segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sobre piratas



Qual o espaço ocupado em nosso imaginário pela figura do pirata ? Por quê – seja onde for esse espaço – a figura do pirata provoca fascínio, que quase sempre inclui o poder de sedução em que pese seu estatuto de marginal ? Sequer é necessário lembrar da imagem midiática do capitão Jack Sparrow de Johnny Depp, arrancando suspiros sabe-se lá de quantas pessoas.

Partindo de uma definição trivial, identifico o pirata como o fora-da-lei que age por conta própria. Seu tempo é histórico, a ameaça que poderia eventualmente representar acaba se dissolvendo em um passado mais ou menos nebuloso (afinal, com exceção do especialista, quem pode afirmar com precisão em que época atuavam ?). Claro, não me refiro aqui a fenômenos contemporâneos, como os “piratas” da Somália: grupos tão violentos e desesperados (e reais) que a própria denominação “pirata” nesse caso pede as aspas. Descartando os “piratas” contemporâneos, incluo no conceito de pirata imaginário a sedução e o fascínio.

O pirata imaginário é competente, excepcionalmente competente, tanto que obriga a mobilização de forças excepcionais para combatê-lo. Ele é o melhor espadachim, o melhor navegador, o estrategista mais habilidoso. Além disso, o pirata age desprezando convenções, e assim fazendo constrói uma identidade absolutamente singular. À bordo do navio pirata, encontramos personagens únicos como Long John Silver, Capitão Gancho, Tristeza Sangrenta, Rackham o Vermelho, Sam o Caolho e Tom Perna-de-pau.

(Sim, há sites que geram um nome pirata para você. Vários sites. Por exemplo, em http://www.piratequiz.com/result.php , após preenmcher um divertido questionário, descobri que meu nome pirata seria  Dirty Sam Kid.    http://pirate.namegeneratorfun.com/  produziu para mim, meio aleatoriamente, o impagável  nome “John ‘Pieces of Eight’ Blighty, o mão sangrenta da Ilha dos Macacos”.)

Piratas são diferentes dos homens uniformizados que manejam os navios da Coroa, daquela multidão de capitães e tenentes e marinheiros, todos eles anônimos e intercambiáveis, que servem fielmente ao Rei, e a ele obedecem sem pensar.

Dos piratas, invejamos sua independência, sua identidade, sua competência. Sabemos que, por serem criaturas singulares, criam suas próprias normas. Talvez seja exatamente isso o que neles mais invejamos. Queremos ser piratas, porém faço uma advertência: sabemos que é bem difícil viver em uma sociedade na qual cada um cria suas próprias normas, em que cada um se considera um pirata.

Mesmo assim, sigo preservando o culto aos piratas, porque sei que eles nos ajudam a lembrar a precariedade da norma, das avaliações estreitas e dos rigorosos métodos  administrativos, em tudo que podem ter de limitador e até de destruidor do trabalho criativo. O administrador da fábrica que nunca pisou no chão da oficina, o contador que não sabe trocar uma lâmpada, o pedagogo que jamais teve uma classe cheia diante de si, aquele que faz as leis trabalhistas e não trabalha... esses são os anti-piratas por excelência, avançando rapidamente na construção de um mundo administrado, entediante, sem graça nenhuma.

 

sábado, 13 de julho de 2013

Depois de Junho




A – Estratégias da ilusão
 
A esquerda é dotada de visão arguta, e costuma brandir as armas da crítica como ninguém  (a ponto de o próprio ato de brandir as armas da crítica ser considerado por si só um gesto de esquerda). A direita quase sempre evita o debate, mais interessada que está em usufruir do status quo. Dessa forma, o pensamento crítico acaba sendo quase monopolizado pela esquerda, e é quando pode surgir uma estranha forma de alheamento da realidade que resulta na elaboração das estratégias da ilusão. O fenômeno é bastante comum: certos grupos, por simples falta (ou, vá lá, recusa) do diálogo tornam-se irremediavelmente descolados da realidade, debatendo, fechando-se e dando voltas em torno de si próprios. Referência: Intentona de 1935 e o imperdível livro do imperdível Paulo Sérgio Pinheiro, de onde tirei o subtítulo acima.
 
B – Parole, parole
 
Quando o discurso se faz na rua ou sobre o palanque (ou se manifesta em blogs...), ele deixa de ser preciso, e morre vítima do reducionismo mais sórdido e do maniqueísmo mais tolo. Raros são os momentos históricos em que um Lenin conseguia captar o espírito das massas e traduzi-lo em slogans curtos de impacto imediato. Talvez na sociedade russa pós-feudal (ahn ?) isso ainda fosse possível, mas a experiência do século 20 já mostrou o quão raro isso pode existir em uma sociedade complexa. Referência: dos totalitarismos à democracia formal (sem amarrá-los no mesmo feixe, mas observando a instrumentalização do discurso em ambos).
 
C – Violência gera violência
 
Ao iniciar um ato de violência, a resposta imediata inevitavelmente será a violência. A descida rumo aos instintos mais primários resulta em uma infantilização brutal, que acaba se manifestando em discussões tão bizantinas quanto pueris sobre “Quem começou primeiro” [sic]. No dia em que o filho morre nos braços da mãe, faz-se necessário parar e pensar se a luta vale a pena.  (“Mas, esperem um pouco, do jeito que está os filhos já estão morrendo nos braços das mães !”. A saída me parece bem mais complexa do que quebrar vidraças.) Referência: o euroterrorismo nos anos 70.
 
D – Estratégias da ilusão II
 
O capitalismo estimula valores como a competição, individualismo e lucro, bem como a realização do sucesso através da posse de objetos materiais, e do mais mágico de todos os objetos: o dinheiro. Nesse contexto, a corrupção é inerente ao sistema. Partindo dessa constatação e fazendo uma leitura rasa do materialismo marxista, a conclusão só pode ser: basta mudar a organização material da sociedade (sua ordem socioeconômica) que o universo de valores também irá mudar. O mecanicismo por trás dessa concepção é evidente, e três ou quatro modalidades de organização socioeconômica alternativas praticadas a partir do século 20 provaram o tamanho do problema e a apontaram para a persistência da corrupção, sob novas roupagens. Referência: modelos soviético, chinês, albanês. Khmer ? Chavismo ?
 
Volto às sociedades complexas. O bom Max Weber observava, argutamente, a criação de amplas estruturas burocráticas necessárias para efetivar a produção e a distribuição, bem como a administração de sociedades populosas e centros urbanos gigantescos. Privadas ou públicas. Oras, abolindo-se a atual organização socioeconômica e descartando-se os modelos históricos alternativos fracassados, alguém me diz como sobreviver como 7 bilhões de pessoas no planeta, sem as tais organizações burocráticas gigantescas, essas sim, corruptíveis na sua própria essência ?
 
Resumindo e colocando em outras palavras, em que sentido a luta deve se encaminhar ? Onde devem ser abertas as novas trincheiras ?
 
 

domingo, 23 de junho de 2013

De-sa-ba-fo

 
I
 
 
Não tenho a menor dúvida de que um grande pecado das gerações mais velhas é enxergar o presente com a vista turvada pelo passado. A suposta sabedoria vinda da experiência muitas vezes faz com que o novo seja simplesmente falsificado, evitando o entendimento. Por outro lado, as gerações mais jovens tendem a enxergar o que para elas é novo com um evento inédito na história. Dessa forma, parte-se alegremente para a repetição o que já foi, incluindo todos os seus erros. Nos dois casos, tanto para os mais velhos (sábios que pouco sabem) quanto para os mais jovens (virgens caminhando para o estupro), acabamos repetindo o passado, seja praticando a farsa ou lamentando a tragédia.
 
 
Diante disso, lamento constatar: perante a história, somos todos “os mais velhos” ou “os mais jovens”, não há exceções. Contam-se nos dedos aqueles que conseguiram captar o presente do seu tempo, em toda sua plenitude e com toda sua singularidade.
 
 
Um dia, diante da crise, Jânio pareceu ser aquele que entendeu o seu tempo, pairando acima das desavenças e anunciando o novo. Era mentira. Anos depois, foi a vez de Collor surgir como o profeta do tempo presente, o messias da Nova Era. E foi uma farsa. A grande questão hoje não seria: como evitar uma tragédia ?
 
 
II
 
 
Por que escrevo ? Não tenho dúvida que, por alguma uma estranha perversão epistemológica, penso melhor por escrito do que falando. Se o enunciado do meu discurso falado costuma ser, ao mesmo tempo, consistente e convincente – chegando às vezes na proximidade do belo – é porque antes ele foi previamente elaborado como escrita. Quanto ao debate impromptu, sou uma catástrofe: os argumentos me escapam, os esquecimentos são recorrentes e o esprit de l’escalier está sempre à espreita.
 
 
Dessa forma, tento entender as coisas através da escrita, e compartilho minha busca aqui ou ali – por exemplo, neste blog. Porém, seria tolo em não reconhecer que também existe um componente de vaidade na escrita, ainda mais quando se assina um texto. Sempre cito um episódio ocorrido nos últimos anos de vida de Foucault, quando o filósofo desabafou: “No fundo escrevemos porque desejamos ser amados”. (Claro, o estágio avançado de sua doença fez com quem ninguém se atrevesse a fazer o gracejo inevitável: “Então porque não escreve mais fácil, para que mais gente possa entendê-lo e, portanto, amá-lo ?”).
 
 
Aproveito a citação de Foucault para usar mais algumas de suas palavras como justificativa: “a escrita serve para cortar”. Para ferir. De que adianta uma escrita complacente ? Se não utilizar o discurso para abalar o chão onde me apoio e, se possível, remover o solo sob meus pés, de que serviria tudo isso ? Por o dedo na ferida das certezas é deslocá-las constantemente, e é acreditar que os valores, esses sim, devem ser chacoalhados um atrás do outro. Às vezes é muito mais fácil quebrar vidraças que valores.
 
 
III
 
 
Quando vi as ruas ocupadas por um punhado – e no começo era apenas isso, um punhado – de gente defendendo uma causa que, na sua especificidade inicial parecia ser diminuta, quando vi os ”suspeitos de sempre” (grupos como “juventude maoísta”, “Coletivo Anarco-Punk do Baixo Augusta” etc.) ocupando as ruas, eu confesso,   assumo e não peço condescendência: não dei a mínima bola. Foi quando escrevi o texto do dia 13 de junho, pela manhã, e aproveitei para “usar a faca”, inclusive pensando naqueles que participaram da manifestação do dia 11 e em seguida divulgaram fotos no facebook posando de heróis do instagram.
 
 
No mesmo dia, no final da tarde, não apenas a polícia baixou o cacete de forma violenta – o que talvez se justificasse no caso de uma multidão de Hitlers – como também o movimento ganhou em tamanho e pauta reivindicativa: não mais os centavos, mas mudanças na política de transporte público, reestruturação da Polícia com abolição da PM, etc. Claro, aderi: é o momento em que se sai da situação de conforto para berrar. Seguiu-se a passeata de segunda-feira, após a qual escrevi o texto sobre a necessidade de enterrar 1968: contra utopias e propostas vagas (portanto contra o que hoje é chamado “coxinização” do movimento), pedindo uma inclusão para quem saiu as ruas pela primeira vez (tentando fugir dos slogans da velha política maniqueísta. Claro, muitos dos que saíram às ruas pela primeira vez nos dias seguintes começaram a fazer passeata cantando “Eu sou brasileiro/ com muito orgulho/ Com muito amor”, e aí já é forçar a amizade).
 
 
Mesmo com mais essa volta do parafuso, ainda tento encarar o que é novo e enxergar o presente destruindo as lentes do passado. Não sei se tenho sucesso e, em caso negativo, já disse, não espero condescendência. Encerro com uma de minhas citações preferidas:
 
 
Acho que só devemos ler a espécie de livro que nos ferem e nos trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, porque o estamos lendo ? Por que nos faz felizes ? (...) Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para a floresta longe de todos.  Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio. (Franz Kafka, “Carta a Oskar Pollok”, 1904)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Novas considerações desapaixonadas


1 – Suspeito que o movimento ganhou dimensão porque a classe média foi para as ruas. Pelo menos foi isso que vi no 17 de junho e nas, digamos, cem mil pessoas que lá estavam. Eram jovens, quase sempre bem vestidos, quase sempre brancos (isso é francamente perturbador), grande número de estudantes universitários. (E vamos combinar assim : ninguém deixa de ser classe média por estudar Sociais na USP, ok ?). Guardo na memória um comentário que ouvi de um grupo de trabalhadores uniformizados (da Eletropaulo ?) que contemplava a passeata: “Trabalhar que é bom essa gente não quer...”.
 2 – Ao ganhar dimensão, o movimento perde consistência: começam a ser ouvidas as propostas vagas, típicas de classe média: contra a corrupção, pela moralização. Ou ainda, o inevitável “contra os impostos”. Felizmente, essas propostas ainda são minoria, os vinte centavos e as consequentes melhorias no transporte público, bem como a mudança na política de transportes ainda dão a tônica do movimento. Cabe aqui, mais do que nunca, fechar um projeto, atrelar a mudança no transporte público à mudanças na própria estrutura dos governos municipais (por exemplo, em São Paulo, quem precisa de 55 vereadores ? O Tribunal de Contas e seus nababos, servem para que ? A Prefeitura ainda tem a petulância de ter gastos com marketing ?). Já vejo a maioria dos manifestantes de classe média devidamente sensibilizados por pautas como essa, e as propostas vazias começam a ser deixadas de lado.
 3 – Se a classe média sair do movimento, quem vai sobrar ? Haverá um chamado às massas proletárias ? Acredito que, se houver, não será atendido: a massa proletária transformou-se na classe C emergente. Será que diante das prestações do carro novo (aproveitando o IPI reduzido), alguém vai sair nas ruas para defender melhoras no buzão ? Estou evidentemente exagerando, mas acredito apontar para um problema muito sério: o projeto de inclusão pelo consumo pode ter “matado” o que sobrou das massas proletárias.
4 – Se a classe média for embora e as massas proletárias não comparecerem, a única coisa que vai sobrar para o movimento vai ser a violência, como única forma de preservar a duramente conquistada visibilidade. Mais um vez, escrevo no calor da hora: são 22h20 e começam a chegar notícias de lojas saqueadas e bens de consumo roubados no centro de São Paulo. Claro, legitimando a repressão; e o resultado é que se continuar assim ninguém mais vai para a rua, muito menos a classe média.
 5 – Num país onde se afronta a lei cotidianamente, partindo do estado e de sua máquina, respeitar a lei é quase um ato radical, e é a única forma de enfrentar a barbárie que encontrou uma forma de expressão no moralmente falido estado brasileiro.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Enterrando 1968

 



A cena foi vista na passeata do dia 17 de junho em São Paulo: o jovem começou a entoar o refrão de “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, um dos hits revolucionários de 1968, e ficou sozinho. Ninguém acompanhou. Foi quando tive a intuição de que as novas gerações finalmente não precisam mais viver – e, sobretudo, agir – sob a sombra de 1968.
 
Identifico um duplo legado de 1968. Em primeiro lugar, a reivindicação de utopias, conforme exemplificado pelos famosos slogans do maio de 68 francês (“A imaginação no poder”, “É proibido proibir”, “Sejamos realistas, peçamos o impossível”). Se por um lado tais slogans são de uma simpática beleza poética, e podem até sustentar manifestações durante, digamos, uma primavera, por outro são evidentemente de realização impossível. Ao invés de apontarem para um projeto, indicam tendências, que se perdem em meio a abstrações infinitas.
 
Em segundo lugar, o 1968 brasileiro trouxe a transformação da luta política em um confronto maniqueísta. A ditadura militar facilitava a tendência, sendo claramente identificada como um mal que deveria ser combatido, o que transformava todos os seus adversários no campo do bem. Uma vez que os líderes da luta contra a ditadura estavam no campo da esquerda, aguardava-se o surgimento do nosso Lenin, quem sabe na pele de um José Dirceu ou Vladimir Palmeira.
 
Oras, o 2013 brasileiro parte de uma reivindicação bastante concreta (contra o aumento das tarifas de ônibus urbano), e tira daí um verdadeiro projeto de mudanças. Se não revolucionárias, pelo menos capazes de transformar algo na vida das pessoas. Dentre outros, o que se ouve pelas ruas:
 
- transporte público de qualidade, incluindo preços seriamente subsidiados e mudança na ênfase das políticas públicas de transporte (que até hoje sempre beneficiaram transporte individual em prejuízo do coletivo);
- oposição à PEC 37, ao Estatuto do Nascituro, à “Bolsa Estupro”;
- reorganização completa das forças de segurança pública, incluindo a abolição das PMs.
 
Reinvindicações vagas e com alvos difusos (como “abaixo a corrupção”) mal se ouvem em meio ao barulho da multidão. Slogans anarquistas contra o “sistema” também se perdem. Ou melhor, acabam atrelados aos atos de violência repudiados pela ampla maioria dos que vão ás ruas. Acho.
 
Escrevo no calor da hora, e percebo os tradicionais partidos “de rua” (PSTU, PSOL, PCO) tem pouco espaço no movimento. O MPL se diz apartidário e, de fato, nas manifestações, a quantidade de bandeiras dos partidos ditos radicais é mínima. Hoje, lá pela tantas, ouvi brevemente um coro “Ei, PSTU, vai tomar... “ etc. Nesse sentido que entendo que o objetivo do movimento certamente não é implantar, sei lá, o centralismo democrático como primeiro passo para  a introdução da ditadura do proletariado. Enfim, até agora não apareceu nenhum candidato a Lenin em nenhum palanque. O que há de revolucionário é um desprezo generalizado à classe política, e mesmo quando vejo cenas de “vândalos” escalando o Congresso nacional, ameaçando o Legislativo carioca ou cercando o Palácio de Governo do Estado de São Paulo, não me incomodo muito.

Seja como for, 1968 deixa de projetar a sua sombra, que durante muito tempo impediu que se pensasse por conta própria, que se agisse por conta própria. Finalmente, 1968 está enterrado, e as gerações atuais não estão mais condenadas a repeti-lo, nem como farsa nem como tragédia.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Considerações desapaixonadas sobre a "baderna"



Sobre as manifestações ocorridas na cidade, nos últimos dias:

1 – A primeira pergunta é: quem são os manifestantes ? De imediato, identifico sua pluralidade. Há aqueles que vão às ruas por se oporem ao aumento das tarifas no transporte (acredito que sejam a minoria), há os chamados radicais, que aproveitam qualquer manifestação para expressar sua oposição ao “sistema” (são os que aparecem mais) e finalmente há os que aproveitam a mobilização para manifestar o seu descontentamento difuso (acredito que sejam a maioria). O descontentamento difuso, por sua vez, resulta do fato de que a democracia formal parece não resolver os problemas que afligem o cotidiano paulistano ou brasileiro, desde a paralisia urbana até a violência bárbara. O que está em jogo é a brutal ineficiência do Estado, e essa situação não parece que vai mudar, dadas as nulidades políticas que nos cercam (de Dilma a Alckmin, passando pela trágica constatação de que o grande plano B da nação é Aécio Neves Zero-à-esquerda). Em outras palavras, basta.

2 – Nas manifestações, há a Juventude Petista, mas um diretório do PT foi invadido; há a história trágica do policial solitário que iria ser linchado pelos manifestantes, mas que acabou sendo salvo por outros manifestantes; há os que são contra aumento da tarifa do transporte coletivo, mas chegam de carro próprio para a manifestação. O que importa aqui não é apontar contradições – que seria de nós sem elas ? – mas insistir ainda uma vez na pluralidade do movimento. Talvez essa seja sua grande riqueza.

3 – Sobre os que cometem atos de destruição: não sei qual o sentido de pixar (mais) uma parede. Ou de depredar o já precário transporte coletivo. Ou de prejudicar a vida de literalmente milhões, que só querem chegar em casa que depois de um dia de trabalho cansativo. Circula por aí uma imagem, supostamente engraçada, do famoso quadro da Queda da Bastilha, com um balão de diálogo acrescentado: “Sem quebrar nada pessoal”. A única graça possível está no paralelo entre Paris de 1789 e São Paulo de 2013. Lamento constatar, mas aqui não há uma Bastilha a ser tomada. Não existe uma revolução em andamento, para a frustração de muitos que participam do movimento.

4 – A crítica generalizada à cobertura da imprensa me causa espanto. Acredito que boa parte dessa crítica tenha um fundamento duvidoso: a mídia não publica a verdade. Oras, qual a novidade nisso ? Se um jornal chama os manifestantes de São Paulo de vagabundos e os de Istambul de ativistas, é porque há uma tomada de posição. E daí ? Melhor assim do que um veículo da imprensa que se anuncie como portador da verdade. Pensando nisso, começo a imaginar que muitos dos que reclamam da mídia o façam partindo de um outro fundamento, nem sempre admitido: a mídia não publica o que EU considero verdade. Nos dois casos, são bases bem frágeis para criticar a imprensa.


5 – Até quando vamos viver sob a sombra e a inspiração daqueles herois que combateram a ditadura ? Não duvido do heroísmo de alguém diante da tortura, mas penso em seu legado. Para muitos, ter um passado de luta é credencial para a construção de uma identidade presente. Diante da vigência do estado de Direito, as oportunidades de construir um currículo heróico como o desses combatentes do passado recente são escassas. Daí a necessidade de fazer coisas como invadir a reitoria da USP, ser perseguido pela polícia em alguma manifestação (qualquer manifestação). Tenho essa impressão ao constatar que um bocado de jovens de classe média, estudantes universitários (meus ex-alunos !) divulgam copiosamente sua participação nas manifestações através das redes sociais. Não haverá aqui uma manifestação do egoísmo pequeno-burguês em se aproveitar de um movimento popular para fins individualistas ?

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Democracia e fetiche



A reflexão surgiu quando ouvi o notório Renan Calheiros defendendo-se de críticas, logo após ser nomeado pelos seus pares Presidente do Senado (ou será que foi quando ouvi Sarney defendendo-se após ser nomeado nem lembro mais o quê ?): “Aqueles que criticam o Legislativo estão atacando a democracia”. Existe uma variação desse argumento, que é usada quando a imprensa critica um governante: “A imprensa não respeita os representantes eleitos pelo povo, prova de que ela é inimiga da democracia”.

Nos dois casos, trata-se de manifestações do que chamo fetichização da democracia. Como em todo fetiche, trata-se de um desvio do conceito, que passa a ser entendido de forma parcial, através de apenas um dos seus aspectos. Na verdade, no fetichismo, as coisas são entendidas apenas como aparência daquilo que são. Enfim, uma ilusão.

Na fetichização da democracia, tudo se resume ao voto, e somente ao voto. Todo governo eleito é considerado democrático, independente de suas ações, “afinal, foi o povo que escolheu”. Na fetichização da democracia, tudo está pronto para a violência contra o Estado de Direito, e o Judiciário está sempre sob ameaça. Na fetichização da democracia, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara assume abertamente posições homofóbicas, e tudo bem pois foi escolhido por um Congresso democraticamente eleito. Na fetichização da democracia, esvazia-se qualquer projeto nacional de longo prazo: tudo se resume a preservar no poder o “democrata” de plantão. Na fetichização da democracia, faz-se necessário agradecer aos eleitores, àquela maioria que fez o favor de eleger o governo: o populismo torna-se moeda corrente. Na fetichização da democracia, tudo vale para “salvar a democracia”, inclusive a violência: em 1964, o golpe foi justificado como forma de defendê-la.

As origens da fetichização da democracia (alguns preferem o termo democracia formal) podem ser encontradas naqueles momentos em que a democracia passa a ser uma simples bandeira de luta, e como tal transforma-se em slogan. Refiro-me a longos períodos de ditadura, em que a democracia não é praticada e transforma-se em um ideal, tendo início seu esvaziamento de conteúdo. (Em nossos caso brasileiro, de fato, os últimos anos do Regime Militar assistiram à luta pela redemocratização; porém, na época, por acaso alguém se perguntava que democracia queríamos ? Não, pois o inimigo era tão formidável que era melhor concentrar as forças e aglutinar as massas atrás de slogans fáceis como “Diretas Já”).

O segundo ingrediente necessário para a fetichização da democracia é a fragilidade das instituições, tradicionalmente submetidas aos desmandos dos poderosos. Fragilizadas, podem ser assaltadas pelos que agem “em nome do povo”. Chega, cansei de aspas: falo aqui de Chaves na Venezuela, de Erdogan na Turquia, de setores do PT em torno do governo federal. Observe como coloco esse nomes ao lado de esbirros como Calheiros, Sarney & Feliciano, além de uma nada nada discreta referência ao Regime Militar.

Desconfio que a luta desde há muito deixou de ser entre socialismo e capitalismo. Suspeito que se trate cada vez mais de lutar pela civilização contra a barbárie. Voltarei a isso.