domingo, 24 de abril de 2011

Notas sobre a multidão



Ce grand malheur, de ne pouvoir être Seul

Em 1840, o escritor norte-americano Edgar Alan Poe escreveu o pequeno conto “O homem da multidão” (The man of the crowd). Trata-se da breve narrativa de um personagem (o narrador) que, de dentro de um café ou bar, contempla a passagem das pessoas na rua até que avista um certo indivíduo na multidão, “um velho decrépito de sessenta e cinco a setenta anos de idade”, com a expressão marcada por uma “absoluta idiossincrasia”. Obcecado com a visão, o narrador passa a segui-lo pelas ruas de Londres, tarefa que se estende por horas a fio e termina somente ao amanhecer, com o velho prosseguindo na sua caminhada aparentemente interminável e o narrador concluindo: “Esse velho (...) é o tipo e o gênio do crime profundo. Recusa-se a estar só. É o homem da multidão. Será escusado segui-lo: nada mais saberei a seu respeito ou a respeito de seus atos”.

O interesse histórico despertado na narrativa está no fato de que o principal “personagem” colocado em cena pelo autor, e objeto acurado de descrição nas primeiras páginas do conto, é nada menos do que a multidão. Trata-se de uma novidade, trazida à cena pelos avanços da Revolução Industrial ao longo do século XIX e pela acelerada urbanização daí decorrente. O fenômeno chamou atenção dos contemporâneos, que passaram a ver na multidão ao mesmo tempo um objeto de admiração e medo, e a descrevê-la alternadamente como massa amorfa e soma de infinitos detalhes.

O advento da multidão e, sobretudo, fazer parte da multidão, acabou implicando no desenvolvimento de certas habilidades. O morador da grande cidade deve aprender novas operações do olhar, que possibilitem a sua sociabilidade e possam servir até como garantia de sobrevivência. “Viver numa grande cidade implica o reconhecimento de múltiplos sinais. Trata-se de uma operação do olhar, de uma identificação visual, de um saber adquirido, portanto. Se o olhar do transeunte que fixa fortuitamente uma mulher bonita e viúva ou um grupo de moças voltando do trabalho, pressupõe um conhecimento da cor do luto e das vestimentas operárias, também o olhar do assaltante ou do policial, buscando ambos a sua presa, implica um conhecimento específico da cidade” (M.S.Bresciani – Londres e Paris no século XIX).

O narrador de Poe, observador da multidão de dentro do café, demonstra possuir um olhar bastante arguto que utiliza para caracterizar minuciosamente os personagens da multidão, como mostram bem as primeiras páginas do conto. Devemos acreditar nele quando vê algo “diabólico” no velho e passa a segui-lo: nesse momento, o narrador deixa de ser um observador da multidão e passa a fazer parte dela.

O que significa estar na multidão, ou ser parte da multidão ? Multidão é anonimato, refúgio: estar na multidão e não sair dela por si só já implica em possibilidade de crime cometido. Ou, como observou Walter Benjamin, a multidão atrai quem não se sente seguro na sua própria sociedade. Além disso, a leitura arguta de Benjamin chama atenção para o seguinte trecho no conto de Poe, que fala do fluxo das pessoas na rua: “pareciam apenas pensar em abrir caminho através da multidão...se recebiam um encontrão de outros transeuntes não se mostravam irritados, ajeitavam a roupa e seguiam em frente... se tivessem que parar, paravam de murmurar... se eram empurrados, cumprimentavam as pessoas que as tinham empurrado e pareciam muito embaraçadas”. No trecho, Benjamin identifica no comportamento da multidão uma mimese do trabalho na fábrica: age-se por reflexo, impensadamente. Estar na multidão traz alguma alienação, implica na familiaridade com o próprio processo de produção, cada vez mais automatizado.

As ruas da Londres de Poe são iluminadas por lampiões a gás cuja luz, mesmo quando mais intensa, é apenas “trêmula” e provoca “fanáticos efeitos” (“wild effects of light”). A “neblina úmida e espessa” apenas contribui para dar à multidão um aspecto cada vez maior de fantasmagoria. Ainda seguindo Benjamin, o conceito de fantasmagoria é fundamental para a própria compreensão da sociedade capitalista que ganhava corpo ao longo do século XIX: é a imagem de algo que está ausente, de uma projeção do pensamento sobre, por exemplo, um objeto. Na sociedade capitalista, essa imagem é considerada como o real: trata-se de considerar a ilusão como imagem mental que percebe o mundo. Já o indivíduo convertido em fantasmagoria é aquele cujo trabalho tornou-se mera abstração, não estando mais vinculado a uma habilidade específica ou tarefa a ser realizada, mas simplesmente unidade de força medida através do tempo.


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(O texto acima foi escrito como parte de uma atividade da cadeira de inglês do Anglo, com o nosso querido professor Pantoja. O conto de Poe, em inglês, pode ser lido na íntegra em: http://bit.ly/f3MwCK )

sábado, 9 de abril de 2011

Alô, alô, torcida do Flamengo

1 Me pergunto por que diabos no Brasil as tragédias atraem multidões. Quase sempre vestindo bermudão, chinelo e camiseta, pessoas podem ser vistas se acotovelando diante das câmeras de TV ou apenas paradas ao longe, contemplando a cena, mãos para trás e com os quadris inclinados, numa tentativa de descansar as pernas depois de tantas horas em pé. Se o episódio for no Rio de Janeiro, a camiseta invariavelmente será do Flamengo.


Acredito que o que leva essa gente para o palco das tragédias é o estranho e jamais confessado desejo de ver o sofrimento alheio, o que no fundo expressa uma forma de regozijo diante da própria sobrevivência. Acho até que é esse mesmo sentimento que leva as pessoas a darem uma desaceleradinha no carro e espichar a cabeça para fora da janela quando se passa ao lado de um acidente. Nessa hora, pouco importa piorar o trânsito que vai se formando em uma via já parcialmente interditada, o que interessa é ver sangue. Ou então, não é nada disso, apenas o desejo de se distrair do tédio.

O fenômeno está longe de ser novo. Lima Barreto, em Triste fim de Policarpo Quaresma, dá uma viva descrição da Revolta da Armada de 1893 no Rio de Janeiro, episódio que ele presenciou:

Os soldados já estavam nas trincheiras, armas à mão; o canhão tinha ao lado a munição necessária. Uma lancha avançava lentamente, com a proa alta assestada para o posto. De repente, saiu de sua borda um golfão de fumaça espessa: Queimou! -- gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto, zunindo, cantando, inofensiva. A lancha continuava a avançar impávida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um destes que gritara: queimou!

E assim sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa, às trincheiras, atrapalhando o serviço; em outras, um cidadão qualquer, chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá licença que dê um tiro? O oficial acedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.

Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade


2 Na tragédia do Realengo, a imagem mais impressionante talvez tenha sido a de um desses observadores anônimos (devidamente vestido de bermuda sem camiseta) beijando a mão do policial que deteve o Atirador. A mão direita, que efetuou o disparo. Nessa foto, a estúpida busca de heróis convive com o desejo de santificá-los, demonstrado por um ato de subserviência normalmente praticado em cerimônias religiosas (e mesmo nessas, o beija-mão sempre causa algum constrangimento). Parece que não era somente o Atirador que vivia em um estado de pobreza espiritual compensada por uma religiosidade mórbida: sua platéia também.

3 “Lavem meu corpo, me enrolem em branco, me enterrem ao lado de minha mãe”, diz o testamento do Atirador. E pronto, está tudo resolvido. Estranha essa relação com deuses que tudo perdoam. Até quando vamos continuar insistindo nessa bobagem de vida eterna e perdão para os “puros de alma” ? Penso que, no passado, quando o discurso da virtude era predominante e os vícios ocultados, qualquer pessoa que se achasse “anormal” (assassino, estuprador, pecador) remoía-se em uma culpa que, em casos extremos, talvez até contivesse seus piores impulsos. A isso dou o nome de Medo do Inferno.

Se outrora o “anormal” sentia-se doente diante da aparente virtude das demais pessoas, hoje, em plena liberdade dos costumes, ocorre uma inversão: é o “anormal” que passa a se achar virtuoso diante da sociedade corrompida. O mundo está errado, porém eu ainda entendo a palavra de deus. Daí o desejo de purificar as pessoas ou mesmo puni-las em nome de um deus que aceita e perdoa os poucos que ainda o seguem. A isso dou o nome de Certeza do Paraíso.

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Velho Escritor



Foi no meio da agitação de fim de tarde de uma grande livraria que eu vi o Velho Escritor. Ele estava afundado em uma daquelas poltronas que fazem as pessoas parecerem menores do que efetivamente são, diante de prateleiras de DVDs e jovens vendedores e compradores, todos eles muito apressados. Anônimo, discreto, cinza, com visível dificuldade de locomoção – percebida pela bengala apoiada a seu lado – e gestos muito lentos, o Velho Escritor contemplava as pessoas coloridas à sua volta.

A lembrança de muitas fotos que vi fez com que eu o identificasse, e imediatamente me chamou atenção o contraste entre a pessoa frágil, que parecia quase esquecida em um canto da Livraria, e a mente ágil, que eu conhecia através de seus escritos. Na verdade eu li apenas um livro de sua autoria, que considero uma pequena obra-prima, mas também o conheço pelo seu trabalho realizado ao traduzir grande parte dos livros de Kafka. Sua dedicação à obra de Kafka certamente é um indício de seus interesses e do seu pensamento e, na pequena obra prima que escreveu, a descrição de uma certa cidade do interior paulista muitas vezes alcança tons surreais dignos do autor tcheco.

[Interlúdio Biblioteca-de-Babel: tenho orgulho de minha biblioteca particular e ciúmes dos livros que a compõem. Acredito possuir uns 4 ou 5 mil volumes, quase todos expostos em prateleiras projetadas por mim e adequadas não só aos seus tamanhos diversos, mas também à exibição meio arrogante de minha (vã) cultura. Divirto-me organizando as prateleiras, “promovendo” livros queridos aos lugares mais nobres e “rebaixando” livros dos quais já cansei a lugares mais remotos. Já faz alguns anos que a pequena obra-prima do Velho Escritor encontra-se em lugar nobre, na altura dos olhos, quase no centro da prateleira dos livros de ficção.]

A idéia foi imediata, sequer pensei quando me dirigi ao andar inferior da Livraria e, buscando na letra C, lá encontrei um exemplar da sua pequena obra-prima. Imediatamente tomei o exemplar em mãos e fui ter com o Velho Escritor, ainda afundado na sua poltrona. Aproximei-me pedindo desculpas (quais pensamentos nobres eu estaria interrompendo ? Ok, talvez ele só estivesse pensando na sopa que tomaria no jantar) e disse que ficaria muito feliz se tivesse uma dedicatória em meu exemplar. “Que curioso”, disse o Velho Escritor, “eu estava justamente pensando em que fim levou este livro”.

Trocamos algumas palavras rapidamente, tive oportunidade de lembrar que conhecia a cidade do interior em que se desenrola a trama do livro. Acrescentei que, além de me provocar lembranças, o livro sempre me surpreendeu pela firmeza da narrativa e delicadeza da história. Logo nos despedimos – “Boa sorte”, disse ele – e seguimos cada um para um canto.

Seja como for, hoje posso ler a singela inscrição logo no início do segundo exemplar que agora possuo do Resumo de Ana:

"Ao Gian, com o prazer e a surpresa, o melhor abraço do

Modesto Carone

30 / março 2011"


quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre textos difíceis

Como lidar com textos considerados “difíceis” ? O que fazer diante de uma leitura hermética, que parece não conduzir a lugar nenhum ou que se perde em meandros labirínticos ? A questão é tanto mais premente quanto constato que um número expressivo de meus jovens leitores é, sobretudo, formado por universitários recém entrados na academia e, não raro, ferozes críticos da erudição.

Adoro a ferocidade de jovens universitários. Orgulhosos de seus feitos acadêmicos – que são basicamente limitados, nessa altura, a entrar em uma boa faculdade – acabam usando isso como fundamento “espiritual” e inconsciente para assumir posturas iconoclastas. Meus cabelos brancos e meu suposto pertencimento ao stablishment (embora eu não saiba exatamente qual, além das fileiras humildes do proletariado) acabam por me transformar em alvo de certas investidas intelectuais. Já vi esse filme: cabe a mim desviar-me das pedras arremessadas e tentar levar adiante um debate que, se por um lado nunca dura muito tempo, por outro torna-se interessante justamente devido à fúria iconoclasta juvenil.

Pois eis que, recentemente, em rápido colóquio pela internet (não menos alegre por causa disso), saí em defesa dos textos “difíceis”. Comecei usando a famosa citação de Theodor Adorno segundo a qual a complexidade da realidade faz com que os textos que a descrevem ou tentem entendê-la sejam também necessariamente complexos. Claro que é provocação, pois sabemos que linguagem e mundo são coisas bastante diferentes. (Mas até que ponto ? Longa história). Após uma saudável e inteligente troca de argumentos com meus interlocutores – cuja ferocidade logo deu lugar à serenidade – surgiu um consenso segundo o qual o emprego de uma linguagem “difícil” pode ser perdoado, desde que não seja feito inutilmente (ou seja, quando há alternativas “fáceis”) e nem seja simples exibição de erudição (o que resulta em mera arrogância).

Os consensos me irritam, e a questão continuou me perseguindo mesmo depois do fim do colóquio. Mesmo porque poucos meses atrás, diante da obrigação de ler determinado livro de um “certo” Gilles Delleuze e da minha hesitação em iniciar a leitura do texto, comecei a reclamar longamente sobre a prolixidade e, sobretudo, sobre a aparente falta de sentido de sua escrita. A grande ironia é que eu estava diante de um livro de Delleuze justamente intitulado Lógica do sentido. Fui obrigado a enfrentar e resolver certas questões referentes à minha opinião sobre textos difíceis antes de começar a ler o a tal Lógica do sentido.

A forma como resolvi essas questões me fizeram encarar com mais coragem os “textos difíceis” e me levaram ao ponto de me tornar defensor deles, como por exemplo no recente colóquio citado. O emprego freqüente da palavra “ciência” pelos meus jovens interlocutores me chamou atenção para a forma como lidamos com os textos. Acredito que os que cobram a simplicidade da escrita buscam, acima de tudo, objetividade nos textos lidos. Se um autor pensa de uma determinada maneira, que ele diga claramente o que pensa e pronto. Parece racional, não ? Afinal, tantos autores na “história da ciência” foram simples e claros em suas proposições e argumentos...
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Oras, me pergunto se não haveria uma outra ordem de textos (correspondente a um outro tipo de pensamento), que deva fazer da "dificuldade" sua própria matéria, partindo do pressuposto de que o pensamento não se esgota no texto. Tento ser mais claro: se eu tenho uma opinião e tento transmiti-la, é meu dever ser claro. Porém, se eu parto do princípio que minha opinião não é definitiva – por exemplo, devido à complexidade do tema abordado – tenho a possibilidade de multiplicar os planos possíveis de leitura do meu texto (ou seja, sua complexidade/dificuldade) para que o leitor possa ir além do que fui na investigação do problema proposto. Nesse sentido, um texto passa a se abrir para várias possibilidades de leitura, para muito além daquilo que o autor “quis dizer”.

A analogia que faço é com a pintura. Todos podem ver e apreciar uma pintura figurativa. Há uma infinidade de discursos ou interpretações possíveis a partir da contemplação, por exemplo, de uma Mona Lisa. Porém todos eles devem necessariamente partir do fato incontestável de que se trata de uma mulher parada, vestida de preto e contemplando os observadores com um sorriso discreto. Queiramos ou não, essa é a figura que se apresenta diante dos nosso olhos, e identificamos sua forma porque temos o referencial incontornável da realidade a partir do qual fazemos uma comparação.

Porém, como agir diante de uma tela abstrata ? O trabalho, mental ou interpretativo, solicitado é certamente maior do que no caso de uma tela figurativa. Muitas vezes, o artista sequer imagina o alcance daquilo que vai ser pensado ou sentido a partir da contemplação de sua obra. Uma tela abstrata, assim como textos “difíceis”, representa sobretudo uma abertura para o pensamento, um convite para um trabalho do pensamento que pode ser bastante árduo. da mesma forma, em um texto “difícil” trata-se da possibilidade de “ir além do conceito”, só para citar o velho Adorno ainda uma vez.

Penso também na poesia. O sentido de uma poesia não se esgota no significado das palavras empregadas. Ler uma descrição sobre o rio que passa na minha aldeia pode ser entediante, mas também pode nos levar a verdadeiras sínteses metafísicas. Ou então, para continuar com as metáforas líricas, pedras que surgem no meio do caminho devem ser vistas menos como simples objetos e mais como uma possibilidade de criação de sentido. Quando um texto nos leva a isso, ele certamente cumpriu sua função, tenhamos ou não entendido exatamente o que o autor quis dizer.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Bostonians


17 de fevereiro, 13h35, Logan Airport, Boston.

Boston é o berço da independência dos Estados Unidos, mas é também o berço de uma certa cultura WASP. Penso nisso assim que chego na cidade e vejo as figuras assustadoras de bostonianos loiros de olhos azuis e rostos duros saindo da classe executiva do vôo American Airlines 2062 Miami-Boston. Dessas figuras engravatadas emana poder, quase tanto quanto dos engravatados de Wall Street. Porém, em Boston, ao contrário de Nova York, não se trata do poder econômico mas do político. Boston lembra os Kennedys, lembra Obama e a Harvard Law School que, por sua vez, alimenta a Suprema Corte dos Estados Unidos. Mas não esqueçamos que Boston é também a cidade de Sacco e Vanzetti.

17 de fevereiro, 14h30, M.I.T., Cambridge.

Chego correndo para uma aula no glorioso Massachussetts Institute of Technology. O assunto é História da Física, o professor vai continuar abordando o desenvolvimento da teoria da relatividade como tem feito nas últimas aulas. Que esperar de uma aula em um dos institutos de tecnologia mais avançados do mundo ? Pois a aula foi basicamente giz, lousa e um professor inspirado. Sem nenhum recurso material mais sofisticado, o professor deu o seu recado com uma competência e serenidade profissional exemplares. Sem querer, me vejo aprendendo algo sobre os diagramas de Minkowski.

17 de fevereiro, 14h45, M.I.T., Cambridge.

Quanto aos alunos do M.I.T., ao invés de uma multidão de Sheldons e Leonards, encontro uma turma bem normalzinha, inclusive no seu desinteresse pela aula. À minha frente, alguns dos alunos que usam note-book checam email e facebook a cada 15 minutos. Ao meu lado, uma imbecil passou metade da aula se dedicando a um joguinho qualquer no seu iPhone.

18 de fevereiro, 9h50, Haymarket, Boston

Nevou muito neste inverno, embora eu tenha sido agraciado com alguns dias bem amenos. Porém, a neve permanece acumulada nas ruas em volume espantoso. Não é raro caminhar pela calçada em uma pequena trilha, entre compridos montes de neve empilhada que chegam a um metro e meio de altura. Nos parques, impressionantes montanhas de neve são empilhadas para permitir a circulação de carros e pessoas nas redondezas. E a previsão do tempo anuncia mais nevascas para a próxima semana. Que fazer com tanta neve ? O prefeito sugere nada menos do que uma mega operação para jogá-la no mar. A imprensa, bem humorada, chama o projeto de Boston Snow Party.

18 de fevereiro, 16h20, M.I.T., Cambridge

Há turistas que se dão ao trabalho de visitar o M.I.T., e verdadeiras excursões são organizadas com esse propósito. Alguns laboratórios chegam a afixar cartazes em suas janelas proibindo fotos. Mas os turistas são insaciáceis, e observo que a maior parte deles são chineses. Curiosamente, enquanto chineses fazem turismo em Universidades, os japoneses em geral se concentram nos Museus de arte. Já os brasileiros vão às compras. E assim está traçado o destino do século XXI: a tecnologia será chinesa, a estética japonesa e os trouxas seremos nós.

18 de fevereiro, 19h25, Kendall Hotel, Cambridge.

Cambridge – cidade vizinha a Boston e sede do M.I.T. e Harvard – transpira vida universitária. Divido o simpático hotel onde me hospedo com pais em visita aos filhos universitários e jovens estudantes que vieram passar o fim de semana na cidade, para participar de uma Olimpíada de Matemática ou algo do gênero. No lobby do hotel, tomando um vinho da Califórnia, converso com um engenheiro espacial italiano que veio encontrar o filho. Passo toda a conversa segurando o riso e me contendo para não soltar uma ironia qualquer sobre o insuspeito Programa Espacial Italiano. Quais seriam suas metas ? Colocar um rigatoni em órbita até o final da década ?

18 de fevereiro, 21h15, Union Oyster House, Boston

Resumo de Boston: peixe, marisco, peixe, peixe, lagosta, marisco, peixe, ostras e peixe. E, para esquentar, um prato de clam chowder.

19 de fevereiro, 11h25, Museum of Fine Arts, Boston

Há um belo Museu de Artes em Boston, com uma simpática e abrangente coleção de arte ocidental e incluindo peças que vão do Egito antigo até a época contemporânea, e tudo isso sem descuidar das particularidades locais, com vasto espaço dedicado à arte norte-americana (incluindo afro-american e native-american). Pode-se questionar a validade de um Museu tão enciclopédico, mas seu efeito didático é excepcional. A possibilidade de encontrar Picasso a poucos corredores de distância de máscaras africanas é francamente estimulante. Da sala dedicada ao "impressionismo em Boston” destaquei o quadro que abre o post, de um certo Frederick Childe Hassam, chamado Boston Common at twilight.

19 de fevereiro, 16h10, North End, Boston

Em uma cidade tão WASP, há católicos por todos os lados, irlandeses, portugueses e, sobretudo, italianos. Estes se concentram em North End, bairro simpático pela sua arquitetura red brick e pelo sotaque de seus habitantes: pelas ruas, todas as pessoas falam como se fossem membros da família Corleone. Além disso, North End cheira bem graças ao saboroso aroma que sai de suas muitas cantinas, doceiras, padarias e pizzarias. Entro na Mike’s Pastry, famosa pelos seus cannoli e peço um simples. O atendente leva meu doce até o caixa, mas a moça do caixa se atrapalha tentando abrir um pacote de chicletes e me ignora por um instante. Não resisto. Finjo de bravo e digo a ela: “Leave the gum, take the cannoli”.

20 de fevereiro, 10h15, Miami International Airport, Miami

Não há vôos diretos de Boston para São Paulo, devo fazer uma conexão. Chegando ao aeroporto de Miami, ouço por toda a parte pessoas falando em espanhol. Ufa, finalmente estou de volta aos Estados Unidos.


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(Agradeço ao alegre casal Lucas e Clarissa pela calorosa acolhida em pleno inverno da Nova Inglaterra)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Drops


Nem lá nem cá

Legalmente, minhas férias acabaram. Estou em um “período sem atividades, à disposição do Curso”, mas sei que nada acontece nesses dias. Um ano acabou e outro ainda não começou, para alguns ainda estamos em férias para outros não. Para muitos é época de matrículas em faculdade, mudança de cidade. Na TV, campeonatos estaduais de futebol; no cinema, filmes do ano passado. Quanto a mim, já voltei de uma viagem, mas ainda há outra por fazer. E o calor só aumenta a sensação de limbo.

Memória

“De que afinal somos feitos” – perguntou-se Ferreira Gullar –, “de matéria ou de memória ? Memória não é passado ? Tendo a pensar, fora da lógica aparente, que tudo é presente, todo o vivido, só que, em geral, estamos ocupados demais com o agora para nos darmos conta disso”. Portanto, resta-nos a memória, que nos constitui. E eu acrescento: em épocas de limbo, quando o “agora” fica suspenso, o que nos resta é jogar com a memória.

Borges

Citando Homero, na Odisséia: “Os deuses provocam desventuras entre os homens para que as gerações futuras tenham o que cantar”. Claro que esse cantar invoca a poesia e, como os gregos bem sabiam, a memória. Borges conclui: “Fomos feitos para a arte, fomos feitos para a memória e a poesia; ou fomos feitos, quem sabe, para o esquecimento [pois somos mortais]. Mas algo sobra; e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente distintas”.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fazer amor




Incomodam-me certos usos do verbo fazer. Agora, recém chegado de viagem, penso nas muitas conversas que tive com as multidões barulhentas de brasileiros que viajam para o exterior hoje em dia. Nessas conversas, as referências a viagens realizadas frequentemente eram acompanhadas do verbo fazer. Dessa forma, conheci pessoas que esse ano fizeram Inglaterra, Espanha e França, ou quando foram para a Itália fizeram Roma, Florença e Veneza, e até um mais inspirado que pretende fazer o litoral da Croácia no verão.

A fúria realizadora não se limita aos destinos das viagens, mas a locais específicos. Assim, pode-se fazer o Louvre e a Torre Eiffel em um dia, deixando para fazer Versalhes e Champs Elisées no outro. O ponto culminante dessa orgia empreendedora está na história que ouvi em um alegre colóquio, em que foi citado um parente de não sei mais quem e que, ao visitar museus, ia passando pelos quadros sem parar, apontando rapidamente para cada um e dizendo: “Já vi... já vi... já vi...”. Acho que é essa a mentalidade que faz com que as pessoas tirem fotos ao lado de quadros famosos: fiz o Louvre, já vi tudo e aqui está a prova.

Mas há também a possibilidade de usar esse verbo tão dinâmico para as compras. Assim, é sempre bom reservar um tempo da viagem para fazer a Zara, fazer a galeria Lafayette, fazer o free-shop, e por aí afora. A meu ver, o uso excessivo do verbo fazer reflete a instrumentalidade em que se converteu a experiência que está sendo descrita. Não importa o lugar visitado, mas o ato da visita. Não importa o quadro contemplado, mas o ato físico de percorrer o Museu. Não importa o objeto comprado, mas o fato de compras terem sido realizadas. Trata-se da própria essência do “empreendedorismo”, palavra tão em moda nesses tristes dias: a ênfase está no agir, não importa em relação a que. Fazer é um fim, e não um meio para usufruir das coisas.

[interlúdio bem pouco pop: lembro de velhos filósofos alemães que chegaram a essa mesma conclusão, mas não a partir da análise de viagens ou visitas a museus ou compras, mas investigando as origens do totalitarismo, ou mesmo tentando entender o Holocausto. O deslocamento de ênfase para os fins acaba resultando em um desprezo em relação aos objetos que se encontram no caminho da realização, mas acontece que às vezes esses objetos são pessoas. Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa no Livro do Desassossego, teve essa mesma intuição, e eu escrevi uma dissertação de mestrado falando disso.]

E aqui chegamos ao ponto. Fazer amor, uma expressão que é usada amiúde e, lamento constatar, com o mesmo sentido instrumental dos outros usos do verbo fazer. Outrora, achava que fazer amor era mero anglicismo, simples tradução impensada de make love. Eu evitava usar a expressão, mas há poucos equivalentes adequados. Transar soa para mim como uma gíria dos anos 70 que teve uma sobrevida, e meter é quase tão chulo quanto trepar. Fazer sexo parece artificial, enquanto copular parece saído dos manuais de medicina e fornicar soa proibitivamente bíblico. Claro, minha dificuldade em encontrar uma palavra adequada para descrever o ato sexual já foi objeto de escrutínio, eu apenas poupo os leitores de conclusões que me desvendariam mais do que posso tolerar.

Com o tempo, passei a me acostumar com o termo fazer amor, pois de fato muitas vezes há uma instrumentalização do ato sexual. Longe de qualquer puritanismo, acho que essa instrumentalização pode ser autêntica: damo-nos prazeres físicos de diversas formas, fazer amor é uma delas. Em outras palavras, às vezes realizamos o ato sexual como comemos chocolates.

Porém, muito além de fazer amor, há outra forma de realizar o ato sexual, da mesma forma que podemos viajar ou visitar museus de forma diferente da instrumental. Trata-se de deslocar a ênfase do fazer para o amor, incluindo todas as implicações transcendentes contidas nesta palavra. Trata-se de experiência sobre a qual temos bem pouco controle, e felizes são aqueles que – tendo encontrado um objeto para esse afeto profundo que chamamos amor – acabam por consumá-lo no ato sexual. Pois não existe experiência mais completa que o amor físico acompanhado do amor espiritual que, ao mesmo tempo, amplia a elevação espiritual (temos vontade de dizer “eu te amo” durante o ato) e multiplica a sensação física (que, mesmo restrita ao plano material, passa a ir além do gozo puro e simples).

E de tudo isso, a única coisa que posso concluir é: amemos, seja lá como for.