Não há dúvida que ser competente dá trabalho,
muito trabalho. Fique claro desde já que, ao usar o termo “competente”, me
afasto um pouco do sentido corriqueiro da palavra – um misto de “empreendedorismo”
(urgh !) com propensão a ganhar dinheiro a qualquer custo. No conceito de
competêncina, prefiro enfatizar aquela dedicação à tarefa que resulta em um
trabalho bem realizado.
É fácil perceber a competência na prática
do trabalho manual, partindo do uso dos objetos produzidos. Penso nisso toda
vez que entro no banheiro recém-reformado e só consigo manter a luz acesa, sem
piscar, dando um murro no interruptor. Gostaria porém de pensar em competência
na realização do trabalho intelectual, supostamente minha área central de
atuação. Nessa área, o trabalho necessário à redação do texto consistente, à
apresentação da tese original ou simplesmente à prática do pensamento rigoroso
é tremendamente árduo.
Há, todavia, uma curiosa tendência de evitar
(ou ser incapaz) de realizar o trabalho árduo e, em compensação, tentar demonstrar
a competência assumindo traços de
comportamento do intelectual comprovadamente competente. É o que eu chamo
de cultura do arquétipo, e cito alguns exemplos imediatos.
Nas ciências Exatas, a figura do
cientista desligado ou de comportamento extravagante tornou-se arquetípica –
muitas anedotas e a famosa foto de Einstein estendendo a língua ajudaram a
criar o arquétipo. Assim, muitos jovens físicos e matemáticos assumem
comportamentos pouco convencionais, como tentativa de reforço a um trabalho
acadêmico ao qual falta o brilhantismo.
Nas ciências Biológicas, ao que me
parece, o arquétipo do brilhantismo passa pelo ateísmo. Transmite aquela imagem
de cientista que entendeu efetivamente o evolucionismo e, com dificuldades em
suas pesquisas acadêmicas, busca a aura de herói da ciência ao combater o
obscurantismo religioso.
Porém, detenho-me nas ciências Humanas, área
na qual o arquétipo da seriedade intelectual é nada menos que a melancolia. Para muitos, é necessário
ser melancólico para ter credibilidade. A origem é evidente, Walter Benjamin,
cujo obra é toda perpassada pelo conceito
de melancolia, vista pelo filósofo alemão como estado de espírito
característico do sujeito moderno. Um dos pontos de partida é o pensamento de Freud, que aproximou a melancolia do
luto tanto nos sintomas (paralisia, desânimo, tristeza) como nas origens (uma perda
ou afastamento). Uma vez que a modernidade é fundada no transitório, no fugidio
e no passageiro, a sensação de perda – fundamento do sentimento melancólico –
passa a ser uma constante. No plano ético, essa perda relaciona-se com o
afastamento do sujeito em relação ao Bem que, pelo menos na sua dimensão pública,
transferiu-se para outras instâncias.
Numa estranha inversão, a genialidade da
obra de Benjamin é obscurecida pela beleza dos textos, pela escrita fácil e
elegante, que o faz um preferido de jovens estudantes das ciências Humanas. Acontece
que além de conceituar a melancolia, Benjamin foi efetivamente um melancólico e
seus bravos seguidores nas ciências Humanas, que nem sempre estão atentos às
filigranas de seu pensamento, acabam incorporando apenas o arquétipo. Ser melancólico
é ser benjaminiano, é estar por dentro. É ter credibilidade.
Penso na Universidade. Lembro-me de ter
lido uma tese de doutorado da Letras, em que a autora caracterizava
minuciosamente o trabalho de tradução, recheando sua análise com conceitos
benjaminianos e terminando por concluir que todo tradutor é um melancólico – maior
elogio impossível.
Penso nas esquerdas, que dominam a produção
intelectual nas Humanas, pelo menos no Brasil (vai lá ler Gramsci e entenda porque).
Nesse caso, o sentimento de perda, fundamento da melancolia, é real. A queda do
modelo soviético levou junto uma alternativa à ordem capitalista, e a ideologia
que lhe sustentava, queira ou não, ficou abalada. Nos últimos trinta anos, a
palavra de ordem passou a ser: recolher os cacos, reconstruir a ideologia,
olhar para o futuro, mas sempre sentindo o gosto amargo da perda.
Penso no fascismo e seus sucedâneos. O
otimismo desvairado fascista faz com que qualquer aparente bom-mocismo
entusiástico seja visto com suspeita. Além disso, quando o anjo da História (e
dá-lhe Benjamin) olha para trás, nos últimos cem anos ele tem que lidar com um
rastro de destruição francamente devastador.
Penso em Ernesto Sábato, meu segundo
autor argentino preferido. Lendo o romance “Sobre heróis e tumbas” (ainda estou
na página 40, o termo melancolia/melancólico já apareceu cinco vezes) me deparo
com o seguinte trecho:
...por
isso os pessimistas são recrutados entre os ex-esperançados, pois para ter uma
visão negra do mundo há que antes ter acreditado nele e em suas possibilidades.
E é ainda mais curioso e paradoxal que os pessimistas, uma vez decepcionados,
não estejam constante e sistematicamente desesperançados e que, de certo modo,
pareçam dispostos a renovar sua esperança a cada instante, embora o dissimulem
sob seu negro invólucro de amargos universais, devido a um certo pudor
metafísico, como se o pessimismo, para manter-se forte e sempre vigoroso,
precisasse de vez em quando de novo impulso produzido por uma nova e brutal
decepção.
A melancolia produz melancolia. Tenho
saudades de quando a melancolia era apenas um sentimento, e não um valor.






