domingo, 16 de agosto de 2009

De volta à Cidade




A força do dia fez com que eu me refugiasse numa caverna; no fundo havia um poço, no poço uma escada que abismava na treva inferior. Desci; por um caos de sórdidas galerias cheguei a uma vasta câmara circular, a muito custo visível. Havia nove portas naquele porão e oito davam para um labirinto que falazmente desembocava na mesma câmara; a nona (através de outro labirinto) dava para uma segunda câmara circular, igual à primeira. Ignoro o número total de câmaras; minha desventura e minha ansiedade as multiplicaram. O silêncio era hostil e quase perfeito, outro rumor não havia nessas profundas redes de pedra além de um vento subterrrâneo, cuja causa não descobri; sem ruído, perdiam-se entre as gretas fios de água enferrujada (...)

No fundo de um corredor, um muro não previsto me barrou os passos, uma remota luz caiu sobre ele. Ergui os olhos ofuscados: no vertiginoso, no mais alto, vi um círculo de céu tão azul que pareceu-me púrpura. Alguns degraus de metal escalavam o muro. O cansaço me relaxava, mas subi, só me detendo às vezes para pesadamente soluçar de felicidade. Fui divisando capitéis e astrágalos, frontões triangulares e abóbadas, confusas pompas de granito e mármore. Foi-me assim concedido ascender da cega região dos negros labirintos entretecidos à resplandecente Cidade.

O texto acima descreve com incrível semelhança a primeira vez que me aventurei sozinho pela imensa rede de metrô de uma cidade grande e me perdi por alguns instantes. Na verdade, acho que prolonguei voluntariamente minha situação de “perdido”, saindo em estações diferentes para ter surpresas, pegando a linha errada para ver onde iria parar. A cidade era Paris, o ano 1990 (a rede de metrô é a da figura acima). Foi assim que descobri, por exemplo, a Linha 6, que de repente deixa de ser subterrânea e oferece aos passageiros que vão na direção de Étoile uma magnífica vista da torre Eiffel.

O fragmento citado, todavia, não tem nada a ver com metrô, pelo contrário. É a descrição fantástica que o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) faz da “cidade dos imortais” em um dos contos do livro O Aleph. Seja como for, a idéia de um labirinto em que câmaras idênticas se sucedem, ligadas umas às outras por túneis e caminhos subterrâneos chega a ser quase precisa. As estações do metrô de Paris são muito semelhantes entre si: longas plataformas ferroviárias, com tetos como se fossem seções de cilindro, cobertos de azulejos brancos de uma ponta a outra. A monotonia das paredes de azulejo branco é quebrada pelos painéis publicitários (e os painéis se repetem em todas as estações, ajudando a criar o aspecto labiríntico em que as câmaras são de fato idênticas) e por uma placa azul turquesa, onde está escrito o nome da estação em branco.

Aliás, os nomes das 380 (repito, trezentos e oitenta) estações de Paris por si só já são uma delícia. Nomes de lugares, nomes de pessoas, nomes históricos. Nomes de batalhas ! Há milhões de fantasmas por trás de algumas estações que têm nomes das batalhas da França: Bir-Hakim (1942, cinco mil mortos), Iena (1806, trinta mil mortos), Sebastopol (1855, setenta mil mortos), Alésia (52 a.C., talvez cem mil mortos). Porém, o que chega a ser engraçado (ou no mínimo inusitado) são as estações que foram rebatizadas, e acabam tendo dois nomes. Por exemplo, a estação Barbés-Rochechouart, que reúne o nome de um revolucionário de 1848, Armand Barbés, com o de uma aristocrata do Antigo Regime, Marguerite de Rochechouart.

Mas o post de hoje não é sobre nada disso, e sim sobre uma notícia da semana que passou, segundo a qual a prefeitura de São Paulo irá gastar, nos próximos anos, algo em torno de 4 bilhões de reais com obras viárias. Ou seja, com avenidas para automóveis. Tal volume de recursos seria suficiente para construir cerca de 20 km de metrô. Trata-se de uma notícia escandalosa.

Há um princípio do urbanismo, comprovado desde há muito segundo o qual as “vias criam o seu próprio tráfego”. A idéia que a construção de avenidas e cada vez mais avenidas serve para “desafogar” o tráfego é uma mentira atroz. Lembro da recente construção da famosa Ponte Estaiada – com seus cabos imensos, como se a cidade já não tivesse fios demais pendurados sobre nossas cabeças – que foi justificada como uma forma de levar o tráfego rapidamente de um ponto para outro e que imediatamente se converteu em um verdadeiro estacionamento a céu aberto nos horários de pico. O princípio do urbanismo que citei surgiu a partir das fracassadas experiências ocorridas em Nova York a partir da ação de Robert Moses (1888-1981), que planejou o desenvolvimento da cidade dando prioridade aos automóveis. Sem a mínima preocupação com conservação, Moses derrubava bairros inteiros e degradava outros tantos para abrir avenidas, pontes e vias elevadas, tendo iniciado suas furiosas atividades de engenharia já na década de 1920. Quarenta anos depois, o modelo estava esgotado e a cidade paralisada.

Na cidade de São Paulo ainda estamos nas mãos dos carros, e décadas seguidas de abertura de avenidas asfaltadas não resolveram o problema do tráfego. O que é evidente, pois o problema de circulação não se resolve com automóveis (e um dia as gerações futuras irão rir de nós, constatando que para nos deslocarmos do ponto A até o ponto B levamos junto 700 kg de ferro, aço e borracha, emitindo poluentes no processo). Avenidas, obviamente, tem um efeito eleitoral magnífico, pois tem imensa visibilidade: 100 km de avenidas são mais visíveis que 20 km de metrô, dando impressão de que o prefeito construtor de avenidas asfaltadas é um sujeito que “faz” as coisas.

Os argumentos mentirosos para justificar tal uso imbecil de recursos são infindáveis: “Metrô é obrigação do Estado e não da Prefeitura”, repetem os sucessivos prefeitos, assumindo publicamente sua omissão. “Metrô leva muito tempo para ser construído, enquanto o problema do tráfego é imediato”, tal argumento tem sido utilizado há décadas para justificar a falta de iniciativa. De fato, se 30 anos atrás os recursos tivessem sido destinados ao metrô e não aos minhocões da vida... Mas o argumento do tempo que leva a construção do metrô aponta para outra tragédia: uma infinidade de avenidas asfaltadas pode ser construída durante um mandato de 4 anos, enquanto um simples trecho do metrô pode levar muito mais tempo, muito além do mandato de um prefeito ou governador. Portanto, estes jamais irão iniciar uma obra que será concluída por outro. E a cidade que se dane.

As mentiras não param. Os míseros 60 km do metrô de São Paulo estão divididos em cinco linhas... que cinco ? Existe UMA linha de metrô em São Paulo, a número 1, azul, Tucuruvi-Jabaquara. A linha 2, verde, é um mero ramal (nove estações) e a linha 3, vermelha, é apenas a adaptação de trilhos que já existiam na superfície desde há muito. Já a linha 4, amarela, prevista para 2010 (claro, ano de final de mandato do governador candidato à presidência), vai bater dois recordes negativos: maior tempo de construção e maior distância entre estações (aliás, terá somente 7 estações novas, sendo portanto mais um simples ramal). Finalmente, existe a linha 5 lilás, que leva do nada a lugar nenhum em 6 estações.

É uma vergonha. Todo o planejamento e construção do metrô de São Paulo desde a inauguração é prova de uma incompetência feroz, bem como da submissão do interesse público a ambições mesquinhas. Comparemos com outras cidades, que tiveram metrô inaugurado mais ou menos na mesma época que o de São Paulo (1974): Seul, hoje com 287 km em 10 linhas e Cidade do México, com 202 km em 11 linhas. E são linhas reais, e não de mentirinha como as nossas. Em nome de uma carreira política, destrói-se a cidade.

Defendo radicalmente o metrô porque é a única alternativa que temos. E porque em um transporte coletivo minimamente civilizado como o metrô, podemos nos livrar do isolamento destruidor (e quase assassino) dos carros, multiplicando as trocas e os encontros, ou seja, praticando o “viver junto” que é o princípio mais essencial e prazeroso das cidades.

Fugir (continuação)

O último post foi certamente um dos mais instigantes. Nos comentários, o conceito de "fugir" foi melhor delimitado, ou mesmo ampliado, e acabou ganhando novos significados que eu jamais havia pensado. Assim se cumpriu o projeto do blog: levar o pensamento adiante, para mim e para os leitores, como em um Alegre Colóquio.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Fugir




Anos trás precisei de documentos ( = provas) para um processo imbecil na justiça contra um certo estelionatário, na época proprietário de uma escola onde eu trabalhava. Naquela escola funcionava um caixa dois: os salários eram pagos “por dentro” e “por fora”, havendo inclusive duas contabilidades paralelas, uma legal outra ilegal. Eu achava curioso que os procedimentos eram idênticos nos dois casos, recibos, holerites e assinaturas para lá e para cá, mesmo na contabilidade paralela. A única diferença é que os procedimentos do caixa dois eram feitos todos em uma sala discreta, com portas abertas, é bem verdade, o troço todo era ao mesmo tempo secreto e do conhecimento de todos.

Percebi que se possuísse os documentos “secretos” do caixa dois teria um trunfo na justiça. Certa ocasião, fui à tal sala discreta da contabilidade e, quando peguei uma pilha de documentos para assinar recibos atrasados, perguntei à contadora: “Puxa, vocês não tem medo que alguém use esses papéis em um processo contra a escola ?”. A mocinha respondeu, “Ah, mas é por isso que esses papéis nunca saem dessa sala”. Foi o sinal. Larguei a caneta e, para sua surpresa, pus a pilha de documentos debaixo do braço e saí correndo pela escola.

Foi uma fuga maravilhosa. Ninguém poderia imaginar: um professor correto, correndo desabaladamente pelos corredores da administração, passando como um foguete em frente à sala do proprietário-estelionatário (que nada sabia do que se passava), atravessando a sala de espera, onde pais de alunos não entendiam o porquê da correria (claro, com a mocinha da contabilidade bufando atrás de mim). Passamos correndo pelo pátio, pegamos o corredor lateral que dava para a saída da escola, ela gritando “Pare ! Volte!”. Próximo ao portão, ela ainda tentou gritar para o porteiro que me detivesse: “Não deixe ele sair !”. Cumprimentei o porteiro, velho conhecido, alcancei a rua e parei, exausto. A mocinha, ofegante, me alcançou, mas já não era mais possível nenhuma ação. Apenas olhei para ela e para a escola atrás dela, onde algumas pessoas já olhavam pela janela, e me ocorreu que jamais voltaria naquele lugar.

Foi uma saída espetacular.

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Tento estabelecer claramente os significados de fugir e sair. O que diferencia um ato do outro ? A meu ver, sair dá idéia sobretudo de deslocamento. Mas o que faz esse deslocamento diferente do fugir ? Nos dois casos pode ser um deslocamento voluntário ou não, para longe ou para perto, tanto rápido quanto devagar. Em que circunstâncias uma saída passa a ser uma fuga ? Em outras palavras, do quê, exatamente, fugimos ?

Os gregos, com a perspicácia habitual, nos ajudam. A origem mais remota da palavra fugir vem de φεύγω (feugo), às vezes aparecendo como διαφεύγω , com o acréscimo da preposição δια- (através de, por meio de). Platão usa a expressão διαφεύγει με, no sentido de “isso me escapa”, ou seja, algo que ignoro. Em Isócrates, há πολλά με διαφεύγεν, que quer dizer “esqueci muitas coisas”. Aqui começamos a descobrir do que fugimos. Fugir significa não pertencer mais ao pensamento, o que põe em jogo o esquecimento. Na fuga, lidamos com a memória, saímos de uma situação ou de algo que não queremos mais que faça parte de nosso pensamento. Será que esse algo é uma parte de nós ? Quando fugimos, apagamos alguma coisa, criando assim um espaço em branco que pode ser construído talvez da forma que quisermos.

E é por isso que existe algo de transcendente em toda fuga. A fuga deve ser dramática, não existe fuga insidiosa ou discreta, pois esta se confunde com o mero desaparecimento. Um fuga não deve ser o fim, mas o início, pois quando fugimos nos reinventamos. A fuga significa fazer tábula rasa do passado, gerando a possibilidade de começar de novo, e é esse o sentido que aproxima o fugir da filosofia. Na filosofia devemos nos perguntar sobre as coisas que parecem óbvias, mas que descobrimos que não são: toda filosofia parte da fuga do senso comum, do mero entendimento das coisas ao nosso redor como dados.

Porém, às vezes pensamos estar fugindo quando simplesmente não enfrentamos. Pois há aqueles que fazem da fuga um modo de vida, e isso acaba impedindo a criação de qualquer coisa, ou mesmo a constituição de um eu. Nesses casos, no espaço em branco deixado pela fuga constrói-se um nada avassalador.

domingo, 2 de agosto de 2009

Senzala




Para quem foi para Ouro Preto, uma foto da senzala da Casa dos Contos, tal como era antes do verdadeiro crime museológico que presenciamos. Segue abaixo uma cópia da carta que enviei para a direção da Casa dos Contos no ano passado e que, como vimos, acabou não resultando em nada.


Ouro Preto, 15 de julho, 2008

Para:
Direção da Casa dos Contos
Centro de Estudos do Ciclo do Ouro
Ouro Preto, Minas Gerais

Prezado senhor,

Como professor de História do Curso Anglo de São Paulo (centro de excelência na preparação para vestibulares desde a década de 1950), tenho tido oportunidade de visitar a Casa dos Contos com grupos de alunos nos últimos dez anos. Trata-se, sem dúvida, de um dos pontos altos da viagem anual do Curso para as cidades históricas de Minas Gerais e sempre me chamou atenção o cuidadoso trabalho de restauração e exposição aí realizado.

Recentemente, tive a surpresa de constatar que a senzala foi transformada em uma sala de exposições, completamente tomada por mostruários e vitrines contendo uma infinidade de objetos que, apesar de bastante interessantes, acabaram por “matar” aquele espaço, tão significativo no conjunto da edificação.

O espaço vazio, silencioso e sombrio da senzala sempre foi um local privilegiado para a evocação da trágica experiência da escravidão e, mais de uma vez, observei meus alunos adolescentes em momentos de profunda introspecção (e, certamente, reflexão) diante do sentimento de ausência proporcionado por aquele espaço.

Agora, infelizmente, a senzala se encontra paradoxalmente cheia (de objetos) e vazia (de significado). Sua singularidade foi perdida: a quantidade excessiva de objetos expostos não apenas é desnorteante como desvia a atenção da própria senzala, hoje transformada em uma sala como outra qualquer. Seus mostruários evocam as vitrines dos afamados “shopping centers”, transformando uma experiência historicamente densa em um mero simulacro da experiência do consumo: a história deixa de abrir uma possibilidade de reflexão e dá origem à uma atividade banal, empobrecida. (Insisto: essa perda de sentido contrasta com a própria riqueza dos objetos expostos que, francamente, devem ser retirados daquele espaço).

Impossível não lembrar do conceito benjaminiano de aura: “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais próxima que ela esteja”. A de senzala foi jogada no lixo, a experiência de uma visita à Casa dos Contos é hoje bem menos interessante do que outrora. E, para os que a conheceram no passado, trata-se de uma experiência quase angustiante.

Acredito que a Direção da casa dos Contos levará em consideração minhas observações, no seu objetivo de preservar a memória de Ouro Preto, compreendendo e valorizando a História e a preservação da memória não como espetáculo, mas, sobretudo, como instrumento de reflexão.

Atenciosamente,

Gianpaolo Dorigo

- Bacharel e Licenciado em História pela Universidade de São Paulo
- Mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
- Bolsista do CNPQ junto ao Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga) em 1987-1989.
- Pesquisador visitante junto ao
Musée Royal de l’Armée et d’Histoire Militaire de Bruxelas, Bélgica (1990)
- Professor do Curso Anglo-vestibulares desde 1991.
- Autor de livros didáticos de História e Filosofia para Ensino Médio pelas editoras Scipione e Anglo.
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PS.: Sobre o termo "local de memória" (lieu de mémoire), conforme usei neste ano: trata-se de conceito de largo uso na historiografia francesa recente, cunhado pelo historiador Pierre Nora. O também historiador, inglês, Colin Jones explica: "Designa uma instituição ou local em que se focou a consciência histórica de um povo e que ao longo do tempo recebeu contínuas incrustrações da memória coletiva".

quinta-feira, 23 de julho de 2009

La joie et la tristesse



Desde há muito Paris deixou de ser uma cidade e passou a ser uma marca, tão falada e comentada, disputada e visitada, que dificilmente percebemos que ainda existe uma cidade debaixo daquela massa compacta e espessa dos discursos e imagens. De tão citada, mostrada e reproduzida, Paris passou a ser uma cidade imaginária.

Paris vende, ainda mais no Brasil depois que a valorização da moeda nos tornou a todos uns globetrotters: agora a classe média pode ir a Europa, e Paris passou a fazer parte da memória afetiva de multidões de brasileiros. A indústria cultural se move. Nos cinemas, a simples presença do nome da cidade no título do filme, já serve para atrair milhares de saudosos de Paris. Nas livrarias, não é raro uma prateleira dedicada a Paris, e que apresenta muito mais que os tradicionais guias de viagem. Camisetas e roupas com o nome Paris também estão por todos os lados. Pois Paris foi engolida e cada vez que cruzamos com essa Paris imaginária, ela se torna mais imaginária do que nunca.

Todavia, no meio da avalanche, há tesouros a serem descobertos. Ontem revi “Paris, je t’aime” – título mais apelativo impossível – e descobri que gostei do filme muito mais do que poderia imaginar. Trata-se, basicamente, de uma seleção de curtas e algumas das histórias contadas no filme melhoraram tremendamente com o tempo. Segue abaixo a fala final de Carol, personagem interpretada pela atriz norte-americana Margo Martindale, no último episódio do filme, “14e Arrondissement” (direção Alex Payne):

Et puis, quelque chose m’a arrivé, quelque chose difficile de décrire.

(silêncio)

Assise lá, un être seule dans un pays étranger, loin de toutes les gens que je connais, un sentiment est venu a moi. C’était comme je me souvenait de quelque chose que je n’ai jamais connu ou que j’avais attendu toujours, mais je ne savait pourquoi. Peut-être c’était quelque chose que j’avait oublié ou quelque chose que m’a manqué toute la vie. Seulemant je pouvait dire que j’ai senti, au même temps, la joie et la tristesse, mais pas trop tristesse, parce que je me sentait vivant. Oui, vivant.

Vai sem tradução, o francês dela é impagável, intraduzível. O trecho tem que ser ouvido, mais do que lido: veja o episódio todo em http://bit.ly/Ns0gD , com legendas em inglês. Além disso, o trecho citado acima faz lembrar um fragmento de Camus, que apareceu no blog no início do ano: http://bit.ly/4livo3 .

Deixo as palavras de Carol como despedida. Nos próximos dias, os alegres colóquios serão realizados em Ouro Preto, só voltando em agosto. Abraços a todos.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Ainda o Beco...



(Completo o texto iniciado no último post, mantendo a distinção entre grafitti e pixação).

Pixação & Transgressão

Desde há muito está disseminada a idéia de que transgredir é bonito. A partir dos anos 60, com a crítica à sociedade administrada e a imbecilização do cotidiano, a transgressão passou a ser vista como forma de contestação. Meio século depois, a transgressão foi banalizada, esse discurso caiu no vazio. Na década de 1960 uma juventude trangressora tomou as ruas em nome de utopias; a luta fracassou e deixou no ar uma pergunta amarga: como destituir os poderes se de antemão já estava descartada a criação de novos poderes ? O movimento fracassou (nenhum sucesso era possível), as utopias não vingaram. Sobrou apenas o desejo de manter o comportamento transgressor, agora pintado com cores anarquistas.

Tal comportamento está presente nos grupos de pixadores, que orgulhosamente ostentam o nome libertário de “coletivos”. Certos pixadores rejeitam até o princípio da autoria: qualquer um do grupo pode assinar vício ou fds ou susto's, só para citar alguns dos mais visíveis. E, para fazer parte do coletivo, basta pixar, mais libertário que isso impossível.

Porém, a questão anarquista observada pelo viés da pixação, acaba expondo os limites do movimento. Uma sociedade é livre quando seus indivíduos não estão submetidos à opressão, por exemplo, das leis impostas pelo estado. Dessa forma, uma sociedade anarquista deve estar fundada na auto-disciplina e no respeito a valores comuns. O pixo enquanto forma de transgressão anarquista resulta na deterioração do espaço que deveria ser público. Ao invés de destruir o privado (que pode ser fonte de desigualdade etc.), o pixador destrói espaços que deveriam ser de encontro, de trocas, de sociabilidade; justamente aquilo que, supostamente, deveria ser valorizado. Curiosamente, espaços ultra-pixados são evitados pelas pessoas e freqüentados somente pelos pixadores. A criação desses espaços exclusivos através da pixação resulta no oposto do libertário, ou seja, um comportamente seletivo, excludente e, no seu limite, fascista.

Pixação & Deterioração

Falo de pixação enquanto deterioração não porque o pixo destrói prédios “bonitos”, que, afinal, são tão escassos em São Paulo. Simplesmente constato que pixação (ao contrário do grafitti) dá idéia de abandono e marginalidade. Daí para a atuação do crime organizado é um pequeno passo, e dada a situação de quase guerra civil que vivemos, o pixo vai efetivamente contra o que é de interesse coletivo.

Interessante pesquisa foi feita em uma universidade holandesa (Groningen ?), suas conclusões confirmam o que constatamos diariamente em São Paulo. O experimento foi realizado ao longo das estações (de arquitetura padronizada) de uma linha de trem de subúrbio. Em todas elas havia um estacionamento de bicicletas, encostado na parede do fundo da estação. Os pesquisadores retiraram todas as latas de lixo dos estacionamentos, pixaram as paredes de metade das estações e, em um determinado dia, deixaram nas bicicletas estacionadas um folheto de propaganda qualquer. Em seguida, observaram a reação das pessoas. Nas estações não-pixadas, quase 100% dos donos de bicicletas amassaram e guardaram o folheto de propaganda no bolso, provavelmente para jogar na próxima lata de lixo. Nas estações pixadas, cerca de metade dos donos de bicicleta amassaram a propaganda e jogaram no chão. Pixo da idéia de abandono, gera mais abandono e sujeira ainda.

Na Universidade de Columbia, um experimento semelhante com janelas quebradas: diante de uma fachada com janelas quebradas, as pessoas não se incomodam de jogar lixo. Ou seja: pixação destrói.

(“Ah, mas é bom criar sujeira para contestar a hipocrisia da sociedade burg...” zzzzzzzzzzzzzz... rrrrrrrrrooooonnnnccc... zzzzzzzzzzzzzzzzz...)

Pixação & Existência

Zezão dizia que começou a pixar seu nome para provar sua existência. Isso ocorreu na época em que trabalhava como moto-boy e, segundo ele, era uma pessoa invisível: não recebia bons dias, as pessoas fechavam o vidro do carro quando ele se aproximava. Os únicos que percebiam sua existência eram seguranças de banco, que invariavelmente deixavam-no preso na porta giratória, desconfiados de sua atitude (?) suspeita.

E aqui ele pôs o dedo na ferida. Pois vivemos cercados de pessoas invisíveis, pessoas próximas de nós, a quem nunca notamos a existência. Ou, o mais comum: notamos a existência, mesmo assim seguimos em frente, passamos reto. Quem está lendo esse blog provavelmente nunca foi invisível, mas, pergunte-se se já tratou alguém assim. Porteiros, empregadas, faxineiros, mendigos, pedintes... a lista é infinita. Diante da agressividade do nosso silêncio, como se queixar de um “grito de existência” na forma de pixo ? Como não ser tolerante com quem costuma ser vítima cotidiana da intolerância ? Portanto, viva o pixo existencial, desprovido de ideologia barata! Por mais destruidores que sejam seus efeitos, essa é a cidade em que vivemos, e a quantidade gigantesca de pixações em todas as paredes da cidade da testemunho de quantas pessoas estão gritando desesperadas, quantas pessoas estão em busca de expressão.

Daí uma pergunta: será que não é possível que essas pessoas se expressem de uma forma que vá além de por o nome na parede ? É aqui que a pixação pode virar grafitti.

Pixação & Estética

Há uma estética das letras rúnicas, agressivas do alfabeto da pixação paulistana. No Beco do Batman, um dos grafiteiros transformou a forma do pixo em um padrão agregado á sua pintura (foto acima). Poucos anos atrás, o Itaú Cultural na Av. Paulista passou por uma reforma e cobriu a obra com um tapume branco, divertidamente pixado com um padrão desse tipo. No Cemitério São Paulo, pixadores foram apresentados á arte em cerâmica e puseram seus rabiscos ao longo do comprido muro branco, em espaços simétricos, e o resultado foi surpreendente.

O ponto é: há um gigantesco potencial estético nos garranchos dos pixadores. Há uma enorme energia criativa – sob a forma de vontade de expressão – por trás da ação dos pixadores. Aliás, toda essa reflexão surgiu a partir dos alegres colóquios que se iniciaram com visitas à galeria Choque Cultural e, principalmente, à sua recém encerrada exposição de arte gráfica. Se a pixação for desprovida de um viés ideológico bobo, ela pode se converter, junto com o grafitti, em uma forma de arte singular. Pode até ajudar a definir os rumos de uma nova arte possível no novo milênio, após quase um século de crise da arte.

domingo, 12 de julho de 2009

Beco do Batman



Dos alegres colóquios realizados ultimamente no Beco do Batman – verdadeiro museu a céu aberto do grafitti –fica a suspeita de que a arte de rua é o futuro da arte, justamente por salvá-la da perda de sentido.

Hoje, quando vamos ao museu, topamos com as famosas “instalações”, quase sempre herméticas, isto é, absolutamente incompreensíveis sem um manual de instruções devidamente oferecido pelo artista. Ou então, cruzamos com aquelas propostas de “chocar a platéia burguesa”, como se, a essa altura, alguém ainda tivesse alguma sensibilidade para ser chocada. (Hoje em dia, depois de Auschwitz e Hiroshima, expor um urinol não consegue provocar outra reação além de um bocejo entediado). Finalmente, há essa mania boba de querer superar a vanguarda da semana passada, se convertendo na vanguarda da vanguarda, pelo menos até a semana que vem: sem a compreensão de toda a história da arte, incluindo as últimas dissidências conceituais entre grupelhos semi-desconhecidos, não se consegue entender porque tal artista resolveu usar sua obra para “questionar a arte” pela milésima vez.


A arte de rua traz de volta pelo menos três elementos que se perderam desde que se iniciou aquele surdo diálogo com si próprio que tem caracterizado a arte nos últimos anos. Em primeiro lugar, o grafitti nos coloca diante do inesperado, e isso tem a ver com o próprio suporte usado pelo artista: nada menos que a cidade. No meio de uma entediante jornada do cotidiano, viramos uma esquina e damos com uma súbita explosão de cores. Equipamentos urbanos cinzas, funcionais, desinteressantes passam a ganhar interesse ao se transformarem em formas inéditas.

Além disso, o grafitti nos faz olhar diferente. Claro que aqui cabe uma ressalva: não é por ser uma pintura e estar na rua que o grafitti ganha automaticamente estatuto de obra de arte. Porém, muitas dessas obras conseguem, e passam a pedir um tempo de contemplação maior do que o dispensado em uma passagem rápida, talvez de carro ou ônibus. Quando oferecemos esse tempo, descobrimos no grafitti coisas que não havíamos percebido da primeira vez, acabamos por perceber um novo significado (ou novos múltiplos significados) na imagem que contemplamos.

Finalmente, o grafitti abre espaço para a reflexão. Trata-se da arte na rua, que se oferece aos cidadãos de uma cidade que rejeita o espaço público. Dessa forma, o grafitti nos convida a reocupar esse espaço ou pelo menos chama atenção para sua deterioração. Seu suporte principal é o muro, e é chocante a quantidade de muros que nos cercam, sinalizando insegurança e exclusão, ao mesmo tempo em que chamam atenção para a pobreza da arquitetura que nos cerca (uma arquitetura que multiplica ao infinito as superfícies verticais brancas ou cinzas; seja como for, logo sujas).

Há que diferenciar grafitti de pixação, já comecei a fazê-lo nos posts de 27 de outubro (http://bit.ly/RbJ87 e http://bit.ly/4u9zKe) e 2 de novembro (http://bit.ly/BG9kf ) do ano passado. Porém, a primeira visita com os alunos ao Beco do Batman e o alegre colóquio com Zezão, grafiteiro inspirado, ajudou a colocar a questão da pixação em um novo plano. Volto ao assunto no próximo post.