quarta-feira, 11 de março de 2009

Ex silentio



Tendo voltado à Universidade após longa ausência, tive empolgação suficiente para me dedicar a atividades voluntárias, como seminários ou grupos de estudos. Porém, a mais vibrante iniciativa foi quando inscrevi um trabalho no Primeiro Encontro de Pós-Graduandos em Filosofia da PUC que, para minha surpresa, foi selecionado. Vi aí o dedo da minha orientadora, que acabou montando uma mesa apenas com seus orientandos, incluindo o moderador, justamente no primeiro dia do Encontro.

A coisa toda deveria funcionar assim: cada participante da mesa apresentaria um breve comunicado sobre o estado de suas investigações e em seguida estaria aberto o debate com a platéia, sob orientação do moderador. O Encontro foi no glorioso TUCA, o Teatro da Universidade Católica, venerável local impregnado da história recente do Brasil. Após a abertura feita pelo chefe do departamento, iniciaram-se os trabalhos para uma platéia, convenhamos, reduzida. Senti uma certa insegurança: querendo ou não, a Filosofia não é minha área de formação, há assuntos que jamais estudei (além de outros que estudei e não entendi patavina). Porém, ao assumir a palavra, os temores se dissiparam: como bom professor, fiz a “lição de casa”: preparei meu discurso, acrescentei um ou outro gracejo - aquém das bobagens de cursinho, mas além do padrão desse tipo de encontro. Em pouco tempo, conquistei a platéia que, aparentemente, se interessou no meu trabalho.

Respeitei o tempo previsto, vinte minutos, e passei a palavra para o segundo expositor. Para minha surpresa, tanto ele quanto os outros dois que vieram em seguida, limitaram-se a LER um texto escrito previamente, provocando os devidos efeitos soporíferos na platéia. O resultado foi que, na hora do debate, as perguntas vieram todas para mim, uma vez que as pessoas só haviam se interessado - ou permanecido acordadas - durante minha apresentação.

Na primeira fileira, uma jovem senhora, óculos grossos, pasta com textos xerocados em cima do colo, cabelos e ideologia no estilo Luciana Genro. Ela fez a primeira pergunta. Longa. Demorada. Lá pelas tantas, incompreensível. No meio da sua fala, dei-me conta de que já não fazia mais a mínima idéia do que ela estava falando. De repente, ela parou. Terminou a pergunta, não tendo sequer a consideração de usar um ponto de interrogação em sua última e incompreensível frase. Breve expectativa no auditório. Olhos voltados para mim. Subitamente, ela levanta a mão e ainda acrescenta: “Só queria explicar que usei a palavra ‘ideologia’ no sentido da fenomenologia do espírito”.

Claro. Como não pensei nisso antes.

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O episódio todo me fez lembrar dos filmes americanos que todos passamos a odiar com o tempo, nos quais um policial durão prende o psicopata assassino e imediatamente recita a 5ª Emenda à constituição norte-americana. Naquele dia, no TUCA, pensei em invocá-la, o que me garantiria o direito de ficar calado. A 5ª Emenda (e a equivalente lei brasileira que, vergonhosamente não sei identificar) dá ao acusado o direito de permanecer em silêncio, defendendo-o de qualquer possibilidade de auto-incriminação. E eu sabia que se começasse a responder a pergunta da colega naquele evento acadêmico, fatalmente diria bobagens, de algum jeito me auto-incriminando (sob acusação de “arrogância intelectual”, ou seja, participar de um encontro sem estar preparado).

O ponto é que às vezes ansiamos pelo silêncio. Por exemplo, quando aquela pessoa, cujo único conhecimento do mundo se deve à leitura diária dos matutinos, pergunta nossa opinião sobre o escândalo do dia ou o movimento da bolsa na véspera. Quando o colega de trabalho, tentando ser amistoso, nos pergunta se o Honda Civic é tão bom assim quanto parece, ou então pergunta qualquer coisa sobre, sei lá, o Corinthians. Ou ainda, em todas as situações que envolvem um elevador e mais de uma pessoa. Desejamos o silêncio, somento o silêncio.

Porém, muitas vezes o silêncio causa perplexidade. O silêncio desestabiliza. Considerando sobretudo a esfera das relações humanas, observo que o silêncio surge como a anulação da dialética. De fato, o silêncio significa a suspensão de logos, da palavra racional, portanto, o silêncio significa a não-enunciação de um discurso: no silêncio, não há tese a ser negada, portanto não existe antítese possível. Não há superação dialética, o silêncio põe em jogo a suspensão de qualquer processo. Em silêncio não há mudança, não há avanços nem retrocessos.

Mas silêncio não é só negação do processo, é também o ato consciente de permanecer calado. Responder uma pergunta com o silêncio, significa criar uma infinidade de sugestões: talvez a resposta exista mas não seja para meus ouvidos, talvez a resposta exista mas seja perturbadora demais para ser enunciada, talvez uma resposta exista e, ao ser ocultada, deixe nas entrelinhas a existência de um saber oculto. É aqui que entra em cena o misticismo. Como todo misticismo, o silêncio traz a possibilidade da enganação, da falsa sugestão. Ao mesmo tempo, o silêncio pode trazer uma forte dose de ironia: permanecer em silêncio pode significar “eu não me rebaixo ao nível do seu discurso”, trazendo portanto forte dose de agressividade Seja como for, o silêncio faz parte dos jogos de poder que praticamos no cotidiano.

Brinquemos com os jogos de poder, talvez seja a única forma de apontá-los claramente. Em janeiro, visitando Paris com a turma do Anglo, pedi e recebi autorização de diversos Museus para atuar como guia do grupo. Na prática isso significou que em cada Museu eu deveria usar um crachá dizendo “Droit de parole”, o que me divertiu loucamente (na foto, o crachá verde do Musée d’Orsay). O “Direito de falar” era meu, e a conclusão implícita era a de que as demais pessoas do meu grupo NÃO tinham o mesmo direito, pois não portavam crachá. Ao mesmo tempo, o crachá inseria a minha palavra (e a minha pessoa) em um quadro institucional, transformando-a automaticamente na “palavra verdadeira”. No Beaubourg, diante de uma tela de Rothko, uma funcionária do Museu passou a acompanhar atentamente minha fala. Qualquer barbaridade que eu dissesse seria sancionada ou legitimada pelo Museu em questão, fosse o Louvre, o Orsay ou o próprio Beaubourg.

Adorno, sempre ele, disse que qualquer diálogo banal faz parte da mentira, uma vez que dá uma aparência de normalidade a relações humanas deterioradas desde há muito. Em nossos diálogos cotidianos nos calamos sobre o sofrimento, portanto acabamos por criar e perpetuar um silêncio criminoso.

Penso em Adorno e, enquanto isso, ouço um tango.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Drops


Silêncio

O blog está abandonado. O último post descreveu uma experiência musical ocorrida quase um mês atrás. Talvez haja uma relação entre este abandono e aquela experiência: qual o sentido da escrita diante daquele choque que tive na Toscana, ao mesmo tempo tão descomunal e tão delicado ? Abandonar o blog significa que passei as últimas semanas em silêncio, mas não foi justamente o silêncio uma parte tão forte da última experiência cultural digna de registro ? Talvez, com meu silêncio, eu apenas tente perpetuá-la.

Ao mesmo tempo, os alegres colóquios escassearam. Os últimos têm sido fragmentados, quebrados. Meu desligamento faz com que pesque apenas fiapos de conversa, minhas intervenções se limitam ao mínimo. Na verdade, são colóquios bem pouco alegres, em que me recolho em pensamentos, nem sempre profundos. Seca a fonte da escrita, não consigo nada além de remoer sentimentos íntimos: assim o blog corre o risco de virar confessional (ao mesmo tempo meu maior medo e fonte das maiores repercussões, quando eventualmente desabafo).

A tela do computador se converte subitamente em um espelho, cuja imagem escondo por trás de um véu de silêncio.

O cerebral e o visceral

O blog nasceu sob a égide da música, falando de Richard Strauss e Igor Stravinsky. Vejo que tenho dedicado cada vez mais tempo à música clássica, dita “cerebral”, desde a freqüência a sala de concertos até um surto de ópera nos últimos dias. Constato que minha dedicação à música clássica começou a crescer no momento em que, anos trás, retomei a vida acadêmica justamente na Filosofia. Haveria alguma relação ? Pois a Filosofia me abriu os olhos para as nuances de significados, para a sutileza do pensamento, para o “cerebral” na sua forma mais elevada. Não estou só: Theodor Adorno (filósofo mais citados nessas cyber páginas) dedicou à música uns bons dois terços de sua copiosa obra.

Filosofia é criar conceitos, escreveu Gilles Deleuze em uma de suas páginas mais legíveis. Francisco Bosco, meu filósofo pop preferido, escreveu que o conceito é “uma pequena batalha que se trava em meio ao caos, a fim de fazer dele ressair, por meio de um meticuloso bordado semântico, uma forma luminosa”. Ouço música quando leio essas palavras.

Todavia, sinto falta do visceral. Da boa música trash que todos aprendemos a gostar quando moleques. Do rock, do blues, do funk de boa safra. Em um dos poucos colóquios do Baixo Verão, manifestei meu desejo de ver um bom show, como um dia eu vi o Black Crowes no Pacaembu ou Van Halen no Ibirapuera ou B.B.King no Velódromo da USP ou Otis Rush na Brixton Academy.

Abro o jornal e está lá: Buddy Guy em São Paulo, 26 e 27 de março. Me apresso a entrar no site, garantir os ingressos. Não conheço a casa de espetáculos, ela tem nome de banco. Vejo o mapa: os lugares são em... mesas ! Mesas ! Provavelmente apertadas mesas, com casais desconhecidos no seu nariz, olhando esquisito cada vez que você faz um comentário sarcástico.

Não existe nada menos visceral que uma mesa. Mesas são boas para agradáveis refeições ou alegres colóquios, mesas são ótimas para escorregarmos sob ou rolarmos sobre. Mas ouvir sentado em uma mesa um som visceral como o do “Sujeito Camaradinha” (sim, foi dessa forma que Buddy Guy teve seu nome traduzido um dia no Brasil, para horror dos que ouviram) ! Imagino quando ele soltar seu vozeirão cantando, berrando enlouquecido “THAAAAAANNNNNGS THAT I USED TO DO !”, eu vou fazer o quê na mesa ? Tamborilar os dedos ? Pegar uma azeitona com um palito ? Ou apenas contemplar o casal suburbano se beijando à minha frente, em sua redoma ?

Impossível. Buddy Guy vai ficar para a próxima

O segredo do sol e da sombra

“Eu gosto mesmo é da penumbra. Não tenho prazer na sombra nem no sol... gosto da mínima luminosidade possível, apenas o suficiente para reconhecer o formato dos corpos”

Tem feito muito sol. A serena chuva que marcou muitos dias de verão deu lugar a essa luminosidade brutal, que começa desde cedo, que fere os olhos e que às vezes termina em um aguaceiro diluviano. Na Itália era o silêncio e agora, de volta aos trópicos, é a luz que afeta meus sentidos. Lá, a ausência, aqui, o excesso. Me vejo na posição do liberto da caverna: “... se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão ofuscados ? Não desviará ele a vista ? ... e quando tiver chegado à luz, poderá com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras ?”(A República, VII). Pois a luz e o calor dos últimos dias me cegam, sem a contrapartida de contemplar o conhecimento verdadeiro.

Na tradição, que remonta a Platão, a luz é sinônimo da razão, da certeza, daquilo que é verdadeiro (e, ao mesmo tempo, bom e o belo). Diante da luz diurna e da luz artificial que copia a luz diurna mesmo à noite, só temos certezas. Conforme escrevo, banhado em luz, sei que meu teclado é um teclado, a tela é uma tela. Porém, se privado de luz, vejo minhas certezas se esvaziaram. As coisas não são mais o que parecem, o teclado subitamente pode ser um piano ou uma caixa de peças quadradinhas, a tela pode ser um quadro, uma janela ou, mais do que nunca, um espelho.

Às vezes, anseio pela penumbra.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

"Essa maldita sensação de liberdade..."



San Gimignano é uma pequena cidade da Toscana com seus poucos mil habitantes, dos quais um punhado ainda vive dentro do centro histórico, cercado de muralhas. Sua principal característica são as maciças torres de pedra, que já fizeram a cidade ser chamada, com alguma ironia, de “Manhattan-in-Tuscany”. De fato, apesar de terem sido construídas sobretudo no século XIII, muitas das torres permanecem até hoje, criando um curioso “skyline” para quem vê a cidade de longe, no topo de uma colina, na estrada que vai de Florença para Siena. As famosas torres foram construídas como medida de defesa das casas de família em caso de lutas internas. Com o tempo, passaram a ser consideradas símbolos de prestígio, havendo inclusive disputas pela construção da torre mais alta. Das 72 torres do seu apogeu restam hoje 14, mais a Rocca di Montestaffoli, espécie de baluarte defensivo comum, encravado na muralha da cidade.

Visitar uma cidade como San Gimignano no inverno tem vantagens, sendo a principal delas a ausência dos turistas que ocupam ruidosamente todas ruas e os locais de interesse durante o verão. Em fevereiro, pode-se conhecer melhor a cidade e seus becos vazios, suas igrejas desertas e suas casas de pedra, suas torres imponentes e seus poços desertos (turistas não podem ver uma fonte ou um poço que já se precipitam em atirar moedas, acotovelando-se ruidosamente).

Em San Gimignano, no inverno, impressionou-me o silêncio. No alto das ruas estreitas, apenas o gralhar dos corvos, voando em bando de uma torre para outra. Chegando na Rocca, o silêncio era tão grande que por um instante tive a estranha sensação de ser simplesmente... surdo ! Tive que bater com o pé no chão para confirmar que ainda era capaz de ouvir algo.

Mas a Rocca trouxe-me outra surpresa. Quando cheguei, vi uma moça vestida com trajes medievais sentada em um muro baixo, ao lado de uma harpa. Percebi logo que não era alucinação, pois ao seu lado havia uma pequena mesinha, onde ela exibia e vendia seus CDs. Cena comum em locais públicos, por mais que a Rocca estivesse deserta. Em silêncio (muito silêncio), ela apenas me observava, única pessoa à sua frente. Caminhei até a cisterna, sentei na sua borda e observei a paisagem da Toscana através de uma brecha da muralha (mais ou menos a foto acima).

Foi então que aconteceu. Enquanto contemplava os campos da Toscana, o silêncio passou a ser ensurdecedor. Uma brisa fria começou a soprar no meu rosto, senti meu pé afundando na grama meio molhada e, subitamente, a Mulher Medieval soltou a sua voz. Deixando a harpa de lado, ela entoou o mais belo canto que jamais ouvi. Uma canção melancólica - com sonoridades medievais, certamente - e uma bela voz de soprano, pura, sem nenhuma interferência, sem nenhum outro som que não fosse sua voz clara, limpa, perfeita. O vento soprava na sua direção, talvez fazendo com que cada nota, ao chegar aos meus ouvidos, permanecesse um pouco mais de tempo no ar, criando um efeito jamais encontrado em nenhuma sala de concerto. Nesse momento, atravessei minha cascata de luz. A intensidade das sensações que me afligiam era tão grande, que por um instante suspendeu-se meu estado de consciência. Me entreguei a elas e por uma fração de segundo, minha mente ficou desguarnecida, perdi o controle sobre meus pensamentos. E nesse instante, abriu-se na minha frente o meu Aleph pessoal: um turbilhão de imagens, dezenas, centenas, milhares de imagens, uma sobre a outra, todas misturadas, superpostas, porém perfeitamente distinguíveis.

[Pausa. Fala o coro: nunca tive a ambição de redigir um blog confessional, mas... como não compartilhar essa epifania ? Devo prosseguir ? Devo seguir adiante descrevendo o conteúdo das imagens que apareceram na minha frente, mesmo sabendo que isso significa um tipo de confissão, incompatível com o grau de publicidade de blog ? Pois vá lá, prossigo.]

Vi dezenas, centenas de rostos, não sei quantos, todos ao mesmo tempo. Uns maiores outros menores, uns mais nítidos outros não. E eram os rostos de pessoas de quem gosto, talvez de todas as pessoas que amei ou que me amaram na vida (ou que amarei ou que me amarão). E elas apareceram juntas na minha frente, como se eu as trouxesse para perto de mim de muito longe, como se minha mente, livre de todo controle, expressasse o meu desejo mais íntimo: a proximidade das pessoas, o afeto de que todos precisam. Como na frase de Camus, eu instintivamente retornei ao meu lugar de origem: não necessariamente um lugar no espaço, mas um lugar afetivo, construído por uma teia de relações familiares, amorosas e de amizade, construídas ao longo de uma vida, e do qual eu estava tão distante naquela hora.

E foi uma experiência estética (musical) que me deu abertura para essa visão. Ou melhor: foi uma experiência total, mais do que apenas estética, mas sensorial, que eu sabia que só seria perfeita se compartilhada com os que amo. Longe de todos, livre, independente, não consegui expressar mais nada senão o desejo de compartilhar essa experiência, ou de torná-la completa com a presença dos que amo (e que são ao mesmo tempo a maior riqueza e uma grande fraqueza).

Repito, a experiência toda durou uma fração de segundo, tento eternizá-la com as palavras. Quando o canto da Mulher Medieval se encerrou (tão rápido !), quando outras pessoas entraram no pátio da Rocca e juntaram-se a mim, quando minha consciência retomou o controle sobre minha mente, tudo já havia passado. Lembrei os versos de Goethe, no Fausto:

Zum Augenblick, dürfte ich sagen:
Verweile doch, du bist so schön !
(Queria dizer ao momento que passa:
Pois eternize-se, és tão belo !)


Sorri e segui em frente.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Viajar


Não viajamos para chegar, mas para viajar; por isso mesmo tanto faz para onde vamos. Blog também tem férias, nos próximos vinte dias participarei de alegres colóquios longe daqui e longe de qualquer micro. Saindo, deixo uma citação de Camus:


O que dá valor à viagem é o medo. É o fato de que, num certo momento quando estamos tão longe de nosso país, somos tomados por um vago receio e pelo desejo instintivo de voltar à proteção de velhos hábitos. Nesse momento, atravessamos uma cascata de luz e ali está a eternidade. Viajar é uma ciência grande e grave que nos traz de volta a nós mesmos.


Abraços a todos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

6emeia







"O mais esquecido e indiferente objeto, se olhado com cuidado pode exalar arte", diz o manifesto da dupla 6emeia. O site vale uma visita, tem algo a ver com as reflexões e imagens que postamos por aqui (www.6emeia.com/). No site, clique em "Google Maps".

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Esquinas



Esquina perto do Anglo, na Liberdade. O endereço está na foto.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

2009



Não resta a menor dúvida, o blog não existiria sem os encontros, debates e conversas, sejam em sala de aula ou pelos corredores, em exposições de arte ou em uma mera padaria, com alunos ou sem alunos. Daí a referência constante aos alegres colóquios, sempre citados e agora assumido como o novo nome do blog. Aqui, uma explicação: o blog nasceu mais ou menos por acaso; quando comecei, eu mesmo duvidava da minha capacidade (técnica) de fazer um blog, manusear um blog, me dedicar ao blog. Escrever textos sempre foi o menor dos problemas nessa história toda.

No meio do seu processo de construção, fui preenchendo os pedidos que apareciam na tela mais ou menos ao acaso. O nome Angelus Novus surgiu naturalmente, trata-se de uma daquelas referências que sempre tenho em mente, é uma citação que reflete minhas preocupações habituais. O texto de Walter Benjamin sobre o anjo da história é o item 9 em “Sobre o conceito de história” (Obras escolhidas, vol.1; S.Paulo, Brasiliense, 1985). Copio todo o item:



“Minhas asas estão prontas para o vôo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo.”
(Gerhard Scholem,
Saudação do anjo)


Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.



Deixo a imagem de Paul Klee no canto da página, para lembrar a origem do blog. Quanto aos “Alegres Colóquios”, a expressão aparece em Platão, na Carta VII, conforme citado na descrição do topo da página, e sem dúvida reflete melhor o espírito do que acontece por aqui. Aliás, o fragmento da Carta ainda tem o charme de fazer uma referência à “esfregação”, quem foi meu aluno sabe do que estou falando.

Aos alegres seguidores do blog, feliz 2009.