A foto é aparentemente banal, e o fotógrafo certamente não pensou em suas múltiplas implicações quando, meio ao acaso, apontou para mim a câmara e registrou a cena: à bordo de um barco, olhando para o horizonte, em uma manhã de sol. A única justificativa para a foto ser tirada: o braço de mar por onde passa o barco é o Bósforo e, no horizonte, começa a Ásia.
Minha primeira reação à foto também foi trivial e, como sempre acontece quando vemos nossas próprias fotos – ou, pior, ouvimos nossa voz gravada – egocêntrica e autocrítica: que perfil horrível ! Que barba escandalosa ! Que nariz turco, que faz de mim uma espécie de xerox do sultão Mehmet VI (sem o harem, infelizmente), que quase sempre se fazia retratar de perfil.
Por pior que achasse a foto, não conseguia deixar de observá-la e, lentamente, suas formas foram se revelando para mim. Talvez fosse o jeito como meu braço (no primeiro plano) e o litoral da Ásia (ao fundo), ajudem a determinar espaços geométricos no plano da foto, quadrados, triângulos. Sempre tem algo de cubismo na decomposição das imagens em formas geométricas, gosto muito quando o efeito é obtido através de fotos. Por exemplo, veja a imagem feita por Cristiano Mascaro, “Árvore em Cachoeira” (2002): http://bit.ly/bgM7kE.
Porém, muito mais do que dividir o espaço em formas geométricas, o meu braço e o litoral da Ásia apresentam uma estranha simetria: estendidos em um sentido vagamente horizontal (pois a foto está um pouco torta, o litoral está levemente inclinado para a direita), apresentando um suave ondulado, como que reproduzindo as ondas do Bósforo que eles emolduram. Pois meu braço e o litoral da Ásia foram o que me chamou atenção para o conjunto surpreendente de simetrias que essa imagem apresenta.
Refletir o céu no mar já é quase um lugar comum, e aqui céu e mar como que têm vida própria (um é quadrado, outro é triângulo). Mas os reflexos da luz no mar repetem-se no céu, sob a forma de fiapos de nuvens, e aqui está uma simetria. Da mesma forma, as finas barras brancas que sustentam o parapeito onde apoio meu braço como que se reproduzem no meu ombro, nas dobras da camisa embranquecidas pela luz do sol; e a agressividade das linhas repetidas é suavizada pelo semi-círculo que as envolve, sob a forma de uma bóia, além do parapeito, ou de minha gola redonda, de onde irradiam os vincos da camisa.
O olhar atento percebe ainda mais uma simetria no litoral ao fundo. À esquerda, o mastro onde tremula uma bandeira turca, símbolo da República secular; e á direita a torre de um minarete, de onde os clérigos gritam as orações diárias, símbolo do Islamismo. Trata-se da maior tensão que existe na Turquia de hoje, ser ocidental ou oriental, moderno ou tradicional, religioso ou leigo. Ou na tensão de sempre: viver nas margens do Bósforo implica este ponto de inflexão, onde cada um coloca em jogo o seu próprio ser. As margens do Bósforo são como espelhos - invertidos, quase sempre -, e enxergar a própria imagem implica no trabalho cuidados de desconstruir todas as inversões.
Envolvida nesse jogo curioso, paira, na foto, uma única imagem que não tem seu duplo, aparentemente escapando de qualquer simetria. Sou EU, reduzido a um mero rosto que se projeta olhando sabe-se lá para quê. Pairando como forma maciça, escura, e dominando todo canto esquerdo da foto, só posso buscar um paralelo à minha frente, no local para onde olho, infelizmente fora do enquadramento da foto. Mas quem disse que eu olho para algum lugar ? Tenso, quem sabe imerso em pensamentos, apenas tenho diante de mim o CÉU, diáfano, claro, dominando todo canto direito da foto, justamente lá onde há poucas nuvens. E é somente nele que posso traçar alguma simetria.
Como em todas as imagens criadas na foto, trata-se de uma imagem refletida. Pois eu sou o oposto do céu e, por mais que pense diferente e tenha os pés no chão, só consigo uma aproximação de mim mesmo diante desse mesmo céu.
Minha primeira reação à foto também foi trivial e, como sempre acontece quando vemos nossas próprias fotos – ou, pior, ouvimos nossa voz gravada – egocêntrica e autocrítica: que perfil horrível ! Que barba escandalosa ! Que nariz turco, que faz de mim uma espécie de xerox do sultão Mehmet VI (sem o harem, infelizmente), que quase sempre se fazia retratar de perfil.
Por pior que achasse a foto, não conseguia deixar de observá-la e, lentamente, suas formas foram se revelando para mim. Talvez fosse o jeito como meu braço (no primeiro plano) e o litoral da Ásia (ao fundo), ajudem a determinar espaços geométricos no plano da foto, quadrados, triângulos. Sempre tem algo de cubismo na decomposição das imagens em formas geométricas, gosto muito quando o efeito é obtido através de fotos. Por exemplo, veja a imagem feita por Cristiano Mascaro, “Árvore em Cachoeira” (2002): http://bit.ly/bgM7kE.
Porém, muito mais do que dividir o espaço em formas geométricas, o meu braço e o litoral da Ásia apresentam uma estranha simetria: estendidos em um sentido vagamente horizontal (pois a foto está um pouco torta, o litoral está levemente inclinado para a direita), apresentando um suave ondulado, como que reproduzindo as ondas do Bósforo que eles emolduram. Pois meu braço e o litoral da Ásia foram o que me chamou atenção para o conjunto surpreendente de simetrias que essa imagem apresenta.
Refletir o céu no mar já é quase um lugar comum, e aqui céu e mar como que têm vida própria (um é quadrado, outro é triângulo). Mas os reflexos da luz no mar repetem-se no céu, sob a forma de fiapos de nuvens, e aqui está uma simetria. Da mesma forma, as finas barras brancas que sustentam o parapeito onde apoio meu braço como que se reproduzem no meu ombro, nas dobras da camisa embranquecidas pela luz do sol; e a agressividade das linhas repetidas é suavizada pelo semi-círculo que as envolve, sob a forma de uma bóia, além do parapeito, ou de minha gola redonda, de onde irradiam os vincos da camisa.
O olhar atento percebe ainda mais uma simetria no litoral ao fundo. À esquerda, o mastro onde tremula uma bandeira turca, símbolo da República secular; e á direita a torre de um minarete, de onde os clérigos gritam as orações diárias, símbolo do Islamismo. Trata-se da maior tensão que existe na Turquia de hoje, ser ocidental ou oriental, moderno ou tradicional, religioso ou leigo. Ou na tensão de sempre: viver nas margens do Bósforo implica este ponto de inflexão, onde cada um coloca em jogo o seu próprio ser. As margens do Bósforo são como espelhos - invertidos, quase sempre -, e enxergar a própria imagem implica no trabalho cuidados de desconstruir todas as inversões.
Envolvida nesse jogo curioso, paira, na foto, uma única imagem que não tem seu duplo, aparentemente escapando de qualquer simetria. Sou EU, reduzido a um mero rosto que se projeta olhando sabe-se lá para quê. Pairando como forma maciça, escura, e dominando todo canto esquerdo da foto, só posso buscar um paralelo à minha frente, no local para onde olho, infelizmente fora do enquadramento da foto. Mas quem disse que eu olho para algum lugar ? Tenso, quem sabe imerso em pensamentos, apenas tenho diante de mim o CÉU, diáfano, claro, dominando todo canto direito da foto, justamente lá onde há poucas nuvens. E é somente nele que posso traçar alguma simetria.
Como em todas as imagens criadas na foto, trata-se de uma imagem refletida. Pois eu sou o oposto do céu e, por mais que pense diferente e tenha os pés no chão, só consigo uma aproximação de mim mesmo diante desse mesmo céu.





