meio envergonhado, balbuciando um “Merci beaucoup”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 2: A agência de turismo, por um motivo qualquer, não fez a reserva para a visita ao Museu d’Orsay. Tendo chegado antes do grupo, me apressei em fazê-la. Infelizmente, o número de telefone do serviço de reservas não respondia, passei uma manhã inteira no Hotel ligando sem sucesso. Saindo a tarde, acho o número do telefone do Museu no bolso do sobretudo e resolvo ligar de uma cabine telefônica, assim, no meio do nada. Claro, dessa vez fui atendido. Infelizmente, não lembrava de meu endereço em paris (somente o nome do Hotel), não tinha nem acesso a email com impressora e nem fax para receber o documento de reserva e, sem lápis ou caneta, não consegui memorizar o número da minha reserva. Meio pessimista, desliguei o telefone. Pois a funcionária pesquisou os hotéis de Paris, ligou para meu hotel, confirmou que eu estava hospedado, enviou o fax e disse que eu não precisava me preocupar com o número da reserva. No dia, sequer foi cobrada a entrada no Museu, pois todos acreditaram na minha palavra de que era professor e aqueles eram meus alunos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena 3: A doce Idália, nossa guia em Lisboa, conversando com o grupo do ano passado. Os alunos ficaram perplexos ao saberem que ela não cursou uma Universidade, mesmo sendo uma pessoa tremendamente culta, bem falante e com amplo domínio da história dos locais visitados e da cultura portuguesa em geral. Para uma certa classe média brasileira não ter ensino superior é quase sinônimo de ignorância.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que significa tudo isso ? Acredito que tais cenas exponham nossas fraturas. Na cena do metrô, a jovem senhora foi gentil e minha primeira reação foi maliciosa. Seu ato, impulsivo e irrefletido (dada a própria rapidez da situação) expressa um universo de valores: se um cidadão tem dificuldades, devo ajudá-lo. (Imagine a mesma cena no Brasil ? A jovem senhora jamais iria oferecer uma gentileza dessas, sob o risco de ter que aguentar no mínimo uma conversa fiada do tipo "Oi, você vem sempre nessa catraca?") Trata-se, sobretudo, de valores republicanos, fundados na igualdade e respeito mútuo dos cidadãos. Se não houver essa confraternização mínima na sociedade civil, como exigir algo do Estado ? Se trato os demais cidadãos como objetos a serem usados em meu benefício, como exigir que o Estado não faça o mesmo ? (Sem inocência: não sei se a jovem senhora, modelo de cidadania, agiria da mesma forma se eu não fosse branco e aculturado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí a segunda cena, da moça do Museu que agiu como se deve: se um grupo de estudantes (ainda mais estrangeiro) quer visitar o Museu, a principal obrigação do funcionário é prestar toda ajuda possível. Que diferença de nossa prática tropical e anti-republicana ! Entre nós, o que importa é criar hierarquias, definir limites e afirmar uma posição de superioridade a partir desses limites. (Reflexo, talvez, da sociedade escravocrata, essa pesada herança que ainda carregamos e que fazia com que fosse fundamental definir uma demarcação dizendo: &lt;em&gt;não sou escravo&lt;/em&gt; ou &lt;em&gt;não sou mais escravo&lt;/em&gt; ou, melhor ainda, &lt;em&gt;nunca fui escravo&lt;/em&gt;). Quantas vezes não observamos o funcionário que vê na sua função uma forma de exercer o seu poder, de estabelecer uma linha demarcatória ? No Brasil, o padrão do funcionário público (ou do funcionário, em geral, sobretudo quando uniformizado; a esse respeito, lembre-se do post “Pequenos Poderes”, &lt;a href="http://bit.ly/cW2yfM"&gt;http://bit.ly/cW2yfM&lt;/a&gt; ) é criar o máximo de dificuldades, podendo assim multiplicar ao infinito as situações em que ele exerce sua autoridade, vista como algo a ser usufruído. Se me humilham na vida cotidiana, eu me vingo sempre que estou por trás do balcão ou cada vez que visto meu uniforme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui chego onde queria. O trote, alegremente praticado nesses dias abafados de baixo verão. Sempre tenho vontade de perguntar aos calouros, quando se submetem sorridentes às humilhações mais atrozes: “Tá rindo de quê” ? A frase do ano foi recolhida pela &lt;em&gt;Folha de São Paulo&lt;/em&gt;, em entrevista com calouro da USP. Em meio a sorrisos, o rapaz disse: “É meio humilhante, mas a gente agüenta porque, em compensação, poderemos fazer o mesmo nos calouros no ano que vem”. Sen-sa-cio-nal. Submeter-se à humilhação está justificado, pois dá o direito de humilhar outras pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que estranho raciocínio é esse ? O sentido do trote leva á sua perpetuação, uma de suas justificativas essenciais é fazê-lo continuar existindo. A participação no ritual do trote, por parte dos calouros, significa: &lt;em&gt;Estou dentro,&lt;/em&gt; existe uma linha estabelecida que foi ultrapassada. Agora, assim como o funcionário que inferniza a vida das pessoas, vou exercer o trote para deixar bem claro, &lt;em&gt;Eu sou do grupo, eu posso aquilo que os outros não podem&lt;/em&gt;. Em última análise: eu agüento o trote porque isso me faz superior às outras pessoas. O fedor do fascismo torna-se subitamente muito forte. Como no fascismo, é punido quem não participa da verdade estabelecida (e nos rituais que visam celebrá-la, como o trote). Fugir do trote significa ser vítima de não-socialização, aquele que recusa o trote torna-se um pária na faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, a última cena, que confirma a forma como fetichizamos a Universidade, como a consideramos um desses limites que ajudam a definir hierarquias sociais. “Como assim a Idália não fez faculdade ? Mas ela é &lt;em&gt;uma das nossas&lt;/em&gt; ! Ela é tão legal, tão esperta...!” No mesmo registro, da fetichização da Universidade, uma constatação surpreendente, também recolhida em viagem: em Paris, turistas brasileiros, e somente brasileiros, tiram foto diante da Sorbonne, lá na entrada da rue des Écoles. Uma cena que surpreende alguns passantes, e que testemunho já há anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cumprindo alegremente a função de incomodar a vida das pessoas (tarefa imprescindível para quem escreve), concluo: lembre-se disso em 2011, calouro feliz, ao perpetrar o trote você não se distanciará muito de um porco fascista.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2015194987044754200?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2015194987044754200/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2015194987044754200&amp;isPopup=true' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2015194987044754200'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2015194987044754200'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/02/ta-rindo-de-que.html' title='Tá rindo de quê ?'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S3viCKDtOEI/AAAAAAAAAQM/zb7sieiGTqo/s72-c/a+trote+3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-423367888456135476</id><published>2010-02-05T09:19:00.003-02:00</published><updated>2010-02-05T11:12:37.178-02:00</updated><title type='text'>"Como se não restasse nada no mundo..."</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S2v_PFKQhcI/AAAAAAAAAQE/R1_cNekl2RI/s1600-h/Storytelling+c.gif"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 220px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5434718009900959170" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S2v_PFKQhcI/AAAAAAAAAQE/R1_cNekl2RI/s320/Storytelling+c.gif" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Quando eu era mais jovem, todo tipo de gente falava comigo – disse ela. – Contavam todo tipo de coisas. Histórias fascinantes, histórias belas, estranhas. Mas, passado certo ponto, ninguém mais conversa comigo. Nem meu marido, nem meu filho, nem meus amigos... ninguém. Como se não restasse nada no mundo do que se conversar. Às vezes, sinto como se meu corpo estivesse se tornando invisível, como se você pudesse enxergar através de mim.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um recente (e alegre) colóquio, percebemos como todos gostam de ouvir histórias. De fato, quando crianças, o nosso próprio desconhecimento do mundo faz de cada relato uma descoberta. A escola tem isso, as primeiras aulas de Ciências que temos no Ensino Fundamental são absolutamente cativantes (até que, em um certo momento, elas se transformam em entediantes exercícios de aplicação de fórmulas instrumentais). Seja como for, lembro até hoje do austero professor Walter, da 5ª série, com seu forte sotaque alemão, nos encantando com sua narrativa sobre a experiência dos hemisfé&lt;em&gt;rr&lt;/em&gt;ios de Magdeburg.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo do tempo, conforme nossos gostos vão se sofisticando, passamos a ter prazer em histórias cada vez mais intrincadas, “difícieis” até, mas que causam o mesmo espanto dos relatos infantis. Desaparecem os grunhidos de entendimento (“ahhhnnn!”) e surgem as sobrancelhas levemente erguidas; saem as risadas escrachadas e aparecem os discretos sorrisos irônicos. E que nos dão o mesmo prazer, agora em versão adulta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há algo dramático na constatação de que, a partir de um certo momento na vida, simplesmente deixamos de ouvir histórias. A expressão “desencantamento do mundo” já foi utilizada para descrever esse processo. Claro, o que nos força a isso é evidente: o envolvimento cada vez maior com as coisas práticas do cotidiano; o fato de que, quando encontramos nosso lugar no mundo adulto, quase sempre cessam as descobertas, e vivemos nada menos que o empobrecimento da experiência. Encontramos alívio nos filmes, nos livros, mas o fato incontornável continua sendo: não nos sentamos mais em grupo, em torno de uma fogueira imaginária, para ouvirmos relatos fantásticos. Não vemos mais no Outro um depositário de experiências que possam enriquecer nossa vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas mesas de bar e restaurantes (cada vez mais próximas umas das outras, parece que agora é moda), somos obrigados a ouvir conversas absolutamente entediantes, seja sobre a vida profissional ou amorosa, seja sobre as férias ou compras, sempre compras. E percebam como essas conversas são intercambiáveis: a frase que começa em uma mesa pode ser concluída com um fiapo de conversa que ouvimos na outra. Mais curioso ainda: quanto mais fino (ou pretencioso) é o estabelecimento, mais pobre o conteúdo das conversas, embora relatem episódios ocorridos em cenários mais chiques: não tenho dúvida de que as conversas entreouvidas no Kintaro são infinitamente mais interessantes dos que as do Erick Jacquin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solução é... Dessa vez não tem solução. Apenas constato. E lembro o fragmento que abre o post, de Murakami, meu atual autor pop preferido. Trata-se de mais uma daquelas pequenas sacadas que povoam seus livros e que vamos descobrindo de repente, no meio da narrativa. E que trazem de volta algum encantamento, nos fazendo erguer as sobrancelhas e sorrir discretamente. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-423367888456135476?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/423367888456135476/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=423367888456135476&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/423367888456135476'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/423367888456135476'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/02/como-se-nao-restasse-nada-no-mundo.html' title='&quot;Como se não restasse nada no mundo...&quot;'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S2v_PFKQhcI/AAAAAAAAAQE/R1_cNekl2RI/s72-c/Storytelling+c.gif' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8607940034730672485</id><published>2010-01-30T11:11:00.013-02:00</published><updated>2010-01-30T16:37:55.582-02:00</updated><title type='text'>Flashes</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S2Qw9yj1GOI/AAAAAAAAAPU/H8VrgSt4x48/s1600-h/panth+02.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 213px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5432520888617867490" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S2Qw9yj1GOI/AAAAAAAAAPU/H8VrgSt4x48/s320/panth+02.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A vista do Pantheon, certa noite, com as luzes apagadas. De alguma forma, o cinza das nuvens se refletia em sua cúpula, e a imagem era emoldurada pelos telhados de Paris.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som da neve caindo quando a rua está vazia, floc floc floc. A bandeira soprada pelo vento no alto do Castelo dos Mouros, em Sintra, flop flop flop.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sensação de frio na sola dos pés, após meia hora de caminhada no Luxembourg. O gosto do vinho espanhol, com os tapas finos do &lt;em&gt;La Vinya del Senyor&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;..........................&lt;/div&gt;&lt;div&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O cheiro da chuva nos trópicos, mesmo quando não chove.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8607940034730672485?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8607940034730672485/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8607940034730672485&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8607940034730672485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8607940034730672485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/01/flashes.html' title='Flashes'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S2Qw9yj1GOI/AAAAAAAAAPU/H8VrgSt4x48/s72-c/panth+02.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4783854752749316737</id><published>2010-01-11T06:05:00.002-02:00</published><updated>2010-01-11T06:11:33.443-02:00</updated><title type='text'>Drops</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S0rdLELFcnI/AAAAAAAAAPM/sum5lz9VMmo/s1600-h/raindrops.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 200px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5425391883289719410" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S0rdLELFcnI/AAAAAAAAAPM/sum5lz9VMmo/s320/raindrops.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E agora ?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de um ano de atividade frenética, tudo para e descobre-se simultaneamente o tempo livre e a dificuldade de lidar com ele (“Férias é esquisito”). Alguns, incapazes de lidar com a nova situação, tentam descrevê-la usando o vocabulário do ano passado (“Agora estou de férias, de fato e de direito”). Outros vivem na espera de um acontecimento muito importante, e essa espera faz com que qualquer atividade cotidiana se transforme em um ato vazio. É quando sobrevém o tédio. Para espantá-lo, vão ao cinema, assistam “Tokyo” e me falem a respeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;“To the land of snow and ice”&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Estranhamente, vivo em frenética atividade. Reservas, contatos, palestras, roteiros: até o final de janeiro, os Alegres Colóquios estarão na estrada. O blogspot anda errático, nem sempre consigo acessar. Assim, o projeto de redigir um “Diário de Bordo” durante a viagem vai por água abaixo. Lado bom: não carregar trastes eletrônicos (o viajante sábio é o que leva a menor bagagem). Outro lado bom: não me verei na obrigação de registrar pensamentos profundos quando nada acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E agora 2 ?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranho mesmo é o movimento do desejo, quando ele só consegue ser aplacado com a aceitação do Outro. Cada vez que dizemos, “eu quero”, duas soluções são possíveis: consigo o que quero ou não consigo o que quero. A situação é completamente diferente quando dizemos “eu quero você”, pois nosso objeto de desejo passa a ser ao mesmo tempo um sujeito possuidor de desejo próprio. Na verdade, cada vez que dizemos “eu quero você”, o que exatamente queremos ? Um sujeito submisso, pois cede ao nosso desejo (e, portanto, tornado objeto) ou um sujeito autônomo, dono do seu próprio querer (e do qual eventualmente nós não fazemos parte) ? &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4783854752749316737?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4783854752749316737/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4783854752749316737&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4783854752749316737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4783854752749316737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2010/01/drops.html' title='Drops'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/S0rdLELFcnI/AAAAAAAAAPM/sum5lz9VMmo/s72-c/raindrops.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4573702771377933236</id><published>2009-12-30T18:41:00.014-02:00</published><updated>2009-12-30T21:52:24.468-02:00</updated><title type='text'>Feliz 2010</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/Szu9tMHKy5I/AAAAAAAAAPE/_0W0nfm3meg/s1600-h/pyrog+b.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5421135160513579922" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/Szu9tMHKy5I/AAAAAAAAAPE/_0W0nfm3meg/s320/pyrog+b.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O tal do Cristo devia ser um cara impressionante. Morreu e as pessoas não pararam de falar dele, mais ou menos como o Sócrates. O problema é que algumas pessoas começaram a tentar monopolizar a herança de Cristo e criaram um troço chamado “igreja”, uma chatice. Já pensou se tivessem feito o mesmo com o Sócrates ? Os diálogos de Platão seriam lidos como um Evangelho, e os templos teriam por trás do altar uma taça de cicuta ao invés de um crucifixo. Numa eventual missa, o sermão seria substituído pelo diálogo com os crentes. Provavelmente o próprio sentido de crença seria discutido, e se o padre fosse um bom dialético, faria os fiéis duvidarem da sua crença: assim, a religião socrática teria como seu principal fim não salvar a alma, mas salvar seus membros da crença em uma única fé. Seria uma religião suicida e, cá entre nós, ela já existe com o nome de Filosofia, devidamente cultuada em grandes templos chamados Universidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, divago. O que me preocupa é a forma como o aniversário do Cristo deu origem aos rituais natalinos que celebramos todo ano, religiosamente (ha! “religiosamente”!), queiramos ou não, acreditemos em religião ou não. Os três principais rituais natalinos são 1) trocar presentes; 2) falar sobre um certo “espírito natalino” e praticar coisas como sorrir para quem não gostamos e dar gorjetas para quem mal sabemos da existência durante o ano todo; 3) comer feito porcos gordos. Sobre presentes e espírito natalino, já falei no ano passado divirtam-se em &lt;a href="http://bit.ly/6qsWeI"&gt;http://bit.ly/6qsWeI&lt;/a&gt; . Sobre comer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A.J.Liebling, meu gordo preferido, escreveu: “&lt;em&gt;Mens sana in corpore sano&lt;/em&gt; é uma contradição em termos, uma fantasia de quem acha possível ter simultaneamente duas coisas excludentes. Ninguém em seu juízo perfeito pode se dar ao luxo de abrir mão dos prazeres debilitantes; nenhum ascético pode ser considerado sadio a ponto de merecer confiança. Hitler foi o arquétipo do homem abstêmio. Quando, na cervejaria, os outros alemães viram que ele estava bebendo água, deviam ter percebido logo que não era confiável”. Por trás do fragmento, há uma visão mordaz tanto sobre a crítica gastronômica quanto sobre a então “nova” cozinha francesa (velha já de anos), que introduziu o hábito das porções minúsculas. Liebling acreditava que o verdadeiro prazer de comer tem a ver com “fome”, ou melhor, com “gula”, que é a transformação da comida em objeto de prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que seja possível fazer uma crítica gastronômica racional. Qualquer pessoa pode discorrer, com o devido treino, sobre ponto de cozimento, textura, complexidade de sabores. Mas fica faltando algo, que é nada menos que o gosto pela comida, ou melhor, o &lt;em&gt;desejo&lt;/em&gt; pela comida, o que significa considerar o ato de comer como uma experiência que merece ser chamada de carnal, muito mais que sensorial. Falo aqui sobre a &lt;em&gt;volúpia&lt;/em&gt; de comer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A volúpia faz do ato de comer algo que vai além da experiência animalesca (comer para sobreviver) e da própria experiência humana (discurso racional sobre o alimento). Comer voluptuosamente significa uma experiência radical, que nos aproxima do divino. Lembro dos textos de Benjamin sobre a comida, mais especificamente sobre comer figos: “Jamais provou uma iguaria, jamais degustou uma iguaria quem sempre a comeu com moderação. Assim se conhece talvez o prazer da comida, mas nunca a avidez por ela, o desvio do caminho plano do apetite, que leva à mata virgem da comezaina. É na comezaina, a saber, que estes dois se reúnem: a imoderação do desejo e a monotonia com que ele se sacia. Comer, isto significa antes de tudo: comer radicalmente”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Interlúdio pop: em &lt;em&gt;Seinfeld&lt;/em&gt;, George Costanza - sempre ele - exemplifica os prazeres da vida de solteiro com a possibilidade de comprar um queijo inteiro para nele enterrar a boca, mordendo a ponto de esfregá-lo na cara como uma almofada, chafurdando em um mar de gostos e aromas e cores e consistências. A descrição de George é muito mais moderada, deixo aqui meu registro verbalmente exagerado de algo que no fundo também gostaria de fazer.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto ao Natal e às festas de fim de ano, quando os exageros alimentares são a norma. Anos atrás, passei o fim de ano como convidado em uma família que tinha o hábito de preparar, na ceia de Natal, todas as carnes festivas possíveis: pernil, lombo, presunto, peru e chester. Para que o almoço do dia 25 não ficasse com cara de sobra, reforçava-se a refeição com uma picanha e, já que abriu a churrasqueira, umas lingüiças. Como eu era convidado, a família, de origem polonesa, fez questão de acrescentar uma iguaria típica: o delicado &lt;em&gt;pirog&lt;/em&gt;, pastel de batata recheado com bacon e frito na banha de porco [foto]. Desnecessário dizer que adorei. Repeti os &lt;em&gt;pirogs&lt;/em&gt; várias vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que os excessos de fim de ano, sobretudo os natalinos, sejam uma forma de vingança contra os demais rituais da época. Mais do que em qualquer outra época do ano, somos obrigados a várias coisas, dar presentes, conviver com parentes (todos eles, mesmo aqueles que mal conhecemos), dar gratificações polpudas, participar de amigos-secretos, sorrir feito bestas. A cada garfada, nos vingamos, é o que nos resta. “Também te amo, tia, mas agora passa a costela”.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.................................&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;PS.: Os textos de Benjamin sobre comida estão em "Imagens do pensamento", no volume II das &lt;em&gt;Obras Escolhidas&lt;/em&gt; (Ed.Brasiliense). O fragmento de Liebling e outros textos deliciosos encontram-se no impagável &lt;em&gt;Fome de Paris&lt;/em&gt; (Ediouro). Benjamin, coitado, era magro e chegou a passar fome. Liebling, que escrevia para a &lt;em&gt;New Yorker&lt;/em&gt;, morreu aos 59 anos, com o fígado despedaçado e o coração entupido.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4573702771377933236?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4573702771377933236/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4573702771377933236&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4573702771377933236'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4573702771377933236'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/12/o-tal-do-cristo-devia-ser-um-cara.html' title='Feliz 2010'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/Szu9tMHKy5I/AAAAAAAAAPE/_0W0nfm3meg/s72-c/pyrog+b.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-7694744276580946956</id><published>2009-12-13T13:23:00.010-02:00</published><updated>2009-12-13T13:49:38.289-02:00</updated><title type='text'>Quase auto-ajuda</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SyUI4SP-xFI/AAAAAAAAAO8/UOOuXo3ECJQ/s1600-h/hundertwasser.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 240px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5414743890047452242" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SyUI4SP-xFI/AAAAAAAAAO8/UOOuXo3ECJQ/s320/hundertwasser.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Muitos perceberam a semelhança que existe, na língua inglesa, entre as palavras &lt;em&gt;history/story&lt;/em&gt; (“história”) e &lt;em&gt;storey/story&lt;/em&gt; (“andar” de um edifício). Os dicionários etimológicos nos informam que tais palavras têm a mesma origem no latim &lt;em&gt;historia&lt;/em&gt;, e é uma referência, provavelmente, ao fato de que os edifícios mais altos na Idade Média européia tinham relatos pintados em sua fachada. Tais edifícios eram igrejas e os relatos, bíblicos. Acho essa explicação meio duvidosa. Se buscarmos as origens mais remotas dessas palavras, hipóteses bem mais instigantes poderão ser examinadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A palavra latina &lt;em&gt;historia&lt;/em&gt; vem do grego &lt;em&gt;historia&lt;/em&gt; (ϊστορία), uma daquelas palavras helênicas que têm vários significados: pesquisa, conhecimento, narrativa. A partir daí: &lt;em&gt;historen&lt;/em&gt; (ίστορεω, indagar, pesquisar) e &lt;em&gt;histor&lt;/em&gt; (ϊστωρ, homem sábio, juiz). Aprofundando um pouco mais, &lt;em&gt;historia&lt;/em&gt; foi formada pelos gregos a partir da junção da palavra &lt;em&gt;istos&lt;/em&gt; (ιστός) com o verbo &lt;em&gt;roi&lt;/em&gt; (ροή, fluir). E aí vem a parte poética da coisa toda: &lt;em&gt;istos&lt;/em&gt; literalmente significa bastão ou mastro, e a palavra é utilizada também como referência a uma determinada peça que serve para sustentar um tear. Por causa disso, um tecido trançado ou uma rede também era chamado pelos gregos de &lt;em&gt;istos&lt;/em&gt;. Assim, história significa literalmente “a trama que flui”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Istos&lt;/em&gt;, como sufixo, surge em uma infinidade de palavras gregas, sempre no sentido de firmeza, permanência, ponto fixo; remetendo sempre ao sentido original de bastão ou mastro. Assim, &lt;em&gt;istemi&lt;/em&gt; (ϊστεμι, &lt;em&gt;istos&lt;/em&gt; + &lt;em&gt;emi&lt;/em&gt;, que é uma variação de “ego”, eu), significando: erguer, permanecer, ficar, instaurar, fazer surigir. Aliás, &lt;em&gt;istemi&lt;/em&gt; deu origem ao alemão &lt;em&gt;stehen&lt;/em&gt; e ao inglês &lt;em&gt;stay&lt;/em&gt;. E já que estou falando em inglês, volto à questão que provocou essa reflexão: as semelhanças entre &lt;em&gt;history/story&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;storey/story&lt;/em&gt;. Acredito que essa semelhança aponta para o sentido original da palavra história, que vai muito além da mera referência a paredes pintadas em igrejas medievais. De fato, acredito que quando escrevemos a história ou mesmo quando contamos uma história, o nosso objetivo é “por em pé” o passado, ou seja, ordenar nossa memória para que ela possa permanecer. É dessa forma que fazemos surgir nada menos que nossa identidade. Uma vez que o substrato da memória é o passado, acabamos por construir nossa memória (nossa história pessoal) como um edifício, com diversos andares, bem ordenados um depois do outro. A contagem numérica dos anos é uma forma extremamente prática de ordenar o passado e erguer o nosso eu, o nosso &lt;em&gt;ego&lt;/em&gt;. Daí sim, a trama de nossa existência pode fluir à vontade, como se fosse um navio impelido pela vela solidamente presa ao mastro de nossa memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recorro à essa avalanche erudita para refletir sobre o presente. É Natal, aproxima-se o ano novo. Impossível fugir das avaliações de fim de ano, da seleção de memórias que irão identificar a ano de 2009 como um dos andares de nossa existência. Esta é a época do ano em que nos dedicamos a transformar nossa vivência em memória, encontrando um lugar para o que já passou e refletindo sobre aquilo que vai continuar fazendo parte de nosso presente em 2010. Há aspectos francamente prosaicos nesse processo, pois lembraremos do ano que passou não só pelas pessoas que conhecemos ou pelos espaço que freqüentamos ou visitamos, mas também pelo universo pop no qual estamos mergulhados (e sua infinidade de músicas, filmes, vídeos); e é curioso como nem sempre temos controle sobre a construção dessa memória Como fazer com que “I gotta feeling” do Black Eyed Peas não seja a música do ano, aquela que irá nos transportar de volta para 2009 em qualquer momento do futuro que estejamos ? Ou então, como evitar identificações óbvias, do tipo “2008, ano do cursinho” e bizarras, como “2006, ano que tive hemorróidas” ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, sugiro que nos dediquemos a essa tarefa de avaliação de fim de ano. Com uma ressalva: por um lado podemos ter um sentimento de perda nessa época do ano, levando em consideração tudo o que passou; mas por outro, podemos encarar essa época a partir de uma perspectiva de ganho. O que ganhamos em vivência é muito maior do que os ganhos práticos, quaisquer que sejam eles. Em 2009, construímos mais um pedaço de nossa história (sem a qual não somos nada), e para o qual podemos voltar quando quisermos, no respectivo andar de nossa memória. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-7694744276580946956?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/7694744276580946956/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=7694744276580946956&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/7694744276580946956'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/7694744276580946956'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/12/quase-auto-ajuda.html' title='Quase auto-ajuda'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SyUI4SP-xFI/AAAAAAAAAO8/UOOuXo3ECJQ/s72-c/hundertwasser.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2603199913743859607</id><published>2009-12-03T09:07:00.001-02:00</published><updated>2009-12-03T09:08:55.217-02:00</updated><title type='text'>Na chuva</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SxecGtFmRKI/AAAAAAAAAO0/OVS1bWkjLsg/s1600-h/liniers+chuva.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 319px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5410965116305163426" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SxecGtFmRKI/AAAAAAAAAO0/OVS1bWkjLsg/s320/liniers+chuva.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; (por Liniers)&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2603199913743859607?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2603199913743859607/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2603199913743859607&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2603199913743859607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2603199913743859607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/12/na-chuva.html' title='Na chuva'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SxecGtFmRKI/AAAAAAAAAO0/OVS1bWkjLsg/s72-c/liniers+chuva.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8429611385155572549</id><published>2009-11-19T08:35:00.009-02:00</published><updated>2009-11-19T16:43:38.567-02:00</updated><title type='text'>Em princípio, tenho princípios</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SwUf8Z-bthI/AAAAAAAAAOk/oKxW_Mwss5A/s1600/princ+a.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 241px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5405762050353509906" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SwUf8Z-bthI/AAAAAAAAAOk/oKxW_Mwss5A/s320/princ+a.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostamos de ver. Temos prazer em assistir. Platão, do seu jeito, já observou isso no livro V de &lt;em&gt;A&lt;/em&gt; &lt;em&gt;República&lt;/em&gt;, dizendo que todas as pessoas gostam de ver os espetáculos, os coros e as festas dionisíacas. Se forem deixadas em paz, as pessoas passarão toda a vida &lt;em&gt;assistindo&lt;/em&gt; e, cá entre nos, na sua passagem mais famosa, Platão nos aponta para os pobres coitados no fundo da caverna, acorrentados mas incapazes de reagir, uma vez que estão entretidos com as sombras que passeiam pela parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde vem esse estranho encanto ? De onde vem esse sentimento agradável que sentimos, por exemplo, quando se apagam as luzes do cinema ? Mas não se trata apenas de ver, gostamos também de ouvir histórias. Penso no prazer que temos quando sentamos com os amigos, em um alegre colóquio, e nos preparamos para ouvir uma historia bem contada. (Nessas horas, às vezes até nos ajeitamos na cadeira para – estranho – ouvir melhor). Talvez gostemos de ver e ouvir porque temos o hábito de sempre nos situar dentro da historia, ou seja, de nos projetar no lugar dos protagonistas, avaliando nossas possíveis reações e comparando-as com as ações dos personagens de uma narrativa que se desenrola diante de nos. Assim, toda história nos coloca diante de um grande espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Interlúdio. No meu cotidiano, cruzo com isso o tempo todo, ganho meu pão enunciando discursos para audiências relativamente grandes, com graus de interesse diversos. Periodicamente, para ilustrar o que digo, conto uma historia pessoal. É quando ocorre a mágica: o interesse é redobrado, o silêncio torna-se maior do que o de costume. As canetas são largadas e todos olhares se erguem dos cadernos e dirigem-se aos meus olhos. O interesse é maior e as reações são mais autênticas quando a história se aproxima da vivência dos que me ouvem, ou seja, quando falo de minha experiência de vida escolar, familiar ou de vestibular.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há certos tipos de histórias que me encantam. Pouco comuns, são histórias – reais – cujo enredo de alguma forma me fascina. Por exemplo, aquelas histórias envolvendo pessoas que optam por permanecer totalmente passivas diante da vida. Não estou pensando em pessoas miseráveis, sem oportunidades, cujo nada fazer é sobretudo uma imposição, mas sim daquelas pessoas que têm todas as oportunidades na vida, seja no estudo ou no trabalho, mas que acabam optando por não fazer nada, absolutamente nada. Recentemente ouvi a história de um jovem que conheci anos atrás. Me contaram que ele parou de estudar, sequer fez cursinho, e mais tarde abandonou um curso técnico pela metade. Hoje, homem feito, não faz nada. Mora com a mãe e todos os dias acorda pela manha sem ter absolutamente nenhuma obrigação. Em seguida, sai de casa e vai arrumar algo para fazer, visitar um amigo no trabalho, lavar um carro, assistir futebol amador. Às vezes, pede 10 reais emprestado para alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impossível não lembrar do Bartleby, de Herman Melville, o homem que decidiu dizer não. Pois esses adoráveis ociosos levam a negação às últimas conseqüências. São, muitas vezes, tragédias familiares (“Aquele seu primo ? É um vagabundo”), mas eles quase sempre se tornam pessoas de boa índole, jamais mal-humoradas. Afinal, se não há trabalho nem obrigações financeiras, que motivo resta para irritação ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe, todavia, um outro tipo de história que me fascina e talvez isso seja francamente perturbador. Refiro-me àquelas pessoas, quase sempre homens, quase sempre profissionais corretos e ao mesmo tempo pais dedicados e maridos atenciosos, que, ao final da vida, descobre-se serem chefes de duas famílias. Não são pessoas vulgares, daquelas que mantém uma amante ou um caso permanente, mas sim &lt;em&gt;duas famílias&lt;/em&gt;, estruturadas e organizadas como tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino o grau infinito de tensão que esses bígamos vivem, tentando articular compromissos, natais, aniversários, presentes e datas comemorativas. Obrigações escolares junto aos filhos, festas de empresa, além do convívio com sogras em dobro, parentes em dobro, isso para não falar de como justificar ou ocultar essa história dos próprios pais e irmãos. Esses bígamos são pessoas que criam a sua própria moral - além do bem e do mal - e vivem em função do segredo, de uma ética na qual a mentira se justifica. Contrariam os costumes, para não falar da lei. Claro, novamente estamos falando de uma tragédia familiar. O que diriam os filhos desses bígamos após descobrirem a verdade ? E suas mulheres ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto no caso dos ociosos quanto dos bigamos, não considero seriamente suas opções. Em princípio, tenho um punhado de princípios, seja no que se refere ao trabalho ou ao universo afetivo. Mas de alguma forma os invejo, não pelos seus atos em si, mas pelo que neles existe de inconformismo, de revolta surda diante de uma vida cujo roteiro já está previamente estabelecido. São pessoas que tem coragem de dizer &lt;em&gt;não&lt;/em&gt; e de criar seus próprios valores. E aqui encontro mais um fator que me explica porque gostamos tanto de ouvir histórias: porque elas nos colocam em contato com vontades perturbadoras que talvez jamais sejam realizadas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8429611385155572549?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8429611385155572549/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8429611385155572549&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8429611385155572549'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8429611385155572549'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/11/em-principio-tenho-principios.html' title='Em princípio, tenho princípios'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SwUf8Z-bthI/AAAAAAAAAOk/oKxW_Mwss5A/s72-c/princ+a.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-8410979550811398247</id><published>2009-11-05T08:03:00.006-02:00</published><updated>2009-11-05T10:05:18.218-02:00</updated><title type='text'>Cinema bastardo</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SvKkHDwXutI/AAAAAAAAAOc/68tkkrcdeZY/s1600-h/wayne+iwo.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 247px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5400559344344873682" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SvKkHDwXutI/AAAAAAAAAOc/68tkkrcdeZY/s320/wayne+iwo.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quem lê o blog, já sabe: não tenho a menor paciência com a arte conceitual. Não tenho a mínima paciência com obras de arte que existem apenas em função de “discutir” a arte, e que são absolutamente incompreensíveis sem ter como referência toda a história da arte. São justamente essas obras que provocam o esvaziamento da arte e, em última análise, sua própria perda de sentido. Porém, são obras que os críticos e as pessoas que se envolvem com arte muitas vezes preferem, uma vez que esses, ao dedicarem uma vida ao estudo, conseguem entender a proposta aparentemente hermética que se esconde por trás de cada obra. Assim a arte se transforma em um estranho e exclusivo diálogo entre artistas e crítica, e quem não for da “turma” que se dane.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da perplexidade provocada por estranhas instalações artísticas, diante da pergunta tornada universal, “Mas isso aqui é arte ?”, os especialistas e teóricos de plantão podem tecer seus belos discursos, ao mesmo tempo seduzindo platéias e provando sua superioridade sobre a maior parte dos mortais, pobrezinhos, tão incapazes de entender as coisas, ho, ho, ho ! A dinâmica da arte se transforma em um jogo de vaidades e em espaço de afirmações narcísicas (e eu sei muito bem do que estou falando porque sou capaz de jogar direitinho).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está em cartaz nos cinemas a mais nova unanimidade, &lt;em&gt;Inglorious Basterds&lt;/em&gt; (“Bastardos Inglórios”), de Quentin Tarantino, o mais novo e mais amado &lt;em&gt;enfant terrible&lt;/em&gt; de Hollywood. Animado por uma infinidade de comentários favoráveis e elogiosos, da crítica que prezo e de amigos em cujo gosto acredito, dirigi-me ao cinema mais próximo em uma tarde de quarta-feira. Cinema quase vazio, temperatura fresca (contrastando com o calor insuportável do dia), projeção e som adequados, um pacote de Galetitas Havanna nas mãos e um daqueles inevitáveis (porém dessa vez elegante) encontros fortuitos com ex-aluno na saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tela, Tarantino manda ver. A história todo mundo conhece, uma divertida fantasia sobre a Segunda Guerra Mundial em que os judeus se vingam dos nazistas. No filme, ocorre uma verdadeira inversão das atrocidades realizadas em campos de concentração: são os nazistas que tem sua pele marcada para sempre, são os nazistas (incluindo Hitler) que são incinerados numa espécie de crematório gigante. Enquanto parque de diversões, o filme é apoiado por interpretações impagáveis, por exemplo, do coronel SS Hans Landa (Christoph Waltz) e seu cachimbo descomunal, para não falar do próprio tenente Aldo (Brad Pitt). Mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas acontece que Tarantino, como sempre, tece um infinito emaranhado de citações. Aliás, citações curiosas, uma vez que não são lembrados este ou aquele filme em particular, mas todos os filmes de guerra, toda a tradição hollywoodiana da Segunda Guerra Mundial. Se por um lado elas são divertidas, por outro me fazem perguntar: há alguma coisa por trás dessas citações ? Não seria &lt;em&gt;Inglorious Basterds&lt;/em&gt; apenas um longo (e entediante) discurso do cinema sobre o cinema ? Os críticos e cineastas em geral adoraram, porque o filme celebra seu &lt;em&gt;métier&lt;/em&gt;. E muitas pessoas adoraram &lt;em&gt;Inglorious Basterds&lt;/em&gt; porque “pegaram” as citações, passando a se sentir parte da “turma”: está legitimada a prática de sair do cinema e sentar no boteco para ter conversas inteligentes sobre cinema (sobre a Mostra, sobre Tarantino), enquanto o populacho se espreme pra ver o filme do Michael Jackson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impossível usufruir do filme sem as citações. Começando do próprio título, &lt;em&gt;Inglorious BastErds&lt;/em&gt;, com &lt;em&gt;E&lt;/em&gt; e tudo. Sem ter a história do cinema na cabeça, a fala (e o sotaque) do tenente Aldo não tem graça nenhuma. Sem ter visto mil filmes de guerra, o impagável coronel Landa não tem sentido, os diálogos não tem significado. (Acrescento: sem ter visto mil filmes de &lt;em&gt;western&lt;/em&gt;, a cena inicial na fazenda francesa perde um pouco de sentido). O próprio comportamento histriônico dos líderes nazistas, independente de ter ou não base histórica (e, curiosamente, alguns deles eram francamente bufões e caricatos na vida real) é referência a uma infinidade de vilões cinematográficos, e por aí vai. Sem as citações, lamento dizer que o filme é uma bobagem, com um roteiro sem pé nem cabeça que simplesmente não se sustenta. Por exemplo, no meio do filme, do nada, surge uma narração em off para explicar a história, que começa a escapar do controle. Ou então, o velho truque “tarantinesco” de fazer a narrativa avançar através de uma explosão de violência inesperada e visualmente exagerada. Ou ainda, o suspense que não funciona, como no caso da primeira aparição do sargento Donowitz, “The Bear Jew”, que acaba por deixar a platéia frustrada, com um sorriso amarelo (aliás, a platéia da sessão que fui, provavelmente alertada pela crítica de que o filme era “bom”, visivelmente forçava o riso em algumas partes). Isso para não falar dos longos momentos de tédio do filme (porque diabos aquela cena do porão demora tanto ?), que uma certa crítica se apressou em identificar como “o domínio do tempo” por Tarantino. Oras, poupem-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estou cego às virtudes do filme. É brilhante a idéia de exterminar os líderes nazistas em um cinema, a partir de um incêndio dantesco que começa na tela, com a queima de centenas de rolos de película. (Que se dane, a essa altura todo mundo já viu o filme). E o massacre ocorre justamente no dia da estréia de um filme nazista, daqueles produzidos por Goebbels celebrando o heroísmo do soldado alemão. O filme nos sugere – e isso é francamente genial – que os alemães foram derrotados pelo cinema, e a Segunda Guerra Mundial foi vencida “porque nossos cineastas são melhores do que os alemães”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, eles &lt;em&gt;eram&lt;/em&gt; os melhores, porque hoje em dia apenas se repetem. Talvez Tarantino seja bem menos do que imaginamos. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-8410979550811398247?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/8410979550811398247/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=8410979550811398247&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8410979550811398247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/8410979550811398247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/11/cinema-bastardo.html' title='Cinema bastardo'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SvKkHDwXutI/AAAAAAAAAOc/68tkkrcdeZY/s72-c/wayne+iwo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-1041793635655841576</id><published>2009-10-26T15:41:00.009-02:00</published><updated>2009-10-26T17:41:34.898-02:00</updated><title type='text'>Aqui jazz</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SuXiwR_9V3I/AAAAAAAAAOU/EpH7LrYjIkU/s1600-h/entartete.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 229px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5396969047566669682" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SuXiwR_9V3I/AAAAAAAAAOU/EpH7LrYjIkU/s320/entartete.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aos 14 anos, eu me achava o máximo da malandragem ao cortar o cabelo no glorioso “Aqui Jazz – Cabeleireiros”, que existe ainda hoje diante do Cemitério da Aclimação. O local atraía todo o tipo de doidões e esquisitões do bairro, bem como qualquer jovem cabeludo que se achasse alternativo. No meio desse verdadeiro circo, despontava a figura do proprietário, o Magrão, sempre acompanhado de seu fiel braço direito, o Ameba, que eu desconfiava estar eternamente chapado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É estranho que os cabeludos do bairro tivessem como ponto de encontro justo uma &lt;em&gt;barbearia&lt;/em&gt;, mas isso diz muito sobre o frouxo grau de radicalismo dos jovens de classe média da época. Os anos de ouro do Movimento Jovem já haviam acabado há muito e, sob o peso da repressão dos últimos anos do Regime Militar (por essa época, também bastante frouxa), nosso radicalismo se limitava a ouvir discos de rock, dos dinossauros do rock (The Who, Deep Purple, Led Zeppelin) e a olhar com desprezo a moçadinha que ia dançar nas tardes de sábado ao som da &lt;em&gt;disco music&lt;/em&gt; de então (Donna Summer, Sylvester e – deus me livre ! – Bee Gees). No "Aqui jazz", preferìamos aquelas bandas que dificilmente tocavam no rádio, exceto por uma ou outra baladinha besta do tipo &lt;em&gt;Stairway to heaven&lt;/em&gt;. E, claro, nada de jazz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época, quando se falava em jazz, eu pensava em algo do tipo &lt;em&gt;dixieland&lt;/em&gt;, que era cultivado por umas poucas bandas em São Paulo. Das atrações estrangeiras que aqui chegavam, quase todas se esmeravam no &lt;em&gt;fusion&lt;/em&gt; ou em outros sons experimentais e, convenhamos, começar a ouvir jazz por aí é um tiro no pé. Nunca esqueço um show de Chick Corea, transmitido pela TV Cultura, quando o músico americano sentou-se diante de um magnífico piano de cauda, inclinou-se diante de sua tampa aberta e começou a batucar na madeira do piano, para delírio da platéia e minha perplexidade total. Eu ainda levaria anos para conhecer o verdadeiro jazz, que foi vanguarda nos anos de 1920 e 1930, e que acabou dando origem a bebop, west coast e outras maravilhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque o jazz é feito de nuances, e pedem um ouvido minimamente competente. Da minha precária formação musical, resultou o longo tempo que levei para educar os ouvidos, sem método nenhum, sem conhecimento técnico, apenas ouvindo milhares e milhares de músicas, de todos os tipos, sem parar, ao longo de muitos anos. Acredito que todas as pessoas que gostam de música um dia chegam no mesmo ponto e passam a ouvir música adulta, jazz, ou mesmo música clássica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, não só o jazz, mas o &lt;em&gt;mundo&lt;/em&gt; é feito de nuances, e é pena que elas se percam por simples desconhecimento. Nas aulas, enfatizo as nuances e as múltiplas leituras de obras de arte, eventualmente de uma ou outra música, do clássico ao blues. Mas não são apenas quadros, todo a natureza, todas as pessoas podem ser lidas de mil formas. Recentemente, em um alegre colóquio, até me falaram sobre as múltiplas leituras que são possíveis a partir da observação de um olho e de suas sutis mudanças de cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Interlúdio pop: lembram-se do filme &lt;em&gt;A garota com o brinco de pérola&lt;/em&gt; ? (se não conhecem, assistam). No filme, o pintor Vermeer diz para a jovem Griet (Scarlett Johansson, em um de seus primeiro papéis) olhar o céu e dizer a cor das nuvens. A moça, mal olhando pela janela diz, “Oras, elas são brancas”. Porém o pintor insiste e diz, “Olhe bem, olhe com atenção. Todas elas. São brancas mesmo ?” E o olhar da jovem Griet começa a perceber milhares de nuances e reflexos e texturas que ela, maravilhada, jamais havia percebido. Pois o grande livro do mundo nos fala o tempo todo, e é inesgotável a reserva de símbolos que ele emprega, como dizia o frei Guilherme em &lt;em&gt;O Nome da Rosa&lt;/em&gt;. Ainda no registro da cultura pop, lembro de um episódio de &lt;em&gt;Sex and the City&lt;/em&gt;, quando Carrie namorava um músico de jazz. Ele pergunta se ela gosta desse tipo de música e ela diz, “mas como vou gostar de um tipo de música que não se pode cantar junto, não se pode dançar ?” Trata-se de outra relação com a música, válida (por que não ?), mas que nada tem a ver com a sutiliza instrumental do jazz. Me arrisco a dizer que talvez mulheres se liguem à música com mais facilidade através de outros registros, por exemplo, o corpóreo: através da Dança.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque o jazz tem alma. Assim como o blues, uma mesma canção de jazz é diferente cada vez que é tocada novamente. São os mesmos acordes, a mesma letra, a mesma tudo, e ainda assim a música sai diferente. Paradoxalmente, na música pop, canções diferentes parecem ser todas a mesma coisa. É por isso que muitas vezes os CDs de jazz apresentam, por exemplo, música 1, “Bag’s Groove – take one”; música 2, “Bag’s Groove – take two”; música três, “Bag’s Groove, take three”, e assim vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porque é impossível falar do jazz sem falar da história do jazz (enquanto boa parte da música pop se resume ao mero &lt;em&gt;aqui agora&lt;/em&gt;). Me encanta a história da disseminação do jazz, de como ele foi sendo descoberto no mundo inteiro. A Primeira Guerra Mundial foi decisiva, quando soldados norte-americanos (incluindo cerca de 200 mil negros) foram para a Europa, particularmente para a França, levando suas armas e seus instrumentos musicais. Após o conflito, muitos músicos negros ficaram, outros para lá se mudaram, fugindo da segregação racial e criando uma nova vida, com muito mais dignidade. Como o clarinetista Sidney Bechet e o trompetista Arthur Briggs, aos quais se juntou a cantora e dançarina Josephine Baker, todos atuando em Paris.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Alemanha, o jazz foi copiado por músicos brancos, e mais tarde acabou sendo considerado uma arte degenerada pelo regime nazista recém instalado; vejam no magnífico poster acima, como o jazz era visto pelos alemães. Na União Soviética, o grande desenvolvimento da música clássica sempre foi acompanhado da dedicação de seus músicos ao jazz, nas horas vagas. A cidade de Odessa, chegou a ser conhecida durante algum tempo como a New Orleans soviética, onde despontava a banda de Leonid Utyosov.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No início da Segundo Guerra Mundial, o gênero já estava estabelecido, e pode-se até dizer que o swing de bandas como a de Benny Goodman e Glenn Miller (que morreu na guerra) foram a trilha sonora do conflito. Mas nessa época já estava nascendo o bebop e, da mesma forma que no final da Primeira Guerra, ao final da Segunda não foram poucos os americanos que ficaram pela Europa, voltando a encher de jazz os cabarés esfumaçados de Berlim e Paris da Guerra Fria. Nessa época, mudou-se para Paris o saxofonista Johnny Griffin, e Sidney Bechet começou a ser chamado de “Le dieu”/“o Deus” pelos existencialistas. Também nessa época, Josephine Baker foi condecorada pelo próprio general De Gaulle, pelos serviços prestados junto à Resistência Francesa contra os nazistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, chego onde queria: há cidades que incorporaram uma vocação jazzística, e Paris é, de longe, a mais importante delas. Outrora, os bares de jazz se multiplicavam na região de Montmartre, hoje em dia já é mais difícil encontrá-los. Mas, quando viajo, ainda gosto de freqüentar um ou outro porão onde se toca o bom jazz em Paris (e a aproximação da viagem do Anglo para a França me faz pensar se devo levar os jovens para algum desses adoráveis buracos). Para sentir o gosto do ambiente de jazz na capital francesa, recomendo uma das melhores programações de jazz do rádio, em &lt;a href="http://www.tsfjazz.com/"&gt;http://www.tsfjazz.com/&lt;/a&gt; (clique em “écouter l’antenne”). E divirtam-se. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-1041793635655841576?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/1041793635655841576/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=1041793635655841576&amp;isPopup=true' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1041793635655841576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1041793635655841576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/10/aqui-jazz.html' title='Aqui jazz'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SuXiwR_9V3I/AAAAAAAAAOU/EpH7LrYjIkU/s72-c/entartete.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2536465328085556440</id><published>2009-10-17T09:32:00.006-03:00</published><updated>2009-10-17T13:14:16.997-03:00</updated><title type='text'>Do não-negativismo enquanto paradigma</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/Stm7s54ecZI/AAAAAAAAAOE/4f25M_OAlNo/s1600-h/olympia+b.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 301px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5393548408879214994" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/Stm7s54ecZI/AAAAAAAAAOE/4f25M_OAlNo/s320/olympia+b.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostei da escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016, mas não pelos jogos em si, que acho uma bobagem entediante. Em geral, considero os esportes olímpicos de uma tremenda infantilidade: apostar corrida, ver quem pula mais alto, ver quem é mais forte. Tais modalidades Olímpicas são simples celebrações da força bruta, e convém lembrar que Jogos Olímpicos nasceram (Grécia Antiga) ou renasceram (Europa, 1896) em épocas marcadas pela valorização da guerra ou da figura do guerreiro habilidoso, algo que, sinceramente, já deu o que tinha que dar. Acredito que hoje em dia as Olimpíadas (e mesmo o futebol) se consolidam devido à possibilidade que esses eventos têm de transferir para arenas neutras um certo furor nacionalista (proto-fascista) que de alguma forma todos possuímos, sublimando assim o nosso eventual e sempre desconfortável desejo de sangue. (ando lendo muito Luis Felipe Pondé, raios...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desprezo esportes olímpicos da mesma forma que na infância não achava graça nenhuma em apostar corrida (eu sempre perdia; hoje em dia me vingo escrevendo um blog). A melhor crítica ao esporte que vi está em um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, que é também um dos cinco filmes que eu levaria para uma ilha deserta (e que, curiosamente, trata de uma ilha deserta ), chamado &lt;em&gt;Man Friday&lt;/em&gt; (no Brasil, &lt;em&gt;Sexta-feira&lt;/em&gt;). Há um trecho absolutamente impagável de competição esportiva, uma corrida na praia entre Robinson Crusoé e Sexta-Feira, seguido de uma premiação patética ao som do grito das gaivotas. Mais eu não conto, apenas recomendo VIVAMENTE o filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esportes com bola, por sua vez, tem outro significado. Primeiro porque incorporam um aspecto lúdico, de diversão, que vai muito além das brincadeiras infantis baseadas na força. Segundo, porque esportes com bola possibilitam uma enorme gama de movimentos corpóreos, que acabam muitas vezes por aproximá-los da dança, antítese da força bruta. E, finalmente, porque implicam em algum tipo de planejamento ou de estratégia para a vitória que traz junto alguma atividade do pensamento. Nesse sentido, esportes com bola têm como pré-requisito algo de minimamente cerebral, e não deixa de ser irônico observar que jogadores de futebol semi-alfabetizados e nada intelectualizados sejam dotados de uma capacidade de processamento de informação (articulando espaço, tempo, movimento) absolutamente surpreendente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso para não falar das infinitas metáforas. A multiplicidade de eventos possíveis em uma mera partida de futebol abre-se para leituras que admitem “o épico, o trágico, o lírico, o cômico e o paródico”, citando o livro de José Miguel Wisnik, &lt;em&gt;Veneno remédio: o futebol e o Brasil&lt;/em&gt;. Trata-se de um livro indispensável, de que se falou tão pouco, mas que deveria ser leitura obrigatória para entender o país, o esporte. Vejam por exemplo, o&lt;a href="file://os/"&gt;&lt;/a&gt;s trechos brilhantes onde Wisnik comenta a Lógica do futebol, a onisciência do juiz e a questão do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosamente os esportes com bola norte-americanos ainda se prendem à celebração da força bruta. Assim, no futebol americano, trata-se do embate puro e simples de dois corpos coletivos em função da ganho de terreno (diante do futebol americano, o Rugby passa a ter uma leveza insuspeita). Ou mesmo o baseball e o basquete (o mais plástico de todos os esportes norte-americanos), que são praticados de forma a repetir infinitas vezes um repertório reduzido de movimentos, produzindo dados em larga escala e permitindo o processamento desses dados em séries estatísticas infinitas. No futebol, séries estatísticas tem algo de patético e não costumam dizer nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, celebro a escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica por dois motivos que nada tem a ver com o esporte. Primeiro, porque nossas cidades estão tão degradadas, mas tão degradadas que qualquer operação urbana torna-se indispensável, nem que para isso tenha que haver uma Olimpíada. Um evento como esse ajuda a pensar a cidade, a refletir sobre o tecido urbano. Um evento como esse significa que o mundo vai pousar os olhos sobre a cidade e, o que temos a oferecer ? Falta de metrô ? Fiação elétrica em postes ? (minhas duas atuais nêmesis...) Intolerável ! Pois então pensemos na cidade e mãos à obra. “Ah, mas a roubalheira...”, isso é outro problema, que deve ser encarado com Olimpíada ou sem Olimpíada. E que o imenso volume de recursos mobilizados seja motivo para que se encare o problema como nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, há um outro aspecto no Rio de Janeiro enquanto cidade olímpica. Nos últimos anos, as sedes de Olimpíadas ou são cidades normais de países em condições de receber tal tipo de mega evento (Londres, Sydney, Atlanta, Barcelona), ou cidades simbólicas (Atenas e não há outra), ou cidades emergentes, de países cuja “normalidade” é reconhecida (Seul, Pequim). Não tenho dúvida sobre o grupo onde Rio de Janeiro se encaixa. Pois há no ar esse estranho otimismo em relação ao Brasil, esse estranho reconhecimento de que o país, apesar dos seus problemas, é como os outros, e respeitável a ponto de sediar um evento como a Olimpíada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se de uma mudança de paradigma. Nos acostumamos a pensar o Brasil como um lugar onde nada dá certo e, de fato, nada deu certo nas décadas de 1980 e 1990. Foi a época da grande estagnação (e, que lindo, também foram meus verdes anos !), que se prolongou até o início do novo século e que fez com que adotássemos o &lt;em&gt;pessimismo realista&lt;/em&gt; como forma de enxergar o Brasil. O último momento de otimismo, o milagre econômico dos anos 1970, provou ser uma mentira: um crescimento falso, fundado em uma dívida que um dia explodiu. Se lembrarmos que a década de 1960 foi de crise política e ditadura, constatamos que o clima otimista simplesmente desapareceu ou nunca existiu na memória das pessoas. A última vez que ouvimos um discurso positivo sobre o Brasil, ele foi pronunciado pelo regime Militar nos anos 1970, e descobrimos em seguida que era uma mentira.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A escolha do Rio de Janeiro pode representar uma mudança de paradigma na forma como enxergamos o Brasil. Claro, rejeitamos qualquer otimismo inocente (pois a miséria, a violência e a disseminação de práticas políticas arcaicas batem à porta). Porém, ao mesmo tempo, desconfiamos que o pessimismo pode ser paralisante. Acho que finalmente chegou a hora do &lt;em&gt;não-negativismo&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2536465328085556440?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2536465328085556440/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2536465328085556440&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2536465328085556440'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2536465328085556440'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/10/do-nao-negativismo-enquanto-paradigma.html' title='Do não-negativismo enquanto paradigma'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/Stm7s54ecZI/AAAAAAAAAOE/4f25M_OAlNo/s72-c/olympia+b.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4459488024320817053</id><published>2009-10-11T16:23:00.008-03:00</published><updated>2009-10-12T21:54:09.638-03:00</updated><title type='text'>Refletindo sob(re) a chuva</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/StIy8-B0UdI/AAAAAAAAAN0/_q3U6f39oLk/s1600-h/a+tournesol+b.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 234px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5391427726940066258" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/StIy8-B0UdI/AAAAAAAAAN0/_q3U6f39oLk/s320/a+tournesol+b.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mal tinha dez anos quando comecei a falar da “minha chuva preferida”: é aquela que aparece nas primeiras páginas de “O Caso Girassol”, 17º volume das aventuras de Tintim, na edição cânone de 22 álbuns. Trata-se de uma narrativa soberba, poucas vezes um autor de história em quadrinhos foi tão feliz quanto Hergé na abertura de “O Caso Girassol”. Para recordar, a história começa com Tintim e o Capitão caminhando serenamente pelo campo, quando são surpreendidos pelo trovão que anuncia uma tempestade. A chuva marca o início de uma sucessão de fatos tremendamente perturbadores, que incluem raios cada vez mais próximos, corte na energia elétrica, chegada de personagens misteriosos e ameaçadores, tiros no parque, buracos de bala, vítimas que desaparecem e, sobretudo, vidros se estilhaçando por todos os lados. Todo o universo tranquilo e muito bem conhecido do castelo de Moulinsart desmorona a partir do início da tempestade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Garoto, eu corria para reler pela centésima vez “O Caso Girassol” cada vez que uma tempestade de verão se anunciava. Tinha um estranho prazer em começar a ler a aventura ao mesmo tempo que percebia as inúmeras mudanças provocadas pelo início iminente da chuva: o vento morno que precede as tempestades de verão, portas e janelas batendo, gritos vindos dos fundos das casas vizinhas, na medida em que as donas de casa corriam para pegar a roupa estendida no varal. Logo, gotas imensas começavam a cair, lentamente preenchendo todo o espaço do chão seco, ao mesmo tempo em que um cheiro único, indescritível, se desprendia do chão, algo como uma mistura de vegetação e de pedra, mofo, cimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.......................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que estranha atração é essa que a chuva provoca ? Além de estranha, inesperada: apenas recentemente, graças ao Twitter, descobri como as pessoas gostam da chuva, anseiam pelo início da chuva e talvez de alguma forma se descubram sob a chuva. Na minha vida, fui acrescentando várias outras chuvas ao meu repertório de preferidas: a chuva ácida que cai sobre Los Angeles no futurista &lt;em&gt;Blade Runner&lt;/em&gt;, a chuva interminável sobre Macondo em &lt;em&gt;Cem Anos de Solidão&lt;/em&gt;. Ou ainda em um esquecido filme francês da década de 1950, &lt;em&gt;Rififi&lt;/em&gt;. Seu diretor, o norte-americano Jules Dassin, fugitivo do macartismo, recriou a atmosfera do film-noir em Paris, fotografando a cidade de forma única: sem nenhuma das paisagens que fizeram a fama da cidade, mas apenas mostrando uma sucessão de ruas sempre molhadas, sempre após a chuva, sempre em preto e branco. (Subitamente, lembro de Walter Benjamin falando sobre a beleza do Sena: o rio é belo porque reflete a cidade, duplicando Paris).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, as descrições de chuva na Lisboa de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa) são particularmente tocantes. Copio fragmentos de uma de suas descrições da chuva, no caso, de um final de tempestade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Depois que os últimos pingos da chuva começaram a tardar na queda dos telhados (...) ouviu-se o abrir de janelas contra o desesquecimento do sol. Então, pela rua estreita, do fundo da esquina próxima, rompeu o convite alto do primeiro cuteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja fronteira reverberaram pelo espaço claro (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante esse cair esfiado de água sombriamente luminosa que destaca das fachadas sujas e ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que pensava eu antes de me perder a ver ? Não, sei. Vontade ? Esforço ? Vida ? Com um grande avanço de luz, sente-se que o céu é já quase todo azul. Mas não há sossego – ah, nem o haverá nunca ! – no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância fechada ao pó no sótão da casa alheia. Não há sossego – e, ai de mim !, nem sequer há desejo de o ter...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Foram esses trechos que me ajudaram a refletir sobre a chuva. O início e o fim da chuva são dois momentos em que o mundo – ou , mais precisamente, a cidade – se transforma diante de nossos olhos. Trata-se, portanto, de dois momentos privilegiados para contemplar o mundo a nossa volta e entendê-lo, talvez até a achar nosso lugar dentro dele. O início ou o fim da chuva representam um limiar, em que nossa faculdade de observação e compreensão das coisas é despertada: é quando desaparece o nosso olhar "de sempre", desprovido de sentido, com o qual contemplamos uma realidade cotidiana que se repete infinitas vezes e no qual estamos imersos. Em outras palavras, desaparece um olhar que é pura objetividade, e que nos mostra uma sucessão de atividades banais, de coisas entediantes e repetitivas que fazem grande parte de nosso dia a dia. Quando ultrapassamos o limiar, graças as mudanças provocadas pela chuva, emerge nossa subjetividade, que acaba por dar contexto e significado às coisas, que nos faz descobrir um sentido que está oculto na banalidade que, descobrimos, é só aparente. Assim, a paisagem vista pela janela mil vezes da mesma forma passa a apresentar uma multidão de figuras novas: o grito do cuteleiro, o martelar de pregos (ou mesmo a corrida da dona de casa rumo ao varal de roupa) todos eles vão ganhando forma e ocupando o universo das sensações a nossa volta, mais ou menos como um artista começa a despejar cor sobre uma tela. A cidade vai tomando forma como um organismo vivo diante de nossos olhos, e as infinitas particularidades que acabam por formar o todo, perdem o seu caráter de forma única a passam a ser uma construção cultural, um &lt;em&gt;sentido&lt;/em&gt;. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;.................&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Volto para o Tintim. Na página 2 de “O Caso Girassol”, a chuva despenca com intensidade, e fatos perturbadores logo irão começar. O primeiro deles encontra-se no último quadrinho da página, um dos meus quadrinhos preferidos em toda obra de Hergé, e cujo significado total eu demorei a perceber. Na imagem, Tintim, o Capitão e o “bravo” Nestor correm da chuva, sem saber que estão sendo observados por um espião da Sildávia. Mas, no mesmo quadrinho, um espião da Bordúria observa o espião sildavo que observa nossos heróis. E, nessa estranha operação do olhar, nesse verdadeiro ziguezague de olhares que se superpõem sem nunca se cruzarem, há ainda um outro: o do leitor, que é o único que tem conhecimento do que acontece, o único que vê tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter a experiência da chuva nos dá a ilusão de poder tudo saber, de quem sabe poder construir o mundo onde estamos, a partir de seu aparente desmembramento. E isso é o que mais desejam todos aqueles amantes da chuva, que não superaram a sensação de estranheza e desassossego que é estar no mundo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4459488024320817053?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4459488024320817053/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4459488024320817053&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4459488024320817053'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4459488024320817053'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/10/refletindo-sobre-chuva.html' title='Refletindo sob(re) a chuva'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/StIy8-B0UdI/AAAAAAAAAN0/_q3U6f39oLk/s72-c/a+tournesol+b.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-5737815087453189139</id><published>2009-09-23T08:41:00.019-03:00</published><updated>2009-09-23T20:34:01.157-03:00</updated><title type='text'>Tristeza</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SroKy66rGLI/AAAAAAAAANs/DwTveMYSXQU/s1600-h/Degottex+-Suite+obscure.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 270px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5384628174399936690" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SroKy66rGLI/AAAAAAAAANs/DwTveMYSXQU/s320/Degottex+-Suite+obscure.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SroKLUzGdHI/AAAAAAAAANk/nM8XifiuDxc/s1600-h/baden+b.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;É melhor ser alegre que ser triste&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Alegria é a melhor coisa que existe&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;É assim como a luz no coração&lt;br /&gt;Mas pra fazer um samba com beleza&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;É preciso um bocado de tristeza&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Senão, não se faz um samba não&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Não lembro quando foi a primeira vez que ouvi o &lt;em&gt;Samba da Benção&lt;/em&gt; (por Vinicius de Moraes e Baden Powell), mas sei exatamente quando parei para prestar atenção na letra e em seguida chorei feito adulto. As circunstâncias não interessam, mas sim o fato de que se trata de um dos textos mais belos que jamais li. O contraste com Tom Jobim (“Tristeza não tem fim/ Felicidade sim”) é assustador: enquanto Vinicius – o branco mais preto do Brasil – ultrapassa com sua poesia o próprio conceito de tristeza, Jobim fica desfilando uma sucessão de lugares comuns (“A Felicidade é como uma gota de orvalho numa pétala de flor...”), nos fazendo suspeitar que, na verdade, ele não tem a mínima idéia do que está falando. Pois Vinicius já enterra a alegria logo de início, dizendo que é a melhor coisa que existe, para em seguida não mais voltar a falar no assunto. Porque o seu tema é a tristeza, e se não fosse tristeza não haveria o samba, a canção, a poesia. Sem tristeza não haveria arte e é a arte que nos ensina a lidar com essa estranha dimensão do humano que é a tristeza. Lembro de Cruz e Sousa, poeta negro (é curioso como a cor da pele aparece tanto quando se fala do assunto), chamado por Leminski de “Blues e Sousa”, e que como poucos sentiu a violência discriminatória, a dor de ser negro no Brasil. E escreveu: “Mas essa mesma algema de amargura/ Mas essa mesma desventura extrema/ Faz que tu’alma suplicando gema/ E rebente em estrelas de ternura”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Senão, não se faz um samba não &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Senão é como amar uma mulher só linda&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E daí? Uma mulher tem que ter&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Qualquer coisa além de beleza&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Qualquer coisa de triste&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Qualquer coisa que chora&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Qualquer coisa que sente saudade&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Um molejo de amor machucado&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Uma beleza que vem da tristeza&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;De se saber mulher&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Feita apenas para amar&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Para sofrer pelo seu amor&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E pra ser só perdão&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Lembro da crítica rasteira, burra, dizendo que Vinicius era um porco machista, que só via na mulher um objeto, “feita apenas para amar” e, pior, “Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”. A crítica é uma ciência grave, e que dela se afastem os que não entenderam nada. Na verdade, não existe nada menos machista do que “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”, e segue-se a isso uma investigação sobre essa “qualquer coisa” tão misteriosa que as mulheres têm e que os homens desconhecem. Sofrer por amor ? Perdoar ? Que mistérios são esses, que comportamento estranho é esse que as mulheres têm ? E que as faz praticar essas coisas tão estranhas como amar, sofrer, perdoar... No &lt;em&gt;Samba da Benção&lt;/em&gt;, Vinicius sugere que a mulher é capaz de uma transcendência, de algo que a coloca em contato com aquelas coisas das quais nós, pobres homens, só conseguimos nos aproximar através da arte. E essa transcendência, na verdade, é uma operação interna: mulheres não “entram em contato”, elas tem essa sensibilidade como parte integrante de seu ser. Talvez seja esse o sentido do “qualquer coisa de triste” que a mulher tem: a tristeza enquanto metáfora de um universo emocional que os homens apenas tateiam e tentam dar forma com suas criações externas, artísticas. Como o samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Fazer samba não é contar piada&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E quem faz samba assim não é de nada&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O bom samba é uma forma de oração&lt;br /&gt;Porque o samba é a tristeza que balança&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E a tristeza tem sempre uma esperança&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;A tristeza tem sempre uma esperança&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;De um dia não ser mais triste não&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Hoje em dia pratica-se o culto à alegria. Ao menor sinal de tristeza, surge a suspeita de que isso seja o sintoma de algo pior, e a própria suspeita já mergulha o indivíduo no vórtex que leva à depressão: consulta, tratamento, ingestão de substâncias químicas e, no horizonte, o medo que resulta em pânico. Mas medo de quê, exatamente ? De não ser feliz como devemos ser felizes ? (aliás, a expressão por si só já é assustadora: "dever ser feliz"). Oras, a contemporaneidade elegeu a tristeza como inimigo, mas quem disse que nosso tempo é mais feliz que os outros ? Francisco Bosco, meu filósofo pop preferido, cita a leitura que Delleuze fez de Espinosa. A alegria ocorre quando se dá a realização de uma potência. Um escritor conquista a potência através do domínio da linguagem, um pintor através do domínio das cores e formas, e assim por diante. Portanto, não existe produção artística triste: todo blues melancólico que possui como tema o sofrimento, deixa de ser triste por ser a realização de uma potência. No fundo, a tristeza aponta para alguma coisa misteriosa, para algum lugar certamente dentro de nós mesmos. E no &lt;em&gt;Samba da Benção&lt;/em&gt;, Vinicius termina por desvendar todo o mistério da tristeza: o bom samba “é uma forma de oração”, trazendo implícito que a fé e mesmo a esperança estão por trás de toda a tristeza. Pois um dia ela vai deixar de ser triste e, enquanto isso não ocorre, ouvimos um samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Porque o samba nasceu lá na Bahia&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E se hoje ele é branco na poesia&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Se hoje ele é branco na poesia&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Ele é negro demais no coração&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-5737815087453189139?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/5737815087453189139/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=5737815087453189139&amp;isPopup=true' title='25 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5737815087453189139'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5737815087453189139'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/09/tristeza.html' title='Tristeza'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SroKy66rGLI/AAAAAAAAANs/DwTveMYSXQU/s72-c/Degottex+-Suite+obscure.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>25</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-2409445001667528116</id><published>2009-09-15T17:18:00.011-03:00</published><updated>2009-09-15T19:42:33.251-03:00</updated><title type='text'>Primeiro aniversário</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/Sq_4XL-6PDI/AAAAAAAAANc/Xl5evAwjHsA/s1600-h/cake+c.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 267px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5381793156968365106" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/Sq_4XL-6PDI/AAAAAAAAANc/Xl5evAwjHsA/s320/cake+c.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;E eis que o blog completa um ano. Comemoro comendo bolo e lembrando três campeões de audiência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ouro Preto – 4 de junho, 2009 – 26 comentários&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O texto deve ter mexido com as lembranças de quem foi na viagem (de fato, ninguém permanece indiferente a Ouro Preto). Além disso, falar sobre essa viagem mexe com a minha memória, com camadas espessas de memória que eu vou depositando naquela cidade a cada ano. Talvez daí o recorde de comentários: desde há muito percebi que quanto mais o texto desvenda algo essencialmente “meu”, mais ele tem leitores ou provoca comentários (de fato, os muitos textos que escrevo pensando a cidade tem uma média de leitura muito inferior; minhas ambiciosas resenhas cinematográficas então, quase passam desapercebidas). Desde o nascimento do blog, tento fugir do confessional, mas lentamente descubro que o texto ideal é aquele que parte do comentário sobre o fato corriqueiro para em seguida tentar desvendar algo do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lazare Ponticelli – 16 de setembro, 2008 – 23 comentários&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O obituário de Ponticelli, último soldado francês sobrevivente da Primeira Guerra Mundial. O texto saiu em &lt;em&gt;The Economist&lt;/em&gt;, simplesmente traduzi e divulguei, após leitura em aula. Muito mais que um mero obituário, o texto fala de memória e talvez tenha sido a razão de sua aceitação. Mas confesso que me surpreendi com o sucesso do texto, e me impressiona mais ainda os 15 comentários em três dias, recorde total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Che cossé l’amor – 31 de agosto, 2009 – 22 comentários&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrito meio apressadamente, para dar conta de um tema que estava sempre à espreita e que era pedido por alguns. De propósito, deixei de lado a única visão do que talvez possa ser chamado de amor de fato: o amor unilateral, que não espera retorno, o amor incondicional, o amor de mãe por exemplo. A ironia foi deixar uma pista na trilha sonora: a divertida música de Pio Leyva – cubano das antigas – “Amor verdadero”, que conta a história de um desgraçado que foi abandonado por tudo e por todos, exceto pela mãe. Mas os leitores se apressaram em me apontar essa visão de amor, seja pessoalmente, seja em comentários. Por exemplo, na bela citação de Vieira (que eu não conhecia), mandada pela Mari:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ora, vede, definindo S. Bernardo o Amor fino, diz assim: 'Amor non querit causam, nec fructum'; o Amor fino não busca causa nem fruto. Se amo porque me amam, tem o amor causa; Se amo para que me amem, tem fruto: o Amor fino não há de ter por quê nem para quê. Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; Se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? 'Amo, qui amo, como ut amem': Amo porque amo e amo para amar. Quem ama porque o amam é agradecido; Quem ama para que o amem é interesseiro; Quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Também deixei de lado uma referência básica, &lt;em&gt;O banquete&lt;/em&gt;, e a única pessoa que de alguma forma intuiu a opinião de Platão sobre amor foi certa comentarista anônima ("Ana") que, apesar de uma parca educação (e de uma contradição de termos) sugeriu que o discurso sobre amor jamais poderia ter um sujeito enunciante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, agradeço aos que acompanham o blog e espero que todos tenham tido, enquanto liam, ao menos metade da diversão que eu tive enquanto escrevia. Abraços e feliz aniversário !&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-2409445001667528116?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/2409445001667528116/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=2409445001667528116&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2409445001667528116'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/2409445001667528116'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/09/primeiro-aniversario.html' title='Primeiro aniversário'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/Sq_4XL-6PDI/AAAAAAAAANc/Xl5evAwjHsA/s72-c/cake+c.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-3911928664542671648</id><published>2009-08-31T09:41:00.005-03:00</published><updated>2009-08-31T17:17:25.013-03:00</updated><title type='text'>Che cossé l'amor ?</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SpvGNKZVmjI/AAAAAAAAANM/8nPV4ytp5Hw/s1600-h/Dante_Beatrice_Paradiso_Canto_31.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 288px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5376108509628045874" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SpvGNKZVmjI/AAAAAAAAANM/8nPV4ytp5Hw/s320/Dante_Beatrice_Paradiso_Canto_31.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Volta e meia brinco de Filosofia: escolho um tema (vá lá, um conceito) e exploro, torturo, tento ampliar seu alcance, tento fazer nascer a “faísca” de que falava Platão. Dessa forma, assumo a atitude filosófica de me perguntar sobre o mundo à minha volta e convido os leitores para fazerem o mesmo. Porém, como diálogo, o troço todo nunca avança muito: um link para “comentários” e o longo tempo entre pergunta e resposta acabam desanimando a todos. Tenho certeza que o blog tem mais leitores passivos que colaboradores, mas sei que os leitores passivos partem da leitura do texto para suas próprias descobertas, animando os seus próprios alegres colóquios. E é justamente por quererem avançar nas suas descobertas e alimentar sua reflexão sobre este ou aquele assunto, que muitos me pedem para abordar alguns temas específicos. Dentre estes, o inominável sempre aparece: pedem-me que fale sobre o amor. Mas, como diria o perplexo guerreiro viking em &lt;em&gt;Asterix e os Normandos&lt;/em&gt;, “Como posso fazer algo que desconheço?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Interlúdio pop: durante 27 anos, René Goscinny e Albert Uderzo produziram 24 volumes de As Aventuras de Asterix, um verdadeiro monumento cultural do século XX. Além de soberbamente engraçados, cada álbum de Asterix gira em torno de um ou dois assuntos explorados de forma genial: sob a capa espessa de um humor anárquico, existe quase uma proposta de reflexão sobre conceitos. Em &lt;em&gt;Asterix e os Normandos&lt;/em&gt;, por exemplo, “discute-se” o conceito de medo. Após a morte de Goscinny (o responsável pelos textos) a obra foi tocada apenas pelo desenhista Uderzo, que foi incapaz de manter o pique: os álbuns passaram a ser entediantes, com os personagens repetindo seus comportamentos como verdadeiros clichês, e com interesses de mercado meio óbvios por trás de cada novo título.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tateio sobre o assunto. Usei a palavra inominável (alguns diriam &lt;em&gt;inefável&lt;/em&gt;) porque mal sei se o amor existe ou, no mínimo, sou incapaz de chegar a um entendimento sobre o que seja o amor. Sei que tem algo a ver com a atração que sentimos por uma pessoa, mas antes que eu possa entendê-lo, sou perturbado pelo fato de que tal atração quase sempre vem atrelada ao desejo de posse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que não nos limitamos apenas gostar, por que existe também o desejo de possuir ? Qual o mistério que se esconde por trás do desejo de posse que vem junto de todo amor ? Pois me parece que é justamente isso que caracterize o amor: gostar + possuir. Talvez seja por isso mesmo que muitas vezes, quando nos referimos ao ato sexual, usamos o verbo “possuir”, muito mais transcendente do que “transar” (do que “comer” então nem se fala). E talvez seja por isso que gostemos tanto de histórias de vampiro, evidentes metáforas do amor, uma vez que falam da posse física e espiritual de uma pessoa, em um tempo infinito. Histórias de vampiro nos fazem crer que o amor de fato existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui se abre o aspecto mais perturbador de toda relação: queremos que o amor seja correspondido, mas isso faz com que além de possuidores, sejamos ao mesmo tempo objeto do desejo de posse de Outro. Quando sabemos que alguém quer nos possuir, de alguma forma nos sentimos envaidecidos (amados), ao mesmo tempo em que lamentamos o risco de perda da liberdade. Se eu sou objeto da posse de alguém, corro o risco de deixar de ser quem eu sou, de perder essa identidade pacientemente (dolorosamente) construída ao longo de anos. Da mesma forma, quando queremos possuir, sabemos que, ao exercer o controle sobre o Outro, a pessoa amada corre o risco de deixar de ser quem ela é: uma vez tornada objeto de nossa posse, ela deixa de possuir as características que despertaram o amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, é possível a atração entre duas pessoas sem o desejo de possuir ? Certamente que é, mas nesse caso não será chamada de amor, portanto trata-se de um tipo de relação que não me interessa como objeto de reflexão. Considerando, portanto, que o desejo de possuir seja indissociável do que chamamos de amor, é possível que duas pessoas se possuam sem se “destruir” mutuamente ? Em outras palavras, um amor correspondido é possível ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeira resposta: não, o amor é sempre unilateral, platônico, até. Toda realização do amor implica em sua morte. Dante amou Beatriz, e uma prova incontestável de seu amor foi a &lt;em&gt;Divina Comédia&lt;/em&gt;. Na obra, o poeta florentino consumou seu amor com Beatriz apenas em verso, descrevendo uma cena idílica nas nuvens do Paraíso, canto 31, em meio a um concerto de anjos. Sabemos que Dante jamais dirigiu sequer uma palavra a Beatriz na vida real, suspeitamos que se eles fossem amantes reais, Dante jamais perderia seu tempo escrevendo algo como a &lt;em&gt;Divina Comédia&lt;/em&gt;, preferindo obviamente ficar com sua amada, “possuindo-a”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segunda resposta: sim, o amor correspondido é perfeitamente possível, pois a destruição de uma individualidade não deve ser vista como negativa. Aliás, ao invés de “destruição”, melhor seria pensar em “construção” de algo novo. No amor, construímos uma nova identidade, nos descobrimos amando. Impossível, não lembrar de &lt;em&gt;post&lt;/em&gt; recente, sobre fuga. Amor tem algo de fuga, no sentido de deslocamento. Pois o amor verdadeiro deve nos completar: quando se ama, brilha o entendimento.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-3911928664542671648?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/3911928664542671648/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=3911928664542671648&amp;isPopup=true' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3911928664542671648'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/3911928664542671648'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/08/che-cosse-lamor.html' title='Che cossé l&apos;amor ?'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SpvGNKZVmjI/AAAAAAAAANM/8nPV4ytp5Hw/s72-c/Dante_Beatrice_Paradiso_Canto_31.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-4724853785716274142</id><published>2009-08-16T21:39:00.018-03:00</published><updated>2009-08-17T09:23:08.410-03:00</updated><title type='text'>De volta à Cidade</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SoipwFxInKI/AAAAAAAAAM8/ELSTEI68kf0/s1600-h/paris-metro-plan-karte.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5370729199286394018" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SoipwFxInKI/AAAAAAAAAM8/ELSTEI68kf0/s320/paris-metro-plan-karte.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;A força do dia fez com que eu me refugiasse numa caverna; no fundo havia um poço, no poço uma escada que abismava na treva inferior. Desci; por um caos de sórdidas galerias cheguei a uma vasta câmara circular, a muito custo visível. Havia nove portas naquele porão e oito davam para um labirinto que falazmente desembocava na mesma câmara; a nona (através de outro labirinto) dava para uma segunda câmara circular, igual à primeira. Ignoro o número total de câmaras; minha desventura e minha ansiedade as multiplicaram. O silêncio era hostil e quase perfeito, outro rumor não havia nessas profundas redes de pedra além de um vento subterrrâneo, cuja causa não descobri; sem ruído, perdiam-se entre as gretas fios de água enferrujada (...)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo de um corredor, um muro não previsto me barrou os passos, uma remota luz caiu sobre ele. Ergui os olhos ofuscados: no vertiginoso, no mais alto, vi um círculo de céu tão azul que pareceu-me púrpura. Alguns degraus de metal escalavam o muro. O cansaço me relaxava, mas subi, só me detendo às vezes para pesadamente soluçar de felicidade. Fui divisando capitéis e astrágalos, frontões triangulares e abóbadas, confusas pompas de granito e mármore. Foi-me assim concedido ascender da cega região dos negros labirintos entretecidos à resplandecente Cidade.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O texto acima descreve com incrível semelhança a primeira vez que me aventurei sozinho pela imensa rede de metrô de uma cidade grande e me perdi por alguns instantes. Na verdade, acho que prolonguei voluntariamente minha situação de “perdido”, saindo em estações diferentes para ter surpresas, pegando a linha errada para ver onde iria parar. A cidade era Paris, o ano 1990 (a rede de metrô é a da figura acima). Foi assim que descobri, por exemplo, a Linha 6, que de repente deixa de ser subterrânea e oferece aos passageiros que vão na direção de Étoile uma magnífica vista da torre Eiffel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fragmento citado, todavia, não tem nada a ver com metrô, pelo contrário. É a descrição fantástica que o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) faz da “cidade dos imortais” em um dos contos do livro &lt;em&gt;O Aleph&lt;/em&gt;. Seja como for, a idéia de um labirinto em que câmaras idênticas se sucedem, ligadas umas às outras por túneis e caminhos subterrâneos chega a ser quase precisa. As estações do metrô de Paris são muito semelhantes entre si: longas plataformas ferroviárias, com tetos como se fossem seções de cilindro, cobertos de azulejos brancos de uma ponta a outra. A monotonia das paredes de azulejo branco é quebrada pelos painéis publicitários (e os painéis se repetem em todas as estações, ajudando a criar o aspecto labiríntico em que as câmaras são de fato idênticas) e por uma placa azul turquesa, onde está escrito o nome da estação em branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, os nomes das 380 (repito, trezentos e oitenta) estações de Paris por si só já são uma delícia. Nomes de lugares, nomes de pessoas, nomes históricos. Nomes de batalhas ! Há milhões de fantasmas por trás de algumas estações que têm nomes das batalhas da França: Bir-Hakim (1942, cinco mil mortos), Iena (1806, trinta mil mortos), Sebastopol (1855, setenta mil mortos), Alésia (52 a.C., talvez cem mil mortos). Porém, o que chega a ser engraçado (ou no mínimo inusitado) são as estações que foram rebatizadas, e acabam tendo dois nomes. Por exemplo, a estação Barbés-Rochechouart, que reúne o nome de um revolucionário de 1848, Armand Barbés, com o de uma aristocrata do Antigo Regime, Marguerite de Rochechouart.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o post de hoje não é sobre nada disso, e sim sobre uma notícia da semana que passou, segundo a qual a prefeitura de São Paulo irá gastar, nos próximos anos, algo em torno de 4 bilhões de reais com obras viárias. Ou seja, com avenidas para automóveis. Tal volume de recursos seria suficiente para construir cerca de 20 km de metrô. Trata-se de uma notícia escandalosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um princípio do urbanismo, comprovado desde há muito segundo o qual as “vias criam o seu próprio tráfego”. A idéia que a construção de avenidas e cada vez mais avenidas serve para “desafogar” o tráfego é uma mentira atroz. Lembro da recente construção da famosa Ponte Estaiada – com seus cabos imensos, como se a cidade já não tivesse fios demais pendurados sobre nossas cabeças – que foi justificada como uma forma de levar o tráfego rapidamente de um ponto para outro e que imediatamente se converteu em um verdadeiro estacionamento a céu aberto nos horários de pico. O princípio do urbanismo que citei surgiu a partir das fracassadas experiências ocorridas em Nova York a partir da ação de Robert Moses (1888-1981), que planejou o desenvolvimento da cidade dando prioridade aos automóveis. Sem a mínima preocupação com conservação, Moses derrubava bairros inteiros e degradava outros tantos para abrir avenidas, pontes e vias elevadas, tendo iniciado suas furiosas atividades de engenharia já na década de 1920. Quarenta anos depois, o modelo estava esgotado e a cidade paralisada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cidade de São Paulo ainda estamos nas mãos dos carros, e décadas seguidas de abertura de avenidas asfaltadas não resolveram o problema do tráfego. O que é evidente, pois o problema de circulação não se resolve com automóveis (e um dia as gerações futuras irão rir de nós, constatando que para nos deslocarmos do ponto A até o ponto B levamos junto 700 kg de ferro, aço e borracha, emitindo poluentes no processo). Avenidas, obviamente, tem um efeito eleitoral magnífico, pois tem imensa visibilidade: 100 km de avenidas são mais visíveis que 20 km de metrô, dando impressão de que o prefeito construtor de avenidas asfaltadas é um sujeito que “faz” as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os argumentos mentirosos para justificar tal uso imbecil de recursos são infindáveis: “Metrô é obrigação do Estado e não da Prefeitura”, repetem os sucessivos prefeitos, assumindo publicamente sua omissão. “Metrô leva muito tempo para ser construído, enquanto o problema do tráfego é imediato”, tal argumento tem sido utilizado há décadas para justificar a falta de iniciativa. De fato, se 30 anos atrás os recursos tivessem sido destinados ao metrô e não aos minhocões da vida... Mas o argumento do tempo que leva a construção do metrô aponta para outra tragédia: uma infinidade de avenidas asfaltadas pode ser construída durante um mandato de 4 anos, enquanto um simples trecho do metrô pode levar muito mais tempo, muito além do mandato de um prefeito ou governador. Portanto, estes jamais irão iniciar uma obra que será concluída por outro. E a cidade que se dane.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mentiras não param. Os míseros 60 km do metrô de São Paulo estão divididos em cinco linhas... que cinco ? Existe UMA linha de metrô em São Paulo, a número 1, azul, Tucuruvi-Jabaquara. A linha 2, verde, é um mero ramal (nove estações) e a linha 3, vermelha, é apenas a adaptação de trilhos que já existiam na superfície desde há muito. Já a linha 4, amarela, prevista para 2010 (claro, ano de final de mandato do governador candidato à presidência), vai bater dois recordes negativos: maior tempo de construção e maior distância entre estações (aliás, terá somente 7 estações novas, sendo portanto mais um simples ramal). Finalmente, existe a linha 5 lilás, que leva do nada a lugar nenhum em 6 estações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma vergonha. Todo o planejamento e construção do metrô de São Paulo desde a inauguração é prova de uma incompetência feroz, bem como da submissão do interesse público a ambições mesquinhas.  Comparemos com outras cidades, que tiveram metrô inaugurado mais ou menos na mesma época que o de São Paulo (1974): Seul, hoje com 287 km em 10 linhas e Cidade do México, com 202 km em 11 linhas. E são linhas reais, e não de mentirinha como as nossas. Em nome de uma carreira política, destrói-se a cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Defendo radicalmente o metrô porque é a única alternativa que temos. E porque em um transporte coletivo minimamente civilizado como o metrô, podemos nos livrar do isolamento destruidor (e quase assassino) dos carros, multiplicando as trocas e os encontros, ou seja, praticando o “viver junto” que é o princípio mais essencial e prazeroso das cidades.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-4724853785716274142?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/4724853785716274142/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=4724853785716274142&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4724853785716274142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/4724853785716274142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/08/de-volta-cidade.html' title='De volta à Cidade'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SoipwFxInKI/AAAAAAAAAM8/ELSTEI68kf0/s72-c/paris-metro-plan-karte.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-5273244245726832168</id><published>2009-08-16T21:28:00.007-03:00</published><updated>2009-08-17T10:57:33.654-03:00</updated><title type='text'>Fugir (continuação)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O último post foi certamente um dos mais instigantes. Nos comentários, o conceito de "fugir" foi melhor delimitado, ou mesmo ampliado, e acabou ganhando novos significados que eu jamais havia pensado. Assim se cumpriu o projeto do blog: levar o pensamento adiante, para mim e para os leitores, como em um Alegre Colóquio.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-5273244245726832168?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/5273244245726832168/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=5273244245726832168&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5273244245726832168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5273244245726832168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/08/fugir-continuacao.html' title='Fugir (continuação)'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-5354931605366890866</id><published>2009-08-06T10:54:00.008-03:00</published><updated>2009-08-07T06:45:03.108-03:00</updated><title type='text'>Fugir</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SnrhBfniKvI/AAAAAAAAAMs/iij-_UZ50oM/s1600-h/fugir+l.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5366849321748802290" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 210px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SnrhBfniKvI/AAAAAAAAAMs/iij-_UZ50oM/s320/fugir+l.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Anos trás precisei de documentos ( = provas) para um processo imbecil na justiça contra um certo estelionatário, na época proprietário de uma escola onde eu trabalhava. Naquela escola funcionava um caixa dois: os salários eram pagos “por dentro” e “por fora”, havendo inclusive duas contabilidades paralelas, uma legal outra ilegal. Eu achava curioso que os procedimentos eram idênticos nos dois casos, recibos, holerites e assinaturas para lá e para cá, mesmo na contabilidade paralela. A única diferença é que os procedimentos do caixa dois eram feitos todos em uma sala discreta, com portas abertas, é bem verdade, o troço todo era ao mesmo tempo secreto e do conhecimento de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi que se possuísse os documentos “secretos” do caixa dois teria um trunfo na justiça. Certa ocasião, fui à tal sala discreta da contabilidade e, quando peguei uma pilha de documentos para assinar recibos atrasados, perguntei à contadora: “Puxa, vocês não tem medo que alguém use esses papéis em um processo contra a escola ?”. A mocinha respondeu, “Ah, mas é por isso que esses papéis nunca saem dessa sala”. Foi o sinal. Larguei a caneta e, para sua surpresa, pus a pilha de documentos debaixo do braço e saí correndo pela escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma fuga maravilhosa. Ninguém poderia imaginar: um professor correto, correndo desabaladamente pelos corredores da administração, passando como um foguete em frente à sala do proprietário-estelionatário (que nada sabia do que se passava), atravessando a sala de espera, onde pais de alunos não entendiam o porquê da correria (claro, com a mocinha da contabilidade bufando atrás de mim). Passamos correndo pelo pátio, pegamos o corredor lateral que dava para a saída da escola, ela gritando “Pare ! Volte!”. Próximo ao portão, ela ainda tentou gritar para o porteiro que me detivesse: “Não deixe ele sair !”. Cumprimentei o porteiro, velho conhecido, alcancei a rua e parei, exausto. A mocinha, ofegante, me alcançou, mas já não era mais possível nenhuma ação. Apenas olhei para ela e para a escola atrás dela, onde algumas pessoas já olhavam pela janela, e me ocorreu que jamais voltaria naquele lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma saída espetacular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;.................................&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento estabelecer claramente os significados de fugir e sair. O que diferencia um ato do outro ? A meu ver, sair dá idéia sobretudo de deslocamento. Mas o que faz esse deslocamento diferente do fugir ? Nos dois casos pode ser um deslocamento voluntário ou não, para longe ou para perto, tanto rápido quanto devagar. Em que circunstâncias uma saída passa a ser uma fuga ? Em outras palavras, do quê, exatamente, fugimos ?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os gregos, com a perspicácia habitual, nos ajudam. A origem mais remota da palavra fugir vem de φεύγω (feugo), às vezes aparecendo como διαφεύγω , com o acréscimo da preposição δια- (através de, por meio de). Platão usa a expressão διαφεύγει με, no sentido de “isso me escapa”, ou seja, algo que ignoro. Em Isócrates, há πολλά με διαφεύγεν, que quer dizer “esqueci muitas coisas”. Aqui começamos a descobrir do que fugimos. Fugir significa não pertencer mais ao pensamento, o que põe em jogo o esquecimento. Na fuga, lidamos com a memória, saímos de uma situação ou de algo que não queremos mais que faça parte de nosso pensamento. Será que esse algo é uma parte de nós ? Quando fugimos, apagamos alguma coisa, criando assim um espaço em branco que pode ser construído talvez da forma que quisermos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é por isso que existe algo de transcendente em toda fuga. A fuga deve ser dramática, não existe fuga insidiosa ou discreta, pois esta se confunde com o mero desaparecimento. Um fuga não deve ser o fim, mas o início, pois quando fugimos nos reinventamos. A fuga significa fazer tábula rasa do passado, gerando a possibilidade de começar de novo, e é esse o sentido que aproxima o fugir da filosofia. Na filosofia devemos nos perguntar sobre as coisas que parecem óbvias, mas que descobrimos que não são: toda filosofia parte da fuga do senso comum, do mero entendimento das coisas ao nosso redor como dados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, às vezes pensamos estar fugindo quando simplesmente &lt;em&gt;não enfrentamos&lt;/em&gt;. Pois há aqueles que fazem da fuga um modo de vida, e isso acaba impedindo a criação de qualquer coisa, ou mesmo a constituição de um eu. Nesses casos, no espaço em branco deixado pela fuga constrói-se um &lt;em&gt;nada&lt;/em&gt; avassalador. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-5354931605366890866?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/5354931605366890866/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=5354931605366890866&amp;isPopup=true' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5354931605366890866'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/5354931605366890866'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/08/fugir.html' title='Fugir'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SnrhBfniKvI/AAAAAAAAAMs/iij-_UZ50oM/s72-c/fugir+l.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4566110121041371872.post-1325848097172679393</id><published>2009-08-02T09:45:00.007-03:00</published><updated>2009-08-02T10:51:01.164-03:00</updated><title type='text'>Senzala</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SnWMAnakxeI/AAAAAAAAAMk/aM0Zl12R8JY/s1600-h/senzala.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5365348473290147298" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 216px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ezIOj8mSnsw/SnWMAnakxeI/AAAAAAAAAMk/aM0Zl12R8JY/s320/senzala.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem foi para Ouro Preto, uma foto da senzala da Casa dos Contos, tal como era antes do verdadeiro crime museológico que presenciamos. Segue abaixo uma cópia da carta que enviei para a direção da Casa dos Contos no ano passado e que, como vimos, acabou não resultando em nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Ouro Preto, 15 de julho, 2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para:&lt;br /&gt;Direção da Casa dos Contos&lt;br /&gt;Centro de Estudos do Ciclo do Ouro&lt;br /&gt;Ouro Preto, Minas Gerais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prezado senhor,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como professor de História do Curso Anglo de São Paulo (centro de excelência na preparação para vestibulares desde a década de 1950), tenho tido oportunidade de visitar a Casa dos Contos com grupos de alunos nos últimos dez anos. Trata-se, sem dúvida, de um dos pontos altos da viagem anual do Curso para as cidades históricas de Minas Gerais e sempre me chamou atenção o cuidadoso trabalho de restauração e exposição aí realizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recentemente, tive a surpresa de constatar que a senzala foi transformada em uma sala de exposições, completamente tomada por mostruários e vitrines contendo uma infinidade de objetos que, apesar de bastante interessantes, acabaram por “matar” aquele espaço, tão significativo no conjunto da edificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espaço vazio, silencioso e sombrio da senzala sempre foi um local privilegiado para a evocação da trágica experiência da escravidão e, mais de uma vez, observei meus alunos adolescentes em momentos de profunda introspecção (e, certamente, reflexão) diante do sentimento de ausência proporcionado por aquele espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, infelizmente, a senzala se encontra paradoxalmente cheia (de objetos) e vazia (de significado). Sua singularidade foi perdida: a quantidade excessiva de objetos expostos não apenas é desnorteante como desvia a atenção da própria senzala, hoje transformada em uma sala como outra qualquer. Seus mostruários evocam as vitrines dos afamados “shopping centers”, transformando uma experiência historicamente densa em um mero simulacro da experiência do consumo: a história deixa de abrir uma possibilidade de reflexão e dá origem à uma atividade banal, empobrecida. (Insisto: essa perda de sentido contrasta com a própria riqueza dos objetos expostos que, francamente, devem ser retirados daquele espaço).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impossível não lembrar do conceito benjaminiano de aura: “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais próxima que ela esteja”. A de senzala foi jogada no lixo, a experiência de uma visita à Casa dos Contos é hoje bem menos interessante do que outrora. E, para os que a conheceram no passado, trata-se de uma experiência quase angustiante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acredito que a Direção da casa dos Contos levará em consideração minhas observações, no seu objetivo de preservar a memória de Ouro Preto, compreendendo e valorizando a História e a preservação da memória não como espetáculo, mas, sobretudo, como instrumento de reflexão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atenciosamente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Gianpaolo Dorigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Bacharel e Licenciado em História pela Universidade de São Paulo&lt;br /&gt;- Mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo&lt;br /&gt;- Bolsista do CNPQ junto ao Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga) em 1987-1989.&lt;br /&gt;- Pesquisador visitante junto ao&lt;/em&gt; Musée Royal de l’Armée et d’Histoire Militaire &lt;em&gt;de Bruxelas, Bélgica (1990)&lt;br /&gt;- Professor do Curso Anglo-vestibulares desde 1991.&lt;br /&gt;- Autor de livros didáticos de História e Filosofia para Ensino Médio pelas editoras Scipione e Anglo.&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;........................................&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;PS.: Sobre o termo "local de memória" (&lt;em&gt;lieu de mémoire&lt;/em&gt;), conforme usei neste ano: trata-se de conceito de largo uso na historiografia francesa recente, cunhado pelo historiador Pierre Nora. O também historiador, inglês, Colin Jones explica: "Designa uma instituição ou local em que se focou a consciência histórica de um povo e que ao longo do tempo recebeu contínuas incrustrações da memória coletiva". &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4566110121041371872-1325848097172679393?l=gianprof.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://gianprof.blogspot.com/feeds/1325848097172679393/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4566110121041371872&amp;postID=1325848097172679393&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1325848097172679393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4566110121041371872/posts/default/1325848097172679393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://gianprof.blogspot.com/2009/08/senzala.html' title='Senzala'/><author><name>Gian</name><uri>http://www.blogger.com/profile/09290276398126174311</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='htt
