sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ainda o encantamento...



Anthony Bourdain, meu cozinheiro pop preferido, observa em seus livros que muitas culturas, principalmente em países pobres, orgulham-se de possuir comidas ou bebidas que aguçam o apetite sexual. Essas iguarias afrodisíacas costumam ser oferecidas por vendedores morenos, bigodudos ou asiáticos para turistas ricos, que exploram locais cada vez mais “exóticos” conforme os destinos turísticos tradicionais vão se esgotando cada vez mais rapidamente. Agindo assim, esses vendedores acrescentam mais cor ao país distante, e aquelas velhinhas americanas ou inglesas, protestantes e semi-castas, podem rir das ofertas feitas por vendedores nativos, enquanto se abanam desesperadamente sob o calor – ficando cada vez mais vermelhas – e pensam como seria bom se seus maridos desinteressados e desinteressantes cedessem por pelo menos uma noite às tentadoras ofertas dos trópicos.

Os mercados de Istambul, outrora freqüentados por genoveses ricos e venezianos gananciosos, local de um comércio sofisticado de seda e porcelana, além de caras especiarias, hoje em dia oferecem “Turkish viagra”, assim mesmo, em inglês, sob a forma de tâmaras secas com recheio de nozes. Pelos mercados do mundo, anunciam-se as propriedades miraculosas do ginseng, guaraná e catuaba, bem como do açafrão, canela, cardamomo, endro, gengibre, alho e até aspargo. Para os carnívoros, sempre existe a possibilidade de ganhar vigor ingerindo testículos de boi, ovos de codorna, sopas de tartaruga e cobras preparadas de várias maneiras. Parece mesmo que em algumas regiões da África os rabos de leão são bem apreciados. Mas há ainda os frutos do mar, lembrança tardia dos testículos de Urano jogados no oceano, e cuja espuma em ondas fez nascer Afrodite: mexilhões, ostras, vieiras e o próprio caviar disputam a primazia do afrodisíaco marinho por excelência. Isso para não falar das frutas, abacate, romã, figo, cereja e morango. Um pouco mais elaborados, encontramos amendoim torrado, paçoca, mel, chantilly e chocolate. E as bebidas, como gemada, vinho, tequila, licores, absyntho, bloody mary e dry martini.

Claro, há os estimulantes químicos e a caixa de entrada de meu email, com seu precário filtro de SPAM, me transformou em um profundo conhecedor das nuances desse mercado. Diariamente me oferecem viagra, cialis, levitra e até o exótico PPG, o “viagra cubano”. Raro é o dia que não recebo várias dessas propagandas que, curiosamente, vêm sempre identificadas da mesma forma, tendo como assunto “Aumente seu p* !”. Curiosamente também recebo várias mensagens intituladas “Aumente seus lucros !”, o que me faz pensar no caráter fálico da economia capitalista, com seus gráficos reluzentes e arranha-céus majestosos.

Homens, escravos do olhar, deixam-se levar pelas imagens, e esse é todo o segredo do império de Hugh Heffner. Não há nada mais afrodisíaco do que contemplar corpos femininos desnudos, seios, pernas, nádegas. E pescoço, costas, ombros, alem, claro, dos genitais. Ou mesmo a sutil ocultação dessas partes: decotes, mini-saias, biquínis. Alguns se fixam em locais pouco comuns, como pés ou mãos, e já conheci ao menos uma pessoa que tinha uma estranha fixação por axilas. Mas os olhos podem ter efeitos afrodisíacos, bem como o cheiro que exala da pele, para alguns o perfume e para outros o próprio suor. Levando as fantasias adiante, há pessoas que se ligam em visuais de bombeiro, enfermeira, operário, empregadinha chique, batman, sei lá mais o que pode inventar uma mente humana.

Mulheres, essas criaturas românticas, encontram o estímulo afrodisíaco em situações, como a luz de velas, dançar junto uma música romântica, o simples ato de dar as mãos em um momento especial. Uma massagem delicada. Ou mesmo uma mera caminhada noturna (talvez sob a chuva, talvez em Paris), uma manifestação pública de afeto, palavras sinceras cochichadas no ouvido. Foi de uma mulher que ouvi pela primeira vez um comentário sobre o “estranho efeito afrodisíaco que é provocado pela inteligência masculina”, e eu não sei até hoje se ela se referia a mim. Longe de um comentário machista, essa constatação demonstra a delicadeza da percepção feminina: enquanto homens gostam de “bundas”, mulheres admiram coisas como a inteligência.


Mas nada disso importa. A infinidade de afrodisíacos que existe acaba escondendo aquele que talvez seja o único real estimulante físico que conhecemos, e que acaba englobando todos os outros. Pois o único afrodisíaco verdadeiro que existe é nada menos que o próprio amor.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O encantamento do mundo


Havia uma propaganda em um desses canais de TV a cabo da vida – talvez o History – , que mostrava uma moça passeando por uma praia deserta. Lentamente, a imagem da moça ia sumindo e em seu lugar aparecia na mesma praia uma cena de batalha monstruosa, com fuzileiros navais desembarcando sob fogo e morrendo aos montes na areia. Porém essa imagem logo desaparecia e voltava a moça caminhando, ouvindo-se agora o grito solitário de uma gaivota.

Chama-me atenção essa capacidade de encantamento do mundo, ou seja, de dotar as coisas (objetos, gestos, lugares, seja o que for) de propriedades que elas aparentemente não possuem. A memória do passado tem a capacidade de criar encantamento e, na propaganda que descrevi, a simples passagem do tempo se encarregou de transformar a simples praia de um local de veraneio em um lugar cheio de significado. Na historiografia francesa isso é chamado de lieu de mémoire, lugar da memória.

Além do tempo (portanto, além da memória e da história), a linguagem também tem essa capacidade de promover o encantamento, seja através da poesia e literatura, seja através do discurso. Por exemplo, a humilde rua dos Douradores é uma rua como as outras no bairro da Baixa em Lisboa – uma rua até desinteressante se comparada com as outras próximas – , mas foi ali que viveu Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, autor do Livro do Desassossego. No começo do ano, procurando os Correios em Lisboa, perguntei para nossa guia, a doce Idália, onde ficava a agência mais próxima do glorioso Hotel Mundial onde estávamos. “Tem uma logo aqui na rua dos Douradores", ela disse. E perguntou: "Você conhece ?”. Respondi: “Bem mais do que você imagina”, lembrando que minha alma costuma vagar por essa rua mesmo quando estou do lado de cá do Atlântico.


Orhan Pamuk, no seu último romance, Museu da Inocência, constrói uma densa narrativa a partir de objetos (e lugares) recolhidos mais ou menos ao acaso. Não contente em tecer um romance a partir dos objetos, Pamuk efetivamente transformou-os no acervo de um Museu, organizado por ele em Istambul com essa finalidade. O ingresso se dá através da apresentação de um bilhete que vem impresso no livro; na edição brasileira, à página 550.

Finalmente, o tempo compartilhado também tem essa capacidade de criar encantamento. É quando do convívio de um homem e uma mulher cria-se memória, através da associação de objetos a momentos vividos, ao tempo passado em conjunto. O local onde foi trocado um olhar mais significativo ou onde foi dado um beijo mais apaixonado ou simplesmente onde simples mãos dadas expressaram emoções mais fortes, todos esses locais ganham significado e permanecem impressos na memória de forma encantada. Assim, um mísero, sei lá, estacionamento, pode se transformar em um local que jamais voltará a ser visitado sem provocar o assalto da memória.

Quando um homem e uma mulher conseguem produzir encantamento, juntos eles criam mundos. Trata-se de mundos que só têm significado para eles, e que andam entrelaçados com o mundo real, transformando lugares (e objetos e gestos) bobos do cotidiano em lugares enfeitiçados. Mas talvez seja essa a única forma possível de dar realidade a esses lugares frios e funcionais: pode existir algo mais irreal do que um estacionamento vazio com suas paredes de concreto ? A única realidade possível do mundo talvez seja o encantamento. O encantamento dá sentido.

Quando o acaso junta duas pessoas e elas descobrem seu poder de criar mundos e em seguida elas passam a habitar esses mundos enfeitiçados, não conhecendo outro lugar melhor para habitar, então não há dúvida: impossível explicar esse encontro senão pelo seu nome mais grandioso.

domingo, 29 de maio de 2011

A balada de Helmwig

(no intuito de entreter os alegres leitores do blog, inauguro hoje um Folhetim, cuja continuidade é bastante duvidosa. Apesar da pesquisa histórica rigorosa, os fatos aqui narrados e os personagens citados são todos fictícios. Ou não, porque essas coisas, no fundo, a gente nunca sabe.) (trilha sonora: http://bit.ly/jdZH1m )


O grande Simonbert

Nossa história começa na época das grandes migrações, quando Simonbert atravessou o Reno e vagou por alguns anos pelos territórios do antigo Império. Seus olhos viram coisas que jamais iria esquecer: cidades em ruínas, povos em fuga, a fome fazendo seus estragos. Mães degolaram os filhos, e com seus corpos saciaram a fome. Diante de tanto sofrimento, o jovem Simonbert chorava, mas seu coração endurecia. Entrou em contato com a doutrina do homem na cruz e mesmo sem se converter passou a crer na sua mensagem de paz, sem no entanto descuidar da prática da guerra.

Simonbert tornou-se um grande guerreiro, mais por necessidade do que pelo gosto. Em pouco tempo, sua habilidade com as armas ficou conhecida, manejando com igual competência a espada e a maça, o martelo e a lança. Alguns guerreiros, provenientes de outros povos, passaram a segui-lo e certa ocasião, após sangrenta batalha, os bravos de Simonbert tomaram o castelo de Thamandor, que se tornou sua residência permanente. Das terras vizinhas vieram os camponeses, humildes, trazendo presentes e explicando os costumes da terra.

Thamandor prosperou. Seus guerreiros eram os mais habilidosos da região, fazendo incursões à cavalo pela Raetia e Panônia , navegando até a Mércia e Anglia. Partiam para fazer a guerra na primavera, retornando no outono com suas listas de territórios atravessados e castelos saqueados. Após a leitura das listas, realizava-se a maior festa do ano, com o sacrifício de bois e ovelhas, além de iguarias trazidas de longe e jarras de hidromel à vontade. Simonbert, ele mesmo participante de várias incursões, contava com o apoio e fidelidade de seus homens, e freqüentava alegremente as assembléias de guerreiros, tanto em torno da grande mesa do salão de Thamandor quanto em volta das altas fogueiras nos acampamentos de guerra.

E Simonbert acabou tornado-se rei, muitas vezes concedendo feudos a seus guerreiros. Mesmo assim, estes ainda frequentavam as assembléias, onde conversavam sobre seus feitos, trocavam suas experiências e prestavam homenagem ao maior de todos eles, Simonbert. Um dia, o rei passou a medir a habilidade de seus guerreiros através das orelhas cortadas de cavaleiros inimigos abatidos. Duas vezes por ano, Simonbert recebia gordos sacos de estopa cheios de orelhas, com os guerreiros recebendo os prêmios ofertados pelo rei para quem atingisse as maiores marcas. Foi quando Zydguell, que soltava fumaça pelas ventas, trouxe pela primeira vez um saco com 93 orelhas. Anos depois, Usbengar, que era bravo como os lobos, atingiu a marca de 95 orelhas. Finalmente, o bardo Marcylbert, que andava com o alforje sobre os ombros, começou a trazer 98 orelhas em cada saco.

O pequeno Helmwig

Pobre Simonbert, que jamais teve um herdeiro à sua altura. Seu filho, o pequeno e taciturno Helmwig, bem que tentou. Após alguns anos de treinamento formal, que incluíram uma viagem aos locais sagrados do Oriente, Helmwig passou a freqüentar as reuniões de guerreiros, sob os olhares suspeitos de Simonbert que não confiava na forma como o filho manejava a espada. Certo dia, após uma reunião em que Helmwig se gabava de sua habilidade e das mudanças que faria quando assumisse o lugar do pai – de acordo com o costume do reino –, Simonbert perdeu a paciência. Chamou sua atenção na frente dos guerreiros e disse:

– Você não está preparado para sentar-se à essa mesa. Venha, dê-me essa espada, farei melhor em guardá-la para você.

Cabisbaixo diante de tal humilhação, o pequeno Helmwig não teve coragem sequer de encarar os guerreiros que, com honra, não expressaram sua satisfação íntima de vê-lo derrotado e preferiram ocultar qualquer sorriso de escárnio diante daquele que, um dia, por bem ou por mal, ainda viria a ser seu rei. Para completar a humilhação, Simonbert ainda acrescentou:

– Vá. Vá ter com as mulheres, talvez elas lhe ensinem algo antes que você possa ter o respeito de todos.

Durante longos invernos, Helmwig vagou desapercebido pelos salões e terraços de Thamandor. Esteve com as mulheres, que o acolheram com simpatia. Elegeu como preferidas Angelred, que fazia contas como ninguém; Elanfled, que chefiava todas as outras e Hosarwid, que veio das altas montanhas e acreditava no deus como outrora acreditara no demônio. Nesse tempo todo, o pequeno Helmwig – sempre acompanhado de Milwin, o eunuco – ouvia o ruído infinito das conversas femininas e presenciava suas intrigas, participando delas como juiz supremo. Lentamente e sem saber, Helmwig passou a ter o gosto da conversa, porém sempre diante das mulheres e calando-se ou desaparecendo silenciosamente quando da aproximação de um guerreiro, praticando diante deles o silêncio hesitante e se escondendo, desconfiado, por trás da falta de ação

O reinado de Helmwig

A morte de Simonbert foi chorada por todos, mulheres e homens, tanto guerreiros como camponeses e clérigos. Para evitar uma luta interna, respeitou-se o costume da terra, e Helmwig tornou-se rei. De imediato, construiu uma sala do trono em Thamandor, alguns andares acima do salão onde se reuniam os guerreiros e próximo dos aposentos das mulheres que tanto lhe inspiravam confiança. Mandou dizer aos guerreiros que continuassem com suas campanhas de verão, que mantivessem o ritual das listas e que as orelhas decepadas continuariam sendo premiadas. Mas ele, Helmwig, jamais desceu à assembléia ou confraternizou com os guerreiros, para quem sequer conseguia olhar. Diziam até que ele se aconselhava com as mulheres. Pois em cada guerreiro Helmwig via uma sombra de seu pai e de sua humilhação na juventude. Em cada audiência ou conversa fortuita com um guerreiro, Helmwig mostrava sua insegurança.

Com o tempo, aprendeu a falar com os guerreiros, descobriu que o simples uso da coroa poderia provocar respeito. Por medo de ser humilhado e para não ter que ouvir a voz dos guerreiros, Helmwig passou a tecer uma fala ininterrupta. Entrevistas de quinze minutos acabavam sem que o guerreiro solicitante pudesse balbuciar uma ou duas palavras.

Ao mesmo tempo, Helmwig começou a mandar habilidosas embaixadas para territórios distantes, oferecendo proteção aos povos de longe. Vários senhores em vastos territórios, mesmo os mais afastados, todos conhecedores da força bélica dos guerreiros de Thamandor e temerosos de uma conquista, submeteram-se em vassalagem, configurando os Novos Territórios do reino. E aquilo que era um reino acabou se tornando quase um império.

Vinte anos após a passagem do cometa, iniciaram-se as incursões dos saxões, que passaram o ocupar os velhos guerreiros bem como uma nova e habilidosa geração de combatentes que já surgia à sombra da antiga. Enquanto os saxões eram derrotados, e pilhas cada vez maiores de orelhas eram coletadas, Helmwig desviava seu olhar para os Novos Territórios vassalos e suas riquezas aparentemente fabulosas. Foi quando teve a idéia de reforçar o império que se formava enviando os velhos guerreiros para instruir jovens cavaleiros em todos os Novos Territórios vassalos. Convocou uma reunião e, com empáfia, desceu para falar com os guerreiros reunidos em assembléia. Tomou a palavra, como de hábito sem aceitar interrupções, e falou da importância de reforçar os Novos Territórios para mantê-los, pois a disputa com outros reinos era intensa. Sugeriu que alguns dos velhos guerreiros passassem temporadas nos Novos Territórios, com a finalidade de adestrar os mais jovens.

– É do interesse de todos, é até um pedido que os guerreiros dos Novos Territórios nos fazem. Eles querem ser instruídos, saber como manejamos as armas e como nos preparamos para a guerra.

Em seguida, Helmwig começou a indicar as atribuições de cada guerreiro. Foi quando Grimann, que volta e meia trazia 100 orelhas de suas incursões, ergueu-se e ousou interromper a fala do rei:

– Posso estar enganado, mas não convém nos afastarmos do litoral quando a cada ano os saxões batem à porta. Se eu partir para Linz, no Danúbio, para onde me pretende enviar, e receber a notícia de que os saxões mais uma vez desembarcaram, terei que voltar às pressas. Chegarei exausto, assim como meu cavalo, e terei dificuldade para executar a atividade de guerreiro que sempre tão bem desempenhei.

Nesse momento, Helmwig se transformou. Vendo-se contestado e sentindo-se ameaçado, Helmwig sentiu a sombra do pai passando mais uma vez pela sua frente. Transtornado, gritou, feito uma criança:

– Sabe o que eu penso de você, na verdade, Grimann ? Que você tem medo ! Que você tem medo de encarar os guerreiros de Linz. Você tem medo que eles saibam que você não é tão melhor que eles assim... medo ! Medo !! MEDO !!!

E assim termina a triste história do pequeno Helmwig.

domingo, 15 de maio de 2011

Oh, shyn Higienópolis !

Se me perguntassem quais os maiores problemas da cidade onde moro, não hesitaria em responder: violência e pobreza, feiúra e um trânsito impossível. Deixo a violência e a pobreza para outra ocasião: são dois problemas imensos cuja solução está além da esfera de atuação da administração municipal e, portanto, menos sujeitos a atuação cotidiana dos cidadãos, bem diferente da feiúra e do trânsito.

Décadas de escolhas erradas fazem do trânsito de São Paulo ser o inferno que é. O postulado do urbanismo – já provado desde as reformas de Robert Moses em Nova York na década de 1960 – segundo o qual avenidas “criam” o seu próprio trânsito, tem sido ignorado desde há muito. O furor pavimentador bem como a idéia de que o prefeito deve deixar grandes obras para a população (de preferência concluídas durante o mandato de quatro anos) faz com que realizações de longo prazo, como o metrô, sejam solenemente ignoradas, incluindo aí o descaso do governo estadual. (Sempre lembrando a bela oportunidade de “fazer caixa” que uma grande obra viária proporciona em apenas quatro anos) Ao mesmo tempo, o desprezo com a estética faz com que a cidade seja uma das últimas do mundo que ainda tem fiação elétrica aérea, tornando a paisagem uma verdadeira plantação de postes de concreto irremediavelmente desalinhados e carregados de uma fiação pesada, suja e a cada vez mais densa.

Por trás desses descalabros, a mentalidade paulistana que valoriza o privado em detrimento do público. Se eu consigo ter ( = pagar por) um espaço privado satisfatório, para que me preocupar com o público ? Se eu tenho um belo automóvel – que me permite passar como um raio pelas ruas feias e cheias de gente, de preferência por um túnel – para que me preocupar com transporte coletivo ?

A cidade é um lixo, é só vai começar a deixar de ser com uma mudança de comportamento. Falo da necessidade de volta às ruas, de valorizá-las como local de encontro e não só de passagem. Por que Paris é legal e São Paulo não é legal (excetuando-se os lugares privados, claro) ? Porque as ruas de Paris são legais, andar pelos bairros - qualquer bairro - é legal. Oras, o espaço público deve ser convidativo e não agressivo, e um ponto de partida é lutar pela sua estética: calçadas regulares, fiação elétrica subterrânea, mais verde. Por que não aproveitar a queda na criminalidade (peraí, alguém acredita nos números oficias ? Bem, são os que temos) e promover o retorno às ruas ? Sair dos carros e ocupar as calçadas. Disso tudo faz parte valorizar o metrô. É a nossa única saída. “Ah, mas o metrô é cheio”; lógico, as linhas são poucas. “Ah, mas metrô é solução para longo prazo”; ok, faz vinte anos que acompanho o debate público e ouço esse argumento, já está mais do que na hora de fazer algo a respeito, não ?


Essa semana, alguns moradores de Higienópolis rejeitaram uma estação do metrô planejada usando como o argumento o fato de que traria muita gente e muita movimentação para o bairro, isso para não falar da possibilidade de instalação de comércio de rua, de camelôs, diante do local da futura estação. Amigo meu, morador do bairro, disse com convicção: “Queria ver se fosse você, que tivesse que conviver com um camelódromo na porta de casa”. Péssimo argumento, porque eu adoraria ter uma estação na porta de casa. Um estação do metrô não é sinônimo de camelódromo. Ter na porta de casa duas ou três barracas precárias é um preço mínimo a se pagar por mais metrô na cidade. Dizer “não” ao metrô, sob que circunstância for, significa contribuir para que a cidade continue um lixo. A forma como os bravos moradores bravos de Higienópolis reagiram denunciou sua excepcional opção pela afirmação do interesse privado diante do público, justamente em assunto vital para a cidade.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Tentando entender (e me divertindo enquanto isso)



Sem dúvida, o mundo da Guerra Fria era bem mais fácil de entender. Na época existiam dois blocos, duas ideologias, duas visões de mundo, e se você escolhia uma, a outra tornava-se inimiga. A ética subordinava-se a escolhas que eram bem mais do que simplesmente ideológicas: ser de esquerda implicava em abraçar a causa da Humanidade, que tudo justificava, ser de direita significava combater a possibilidade do totalitarismo, que tudo massacrava.

Poucos antes da Guerra Fria, o presidente norte-americano Franklyn Roosevelt teria dito uma frase que exprime bem o universo de valores que logo se tornaria predominante. Falando sobre o ditador anti-comunista da Nicarágua, Anastasio Somoza, que ainda sobreviveria no poder por longos anos, Roosevelt disse: “Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch”. Na importa o que você faça, o importante é jogar no time certo.

No Brasil, a situação era mais clara ainda. Havia a ditadura, e tudo se justificava diante do primado de combatê-la. Ou então, em um registro um pouco mais sinistro: haviam os “terroristas” de esquerda, e tudo se justificava para enfrentá-los. Tal postura refletia-se no cotidiano. Meu amigo mente... tudo bem, ele é de esquerda. Meu colega rouba... tudo bem, ele é anti-comunista. Após o final da luta armada, lá por volta de 1975, os radicalismos se abrandaram, mas a ética permaneceu dissolvida: não importavam os atos que se cometiam, mas a bandeira que se desfraldava.

Imagino que em certos casos viver ou crescer nesse mundo acabou gerando um, digamos, deficit ético. Pior ainda se levarmos em consideração que a geração que foi jovem nos anos 1970 teve em seguida que encarar as assim chamadas décadas perdidas de 1980 e 1990, talvez o pior momento da história econômica do Brasil em todos os tempos. As oportunidades de trabalho minguavam, as remunerações eram irrisórias e, durante muito tempo, a inflação devastadora. O clima generalizado de “salve-se quem puder” era deprimente. Diante da dura luta pela sobrevivência, os valores foram mais uma vez chacoalhados: tenho filhos para alimentar, pais idosos para cuidar... vou lá me preocupar com detalhes ? Abre logo o caixa dois. Fraude no imposto de renda. Caixinha. Esquemas. Foi a instauração generalizada dos fins justificando todos os meios. Agora, não era mais o caso de salvar a Humanidade ou enfrentar a barbárie: tratava-se de continuar vivo. Talvez o maior símbolo da época tenha sido o Plano Collor: em nome do combate à inflação, vale tudo, portanto que se confisquem as contas bancárias !

Cheguei tarde para luta contra a ditadura. Quando comecei a pensar no mundo para além do quintal de casa, o AI-5 já havia sido revogado. Meu “combate” se limitou a uma participação rápida no comício das Diretas-Já na Praça da Sé. O do Anhangabaú ? “Ah, vai estar muito cheio...”. (Mais tarde, teria fôlego para vaiar o candidato Collor em praça pública e, pela primeira vez, levar um spray de gás lacrimogêneo na cara). Porém, tive que encarar as décadas perdidas. Comecei a trabalhar no final dos anos 1980 e jamais esquecerei que com todo o meu impressionante primeiro salário, comprei um livro. Repito, um livro (o Drácula, de Bram Stoker).

Na época, diante de tais circunstâncias, deslizei na ética uma ou duas vezes (quem sabe três etc...). Porém, acredito que há pessoas que passaram por esses tempos sombrios e carregam um deficit ético até hoje.

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Dia desses identifiquei um comportamento bem pouco virtuoso em um Dinossauro sobrevivente da Guerra Fria. Ao denunciar certo procedimento duvidoso, tive que ouvir uma reação furiosa que começou com: “Puxa Gian, isso é patrulha ideológica, você está pior que a ditadura !” A frase saiu assim, de chofre, transbordou do inconsciente como verdadeira revelação: diante de fraqueza ética, desfraldaram-se bandeiras ideológicas, na tentativa de delimitar campos políticos para desqualificar o interlocutor. Insisti na argumentação serena (ok, fui irônico pra cacete), e ouvi em seguida: “O que você quer, tomar meu dinheiro ?”. De repente, o meu comentário técnico (vá lá, em tom de denúncia), provocou o medo da perda de meios de sobrevivência. Percebi que aquela conversa estava começando a provocar uma reação catártica.

Para encerrar, lá pelas tantas o Dinossauro me disse mais uma frase reveladora: “Pega essa sua ética e enfia no c. !” Nesse momento, dei um drible no esprit de l’escalier e respondi: “Bom, se eu enfiar a sua, não vai nem fazer cosquinha !”.

domingo, 24 de abril de 2011

Notas sobre a multidão



Ce grand malheur, de ne pouvoir être Seul

Em 1840, o escritor norte-americano Edgar Alan Poe escreveu o pequeno conto “O homem da multidão” (The man of the crowd). Trata-se da breve narrativa de um personagem (o narrador) que, de dentro de um café ou bar, contempla a passagem das pessoas na rua até que avista um certo indivíduo na multidão, “um velho decrépito de sessenta e cinco a setenta anos de idade”, com a expressão marcada por uma “absoluta idiossincrasia”. Obcecado com a visão, o narrador passa a segui-lo pelas ruas de Londres, tarefa que se estende por horas a fio e termina somente ao amanhecer, com o velho prosseguindo na sua caminhada aparentemente interminável e o narrador concluindo: “Esse velho (...) é o tipo e o gênio do crime profundo. Recusa-se a estar só. É o homem da multidão. Será escusado segui-lo: nada mais saberei a seu respeito ou a respeito de seus atos”.

O interesse histórico despertado na narrativa está no fato de que o principal “personagem” colocado em cena pelo autor, e objeto acurado de descrição nas primeiras páginas do conto, é nada menos do que a multidão. Trata-se de uma novidade, trazida à cena pelos avanços da Revolução Industrial ao longo do século XIX e pela acelerada urbanização daí decorrente. O fenômeno chamou atenção dos contemporâneos, que passaram a ver na multidão ao mesmo tempo um objeto de admiração e medo, e a descrevê-la alternadamente como massa amorfa e soma de infinitos detalhes.

O advento da multidão e, sobretudo, fazer parte da multidão, acabou implicando no desenvolvimento de certas habilidades. O morador da grande cidade deve aprender novas operações do olhar, que possibilitem a sua sociabilidade e possam servir até como garantia de sobrevivência. “Viver numa grande cidade implica o reconhecimento de múltiplos sinais. Trata-se de uma operação do olhar, de uma identificação visual, de um saber adquirido, portanto. Se o olhar do transeunte que fixa fortuitamente uma mulher bonita e viúva ou um grupo de moças voltando do trabalho, pressupõe um conhecimento da cor do luto e das vestimentas operárias, também o olhar do assaltante ou do policial, buscando ambos a sua presa, implica um conhecimento específico da cidade” (M.S.Bresciani – Londres e Paris no século XIX).

O narrador de Poe, observador da multidão de dentro do café, demonstra possuir um olhar bastante arguto que utiliza para caracterizar minuciosamente os personagens da multidão, como mostram bem as primeiras páginas do conto. Devemos acreditar nele quando vê algo “diabólico” no velho e passa a segui-lo: nesse momento, o narrador deixa de ser um observador da multidão e passa a fazer parte dela.

O que significa estar na multidão, ou ser parte da multidão ? Multidão é anonimato, refúgio: estar na multidão e não sair dela por si só já implica em possibilidade de crime cometido. Ou, como observou Walter Benjamin, a multidão atrai quem não se sente seguro na sua própria sociedade. Além disso, a leitura arguta de Benjamin chama atenção para o seguinte trecho no conto de Poe, que fala do fluxo das pessoas na rua: “pareciam apenas pensar em abrir caminho através da multidão...se recebiam um encontrão de outros transeuntes não se mostravam irritados, ajeitavam a roupa e seguiam em frente... se tivessem que parar, paravam de murmurar... se eram empurrados, cumprimentavam as pessoas que as tinham empurrado e pareciam muito embaraçadas”. No trecho, Benjamin identifica no comportamento da multidão uma mimese do trabalho na fábrica: age-se por reflexo, impensadamente. Estar na multidão traz alguma alienação, implica na familiaridade com o próprio processo de produção, cada vez mais automatizado.

As ruas da Londres de Poe são iluminadas por lampiões a gás cuja luz, mesmo quando mais intensa, é apenas “trêmula” e provoca “fanáticos efeitos” (“wild effects of light”). A “neblina úmida e espessa” apenas contribui para dar à multidão um aspecto cada vez maior de fantasmagoria. Ainda seguindo Benjamin, o conceito de fantasmagoria é fundamental para a própria compreensão da sociedade capitalista que ganhava corpo ao longo do século XIX: é a imagem de algo que está ausente, de uma projeção do pensamento sobre, por exemplo, um objeto. Na sociedade capitalista, essa imagem é considerada como o real: trata-se de considerar a ilusão como imagem mental que percebe o mundo. Já o indivíduo convertido em fantasmagoria é aquele cujo trabalho tornou-se mera abstração, não estando mais vinculado a uma habilidade específica ou tarefa a ser realizada, mas simplesmente unidade de força medida através do tempo.


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(O texto acima foi escrito como parte de uma atividade da cadeira de inglês do Anglo, com o nosso querido professor Pantoja. O conto de Poe, em inglês, pode ser lido na íntegra em: http://bit.ly/f3MwCK )

sábado, 9 de abril de 2011

Alô, alô, torcida do Flamengo

1 Me pergunto por que diabos no Brasil as tragédias atraem multidões. Quase sempre vestindo bermudão, chinelo e camiseta, pessoas podem ser vistas se acotovelando diante das câmeras de TV ou apenas paradas ao longe, contemplando a cena, mãos para trás e com os quadris inclinados, numa tentativa de descansar as pernas depois de tantas horas em pé. Se o episódio for no Rio de Janeiro, a camiseta invariavelmente será do Flamengo.


Acredito que o que leva essa gente para o palco das tragédias é o estranho e jamais confessado desejo de ver o sofrimento alheio, o que no fundo expressa uma forma de regozijo diante da própria sobrevivência. Acho até que é esse mesmo sentimento que leva as pessoas a darem uma desaceleradinha no carro e espichar a cabeça para fora da janela quando se passa ao lado de um acidente. Nessa hora, pouco importa piorar o trânsito que vai se formando em uma via já parcialmente interditada, o que interessa é ver sangue. Ou então, não é nada disso, apenas o desejo de se distrair do tédio.

O fenômeno está longe de ser novo. Lima Barreto, em Triste fim de Policarpo Quaresma, dá uma viva descrição da Revolta da Armada de 1893 no Rio de Janeiro, episódio que ele presenciou:

Os soldados já estavam nas trincheiras, armas à mão; o canhão tinha ao lado a munição necessária. Uma lancha avançava lentamente, com a proa alta assestada para o posto. De repente, saiu de sua borda um golfão de fumaça espessa: Queimou! -- gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto, zunindo, cantando, inofensiva. A lancha continuava a avançar impávida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um destes que gritara: queimou!

E assim sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa, às trincheiras, atrapalhando o serviço; em outras, um cidadão qualquer, chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá licença que dê um tiro? O oficial acedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.

Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade


2 Na tragédia do Realengo, a imagem mais impressionante talvez tenha sido a de um desses observadores anônimos (devidamente vestido de bermuda sem camiseta) beijando a mão do policial que deteve o Atirador. A mão direita, que efetuou o disparo. Nessa foto, a estúpida busca de heróis convive com o desejo de santificá-los, demonstrado por um ato de subserviência normalmente praticado em cerimônias religiosas (e mesmo nessas, o beija-mão sempre causa algum constrangimento). Parece que não era somente o Atirador que vivia em um estado de pobreza espiritual compensada por uma religiosidade mórbida: sua platéia também.

3 “Lavem meu corpo, me enrolem em branco, me enterrem ao lado de minha mãe”, diz o testamento do Atirador. E pronto, está tudo resolvido. Estranha essa relação com deuses que tudo perdoam. Até quando vamos continuar insistindo nessa bobagem de vida eterna e perdão para os “puros de alma” ? Penso que, no passado, quando o discurso da virtude era predominante e os vícios ocultados, qualquer pessoa que se achasse “anormal” (assassino, estuprador, pecador) remoía-se em uma culpa que, em casos extremos, talvez até contivesse seus piores impulsos. A isso dou o nome de Medo do Inferno.

Se outrora o “anormal” sentia-se doente diante da aparente virtude das demais pessoas, hoje, em plena liberdade dos costumes, ocorre uma inversão: é o “anormal” que passa a se achar virtuoso diante da sociedade corrompida. O mundo está errado, porém eu ainda entendo a palavra de deus. Daí o desejo de purificar as pessoas ou mesmo puni-las em nome de um deus que aceita e perdoa os poucos que ainda o seguem. A isso dou o nome de Certeza do Paraíso.