quinta-feira, 9 de abril de 2009

"Naquela noite, fui dormir com medo..."



“Eu estudava em escola religiosa, mais por falta de alternativa do que por outra coisa. Meus pais não eram de ir à igreja e, como filhos de japoneses, nunca haviam tido muito contato com as práticas católicas. Por isso mesmo não fui batizada e sequer fiz primeira comunhão. Na escola, isso era estranho, principalmente quando me perguntavam quem era meu padrinho e eu ficava sem saber o que dizer. Mas, para uma criança, a pior parte era no dia do aniversário, quando eu sempre lembrava que teria um presente a menos. Seja como for, eu presenciava as celebrações católicas e às vezes até ia à igreja para uma cerimônia ou casamento de alguém de outra família.

Porém, tenho uma lembrança muito forte de quando eu tinha no máximo uns seis ou sete anos de idade. Eu era muito pequena e nossa casa havia virado de cabeça para baixo: meu pai havia perdido o emprego, havíamos sofrido um empobrecimento súbito e meus pais não paravam de brigar. Eles até já haviam se decidido pela separação mas, devido à falta total de dinheiro, não tínhamos como desmontar uma casa para fazer duas.

Lembro de uma noite na qual eu já estava na cama quando minha mãe me chamou, dizendo que eu iria dormir com ela, na cama grande. Foi a primeira noite que meus pais decidiram não mais dormir juntos e eu deveria ceder minha cama para ele. Fui para o quarto de minha mãe e, enquanto deitava, lembrei da discussão que havia acabado de ouvir, e que nós teríamos que entregar a casa e que se não acertássemos as contas iríamos todos para a rua. Naquela noite, fui dormir com medo. Não queria que minha mãe percebesse meu medo, ela já tinha problemas demais. Fiquei observando seu corpo deitado junto ao meu, sentindo seu calor e ouvindo sua respiração tornar-se cada vez mais lenta e ritmada, enquanto as demais luzes da casa se apagavam e a noite finalmente silenciava. Quando achei que minha mãe já havia dormido, comecei a rezar, imitando o jeito como tinha visto meus coleguinhas fazerem, e pedindo a deus que não fossemos para a rua.

De repente, minha mãe, que não estava dormindo, virou para o lado e perguntou: ‘Você sabe rezar ?’. Eu disse que sim. Ela se acomodou ao meu lado e disse: ‘Então vamos rezar juntas’. ”


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A história acima me foi contada recentemente, em um rápido colóquio, e me ajuda a entender melhor as coisas. Resolvi copiá-la porque nas últimas semanas falamos de Idade Média, e da intensa religiosidade do período, e às vezes me perguntam de onde vem essa religiosidade ou porque ela foi tão intensa.

terça-feira, 31 de março de 2009

As divertidas aventuras de Vicky e Cristina em Barcelona



Chama atenção que o título do filme de Woody Allen não seja algo do tipo “Vicky e Cristina em Barcelona”, mas “Vicky Cristina Barcelona”. O primeiro título nos remeteria às alegres aventuras de duas personagens naquela cidade (que é uma forma como o filme pode ser lido); já o segundo, ao colocar os três nomes lado a lado, traz a cidade para o mesmo plano das personagens centrais, sugerindo uma outra leitura, que considere Barcelona como protagonista do filme.

O primeiro dado a considerar sobre a cidade de Barcelona é que ela representa um modelo europeu de cidade, em oposição ao modelo norte-americano de cidade.

Modelo norte-americano e europeu de cidade


O modelo norte-americano começou a ser definido por volta de 1900, quando surgiu ou quando se generalizou o emprego de inovações técnicas como siderurgia, ferrovia, eletricidade e motor de combustão interna. Assim, edifícios construídos com vigas de aço podiam ser cada vez mais altos, telefones e elevadores possibilitaram a instalação de residências e escritórios em andares elevados, vias asfaltadas (adaptadas para uso de automóveis e com metrô por baixo) passaram a cercar quarteirões verticalizados. Tais inovações foram adotadas com especial vigor nos Estados Unidos, onde não existia uma urbanização tão intensa quanto na Europa, havendo, portanto, mais espaço para a construção do novo. Dessa forma, espalhou-se o modelo norte-americano de cidade em que o centro é verticalizado e ocupado por edifícios de escritórios, com a população se deslocando cada vez mais para áreas periféricas da cidade, onde se concentram as habitações.

Após a Segunda Guerra Mundial, o processo de esvaziamento dos centros das cidades e criação dos suburbs se acelerou nos Estados Unidos. O desenvolvimento do transporte automobilístico e a crescente prosperidade da classe média norte-americana, viabilizou o sonho de uma ampla casa suburbana, cercada de muito verde e com fácil acesso para todos os lados através de uma vasta rede de highways, em que circulam os diversos automóveis que a família pode possuir. Além disso, em pleno contexto da Guerra Fria, o governo dos Estados Unidos passou a estimular tal solução urbanística, na medida em que a baixa densidade demográfica dos novos subúrbios tornaria a população do país menos exposta a um massacre, no caso de um conflito nuclear. Assim, o centro vertical e comercial da cidade passou a ser cercado pelos bairros cada vez mais horizontais destinadas à residência.

A Europa viveu essa inovações com menos vigor. A existência de cidades antigas, com centros históricos centenários, desestimulou a construção de grandes arranha-céus, que significariam a descaracterização ou mesmo destruição de áreas insubstituíveis. Edifícios antigos foram adaptados a novas funções e quando surgiu a necessidade de construção de grandes espaços para escritórios, sob a forma de arranha-céus, eles foram autorizados apenas na periferia (em Paris, o bairro de La Defénse; em Londres, as revitalização do East End). Dessa forma, algumas grandes cidades européias invertem a lógica da cidade norte-americana: o centro permanece relativamente horizontal, e a periferia vai se verticalizando.

Barcelona representa um tipo específico de cidade européia: a cidade mediterrânea. De fato, nas regiões quentes das vizinhanças mar Mediterrâneo, desde há muito surgiu a tendência de deslocamento das classes mais abastadas para as colinas que cercam a cidade. Mais frescas e espaçadas, a casa ou villa na colina passou a ser símbolo de riqueza ou mesmo ostentação, de Barcelona a Florença, de Lisboa a Atenas.

Os dois modelos de cidade e o filme

No modelo norte-americano, o centro da cidade é morto ou vazio, exceto nas horas de trabalho. Ao mesmo tempo, nos suburbs, o contato entre as pessoas é rarefeito: o isolamento das casas, a atomização provocada pela ênfase no uso de automóveis, tudo contribui para que os encontros entre pessoas sejam pouco freqüentes. Mesmo os encontros sociais em espaços coletivos (restaurantes, pubs ou bares, tão típicos da cultura européia), são dificultados pela eterna dependência do automóvel. Já o modelo europeu parece multiplicar os encontros, seja no fato de que o “viver junto” seja realmente praticado, seja na ênfase ao transporte coletivo e à valorização dos espaços públicos em oposição aos privados.

Oras, o filme que abordamos gira em torno de encontros. Vicky e Cristina e encontram Juan Antonio em um galeria e, na mesma noite, voltam a encontrá-lo em um restaurante. Mais tarde, em plena angústia emocional, Vicky topa com Juan Antonio no Parc Güell. Já no final do filme, Judy articula um novo encontro entre os dois. Aliás, a vida de Juan Antonio gira em torno de encontros, há toda uma sociabilidade expressa, por exemplo, nas rápidas cenas de mesa de bar com Cristina ou Maria Elena e amigos.

Já a sociabilidade norte-americana se dá em outro contexto. Doug e Mark falam de seus encontros para o golfe ou para partidas de bridge, em episódios sempre impregnados de relações profissionais. Mesmo os encontros casuais (parece que os americanos se tropeçam uns nos outros pelas ruas das cidades européias), são sempre com “colegas da firma” ou “amigos do escritório”. No ponto culminante de um desses encontros enfadonhos, Vicky suspira ouvindo um violão melancólico, enquanto na mesa fala-se sobre a importância de estar conectado à internet 24 horas por dia.

Porém, a diferença mais marcante entre as duas formas de sociabilidade vai além dos meros encontros provocados pela cidade ou pelos modos de vida diferentes na Europa e Estados Unidos. Os personagens europeus apresentam uma estranha compulsão em dizer a verdade, o que provoca perplexidade nos interlocutores norte-americanos e também alguns dos momentos mais cômicos do filme. Lembremos o primeiro diálogo de Vicky, Cristina e Juan Antonio. Já os americanos não conseguem dizer a verdade: não mentem, mas limitam-se a dizer não-verdades. Os americanos do filme se relacionam através de jogos sociais, insinuações, do cumprimento de um etiqueta social até certo ponto rígida. Em um caso extremo, Judy, a anfitriã de Vicky e Cristina, tem toda uma vida não verdadeira; e ela adverte Vicky para que não caia no mesmo erro. Mas há ainda uma diferença fundamental entre os personagens norte-americanos e europeus no filme: os europeus produzem arte, enquanto os americanos demonstram uma incapacidade brutal de produzi-la e, muitas vezes usufruí-la. Cristina só se transforma em fotógrafa pelas mãos de Maria Elena.

Se os diferentes modelos de cidade nos chamam atenção para as diferenças entre a cultura européia e a norte-americana, o comportamento dos personagens do filme na cidade de Barcelona leva essa reflexão para outro patamar. Na verdade, menos importa a diferença entre europeus e americanos, mas a contraposição entre, de um lado, produzir arte/dizer a verdade e do outro indiferença à arte/impossibilidade de ser verdadeiro. Portanto, o filme gira em torno da arte e seu significado: existe uma verdade a ser dita pela arte. Ou ainda, o filme, enquanto obra de arte, tem a obrigação de ser verdadeiro, e a primeira verdade que a arte deve afirmar é uma verdade sobre si própria e seu significado.

Por volta de 1900, em pleno turbilhão urbanístico da Segunda Revolução Industrial, o austríaco Gustav Klimt pintou a sua Nuda Veritas, a verdade nua. A imagem, bidimensional (portanto conceito, e não representação do concreto) mostra uma mulher nua, cercada de símbolos primaveris (flores, expressando a esperança no renascer) e segurando um espelho voltado para frente. No espelho, nenhuma imagem: cabe à arte a construção da verdade.

Se arte é instrumento que nos permite dizer a verdade, resta uma pergunta: será que ainda vale a pena ? O pai de Juan Antonio escreve poemas, mas os destrói por que não merecem ser lidos. Talvez não haja mais lugar para a verdade no mundo, talvez o modelo norte-americano tenha vencido.



segunda-feira, 23 de março de 2009

Sils-Maria blues



Sempre me intrigou porque as pessoas adoram citar Nietzsche. Talvez porque seja aparentemente fácil, seus livros trazem páginas e páginas de aforismos em frases rápidas e bem humoradas. Veja, por exemplo, o capítulo quarto de Além do Bem e do Mal – agora em edição de bolso, na banca mais próxima de sua casa – contendo nada menos que 122 frases supimpas, que abrilhantam qualquer festa, impressionam em qualquer colóquio. Claro, tal “facilidade” de citação, bem como a linguagem carregada de metáforas usada pelo bigodudo filósofo acabam por desviar a atenção de um pensamento vibrante e nem sempre fácil de acompanhar.

Porém, vejo dois outros fatores que levaram Nietzsche a se tornar um filósofo pop. Em primeiro lugar, aquela estranha tendência que as pessoas têm de identificar genialidade com loucura. A foto mais famosa de Einstein mostra-o pondo a língua de fora, em gesto bem pouco aceitável para um velhinho de cabelos brancos. Em “The Big Bang Theory”, o comportamento das pessoas geniais é no mínimo exótico, e todos rimos com as esquisitices e pouco apego às convenções demonstrado por Sheldon, Leonard et caterva. É como se o exotismo fosse sinal externo da genialidade, e não poucas pessoas assumem comportamentos bizarros querendo demonstrar uma pretensa sabedoria. Oras, Nietzsche teve problemas mentais sérios, e muitos dos seus textos sugerem um equilíbrio mental precário. Os capítulos de um de seus últimos livros, Ecce Homo, tem títulos bem pouco normais: “Por que sou tão inteligente”, “Por que escrevo tão bons livros”.

Em História da Loucura, o francês Michel Foucault (leitor atento de Nietzsche) sugeriu que para muitas pessoas a experiência da loucura é vista como possibilidade de entrar em contato com um conhecimento que escapa ao racional. Na des-razão se esconderia um saber oculto e, ao mesmo tempo que rimos do louco, sabemos que ele é capaz de enunciar as verdades mais claras. Citando episódio célebre: em 1807, na fuga de Lisboa, a rainha de Portugal, demente, não parava de perguntar: “Mas por que corremos tanto ? O povo vai pensar que estamos a fugir !”

Em segundo lugar, Nietzsche é alemão. Por aqui, a língua é ignorada pela maioria, e conhecê-la parece ser um feito grandioso. A esquisitice das palavras e os sons guturais, bem como o acúmulo de consoantes rudes que mal usamos em português (K e W, principalmente) e a escassez de vogais; tudo faz com que a língua pareça ter uma complexidade infinita. Veja a palavra “Nietzsche”, por exemplo, com essa magnífica sucessão de T, Z, S, C e H. Um nome quase tão complexo quanto Wittgenstein, mas muito mais fácil de citar: basta dizer “nitx” e pronto. Em São Paulo, até dizemos “nitxi” (italianado, “nicci”; no Sul os gaúchos dizem “ni-tche”).

Digo isso para falar de um conceito presente em Nietzsche e que costuma ser citado a torto e à direito, nem sempre com a compreensão devida. Trata-se do Eterno Retorno. O enunciado é aparentemente simples: como no budismo, a morte não é o encerramento da vida e, ao contrário do cristianismo, a morte não é a abertura para a vida eterna. O que acontece é que renascemos para uma nova existência finita, que ao se encerrar começa de novo e assim em um ciclo eterno. A vida não é linear, mas circular, ou melhor, em espiral: seguimos em frente retornando sempre ao mesmo ponto, e a vida dentro da qual renascemos é a mesma que acabamos de deixar.

A abertura para o misticismo é evidente, bem como a possibilidade de enveredar pela discussão falaciosa acerca de “destino”. Porém, o que deve ser ressaltado é o sentido ético do Eterno Retorno: nossas escolhas devem ser muito bem pensadas porque serão repetidas, nossa vida deve ser bem vivida porque voltará a ocorrer. Independente de existir ou não um Eterno Retorno, e na impossibilidade mesmo de prová-lo, resta a alternativa de apenas ter “fé” nessa idéia, de acreditar pura e simplesmente no Eterno Retorno. A justificativa ? Acreditar no Eterno Retorno significa dar à vida um sentido imediato, independente de grandes saberes ocultos (ou religiosos) ou justificativas metafísicas mais complexas, e só isso já basta para que passemos a acreditar na sua existência. Ou, “na existência” pura e simples.

O ponto é que uma idéia aparentemente carregada de misticismo e espiritualidade nem sempre deve ser tratada como tal, melhor seria se a enxergássemos por outro ângulo. E aqui chego onde queria. Muitas vezes tomamos o discurso religioso como uma balela sem fim (ainda mais nesses tempos em que a Igreja Católica se dedica a causas vibrantes como excomunhões e condenação ao uso de preservativos), porém há algumas coisas que não deveríamos simplesmente ignorar. O professor Luis Felipe Pondé, que escreve na Folha de São Paulo às segundas-feiras, nos ajuda a pensar a Igreja ou a religião de uma forma diferente: costumo discordar de cada vírgula que escreve, mas não consigo deixar de lê-lo. E tenho vontade de rasgar o jornal e fazê-lo engolir cada pedacinho, cada vez que ele perturba minhas convicções iluministas. Porém, convenhamos, não se pode esperar nada melhor de um texto.

Na Idade Média, as heresias pululavam. Uma das minhas preferidas é aquela que considerava a dualidade do universo conforme expresso na oposição entre o Bem e o Mal. O homem, ser inferior, era capaz tanto de um quanto de outro e, diante da finitude do mundo, todo o Bem e todo Mal de que o ser humano era capaz na terra era limitado. É como se houvesse um “estoque” finito de Bem e Mal sobre a terra, esperando para ser realizado. Para maior glória do senhor, esses hereges decidiram esvaziar rapidamente o estoque do Mal terreno, cometendo todos os atos de maldade possíveis e imagináveis no mais breve tempo possível. Dessa forma, o Bem triunfaria na terra, “e as previsões do Senhor pelos seus profetas se realizarão”.

Na prática, o resultado era invadir castelos, matar senhores e tomar a terra. Sabemos que as heresias acabaram por se tornar a expressão da revolta social na Idade Média. Porém, brinco com a idéia de estoques limitados de Bem e de Mal na terra. Não seria a crença nesse princípio o fundamento de uma ética ainda possível ? Pois se eu considerar que meu estoque pessoal de bondade e maldade são finitos, passarei a pensar quase obsessivamente no momento da virada: quando um deles se extinguiria, e eu passaria a viver na plenitude do outro. Incorrigivelmente otimista, penso na extinção do Mal, no dia em que me transformarei senão em bondade plena, mas pelo menos em uma pessoa melhor. E por descartar a inútil e falaciosa discussão acerca do “destino”, sei que tenho condições de agir já, para que essa virada deixe de ser um futuro acaso e passe a ser realidade imediatamente. Dessa forma, penso no Mal de que já fui capaz em minha vida, voluntariamente ou não, e imagino que seu estoque já tenha de fato acabado.

É quando um arrepio atravessa a espinha: mas e se foi o Bem que se extinguiu em mim desde há muito ? E se todo esse Mal que já fiz seja apenas o que me resta daqui para frente ?



quarta-feira, 18 de março de 2009

O desfecho:

Virei para o lado e perguntei para uma das pessoas da mesa:

- Essa pergunta tem mais a ver com sua linha de pesquisa, não ?

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ex silentio



Tendo voltado à Universidade após longa ausência, tive empolgação suficiente para me dedicar a atividades voluntárias, como seminários ou grupos de estudos. Porém, a mais vibrante iniciativa foi quando inscrevi um trabalho no Primeiro Encontro de Pós-Graduandos em Filosofia da PUC que, para minha surpresa, foi selecionado. Vi aí o dedo da minha orientadora, que acabou montando uma mesa apenas com seus orientandos, incluindo o moderador, justamente no primeiro dia do Encontro.

A coisa toda deveria funcionar assim: cada participante da mesa apresentaria um breve comunicado sobre o estado de suas investigações e em seguida estaria aberto o debate com a platéia, sob orientação do moderador. O Encontro foi no glorioso TUCA, o Teatro da Universidade Católica, venerável local impregnado da história recente do Brasil. Após a abertura feita pelo chefe do departamento, iniciaram-se os trabalhos para uma platéia, convenhamos, reduzida. Senti uma certa insegurança: querendo ou não, a Filosofia não é minha área de formação, há assuntos que jamais estudei (além de outros que estudei e não entendi patavina). Porém, ao assumir a palavra, os temores se dissiparam: como bom professor, fiz a “lição de casa”: preparei meu discurso, acrescentei um ou outro gracejo - aquém das bobagens de cursinho, mas além do padrão desse tipo de encontro. Em pouco tempo, conquistei a platéia que, aparentemente, se interessou no meu trabalho.

Respeitei o tempo previsto, vinte minutos, e passei a palavra para o segundo expositor. Para minha surpresa, tanto ele quanto os outros dois que vieram em seguida, limitaram-se a LER um texto escrito previamente, provocando os devidos efeitos soporíferos na platéia. O resultado foi que, na hora do debate, as perguntas vieram todas para mim, uma vez que as pessoas só haviam se interessado - ou permanecido acordadas - durante minha apresentação.

Na primeira fileira, uma jovem senhora, óculos grossos, pasta com textos xerocados em cima do colo, cabelos e ideologia no estilo Luciana Genro. Ela fez a primeira pergunta. Longa. Demorada. Lá pelas tantas, incompreensível. No meio da sua fala, dei-me conta de que já não fazia mais a mínima idéia do que ela estava falando. De repente, ela parou. Terminou a pergunta, não tendo sequer a consideração de usar um ponto de interrogação em sua última e incompreensível frase. Breve expectativa no auditório. Olhos voltados para mim. Subitamente, ela levanta a mão e ainda acrescenta: “Só queria explicar que usei a palavra ‘ideologia’ no sentido da fenomenologia do espírito”.

Claro. Como não pensei nisso antes.

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O episódio todo me fez lembrar dos filmes americanos que todos passamos a odiar com o tempo, nos quais um policial durão prende o psicopata assassino e imediatamente recita a 5ª Emenda à constituição norte-americana. Naquele dia, no TUCA, pensei em invocá-la, o que me garantiria o direito de ficar calado. A 5ª Emenda (e a equivalente lei brasileira que, vergonhosamente não sei identificar) dá ao acusado o direito de permanecer em silêncio, defendendo-o de qualquer possibilidade de auto-incriminação. E eu sabia que se começasse a responder a pergunta da colega naquele evento acadêmico, fatalmente diria bobagens, de algum jeito me auto-incriminando (sob acusação de “arrogância intelectual”, ou seja, participar de um encontro sem estar preparado).

O ponto é que às vezes ansiamos pelo silêncio. Por exemplo, quando aquela pessoa, cujo único conhecimento do mundo se deve à leitura diária dos matutinos, pergunta nossa opinião sobre o escândalo do dia ou o movimento da bolsa na véspera. Quando o colega de trabalho, tentando ser amistoso, nos pergunta se o Honda Civic é tão bom assim quanto parece, ou então pergunta qualquer coisa sobre, sei lá, o Corinthians. Ou ainda, em todas as situações que envolvem um elevador e mais de uma pessoa. Desejamos o silêncio, somento o silêncio.

Porém, muitas vezes o silêncio causa perplexidade. O silêncio desestabiliza. Considerando sobretudo a esfera das relações humanas, observo que o silêncio surge como a anulação da dialética. De fato, o silêncio significa a suspensão de logos, da palavra racional, portanto, o silêncio significa a não-enunciação de um discurso: no silêncio, não há tese a ser negada, portanto não existe antítese possível. Não há superação dialética, o silêncio põe em jogo a suspensão de qualquer processo. Em silêncio não há mudança, não há avanços nem retrocessos.

Mas silêncio não é só negação do processo, é também o ato consciente de permanecer calado. Responder uma pergunta com o silêncio, significa criar uma infinidade de sugestões: talvez a resposta exista mas não seja para meus ouvidos, talvez a resposta exista mas seja perturbadora demais para ser enunciada, talvez uma resposta exista e, ao ser ocultada, deixe nas entrelinhas a existência de um saber oculto. É aqui que entra em cena o misticismo. Como todo misticismo, o silêncio traz a possibilidade da enganação, da falsa sugestão. Ao mesmo tempo, o silêncio pode trazer uma forte dose de ironia: permanecer em silêncio pode significar “eu não me rebaixo ao nível do seu discurso”, trazendo portanto forte dose de agressividade Seja como for, o silêncio faz parte dos jogos de poder que praticamos no cotidiano.

Brinquemos com os jogos de poder, talvez seja a única forma de apontá-los claramente. Em janeiro, visitando Paris com a turma do Anglo, pedi e recebi autorização de diversos Museus para atuar como guia do grupo. Na prática isso significou que em cada Museu eu deveria usar um crachá dizendo “Droit de parole”, o que me divertiu loucamente (na foto, o crachá verde do Musée d’Orsay). O “Direito de falar” era meu, e a conclusão implícita era a de que as demais pessoas do meu grupo NÃO tinham o mesmo direito, pois não portavam crachá. Ao mesmo tempo, o crachá inseria a minha palavra (e a minha pessoa) em um quadro institucional, transformando-a automaticamente na “palavra verdadeira”. No Beaubourg, diante de uma tela de Rothko, uma funcionária do Museu passou a acompanhar atentamente minha fala. Qualquer barbaridade que eu dissesse seria sancionada ou legitimada pelo Museu em questão, fosse o Louvre, o Orsay ou o próprio Beaubourg.

Adorno, sempre ele, disse que qualquer diálogo banal faz parte da mentira, uma vez que dá uma aparência de normalidade a relações humanas deterioradas desde há muito. Em nossos diálogos cotidianos nos calamos sobre o sofrimento, portanto acabamos por criar e perpetuar um silêncio criminoso.

Penso em Adorno e, enquanto isso, ouço um tango.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Drops


Silêncio

O blog está abandonado. O último post descreveu uma experiência musical ocorrida quase um mês atrás. Talvez haja uma relação entre este abandono e aquela experiência: qual o sentido da escrita diante daquele choque que tive na Toscana, ao mesmo tempo tão descomunal e tão delicado ? Abandonar o blog significa que passei as últimas semanas em silêncio, mas não foi justamente o silêncio uma parte tão forte da última experiência cultural digna de registro ? Talvez, com meu silêncio, eu apenas tente perpetuá-la.

Ao mesmo tempo, os alegres colóquios escassearam. Os últimos têm sido fragmentados, quebrados. Meu desligamento faz com que pesque apenas fiapos de conversa, minhas intervenções se limitam ao mínimo. Na verdade, são colóquios bem pouco alegres, em que me recolho em pensamentos, nem sempre profundos. Seca a fonte da escrita, não consigo nada além de remoer sentimentos íntimos: assim o blog corre o risco de virar confessional (ao mesmo tempo meu maior medo e fonte das maiores repercussões, quando eventualmente desabafo).

A tela do computador se converte subitamente em um espelho, cuja imagem escondo por trás de um véu de silêncio.

O cerebral e o visceral

O blog nasceu sob a égide da música, falando de Richard Strauss e Igor Stravinsky. Vejo que tenho dedicado cada vez mais tempo à música clássica, dita “cerebral”, desde a freqüência a sala de concertos até um surto de ópera nos últimos dias. Constato que minha dedicação à música clássica começou a crescer no momento em que, anos trás, retomei a vida acadêmica justamente na Filosofia. Haveria alguma relação ? Pois a Filosofia me abriu os olhos para as nuances de significados, para a sutileza do pensamento, para o “cerebral” na sua forma mais elevada. Não estou só: Theodor Adorno (filósofo mais citados nessas cyber páginas) dedicou à música uns bons dois terços de sua copiosa obra.

Filosofia é criar conceitos, escreveu Gilles Deleuze em uma de suas páginas mais legíveis. Francisco Bosco, meu filósofo pop preferido, escreveu que o conceito é “uma pequena batalha que se trava em meio ao caos, a fim de fazer dele ressair, por meio de um meticuloso bordado semântico, uma forma luminosa”. Ouço música quando leio essas palavras.

Todavia, sinto falta do visceral. Da boa música trash que todos aprendemos a gostar quando moleques. Do rock, do blues, do funk de boa safra. Em um dos poucos colóquios do Baixo Verão, manifestei meu desejo de ver um bom show, como um dia eu vi o Black Crowes no Pacaembu ou Van Halen no Ibirapuera ou B.B.King no Velódromo da USP ou Otis Rush na Brixton Academy.

Abro o jornal e está lá: Buddy Guy em São Paulo, 26 e 27 de março. Me apresso a entrar no site, garantir os ingressos. Não conheço a casa de espetáculos, ela tem nome de banco. Vejo o mapa: os lugares são em... mesas ! Mesas ! Provavelmente apertadas mesas, com casais desconhecidos no seu nariz, olhando esquisito cada vez que você faz um comentário sarcástico.

Não existe nada menos visceral que uma mesa. Mesas são boas para agradáveis refeições ou alegres colóquios, mesas são ótimas para escorregarmos sob ou rolarmos sobre. Mas ouvir sentado em uma mesa um som visceral como o do “Sujeito Camaradinha” (sim, foi dessa forma que Buddy Guy teve seu nome traduzido um dia no Brasil, para horror dos que ouviram) ! Imagino quando ele soltar seu vozeirão cantando, berrando enlouquecido “THAAAAAANNNNNGS THAT I USED TO DO !”, eu vou fazer o quê na mesa ? Tamborilar os dedos ? Pegar uma azeitona com um palito ? Ou apenas contemplar o casal suburbano se beijando à minha frente, em sua redoma ?

Impossível. Buddy Guy vai ficar para a próxima

O segredo do sol e da sombra

“Eu gosto mesmo é da penumbra. Não tenho prazer na sombra nem no sol... gosto da mínima luminosidade possível, apenas o suficiente para reconhecer o formato dos corpos”

Tem feito muito sol. A serena chuva que marcou muitos dias de verão deu lugar a essa luminosidade brutal, que começa desde cedo, que fere os olhos e que às vezes termina em um aguaceiro diluviano. Na Itália era o silêncio e agora, de volta aos trópicos, é a luz que afeta meus sentidos. Lá, a ausência, aqui, o excesso. Me vejo na posição do liberto da caverna: “... se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão ofuscados ? Não desviará ele a vista ? ... e quando tiver chegado à luz, poderá com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras ?”(A República, VII). Pois a luz e o calor dos últimos dias me cegam, sem a contrapartida de contemplar o conhecimento verdadeiro.

Na tradição, que remonta a Platão, a luz é sinônimo da razão, da certeza, daquilo que é verdadeiro (e, ao mesmo tempo, bom e o belo). Diante da luz diurna e da luz artificial que copia a luz diurna mesmo à noite, só temos certezas. Conforme escrevo, banhado em luz, sei que meu teclado é um teclado, a tela é uma tela. Porém, se privado de luz, vejo minhas certezas se esvaziaram. As coisas não são mais o que parecem, o teclado subitamente pode ser um piano ou uma caixa de peças quadradinhas, a tela pode ser um quadro, uma janela ou, mais do que nunca, um espelho.

Às vezes, anseio pela penumbra.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

"Essa maldita sensação de liberdade..."



San Gimignano é uma pequena cidade da Toscana com seus poucos mil habitantes, dos quais um punhado ainda vive dentro do centro histórico, cercado de muralhas. Sua principal característica são as maciças torres de pedra, que já fizeram a cidade ser chamada, com alguma ironia, de “Manhattan-in-Tuscany”. De fato, apesar de terem sido construídas sobretudo no século XIII, muitas das torres permanecem até hoje, criando um curioso “skyline” para quem vê a cidade de longe, no topo de uma colina, na estrada que vai de Florença para Siena. As famosas torres foram construídas como medida de defesa das casas de família em caso de lutas internas. Com o tempo, passaram a ser consideradas símbolos de prestígio, havendo inclusive disputas pela construção da torre mais alta. Das 72 torres do seu apogeu restam hoje 14, mais a Rocca di Montestaffoli, espécie de baluarte defensivo comum, encravado na muralha da cidade.

Visitar uma cidade como San Gimignano no inverno tem vantagens, sendo a principal delas a ausência dos turistas que ocupam ruidosamente todas ruas e os locais de interesse durante o verão. Em fevereiro, pode-se conhecer melhor a cidade e seus becos vazios, suas igrejas desertas e suas casas de pedra, suas torres imponentes e seus poços desertos (turistas não podem ver uma fonte ou um poço que já se precipitam em atirar moedas, acotovelando-se ruidosamente).

Em San Gimignano, no inverno, impressionou-me o silêncio. No alto das ruas estreitas, apenas o gralhar dos corvos, voando em bando de uma torre para outra. Chegando na Rocca, o silêncio era tão grande que por um instante tive a estranha sensação de ser simplesmente... surdo ! Tive que bater com o pé no chão para confirmar que ainda era capaz de ouvir algo.

Mas a Rocca trouxe-me outra surpresa. Quando cheguei, vi uma moça vestida com trajes medievais sentada em um muro baixo, ao lado de uma harpa. Percebi logo que não era alucinação, pois ao seu lado havia uma pequena mesinha, onde ela exibia e vendia seus CDs. Cena comum em locais públicos, por mais que a Rocca estivesse deserta. Em silêncio (muito silêncio), ela apenas me observava, única pessoa à sua frente. Caminhei até a cisterna, sentei na sua borda e observei a paisagem da Toscana através de uma brecha da muralha (mais ou menos a foto acima).

Foi então que aconteceu. Enquanto contemplava os campos da Toscana, o silêncio passou a ser ensurdecedor. Uma brisa fria começou a soprar no meu rosto, senti meu pé afundando na grama meio molhada e, subitamente, a Mulher Medieval soltou a sua voz. Deixando a harpa de lado, ela entoou o mais belo canto que jamais ouvi. Uma canção melancólica - com sonoridades medievais, certamente - e uma bela voz de soprano, pura, sem nenhuma interferência, sem nenhum outro som que não fosse sua voz clara, limpa, perfeita. O vento soprava na sua direção, talvez fazendo com que cada nota, ao chegar aos meus ouvidos, permanecesse um pouco mais de tempo no ar, criando um efeito jamais encontrado em nenhuma sala de concerto. Nesse momento, atravessei minha cascata de luz. A intensidade das sensações que me afligiam era tão grande, que por um instante suspendeu-se meu estado de consciência. Me entreguei a elas e por uma fração de segundo, minha mente ficou desguarnecida, perdi o controle sobre meus pensamentos. E nesse instante, abriu-se na minha frente o meu Aleph pessoal: um turbilhão de imagens, dezenas, centenas, milhares de imagens, uma sobre a outra, todas misturadas, superpostas, porém perfeitamente distinguíveis.

[Pausa. Fala o coro: nunca tive a ambição de redigir um blog confessional, mas... como não compartilhar essa epifania ? Devo prosseguir ? Devo seguir adiante descrevendo o conteúdo das imagens que apareceram na minha frente, mesmo sabendo que isso significa um tipo de confissão, incompatível com o grau de publicidade de blog ? Pois vá lá, prossigo.]

Vi dezenas, centenas de rostos, não sei quantos, todos ao mesmo tempo. Uns maiores outros menores, uns mais nítidos outros não. E eram os rostos de pessoas de quem gosto, talvez de todas as pessoas que amei ou que me amaram na vida (ou que amarei ou que me amarão). E elas apareceram juntas na minha frente, como se eu as trouxesse para perto de mim de muito longe, como se minha mente, livre de todo controle, expressasse o meu desejo mais íntimo: a proximidade das pessoas, o afeto de que todos precisam. Como na frase de Camus, eu instintivamente retornei ao meu lugar de origem: não necessariamente um lugar no espaço, mas um lugar afetivo, construído por uma teia de relações familiares, amorosas e de amizade, construídas ao longo de uma vida, e do qual eu estava tão distante naquela hora.

E foi uma experiência estética (musical) que me deu abertura para essa visão. Ou melhor: foi uma experiência total, mais do que apenas estética, mas sensorial, que eu sabia que só seria perfeita se compartilhada com os que amo. Longe de todos, livre, independente, não consegui expressar mais nada senão o desejo de compartilhar essa experiência, ou de torná-la completa com a presença dos que amo (e que são ao mesmo tempo a maior riqueza e uma grande fraqueza).

Repito, a experiência toda durou uma fração de segundo, tento eternizá-la com as palavras. Quando o canto da Mulher Medieval se encerrou (tão rápido !), quando outras pessoas entraram no pátio da Rocca e juntaram-se a mim, quando minha consciência retomou o controle sobre minha mente, tudo já havia passado. Lembrei os versos de Goethe, no Fausto:

Zum Augenblick, dürfte ich sagen:
Verweile doch, du bist so schön !
(Queria dizer ao momento que passa:
Pois eternize-se, és tão belo !)


Sorri e segui em frente.