domingo, 28 de maio de 2017

Cool memories



Há uma cena no filme “O que mais desejo” (Kiseki, 2011) em que o personagem principal, um menino de 12 anos, entra no ônibus e pensa. Dizem lá os especialistas que por volta dessa idade nos tornamos capazes do pensamento abstrato e, no filme, o jovem Koichi, em meio a uma sucessão de acontecimentos que afetam a sua vida, simplesmente parou para pensar. A câmera do diretor Kore Eda registrou esse momento em uma cena simples, porém densa.

Chama atenção que nesse momento o menino está voltando da escola, e eu me pergunto se esse não é um dos momentos mais importantes na vida de alguém: ir e voltar da escola, principalmente nos seus primeiros anos. Ir de casa para a escola significa passar da esfera dos afetos domésticos para a da sociabilidade pública, e nunca é demais lembrar que a escola é o primeiro momento em que nos encontramos por conta própria, quando nem pai nem mãe podem nos resgatar de alguma situação. É o momento em que se começa a avaliar as coisas, a pensar nas consequências.

Me agrada pensar que o caminho da escola é longo, que deve ser feito e pé ou em transporte público, portanto que demandam um tempo que só pode ser preenchido pelo pensamento. Nesse sentido, ir de carro para a escola me parece um crime: significa ser despejado de uma esfera em outra subitamente, significa sentar em um banco de trás e fazer qualquer coisa para “passar o tempo”, significa suspender o pensamento e tornar indiferente a passagem do privado para o público. Me pergunto se ir a pé ou em transporte público para a para a escola não é a parte mais importante do dia escolar, seja sozinho, imerso em seus pensamentos, seja com alguém, com os pais, conversando, trocando ideias.

Com 12 anos de idade meus pais me informaram que eu já era grande suficiente para ir e voltar para a escola por conta própria, um percurso de pouco mais de um quilômetro a ser feito a pé em um bairro residencial e que eu faria nos próximos sete anos. Além de estar a sós com meus pensamentos, passei a conhecer detalhadamente o caminho e comecei a ter com a cidade e seus habitantes uma outra relação. Foi quando comecei a enfrentar o frio da manhã e o calor do meio dia, a densa cerração do inverno e as chuvas frias do outono. Foi quando vi a geada de 1979, que cobriu a cidade de branco, um fenômeno que jamais se repetiu. Foi quando a cidade passou por uma daquelas épocas de seca e, bem cedo pela manhã, cruzei na rua vazia com um senhor de idade indefinida, pele curtida de sol e com uma perna de pau, que muito me impressionou. Com forte sotaque nordestino ele cantava bem alto uma canção cheia de nostalgia, cujo refrão dizia “Tomara que chovaaaa.../ Dez dias sem paraaaaar..”.

Foi em uma dessas primeiras caminhadas, voltando para casa, que lembrei da aula de Biologia recém encerrada, quando o professor falou que as plantas são seres vivos. Isso me fez pensar , talvez pela primeira vez na vida, em que é a vida. Sabendo ser, sem dúvida, diferente de uma planta, realizei o momento cartesiano de perceber em mim uma consciência pensante, capaz de tomar conhecimento de si própria. O que me fez pensar nas possíveis ilusões a que essa percepção estaria sujeita. Na época, é claro, eu não tinha ferramenta conceitual alguma: pude pensar livremente, explorar as ideias sem amarra conceitual alguma, despreocupado de qualquer lógica que não fosse a do bom senso, e com a liberdade compensando (em muito) uma eventual falta de rigor. Aos doze anos, caminhando de volta para casa, fui filósofo pela primeira e única vez na vida.


domingo, 5 de fevereiro de 2017

Sotto la pioggia


Enuncio três equações para ajudar o pensamento:

+ 1 + 1 = 0

Trata-se de um procedimento bastante comum na forma como se pratica o debate hoje em dia, e que resulta em nada, absolutamente nada. É também expressão de um certo bom-mocismo bastante evidente nesses tempos de redes sociais e forte demanda por “curtidas” como forma de autoafirmação. Refiro-me ao veredito definitivo sobre um determinado assunto que, uma vez elaborado e ungido ao estatuto de consenso, passa a ser afirmado, reafirmado e reafirmado novamente. Inclui necessariamente juízos morais, e tem como efeito uma certa satisfação pessoal. “Sou uma pessoa bacana, comporto-me como a maioria civilizada em oposição aos outros”. Por um lado, está garantida a satisfação individual, por outro, o entendimento não avança sequer um milímetro – além de alimentar o maniqueísmo. Tudo é bacana, todos somos legais, todos estamos juntos... e formamos uma grande nulidade.

+ 1 – 1 = + 1

Trata-se aqui do primeiro passo na direção do entendimento, que me parece intimamente ligado à força da negação: diante do óbvio, a subversão; diante do pensamento de manada, sua negação. Reconhecendo-se o potencial imensamente criativo da negação, surgem alguns riscos: só existirá negação criadora de sentido se for elaborada contra uma unidade precisa. Ou seja, a negação sem objeto é nada:  – 1 = 0. Se no primeiro caso, mais acima, tínhamos a nulidade produzida pelo entusiasmo positivo, aqui se encontra a nulidade que resulta no silêncio, no fim da possibilidade de pensamento.

– 1 – 1 =  + n

Trata-se da negação da negação como forma de criação do entendimento. A Dialética Negativa. Muitas vezes penso que é a única forma de entendimento que nos foi dada como possível diante das nulidades que têm sido produzidas de diversas formas ultimamente. Reforço minha crença no seu potencial quando me deparo com a crise da verdade no novo século: se antes no debate havia a oposição teórica entre verdade x opinião, hoje em dia chegamos ao ponto de ver o embate descer no nível factual do confronto entre acontecimento x opinião. Cabe ao pensamento retomar sua forma negativa radical justamente como tentativa desesperada de se opor à política radical de hoje em dia que se alimenta da falsificação do acontecimento e da formação de consensos vazios.






quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Ainda a educação



Anos atrás, em visita à casa de meus pais – onde morei até o início da juventude – encontrei meu sobrinho, então com uns quatro anos de idade. Descíamos pelo elevador quando encontramos uma velha senhora, antiga moradora do prédio, que logo me saudou, “Quanto tempo” e “Conheci você pequenino e agora já está um homem feito” e, após uma olhada ao meu sobrinho, “Esse aqui é seu filho ?”. Querendo fazer graça com meu sobrinho e, ao mesmo tempo, tentando colocar o moleque diante de uma situação nova, menti, sorrindo: “É, esse aqui é meu filhinho”. Em seguida a senhora olhou para o moleque e perguntou: “Como é seu nome ?”. E ele, cujo nome é Lucas, respondeu na hora: “Mateus”.
Esse é o ponto. Não importa o quanto tentemos ensinar o que é certo o que é errado, as pessoas aprendem pelo exemplo. Após ser ensinado mil vezes que não se deve mentir, o moleque se viu diante de uma situação na qual a mentira estava autorizada, e participar da mentira inofensiva significaria construir um elo, uma cumplicidade com o tio. Intuitivamente, o moleque concluiu que estreitar laços afetivos era mais importante que seguir algum princípio. Ou ainda: a ordem ("não minta!") pode ser desobedecida em certas circunstâncias. Sem querer, o garoto estava aprendendo a ter discernimento.
A história acima serve para ilustrar uma grande preocupação: queremos ensinar uma coisa e acabamos transmitindo outra. O tom singelo, emancipador e quase libertário do relato  contrasta com os riscos, por exemplo, do que se ensina na escola, e de como isso pode ser entendido por alunos. Cito três exemplos:
1) Testes de múltipla escolha. Independente do conteúdo correto da resposta, longos anos resolvendo testes de múltipla escolha ensinam basicamente o maniqueísmo: diante dos problemas do mundo existe o que é certo e o que é errado e ponto final. Desaparecem as nuances e eu me pergunto se o maniqueísmo enlouquecido em que vivemos hoje em dia não tem a ver com duas gerações sucessivas de pessoas cuja experiência escolar nos decisivos anos da adolescência enfatizou os testes de múltipla escolha, bem  como a preparação para tais testes como fim último da atividade escolar.
2) Sistema de notas. Não aufere conhecimento, mas ensina que o desempenho humano pode ser expresso em valores numéricos, e esse é a finalidade da atividade, qualquer atividade. Basta uma intervenção racional (por exemplo, mais ou melhor estudo) para melhorar o desempenho, aumentar o índice numérico. A partir daí, abre-se caminho para o discurso da eficiência em detrimento da reflexão, dos meios em detrimento dos fins.
3) Apresentação dos conteúdos como uma série de objetos. Ensina que o mundo que nos cerca é formado por uma sucessão de objetos, à respeito das quais tomamos conhecimento: somos o sujeito que conhece, e acabamos perdendo a capacidade de considerar que, dentre os muitos objetos que nos cercam, também possam existir outros sujeitos. A possibilidade de identificação com esses objetos é escassa, pois nos foram ensinados de forma distante. Exemplo prático foi citado no post abaixo, sobre o ensino de ética em aulas de Filosofia: “ética” é mais um objeto distante, e a maior expressão desse distanciamento ocorre quando o aluno cola na prova de Ética.
4) Justificativa do conhecimento através do seu emprego prático. Trata-se do utilitarismo que esvazia o puro âmbito do saber. Aqui, o ensinamento principal é desinibir a ação, uma vez que esta deve ter como única reflexão prévia uma rápida consideração sobre os efeitos práticos de seus resultados.


No fundo criamos monstros.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Da Razão Prática à Razão Eficiente



Ponto 1

A rede ferroviária alemã sempre foi uma maravilha. Modelo de eficiência, sempre teve como  característica fundamental o cumprimento dos horários e o bom funcionamento geral, e é assim desde sua integração, em 1866, quando foi essencial para o sucesso alemão na Guerra das 7 Semanas. Falando em conflitos, durante a Segunda Guerra Mundial, a rede foi posta à prova de forma absolutamente radical: em meio a ataques aéreos cada vez mais devastadores – que incluíam como alvo entroncamentos ferroviários e pontes – foi  mantido um alto padrão de eficiência. Engenheiros ferroviários estabeleciam previamente soluções de tráfego, os funcionários redobravam sua dedicação e faziam horas extras, os passageiros participavam dos esforços repensando suas rotas, os mecânicos adaptavam composições e os operários reconstruíam linhas danificadas em tempo recorde.

O resultado dessa mobilização foi um triunfo da eficiência: em 1943, mesmo em meio a condições altamente adversas, a média semanal de atrasos era semelhante à da época anterior a guerra. Claro, em meio ao tráfego, incluíam-se os trens de deportados, que levavam sua carga humana para os campos de extermínio, mas pouco importa, pois no que se refere ao funcionamento da máquina, tudo correu sem nenhum transtorno. E, convenhamos: aquele engenheiro ferroviário que puxou a alavanca, desviando a composição para a direção certa, nunca sequer viu um judeu deportado, e considerá-lo como cúmplice do extermínio parece ser um exagero. Ele apenas fez o que devia: foi e-fi-ci-en-te.

O ponto todo é esse. A eficiência só têm sentido se subordinada à reflexão, fundada em um pensamento ético que questiona seus fins. Sem a reflexão, a eficiência – tornada um fim em si mesmo – se presta aos maiores desvios e nos cega diante das piores atrocidades.

Ponto 2

O que se ensina na escola ? Qualquer pessoa com experiência escolar ou que simplesmente acompanhou o crescimento de uma criança, sabe que o conteúdo do que é ensinado vale bem menos do que os exemplos dados, ou a sociabilidade vivida na escola. Os conteúdos escolares aparecem diante de alunos como uma série de objetos, que vão sendo trocados na exata medida em que os professores se sucedem, um após o outro. Aprender esses conteúdos (para ir bem na prova etc.) é uma habilidade que os alunos desenvolvem rapidamente, mas poucos se identificam com o que é ensinado. Em outras palavras, ocorre uma cisão entre o objeto estudado e o sujeito estudante. Suspeito que a própria forma da escola estimula esse distanciamento que, seja qual for sua origem, é evidente. Os conteúdos ensinados não tocam os alunos e dificilmente promovem alguma identificação, e as tentativas de aproximar os conteúdos com o cotidiano dos alunos muitas vezes soam patéticas (por exemplo, o professor de Química que, ao final da aula, anuncia triunfalmente: “E é assim que funciona o detergente !, em meio a bocejos generalizados).

Um caso clássico é o da Filosofia, onde se estuda ética. Assunto tão vital abordado na sala de aula pode ser muito interessante, e não tenho dúvidas que muitos professores enriquecem as aulas e tentam tocar os sujeitos que formam sua “plateia” citando exemplos e propondo impasses éticos para discussão (“Se um médico sabe que matar uma pessoa salva a vida de duas outras, o que ele deve fazer?” etc.). Todavia, dificilmente se “ensina” ética a partir daí. No fundo, a única escolha ética real com a qual o aluno se depara em toda sua vida escolar é “Devo ou não colar na prova ?”, e aqui a ética formal não vai fazer nenhuma diferença.

O ponto todo é que o conteúdo dessa ou daquela proposição que é ensinada (“devemos ser sujeitos éticos” ou “devemos refletir antes de agir”) não vale nada em função da forma como se organiza a escola e de como se justifica o conhecimento.

Ponto 3

Nietzsche, em Aurora (§550):

Conhecimento e beleza. – Se as pessoas, como sempre fizeram, guardam sua reverência e seu sentimento de felicidade para obras de imaginação e dissimulação, não devem surpreender que se achem frias e desanimadas ante o oposto da imaginação e dissimulação. O deleite já vem com o mínimo passo ou progresso seguro e definitivo na compreensão, que da ciência atual já emana abundantemente e para tantos – nesse deleite não acreditam, no momento, todos aqueles que se acostumaram a deleitar-se apenas abandonando a realidade, saltando nas profundezas da aparência.  Eles pensam que a realidade é feia: mas não acham que o conhecimento até da realidade mais feia seja belo, nem que quem sabe muito esteja bem longe, enfim, de achar feio o imenso conjunto da realidade, cuja descoberta sempre lhe deu felicidade. Existe, então, algo belo “em si” ? A felicidade do homem que conhece aumenta a beleza do mundo e torna mais ensolarado tudo o que há; o conhecimento põe sua beleza não só em torno das coisas, mas, com o tempo, nas coisas; - que a humanidade vindoura dê testemunho dessa afirmação ! Enquanto isso, lembremos de um antigo saber: dois homens bastante diferentes, Platão e Aristóteles, concordaram que a felicidade suprema, não só para eles ou para outros homens em geral, mas em si mesma, até para deuses de altas venturas, consiste no conhecer, na atividade de um bem treinado entendimento que procura e inventa (não na intuição, como os teólogos e semiteólogos alemães; não na visão, como os místicos e tampouco no fazer, como todos os práticos). De modo semelhante julgaram Descartes e Espinosa: como devem ter fruído o conhecimento todos eles ! E que perigo para sua honestidade, o de assim tornarem-se panegiristas das coisas !


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Drops



Copa é colorida

Quando menos se espera, uma multidão de estrangeiros anda por aí. E a cidade de São Paulo, pouco acostumada com a experiência, ganha novas cores. Colombianos no Veloso, japoneses na Liberdade (onde mais ?), alemães na Vila Mariana, norteamericanos mais ou menos por toda parte. Somando-se aos haitianos que começaram a chegar nos últimos meses e agora passam a encontrar trabalho por aí - fenômeno mais ou menos comum por onde ando - vejo uma cidade alegre e coberta de novas cores.

Copa tem uma cor só

Todos falaram das plateias da Copa, brancas como a Lua. Mas e as criancinhas que entravam junto com as seleções ? Uma multidão de pequenos arianos, com uma ou outra exceção. Como foram escolhidas essas crianças, houve algum critério ? Será que privilegiados ou poderosos em geral conseguiram furar esses critérios para nomear filhos, netos e sobrinhos ? Uma pista: aqueles dois ou três moleques grandes que vi, certamente pra lá dos 10 anos de idade, certamente furaram algum critério.

Copa é legal

A quantidade de jogos emocionantes e de jogadas de alta técnica empolgaram qualquer um, até mesmo os menos interessados no esporte. Os gols espetaculares, o destaque dos goleiros mesmo num torneio com muitos gols, as inúmeras tragédias homéricas - do guerreiro caiçara ferido com um joelhaço ao Apolo português desclassificado na primeira fase, do oriental canibal à deprimente epidemia de lágrimas que afligiu jovens adultos brasileiros -, tudo fez dessa Copa uma experiência inesquecível.

Copa é uma merda

O grande objetivo é a grana, que vem com a vitória. Para atingi-la vale qualquer coisa, e aqui entra aquele horrível jogo de cena que consiste em cavar faltas, dramatizar qualquer contato, puxar camisas, sair dando cotovelaços e por aí afora. O futebol transformou-se na grande arte de enganar os outros. Quando nosso ator mais habilidoso caiu gritando atingido por um joelhaço nas costas, a dois centímetros de distância de uma trágica paralisia, permaneci indiferente: já havia visto aquela careta de dor inúmeras vezes.

Cool memories

No começo, não dava bola para futebol: para o menino, futebol era para jogar na rua ou inspirar dramáticas partidas de botão. Quando me perguntavam o time, dizia, meio indiferente, “Corinthians”, talvez para ter mais amigos. Aos 11 anos, intuí que torcer de verdade para um time e acompanhá-lo seriamente era pré-requisito para ter algo parecido com uma “identidade”. Assim, meio aleatoriamente, tornei-me sãopaulino.

Veio a adolescência e as idas ao jogo de futebol, bem como as bandeiras, os ônibus lotados e os estádios – cheios sob o sol do verão e vazios nas noites de inverno. Porém logo percebi que mais torcia contra o meu time do que a favor: irritava-me ver o time querido jogar tão mal. Com os amigos, assistia outros jogos de outros times, e vibrava com boas jogadas e o bom futebol, independente da equipe. Logo, concluí que torcer era algo meio sem sentido, e passei a usufruir do futebol sem paixão clubística (um sintoma de irracionalidade do qual desconfio), e aqui encontrei meus melhores momentos com o futebol. Sendo assim, adorei os jogos da Copa e o 7 x 1 foi um dos jogos mais espetaculares que assisti em todos os tempos.

PS

Mais sem graça que chamar argentino de hermano, só mesmo chamar São Paulo de sampa.





quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cool memories




O hábito é indissolúvel da experiência de habitar. (Heidegger)

  

Uma mudança equivale a meio incêndio, não apenas pela destruição provocada pelos profissionais encarregados do transporte, mas sobretudo pela fúria higienizadora que leva a abarrotar latas de lixo durante a preparação. Aqui não há lugar para sentimentalismos: objetos, fotos, cartas, memórias, tudo submerge diante da necessidade imperativa de criar espaço e poupar trabalho. Seria o racionalismo a causa última da leveza de espírito ?

Lembro daquela imagem descrita em um antigo obituário em The Economist: as memórias são como fotos esquecidas no fundo das gavetas. Com o tempo, elas vão ficando amareladas, em alguns casos até mofadas. Não raro, escorregam para trás da gaveta e nesse caso nunca mais lidamos com elas. Até que, na mudança, todas reaparecem. As últimas noites passadas no antigo lar são assombradas por inúmeros fantasmas.

Fotos eletrônicas tem a singularidade de serem transportadas em grande número dentro de práticos discos rígidos. Ou, melhor ainda: são preservadas na nuvem. Mas são fotos tiradas aos milhares, selfies irrelevantes, pratos de almoços “inesquecíveis” sobre os quais já nem lembramos onde foram ou na companhia de quem,  multidões de pessoas anônimas e sorridentes, paisagens de viagem indistintas: todas as praias são iguais, a décima segunda catedral gótica da semana já se confunde com a terceira ...ou seria com a quinta ?

O novo lar é branco, é frio. As paredes ainda estão nuas, os quadros permanecem embalados, encostados em um canto. O edifício parece desabitado: ainda não encontrei ninguém nos corredores, no elevador ou na garagem. Um toque inesperado de calor é a proximidade com a rua: ouço conversas de passantes, portões que se abrem e fecham, descubro que alguém no 32 pediu pizza, ouço a porta da padaria fechando.

Olhando os passarinhos que circulam pela pequena sacada – a vizinha invisível os alimenta com frutas – sigo seus voos incertos até os fios elétricos, até os galhos de uma ou outra árvore. Observando os pássaros dessa nova paisagem, vejo pousado lá no alto uma ave melancólica: uma jovem sentada na sua sacada, uns seis andares acima de mim do outro lado da rua, fuma seu cigarro e observa a paisagem silenciosa dos prédios no entorno: janelas sempre fechadas de ambientes climatizados, cujos moradores só saem à rua em carros provavelmente blindados com vidros escurecidos. Vão ao shopping, provavelmente.

Ligar o gás, conectar à internet, pintar a parede, entregar os móveis, instalar não sei mais o quê... Uma galeria proletária com toda a sua diversidade desfila diante desse espaço ainda estranho onde moro. Alguns são explicitamente corintianos. O eletricista, empolgado por voltar ao bairro, me mostra as fotos que tirou da famosa tempestade de granizo semanas atrás.

Acordo pela quarta manhã seguida no novo lar. Finalmente dormi bem: tive sonhos. Em breve, a moça que faz a limpeza voltará aqui. O jornal já é entregue habitualmente na porta de casa. O chuveiro do novo banheiro parece a nave Enterprise e, elétrico, emite um suave zumbido a cada banho. Recebo uma visita, conversamos, abrimos uma cerveja. A moça seis andares acima fuma novamente o seu cigarro. Lentamente, vou habitando o novo lar com memórias.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Bem mais que cem anos



O mundo terrestre era visto como palco da luta entre as forças do Bem e as do Mal, hordas de anjos e demônios. Disso decorria um dos traços mentais da época: a belicosidade.

...escreveu sobre a Idade Média o professor Hilário Franco Júnior, “esse grande medievalista brasileiro” (como o chamou Jacques Le Goff, esse grande medievalista francês). Utilizo essa citação para retomar o tema do último post, sobre uma certa visão anacrônica de luta de classes, ao mesmo tempo maniqueísta, belicosa e fora do seu tempo.

Uma das características mais evidentes do movimento socialista mundial através da História é a sua falta de unidade. Nas palavras do professor Bucci, “a esquerda não consegue se unir nem para eleger síndico de prédio”. A divisão das esquerdas talvez seja fruto dessa visão maniqueísta que, ao identificar o proletariado como uma massa homogênea, busca desesperadamente ser o seu intérprete: dessa forma, todos os grupos pretendem expressar a verdade única do proletariado colocando-se na vanguarda da luta pela sua emancipação e, na prática, fragmentando a esquerda em mil pedaços. Não seria a multiplicidade das “verdades” expressas pelos vários grupos um sintoma da própria heterogeneidade de uma classe que, na verdade, seria múltipla ? Volto ao argumento do post anterior: talvez uma caracterização de classe social tendo como único referencial a matriz econômica seja expressão daquele reducionismo economicista tão característico de um marxismo ligeiro.

Além da divisão das esquerdas, também me parece evidente, na história, aqueles diversos momentos em que há convergência de interesses entre classes sociais. Ao invés de quebrar a cabeça buscando encontrar a fórmula que expresse a verdade do proletariado, não seria o caso de identificar a barbárie e reunir forças para combatê-la ? Se os socialistas e os, vá lá, liberais, tem como fundamento teórico e projeto último a emancipação dos homens, seja enquanto indivíduos ou enquanto coletividade, não seria o caso de assestar as baterias contra aqueles que, em número cada vez maior, apontam para o obscurantismo ? Por exemplo, vejo com perplexidade o crescimento da religiosidade intolerante e fanática. Esse movimento coloca em xeque a herança iluminista dentro da qual floresceu tanto o liberalismo quanto o marxismo, ambos fundados na razão emancipada. Enquanto uns falam de ricos contra pobres e casagrande  contra senzala, os Felicianos se locupletam.

Ao mesmo tempo, no caso brasileiro, um ideal republicano fundado na inclusão e aceitação – generoso o suficiente para dar conta da república liberal ou da república socialista – se vê eternamente ameaçado pelos grupelhos políticos oligárquicos, a máquina coronelística e corrupta que destrói qualquer ambição republicana. Sim, continuo me alinhando com aqueles que criticam a corrupção, uma vez que promove a falência do ideal republicano. (Por volta das Manifestações de Junho de 2013, certos grupos, estranhamente, afastaram da pauta a questão da corrupção, sob o curioso argumento segundo o qual não se pode manifestar contra a corrupção, uma vez que ninguém é a favor). Seja como for, só poderemos começar a pensar em uma sociedade emancipada no dia em que nos virmos livres dos Sarneys e Calheiros.

Encerro citando Marx, referindo-se a Malthus:

Sua maior esperança (...) é que a classe média aumente em quantidade e o proletariado trabalhador forme uma proporção constantemente diminuída do total da população (mesmo se ela crescer em termos absolutos) Esta é, de fato, a tendência da sociedade burguesa. (Teoria da Mais-valia, XVII, B)


Infelizmente, Marx não desenvolveu esse trecho final, sobre "a tendência da sociedade burguesa”. Mas pouco importa. Cada vez mais a discussão sobre socialismo me entedia. Cada vez que ouço coisas como “Qual o verdadeiro socialismo ?” ou “O modelo soviético foi verdadeiramente socialista” ?, sinto-me como algum membro da família Buendía. Provavelmente como Rebeca, arrastando por aí um saco de ossos.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Dois vícios do debate



Primeiro, a busca forçada de consensos. É curioso como muitos debates acabam tornando-se mornos na medida em que se busca desesperadamente pontos de contato entre os debatedores. Essa busca de um terreno comum de opinião acaba deixando de lado as diferenças até que elas simplesmente morram: dessa forma o pensamento não caminha sequer um milímetro, e as mesmas questões voltam a ser debatidas infinitas vezes, sempre de forma inconclusiva. Trata-se de uma posição de conforto que evita criar divisões, por exemplo, entre um grupo de amigos ou familiares ou profissionais, pessoas que provavelmente deverão continuar convivendo por algum tempo.

Oras, acredito que é possível sim discordar e sair para tomar uma cerveja em seguida. Por que diferentes opiniões sobr eo mundo devem resultar em inimizades, rivalidades ou ódios pessoais ? Aristóteles, por acaso, deixou de se sentar à mesa com Platão ? Algum dia deixou de se referir a ele como mestre ?

Todavia, há situações em que o debate acaba criando inimizades, e aqui vem o segundo vício. Trata-se de vício decorrente do nosso renascido maniqueísmo: rejeitar o consenso ou qualquer posição intermediária em nome da “luta de classes”. Ou seja, em cada debate, só existem duas opiniões possíveis, a progressista (ou de esquerda) e a reacionária (ou seja, de direita). Tal posição é surpreendentemente comum hoje em dia no Brasil, na América Latina, e representa um brutal empobrecimento do debate. Ao defender tal visão anacrônica da luta de classes, aquele que tem uma opinião diferente da sua é seu “inimigo de classe”, portanto um obstáculo à emancipação da sociedade (ou, pior, um baderneiro de esquerda), Jamais há que se tomar uma cerveja com tal monstro.

Por “visão anacrônica da luta de classes” entendo aquela que o Marx desenvolveu no século XIX e continua sendo aceita sem mudanças até hoje. Pergunto: se o determinismo economicista do marxismo já está devidamente morte e enterrado nas ciências humanas em geral, por quê a identidade de classes continua subordinada a ele ? Será que a identidade de um indivíduo não passa por outros fatores além da sua simples posição do na estrutura da produção ? Voltarei a isso um dia.

Seja como for, rejeito esses vícios em nome daquilo que o debate jamais deve se abster de procurar: o entendimento das coisas.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Pensamento em feixes




Chamo de pensamento em feixes uma certa forma de entendimento ou de apreensão da realidade fundada no  agrupamento de conceitos básicos em conjuntos de definições facilmente manejáveis: os feixes assim formados podem ser rotulados sem dificuldades e, para uma facilidade maior ainda no seu manejo, tendem a ser agrupados em pares do opostos, com a consequente  tendência ao maniqueísmo e à simplificação.


 Trata-se de uma forma instrumental de lidar com a complexidade das coisas, oferecendo a possibilidade de responder a demandas do cotidiano e posicionar-se diante de diversas situações. É também uma forma de sociabilidade, na medida em que oferece facilmente a possibilidade de emitir opinião, sobretudo em discussões pouco profundas, rápidas ou em meio a um ambiente politizado, por exemplo, no corpo discente universitário.


 A origem do pensamento em feixes é dupla: em primeiro lugar, a herança da Revolução Francesa, que tirou das costas do homem o peso do destino traçado desde o berço. Em um mundo aberto às possibilidades, ter uma opinião e entender as cosias do mundo para tornar-se dono do próprio destino passa a ser um imperativo. Em segundo lugar, a oferta cada vez maior de informações oferecida pelos meios de comunicação de massa, processo que caminha lado a lado com a própria aceleração do ritmo da vida. O tempo de reflexão já desapareceu desde há muito, substituído pela prática incessante da atividade, seja no trabalho, seja em seu aparente oposto, o lazer, que é  basicamente a imagem invertida do trabalho: o seu espelho pois também implica no fazer algo. A atividade é transformada em verdadeiro culto, sendo realizada sempre no tempo presente, um tempo que nunca acaba e que tem a estranha propensão de anular o futuro e apagar o passado. O totalitarismo do presente não apenas empobrece a experiência como esgota o pensamento, que não vxiste fora da temporalidade.


 Muito do que chamamos de educação consiste em exercitar o pensamento em feixes, quando os professores oferecem a farmácia completa, com os rótulos já afixados em grupos de ideias prontas. Muitos textos rasos da internet - às vezes seguindo fórmulas de 140 caracteres - produzem o pensamento em feixes. A linguagem empobrecida, manifesta, por exemplo, no uso desmedido de adjetivos, produz pensamento em feixes. Certas modalidades do radicalismo político produzem o pensamento em feixes, uma vez que necessitam do maniqueísmo.


 Existe, porém, uma porta de saída desse mundo cheio de rótulos que já não dizem mais nada. Trata-se do resgate do conceito, do “árduo trabalho do conceito”. Ao invés da definição estreita, a construção do conceito que só pode ser feita através do diálogo, no sentido platônico mesmo do termo: do embate amigável em que ideias “se esfregam” umas às outras, se esfarelando, começando novamente, criando novas ideias e tentando desenhar um caminho rumo ao entendimento. Há que se abrir espaço ao diálogo, lembrando que sem a leitura de textos e a prática da reflexão poucos diálogos se sustentam.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Sobre deuses e cães




Alguns dos que acreditam em deus partem de princípio de que sua crença é universal, e chegam até a se colocar em uma posição de superioridade moral em relação aos que não acreditam. Muitas vezes agem como se fosse detentores de uma certa verdade, e os que não acreditam em deus merecem deles ou um olhar de pena, na melhor das hipóteses, ou de hostilidade, como é cada vez mais comum.

Para muitos não basta acreditar em deus, sendo necessário manifestar visivelmente essa crença. Na Inquisição, os que não praticavam essas manifestações visíveis eram suspeitos, o que por si só já valia muitas vezes uma sentença judicial.

Alguns dos que acreditam em deus não conseguem separar a esfera religiosa das demais, e colocam sua religiosidade numa posição superior em relação às outras: projetam a religiosidade no seu próprio entendimento das coisas. São chamados de fundamentalistas, e temo que se tornem maioria um dia.

Os fundamentalistas atribuem significados novos a certas palavras, significados carregados de valoração e distantes de seu conceito original. Assim, “ateísmo” se transforma em uma opção inconcebível (chegando mesmo a causar estranhamento quando afirmado claramente), quando na verdade o ateu muitas vezes chegou a essa posição após uma reflexão filosófica elaborada, que muitas vezes falta aos que seguem as fórmulas fáceis da religião.

                                            *     *     *


Alguns dos que possuem cães partem do princípio de que seu gosto é universal, e chegam até a se colocar em uma posição de superioridade emocional em relação aos outros, (chamados “insensíveis”). Muitas vezes agem como se fosse detentores de uma certa verdade, e os que não gostam de cães merecem  deles ou um olhar de pena, na melhor das hipóteses, ou de hostilidade, como é cada vez mais comum.

Para muitos, não basta gostar de cães, sendo necessário manifestar visivelmente esse gosto. Em certos círculos, os que não praticam essas manifestações visíveis são suspeitos, o que por si só já vale muitas vezes uma sentença moral.

Alguns dos que possuem cães não conseguem separar a posse de animais do universo do convívio social, e colocam as necessidades de seu animal numa posição superior à da vontade das pessoas: usam-nas para orientar as práticas de seu próprio cotidiano. São chamados de fundamentalistas, e já são maioria desde há muito.

Os fundamentalistas atribuem significados novos a certas palavras, significados carregados de valoração e distantes de seu conceito original. Assim, “prender o cachorro” se transforma em uma exigência inconcebível (chegando mesmo a causar estranhamento quando proposta seriamente por alguém), bem como uma punição ao pobrezinho, quando na verdade o próprio animal, incapaz de discernimento, jamais irá entender assim.


Não tenho dúvida que deuses e cães têm a estranha capacidade de promover a suspensão da racionalidade.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Candy Crush Conatus




O jogo é de uma grande simplicidade: agrupar docinhos do mesmo tipo em uma sequência de casas, provocando seu esmagamento e contando pontos. Algumas variações incluem casas cobertas de gelatina, mais difíceis de dissolver, chocolates que se multiplicam feito células cancerígenas (dando ao chocolate uma estranha negatividade) e assim por diante. Ao ganhar pontos e limpar casas, o jogador está apto a mudar de fase. Estou na fase 86, conheço gente que passou de 200 e não há fim à vista. O jogo parece ser eterno e, sem dúvida, é viciante.

 E multidões se dedicam a ele. Há amigos de quem não recebo notícia, mas sou regularmente informado, via Facebook, de seus triunfos no Candy Crush. Outros amigos, que tomo por intelectuais refinados, volta e meia pedem-me “vidas”. Parentes, colegas de trabalho, pais de família, todos jogam. Por quê ? Qual o poder de atração de um jogo tão simplório ?

 Incialmente pensei em simples higiene mental: após um árduo dia de trabalho e demandas intelectuais, após horas a fio se preocupando com respostas racionais a problemas concretos, o Candy Crush oferece um momento de desligamento. Aprende-se a mecânica de Candy Crush rapidamente, joga-se quase sem pensar, e pequenas recompensas surgem sob a forma de sucessivas mudanças de fase. Graus crescentes de dificuldade entre as fases ajudam a provocar, periodicamente, uma sensação de satisfação.

 Todavia, a maior parte dos trabalhos que fazemos no cotidiano talvez já seja mecânica e não demande muita reflexão. Normalmente, as recompensas que temos por esse trabalho enfadonho são tão fúteis quanto as de Candy Crush: bens de consumo, cuja satisfação prometida se esgota pouco após a compra. Sendo assim, permanece a pergunta: qual o poder  de atração da saga de Candy Crush ?

 Há em Spinoza o difícil conceito de conatus, descrito pelo filósofo como algo semelhante a um “apego à vida”. Mais do que simples instinto de sobrevivência, o conatus expressa o desejo de efetivamente viver a vida, realizar a vida. Trata-se, ao que me parece, de um impulso essencial do ser humano, o desejo de querer “ir para frente” de buscar um “desenvolvimento” pessoal. O uso da palavra “desenvolvimento” pode parecer exagerado, e remeter a um aspecto econômico que não é obrigatório na efetivação do conatus; ao mesmo tempo, a referência a “pessoal” não pode limitar o conceito ao puro individualismo: realiza-se o conatus na vida em sociedade ou, como diria Spinoza, na Natureza.

 Mais tarde, Nietzsche desenvolveu o conceito de vontade de potência, que vai na mesma linha. É conhecida a carta de Nietzsche a Franz Overbeck, em 1881, na qual o filósofo alemão de diz maravilhado com a descoberta de Spinoza e afirma a grande proximidade com seu pensamento. Em Nietzsche fica claro o sentido da vontade de potência como o poder ou impulso de afirmar a vida, algo imperativo diante da doença que afetava cada vez mais a civilização.

 Atualizando Nietzsche, há muito em nossas práticas do cotidiano que nega a vida. O trabalho enfadonho com relógios de ponto e atividades repetidas diz não à vida; a excessiva quantidade de normas que regulamentam cada passo do dia a dia diz não à vida; ônibus lotados e mal cheirosos (em faixa preferencial ou não) dizem não à vida; síndicos de prédios e diretores de escola, guardiães da norma, dizem não à vida; o chefe que grita com o funcionário e o machão que assobia para a moça de minissaia dizem não à vida; salários indignos dizem não à vida; fast food diz não à vida; o crime (e a PM) dizem não à vida; escrever esse texto para entregar “no máximo até quinta-feira à tarde” diz não à vida.

 De minha parte, e diante de tantas limitações no dia a dia, tento compensar jogando Candy Crush. E peço para todos aqueles que têm facebook: ajudem-me a ter sucesso enviando-me mais vidas.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sobre piratas



Qual o espaço ocupado em nosso imaginário pela figura do pirata ? Por quê – seja onde for esse espaço – a figura do pirata provoca fascínio, que quase sempre inclui o poder de sedução em que pese seu estatuto de marginal ? Sequer é necessário lembrar da imagem midiática do capitão Jack Sparrow de Johnny Depp, arrancando suspiros sabe-se lá de quantas pessoas.

Partindo de uma definição trivial, identifico o pirata como o fora-da-lei que age por conta própria. Seu tempo é histórico, a ameaça que poderia eventualmente representar acaba se dissolvendo em um passado mais ou menos nebuloso (afinal, com exceção do especialista, quem pode afirmar com precisão em que época atuavam ?). Claro, não me refiro aqui a fenômenos contemporâneos, como os “piratas” da Somália: grupos tão violentos e desesperados (e reais) que a própria denominação “pirata” nesse caso pede as aspas. Descartando os “piratas” contemporâneos, incluo no conceito de pirata imaginário a sedução e o fascínio.

O pirata imaginário é competente, excepcionalmente competente, tanto que obriga a mobilização de forças excepcionais para combatê-lo. Ele é o melhor espadachim, o melhor navegador, o estrategista mais habilidoso. Além disso, o pirata age desprezando convenções, e assim fazendo constrói uma identidade absolutamente singular. À bordo do navio pirata, encontramos personagens únicos como Long John Silver, Capitão Gancho, Tristeza Sangrenta, Rackham o Vermelho, Sam o Caolho e Tom Perna-de-pau.

(Sim, há sites que geram um nome pirata para você. Vários sites. Por exemplo, em http://www.piratequiz.com/result.php , após preenmcher um divertido questionário, descobri que meu nome pirata seria  Dirty Sam Kid.    http://pirate.namegeneratorfun.com/  produziu para mim, meio aleatoriamente, o impagável  nome “John ‘Pieces of Eight’ Blighty, o mão sangrenta da Ilha dos Macacos”.)

Piratas são diferentes dos homens uniformizados que manejam os navios da Coroa, daquela multidão de capitães e tenentes e marinheiros, todos eles anônimos e intercambiáveis, que servem fielmente ao Rei, e a ele obedecem sem pensar.

Dos piratas, invejamos sua independência, sua identidade, sua competência. Sabemos que, por serem criaturas singulares, criam suas próprias normas. Talvez seja exatamente isso o que neles mais invejamos. Queremos ser piratas, porém faço uma advertência: sabemos que é bem difícil viver em uma sociedade na qual cada um cria suas próprias normas, em que cada um se considera um pirata.

Mesmo assim, sigo preservando o culto aos piratas, porque sei que eles nos ajudam a lembrar a precariedade da norma, das avaliações estreitas e dos rigorosos métodos  administrativos, em tudo que podem ter de limitador e até de destruidor do trabalho criativo. O administrador da fábrica que nunca pisou no chão da oficina, o contador que não sabe trocar uma lâmpada, o pedagogo que jamais teve uma classe cheia diante de si, aquele que faz as leis trabalhistas e não trabalha... esses são os anti-piratas por excelência, avançando rapidamente na construção de um mundo administrado, entediante, sem graça nenhuma.

 

sábado, 13 de julho de 2013

Depois de Junho




A – Estratégias da ilusão
 
A esquerda é dotada de visão arguta, e costuma brandir as armas da crítica como ninguém  (a ponto de o próprio ato de brandir as armas da crítica ser considerado por si só um gesto de esquerda). A direita quase sempre evita o debate, mais interessada que está em usufruir do status quo. Dessa forma, o pensamento crítico acaba sendo quase monopolizado pela esquerda, e é quando pode surgir uma estranha forma de alheamento da realidade que resulta na elaboração das estratégias da ilusão. O fenômeno é bastante comum: certos grupos, por simples falta (ou, vá lá, recusa) do diálogo tornam-se irremediavelmente descolados da realidade, debatendo, fechando-se e dando voltas em torno de si próprios. Referência: Intentona de 1935 e o imperdível livro do imperdível Paulo Sérgio Pinheiro, de onde tirei o subtítulo acima.
 
B – Parole, parole
 
Quando o discurso se faz na rua ou sobre o palanque (ou se manifesta em blogs...), ele deixa de ser preciso, e morre vítima do reducionismo mais sórdido e do maniqueísmo mais tolo. Raros são os momentos históricos em que um Lenin conseguia captar o espírito das massas e traduzi-lo em slogans curtos de impacto imediato. Talvez na sociedade russa pós-feudal (ahn ?) isso ainda fosse possível, mas a experiência do século 20 já mostrou o quão raro isso pode existir em uma sociedade complexa. Referência: dos totalitarismos à democracia formal (sem amarrá-los no mesmo feixe, mas observando a instrumentalização do discurso em ambos).
 
C – Violência gera violência
 
Ao iniciar um ato de violência, a resposta imediata inevitavelmente será a violência. A descida rumo aos instintos mais primários resulta em uma infantilização brutal, que acaba se manifestando em discussões tão bizantinas quanto pueris sobre “Quem começou primeiro” [sic]. No dia em que o filho morre nos braços da mãe, faz-se necessário parar e pensar se a luta vale a pena.  (“Mas, esperem um pouco, do jeito que está os filhos já estão morrendo nos braços das mães !”. A saída me parece bem mais complexa do que quebrar vidraças.) Referência: o euroterrorismo nos anos 70.
 
D – Estratégias da ilusão II
 
O capitalismo estimula valores como a competição, individualismo e lucro, bem como a realização do sucesso através da posse de objetos materiais, e do mais mágico de todos os objetos: o dinheiro. Nesse contexto, a corrupção é inerente ao sistema. Partindo dessa constatação e fazendo uma leitura rasa do materialismo marxista, a conclusão só pode ser: basta mudar a organização material da sociedade (sua ordem socioeconômica) que o universo de valores também irá mudar. O mecanicismo por trás dessa concepção é evidente, e três ou quatro modalidades de organização socioeconômica alternativas praticadas a partir do século 20 provaram o tamanho do problema e a apontaram para a persistência da corrupção, sob novas roupagens. Referência: modelos soviético, chinês, albanês. Khmer ? Chavismo ?
 
Volto às sociedades complexas. O bom Max Weber observava, argutamente, a criação de amplas estruturas burocráticas necessárias para efetivar a produção e a distribuição, bem como a administração de sociedades populosas e centros urbanos gigantescos. Privadas ou públicas. Oras, abolindo-se a atual organização socioeconômica e descartando-se os modelos históricos alternativos fracassados, alguém me diz como sobreviver como 7 bilhões de pessoas no planeta, sem as tais organizações burocráticas gigantescas, essas sim, corruptíveis na sua própria essência ?
 
Resumindo e colocando em outras palavras, em que sentido a luta deve se encaminhar ? Onde devem ser abertas as novas trincheiras ?
 
 

domingo, 23 de junho de 2013

De-sa-ba-fo

 
I
 
 
Não tenho a menor dúvida de que um grande pecado das gerações mais velhas é enxergar o presente com a vista turvada pelo passado. A suposta sabedoria vinda da experiência muitas vezes faz com que o novo seja simplesmente falsificado, evitando o entendimento. Por outro lado, as gerações mais jovens tendem a enxergar o que para elas é novo com um evento inédito na história. Dessa forma, parte-se alegremente para a repetição o que já foi, incluindo todos os seus erros. Nos dois casos, tanto para os mais velhos (sábios que pouco sabem) quanto para os mais jovens (virgens caminhando para o estupro), acabamos repetindo o passado, seja praticando a farsa ou lamentando a tragédia.
 
 
Diante disso, lamento constatar: perante a história, somos todos “os mais velhos” ou “os mais jovens”, não há exceções. Contam-se nos dedos aqueles que conseguiram captar o presente do seu tempo, em toda sua plenitude e com toda sua singularidade.
 
 
Um dia, diante da crise, Jânio pareceu ser aquele que entendeu o seu tempo, pairando acima das desavenças e anunciando o novo. Era mentira. Anos depois, foi a vez de Collor surgir como o profeta do tempo presente, o messias da Nova Era. E foi uma farsa. A grande questão hoje não seria: como evitar uma tragédia ?
 
 
II
 
 
Por que escrevo ? Não tenho dúvida que, por alguma uma estranha perversão epistemológica, penso melhor por escrito do que falando. Se o enunciado do meu discurso falado costuma ser, ao mesmo tempo, consistente e convincente – chegando às vezes na proximidade do belo – é porque antes ele foi previamente elaborado como escrita. Quanto ao debate impromptu, sou uma catástrofe: os argumentos me escapam, os esquecimentos são recorrentes e o esprit de l’escalier está sempre à espreita.
 
 
Dessa forma, tento entender as coisas através da escrita, e compartilho minha busca aqui ou ali – por exemplo, neste blog. Porém, seria tolo em não reconhecer que também existe um componente de vaidade na escrita, ainda mais quando se assina um texto. Sempre cito um episódio ocorrido nos últimos anos de vida de Foucault, quando o filósofo desabafou: “No fundo escrevemos porque desejamos ser amados”. (Claro, o estágio avançado de sua doença fez com quem ninguém se atrevesse a fazer o gracejo inevitável: “Então porque não escreve mais fácil, para que mais gente possa entendê-lo e, portanto, amá-lo ?”).
 
 
Aproveito a citação de Foucault para usar mais algumas de suas palavras como justificativa: “a escrita serve para cortar”. Para ferir. De que adianta uma escrita complacente ? Se não utilizar o discurso para abalar o chão onde me apoio e, se possível, remover o solo sob meus pés, de que serviria tudo isso ? Por o dedo na ferida das certezas é deslocá-las constantemente, e é acreditar que os valores, esses sim, devem ser chacoalhados um atrás do outro. Às vezes é muito mais fácil quebrar vidraças que valores.
 
 
III
 
 
Quando vi as ruas ocupadas por um punhado – e no começo era apenas isso, um punhado – de gente defendendo uma causa que, na sua especificidade inicial parecia ser diminuta, quando vi os ”suspeitos de sempre” (grupos como “juventude maoísta”, “Coletivo Anarco-Punk do Baixo Augusta” etc.) ocupando as ruas, eu confesso,   assumo e não peço condescendência: não dei a mínima bola. Foi quando escrevi o texto do dia 13 de junho, pela manhã, e aproveitei para “usar a faca”, inclusive pensando naqueles que participaram da manifestação do dia 11 e em seguida divulgaram fotos no facebook posando de heróis do instagram.
 
 
No mesmo dia, no final da tarde, não apenas a polícia baixou o cacete de forma violenta – o que talvez se justificasse no caso de uma multidão de Hitlers – como também o movimento ganhou em tamanho e pauta reivindicativa: não mais os centavos, mas mudanças na política de transporte público, reestruturação da Polícia com abolição da PM, etc. Claro, aderi: é o momento em que se sai da situação de conforto para berrar. Seguiu-se a passeata de segunda-feira, após a qual escrevi o texto sobre a necessidade de enterrar 1968: contra utopias e propostas vagas (portanto contra o que hoje é chamado “coxinização” do movimento), pedindo uma inclusão para quem saiu as ruas pela primeira vez (tentando fugir dos slogans da velha política maniqueísta. Claro, muitos dos que saíram às ruas pela primeira vez nos dias seguintes começaram a fazer passeata cantando “Eu sou brasileiro/ com muito orgulho/ Com muito amor”, e aí já é forçar a amizade).
 
 
Mesmo com mais essa volta do parafuso, ainda tento encarar o que é novo e enxergar o presente destruindo as lentes do passado. Não sei se tenho sucesso e, em caso negativo, já disse, não espero condescendência. Encerro com uma de minhas citações preferidas:
 
 
Acho que só devemos ler a espécie de livro que nos ferem e nos trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, porque o estamos lendo ? Por que nos faz felizes ? (...) Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para a floresta longe de todos.  Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio. (Franz Kafka, “Carta a Oskar Pollok”, 1904)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Novas considerações desapaixonadas


1 – Suspeito que o movimento ganhou dimensão porque a classe média foi para as ruas. Pelo menos foi isso que vi no 17 de junho e nas, digamos, cem mil pessoas que lá estavam. Eram jovens, quase sempre bem vestidos, quase sempre brancos (isso é francamente perturbador), grande número de estudantes universitários. (E vamos combinar assim : ninguém deixa de ser classe média por estudar Sociais na USP, ok ?). Guardo na memória um comentário que ouvi de um grupo de trabalhadores uniformizados (da Eletropaulo ?) que contemplava a passeata: “Trabalhar que é bom essa gente não quer...”.
 2 – Ao ganhar dimensão, o movimento perde consistência: começam a ser ouvidas as propostas vagas, típicas de classe média: contra a corrupção, pela moralização. Ou ainda, o inevitável “contra os impostos”. Felizmente, essas propostas ainda são minoria, os vinte centavos e as consequentes melhorias no transporte público, bem como a mudança na política de transportes ainda dão a tônica do movimento. Cabe aqui, mais do que nunca, fechar um projeto, atrelar a mudança no transporte público à mudanças na própria estrutura dos governos municipais (por exemplo, em São Paulo, quem precisa de 55 vereadores ? O Tribunal de Contas e seus nababos, servem para que ? A Prefeitura ainda tem a petulância de ter gastos com marketing ?). Já vejo a maioria dos manifestantes de classe média devidamente sensibilizados por pautas como essa, e as propostas vazias começam a ser deixadas de lado.
 3 – Se a classe média sair do movimento, quem vai sobrar ? Haverá um chamado às massas proletárias ? Acredito que, se houver, não será atendido: a massa proletária transformou-se na classe C emergente. Será que diante das prestações do carro novo (aproveitando o IPI reduzido), alguém vai sair nas ruas para defender melhoras no buzão ? Estou evidentemente exagerando, mas acredito apontar para um problema muito sério: o projeto de inclusão pelo consumo pode ter “matado” o que sobrou das massas proletárias.
4 – Se a classe média for embora e as massas proletárias não comparecerem, a única coisa que vai sobrar para o movimento vai ser a violência, como única forma de preservar a duramente conquistada visibilidade. Mais um vez, escrevo no calor da hora: são 22h20 e começam a chegar notícias de lojas saqueadas e bens de consumo roubados no centro de São Paulo. Claro, legitimando a repressão; e o resultado é que se continuar assim ninguém mais vai para a rua, muito menos a classe média.
 5 – Num país onde se afronta a lei cotidianamente, partindo do estado e de sua máquina, respeitar a lei é quase um ato radical, e é a única forma de enfrentar a barbárie que encontrou uma forma de expressão no moralmente falido estado brasileiro.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Enterrando 1968

 



A cena foi vista na passeata do dia 17 de junho em São Paulo: o jovem começou a entoar o refrão de “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, um dos hits revolucionários de 1968, e ficou sozinho. Ninguém acompanhou. Foi quando tive a intuição de que as novas gerações finalmente não precisam mais viver – e, sobretudo, agir – sob a sombra de 1968.
 
Identifico um duplo legado de 1968. Em primeiro lugar, a reivindicação de utopias, conforme exemplificado pelos famosos slogans do maio de 68 francês (“A imaginação no poder”, “É proibido proibir”, “Sejamos realistas, peçamos o impossível”). Se por um lado tais slogans são de uma simpática beleza poética, e podem até sustentar manifestações durante, digamos, uma primavera, por outro são evidentemente de realização impossível. Ao invés de apontarem para um projeto, indicam tendências, que se perdem em meio a abstrações infinitas.
 
Em segundo lugar, o 1968 brasileiro trouxe a transformação da luta política em um confronto maniqueísta. A ditadura militar facilitava a tendência, sendo claramente identificada como um mal que deveria ser combatido, o que transformava todos os seus adversários no campo do bem. Uma vez que os líderes da luta contra a ditadura estavam no campo da esquerda, aguardava-se o surgimento do nosso Lenin, quem sabe na pele de um José Dirceu ou Vladimir Palmeira.
 
Oras, o 2013 brasileiro parte de uma reivindicação bastante concreta (contra o aumento das tarifas de ônibus urbano), e tira daí um verdadeiro projeto de mudanças. Se não revolucionárias, pelo menos capazes de transformar algo na vida das pessoas. Dentre outros, o que se ouve pelas ruas:
 
- transporte público de qualidade, incluindo preços seriamente subsidiados e mudança na ênfase das políticas públicas de transporte (que até hoje sempre beneficiaram transporte individual em prejuízo do coletivo);
- oposição à PEC 37, ao Estatuto do Nascituro, à “Bolsa Estupro”;
- reorganização completa das forças de segurança pública, incluindo a abolição das PMs.
 
Reinvindicações vagas e com alvos difusos (como “abaixo a corrupção”) mal se ouvem em meio ao barulho da multidão. Slogans anarquistas contra o “sistema” também se perdem. Ou melhor, acabam atrelados aos atos de violência repudiados pela ampla maioria dos que vão ás ruas. Acho.
 
Escrevo no calor da hora, e percebo os tradicionais partidos “de rua” (PSTU, PSOL, PCO) tem pouco espaço no movimento. O MPL se diz apartidário e, de fato, nas manifestações, a quantidade de bandeiras dos partidos ditos radicais é mínima. Hoje, lá pela tantas, ouvi brevemente um coro “Ei, PSTU, vai tomar... “ etc. Nesse sentido que entendo que o objetivo do movimento certamente não é implantar, sei lá, o centralismo democrático como primeiro passo para  a introdução da ditadura do proletariado. Enfim, até agora não apareceu nenhum candidato a Lenin em nenhum palanque. O que há de revolucionário é um desprezo generalizado à classe política, e mesmo quando vejo cenas de “vândalos” escalando o Congresso nacional, ameaçando o Legislativo carioca ou cercando o Palácio de Governo do Estado de São Paulo, não me incomodo muito.

Seja como for, 1968 deixa de projetar a sua sombra, que durante muito tempo impediu que se pensasse por conta própria, que se agisse por conta própria. Finalmente, 1968 está enterrado, e as gerações atuais não estão mais condenadas a repeti-lo, nem como farsa nem como tragédia.