quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Em princípio, tenho princípios


Gostamos de ver. Temos prazer em assistir. Platão, do seu jeito, já observou isso no livro V de A República, dizendo que todas as pessoas gostam de ver os espetáculos, os coros e as festas dionisíacas. Se forem deixadas em paz, as pessoas passarão toda a vida assistindo e, cá entre nos, na sua passagem mais famosa, Platão nos aponta para os pobres coitados no fundo da caverna, acorrentados mas incapazes de reagir, uma vez que estão entretidos com as sombras que passeiam pela parede.

De onde vem esse estranho encanto ? De onde vem esse sentimento agradável que sentimos, por exemplo, quando se apagam as luzes do cinema ? Mas não se trata apenas de ver, gostamos também de ouvir histórias. Penso no prazer que temos quando sentamos com os amigos, em um alegre colóquio, e nos preparamos para ouvir uma historia bem contada. (Nessas horas, às vezes até nos ajeitamos na cadeira para – estranho – ouvir melhor). Talvez gostemos de ver e ouvir porque temos o hábito de sempre nos situar dentro da historia, ou seja, de nos projetar no lugar dos protagonistas, avaliando nossas possíveis reações e comparando-as com as ações dos personagens de uma narrativa que se desenrola diante de nos. Assim, toda história nos coloca diante de um grande espelho.

[Interlúdio. No meu cotidiano, cruzo com isso o tempo todo, ganho meu pão enunciando discursos para audiências relativamente grandes, com graus de interesse diversos. Periodicamente, para ilustrar o que digo, conto uma historia pessoal. É quando ocorre a mágica: o interesse é redobrado, o silêncio torna-se maior do que o de costume. As canetas são largadas e todos olhares se erguem dos cadernos e dirigem-se aos meus olhos. O interesse é maior e as reações são mais autênticas quando a história se aproxima da vivência dos que me ouvem, ou seja, quando falo de minha experiência de vida escolar, familiar ou de vestibular.]

Há certos tipos de histórias que me encantam. Pouco comuns, são histórias – reais – cujo enredo de alguma forma me fascina. Por exemplo, aquelas histórias envolvendo pessoas que optam por permanecer totalmente passivas diante da vida. Não estou pensando em pessoas miseráveis, sem oportunidades, cujo nada fazer é sobretudo uma imposição, mas sim daquelas pessoas que têm todas as oportunidades na vida, seja no estudo ou no trabalho, mas que acabam optando por não fazer nada, absolutamente nada. Recentemente ouvi a história de um jovem que conheci anos atrás. Me contaram que ele parou de estudar, sequer fez cursinho, e mais tarde abandonou um curso técnico pela metade. Hoje, homem feito, não faz nada. Mora com a mãe e todos os dias acorda pela manha sem ter absolutamente nenhuma obrigação. Em seguida, sai de casa e vai arrumar algo para fazer, visitar um amigo no trabalho, lavar um carro, assistir futebol amador. Às vezes, pede 10 reais emprestado para alguém.

Impossível não lembrar do Bartleby, de Herman Melville, o homem que decidiu dizer não. Pois esses adoráveis ociosos levam a negação às últimas conseqüências. São, muitas vezes, tragédias familiares (“Aquele seu primo ? É um vagabundo”), mas eles quase sempre se tornam pessoas de boa índole, jamais mal-humoradas. Afinal, se não há trabalho nem obrigações financeiras, que motivo resta para irritação ?

Existe, todavia, um outro tipo de história que me fascina e talvez isso seja francamente perturbador. Refiro-me àquelas pessoas, quase sempre homens, quase sempre profissionais corretos e ao mesmo tempo pais dedicados e maridos atenciosos, que, ao final da vida, descobre-se serem chefes de duas famílias. Não são pessoas vulgares, daquelas que mantém uma amante ou um caso permanente, mas sim duas famílias, estruturadas e organizadas como tal.

Imagino o grau infinito de tensão que esses bígamos vivem, tentando articular compromissos, natais, aniversários, presentes e datas comemorativas. Obrigações escolares junto aos filhos, festas de empresa, além do convívio com sogras em dobro, parentes em dobro, isso para não falar de como justificar ou ocultar essa história dos próprios pais e irmãos. Esses bígamos são pessoas que criam a sua própria moral - além do bem e do mal - e vivem em função do segredo, de uma ética na qual a mentira se justifica. Contrariam os costumes, para não falar da lei. Claro, novamente estamos falando de uma tragédia familiar. O que diriam os filhos desses bígamos após descobrirem a verdade ? E suas mulheres ?

Tanto no caso dos ociosos quanto dos bigamos, não considero seriamente suas opções. Em princípio, tenho um punhado de princípios, seja no que se refere ao trabalho ou ao universo afetivo. Mas de alguma forma os invejo, não pelos seus atos em si, mas pelo que neles existe de inconformismo, de revolta surda diante de uma vida cujo roteiro já está previamente estabelecido. São pessoas que tem coragem de dizer não e de criar seus próprios valores. E aqui encontro mais um fator que me explica porque gostamos tanto de ouvir histórias: porque elas nos colocam em contato com vontades perturbadoras que talvez jamais sejam realizadas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cinema bastardo


Quem lê o blog, já sabe: não tenho a menor paciência com a arte conceitual. Não tenho a mínima paciência com obras de arte que existem apenas em função de “discutir” a arte, e que são absolutamente incompreensíveis sem ter como referência toda a história da arte. São justamente essas obras que provocam o esvaziamento da arte e, em última análise, sua própria perda de sentido. Porém, são obras que os críticos e as pessoas que se envolvem com arte muitas vezes preferem, uma vez que esses, ao dedicarem uma vida ao estudo, conseguem entender a proposta aparentemente hermética que se esconde por trás de cada obra. Assim a arte se transforma em um estranho e exclusivo diálogo entre artistas e crítica, e quem não for da “turma” que se dane.

Diante da perplexidade provocada por estranhas instalações artísticas, diante da pergunta tornada universal, “Mas isso aqui é arte ?”, os especialistas e teóricos de plantão podem tecer seus belos discursos, ao mesmo tempo seduzindo platéias e provando sua superioridade sobre a maior parte dos mortais, pobrezinhos, tão incapazes de entender as coisas, ho, ho, ho ! A dinâmica da arte se transforma em um jogo de vaidades e em espaço de afirmações narcísicas (e eu sei muito bem do que estou falando porque sou capaz de jogar direitinho).

Está em cartaz nos cinemas a mais nova unanimidade, Inglorious Basterds (“Bastardos Inglórios”), de Quentin Tarantino, o mais novo e mais amado enfant terrible de Hollywood. Animado por uma infinidade de comentários favoráveis e elogiosos, da crítica que prezo e de amigos em cujo gosto acredito, dirigi-me ao cinema mais próximo em uma tarde de quarta-feira. Cinema quase vazio, temperatura fresca (contrastando com o calor insuportável do dia), projeção e som adequados, um pacote de Galetitas Havanna nas mãos e um daqueles inevitáveis (porém dessa vez elegante) encontros fortuitos com ex-aluno na saída.

Na tela, Tarantino manda ver. A história todo mundo conhece, uma divertida fantasia sobre a Segunda Guerra Mundial em que os judeus se vingam dos nazistas. No filme, ocorre uma verdadeira inversão das atrocidades realizadas em campos de concentração: são os nazistas que tem sua pele marcada para sempre, são os nazistas (incluindo Hitler) que são incinerados numa espécie de crematório gigante. Enquanto parque de diversões, o filme é apoiado por interpretações impagáveis, por exemplo, do coronel SS Hans Landa (Christoph Waltz) e seu cachimbo descomunal, para não falar do próprio tenente Aldo (Brad Pitt). Mas...

Mas acontece que Tarantino, como sempre, tece um infinito emaranhado de citações. Aliás, citações curiosas, uma vez que não são lembrados este ou aquele filme em particular, mas todos os filmes de guerra, toda a tradição hollywoodiana da Segunda Guerra Mundial. Se por um lado elas são divertidas, por outro me fazem perguntar: há alguma coisa por trás dessas citações ? Não seria Inglorious Basterds apenas um longo (e entediante) discurso do cinema sobre o cinema ? Os críticos e cineastas em geral adoraram, porque o filme celebra seu métier. E muitas pessoas adoraram Inglorious Basterds porque “pegaram” as citações, passando a se sentir parte da “turma”: está legitimada a prática de sair do cinema e sentar no boteco para ter conversas inteligentes sobre cinema (sobre a Mostra, sobre Tarantino), enquanto o populacho se espreme pra ver o filme do Michael Jackson.

Impossível usufruir do filme sem as citações. Começando do próprio título, Inglorious BastErds, com E e tudo. Sem ter a história do cinema na cabeça, a fala (e o sotaque) do tenente Aldo não tem graça nenhuma. Sem ter visto mil filmes de guerra, o impagável coronel Landa não tem sentido, os diálogos não tem significado. (Acrescento: sem ter visto mil filmes de western, a cena inicial na fazenda francesa perde um pouco de sentido). O próprio comportamento histriônico dos líderes nazistas, independente de ter ou não base histórica (e, curiosamente, alguns deles eram francamente bufões e caricatos na vida real) é referência a uma infinidade de vilões cinematográficos, e por aí vai. Sem as citações, lamento dizer que o filme é uma bobagem, com um roteiro sem pé nem cabeça que simplesmente não se sustenta. Por exemplo, no meio do filme, do nada, surge uma narração em off para explicar a história, que começa a escapar do controle. Ou então, o velho truque “tarantinesco” de fazer a narrativa avançar através de uma explosão de violência inesperada e visualmente exagerada. Ou ainda, o suspense que não funciona, como no caso da primeira aparição do sargento Donowitz, “The Bear Jew”, que acaba por deixar a platéia frustrada, com um sorriso amarelo (aliás, a platéia da sessão que fui, provavelmente alertada pela crítica de que o filme era “bom”, visivelmente forçava o riso em algumas partes). Isso para não falar dos longos momentos de tédio do filme (porque diabos aquela cena do porão demora tanto ?), que uma certa crítica se apressou em identificar como “o domínio do tempo” por Tarantino. Oras, poupem-me.

Não estou cego às virtudes do filme. É brilhante a idéia de exterminar os líderes nazistas em um cinema, a partir de um incêndio dantesco que começa na tela, com a queima de centenas de rolos de película. (Que se dane, a essa altura todo mundo já viu o filme). E o massacre ocorre justamente no dia da estréia de um filme nazista, daqueles produzidos por Goebbels celebrando o heroísmo do soldado alemão. O filme nos sugere – e isso é francamente genial – que os alemães foram derrotados pelo cinema, e a Segunda Guerra Mundial foi vencida “porque nossos cineastas são melhores do que os alemães”.

Porém, eles eram os melhores, porque hoje em dia apenas se repetem. Talvez Tarantino seja bem menos do que imaginamos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Aqui jazz




Aos 14 anos, eu me achava o máximo da malandragem ao cortar o cabelo no glorioso “Aqui Jazz – Cabeleireiros”, que existe ainda hoje diante do Cemitério da Aclimação. O local atraía todo o tipo de doidões e esquisitões do bairro, bem como qualquer jovem cabeludo que se achasse alternativo. No meio desse verdadeiro circo, despontava a figura do proprietário, o Magrão, sempre acompanhado de seu fiel braço direito, o Ameba, que eu desconfiava estar eternamente chapado.

É estranho que os cabeludos do bairro tivessem como ponto de encontro justo uma barbearia, mas isso diz muito sobre o frouxo grau de radicalismo dos jovens de classe média da época. Os anos de ouro do Movimento Jovem já haviam acabado há muito e, sob o peso da repressão dos últimos anos do Regime Militar (por essa época, também bastante frouxa), nosso radicalismo se limitava a ouvir discos de rock, dos dinossauros do rock (The Who, Deep Purple, Led Zeppelin) e a olhar com desprezo a moçadinha que ia dançar nas tardes de sábado ao som da disco music de então (Donna Summer, Sylvester e – deus me livre ! – Bee Gees). No "Aqui jazz", preferìamos aquelas bandas que dificilmente tocavam no rádio, exceto por uma ou outra baladinha besta do tipo Stairway to heaven. E, claro, nada de jazz.

Na época, quando se falava em jazz, eu pensava em algo do tipo dixieland, que era cultivado por umas poucas bandas em São Paulo. Das atrações estrangeiras que aqui chegavam, quase todas se esmeravam no fusion ou em outros sons experimentais e, convenhamos, começar a ouvir jazz por aí é um tiro no pé. Nunca esqueço um show de Chick Corea, transmitido pela TV Cultura, quando o músico americano sentou-se diante de um magnífico piano de cauda, inclinou-se diante de sua tampa aberta e começou a batucar na madeira do piano, para delírio da platéia e minha perplexidade total. Eu ainda levaria anos para conhecer o verdadeiro jazz, que foi vanguarda nos anos de 1920 e 1930, e que acabou dando origem a bebop, west coast e outras maravilhas.

Porque o jazz é feito de nuances, e pedem um ouvido minimamente competente. Da minha precária formação musical, resultou o longo tempo que levei para educar os ouvidos, sem método nenhum, sem conhecimento técnico, apenas ouvindo milhares e milhares de músicas, de todos os tipos, sem parar, ao longo de muitos anos. Acredito que todas as pessoas que gostam de música um dia chegam no mesmo ponto e passam a ouvir música adulta, jazz, ou mesmo música clássica.

Na verdade, não só o jazz, mas o mundo é feito de nuances, e é pena que elas se percam por simples desconhecimento. Nas aulas, enfatizo as nuances e as múltiplas leituras de obras de arte, eventualmente de uma ou outra música, do clássico ao blues. Mas não são apenas quadros, todo a natureza, todas as pessoas podem ser lidas de mil formas. Recentemente, em um alegre colóquio, até me falaram sobre as múltiplas leituras que são possíveis a partir da observação de um olho e de suas sutis mudanças de cores.

[Interlúdio pop: lembram-se do filme A garota com o brinco de pérola ? (se não conhecem, assistam). No filme, o pintor Vermeer diz para a jovem Griet (Scarlett Johansson, em um de seus primeiro papéis) olhar o céu e dizer a cor das nuvens. A moça, mal olhando pela janela diz, “Oras, elas são brancas”. Porém o pintor insiste e diz, “Olhe bem, olhe com atenção. Todas elas. São brancas mesmo ?” E o olhar da jovem Griet começa a perceber milhares de nuances e reflexos e texturas que ela, maravilhada, jamais havia percebido. Pois o grande livro do mundo nos fala o tempo todo, e é inesgotável a reserva de símbolos que ele emprega, como dizia o frei Guilherme em O Nome da Rosa. Ainda no registro da cultura pop, lembro de um episódio de Sex and the City, quando Carrie namorava um músico de jazz. Ele pergunta se ela gosta desse tipo de música e ela diz, “mas como vou gostar de um tipo de música que não se pode cantar junto, não se pode dançar ?” Trata-se de outra relação com a música, válida (por que não ?), mas que nada tem a ver com a sutiliza instrumental do jazz. Me arrisco a dizer que talvez mulheres se liguem à música com mais facilidade através de outros registros, por exemplo, o corpóreo: através da Dança.]

Porque o jazz tem alma. Assim como o blues, uma mesma canção de jazz é diferente cada vez que é tocada novamente. São os mesmos acordes, a mesma letra, a mesma tudo, e ainda assim a música sai diferente. Paradoxalmente, na música pop, canções diferentes parecem ser todas a mesma coisa. É por isso que muitas vezes os CDs de jazz apresentam, por exemplo, música 1, “Bag’s Groove – take one”; música 2, “Bag’s Groove – take two”; música três, “Bag’s Groove, take three”, e assim vai.

E porque é impossível falar do jazz sem falar da história do jazz (enquanto boa parte da música pop se resume ao mero aqui agora). Me encanta a história da disseminação do jazz, de como ele foi sendo descoberto no mundo inteiro. A Primeira Guerra Mundial foi decisiva, quando soldados norte-americanos (incluindo cerca de 200 mil negros) foram para a Europa, particularmente para a França, levando suas armas e seus instrumentos musicais. Após o conflito, muitos músicos negros ficaram, outros para lá se mudaram, fugindo da segregação racial e criando uma nova vida, com muito mais dignidade. Como o clarinetista Sidney Bechet e o trompetista Arthur Briggs, aos quais se juntou a cantora e dançarina Josephine Baker, todos atuando em Paris.

Na Alemanha, o jazz foi copiado por músicos brancos, e mais tarde acabou sendo considerado uma arte degenerada pelo regime nazista recém instalado; vejam no magnífico poster acima, como o jazz era visto pelos alemães. Na União Soviética, o grande desenvolvimento da música clássica sempre foi acompanhado da dedicação de seus músicos ao jazz, nas horas vagas. A cidade de Odessa, chegou a ser conhecida durante algum tempo como a New Orleans soviética, onde despontava a banda de Leonid Utyosov.

No início da Segundo Guerra Mundial, o gênero já estava estabelecido, e pode-se até dizer que o swing de bandas como a de Benny Goodman e Glenn Miller (que morreu na guerra) foram a trilha sonora do conflito. Mas nessa época já estava nascendo o bebop e, da mesma forma que no final da Primeira Guerra, ao final da Segunda não foram poucos os americanos que ficaram pela Europa, voltando a encher de jazz os cabarés esfumaçados de Berlim e Paris da Guerra Fria. Nessa época, mudou-se para Paris o saxofonista Johnny Griffin, e Sidney Bechet começou a ser chamado de “Le dieu”/“o Deus” pelos existencialistas. Também nessa época, Josephine Baker foi condecorada pelo próprio general De Gaulle, pelos serviços prestados junto à Resistência Francesa contra os nazistas.

Finalmente, chego onde queria: há cidades que incorporaram uma vocação jazzística, e Paris é, de longe, a mais importante delas. Outrora, os bares de jazz se multiplicavam na região de Montmartre, hoje em dia já é mais difícil encontrá-los. Mas, quando viajo, ainda gosto de freqüentar um ou outro porão onde se toca o bom jazz em Paris (e a aproximação da viagem do Anglo para a França me faz pensar se devo levar os jovens para algum desses adoráveis buracos). Para sentir o gosto do ambiente de jazz na capital francesa, recomendo uma das melhores programações de jazz do rádio, em http://www.tsfjazz.com/ (clique em “écouter l’antenne”). E divirtam-se.

sábado, 17 de outubro de 2009

Do não-negativismo enquanto paradigma



Gostei da escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016, mas não pelos jogos em si, que acho uma bobagem entediante. Em geral, considero os esportes olímpicos de uma tremenda infantilidade: apostar corrida, ver quem pula mais alto, ver quem é mais forte. Tais modalidades Olímpicas são simples celebrações da força bruta, e convém lembrar que Jogos Olímpicos nasceram (Grécia Antiga) ou renasceram (Europa, 1896) em épocas marcadas pela valorização da guerra ou da figura do guerreiro habilidoso, algo que, sinceramente, já deu o que tinha que dar. Acredito que hoje em dia as Olimpíadas (e mesmo o futebol) se consolidam devido à possibilidade que esses eventos têm de transferir para arenas neutras um certo furor nacionalista (proto-fascista) que de alguma forma todos possuímos, sublimando assim o nosso eventual e sempre desconfortável desejo de sangue. (ando lendo muito Luis Felipe Pondé, raios...)

Desprezo esportes olímpicos da mesma forma que na infância não achava graça nenhuma em apostar corrida (eu sempre perdia; hoje em dia me vingo escrevendo um blog). A melhor crítica ao esporte que vi está em um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, que é também um dos cinco filmes que eu levaria para uma ilha deserta (e que, curiosamente, trata de uma ilha deserta ), chamado Man Friday (no Brasil, Sexta-feira). Há um trecho absolutamente impagável de competição esportiva, uma corrida na praia entre Robinson Crusoé e Sexta-Feira, seguido de uma premiação patética ao som do grito das gaivotas. Mais eu não conto, apenas recomendo VIVAMENTE o filme.

Esportes com bola, por sua vez, tem outro significado. Primeiro porque incorporam um aspecto lúdico, de diversão, que vai muito além das brincadeiras infantis baseadas na força. Segundo, porque esportes com bola possibilitam uma enorme gama de movimentos corpóreos, que acabam muitas vezes por aproximá-los da dança, antítese da força bruta. E, finalmente, porque implicam em algum tipo de planejamento ou de estratégia para a vitória que traz junto alguma atividade do pensamento. Nesse sentido, esportes com bola têm como pré-requisito algo de minimamente cerebral, e não deixa de ser irônico observar que jogadores de futebol semi-alfabetizados e nada intelectualizados sejam dotados de uma capacidade de processamento de informação (articulando espaço, tempo, movimento) absolutamente surpreendente.

Isso para não falar das infinitas metáforas. A multiplicidade de eventos possíveis em uma mera partida de futebol abre-se para leituras que admitem “o épico, o trágico, o lírico, o cômico e o paródico”, citando o livro de José Miguel Wisnik, Veneno remédio: o futebol e o Brasil. Trata-se de um livro indispensável, de que se falou tão pouco, mas que deveria ser leitura obrigatória para entender o país, o esporte. Vejam por exemplo, os trechos brilhantes onde Wisnik comenta a Lógica do futebol, a onisciência do juiz e a questão do tempo.

Curiosamente os esportes com bola norte-americanos ainda se prendem à celebração da força bruta. Assim, no futebol americano, trata-se do embate puro e simples de dois corpos coletivos em função da ganho de terreno (diante do futebol americano, o Rugby passa a ter uma leveza insuspeita). Ou mesmo o baseball e o basquete (o mais plástico de todos os esportes norte-americanos), que são praticados de forma a repetir infinitas vezes um repertório reduzido de movimentos, produzindo dados em larga escala e permitindo o processamento desses dados em séries estatísticas infinitas. No futebol, séries estatísticas tem algo de patético e não costumam dizer nada.

Seja como for, celebro a escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica por dois motivos que nada tem a ver com o esporte. Primeiro, porque nossas cidades estão tão degradadas, mas tão degradadas que qualquer operação urbana torna-se indispensável, nem que para isso tenha que haver uma Olimpíada. Um evento como esse ajuda a pensar a cidade, a refletir sobre o tecido urbano. Um evento como esse significa que o mundo vai pousar os olhos sobre a cidade e, o que temos a oferecer ? Falta de metrô ? Fiação elétrica em postes ? (minhas duas atuais nêmesis...) Intolerável ! Pois então pensemos na cidade e mãos à obra. “Ah, mas a roubalheira...”, isso é outro problema, que deve ser encarado com Olimpíada ou sem Olimpíada. E que o imenso volume de recursos mobilizados seja motivo para que se encare o problema como nunca.

Porém, há um outro aspecto no Rio de Janeiro enquanto cidade olímpica. Nos últimos anos, as sedes de Olimpíadas ou são cidades normais de países em condições de receber tal tipo de mega evento (Londres, Sydney, Atlanta, Barcelona), ou cidades simbólicas (Atenas e não há outra), ou cidades emergentes, de países cuja “normalidade” é reconhecida (Seul, Pequim). Não tenho dúvida sobre o grupo onde Rio de Janeiro se encaixa. Pois há no ar esse estranho otimismo em relação ao Brasil, esse estranho reconhecimento de que o país, apesar dos seus problemas, é como os outros, e respeitável a ponto de sediar um evento como a Olimpíada.

Trata-se de uma mudança de paradigma. Nos acostumamos a pensar o Brasil como um lugar onde nada dá certo e, de fato, nada deu certo nas décadas de 1980 e 1990. Foi a época da grande estagnação (e, que lindo, também foram meus verdes anos !), que se prolongou até o início do novo século e que fez com que adotássemos o pessimismo realista como forma de enxergar o Brasil. O último momento de otimismo, o milagre econômico dos anos 1970, provou ser uma mentira: um crescimento falso, fundado em uma dívida que um dia explodiu. Se lembrarmos que a década de 1960 foi de crise política e ditadura, constatamos que o clima otimista simplesmente desapareceu ou nunca existiu na memória das pessoas. A última vez que ouvimos um discurso positivo sobre o Brasil, ele foi pronunciado pelo regime Militar nos anos 1970, e descobrimos em seguida que era uma mentira.

A escolha do Rio de Janeiro pode representar uma mudança de paradigma na forma como enxergamos o Brasil. Claro, rejeitamos qualquer otimismo inocente (pois a miséria, a violência e a disseminação de práticas políticas arcaicas batem à porta). Porém, ao mesmo tempo, desconfiamos que o pessimismo pode ser paralisante. Acho que finalmente chegou a hora do não-negativismo.


domingo, 11 de outubro de 2009

Refletindo sob(re) a chuva



Mal tinha dez anos quando comecei a falar da “minha chuva preferida”: é aquela que aparece nas primeiras páginas de “O Caso Girassol”, 17º volume das aventuras de Tintim, na edição cânone de 22 álbuns. Trata-se de uma narrativa soberba, poucas vezes um autor de história em quadrinhos foi tão feliz quanto Hergé na abertura de “O Caso Girassol”. Para recordar, a história começa com Tintim e o Capitão caminhando serenamente pelo campo, quando são surpreendidos pelo trovão que anuncia uma tempestade. A chuva marca o início de uma sucessão de fatos tremendamente perturbadores, que incluem raios cada vez mais próximos, corte na energia elétrica, chegada de personagens misteriosos e ameaçadores, tiros no parque, buracos de bala, vítimas que desaparecem e, sobretudo, vidros se estilhaçando por todos os lados. Todo o universo tranquilo e muito bem conhecido do castelo de Moulinsart desmorona a partir do início da tempestade.

Garoto, eu corria para reler pela centésima vez “O Caso Girassol” cada vez que uma tempestade de verão se anunciava. Tinha um estranho prazer em começar a ler a aventura ao mesmo tempo que percebia as inúmeras mudanças provocadas pelo início iminente da chuva: o vento morno que precede as tempestades de verão, portas e janelas batendo, gritos vindos dos fundos das casas vizinhas, na medida em que as donas de casa corriam para pegar a roupa estendida no varal. Logo, gotas imensas começavam a cair, lentamente preenchendo todo o espaço do chão seco, ao mesmo tempo em que um cheiro único, indescritível, se desprendia do chão, algo como uma mistura de vegetação e de pedra, mofo, cimento.

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Que estranha atração é essa que a chuva provoca ? Além de estranha, inesperada: apenas recentemente, graças ao Twitter, descobri como as pessoas gostam da chuva, anseiam pelo início da chuva e talvez de alguma forma se descubram sob a chuva. Na minha vida, fui acrescentando várias outras chuvas ao meu repertório de preferidas: a chuva ácida que cai sobre Los Angeles no futurista Blade Runner, a chuva interminável sobre Macondo em Cem Anos de Solidão. Ou ainda em um esquecido filme francês da década de 1950, Rififi. Seu diretor, o norte-americano Jules Dassin, fugitivo do macartismo, recriou a atmosfera do film-noir em Paris, fotografando a cidade de forma única: sem nenhuma das paisagens que fizeram a fama da cidade, mas apenas mostrando uma sucessão de ruas sempre molhadas, sempre após a chuva, sempre em preto e branco. (Subitamente, lembro de Walter Benjamin falando sobre a beleza do Sena: o rio é belo porque reflete a cidade, duplicando Paris).

Porém, as descrições de chuva na Lisboa de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa) são particularmente tocantes. Copio fragmentos de uma de suas descrições da chuva, no caso, de um final de tempestade:

Depois que os últimos pingos da chuva começaram a tardar na queda dos telhados (...) ouviu-se o abrir de janelas contra o desesquecimento do sol. Então, pela rua estreita, do fundo da esquina próxima, rompeu o convite alto do primeiro cuteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja fronteira reverberaram pelo espaço claro (...)

O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante esse cair esfiado de água sombriamente luminosa que destaca das fachadas sujas e ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou (...)

Mas que pensava eu antes de me perder a ver ? Não, sei. Vontade ? Esforço ? Vida ? Com um grande avanço de luz, sente-se que o céu é já quase todo azul. Mas não há sossego – ah, nem o haverá nunca ! – no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância fechada ao pó no sótão da casa alheia. Não há sossego – e, ai de mim !, nem sequer há desejo de o ter...

Foram esses trechos que me ajudaram a refletir sobre a chuva. O início e o fim da chuva são dois momentos em que o mundo – ou , mais precisamente, a cidade – se transforma diante de nossos olhos. Trata-se, portanto, de dois momentos privilegiados para contemplar o mundo a nossa volta e entendê-lo, talvez até a achar nosso lugar dentro dele. O início ou o fim da chuva representam um limiar, em que nossa faculdade de observação e compreensão das coisas é despertada: é quando desaparece o nosso olhar "de sempre", desprovido de sentido, com o qual contemplamos uma realidade cotidiana que se repete infinitas vezes e no qual estamos imersos. Em outras palavras, desaparece um olhar que é pura objetividade, e que nos mostra uma sucessão de atividades banais, de coisas entediantes e repetitivas que fazem grande parte de nosso dia a dia. Quando ultrapassamos o limiar, graças as mudanças provocadas pela chuva, emerge nossa subjetividade, que acaba por dar contexto e significado às coisas, que nos faz descobrir um sentido que está oculto na banalidade que, descobrimos, é só aparente. Assim, a paisagem vista pela janela mil vezes da mesma forma passa a apresentar uma multidão de figuras novas: o grito do cuteleiro, o martelar de pregos (ou mesmo a corrida da dona de casa rumo ao varal de roupa) todos eles vão ganhando forma e ocupando o universo das sensações a nossa volta, mais ou menos como um artista começa a despejar cor sobre uma tela. A cidade vai tomando forma como um organismo vivo diante de nossos olhos, e as infinitas particularidades que acabam por formar o todo, perdem o seu caráter de forma única a passam a ser uma construção cultural, um sentido.

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Volto para o Tintim. Na página 2 de “O Caso Girassol”, a chuva despenca com intensidade, e fatos perturbadores logo irão começar. O primeiro deles encontra-se no último quadrinho da página, um dos meus quadrinhos preferidos em toda obra de Hergé, e cujo significado total eu demorei a perceber. Na imagem, Tintim, o Capitão e o “bravo” Nestor correm da chuva, sem saber que estão sendo observados por um espião da Sildávia. Mas, no mesmo quadrinho, um espião da Bordúria observa o espião sildavo que observa nossos heróis. E, nessa estranha operação do olhar, nesse verdadeiro ziguezague de olhares que se superpõem sem nunca se cruzarem, há ainda um outro: o do leitor, que é o único que tem conhecimento do que acontece, o único que vê tudo.

Ter a experiência da chuva nos dá a ilusão de poder tudo saber, de quem sabe poder construir o mundo onde estamos, a partir de seu aparente desmembramento. E isso é o que mais desejam todos aqueles amantes da chuva, que não superaram a sensação de estranheza e desassossego que é estar no mundo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Tristeza




É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Não lembro quando foi a primeira vez que ouvi o Samba da Benção (por Vinicius de Moraes e Baden Powell), mas sei exatamente quando parei para prestar atenção na letra e em seguida chorei feito adulto. As circunstâncias não interessam, mas sim o fato de que se trata de um dos textos mais belos que jamais li. O contraste com Tom Jobim (“Tristeza não tem fim/ Felicidade sim”) é assustador: enquanto Vinicius – o branco mais preto do Brasil – ultrapassa com sua poesia o próprio conceito de tristeza, Jobim fica desfilando uma sucessão de lugares comuns (“A Felicidade é como uma gota de orvalho numa pétala de flor...”), nos fazendo suspeitar que, na verdade, ele não tem a mínima idéia do que está falando. Pois Vinicius já enterra a alegria logo de início, dizendo que é a melhor coisa que existe, para em seguida não mais voltar a falar no assunto. Porque o seu tema é a tristeza, e se não fosse tristeza não haveria o samba, a canção, a poesia. Sem tristeza não haveria arte e é a arte que nos ensina a lidar com essa estranha dimensão do humano que é a tristeza. Lembro de Cruz e Sousa, poeta negro (é curioso como a cor da pele aparece tanto quando se fala do assunto), chamado por Leminski de “Blues e Sousa”, e que como poucos sentiu a violência discriminatória, a dor de ser negro no Brasil. E escreveu: “Mas essa mesma algema de amargura/ Mas essa mesma desventura extrema/ Faz que tu’alma suplicando gema/ E rebente em estrelas de ternura”.

Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Lembro da crítica rasteira, burra, dizendo que Vinicius era um porco machista, que só via na mulher um objeto, “feita apenas para amar” e, pior, “Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”. A crítica é uma ciência grave, e que dela se afastem os que não entenderam nada. Na verdade, não existe nada menos machista do que “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”, e segue-se a isso uma investigação sobre essa “qualquer coisa” tão misteriosa que as mulheres têm e que os homens desconhecem. Sofrer por amor ? Perdoar ? Que mistérios são esses, que comportamento estranho é esse que as mulheres têm ? E que as faz praticar essas coisas tão estranhas como amar, sofrer, perdoar... No Samba da Benção, Vinicius sugere que a mulher é capaz de uma transcendência, de algo que a coloca em contato com aquelas coisas das quais nós, pobres homens, só conseguimos nos aproximar através da arte. E essa transcendência, na verdade, é uma operação interna: mulheres não “entram em contato”, elas tem essa sensibilidade como parte integrante de seu ser. Talvez seja esse o sentido do “qualquer coisa de triste” que a mulher tem: a tristeza enquanto metáfora de um universo emocional que os homens apenas tateiam e tentam dar forma com suas criações externas, artísticas. Como o samba.

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Hoje em dia pratica-se o culto à alegria. Ao menor sinal de tristeza, surge a suspeita de que isso seja o sintoma de algo pior, e a própria suspeita já mergulha o indivíduo no vórtex que leva à depressão: consulta, tratamento, ingestão de substâncias químicas e, no horizonte, o medo que resulta em pânico. Mas medo de quê, exatamente ? De não ser feliz como devemos ser felizes ? (aliás, a expressão por si só já é assustadora: "dever ser feliz"). Oras, a contemporaneidade elegeu a tristeza como inimigo, mas quem disse que nosso tempo é mais feliz que os outros ? Francisco Bosco, meu filósofo pop preferido, cita a leitura que Delleuze fez de Espinosa. A alegria ocorre quando se dá a realização de uma potência. Um escritor conquista a potência através do domínio da linguagem, um pintor através do domínio das cores e formas, e assim por diante. Portanto, não existe produção artística triste: todo blues melancólico que possui como tema o sofrimento, deixa de ser triste por ser a realização de uma potência. No fundo, a tristeza aponta para alguma coisa misteriosa, para algum lugar certamente dentro de nós mesmos. E no Samba da Benção, Vinicius termina por desvendar todo o mistério da tristeza: o bom samba “é uma forma de oração”, trazendo implícito que a fé e mesmo a esperança estão por trás de toda a tristeza. Pois um dia ela vai deixar de ser triste e, enquanto isso não ocorre, ouvimos um samba.


Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração




terça-feira, 15 de setembro de 2009

Primeiro aniversário




E eis que o blog completa um ano. Comemoro comendo bolo e lembrando três campeões de audiência:

Ouro Preto – 4 de junho, 2009 – 26 comentários

O texto deve ter mexido com as lembranças de quem foi na viagem (de fato, ninguém permanece indiferente a Ouro Preto). Além disso, falar sobre essa viagem mexe com a minha memória, com camadas espessas de memória que eu vou depositando naquela cidade a cada ano. Talvez daí o recorde de comentários: desde há muito percebi que quanto mais o texto desvenda algo essencialmente “meu”, mais ele tem leitores ou provoca comentários (de fato, os muitos textos que escrevo pensando a cidade tem uma média de leitura muito inferior; minhas ambiciosas resenhas cinematográficas então, quase passam desapercebidas). Desde o nascimento do blog, tento fugir do confessional, mas lentamente descubro que o texto ideal é aquele que parte do comentário sobre o fato corriqueiro para em seguida tentar desvendar algo do mundo.

Lazare Ponticelli – 16 de setembro, 2008 – 23 comentários

O obituário de Ponticelli, último soldado francês sobrevivente da Primeira Guerra Mundial. O texto saiu em The Economist, simplesmente traduzi e divulguei, após leitura em aula. Muito mais que um mero obituário, o texto fala de memória e talvez tenha sido a razão de sua aceitação. Mas confesso que me surpreendi com o sucesso do texto, e me impressiona mais ainda os 15 comentários em três dias, recorde total.

Che cossé l’amor – 31 de agosto, 2009 – 22 comentários

Escrito meio apressadamente, para dar conta de um tema que estava sempre à espreita e que era pedido por alguns. De propósito, deixei de lado a única visão do que talvez possa ser chamado de amor de fato: o amor unilateral, que não espera retorno, o amor incondicional, o amor de mãe por exemplo. A ironia foi deixar uma pista na trilha sonora: a divertida música de Pio Leyva – cubano das antigas – “Amor verdadero”, que conta a história de um desgraçado que foi abandonado por tudo e por todos, exceto pela mãe. Mas os leitores se apressaram em me apontar essa visão de amor, seja pessoalmente, seja em comentários. Por exemplo, na bela citação de Vieira (que eu não conhecia), mandada pela Mari:

Ora, vede, definindo S. Bernardo o Amor fino, diz assim: 'Amor non querit causam, nec fructum'; o Amor fino não busca causa nem fruto. Se amo porque me amam, tem o amor causa; Se amo para que me amem, tem fruto: o Amor fino não há de ter por quê nem para quê. Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; Se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? 'Amo, qui amo, como ut amem': Amo porque amo e amo para amar. Quem ama porque o amam é agradecido; Quem ama para que o amem é interesseiro; Quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino.
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Também deixei de lado uma referência básica, O banquete, e a única pessoa que de alguma forma intuiu a opinião de Platão sobre amor foi certa comentarista anônima ("Ana") que, apesar de uma parca educação (e de uma contradição de termos) sugeriu que o discurso sobre amor jamais poderia ter um sujeito enunciante.

Seja como for, agradeço aos que acompanham o blog e espero que todos tenham tido, enquanto liam, ao menos metade da diversão que eu tive enquanto escrevia. Abraços e feliz aniversário !