segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Retorno do Ser

“Eu sou...” não se começa uma frase assim impunemente. Dizer “eu sou” traz infinitas implicações e a mais séria delas talvez seja a crença de que o Ser se define pelo próprio sujeito, quando na verdade é bem possível que aquilo que somos só seja efetivamente percebido pelo Outro. “Você é...” certamente causa muito mais preocupação – e está muito mais próximo do verdadeiro - do que um simples e surrado “eu sou”. Aliás, sempre desconfiei das pessoas que insistem em começar frases com "Eu sou...” e chega até a ser meio comum ouvir aqueles que começam frases com “sou o tipo de pessoa que....”. Essas frases costumam ser mais profissões de fé do que qualquer outra coisa – wishful thinking, alguns diriam. Ou então, pura insegurança: tenho que sair por aí dizendo o que sou, caso contrário corro o risco de ser nada.

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Conto pela milésima vez a mesma história, que envolve meu sobrinho (“quando deus não dá filhos o demônio manda sobrinhos”), então com uns 5 ou 6 anos de idade. Sua mãe e sua professora conversavam na saída da escola e eis que a tia diz: “Mas este menino tem muito boa índole !”, ao que a mãe orgulhosa respondeu, “Sim é verdade, ele tem boa índole !”. O moleque, perplexo ficou contemplando os adultos: pois e não é que sua mãe (principal enunciadora da verdade quando se tem 6 anos de idade) e a professora (mãe ersatz durante parte do dia) concordavam que ele possuía boa índole, e o moleque não fazia a mínima ideia do que isso queria dizer. Ou seja, afirmava-se o Ser do pimpolho, mas ao mesmo tempo ele era mantido na ignorância sobre seu significado, uma situação francamente perturbadora.

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O fato é que nos últimos meses, o mundo acabou acrescentando dois novos complementos ao meu Ser. A primeira delas é “Eu sou chefe”, fruto de uma evolução profissional mais ou menos normal ou previsível. Porém, certas coisas mudaram desde que “Eu sou chefe”. Amigos tratam-me diferente, as pessoas em geral tornaram-se mais atenciosas: ouço bom dia onde antes não ouvia, percebo subitamente que minhas piadas tornaram-se tremendamente engraçadas. Além disso, há uma tendência muito maior de as pessoas ouvirem o que eu falo, mesmo com o conteúdo da minha fala permanecendo o mesmo do tempo em que “Eu não era chefe”.

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A nomeação burocrática mudou a minha forma de inserção no trabalho, bem como parte da minha interação social. Querendo ou não, passei a ter nas mãos um certo poder; bem escroto, é verdade, mas ainda assim um poder. Minha fala deixa de ser descompromissada: agora tudo que digo tem efeitos de poder, que podem se realizar ou não. Por exemplo, meu mau-humor matinal, que me levava a dizer raros bons-dias, agora deve ser combatido: não posso ser um “chefe arrogante”. Ou então, quando digo, “Fulano é...” pareço estar enunciando uma sentença, pois sei que cada palavra minha vai ser interpretada, escrutinizada, torturada até que dela se extraiam todos os significados possíveis. Tenho que me policiar, ao mesmo tempo que, querendo ou não, espera-se que eu policie os outros.

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As pessoas me telefonam. Colegas passaram a me procurar, trazendo demandas que já não tem mais nada a ver com a profissão. Colegas com quem pouco conversei nos últimos anos se abrem para mim, até em questões familiares ou emocionais: a posse do poder me transforma em uma figura forte – penso no istos (ιστός) grego – mesmo que eu na verdade continue sendo um ser humano precário, inseguro e chorão.

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Da mesma forma que as pessoas dependem de mim, eu perco a minha independência. Em princípio, sempre valorizei a postura profissional de dizer o que penso, “e se não gostarem, tchau, peço demissão, vocês não me merecem”. Isso já não é mais possível. Há trabalhos em andamento, há projetos (alguns francamente empolgantes) dos quais eu quero participar, eu quero que funcionem como eu pensei. E é aqui que justifico meu poder escroto: com ele tenho a possibilidade de transformar o trabalho em algo estimulante, desafiador, rompendo com a mesmice de anos anteriores. Evito os detalhes técnicos, apenas penso na velha concepção marxista de realização do homem através do trabalho.

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O segundo novo “Eu sou...”, deixo para a próxima semana.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O horror.




Durante a Guerra do Vietnã, boa parte da estratégia norte-americana foi dirigida pelo secretário de defesa Robert MacNamara, gênio da administração privada, trazido para aumentar os parâmetros de eficiência do governo norte-americano. Em meio a infinitos relatórios e busca de uma racionalização extrema, MacNamara definiu parâmetros rígidos para a realização de operações militares, bem como para sua avaliação. Em uma guerra de guerrilhas, em que “ganhos territoriais” não serviam para avaliar avanços na direção da vitória, a equipe de MacNamara definiu o conceito de body count, a partir do qual a eficiência das operações militares seria medida. Tratava-se nada menos do que a contagem rigorosa do número de inimigos mortos: quanto mais mortos, mais os Estados Unidos estariam próximos da vitória. Daí para a barbárie (ou para o surgimento dos coronéis Kurtz) foi um passo. “The horror, the horror”.

E eis que no último fim de semana fui solicitado para avaliar a prova de História do ENEM. Dificuldade da prova, abrangência do conteúdo, pertinência da questão, tempo necessário para resolução, esses foram alguns dos itens avaliados, e eu deveria dar uma nota de 1 a 5 para cada um. O objetivo era obter um banco de dados que fosse sendo criado ao longo das edições do ENEM, com o objetivo de adequar o material didático e os cursos oferecidos pelo Anglo a um determinado perfil de prova, levando-se também em consideração suas mudanças ao longo do tempo.

Porém, tive um primeiro problema: qual é a melhor nota, 1 ou 5 ? Uma rápida consulta ao burocrata de plantão me trouxe como resposta: “Considere sempre 5 como o melhor”. Ok, retornando ao trabalho, me deparo com o primeiro item a ser avaliado, o grau de dificuldade da prova. Segundo problema: o que é melhor, uma prova fácil ou uma prova difícil ?

E por aí afora, foi uma longa tarde. Conto essa história para chamar atenção para a distância que surge entre o trabalho que exige qualificação técnica (no caso, avaliar provas) e o trabalho administrativo: muitos vezes os encarregados da administração sequer compreendem a linguagem dos setores que administram, quanto mais as particularidades técnicas do trabalho realizado. A questão é infinita. Quem é melhor para administrar uma fábrica, o engenheiro ou o administrador ? E para dirigir uma escola, o professor ou o administrador ? Levo a questão ao extremo: quem é melhor para comandar o exército: o general ou o gerente ?

A questão tem algo de falacioso: já vi mais de uma escola particular sucumbir devido à espetacular falta de preparo dos professores que se tornaram seus proprietários e administradores. Muitas vezes ao técnico falta a visão de conjunto do administrador, muito embora essa virtude não seja obtida automaticamente, digamos, com um diploma de Administração de Empresas ou em um desses afamados programas de MBA.

Na verdade, a grande questão que me perturba é outra, e envolve a espetacular necessidade que certa burocracia tem de obter números, cifras, dados numéricos em geral. Toda ação precisa ser justificada, e os números oferecem uma ferramenta aparentemente ótima, pois são de fácil compreensão e manuseio. Daí o famoso sistema de metas, em que todos precisam ter metas numéricas que devem ser atingidas. A contrapartida é clara: quanto mais a quantidade (medida por números) ocupa espaços, menos importa a qualidade (de difícil medida ou, a priori, impossível de ser medida em escala numérica).

Mas há outros fetiches no mundo corporativo-gerencial-administrativo. Um dos meus preferidos é o dos gráficos. Lembro que anos atrás, ao visitar os escritórios de uma grande empresa que queria contratar temporariamente meus serviços de escriba, fui falar com um vice-diretor e, enquanto esperava em sua ante-sala, tive tempo para observar que uma das paredes estava coberta de gráficos. A legenda desses gráficos me escapava, mesmo porque eram muitos, e a única coisa que pude fixar foi seu aspecto geral: todos os gráficos apontavam para cima. Não havia nenhum exceção, nem um mínimo repique em qualquer das curvas: todas elas, números transformados em traço, eram vigorosas, sólidas, indestrutíveis no seu caminho para cima. Me senti na beira do precipício, correndo o risco de despencar de vez no mundo tenebroso do capitalismo fálico. Tentei me recompor e dando asas ao pensamento, imaginei: até onde vão essas curvas ? Para que infinito metafísico elas apontam ? Um infinito que só pode resultar na acumulação interminável de capital, ou na destruição incontornável dos recursos do planeta. No final das contas, nada pode sobreviver a uma ascensão tão vigorosa.

Quase em pânico, pretextei qualquer desculpa para a secretária e saí correndo daquele lugar de tortura mental.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Serviço pesaaaado é comigo mesmo.

Tudo começou com uma preocupação estética: dias atrás, ao trocar um pneu de carro pela milionésima vez na vida, enegreci minhas mãos – como só uma troca de pneus consegue – e em seguida borrei a manga da camisa, manchei a calça, emporcalhei o estofamento do carro, deixei marcas de dedos pelo rosto. É sempre assim. Decidi, finalmente, comprar luvas, daquelas luvas que já vi usarem em demolição, carpintaria, essas coisas. Luvas para serviço pesado, que me seriam úteis nas futuras trocas de pneus e, de quebra, ainda serviriam para finalmente dar algum sentido àquele espaço do automóvel estranhamente chamado de “porta-luvas”. Mas onde encontrar luvas para serviços pesados ? Em uma Loja de Material de Construção, e lá vou eu em pleno sábado à noitinha para uma certa Leroy-Merlin.

Poucos lugares me causam mais estranhamento do que uma Loja de Material de Construção, a começar pelo endereço. Por que as Lojas de Material de Construção sempre ficam em avenidas afastadas, na Marginal ou nas saídas da cidade ? Sua localização e o tipo de coisa vendida nessas loja são quase que um convite ao crime. “Por favor, me veja uma serra elétrica e uma mala grande, rapidinho”. Ou à fuga rápida que se segue ao crime cometido. Se Janet Leigh em Psicose tivesse roubado os dólares em uma Loja de Material de Construção na Marginal Tietê, sua fuga não seria percebida, e sua vida, certamente muito mais fácil (e duradoura). O aspecto megalômano da coisa também me assusta um pouco e, conforme fui entrando, imaginei como seria bem mais legal fazer compras na loja de Ricardo Darín em Um conto chinês.

Seja como for, me dirigi à loja – que insisto em pronunciar Le Roi Merlin, só para dar um ar mais afrancesado e chique – e assim que cheguei senti o mal estar habitual. Trata-se de uma estranha e não muito bem vinda sensação de não-pertencimento, junto com a impressão de que eu realmente deveria me interessar por aquelas coisas todas. De fato, o meu repúdio ao trabalho manual talvez seja fruto do reconhecimento de que sou incapaz de fazê-lo. Ok, acho terrível perder tempo, digamos, instalando um varal de roupa, mas como minha vida seria mais fácil se eu tivesse a iniciativa de fazer esse tipo de serviço ! E, o mais instigante: quando finalmente encaro algum trabalho manual doméstico sinto um inesperado prazer ao concluí-lo, mais ou menos idêntico ao que eu tinha nas raras vezes que conseguia resolver um difícil exercício de Matemática no Ensino Médio.

Enfim, deixo as neuroses do cotidiano para depois e descrevo minha visita à Leroy Merlin. Combati a sensação de não-pertencimento já desde a entrada, assobiando, pelo menos mentalmente, a música Bad Leroy Brown ("The baddest man in the whole downtown/ Badder than the old King Kong/ Meaner than a junkyard dog"), e sentindo-me como se fosse o próprio. Peguei uma cestinha e juntei-me aos trogloditas que habitualmente frequentam essas lojas, com camisas do Corinthians e tudo. De cara, procurei um vendedor e perguntei, enquanto coçava o saco: “Tem luva pra serviço pesaaaaaado ?” O rapaz me indicou a seção de ferramentas, enquanto explicava para um grupo as vantagens de uma determinada bomba hidráulica (ou seria um motor de popa ?)

Chegando na tal seção de ferramentas, tive quase uma epifania. Nas prateleiras, a quantidade de equipamentos e objetos absolutamente desconhecidos por mim era espantosa. Minha ignorância sobre suas utilidades – e, na maior parte dos casos, a falta da mais vaga idéia sobre seu emprego – fizeram com que eu os percebesse apenas como objetos materiais, formas desprovidas de significado. Imediatamente, meu cérebro começou a achar usos para aqueles trastes todos, e a visita à Loja de Material de Construção ganhou um aspecto lúdico inesperado. Misturadores de tinta que se pareciam com esquis para anões, serras elétricas portáteis que pareciam discmen pré-históricos, ventosas para pegar vidro que pareciam o telefone usado pelo comissário Gordon para chamar o Batman (veja foto acima) Mas... espera aí. Ventosas ? Várias imagens do Homem-Aranha vieram à mente, e comecei a pensar em quantas daquelas ventosas eu precisaria para escalar uma parede vertical.

Logo, ninguém mais me segurava. Vesti o cinto de ferramentas, e imaginei-me dando aula com vários gizes e apagadores pendurados na cintura. Pus uma máscara de soldar preta e gritei “Nooooooooo”, como Darth Vader em O Retorno de Jedi (http://bit.ly/bTSPh5 ), para espanto de uma família que passava pelo corredor justo naquela hora. Finalmente, topei com uma prateleira de verdadeiras bazucas, cujo uso descobri assustado, ao ligar uma delas por engano. Tratava-se de um soprador de folhas – um soprador de folhas ! Pode existir algo mais divertido que um soprador de folhas ? Imaginei-me passeando pelos corredores da Editora Scipione com meu soprador de folhas, conturbando o ambiente, provocando um verdadeiro tornado no setor de entrega de originais.

Fiz as minhas compras feliz e contente, saí de alma lavada, ansioso para usar ou instalar todos os trastes que acabei comprando. E aí está o ponto. Qualquer trabalho torna-se interessante quando nele se descobre um aspecto lúdico. Qualquer ocupação ou serviço é interessante quando se projeta nele o humano, seja na forma da relação pessoal (“fazer amiguinhos”), do lidar com objetos (“brincar de construção”) ou simplesmente, jogar com as coisas. Ganho a vida brincando de professor e escrevendo textos para publicação. Escrevo como se estivesse fazendo uma redação para a tia corrigir, e como nem todas as vezes ela me dava 10, tenho que continuar tentando. Sempre.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Terceiro Aniversário



Lá pelas tantas, em Apocalypse Now, ouve-se a voz do coronel Kurtz (Marlon Brando), em uma gravação interceptada pelo exército americano: “Eu vi um caracol se arrastando pelo fio de uma navalha. Esse é meu sonho... e meu pesadelo. Arrastar-me pelo fio de uma navalha e sobreviver”. A imagem é perturbadora, e foi considerada um dos indícios da insanidade do bravo coronel. (A cena ocorre logo no início do filme, quando ainda ecoam na cabeça da platéia os acordes da música da abertura e a voz de Jim Morrison cantando The End)

Imagem semelhante aparece em uma parábola de Kafka: no meio de um caminho apresentam-se dois adversários, um persegue o caminhante enquanto o outro barra o seu caminho. O que vem por trás na verdade o ajuda na luta contra o da frente, pois que o empurra; enquanto o da frente faz o mesmo, pois o segura. Mas a luta é apenas teórica, pois há um terceiro oponente, o próprio caminhante. Quem sabe, na verdade, quais são suas verdadeiras intenções ? Estaria ele, mesmo esmagado, favorecendo um dos adversários ? Em um momento imprevisto o personagem sonha – “e isso exigiria uma noite mais escura que jamais o foi nenhuma noite” – pular para fora da luta e tornar-se juiz dos adversários que se enfrentam. Na leitura de Hannah Arendt, o salto para fora da luta é uma operação do pensamento, a busca do entendimento que é a única forma de conciliação do homem com o mundo, de evitar que sejamos esmagados.

Lembro da descrição de Nietzsche do espírito livre, como uma corda estendida entre o Homem e o Além-do-homem (Übermensch), e trata-se de uma corda estendida sobre um abismo. E lembro também do famoso texto de Benjamin, ao qual sempre retorno, sobre o Anjo da História (e aproveito para antecipar o aniversário do blog, que começou em setembro de 2008 com o nome de Angelus Novus): trata-se de um anjo empurrado irremediavelmente para frente, mas que não consegue deixar de encarar as ruínas ou fragmentos do passado que são deixadas para trás conforme o vento do progresso vai soprando. Trata-se da interpretação de um quadro de Paul Klee, que mantenho ainda como decoração desta página, no alto, à esquerda.

As situações todas se parecem, pois colocam em cena um limiar e tentam expressá-lo através de imagens. O limiar só existe quando se empreende um movimento, que só pode ser o da busca do sentido. Essa busca é a própria justificativa da existência do blog que, nos últimos 3 anos, sempre procurou o entendimento e mesmo em seus textos mais leves nunca abdicou da busca do sentido.

Limiar. A caminhada rumo ao sentido. O risco de desabar e descobrir que simplesmente não há sentido.

No próximo dia 15, o blog completará o terceiro aniversário. Em crise, como se percebe pelo seu mais longo silêncio. Agradeço a todos os alegres leitores, que continuaram acessando esta página mesmo sem nenhuma atualização. E dedico esse terceiro aniversário a D., que tem me ajudado a seguir em frente nos últimos meses, não importando a lentidão do caracol, a força dos adversários, o tamanho do abismo ou os fragmentos do passado.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Pairando no ar



Nunca dei muita bola para o Circo, cuja “magia e encanto” jamais me seduziram, talvez porque sempre cercados de uma pobreza atroz. Muitos vêem nessa pobreza uma certa expressão da “autenticidade” do espetáculo circense, enquanto que eu sempre a vi como aquilo que realmente é: pobreza mesmo. E aqui não falo da pobreza material do circo precário, mas da pobreza de conteúdo de suas atrações.

Mesmo criança, as piruetas e fanfarronices dos palhaços me tiravam poucos sorrisos, se é que algum. Como é que alguém acostumado com boa literatura ou boas comédias ou bons roteiros pode se deixar levar pelo humor de palhaços mambembes sem recorrer a uma dose imensa de boa vontade ? Quanto aos malabaristas e suas habilidades com pinos de boliche ou bolas coloridas ou tochas de fogo, sempre me remeteram ao universo de uma existência precária, por exemplo, aquela que se leva nos cruzamentos de avenidas das grandes cidades.

Os animais de circo representam um espetáculo deprimente à parte. Não é necessário ser um amigo dos animais ou defensor radical da natureza ou mesmo um vegetariano ético para sentir o mal-estar provocado pela visão de jaulas claustrofóbicas, pelo estalar dos chicotes ou pelo adestramento de elefantes à base de choques elétricos. Isso para não falar da falta completa de sentido que há em condenar um leão – animal da savana por excelência – a levar uma vida on the road, encarapitado numa minúscula gaiola na caçamba de um caminhão fedendo a diesel.

Porém, há um momento no espetáculo circense que sempre me chamou a atenção, que é a parte final do número dos trapezistas. É quando as redes de segurança são desamarradas, e aquele conjunto de piruetas aéreas ganha uma tensão aparentemente de vida ou morte. Anuncia-se uma manobra ousada, algo como um duplo ou triplo salto mortal, rufam os tambores e o trapezista põe-se em movimento, sabendo que um erro qualquer fará com que se arrebente no chão.

Quando as redes de segurança são desamarradas, a manobra do trapezista ganha um novo sentido, carregada de tensão e capaz de modificar a própria forma de percepção do movimento. Na hora em que o corpo salta no ar e por um instante fica imóvel, o tempo parece suspenso e esse momento como que se eterniza. As forças que movem os corpos, como a gravidade, também são suspensas e assim, a relação com o espaço deixa de ser a habitual. Além disso, a manobra do trapezista pede a confiança do seu companheiro, que deve saber estender as mãos no momento e local exatos, para que o corpo em movimento seja acolhido. Nesse segundo tempo da manobra, a sensação é sublime: ocorre uma nova suspensão do tempo e do espaço e tudo parece se imobilizar ou eternizar quando mãos estendidas se tocam e se apertam fortemente. Os movimentos se complementam, dois corpos passam a ser um. (Será que os trapezistas sorriem quando estão concluindo a manobra ?). Enquanto isso, lá embaixo, o chão permanece à espreita, ameaçador.

Quando dizemos para alguém “Eu amo você”, é como se todas as redes de segurança do mundo fossem desamarradas. Mas elas já não importam mais.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Para onde vamos ?

É da natureza do segredo que uma separação deva acontecer: uma ou mais pessoas devem permanecer afastadas de um acontecimento ou informação. Certamente muitos já intuíram a mesma origem das palavras segredo e segregação, palavra que tem um sentido odioso. Na verdade, ambas originam-se do latim secernere, que significa separar, por de lado, esconder, e que também deu origem à palavra secessão. Se você quiser enlouquecer, vá ver como o verbo latino secernere originou-se a partir dos tempos verbais do grego κρίνω (kryno).

O segredo, enquanto separação, pode ser obtido através da mentira, e isso é o que eu costumo chamar de produção ativa de segredo. Um sujeito, plenamente consciente, toma a decisão de dizer algo que não corresponde à realidade, criando assim um obstáculo à apreensão do real. Tal iniciativa é bastante eficiente, não só por produzir efeitos imediatos mas também, quando do desvendamento da mentira, por possibilitar a emissão de juízo: aquele que mentiu falhou com a ética, a descoberta da mentira torna o deslize evidente. Diante da mentira desvendada o mundo permanece inteligível e o universo de valores inalterado: cabe apenas perdoar ou não o mentiroso.

[Momento desabafo: os que me lêem e me conhecem pessoalmente frequentemente observam que a rigidez ética dos meus escritos não tem muito a ver com os atos da pessoa real que escreve. Pouco importa. Considero os valores elevados que enuncio como um ideal, e acredito neles sinceramente. Uma vez que não ambiciono nem a perfeição nem a santidade, sei que falhei e ainda falho e, no caso, choro lágrimas de sangue cada vez que lembro as vezes em que minhas mentiras provocaram segredo, segregação, separação.]

O segredo também pode ser obtido através do ocultamento, e isto é o que chamo de produção passiva de segredo. A falta de uma informação ou a omissão de um detalhe podem criar o segredo, principalmente quando acompanhados de algumas verdades próximas e evidentes. Nesse caso, ao invés de escolhas éticas claras, somos colocados diante da zona nebulosa da incerteza. Quando se estende um véu sobre o real, o que está por trás pode permanecer muito bem oculto. Mas o próprio véu acaba se tornando visível e muitas vezes, mesmo quando não existe nada por trás do véu, surge a pergunta: por quê foi estendido ?

Há, porém, uma dimensão bastante atraente o segredo, e que tem a ver com a forma surpreendente com que ele consegue, às vezes, criar aproximação. Falo aqui do segredo compartilhado, principalmente quando se dá no universo das relações amorosas, onde o segredo pode ter um estranho poder de atração. Amantes secretos, encontros secretos e desejos secretos criam um universo de erotismo que, para alguns, seduz bem mais que a certeza das relações estabelecidas e do sexo cotidiano e regular. Nesse caso, trata-se do segredo a dois que, por criar cumplicidade acaba provocando aproximação.

Separados do real, os amantes cúmplices – secretos ou já não mais secretos – constroem um mundo à parte, ao mesmo tempo isolado e melhor do que o mundo real.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ainda o encantamento...



Anthony Bourdain, meu cozinheiro pop preferido, observa em seus livros que muitas culturas, principalmente em países pobres, orgulham-se de possuir comidas ou bebidas que aguçam o apetite sexual. Essas iguarias afrodisíacas costumam ser oferecidas por vendedores morenos, bigodudos ou asiáticos para turistas ricos, que exploram locais cada vez mais “exóticos” conforme os destinos turísticos tradicionais vão se esgotando cada vez mais rapidamente. Agindo assim, esses vendedores acrescentam mais cor ao país distante, e aquelas velhinhas americanas ou inglesas, protestantes e semi-castas, podem rir das ofertas feitas por vendedores nativos, enquanto se abanam desesperadamente sob o calor – ficando cada vez mais vermelhas – e pensam como seria bom se seus maridos desinteressados e desinteressantes cedessem por pelo menos uma noite às tentadoras ofertas dos trópicos.

Os mercados de Istambul, outrora freqüentados por genoveses ricos e venezianos gananciosos, local de um comércio sofisticado de seda e porcelana, além de caras especiarias, hoje em dia oferecem “Turkish viagra”, assim mesmo, em inglês, sob a forma de tâmaras secas com recheio de nozes. Pelos mercados do mundo, anunciam-se as propriedades miraculosas do ginseng, guaraná e catuaba, bem como do açafrão, canela, cardamomo, endro, gengibre, alho e até aspargo. Para os carnívoros, sempre existe a possibilidade de ganhar vigor ingerindo testículos de boi, ovos de codorna, sopas de tartaruga e cobras preparadas de várias maneiras. Parece mesmo que em algumas regiões da África os rabos de leão são bem apreciados. Mas há ainda os frutos do mar, lembrança tardia dos testículos de Urano jogados no oceano, e cuja espuma em ondas fez nascer Afrodite: mexilhões, ostras, vieiras e o próprio caviar disputam a primazia do afrodisíaco marinho por excelência. Isso para não falar das frutas, abacate, romã, figo, cereja e morango. Um pouco mais elaborados, encontramos amendoim torrado, paçoca, mel, chantilly e chocolate. E as bebidas, como gemada, vinho, tequila, licores, absyntho, bloody mary e dry martini.

Claro, há os estimulantes químicos e a caixa de entrada de meu email, com seu precário filtro de SPAM, me transformou em um profundo conhecedor das nuances desse mercado. Diariamente me oferecem viagra, cialis, levitra e até o exótico PPG, o “viagra cubano”. Raro é o dia que não recebo várias dessas propagandas que, curiosamente, vêm sempre identificadas da mesma forma, tendo como assunto “Aumente seu p* !”. Curiosamente também recebo várias mensagens intituladas “Aumente seus lucros !”, o que me faz pensar no caráter fálico da economia capitalista, com seus gráficos reluzentes e arranha-céus majestosos.

Homens, escravos do olhar, deixam-se levar pelas imagens, e esse é todo o segredo do império de Hugh Heffner. Não há nada mais afrodisíaco do que contemplar corpos femininos desnudos, seios, pernas, nádegas. E pescoço, costas, ombros, alem, claro, dos genitais. Ou mesmo a sutil ocultação dessas partes: decotes, mini-saias, biquínis. Alguns se fixam em locais pouco comuns, como pés ou mãos, e já conheci ao menos uma pessoa que tinha uma estranha fixação por axilas. Mas os olhos podem ter efeitos afrodisíacos, bem como o cheiro que exala da pele, para alguns o perfume e para outros o próprio suor. Levando as fantasias adiante, há pessoas que se ligam em visuais de bombeiro, enfermeira, operário, empregadinha chique, batman, sei lá mais o que pode inventar uma mente humana.

Mulheres, essas criaturas românticas, encontram o estímulo afrodisíaco em situações, como a luz de velas, dançar junto uma música romântica, o simples ato de dar as mãos em um momento especial. Uma massagem delicada. Ou mesmo uma mera caminhada noturna (talvez sob a chuva, talvez em Paris), uma manifestação pública de afeto, palavras sinceras cochichadas no ouvido. Foi de uma mulher que ouvi pela primeira vez um comentário sobre o “estranho efeito afrodisíaco que é provocado pela inteligência masculina”, e eu não sei até hoje se ela se referia a mim. Longe de um comentário machista, essa constatação demonstra a delicadeza da percepção feminina: enquanto homens gostam de “bundas”, mulheres admiram coisas como a inteligência.


Mas nada disso importa. A infinidade de afrodisíacos que existe acaba escondendo aquele que talvez seja o único real estimulante físico que conhecemos, e que acaba englobando todos os outros. Pois o único afrodisíaco verdadeiro que existe é nada menos que o próprio amor.