
Nada como viajar. Onde mais poderia recolher essas cenas ?
Cena 1: Estação do metrô Montparnasse, 18h, muito movimento. Na catraca, meu bilhete não é aceito, sabe-se lá porque. Ao dar meia volta para tentar passar novamente, causo um transtorno infinito na multidão em movimento. À minha frente, uma jovem senhora diz: “Passe comigo, rápido”. Hesitei por uma fração de segundo. Seu impulso de bondade significaria que eu seria obrigado a passar pela catraca dando-lhe nada menos que uma bela e inevitável encoxada. “Allez-y!”, disse ela, e eu fui, meio envergonhado, balbuciando um “Merci beaucoup”.
Cena 2: A agência de turismo, por um motivo qualquer, não fez a reserva para a visita ao Museu d’Orsay. Tendo chegado antes do grupo, me apressei em fazê-la. Infelizmente, o número de telefone do serviço de reservas não respondia, passei uma manhã inteira no Hotel ligando sem sucesso. Saindo à tarde, acho o número do telefone do Museu no bolso do sobretudo e resolvo ligar de uma cabine telefônica, assim, no meio do nada. Claro, dessa vez fui atendido. Infelizmente, não lembrava de meu endereço em Paris (somente o nome do Hotel), não tinha nem acesso a email com impressora e nem fax para receber o documento de reserva e, sem lápis ou caneta, não consegui sequer memorizar o número da minha reserva. Meio pessimista, desliguei o telefone. Pois a funcionária pesquisou os hotéis de Paris, ligou para meu hotel, confirmou que eu estava lá hospedado, enviou o fax e disse que eu não precisaria me preocupar com o número da reserva. No dia da visita, sequer foi cobrada a entrada no Museu, pois todos acreditaram na minha palavra de que era professor e aqueles eram meus alunos.
Cena 3: A doce Idália, nossa guia em Lisboa, conversando com o grupo do ano passado. Os alunos ficaram perplexos ao saberem que ela não cursou uma Universidade, mesmo sendo uma pessoa tremendamente culta, bem falante e com amplo domínio da história dos locais visitados e da cultura portuguesa em geral. Para uma certa classe média brasileira não ter ensino superior é quase sinônimo de ignorância.
Cena 1: Estação do metrô Montparnasse, 18h, muito movimento. Na catraca, meu bilhete não é aceito, sabe-se lá porque. Ao dar meia volta para tentar passar novamente, causo um transtorno infinito na multidão em movimento. À minha frente, uma jovem senhora diz: “Passe comigo, rápido”. Hesitei por uma fração de segundo. Seu impulso de bondade significaria que eu seria obrigado a passar pela catraca dando-lhe nada menos que uma bela e inevitável encoxada. “Allez-y!”, disse ela, e eu fui, meio envergonhado, balbuciando um “Merci beaucoup”.
Cena 2: A agência de turismo, por um motivo qualquer, não fez a reserva para a visita ao Museu d’Orsay. Tendo chegado antes do grupo, me apressei em fazê-la. Infelizmente, o número de telefone do serviço de reservas não respondia, passei uma manhã inteira no Hotel ligando sem sucesso. Saindo à tarde, acho o número do telefone do Museu no bolso do sobretudo e resolvo ligar de uma cabine telefônica, assim, no meio do nada. Claro, dessa vez fui atendido. Infelizmente, não lembrava de meu endereço em Paris (somente o nome do Hotel), não tinha nem acesso a email com impressora e nem fax para receber o documento de reserva e, sem lápis ou caneta, não consegui sequer memorizar o número da minha reserva. Meio pessimista, desliguei o telefone. Pois a funcionária pesquisou os hotéis de Paris, ligou para meu hotel, confirmou que eu estava lá hospedado, enviou o fax e disse que eu não precisaria me preocupar com o número da reserva. No dia da visita, sequer foi cobrada a entrada no Museu, pois todos acreditaram na minha palavra de que era professor e aqueles eram meus alunos.
Cena 3: A doce Idália, nossa guia em Lisboa, conversando com o grupo do ano passado. Os alunos ficaram perplexos ao saberem que ela não cursou uma Universidade, mesmo sendo uma pessoa tremendamente culta, bem falante e com amplo domínio da história dos locais visitados e da cultura portuguesa em geral. Para uma certa classe média brasileira não ter ensino superior é quase sinônimo de ignorância.
* * *
Mas o que significa tudo isso ? Acredito que tais cenas exponham nossas fraturas. Na cena do metrô, a jovem senhora foi gentil e minha primeira reação foi maliciosa. Seu ato, impulsivo e irrefletido (dada a própria rapidez da situação) expressa um universo de valores: se um cidadão tem dificuldades, devo ajudá-lo. (Imagine a mesma cena no Brasil ? A jovem senhora jamais iria oferecer uma gentileza dessas, sob o risco de ter que aguentar no mínimo uma conversa fiada do tipo "Oi, você vem sempre nessa catraca?") Trata-se, sobretudo, de valores republicanos, fundados na igualdade e respeito mútuo dos cidadãos. Se não houver essa confraternização mínima na sociedade civil, como exigir algo do Estado ? Se trato os demais cidadãos como objetos a serem usados em meu benefício, como exigir que o Estado não faça o mesmo ? (Sem inocência: não sei se a jovem senhora, modelo de cidadania, agiria da mesma forma se eu não fosse branco e aculturado).
Daí a segunda cena, da moça do Museu que agiu como se deve: se um grupo de estudantes (ainda mais estrangeiro) quer visitar o Museu, a principal obrigação do funcionário é prestar toda ajuda possível. Que diferença de nossa prática tropical e anti-republicana ! Entre nós, o que importa é criar hierarquias, definir limites e afirmar uma posição de superioridade a partir desses limites. (Reflexo, talvez, da sociedade escravocrata, essa pesada herança que ainda carregamos e que fazia com que fosse fundamental definir uma demarcação dizendo: não sou escravo ou não sou mais escravo ou, melhor ainda, nunca fui escravo). Quantas vezes não observamos o funcionário que vê na sua função uma forma de exercer o seu poder, de estabelecer uma linha demarcatória ? No Brasil, o padrão do funcionário público (ou do funcionário, em geral, sobretudo quando uniformizado; a esse respeito, lembre-se do post “Pequenos Poderes”, http://bit.ly/cW2yfM ) é criar o máximo de dificuldades, podendo assim multiplicar ao infinito as situações em que ele exerce sua autoridade, vista como algo a ser usufruído. Se me humilham na vida cotidiana, eu me vingo sempre que estou por trás do balcão ou cada vez que visto meu uniforme.
Aqui chego onde queria. O trote, alegremente praticado nesses dias abafados de baixo verão. Sempre tenho vontade de perguntar aos calouros, quando se submetem sorridentes às humilhações mais atrozes: “Tá rindo de quê” ? A frase do ano foi recolhida pela Folha de São Paulo, em entrevista com calouro da USP. Em meio a sorrisos, o rapaz disse: “É meio humilhante, mas a gente agüenta porque, em compensação, poderemos fazer o mesmo nos calouros no ano que vem”. Sen-sa-cio-nal. Submeter-se à humilhação está justificado, pois dá o direito de humilhar outras pessoas.
Que estranho raciocínio é esse ? O sentido do trote leva à sua perpetuação, uma de suas justificativas essenciais é fazê-lo continuar existindo. A participação no ritual do trote, por parte dos calouros, significa: Estou dentro, existe uma linha estabelecida que foi ultrapassada. Agora, assim como o funcionário que inferniza a vida das pessoas, vou exercer o trote para deixar bem claro, Eu sou do grupo, eu posso aquilo que os outros não podem. Em última análise: eu agüento o trote porque isso me faz superior às outras pessoas. O fedor do fascismo torna-se subitamente muito forte. Como no fascismo, é punido quem não participa da verdade estabelecida (e dos rituais que visam celebrá-la, como o trote). Fugir do trote significa ser vítima de não-socialização, aquele que recusa o trote torna-se um pária na faculdade.
Finalmente, a última cena, que confirma a forma como fetichizamos a Universidade, como a consideramos um desses limites que ajudam a definir hierarquias sociais. “Como assim a Idália não fez faculdade ? Mas ela é uma das nossas ! Ela é tão legal, tão esperta...!” No mesmo registro, da fetichização da Universidade, acrescento uma constatação surpreendente, também recolhida em viagem: em Paris, turistas brasileiros, e somente brasileiros, tiram foto diante da Sorbonne, lá na entrada da rue des Écoles. Uma cena que surpreende alguns passantes, e que testemunho já há anos.
Cumprindo alegremente a função de incomodar a vida das pessoas (tarefa imprescindível para quem escreve), concluo: lembre-se disso em 2011, calouro feliz, ao perpetrar o trote você não se distanciará muito de um porco fascista.
Mas o que significa tudo isso ? Acredito que tais cenas exponham nossas fraturas. Na cena do metrô, a jovem senhora foi gentil e minha primeira reação foi maliciosa. Seu ato, impulsivo e irrefletido (dada a própria rapidez da situação) expressa um universo de valores: se um cidadão tem dificuldades, devo ajudá-lo. (Imagine a mesma cena no Brasil ? A jovem senhora jamais iria oferecer uma gentileza dessas, sob o risco de ter que aguentar no mínimo uma conversa fiada do tipo "Oi, você vem sempre nessa catraca?") Trata-se, sobretudo, de valores republicanos, fundados na igualdade e respeito mútuo dos cidadãos. Se não houver essa confraternização mínima na sociedade civil, como exigir algo do Estado ? Se trato os demais cidadãos como objetos a serem usados em meu benefício, como exigir que o Estado não faça o mesmo ? (Sem inocência: não sei se a jovem senhora, modelo de cidadania, agiria da mesma forma se eu não fosse branco e aculturado).
Daí a segunda cena, da moça do Museu que agiu como se deve: se um grupo de estudantes (ainda mais estrangeiro) quer visitar o Museu, a principal obrigação do funcionário é prestar toda ajuda possível. Que diferença de nossa prática tropical e anti-republicana ! Entre nós, o que importa é criar hierarquias, definir limites e afirmar uma posição de superioridade a partir desses limites. (Reflexo, talvez, da sociedade escravocrata, essa pesada herança que ainda carregamos e que fazia com que fosse fundamental definir uma demarcação dizendo: não sou escravo ou não sou mais escravo ou, melhor ainda, nunca fui escravo). Quantas vezes não observamos o funcionário que vê na sua função uma forma de exercer o seu poder, de estabelecer uma linha demarcatória ? No Brasil, o padrão do funcionário público (ou do funcionário, em geral, sobretudo quando uniformizado; a esse respeito, lembre-se do post “Pequenos Poderes”, http://bit.ly/cW2yfM ) é criar o máximo de dificuldades, podendo assim multiplicar ao infinito as situações em que ele exerce sua autoridade, vista como algo a ser usufruído. Se me humilham na vida cotidiana, eu me vingo sempre que estou por trás do balcão ou cada vez que visto meu uniforme.
Aqui chego onde queria. O trote, alegremente praticado nesses dias abafados de baixo verão. Sempre tenho vontade de perguntar aos calouros, quando se submetem sorridentes às humilhações mais atrozes: “Tá rindo de quê” ? A frase do ano foi recolhida pela Folha de São Paulo, em entrevista com calouro da USP. Em meio a sorrisos, o rapaz disse: “É meio humilhante, mas a gente agüenta porque, em compensação, poderemos fazer o mesmo nos calouros no ano que vem”. Sen-sa-cio-nal. Submeter-se à humilhação está justificado, pois dá o direito de humilhar outras pessoas.
Que estranho raciocínio é esse ? O sentido do trote leva à sua perpetuação, uma de suas justificativas essenciais é fazê-lo continuar existindo. A participação no ritual do trote, por parte dos calouros, significa: Estou dentro, existe uma linha estabelecida que foi ultrapassada. Agora, assim como o funcionário que inferniza a vida das pessoas, vou exercer o trote para deixar bem claro, Eu sou do grupo, eu posso aquilo que os outros não podem. Em última análise: eu agüento o trote porque isso me faz superior às outras pessoas. O fedor do fascismo torna-se subitamente muito forte. Como no fascismo, é punido quem não participa da verdade estabelecida (e dos rituais que visam celebrá-la, como o trote). Fugir do trote significa ser vítima de não-socialização, aquele que recusa o trote torna-se um pária na faculdade.
Finalmente, a última cena, que confirma a forma como fetichizamos a Universidade, como a consideramos um desses limites que ajudam a definir hierarquias sociais. “Como assim a Idália não fez faculdade ? Mas ela é uma das nossas ! Ela é tão legal, tão esperta...!” No mesmo registro, da fetichização da Universidade, acrescento uma constatação surpreendente, também recolhida em viagem: em Paris, turistas brasileiros, e somente brasileiros, tiram foto diante da Sorbonne, lá na entrada da rue des Écoles. Uma cena que surpreende alguns passantes, e que testemunho já há anos.
Cumprindo alegremente a função de incomodar a vida das pessoas (tarefa imprescindível para quem escreve), concluo: lembre-se disso em 2011, calouro feliz, ao perpetrar o trote você não se distanciará muito de um porco fascista.





