Com o tempo, ficaram para trás os bailinhos bobos em que não se dança de verdade e surgiram aquelas infinitas situações sociais nas quais as pessoas são quase obrigadas a encarar uma pista de dança. Foi quando eu comecei a perceber minha total incapacidade para dançar. Não adianta. Já tentei de tudo. E o momento mais difícil para pessoas que não tem a mínima capacidade para a dança, é quando alguma boa alma, geralmente uma garota, resolve ensinar a dançar. São momentos constrangedores. Empolgados, aceitamos a oferta e vamos para a pista, só para passar por situações terríveis. A mais comum é quando a dedicada “professora” nos diz, “Não se preocupe, é fácil, é só dar dois passos pra lá e dois para cá”. Em seguida a pessoa exemplifica o movimento e você percebe que aquilo que ela faz é muito mais do que simplesmente dar dois passos pra lá e dois pra cá. Seus braços se movem, o corpo balança, a cintura requebra...como fazer tudo isso, meu deus, e ao mesmo tempo ? E você, perdido no meio da pista, dá dois passos pra lá, dois para cá, exatamente como foi ensinado e é incapaz de fazer qualquer outro movimento, provocando sorrisos piedosos e desvios de olhar constrangidos .
domingo, 13 de maio de 2012
Dance, dance, dance
Com o tempo, ficaram para trás os bailinhos bobos em que não se dança de verdade e surgiram aquelas infinitas situações sociais nas quais as pessoas são quase obrigadas a encarar uma pista de dança. Foi quando eu comecei a perceber minha total incapacidade para dançar. Não adianta. Já tentei de tudo. E o momento mais difícil para pessoas que não tem a mínima capacidade para a dança, é quando alguma boa alma, geralmente uma garota, resolve ensinar a dançar. São momentos constrangedores. Empolgados, aceitamos a oferta e vamos para a pista, só para passar por situações terríveis. A mais comum é quando a dedicada “professora” nos diz, “Não se preocupe, é fácil, é só dar dois passos pra lá e dois para cá”. Em seguida a pessoa exemplifica o movimento e você percebe que aquilo que ela faz é muito mais do que simplesmente dar dois passos pra lá e dois pra cá. Seus braços se movem, o corpo balança, a cintura requebra...como fazer tudo isso, meu deus, e ao mesmo tempo ? E você, perdido no meio da pista, dá dois passos pra lá, dois para cá, exatamente como foi ensinado e é incapaz de fazer qualquer outro movimento, provocando sorrisos piedosos e desvios de olhar constrangidos .
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Angelis Novus
domingo, 11 de março de 2012
Como assim, "direito de colar" ?

quinta-feira, 1 de março de 2012
Cadê a sanidade ?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
O Retorno do Ser - 2ª parte

Tento traçar a origem do processo. Pensei pela primeira vez em ser italiano em algum momento da adolescência, época em que é normal para qualquer pessoa tentar “ser” alguma cosia, o que quer que seja.
[Interlúdio comportamental: lembram o saudoso Orkut ? Lembram como multidões de adolescentes adotaram o Orkut, que tinha a incrível capacidade de definir o Ser das pessoas bastando para isso participar dessa ou daquela comunidade ? Quanto maior a crise de identidade, maior o número de comunidades adicionadas pelo indivíduo. Com o tempo, essas comunidades compartilhadas ajudavam a definir identidades coletivas, e talvez daí a avidez com que grupos fascistóides – como as torcidas organizadas – adotaram o Orkut. Mais tarde, conforme a classe C foi aderindo ao Orkut, nossas hierarquias sociais brasileiras falaram mais alto e as “classes altas” começaram a mudar para o Facebook. Que, por sua vez, diz: sou moderno, sou internacional.]
Além disso, imaginava que um passaporte italiano um dia poderia ser – quem sabe ? – um motivo de segurança: nos anos 1990, a possibilidade do Brasil se transformar em um caos completo era bem real, e a doce península, embalada na prosperidade europeia, poderia ser uma eventual tábua de salvação. Finalmente, uma cidadania europeia poderia dar status, poderia resultar em vantagens práticas (e tolas) como evitar filas em aeroportos, não necessitar de visto para determinados países, enfim, milhares de pequenas coisas que me permitiriam contar vantagem em mesa de bar.
Hoje, finalmente, depois de mais de uma década na fila, tenho o passaporte vermelho e posso me perguntar mais seriamente qual o significado disso tudo. O que significa ser cidadão de um determinado país? Em linhas gerais, pertencemos a um país quando, vá lá, concordamos em ficar: por mais problemas que o Brasil tenha, é aqui que se constituiu meu Ser, através, por exemplo, da memória e da linguagem, esses dois pilares absolutamente essenciais da identidade. Isso para não falar dos afetos.
Todavia, há uma concepção de identidade nacional que parte de um princípio distinto. Ao conceder cidadania para filhos e netos e bisnetos de italianos mesmo que morando em outro país, a lei italiana parte do princípio de que existe uma italianidade que se transmite de pessoa a pessoa – e somente por linhagem masculina, o que, convenhamos, é bizarro –, independente da sociedade em que se vive, da língua que se fala, dos hábitos e costumes, das memórias e afetos construídos ao longo de uma vida.
O princípio é arcaico, e remete a ideias ao mesmo tempo ultrapassadas e perigosas – pois alimentam o racismo –, como a do “direito de sangue”. Acredito que o princípio de uma italianidade hereditária chega a ser contrário ao espírito republicano, uma vez que uma República e suas leis são para todos os cidadãos, independente do sangue e da ascendência. Aqui começa a ser patética minha ambição de levar vantagem em fila de aeroporto, uma vez que parte da rejeição ao princípio republicano que acabei assumindo quando resolvi ser cúmplice e participar do truque de “ser italiano”.
Tento buscar uma saída. Talvez a italianidade não deva ser vista como fruto do “direito de sangue”, mas sim compreendida em chave cultural. Ser italiano e participar de uma família de origem italiana talvez signifique incorporar um modo de vida que tenha lá suas origens na península e que, ao sobreviverem, passaram a fazer parte do meu Ser. Assim, sou italiano não porque tenho um eventual “sangue italiano”, mas porque... porque o quê ? Gosto de fettuccine ? Prefiro sangiovese a merlot ? Transformo o “e” final das palavras em “i” ?
Até concedo que um filho de italiano se sinta italiano e veja na italianidade uma parte de seu Ser. Mas, no meu caso, desconfio que a Itália já ficou para trás.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
O Retorno do Ser

“Eu sou...” não se começa uma frase assim impunemente. Dizer “eu sou” traz infinitas implicações e a mais séria delas talvez seja a crença de que o Ser se define pelo próprio sujeito, quando na verdade é bem possível que aquilo que somos só seja efetivamente percebido pelo Outro. “Você é...” certamente causa muito mais preocupação – e está muito mais próximo do verdadeiro - do que um simples e surrado “eu sou”. Aliás, sempre desconfiei das pessoas que insistem em começar frases com "Eu sou...” e chega até a ser meio comum ouvir aqueles que começam frases com “sou o tipo de pessoa que....”. Essas frases costumam ser mais profissões de fé do que qualquer outra coisa – wishful thinking, alguns diriam. Ou então, pura insegurança: tenho que sair por aí dizendo o que sou, caso contrário corro o risco de ser nada.
Conto pela milésima vez a mesma história, que envolve meu sobrinho (“quando deus não dá filhos o demônio manda sobrinhos”), então com uns 5 ou 6 anos de idade. Sua mãe e sua professora conversavam na saída da escola e eis que a tia diz: “Mas este menino tem muito boa índole !”, ao que a mãe orgulhosa respondeu, “Sim é verdade, ele tem boa índole !”. O moleque, perplexo ficou contemplando os adultos: pois e não é que sua mãe (principal enunciadora da verdade quando se tem 6 anos de idade) e a professora (mãe ersatz durante parte do dia) concordavam que ele possuía boa índole, e o moleque não fazia a mínima ideia do que isso queria dizer. Ou seja, afirmava-se o Ser do pimpolho, mas ao mesmo tempo ele era mantido na ignorância sobre seu significado, uma situação francamente perturbadora.
O fato é que nos últimos meses, o mundo acabou acrescentando dois novos complementos ao meu Ser. A primeira delas é “Eu sou chefe”, fruto de uma evolução profissional mais ou menos normal ou previsível. Porém, certas coisas mudaram desde que “Eu sou chefe”. Amigos tratam-me diferente, as pessoas em geral tornaram-se mais atenciosas: ouço bom dia onde antes não ouvia, percebo subitamente que minhas piadas tornaram-se tremendamente engraçadas. Além disso, há uma tendência muito maior de as pessoas ouvirem o que eu falo, mesmo com o conteúdo da minha fala permanecendo o mesmo do tempo em que “Eu não era chefe”.
A nomeação burocrática mudou a minha forma de inserção no trabalho, bem como parte da minha interação social. Querendo ou não, passei a ter nas mãos um certo poder; bem escroto, é verdade, mas ainda assim um poder. Minha fala deixa de ser descompromissada: agora tudo que digo tem efeitos de poder, que podem se realizar ou não. Por exemplo, meu mau-humor matinal, que me levava a dizer raros bons-dias, agora deve ser combatido: não posso ser um “chefe arrogante”. Ou então, quando digo, “Fulano é...” pareço estar enunciando uma sentença, pois sei que cada palavra minha vai ser interpretada, escrutinizada, torturada até que dela se extraiam todos os significados possíveis. Tenho que me policiar, ao mesmo tempo que, querendo ou não, espera-se que eu policie os outros.
As pessoas me telefonam. Colegas passaram a me procurar, trazendo demandas que já não tem mais nada a ver com a profissão. Colegas com quem pouco conversei nos últimos anos se abrem para mim, até em questões familiares ou emocionais: a posse do poder me transforma em uma figura forte – penso no istos (ιστός) grego – mesmo que eu na verdade continue sendo um ser humano precário, inseguro e chorão.
Da mesma forma que as pessoas dependem de mim, eu perco a minha independência. Em princípio, sempre valorizei a postura profissional de dizer o que penso, “e se não gostarem, tchau, peço demissão, vocês não me merecem”. Isso já não é mais possível. Há trabalhos em andamento, há projetos (alguns francamente empolgantes) dos quais eu quero participar, eu quero que funcionem como eu pensei. E é aqui que justifico meu poder escroto: com ele tenho a possibilidade de transformar o trabalho em algo estimulante, desafiador, rompendo com a mesmice de anos anteriores. Evito os detalhes técnicos, apenas penso na velha concepção marxista de realização do homem através do trabalho.
O segundo novo “Eu sou...”, deixo para a próxima semana.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
O horror.

E eis que no último fim de semana fui solicitado para avaliar a prova de História do ENEM. Dificuldade da prova, abrangência do conteúdo, pertinência da questão, tempo necessário para resolução, esses foram alguns dos itens avaliados, e eu deveria dar uma nota de 1 a 5 para cada um. O objetivo era obter um banco de dados que fosse sendo criado ao longo das edições do ENEM, com o objetivo de adequar o material didático e os cursos oferecidos pelo Anglo a um determinado perfil de prova, levando-se também em consideração suas mudanças ao longo do tempo.
Porém, tive um primeiro problema: qual é a melhor nota, 1 ou 5 ? Uma rápida consulta ao burocrata de plantão me trouxe como resposta: “Considere sempre 5 como o melhor”. Ok, retornando ao trabalho, me deparo com o primeiro item a ser avaliado, o grau de dificuldade da prova. Segundo problema: o que é melhor, uma prova fácil ou uma prova difícil ?
E por aí afora, foi uma longa tarde. Conto essa história para chamar atenção para a distância que surge entre o trabalho que exige qualificação técnica (no caso, avaliar provas) e o trabalho administrativo: muitos vezes os encarregados da administração sequer compreendem a linguagem dos setores que administram, quanto mais as particularidades técnicas do trabalho realizado. A questão é infinita. Quem é melhor para administrar uma fábrica, o engenheiro ou o administrador ? E para dirigir uma escola, o professor ou o administrador ? Levo a questão ao extremo: quem é melhor para comandar o exército: o general ou o gerente ?
A questão tem algo de falacioso: já vi mais de uma escola particular sucumbir devido à espetacular falta de preparo dos professores que se tornaram seus proprietários e administradores. Muitas vezes ao técnico falta a visão de conjunto do administrador, muito embora essa virtude não seja obtida automaticamente, digamos, com um diploma de Administração de Empresas ou em um desses afamados programas de MBA.
Na verdade, a grande questão que me perturba é outra, e envolve a espetacular necessidade que certa burocracia tem de obter números, cifras, dados numéricos em geral. Toda ação precisa ser justificada, e os números oferecem uma ferramenta aparentemente ótima, pois são de fácil compreensão e manuseio. Daí o famoso sistema de metas, em que todos precisam ter metas numéricas que devem ser atingidas. A contrapartida é clara: quanto mais a quantidade (medida por números) ocupa espaços, menos importa a qualidade (de difícil medida ou, a priori, impossível de ser medida em escala numérica).
Mas há outros fetiches no mundo corporativo-gerencial-administrativo. Um dos meus preferidos é o dos gráficos. Lembro que anos atrás, ao visitar os escritórios de uma grande empresa que queria contratar temporariamente meus serviços de escriba, fui falar com um vice-diretor e, enquanto esperava em sua ante-sala, tive tempo para observar que uma das paredes estava coberta de gráficos. A legenda desses gráficos me escapava, mesmo porque eram muitos, e a única coisa que pude fixar foi seu aspecto geral: todos os gráficos apontavam para cima. Não havia nenhum exceção, nem um mínimo repique em qualquer das curvas: todas elas, números transformados em traço, eram vigorosas, sólidas, indestrutíveis no seu caminho para cima. Me senti na beira do precipício, correndo o risco de despencar de vez no mundo tenebroso do capitalismo fálico. Tentei me recompor e dando asas ao pensamento, imaginei: até onde vão essas curvas ? Para que infinito metafísico elas apontam ? Um infinito que só pode resultar na acumulação interminável de capital, ou na destruição incontornável dos recursos do planeta. No final das contas, nada pode sobreviver a uma ascensão tão vigorosa.
Quase em pânico, pretextei qualquer desculpa para a secretária e saí correndo daquele lugar de tortura mental.

