terça-feira, 20 de julho de 2010

#piadasnerds

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(ou: falta de assunto também dá post)
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Na Filosofia, brincava de escolher títulos bizarros para minha dissertação de mestrado. Criei um jogo que consistia em redigir títulos praticamente incompreensíveis (e algo bizarros), mas que ainda assim significassem alguma coisa. Agora, planejando o doutorado, trago de volta os melhores títulos. Escolha o seu.

1) A realidade enquanto auxiliar apriorístico de uma ética não-naturalista.

2) A hipóstase e o isolamento do puro livre-arbítrio enquanto pedra de toque do bolo ético-cultural dos epígonos kantianos.

3) A inversão de pólos do sujeito para o dessujeito: realce de uma agonística que faz da subjetivação uma imanência em exercício.

4) O pessimismo de matizes éticos em relação ao presente: inflexão geral de Hegel a Fichte ou simples kierkegaardização da dialética histórica hegeliana ?

5) O problema central da forma romanesca: acerto de contas artístico com as formas fechadas e totais que nascem de uma totalidade do ser integrada em si (com cada mundo das formas em si imanentemente perfeito).

6) A consciência da unidade total interna alcançada através do pensamento e da apreensão: a não manifestação da alma na natureza em que a unidade subjetiva não aparece como unidade em si .

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Viagem infinita




Costumo chamar de “trama da existência” toda aquela teia que construímos no cotidiano e da qual fazem parte desde o nosso de universo de relações pessoais até o espaço por onde circulamos habitualmente. Enredar-se na teia da existência significa estar cercado de um universo de referências seguras, dentro do qual podemos efetivamente habitar.

Chamo atenção para a semelhança entre o verbo habitar e as palavras habitual, hábitos. É na nossa trama da existência que praticamos os hábitos que resultam na criação de nossa habitação, o local onde nos sentimos seguros. O filósofo Martin Heidegger vai além, lembrando da semelhança que existe no alemão entre o tempo verbal bin (de ich bin, eu sou) e o verbo bauen (construir). Parte daí para apontar que a maneira como somos é a maneira como construímos o espaço em que habitamos. As múltiplas referências à etimologia das palavras alemãs e gregas – tão comum em Heidegger, e de que lanço mão tão frequentemente no blog – devem ser vistas como uma forma de aproximação da linguagem primitiva (ou Ursprache) indo-européia, ou seja, do sentido original das coisas no momento mesmo em que essas coisas começaram a ser nomeadas. Da sua essência, diria o eremita da Floresta Negra.

Dessa forma, através da trama da existência construímos o nosso ser. Mas isso não basta. Quantas vezes não desejamos simplesmente sumir, desaparecer desse entorno ? Se por um lado a teia que nos envolve é garantia de segurança, por outro deixa muito pouco a ser descoberto, por mais que deixemos certos espaços a serem explorados como se fossem novos. “Hoje vou sair com uma pessoa diferente” ou “Amanhã vou para a churrasco em um bairro novo” ainda fazem parte dessa teia, constituindo uma brecha antecipada, com a finalidade de evitar o tédio puro e simples. (Mas quantas pessoas não se negam mesmo essas pequenas aberturas, permanecendo seguramente instaladas em seu tédio cotidiano ?).

Daí a necessidade da viagem, palavra da qual tiram-se dois significados possíveis. Em primeiro lugar existe a viagem física, o deslocamento para além dos espaços habituais. Além disso, existe a viagem enquanto operação do pensamento, que é experiência bastante comum: quantas vezes não percebemos que uma pessoa “está viajando”, ou seja, completamente descolada da realidade que a cerca ?

Chego ao meu ponto de reflexão. Só vejo a viagem física como ruptura da teia da existência quando ela é feita dentro de uma certa radicalidade, que inclui transformá-la também em experiência do pensamento. “Descer para o litoral no fim de semana” ou “Ir para Campos com os amigos” podem ser aventuras válidas, mas dificilmente constituem uma experiência que leve para além do conhecido ou que rompa com a teia da existência.

Como transformar a vigem física na experiência transcendente do pensamento ? Talvez partindo da própria especificidade de atravessar um espaço de dimensões tão grandes que implicam em uma redefinição da relação com o tempo. Durante a longa viagem, dentro do espaço sem graça do avião ou do ônibus, abre-se a possibilidade para um momento de introspecção. Além disso, na chegada, o contato com hábitos culturais diferentes (língua, alimentação, clima) exige uma redefinição do habitual em cada um, com Heidegger nos lembrando da importância de habitar na constituição do ser. Perdemos o nosso chão, devemos nos redescobrir, e daí vem o medo, como bem apontou Camus:

O que dá valor à viagem é o medo. É o fato de que, num certo momento quando estamos tão longe de nosso país, somos tomados por um vago receio e pelo desejo instintivo de voltar à proteção de velhos hábitos. Nesse momento, atravessamos uma cascata de luz e ali está a eternidade. Viajar é uma ciência grande e grave que nos traz de volta a nós mesmos.

Finalmente, a viagem se transforma em experiência transcendente quando, antes da partida, antecipamos mentalmente sua realização e, após a chegada, reconstruímos cada etapa com ajuda da memória. Nesses momentos, viajar em grupo ganha significado: cada um antecipa e, sobretudo, reconstrói a viagem através de seu próprio olhar. A troca das experiêncais, o contato com a multiplicidade dos olhares e narrativas de quem esteve junto viajando, permite que cada viagem seja repetida mil vezes, com a transformação das experiências vividas em algo novo cada vez que elas se repetem em nossa mente ou em alegres colóquios com os companheiros de viagem.

Aos que partem de férias, boas viagens.

domingo, 20 de junho de 2010

Drops



Inteligere

Sempre me incomodou o uso da palavra inteligência. O que queremos dizer quando falamos que alguém é inteligente ? Da etimologia, sabemos que a palavra vem do latim inter (entre) e legere (ler). Porém, o sentido original de legere é do grego, legein, palavra de múltiplos sentidos, desde descrever/falar ate selecionar/escolher. O termo aparece, por exemplo, em Homero e vejam como grego é divertido: para combater os troianos era necessário λέγω άνδρας άρίστους /lego andras aristous, "escolher os homens mais valentes". E é claro que legein no sentido de dizer nos remete diretamente a logos, a palavra falada racional.

Essas considerações nada tem a ver com o uso comum da palavra inteligente. Seu uso reflete a forma como fetichizamos a inteligência: identificamos a pessoa inteligente como aquela capaz de realizar raciocínios lógicos-dedutivos. Assim, o inteligente é aquele que tem uma alta performance, por exemplo, resolvendo problemas matemáticos. Existe até um “quociente de inteligência” (deus me livre!), obtido através de um teste; muito embora seja evidente que a simples idéia de que inteligência possa ser medida e expressa em números já reflete uma visão de mundo tremendamente instrumental.

Pois há componentes na inteligência que vão muito além do raciocínio lógico. Claro, não se deve confundir inteligência com erudição, esta outra forma de fetichização da inteligência, dessa vez no âmbito das assim chamadas Ciências Humanas. Pois a verdadeira inteligência, a capacidade de inter-legere, implica em uma forte dose de criatividade, e esta, lamento constatar, não pode ser medida mas somente praticada. E aqui surgem os pré-requisitos para o seu despertar: a reflexão (enquanto atividade solitária, parente do repouso; se possível, próxima do devaneio, aquele estado intermediário entre pensamento e sonho) e mesmo o diálogo (o alegre colóquio de Platão, inspiração constante do blog e expressão de suas ambições intelectuais).

Sobre a criatividade enquanto parte da inteligência, escreveu Andrew Wiler: “Para alcançar essa (...) idéia nova, é necessário um longo período de atenção ao problema sem qualquer distração. É preciso pensar só no problema e nada mais – só se concentrar nele. Depois você para. Então parece ocorrer uma espécie de relaxamento durante o qual o subconsciente aparentemente assume o controle. E é aí que surgem as idéias novas”. O autor é um matemático inglês, que simplesmente demonstrou o teorema de Fermat, e sua referência ao relaxamento e à entrega ao subconsciente são significativas.

Copa do Mundo

O goleiro da Alemanha chama-se Neuer (pronuncia-se Nóia, imagino-o fumando crack nas ruas do Centro); o atacante grego Salpingidis é tremendamente parecido com Platão (dos relatos que temos: baixo, atarracado, costas largas, nariz grego clássico). O som das vuvuzelas me faz pensar no zumbido interminável de insetos no meio de uma floresta africana úmida (nada menos parecido com a gélida África do Sul de junho).

Vou até a padaria e vejo um grupo se aglomerando junto a uma TV, para acompanhar o vibrante match entre Eslováquia e Paraguai. Enquanto isso, planejo onde assistir o próximo jogo do Brasil, se em casa, no bar ou no trabalho, e quem vou encontrar, quais as comidinhas, o que vou beber. Acredito que um imenso vazio irá tomar conta de nossas vidas quando a Copa do Mundo acabar. Mistah Kurtz, he dead.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ouro Preto



O primeiro frio do ano aguça a memória. O inverno traz Ouro Preto, cidade para qual nunca se deve deixar de voltar. Em cada viagem algo novo sempre é descoberto e, a partir da regularidade da viagem (todo ano, em julho, de ônibus, levando um grupo) uma questão surge e fica no ar: se a cidade é sempre a mesma e os lugares visitados são os mesmos, o que muda ? Só pode ser o viajante, que vai se descobrindo como uma pessoa diferente a cada retorno; sabemos que é isso que dá valor a uma viagem. Ouro Preto sempre foi e sempre será uma cidade infinita.

Gostaria de poder falar sobre Ouro Preto da mesma forma que o Paulão, antigo professor de História do Brasil do Anglo. Se não com as mesmas palavras com que ele me apresentou a cidade pela primeira vez, pelo menos com a mesma paixão com a qual ele descrevia Ouro Preto em sala de aula, falando da Inconfidência Mineira, e que fez com que um aluno, em um momento qualquer da década de 1980 desabafasse: “Pô, Paulão, por que você não leva a gente pra Ouro Preto ?”. Assim nasceu a primeira viagem do Anglo para as cidades históricas de Minas Gerais.

Entrei na aventura bem mais tarde, como convidado, e jamais esquecerei cada detalhe da primeira vez que estive em Ouro Preto, em 1999. A paisagem surpreendente, o ar da montanha, a visão noturna do Colégio onde sempre nos hospedamos, a arquitetura da cidade explicada minuciosamente pelo Paulão. Nomes escritos com giz no chão do Colégio. Becos estreitos cobertos de névoa, ganhando ares de mistério. O frio da cidade contrastando com o calor das paixões.

Porém, o aspecto mais encantador da viagem sempre foi a possibilidade do convívio entre as pessoas sem as restrições habituais do cursinho, como os horários rígidos balizados pelo toque do sinal ou mesmo o número excessivo de pessoas. Em Minas, os encontros se multiplicam e – sob o impacto das descobertas do dia ou mesmo da cachaça de Minas – acabam por transformar cada conversa em um Alegre Colóquio. Paulão era mestre no colóquio de botequim, falando de história, de música, da MPB que ele tanto gostava, das lembranças de viagens anteriores com outras turmas, de sua vida dura de estudante durante o regime militar. Paulão falava sobre o que era ser negro no Brasil. E tudo isso no meio de noites intermináveis, sob o espetacular firmamento de Ouro Preto, pelo menos antes que a névoa começasse a cair na alta madrugada.

Herdei a viagem em 2003 (estranha herança sem testamento), e imprimi o meu caráter ao roteiro: menos história do Brasil, mais história da Arte; menos pinga com mel, mais Filosofia. Foi quando fiz as minhas próprias descobertas, imediatamente compartilhadas com os alunos, como a obra do mestre Athaíde e seus anjinhos ou a igreja do Rosário e sua surpreendente fachada curva. Todavia, a parte que mais me honra nessa herança é a possibilidade de ser o novo anfitrião de Alegres Colóquios cada vez mais vibrantes.

As turmas de 2007 e 2008 foram talvez as melhores em todos os tempos, e passaram a fazer parte dessa longa corrente que dura já mais de vinte anos. E é isso que me empolga em manter a tradição da viagem: compartilhar descobertas, ir além da nossa experiência de cursinho limitada por quatro paredes, sentir o impacto da memória das minas, ter renovado o mesmo espanto que tive da primeira vez, ao contemplar o barroco mineiro (que me ensinou um novo olhar). Me empolgo ao proporcionar a todos a possibilidade de fazer parte dessa corrente.

Leio comentários no blog de pessoas que estiveram na viagem cinco, seis anos atrás e hoje acompanham minhas divagações: agora não são mais alunos, mas continuam sendo companheiros de descobertas. Fico sensibilizado e não consigo deixar de imprimir a esse post um caráter emotivo, assumindo o lado confessional que sempre tento evitar desde que inaugurei o blog.

Faço a todos que me lêem um convite para participar de Alegres Colóquios nas cidades históricas de Minas Gerais. Quem não for mais do Anglo que se sinta convidado do mesmo jeito, sempre fico feliz em receber ex-alunos no grupo.

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Na foto, a turma de 2007 descobre, perplexa, as imagens que se escondem nas sombras da escultura de Aleijadinho. As caras são ótimas: alguns enxergam, ficam encantados; outros ainda não e forçam a vista apertando os olhos. À direita, um menino esfrega as pálpebras, exausto. Nessa hora, minha explicação não basta: as pessoas tentam se ajudar umas às outras, tentam ensinar como olhar diferente.
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(postado originalmente em junho de 2009)

domingo, 30 de maio de 2010

Whatever works



Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer.

O trecho acima me veio logo à mente ao ouvir o monólogo que inicia o novo filme de Woody Allen, Whatever works, e expressa de alguma forma a visão de mundo de seu personagem principal Boris Yelnikoff (interpretado por Larry David, aliás, um dos criadores de Seinfeld). Essa visão nietzscheana esta presente, por exemplo, não só na sua desconfiança em relação ao “sentido” das coisas, mas à denúncia engajada de quem busca esse sentido. A visão mordaz da religião (facilitada pela estupidez explícita dos personagens religiosos do filme) e o elogio do acaso fazem parte do discurso nietzscheano de Yelnikoff.

Além de uma certa propensão ao isolamento (e a constatação de que possuem mentes brilhantes não reconhecidas pelos seus contemporâneos, meros inchworms), tanto o mal-humorado novaiorquino quanto o bigodudo alemão têm em comum a afirmação da pequenez do ser humano: somos nada, e nosso conhecimento e apenas uma frágil teia que construímos basicamente por que temos medo. Grãos de poeira jogados em um universo hostil, criamos fantasias que vão da moral à metafísica, da ciência à verdade, basicamente para nos sentirmos seguros. A metáfora da “teia” está no mesmo texto de onde foi tirado o fragmento que abre o post, Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, de 1873.

Com essa visão, Yelnikoff surge como um personagem niilista, e contagioso, ainda por cima. A própria Melody incorpora seu olhar e reclama após voltar de seu primeiro “date” novaiorquino: pessoas vazias, riem de tudo, se empolgam com tudo. Ou mesmo quando ela cruza com um rapagão boa pinta, Perry Singleton, passeando com os cachorros: “Posso caminhar com você ?”; “Ah, tudo bem, tanto faz, afinal todos estamos condenados mesmo”.

Mas Melody é a primeira a deixar de lado esse niilismo passivo (sigo os parágrafos 22 e 23 do livro de Nietzsche A Vontade de Poder). Sim, Melody aprendeu o niilismo passivo e logo passou a exercer o caráter destrutivo da visão de mundo de Yelnikoff, sempre pronto a não deixar pedra sobre pedra do universo de valores conhecido. Mas isso não satisfez Melody, ela seguiu em frente na sua busca... na sua busca por o quê ? Provavelmente na busca que ela iniciou quando fugiu de sua cidadezinha perdida no fim de mundo do Deep South norte-americano. Seguindo adiante com sua busca Melody passou a manifestar sintomas do que Nietzsche chamou de niilismo ativo: não se trata de substituir um artigo de fé por outro, mas seguir em frente rumo à realização da própria vida. Melody não se acomoda, rompe com Yelnikoff, segue em frente subvertendo seus valores como, aliás, seus pais fizeram (de forma radical) após chegarem em Nova York. Melody e seus pais de alguma forma expressam a vontade de poder, enquanto princípio criador e lei originária por trás de todo movimento do universo. São pessoas que estão se re-criando, enquanto Yelnikoff afunda na negatividade (até chegar ao ponto em que só a morte é solução).

Mas Yelnikoff é mais arguto que pensamos, ele aponta para outro tema nietzscheano, inseparável do princípio da vontade de poder (cuja explicação apenas esbocei logo acima): trata-se do eterno retorno. Considerando, como princípio, a existência de uma força constante no universo atuando em tempo infinito, toda idéia de finalidade ou sentido passa a ser descartada (desde que descartemos também o princípio de um deus criador); da mesma forma, o tempo infinito faz com que todas as conjunções de força possíveis já tenham ocorridos e só devam se repetir (acredite, a “eternidade” é tempo pra cacete!). Se todos os momentos vividos devem se repetir infinitas vezes pela eternidade, melhor aproveitá-los, vivê-los em sua plenitude.




Ao invés da ética cristã de responder pelos seus atos (e ser punido pelas faltas) no futuro, surge uma nova ética fundada em viver corretamente, aproveitando os momentos ao máximo (“sAdicionar imagemem prejudicar os outros”, acrescentaria Yelnikoff), para que sua repetição seja sempre bem-vinda. Sem buscar algum sentido ou finalidade, sem dogmas ou planos. Sem receitas. Whatever works.

sábado, 15 de maio de 2010

Em busca da música perfeita



Se sobrou alguma coisa de Deus no Ocidente, ela se encontra no vasto repertório de imagens, plásticas ou mentais, que o Cristianismo criou nos últimos dois mil anos. E continua criando, queiramos ou não. Por exemplo, nas imagens de Inferno e Paraíso que se oferecem à imaginação para que sejam constantemente recriadas, e eu me divirto inventando infernos e paraísos possíveis. Minha preferida, de longe, é certa visão do Paraíso que tive um dia, quando ouvia West End Blues, na gravação de Louis Armstrong em 1928, talvez a música perfeita.

Pensei nisso pela primeira vez quando me perguntei sobre a trilha sonora do paraíso. Qual música é tocada no céu, sendo repetida por toda a eternidade sem que ninguém jamais enjoe ? Claro, não se trata aqui de pensar seriamente em paraíso e inferno, mas simplesmente descobrir uma música que, de tão boa, provoque nada menos que uma epifania. Pois então, ponha West End Blues para tocar (http://bit.ly/9C70GP) e compartilhe minha visão.

introdução, trompete

Imagine que você agora morreu. A paisagem diante dos seus olhos, aparentemente desolada, é formada apenas por nuvens. (Talvez você vista um grande lençol branco, como o de Beatriz na Divina Comédia). Trata-se das portas do céu e, por um instante, você imagina o que acontecerá, se haverá um julgamento, se sua entrada será permitida. Subitamente, soa um trompete, anunciando que algo irá acontecer.

todos tocam juntos

Por todos os lados, surge uma revoada de anjos mulatinhos, como os que foram pintados pelo mestre Ataíde na Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto. Eles tocam instrumentos, e flutuam à sua volta. Em pouco tempo, você percebe trombone, piano, clarinete, percussão. Alguns anjinhos talvez tragam uma lira nas mãos, mais para efeito visual do que sonoro (anjos devem carregar liras, mesmo que silenciosas).

um trombone se destaca

Um dos anjinhos toma a frente e sopra seu trombone. Ele é a cara do Raul de Souza. Você percebe que seu pé, descalço e mesmo sem querer, começa a acompanhar a música.

solo de clarinete com uma voz ao fundo

Mais um anjinho surge à sua frente, agora tocando um clarinete. Sua música vem junto com uma voz que surge sabe-se lá de onde. Uma voz meio rouca, que diz palavras incompreensíveis. Seria Deus ? Mesmo sem entendê-lo, você se deixa levar pela musicalidade e, pela primeira vez, percebe que o chão onde se encontra é de nuvens: você flutua.

solo de piano

Outro anjinho tem um piano. Ele toca sozinho agora (mas quantas mãos ele tem ?), e conforme toca, as nuvens vão se abrindo. Você percebe alguém se aproximando, um vulto, talvez ele traga um trompete nas mãos.

solo de trompete

É Deus. Ele se projeta das nuvens na sua direção, imenso, negro, tocando trompete. Como na imagem acima, como uma imagem em 3D no cinema. Ele segura a nota (si bemol ?) por um tempo infinito, talvez quatro compassos, e é justamente nesse momento que você começa a perceber o que é a eternidade. E Deus toca o instrumento usando todos os seus atributos: é divino.

final com piano

Quando volta o piano, acompanhando o trompete, você já não tem mais dúvidas. É o Paraíso. E você faz parte dele.

domingo, 9 de maio de 2010

Da amizade



Sempre achei estranho que, quando criança, sempre tinha um “melhor amigo”, e depois de uma certa idade isso desapareceu. Deixei de ter amigos ou perdeu-se o sentido de destacar um deles como “o melhor”? Penso nos critérios que usava para eleger um melhor amigo: sobretudo, era necessário que a primazia da amizade fosse mútua, mas, além disso, o quê mais ? Talvez uma certa afinidade nas brincadeiras. Com M., meu melhor amigo dos 8 aos 10 anos, líamos Asterix furiosamente; sabíamos os diálogos de cor e nos divertíamos fazendo citações que os outros não entendiam (se estivesse no Twitter, acrescentaria o tópico #infâncianerd). Com L. melhor amigo dos 11 aos 13, o que nos unia era a paixão por carrinhos de ferro em miniatura (muito embora, para ele o valor das miniaturas estava nos carros propriamente ditos – tornou-se engenheiro –; enquanto para mim, a graça era a possibilidade de recriar o mundo em uma dimensão controlável – tornei-me historiador). Seja como for, já com 14 anos não tinha mais necessidade ou interesse em eleger o “melhor amigo”. Talvez porque com essa idade as prioridades sociais passassem a ser outras.

Há um texto em que Borges fala dessas estranhas “amizades inglesas, que começam por excluir as confidências e que logo também omitem o diálogo”. Esse trecho me faz pensar no estatuto que as amizades masculinas ganham com o tempo. Pois a partir de uma certa idade, surge a experiência compartilhada do trabalho, criadora de laços que dificilmente podem ser chamados por outro nome que não amizade. Com os colegas de trabalho, não buscamos interesses comuns (ou estes aparecem apenas como secundários), apenas realizamos o trabalho que deve ser feito. Não há espaço para expor a interioridade, embora esta transpareça como parte de nosso ser (e um colega de trabalho atento irá percebê-la). No trabalho, simplesmente acumulamos a experiência do viver junto, e com o tempo vai nascendo essa solidariedade das trincheiras, o sentimento de que estamos todos no mesmo barco, por mais estranheza que cause o colega ao lado. Não importam se seus interesses são distintos do meu ou não, não importa se sua interioridade é mais fraturada que a minha: o que importa é que amanhã estaremos lá, juntos, como estivemos ontem. No trabalho, eu não irei eleger a figura transcendente do “melhor amigo”, mas jamais irei deixar o colega na mão. Com o tempo, as amizades do trabalho começam a lembrar as amizades infantis, pois sabemos quais colegas compartilham dos nossos gostos ou manias.

[Interlúdio pop. Friends parece louvar a amizade, mas é meio irreal: seus personagens são essencialmente infantis, aliás toda a graça da série vem de observar como crianças grandes lidam com as coisas da vida adulta. Por outro lado, Seinfeld é mais real, ao mostrar uma rede de amizades masculinas (e Elaine é tremendamente masculina na sua relação com os rapazes). Toda a graça de Seinfeld vem da forma sarcástica como eles se agridem ou tiram vantagem da fraqueza do outro no dia a dia; porém, na hora da necessidade, o amigo sempre estará presente. Os personagens de Friends usam o termo “melhor amigo”, os de Seinfeld, não.]

Mas estranho mesmo é a amizade entre homem e mulher, talvez a única forma possível de amizade adulta que não necessita nem da sociabilidade gerada pelo trabalho, nem do simples compartilhamento infantil de gostos e manias. Em uma amizade entre homem e mulher, cria-se uma cumplicidade e um grau de envolvimento encantadores, porém, sempre à beira do abismo: o risco da amizade transformar-se em algo além. Quando isso ocorre, valores que fundam a amizade são colocados em cheque: o desprendimento é substituído por um sentimento difuso de posse; a dedicação unilateral é substituída pelo desejo de ter algo em troca.

Quando o sentimento que leva a ultrapassar a amizade é mútuo, ela se transforma em outra coisa: uma relação, que deixa de ser objeto de minha reflexão. Mas quando esse sentimento é unilateral, então o melhor é tomar fôlego e construir uma travessia por cima do abismo: uma ponte, formada de silêncio e que, depois de uma árdua superação e contando com o efeito analgésico do tempo, acaba por levar a amizade para o plano mais elevado que possamos encontrar.

Nessas horas – e, sobretudo, durante a travessia – o importante é não olhar para o abismo.