sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Uma foto qualquer



A foto é aparentemente banal, e o fotógrafo certamente não pensou em suas múltiplas implicações quando, meio ao acaso, apontou para mim a câmara e registrou a cena: à bordo de um barco, olhando para o horizonte, em uma manhã de sol. A única justificativa para a foto ser tirada: o braço de mar por onde passa o barco é o Bósforo e, no horizonte, começa a Ásia.

Minha primeira reação à foto também foi trivial e, como sempre acontece quando vemos nossas próprias fotos – ou, pior, ouvimos nossa voz gravada – egocêntrica e autocrítica: que perfil horrível ! Que barba escandalosa ! Que nariz turco, que faz de mim uma espécie de xerox do sultão Mehmet VI (sem o harem, infelizmente), que quase sempre se fazia retratar de perfil.

Por pior que achasse a foto, não conseguia deixar de observá-la e, lentamente, suas formas foram se revelando para mim. Talvez fosse o jeito como meu braço (no primeiro plano) e o litoral da Ásia (ao fundo), ajudem a determinar espaços geométricos no plano da foto, quadrados, triângulos. Sempre tem algo de cubismo na decomposição das imagens em formas geométricas, gosto muito quando o efeito é obtido através de fotos. Por exemplo, veja a imagem feita por Cristiano Mascaro, “Árvore em Cachoeira” (2002): http://bit.ly/bgM7kE.

Porém, muito mais do que dividir o espaço em formas geométricas, o meu braço e o litoral da Ásia apresentam uma estranha simetria: estendidos em um sentido vagamente horizontal (pois a foto está um pouco torta, o litoral está levemente inclinado para a direita), apresentando um suave ondulado, como que reproduzindo as ondas do Bósforo que eles emolduram. Pois meu braço e o litoral da Ásia foram o que me chamou atenção para o conjunto surpreendente de simetrias que essa imagem apresenta.

Refletir o céu no mar já é quase um lugar comum, e aqui céu e mar como que têm vida própria (um é quadrado, outro é triângulo). Mas os reflexos da luz no mar repetem-se no céu, sob a forma de fiapos de nuvens, e aqui está uma simetria. Da mesma forma, as finas barras brancas que sustentam o parapeito onde apoio meu braço como que se reproduzem no meu ombro, nas dobras da camisa embranquecidas pela luz do sol; e a agressividade das linhas repetidas é suavizada pelo semi-círculo que as envolve, sob a forma de uma bóia, além do parapeito, ou de minha gola redonda, de onde irradiam os vincos da camisa.

O olhar atento percebe ainda mais uma simetria no litoral ao fundo. À esquerda, o mastro onde tremula uma bandeira turca, símbolo da República secular; e á direita a torre de um minarete, de onde os clérigos gritam as orações diárias, símbolo do Islamismo. Trata-se da maior tensão que existe na Turquia de hoje, ser ocidental ou oriental, moderno ou tradicional, religioso ou leigo. Ou na tensão de sempre: viver nas margens do Bósforo implica este ponto de inflexão, onde cada um coloca em jogo o seu próprio ser. As margens do Bósforo são como espelhos - invertidos, quase sempre -, e enxergar a própria imagem implica no trabalho cuidados de desconstruir todas as inversões.

Envolvida nesse jogo curioso, paira, na foto, uma única imagem que não tem seu duplo, aparentemente escapando de qualquer simetria. Sou EU, reduzido a um mero rosto que se projeta olhando sabe-se lá para quê. Pairando como forma maciça, escura, e dominando todo canto esquerdo da foto, só posso buscar um paralelo à minha frente, no local para onde olho, infelizmente fora do enquadramento da foto. Mas quem disse que eu olho para algum lugar ? Tenso, quem sabe imerso em pensamentos, apenas tenho diante de mim o CÉU, diáfano, claro, dominando todo canto direito da foto, justamente lá onde há poucas nuvens. E é somente nele que posso traçar alguma simetria.

Como em todas as imagens criadas na foto, trata-se de uma imagem refletida. Pois eu sou o oposto do céu e, por mais que pense diferente e tenha os pés no chão, só consigo uma aproximação de mim mesmo diante desse mesmo céu.

sábado, 2 de outubro de 2010

Istanblues





24 de setembro, hora indeterminada, sobre o Atlântico

“Por favor, solicitamos a presença de um doutor. Comparecer com urgência à cabine do fundo do avião”, grita o alto falante à bordo do vôo TK0014 da Turkish Airways rumo à Istambul. Achei curioso que não chamaram um médico, mas um doutor. Será que podia ser alguém de Humanas ? Será que eles estavam necessitando de um doutor, digamos, em Filosofia ? Imagino a emergência: o doutor em Filosofia chega afobado na cabine do fundo e encontra um passageiro angustiado, sofrendo calafrios, que pergunta com a voz rouca (enquanto a aeromoça tenta afrouxar sua gravata): “Doutor... me ajude... será que a ontologia pura serve apenas para dar forma ao entendimento ?” E o filósofo responde – como se fosse um dentista chamado para atender um ataque cardíaco: “Xeeeeee, lamento, mas minha área é a Estética”.

24 de setembro, 18h34, Aeroporto Internacional de Istambul

A vingança turca. Ressentidos por não serem aceitos na União Européia, os turcos se vingam. A entrada na Turquia só é permitida mediante um visto que é emitido no próprio Aeroporto, quando se chega no país. Porém, para algumas nacionalidades o tal visto não é necessário. No Aeroporto, vejo uma fila enorme de italianos, alemães, franceses, espanhóis, todos eles aguardando o demorado visto. Como brasileiro, sou dispensado de visto, e passo ao lado da fila dançando um samba.

24 de setembro, 23h49, um meyhane em Sultanahmet

O som das borbulhas de dezenas de narguiles sendo aspirados ao mesmo tempo. Cheiro adocicado de tabaco. Café turco, forte. Ao meu lado, dois turcos jogam gamão.

25 de setembro, 11h36, mesquita de Sultanahmet

É gratuita a entrada na famosa Mesquita Azul, aquela que foi construída diante de Santa Sofia para rivalizar em grandeza com o templo bizantino. Na saída, um funcionário pede uma contribuição em dinheiro para a manutenção da mesquita. Sensibilizado pela generosidade do ingresso grátis (e estimulado pelo pouco valor do dinheiro turco), deposito 5 liras na urna. Imediatamente, o funcionário me passa um recibo. Penso comigo: “Uma indulgência !” Agora, o paraíso islâmico é todo meu.

26 de setembro, 16h32, porta de hotel

Conversa com um turco: “O que você acha de Orhan Pamuk ?”. “Ah, aqui não gostamos muito dele, não. É um filhinho de papai, sua opinião é a da elite rica da cidade”. Tento argumentar que condenar a estética em função da origem social é um procedimento arriscado, e que seus escritos provavelmente irão sobreviver até bem depois que a atual estrutura de classes da Turquia mudar. E chamo atenção para o conceito de hüzün (=melancolia), que passou a ser fundamental para se pensar a cidade desde que Pamuk o discutiu. “Isso é bobagem”, diz o interlocutor turco, “a tal hüzün de Istambul não existe”. Como não existe ? Então eu posso dizer que o princípio segundo o qual “só Alá é Deus e Maomé é seu profeta” não existe só porque eu não acredito nisso ? Subitamente, o turco perde interesse na conversa.

26 de setembro, 19h05, entrada do mosteiro de dervixes de Mevlana

Nesses tempos tão corretos, me provoca um sorriso o cartaz afixado na entrada do mosteiro: “Este edifício NÃO é adequado para cadeiras de rodas”.

26 de setembro, 19h34, salão do mosteiro dos dervixes de Mevlana

Entra a banda dos dervixes, com seus longos chapéus cilíndricos. Em meio à solenidade de seus movimentos rituais de apresentação, subitamente lembro-me dos Keystone Cops, e sinto uma vontade desesperada de rir. Porém, logo começa a música e eu fico mudo de admiração. Quando os dervixes começam a rodopiar, chego próximo de um transe extático.

27 de setembro, 10h59, Palácio do Sultão (Topkapi)

A entrada do harem continua sendo um lugar assustador. Um beco estreito, ganchos para iluminação com lâmpadas de óleo, uma fileira de portas entreabertas com os aposentos dos truculentos eunucos, um corredor escuro no final. Era essa a primeira visão que as moças – seqüestradas em todo Império Otomano – tinham do palácio luxuoso onde passariam o resto de suas vidas. Sua maior aspiração: serem escolhidas como uma das “favoritas” e, com sorte, gerarem o príncipe herdeiro.

27 de setembro, 21h05, Sultanahmet

A comida de rua em Istambul é boa, aprendi isso da outra vez que aqui estive. Morrendo de vontade de comer um kokoreç - uma espécie de kebab feito com intestinos de carneiro - pergunto ao garçon de um dos muitos restaurantes de Sultanahmet, bairro dos hotéis ao lado de Santa Sofia: “Onde eu posso comer um kokoreç?”. Assutado, ele me responde, “Hayir ! Não, kokoreç não tem mais ! É contra as normas de higiene da União Européia !”. Penso se seria elegante da minha parte lembrar que a Turquia não faz parte da União Européia, mas prefiro ser simpático. Depois de muito insistir, ele me passa, quase em segredo, um endereço em Beyoglu. E acrescenta em voz baixa: “Best kokoreç in town !”. (http://sampiyonkokorecci.com/)

28 de setembro, 9h45, rua Akbiyik


Conversa com um turco: “Você se sente mais asiático ou mais europeu ?”. A resposta vem direto: “Ah, sem dúvida, mais asiático.” Suspeito que se um turco fizesse a mesma pergunta ele responderia: “Mais europeu”. Viver entre o Oriente e o Ocidente, o tradicional e o moderno, deixa todos os turcos meio esquizofrênicos.

28 de setembro, 17h52, Santa Sofia

De onde vêm esses olhos azuis e cabelos claros de alguns turcos ? Várias origens, e uma delas se encontra nos guerreiros vikings contratados como mercenários a partir do século X pelos imperadores bizantinos. Tais guerreiros, denominados varegues, chegaram a ter um papel importante na defesa de Constantinopla contra o saque realizado pela Quarta Cruzada (1204). Enquanto não se dedicavam a atividades guerreiras, os varegues deviam perambular por Constantinopla e eis que, nos parapeitos internos da Santa Sofia, encontram-se inscrições feitas por esses guerreiros nórdicos em seu alfabeto rúnico. Gravadas no mármore por espadas, assinalam os nomes de “Halfdan” e “Ari”, verdadeiros precursores da pichação.

29 de setembro, 8h12, Aeroporto Internacional de Istambul

Na livraria do aeroporto, encontra-se à venda a edição de bolso (completa, em turco) de O Capital de Marx



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(foto: Ara Güler)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Considerações desapaixonadas sobre as eleições


1 – O que mais chama a atenção nas eleições, ultimamente, é que elas não mais envolvem questões de vida ou morte. No fim do regime militar e durante os anos da chamada consolidação democrática (anos 1990) simplesmente não se cogitava em votar nos esbirros da ditadura (ARENA/ PDS), em seus filhotes (Maluf, Sarney), nos sobreviventes de outra era (Jânio) ou na barbárie pura e simples (Collor). Quem votasse ou apenas demonstrasse simpatia por essas figuras simplesmente não era digno de pertencer a um círculo de amizades ou então gerava piedade (“Coitado, vai votar no Maluf...”). Nesse sentido, os 16 anos de FHC e Lula civilizaram o jogo político, ou pelo menos afastaram das eleições presidenciais as figuras mais sinistras. Diante dos Berlusconis e Bushes da vida, FHC e Lula são papa fina.

2 – Curiosamente, a polarização PT x PSDB às vezes ainda gera estranhos ódios: há tucanos que não conversam com petistas (afinal, “Lula é Mussolini”), e há petistas que assumem ar de denúncia quando se referem ao tucanato como “a direeeeeeita!”. Curioso, pois sabemos que tanto Dilma quanto Serra, uma vez eleitos, vão adotar as mesmas diretrizes básicas de governo: manutenção da estabilidade econômica, algum tipo de gerenciamento da miséria (esquemas do tipo Bolsa Família) e aliança com a parte da banda podre da política que lhe cabe. Isso para não falar da sórdida tendência que os membros de seus partidos têm de cuidar do Estado como se fosse um condomínio privado.

3 – Com Lula e o PT, consolidou-se a idéia de que o Estado é um papai provedor, e isso causa danos à política: o voto entra no esquema do “é dando que se recebe”, e a política passa longe de princípios ou projetos de longo prazo, reduzindo-se a uma sucessão de promessas rasteiras e troca de favores visando fins imediatos. Mas quem disse que com o PSDB é diferente ?

4 – Diante desse contexto – e sabendo que, seja qual for o resultado, a barbárie não irá vencer – começo a vislumbrar uma saída: diante da permanência da polarização PT x PSDB, votar sempre em quem for oposição, como forma de punir os escândalos da vez. Otimista, imagino que isso talvez resulte em moderação na prática de transformação do Estado em condomínio privado.

5 – Porém, é um erro partir das muitas semelhanças e concluir que não há diferença alguma entre PT e PSDB, Dilma e Serra. Em princípio, espera-se de um governo PT uma ênfase na distribuição, como exemplificado no governo Lula pela saudável tendência de aumento do salário mínimo. Porém, e a produção ? Os ventos internacionais favoráveis e a hábil ação de Lula na crise de 2008/2009 ajudaram a criar o clima de otimismo vigente. Mas, há algum plano que vá além de aproveitar a maré ? O país corre o risco de desindustrialização (mas corre mesmo ? qual o tamanho desse risco ?) e, sendo assim, não seria o caso de aproveitar o momento e adotar uma política industrial consistente, visando promover um profundo avanço no setor produtivo (para além da exportação de produtos primários ou semi-manufaturados) ?

6 – Em Serra, há uma promessa de valorizar a produção, embora nem sempre fique muito claro como. E a tão proclamada competência gerencial dos tucanos é altamente suspeita: veja a situação de caos prolongado em que a capital do Estado de São Paulo se mantém, após anos de gerenciamento tucano. Seja como for, a promessa de ênfase na produção traz a possibilidade de um resultado social que vai além do mero assistencialismo: aproveitar a expansão econômica e ampliar maciçamente o número de assalariados com carteira assinada. Mas isso basta ?

7 – Enfim, o que são as eleições ? Seu aspecto ritual me encanta: um feriado, um dia diferente, amplo movimento de pessoas, ruas cheias, encontros que se repetem a cada quatro anos. Por trás do rito, a lembrança: a coisa toda (o Estado, a política) deve existir em nome das pessoas, do “povo”. Para além da prática ritual das eleições, há que consolidar instituições que, de fato, ponham o Estado para funcionar em benefício dessas pessoas. Resta saber se a tarefa é possível.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Segundo aniversário


De onde vem a vontade de aprender ? Acredito que, em seus primeiros anos, a criança até se empolga com a escola, que satisfaz o seu desejo de tornar-se mais “espertinha”, portanto digna do afeto dos pais que a parabenizam pelas notas e pelo desempenho escolar em geral. No entanto, logo sobrevém o tédio: a criança amadurece, suas demandas afetivas deslocam-se para além do espaço familiar e, por essa época, a escola passa a divulgar um saber meramente instrumental. Uma multidão de atividades carregadas de lógica matemática, a descrição racional de uma infinidade de objetos do mundo e da melhor forma de utilizá-los visando o bem-estar do homem, uma coleção de objetos isolados que devem ser descritos e suas relações racionalmente explicadas, de preferência sem dar margem a nenhuma dúvida (afinal, como fazer provas depois ?).

Diante de cada pergunta, uma resposta; diante de cada dúvida, uma certeza; diante de cada conseqüência, uma causa. Observando a forma como se organiza o Ensino Médio e a exposição dos alunos a esse discurso ininterrupto de uma razão que tudo explica, eu me indago: onde ficam as incertezas e as surpresas ? Onde ficam as perguntas sem respostas ? Onde ficam as conseqüências sem causas ? Oras, tais indagações são importantes, pois é graças a elas que continuamos perguntando e, no limiar desse questionamento, encontra-se nós mesmos, como já sabia Sócrates. O problema é que não há muito espaço na escola para a indagação sobre o sujeito, e justamente numa época da vida – a adolescência – em que esse questionamento é fundamental.

A essa altura, difícil é a função do professor, que deve fazer renascer o desejo de aprender. Seus instrumentos incluem a sedução, através da enunciação de um discurso adequado aos seus ouvintes, e a identificação, pois os alunos devem reconhecer no professor o depositário de um saber que deve ser obtido. Desejo-sedução-identificação: o jogo do saber, como bem sabia Platão, traz junto uma série de riscos e, para o professor, o maior deles é a vaidade. Trata-se do saber-se amado, e é necessário um certo esforço para agir em conformidade com essa situação mantendo-se à altura do desejo de saber dos alunos, nada mais do que isso. Quanto aos alunos, o risco é a idolatria, primeiro passo para deixar de pensar por conta própria.

No seu segundo aniversário, lembro que o blog surgiu da vontade de alimentar esse desejo de saber, que nasce na sala de aula e que às vezes é limitado pelas restrições práticas que nos cercam. Sei que quanto mais alimento nos outros o fogo do saber, mais brilha o meu próprio fogo, e disso se extrai – assim espero – uma experiência compartilhada que ajuda a manter a vida de cada um de nós em constante escrutínio.

Feliz aniversário e obrigado a todos os alegres seguidores.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Pas de faune ce soir



Não sei exatamente que horas eram, mas eu estava no terraço quando começou a chover no fim de semana. A chuva começou fraca e mesmo o vento não chegava a perturbar, a temperatura apenas começava a cair naquela hora. Notei que as árvores estavam esquisitas: depois da longa seca, as folhas – algumas amareladas – estavam apenas frouxamente presas em seus cabos e agitavam-se de forma singular, pois o vento não tinha força suficiente nem para dobrar os galhos, nem para arrancá-las. Nas árvores imóveis, apenas folhas balançavam, como que rodopiando em torno de seus eixos, fazendo rápidos movimentos giratórios. Dessa forma, as folhas, as árvores pareciam bastante alegres, é como se celebrassem a chegada da chuva depois de tanto tempo.

A imagem que me veio à cabeça, imediatamente, foi a de um ballet, com centenas de folhas-bailarinas se agitando em uma fremente coreografia. O insight veio em seguida: imaginei que talvez o homem tenha inventado a dança por mimese, copiando as árvores, as folhas das árvores em um vento de chuva. Não é difícil imaginar uma situação em que grupos humanos, coletores-caçadores, talvez já agricultores ou seja lá o que fossem, saindo de seus abrigos, felizes com a chuva e identificando no movimento das folhas a mesma alegria que sentiam. E imediatamente copiando esses movimentos com seus corpos.

[Interlúdio: “Consulte sempre um Antropólogo”, é um adesivo que jamais vi afixado em nenhum vidro de carro. Mas, que eles fazem falta às vezes fazem, e poderiam estar agora nos entretendo, a falar sobre coisas arquetípicas como danças-da-chuva e tudo mais. Um brinde a Jimmy Cliff-ord Geertz e seu estudo seminal sobre as brigas de galo na Jamaica.]

Seja como for, tive uma estranha epifania ao perceber que experimentava um sentimento idêntico ao de meus ancestrais neolíticos. Por um instante, tive o impulso de dançar com as árvores, no terraço mesmo, conforme a chuva começava a apertar. A vontade era de sair na chuva, fechar os olhos e deixar o corpo acompanhar o vento e o movimento das folhas, sentindo ao mesmo tempo o frio da água escorrendo pelo corpo. Seria um espetáculo bizarro diante das janelas dos vizinhos, mas estes, que se danem, a essa altura já viram de tudo.

Claro que não fiz nada disso, apenas voltei para o sofá e comecei a refletir sobre a dança, e tudo que ela tem de impensado e espontâneo. Distanciando-se de outras artes, a dança pode ser a mais irracional expressão estética humana, e nem por isso a menos bela ou autêntica. Na dança, não há necessariamente uma “moral” ou “mensagem” a ser passada, trata-se sobretudo de entrega, com tudo que isso traz de risco, de coragem, de vontade. A dança é exaltação dionisíaca, para usar o termo do velho Nietzsche, figura constante nestes alegres colóquios. Sabemos que duas das mais perigosas características de Nietzsche são escrever em aforismos e usar metáforas. Com os aforismos, tornou-se pop: todo mundo sempre tem uma ou duas de suas frasezinhas bem decoradas (e mal compreendidas) guardadas no bolso do colete para usar em uma culta mesa de bar. Com as metáforas, tornou-se mais pop ainda, com as pessoas adorando histórias sobre velhos eremitas que descem da montanha e saem gritando que deus morreu e outras coisas divertidas.

Pois o andarilho de Sils-Maria frequentemente usava a metáfora da dança e, para ficar em seus mais rápidos e conhecidos aforismos, cito: “É necessário que o caos vos habite para que possa dar a luz a uma estrela bailarina” e “Só acreditaria em um deus que soubesse dançar”. Nos dois casos a dança surge como a metáfora da realização humana mais sublime, ou melhor, daquele tipo de realização que nos leva para além do humano.
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Para os interessados, a São Paulo Companhia de Dança apresentará nesse fim de semana um programa altamente promissor, incluindo o “Prélude à l’aprés-midi d’un faune”, de Debussy (que – lembremos – quando coreografado por Nijinsky em 1912 provocou um impacto semelhante ao que teria no ano seguinte a “Sagração da Primavera”, que tanto tenho citado por aí).

domingo, 22 de agosto de 2010

Da desculpa como auto-de-fé




Em 1481, a Inquisição espanhola - sempre tão precoce - realizou o primeiro auto-de-fé, cerimônia pública de expiação dos pecados. A prática se generalizou pela cristandade, sendo particularmente comum nas monarquias ibéricas. Consta que o último auto-de-fé foi realizado na Espanha, já em 1821. Goya, artista espanhol, pintou o quadro acima poucos anos antes, mostrando uma dessas cerimônias: os acusados assumem publicamente sua culpa e envergam os sambenitos, trajes especiais e particularmente ridículos e humilhantes, de uso obrigatório pelos condenados.

Reduzindo o ritual do auto-de-fé ao seu padrão básico, temos: cerimônia pública, humilhação ritual e perdão como resultado. Impossível deixar de pensar em como existe, hoje em dia, o estranho hábito de praticar um pedido de desculpas como se fosse um auto-de-fé. Um erro é cometido, alguém sofre os efeitos e, depois do mal feito, tudo se resolve com um humilde pedido de desculpas, muitas vezes visto como expressão de grandeza de caráter, mas que é na realidade um mero artifício para se por uma pedra no que agora virou passado. Acho que é nesse contexto que as pessoas “perdoam”, ou seja, aceitam as desculpas: perdoar/per-donare (= por presente), é quando damos um presente para aquele que errou, que fez um mal, independente de qualquer arrependimento.

Porém, isso não basta.

Lembro de meu sobrinho, criança, aprendendo o significado das palavras lá com seus dois ou três anos de idade. Após descobrir o significado da palavra “desculpa” (ou melhor, após descobrir os efeitos provocados pela simples enunciação da palavra "desculpa") o pequeno, durante alguns dias, passou a ter o hábito de fazer coisas sabidamente erradas, para em seguida testar o amor dos pais pedindo desculpas. Lembro de um almoço de família e do moleque, ao meu lado, pegando o copo de plástico cheio de coca-cola, inclinando-se para o lado e derramando propositalmente o conteúdo no chão, enquanto olhava para os adultos na mesa. Antes de qualquer manifestação de reprovação o monstrinho já foi lançando um “di-cu’pa”, ao mesmo tempo encantador e malandro.

A meu ver, uma desculpa envolve dois aspectos que quase nunca são cogitados por quem a pede, na pressa de ver sua situação resolvida e de ser perdoado. Primeiro, o reconhecimento do erro; segundo, e intimamente relacionado a isso, a garantia de que o erro nunca mais irá se repetir. Mas não é isso que vejo acontecer: as pessoas saem disparando suas desculpas por aí a torto e a direito, como se fossem fogos de artifício, e tudo se resolve. E daqui a uns poucos dias novas desculpas serão necessárias.

Não, este não é um post confessional. Fujo deles, como todos sabem. Se você cruzou comigo - sei lá, na última semana - não pense que aqui vai alguma indireta. Apenas andei pensando no assunto, é só. E me desculpem os que não gostaram.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

"...uma forma luminosa"


Curioso como algumas expressões se tornam um jargão, que progressivamente vai se afastando de seu sentido original. No mundo escolar uma das mais comuns, de uns tempos pra cá, é discutir conceito. As pessoas adoram discutir conceitos, vivem sofisticando suas práticas discursivas dizendo que discutiram conceitos quando, na verdade, na maior parte dos casos, apenas apresentaram definições.

Há diferenças entre conceito e definição. Como de hábito, lanço mão da etimologia para começar a entender as diferenças. A palavra definição vem do latim de-finitio, em que finitio dá idéia de fim, final, encerramento. Pois é esse justamente o sentido das definições: elas encerram um significado dentro de limites bem precisos. Trata-se, sem dúvida, de uma função importante. Pois as palavras devem ter significados precisos, sem isso é impossível um pensamento rigoroso e, em última análise, a própria filosofia. Todavia, definições não constroem conhecimento, e uma consulta ao dicionário, por mais instrutiva que seja, não faz o saber avançar sequer um milímetro.

conceptus tem o mesmo radical de conceber, concepção. Aqui, o sentido é de criar, portanto ir além do limite estreito das definições, que agora serão tomadas apenas como ponto de partida. Trata-se do procedimento filosófico por excelência, e Delleuze, no seu livro O que é Filosofia?, é taxativo: “Filosofar é criar conceitos”. Adorno falava de “ir além do conceito, através do conceito”, enquanto Francisco Bosco – meu filósofo pop preferido, em citação que vivo repetindo por aí – dá uma ideia melhor do árduo trabalho do conceito quando escreve: “O conceito é portanto uma pequena batalha que se trava em meio ao caos, a fim de fazer dele ressair, por meio de um meticuloso bordado semântico, uma forma luminosa”.

Por exemplo, uma definição da palavra trabalho pode ser encontrada no dicionário: trata-se de “aplicação da força e faculdades humanas para atingir um determinado fim”. Porém, uma discussão do conceito de trabalho inclui levar em consideração que essa atividade pode ser vivida de diferentes formas, resultando não apenas em práticas de trabalho distintas, mas também abrindo caminho para a identificação de diferentes éticas do trabalho.

O primeiro sentido da palavra trabalho remonta à etimologia latina do verbo trabalhar, tripaliare, com o significado original de “extrair as tripas”. Trata-se de uma referência ao sofrimento imposto aos escravos. Nesse sentido, o trabalho é visto como um sacrifício a que se deve dedicar em troca de uma remuneração em dinheiro e quando vejo os olhares sombrios de muitas pessoas em seus postos de trabalho, imagino que elas de fato “deixaram suas almas” na porta de entrada da fábrica ou empresa, para poderem pegá-la de volta na saída. A expressão deixar a alma na porta do trabalho é da pensadora francesa Simone Weil que, na década de 1930, abandonou o conforto de sua família para experimentar a vida de operária. Da experiência resultou um relato pungente, “Da condição operária”, que deveria ser leitura escolar obrigatória.

Porém, há outro significado para a palavra trabalho, que pode ser entendido enquanto praxis, uma prática constitutiva do ser. Essa visão está presente em Marx que, inclusive, identificava na habilidade e organização para o trabalho uma especificidade do humano (que ele pretendia resgatar criando um novo sistema social e econômico etc). O trabalho como praxis implica em fazer da atividade uma parte inseparável da sua vida, e chegam a ser comuns os casos daqueles que caem em profunda melancolia quando afastados do trabalho por algum motivo. Sem entrar em detalhes, lembro da interpretação psicanalítica da melancolia, um sentimento associado ao luto, uma vez que ambos resultam em conviver com a perda. Aqui, estamos lidando com nada menos que a perda de uma parte de si mesmo.

No primeiro caso - tripaliare - existe uma separação entre o mundo da vida e o mundo do trabalho, e o próprio conceito de lazer só pode ser pensado a partir dessa separação. Pois lazer é a negação do trabalho, é o tempo que deve ser aproveitado, pois se encontra longe do sofrimento. É o tempo que deve ser preenchido, uma vez que, se o trabalho não constitui o ser, o tempo torna-se vazio e sem sentido. Já no segundo caso - praxis - o mundo do trabalho é parte integrante do mundo da vida, não cabendo a separação tempo livre x tempo de trabalho. Oras, as duas formas de vivenciar a experiência do trabalho (ou os dois significados que são ao mesmo tempo parte integrante do conceito e indissolúveis da experiência do trabalho), implicam em duas éticas do trabalho distintas.

Para os que vivem o trabalho como sofrimento, o que conta é a sobrevivência, uma vez que a atividade é vista como pouco mais que um ganha pão. Neste caso, o trabalho incorpora os jogos de poder, fundamentais na luta pela sobrevivência dentro do ambiente de trabalho, e o resultado é uma atuação marcada pelo medo e paralisia. Já para os que vivem o trabalho como parte constitutiva de si mesmo, a realização encontra-se no trabalho bem-feito, visto como finalidade e parte integrante do conhecimento próprio enquanto sujeito. Aqui abre-se o espaço para a cooperação ( lembrando do caráter social e coletivo do trabalho), que incorpora o diálogo entre as partes e a constituição de laços que incluem a tão difícil amizade entre adultos.