sábado, 20 de dezembro de 2008

Como ratos


Há algo de pegajoso em alguns sorrisos natalinos, sempre desconfiei de manifestações emotivas com data marcada. Não estou falando do porteiro do prédio, do entregador de jornal, do trabalhador pessimamente remunerado que se agarra a qualquer possibilidade de ganho extra como um dos iracundos de Gustav Doré se agarra ao barco que atravessa o Estige, no canto VIII da Divina Comedia. Para esses, escravos, mais uma reverência ao nhonhô branco não faz diferença, afinal, o que é uma humilhação a mais para quem vive na senzala ? (claro, eles não precisariam exagerar usando os abomináveis chapéuzinhos de Papai Noel enquanto lidam com suas tarefas do cotidiano). Mas falo, sobretudo, da outra ponta, daqueles que não precisariam ostentar simpatia natalina, daqueles que presenteiam panetones às dúzias, daqueles que, da casa-grande, exibem seus sorrisos pegajosos por aí. Con piangere e com lutto, spirito maledetto ti rimani, ch’io ti conosco, ancor sie lordo tutto.

[Adam Gopnik, que escreve instigantes textos na versão americana da revista Piauí (a New Yorker), identifica autores de blogs como pessoas que tem ódio. Disse que Robespierre, se fosse vivo, teria um blog. Dante Alighieri, que já começo citando a torto e a direito, dizia que se escreve por amor. Não fosse Beatriz, não haveria a Divina Comedia. Disso tudo eu tiro que a escrita não é indiferente, neutra: se não depositamos nela a fúria e a paixão, o máximo que conseguimos é uma redação de vestibular.]

Sigo transitando entre o amor e o ódio para falar sobre a grave arte de dar presentes. Sinto-me até inclinado a propor uma “genealogia do presente”, não fosse esse título, por si só, carregado de ambigüidade metafísica. Sob o Natal, a origem do hábito de presentear é bem conhecida. Lembremos da cena: três reis vindos de longe atravessam o deserto para encontrar o menino, não medindo esforços para lhe oferecer presentes. Disse o Venerável Beda (673-735): “Belchior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do mar Cáspio. Baltazar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia”. Seguindo uma estrela, rumaram para o Ocidente até chegarem à casa do menino. Após a busca, a entrega: primeiro o adoraram e, em seguida, ofereceram à sua mãe os valiosos presentes que trouxeram, ouro, incenso e mirra.

A história toda remete a singularidade da situação: aquele que foi presenteado era nada menos que o Salvador, jamais existiu ou existirá alguém como ele. O desejo de presentear era tão forte que levou à travessia de um deserto. Finalmente, seguindo a Bíblia (Mt, 2, 10; por pior que seja a fonte, não tenho outra), ao chegarem com os presentes, “os três reis alegraram-se com grande e intenso júbilo”. O ouro é uma referência à riqueza material; o incenso, diáfano e perfumado, à espiritualidade; a mirra, usada para embalsamar cadáveres, à imortalidade.

Que diferença gritante em relação às nossas trocas apressadas de fim de ano ! Ou então, aos nossos afamados “amigos-secretos”, um tipo de celebração que se limita, muitas vezes, a um jogo – divertido, por certo – , mas que já não tem mais nada a ver com o ato de presentear. Imagino os reis magos fazendo um amigo-secreto: só um deles tiraria o papelzinho com Jesus. Os outros trocariam presentes entre si e seria até bom se fizessem uma lista com o que gostariam de ganhar, para que ninguém passasse pela roubada de dar ouro e ganhar mirra.

A tradição aponta para o ato de presentear, conforme praticado pelos reis magos, como um ato sério, que gera felicidade para quem oferece. Percebemos, com a tradição, que aquilo que deveria ser exaltado com presentes é a singularidade do presenteado, o fato de que se trata de uma pessoa única que merece nossa dedicação. Atravessar um deserto só é possível se temos em mente a pessoa a ser presenteada, se ela é a estrela que conduz. Muito difícil é o ato de presentear, pois deveríamos oferecer ouro, incenso e mirra. Hoje, quase sempre, aplacamos a consciência dando ouro (ao preço de um panetone), mas deveríamos oferecer como presente verdadeiro nada menos que a dedicação espiritual e a imortalidade à pessoa presenteada. Como incenso e mirra, deveríamos fazer com que o presente fosse um pedaço de nós, que pudesse ser levado junto, sempre. E a pessoa presenteada, por sua vez, só poderia ser a pessoa amada, a quem já adorássemos antes da entrega.
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Volto aos sorrisos pegajosos, lembro os iracundos de Dante. Pelas ruas, nos shoppings lotados, no trânsito infernal, nos aglomerados de consumo, o Natal desperta raiva e ódio. Enquanto maldizemos a necessidade de ir ao shopping nesses dias movimentados (portanto maldizendo a necessidade de presentear), vamos xingando com sinceridade as pessoas que se põem em nosso caminho. Às vezes acho que presenteamos com ódio e xingamos com amor.

Uma das poucas vantagens da época (observe que não cito várias coisas verdadeiramente prazerosas das festas: hoje escrevo com raiva), é que o convívio com a multiplicidade de sorrisos pegajosos acaba nos ajudando a lidar com eles ao longo do ano. Escolados pelo Natal, deveríamos perceber mais facilmente ao longo do ano os canalhas que se escondem por trás de cada sorriso, uma vez que esses, lamento, estão por toda a parte.

Como ratos.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Com a Lua em Vênus (seja lá o que for isso)



O início da temporada de vestibulares fez com que todos se calassem, é como se todos tivessem parado de pensar para estudar loucamente (no que estão certos). Ao mesmo tempo, os últimos “alegres colóquios” não renderam muita coisa, e me vejo na obrigação de compartilhar pensamentos que tenho tido por conta própria – porém dos quais fazem parte esse nosso estranho convívio. A leitura apressada do livro de Theodor Adorno, As estrelas descem à terra (agora em português: São Paulo, Ed.Unesp, 2008) e alguns momentos de ócio matinal me levaram à reflexão que ando compartilhando por aí. Apesar de solitária, eu a compartilho: a alternativa é abandonar o blog temporariamente . De fato, o último post, com texto de Ítalo Calvino, foi quase solenemente ignorado pelos alegres seguidores do blog. Suspeito que se não puser nada de mim nos textos, ninguém dará a mínima atenção ao que escrevo.

Sigo Adorno ao meu jeito, falando de horóscopos e do que leva as pessoas a lerem horóscopos. Jamais chegarei ao grau de refinamento de Adorno, que diz coisas como: “O envolvimento com astrologia pode oferecer àqueles que se deixam levar por ela um substituto para o prazer sexual de natureza passiva. Em primeira instância, isso significa a submissão à força desenfreada do poder absoluto...” (p.47) e por aí vai. Mas, posso dizer que as colunas de astrologia propõem uma estranha relação entre o racional e o irracional, na medida em que mobilizam todo um obscuro campo de saber com uma finalidade eminentemente prática ou utilitária, sendo o utilitarismo o fim último de uma razão instrumental. Ao consultar meu horóscopo de hoje na Folha de São Paulo, descobri que a Lua está em Vênus, o que parece me trazer perspectivas extremamente favoráveis no campo sentimental (são 20h55, até agora as expectativas foram todas frustradas). Já em O Estado de São Paulo, fiquei sabendo que eu devo tomar cuidado ao julgar as pessoas, porque também serei julgado, conforme dizem os “livros sagrados”. Por não ser leitor assíduo desse tipo de Literatura, fiquei na mesma. Esperava algo mais prático, como aquelas colunas de horóscopo mais sofisticadas que separam as diversas esferas da existência: amor, trabalho, família.

O lado racional do horóscopo está em oferecer diretrizes para a ação de uma pessoa, visando, obviamente, seu bem-estar e sobrevivência. Assim, trata-se do primeiro antepassado da auto-ajuda. Isso nos leva ao leitor de horóscopo, identificado necessariamente como alguém inseguro, que precisa de tais orientações. Em outras palavras, alguém que duvida da própria capacidade de assumir o controle do seu destino, perdido diante de um mundo que aparece como ameaçador. Já a irracionalidade se encontra na fonte do discurso astrológico: um saber oculto, com forte dose de misticismo, e que ganha credibilidade justamente por essa base irracional. Explico: para um desesperado, se a condução racional da vida não está dando certo, sua condução a partir de princípios irracionais aparece como uma alternativa perfeitamente viável.

[Interlúdio pop: em Seinfeld, o personagem George Costanza, um fracassado por excelência, diante do colaaaapso de todos os seus projetos de vida, resolve simplesmente fazer o oposto de tudo que sua razão indica. Os resultados são hilariantes. Uma fina análise do episódio está em em Jason Holt, “The Costanza Maneuver: is it Rational for George to ‘do the opposite’?”; pp.121-138 in: W. IRWIN, Seinfeld and Philosophy – Chicago, Open Court, 2000; há em português.]

Observe a diferença entre a fonte irracional do discurso e o agir irracional: o astrólogo não sugere que se façam loucuras, quase sempre apontando uma conduta serena para a existência dos leitores; porém, a fonte desse aconselhamento permanece distante, obscura. Sua credibilidade provém não só do desejo dos que o lêem, mas de uma certa aura mística que envolve seu saber (um saber que está muito além do nosso conhecimento e do próprio conhecimento científico), seu discurso (carregado de metáforas e referências dúbias) e de sua imagem. Quiroga, astrólogo do Estado, se deixa fotografar ao lado de sua coluna diária, de olhos apertados (ou “olhar penetrante”, como queiram) e roupa preta fechada até o pescoço, em pleno estilo Paulo Coelho (o bruxo por excelência). Da mesma forma, a “vidente”, que trabalha sua imagem e que somente irá ler a sua mão em um local específico, cheirando a incenso, com luz diminuída (ela sempre atende por um nome meio cigano, meio exótico, Zoraide, Zuleika).

E aí chegamos ao ponto (sigo dialogando com Adorno). Há algo de muito semelhante entre essa relação racional-irracional proposta pelos horóscopos ou leitura de horóscopos e o processo que resultou na ascensão do nazismo na Alemanha da República de Weimar. No olho do furacão, encontra-se o alemão da época do Entre-Guerras, para quem nada parecia dar certo. Após uns quarenta anos gloriosos após a unificação, o mundo subitamente desabou na cabeça dos alemães: guerra, derrota, humilhação, revolução e guerra civil, hiperinflação. Quando parecia que as coisas iam melhorar, sobreveio a crise de 29, a Grande Depressão. Tudo dava errado. Nas palavras clássicas de Walter Benjamim (aliás, amigo de Adorno); “...porque nunca houve experiências mais desmoralizadoras que a experiência estratégica da guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes” (“Experiência e Pobreza” in Obras escolhidas. São Paulo, Brasiliense, 1994; vol.1, p115.)

Se a política tradicional e a ciência econômica, com toda suas racionalidades, não resolviam os problemas, algo de novo deveria ser experimentado. E eis que surgiu Hitler, com seu discurso tão pouco ortodoxo. Falando para as massas, Hitler dizia reconstruir o Reich (o terceiro), restaurando a grandeza do povo alemão, de raça superior. O sentimento völkisch dos alemães os diferenciava do resto da Humanidade, e bastaria afastar tudo aquilo que não era alemão – o comunismo, o judaísmo – para que a raça ariana triunfasse. O Geist (espírito) alemão era uma garantia de que tudo iria dar certo. (Lembremos de um episódio ocorrido já durante a guerra, quando os generais sugeriram que a indústria alemã passasse a copiar e produzir os tanques russos T-34, tão marcadamente superiores aos tanques alemães. A proposta foi rejeitada por Hitler, ao dizer que qualquer arma alemã era necessariamente superior às russas, por ter sido projetada por um engenheiro alemão, construída por um operário alemão e disparada por um soldado alemão: todos eles investiram um pouco do seu Geist alemão, seja no projeto, no apertar das porcas, no disparo da arma).

Hitler trazia além do discurso irracional, a imagem do enunciador místico. Lembramos dos estranhos rituais do Partido Nazista e sua simbologia rúnica; lembremos das cenas iniciais do filme de Leni Rifenstahl, Triumph des Willens, “O Triunfo da Vontade”, em que Hitler aparece como um enviado dos céus; lembremos das seitas místicas que diziam que Hitler era um medium. O resultado foi a entrega de toda uma nação a um indivíduo, partindo daí o exercício de um poder desmedido e assassino. Parafraseando Ingmar Bergman, em Ovo da Serpente: “Quem tiver o discurso e falar sobre as emoções terá todo o poder”.

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Agora posso completar a volta do parafuso. Ao lidar com pilhas de vestibulandos, encontro pessoas que estão em evidente situação de insegurança diante de um mundo que pela primeira vez parece ser ameaçador: há escolhas a serem feitas, elas dependem somente do sujeito, elas irão afetar toda sua vida. A incerteza passa a prevalecer, junto dela a insegurança, tudo que é sólido desmancha no ar. Será que todos os alunos de cursinho tornam-se, portanto, leitores de horóscopo ? Claro que não, mas cedem com uma facilidade estupenda ao canto da sereia de um discurso que trafega entre o racional e o irracional. Porque em sua vida surge o professor de cursinho, com seu comportamento muitas vezes excêntrico, fazendo coisas que as pessoas não costumam fazer, dizendo coisas que não se costuma ouvir por aí, mas ao mesmo tempo, despertando interesse sobre assuntos até então vistos com desdém, à luz de uma racionalidade explícita.

E aqui mora o perigo. Ao mesmo tempo que trafegam entre o racional e o irracional, os professores de cursinho vêem uma aura mítica criar-se ao seu redor. Pelos orkuts da vida, multiplicam-se as páginas de fofocas sobre professores, onde multidões de anônimos (sempre anônimos) constroem um discurso infinito feito de amores, ódios, lendas, intrigas, investigações sobre o passado, previsões sobre o futuro, especulações as mais diversas. Sem nunca chegar perto da verdade (tornada impossível pela própria multiplicidade de relatos ao mesmo tempo anônimos e contraditórios), essas páginas são um testemunho da mitificação dos professores, como o são as inocentes conversas sobre cursinho, de irmão mais velho com irmãos mais novos, ou até de pais para filhos, ou as breves aparições públicas do professor fora do espaço do cursinho, ou mesmo blogs de professores (tão desprezados quando não incluem um mínimo de desvendamento de suas personalidades).

Para provocar, eu diria que professores se tornam figuras míticas diante de pessoas inseguras, não é preciso muito para que passem a ser possuidores de imenso poder. Lembrem quantas vezes ao longo do ano alunos não sabiam o que fazer e simplesmente seguiram uma opinião do professor, ou mesmo fizeram aquilo que os professores queriam que eles fizessem. Em alguns instantes, os alunos de cursinho lembram a famosa frase de Goering ao Führer: “A partir de hoje, minha consciência chama-se Adolf Hitler”. Pensemos nisso e, sobretudo, pensemos que essa proposta de reflexão dá bem a medida dos riscos que corremos todos nós – no fundo, pessoas inseguras, todos, nós, sempre.

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Na foto, o Relógio Astronômico de Praga.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Cidades Invisíveis


"O atlas do Grande Khan também contém os mapas de terras prometidas visitadas na imaginação mas ainda não descobertas ou fundadas: a Nova Atlântida, Utopia, a Cidade do Sol, Oceana, Tamoé, Harmonia, New-Lanark, Icária.

Kublai perguntou para Marco:

- Você, que explora em profundidade e é capaz de interpretar os símbolos, saberia me dizer em direção a qual desses futuros nos levam os ventos propícios?

- Por esses portos eu não saberia traçar a rota nos mapas nem fixar a data da atracação. Às vezes, basta-me uma partícula que se abre no meio de uma paisagem incongruente, um aflorar de luzes na neblina, o diálogo de dois passantes que se encontram no vaivém, para pensar que partindo dali construirei pedaço por pedaço a cidade perfeita, feita de fragmentos misturados com o resto, de instantes separados por intervalos, de sinais que alguém envia e não sabe quem capta. Se digo que a cidade para a qual tende a minha viagem é descontínua no espaço e no tempo, ora mais rala, ora mais densa, você não deve crer que pode parar de procurá-la. Pode ser que enquanto falamos ela esteja aflorando dispersa dentro dos confins do seu império; é possível encontrá-la, mas da maneira que eu disse.

O Grande Khan já estava folheando em seu atlas os mapas das ameaçadoras cidades que surgem nos pesadelos e nas maldições: Enoch, Babilônia, Yahoo, Butua, Brave New World.

Disse:

- É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está lá no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.

E Polo:

- O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço."

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O texto acima foi extraído do livro Cidades Invísíveis, de Ítalo Calvino (1923-1985). A figura é do quadrinista francês Moebius (1938-).

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Acender um cigarro




Na outra semana, em mais um daqueles “alegres colóquios”, fui parar ao lado de uma mesa “sex-and-the-city”, em um bar que não freqüentava fazia tempo. As mesas “sex-and-the-city” são muito comuns de uns tempos pra cá, formadas por grupos de mulheres que fumam e bebem despreocupadamente enquanto comentam em voz alta sua vida emocional e sexual – todas elas imaginando que são Carries, quando na verdade não passam de Charlottes.

Chamou minha atenção o fato de que as seis moças da mesa fumavam ao mesmo tempo (um cigarro aceso ajuda muito na ilusão de ser Carrie, assim como o diploma de jornalismo: eu estava em um bar freqüentado em peso pela ECA-USP), e pelo menos duas das moças da mesa praticavam um hábito irritante: para evitar jogar fumaça na cara das amigas (que, curiosamente, eram todas fumantes), as duas faziam um estranho contorcionismo que levava seus braços a se projetarem a distância, mantendo o cigarro longe da própria mesa e, obviamente, na MINHA cara. Da mesma forma, ao soltar a fumaça, torciam desesperadamente a boca para não incomodar as amigas fumantes, jogando a fumaça em outra direção e limitando-se a incomodar a mim, apenas um desconhecido.

E aí é que está o ponto. Em nenhum momento, sequer pensei em reclamar, pois tomei a decisão consciente de entrar em um bar que aceita fumantes. Portanto, eu sabia o que me esperava e continuarei frequentando o bar e fazendo comentários irônicos (ou mesmo maldosos) sobre pessoas que fumam na mesa ao lado, em voz baixa.

Esse episódio todo faz pensar na lei que proíbe cigarro em locais fechados. Me parece estupidamente jacobina uma lei como essas, vetando indiscriminadamente o fumo em todos locais fechados. Estou cansado de ouvir amigos fumantes falarem a respeito do prazer que o cigarro proporciona, e jamais negaria tal prazer a um amigo (tenho até cinzeiros na minha casa). O grande problema se encontra no fumo em lugares fechados de freqüência compulsória. Se o bar ou restaurante aceita fumantes, é escolha minha entrar ou não. Porém, se um local de frequência compulsória aceita fumantes, me vejo obviamente prejudicado enquanto não-fumante. Elevadores, salas de aula, transporte coletivo, cinema, exposições... nesses locais, não pode valer o argumento “não entro se não quero respirar fumaça”. Mas, sobretudo, locais de trabalho: sou obrigado a freqüentá-lo, sou obrigado a respirar fumaça alheia. Eu como meu lanche no local de trabalho e, sinceramente, se um semi-desconhecido despeja sua carga nefasta de nicotina e alcatrão, devidamente processada por pulmões francamente apodrecidos, em cima do misto quente que eu pretendia comer, automaticamente está legitimada minha reação anti-tabagista histérica.

Diante do crescimento da histeria anti-tabagista, legítima ou não, os fumantes contra-atacam. E miram justamente naquele que é o argumento mais estúpido que pode ser utilizado contra o tabaco: o argumento da saúde. Voltando ao nosso bar do fim de semana, eu jamais poderia reclamar do mal que o cigarro das Carries-de-periferia estavam fazendo aos meus pulmões, uma vez que, ao mesmo tempo, eu voluntariamente agredia um outro órgão vital, meu fígado. Claro está que eu não agredia o fígado das moças, embora elas atingissem meus pulmões, mas mesmo assim o argumento do “seu cigarro está me matando” soaria meio imbecil.

Quando penso na questão, tento deslocá-la para o lado ético. O prazer que um fumante sente com suas tragadas é diretamente proporcional ao desprazer do não-fumante diante do cheiro da fumaça. Aqui não conta o pulmão, a saúde ou aumentar e diminuir a expectativa de vida em um tempo mínimo qualquer, mas o simples desprazer, que pode incluir náuseas e sintomas físicos bem evidentes e imediatos. Portanto, o ato de acender um cigarro implica em uma escolha a ser feita: será que o meu prazer pessoal vale o desprazer que provoco nos outros ? Acender um cigarro diante de não-fumantes é o ato que responde a pergunta. Aos não-fumantes, cabe contemplar as escolhas éticas que os fumantes fazem cada vez que acendem um cigarro, e avaliar seu universo de valores a partir daí.
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(A foto foi tirada do livro de Anne Taintor, "I can't be good all the time"; a referência - pela segunda vez - a "alegres colóquios" foi tirada de... adivinhe. Dou um barril de azeite grego para esfregar no corpo para quem descobrir de onde veio)

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Por que e como diabos fui gostar de American Chopper



Para quem não conhece, a coisa toda é assim: trata-se de um programa de TV, no estilão pegajoso dos reality shows da vida e que se passa em uma oficina de construção de choppers, aquelas motonas americanas no estilo Easy Rider. Paul Senior, o grandalhão proprietário da “Orange County Choppers”, comanda o empreendimento, junto com seu habilidoso filho Paul Junior e com o eficiente mecânico Vinny. Volta e meia, Mike, o outro filho, dá as caras na oficina, mas parece que sua competência para o trabalho (e para a vida) é bem limitada.

O que acontece naquela oficina é absolutamente entediante. Eles recebem pedidos de choppers personalizadas, fazem o projeto, encomendam as peças e montam o troço todo. Sempre há preocupações com os prazos, sempre há aqueles pequenos detalhes que não dão certo, sempre há reclamações sobre trabalhar nos fins de semana, etc. Os diálogos são maçantes e repetitivos, “Eu sabia que aquela moto seria especial” ou “Onde está a solda ?” ou “Quero ver essa moto pronta até sábado!” ou ainda o vibrante “Vamos limpar essa oficina”.

Nos bons anos 70, esse tipo de moto se identificava com a contracultura, e qualquer um no volante (guidão?) de uma chopper poderia, legitimamente, se sentir um Peter Fonda ou, melhor ainda, um Dennis Hopper. Hoje elas foram incorporados pela cultura burra americana, a cultura dos carrões, dos fortões. Paul Senior, o proprietário, encarna como ninguém esse universo, com seu pescoço taurino, bíceps avantajados cobertos de tatuagens, seu SUV e seu jeito truculento em geral. Paul Senior bate as portas, grita com os funcionários, é de uma grosseria explícita. As choppers encomendadas muitas vezes são personalizadas em estilo militar, com temas como a Polícia de não-sei-onde ou o helicóptero militar Apache ou os veteranos do Vietnam.

Nos episódios da série, muitas vezes vemos Paul Senior, Paul Jr, Vinny e Mike nas suas horas vagas, que eles aproveitam para fazer coisas como ir ao boliche ou treinar a pontaria. Aliás, foi justamente em um stand de tiro que o bobão Mike descobriu sua única habilidade na vida, o tiro. (Calafrios. O bobão da turma, costumeiramente ridicularizado por pais e amigos, descobre ser habilidoso com armas de fogo. Subitamente ele pode sentir um desejo de vingança contra todos e... soa familiar ? Maiores informações em qualquer jornal norte-americano da semana.)

American Chopper significa, em princípio, tudo que qualquer pessoa de sólida formação humanista abomina. Não sei lidar com motos, suspeito do modo de vida estiloso que as pessoas inventam só porque tem motos estilosas, além de me entediar até as lágrimas com problemas de engenharia e com o trabalho mecânico em geral. Com o tempo, fui descobrindo que a minha capacidade de diálogo (ou de convívio) com pessoas de bíceps gigantescos, tatuagens, e que se divertem dirigindo carros gigantes quando não estão no volante de suas motos, é bem limitada. Muitas vezes, penso que o simples fato do indivíduo usar um boné (como todos usam em Orange County) já diz muita coisa sobre seu universo de valores. E, convenhamos, um reality show chamado American-qualquer-coisa tem forte possibilidade de ser repugnante para os espíritos, digamos, mais sensíveis.

E, no entanto, eu não consigo tirar os olhos da maldita TV quando passa American Chopper.

Depois de meses de angústia, hoje consigo vislumbrar um porque. Aquele mundo do American Chopper é um mundo essencialmente masculino, mulheres simplesmente não aparecem em cena. É também um mundo que gira em torno do trabalho, talvez o verdadeiro tema da série. Assistindo American Chopper, comecei a suspeitar que o trabalho é a única forma que os homens encontraram até hoje de construir relações entre si. Naquela oficina, os laços que unem as pessoas parecem ser muito fortes: volta e meia lá estão Paul Jr e Vinny, lado a lado, contemplando o trabalho feito ou analisando um problema prático qualquer. É assim que homens constroem suas relações, ombro a ombro. Homens nunca se olham de frente, nos olhos, pelo contrário, eles dirigem juntos o seu olhar ao mundo ao seu redor. Homens têm a estranha compulsão de querer conquistar esse mundo, ou mudá-lo através do trabalho. Às vezes, Paul Jr e Vinny contemplam o trabalho pronto, ou o problema resolvido, e não dizem nada (eles não precisam dizer nada), mas escapa um sorriso. Talvez Marx estivesse certo: o trabalho é uma das formas de realização do ser humano.

(Mulheres olham de frente, nos olhos, mulheres prescrutam a alma. Local essencialmente feminino: salão de beleza, manicure, frente a frente. Local essencialmente masculino: estádio de futebol, arquibancada, lado a lado. Queira ou não, a presença de um indivíduo do outro sexo em cada um desses ambientes sempre causa estranheza, provocando gracejos ou despertando curiosidade.)

Além disso, American Chopper traz à tona um aspecto esquecido da masculinidade: a paternidade. Pois e não é que o grandalhão monstruoso Paul Senior se preocupa com Mike ? Paul Senior xinga o filho, bate, ridiculariza... mas, volta e meia, ele inventa um trabalho para o filho problemático, por mais simples que seja. E acompanha o trabalho sem dizer palavras femininas de encorajamento, mas sim ásperas palavras masculinas de cobrança, como ele faz com todos os demais funcionários da oficina. Porém, Paul Senior não abandona o filho difícil, Paul Senior traz Mike para fazer parte da turma truculenta. Mais de uma vez, após Mike conseguir realizar um trabalho simples com muita dificuldade, o paizão dá um sorriso. É como se pensasse: agora o filhote pode sobreviver, ele está aprendendo, ele vai sobreviver.

Talvez American Chopper promova um reencontro com nossa própria masculinidade. Depois de anos sendo sensíveis, demonstrando uma preocupação autêntica com as pessoas, depois de anos sem segurar o choro e indo ao cinema para assistir o filme que ELA escolheu, redescobrimos a nossa masculinidade naquilo que pode ter de mais inspirador. Sem abrir mão da sensibilidade que aprendemos a deixar aflorar, retornamos a nós mesmos, percebemos que somos capazes de construir relações fortes com pessoas com quem trabalhamos, ou ainda, descobrimos um sentido para a existência, por exemplo, em uma paternidade engajada. No final, descobrimos que somos pessoas melhores assistindo American Chopper.

American Chopper restaura minha confiança na Humanidade. Talvez Mike por fim não se torne um serial killer.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Arquitetura e bloquinhos coloridos





Qual era seu brinquedo de construir preferido quando criança ? “Brincando de Engenheiro” ? “Blocos de Construção” ? “Blocos Xalingó” ? Ou o impagável “Brincando de Engenheiro com a Turma do Chaves” ? (sim, existe).

Há um tipo de arquitetura na cidade que não fica nada a dever aos prédios que construíamos com bloquinhos coloridos na infância. Costumo chamá-la de Arquitetura Pueril e seu estilo limita-se à junção de blocos formados por figuras geométricas simples, com cores berrantes. O grande oferta de materiais pré-fabricados bem como o desejo das grandes redes comerciais, ansiosas por padronizar suas lojas e criar uma identificação fácil com uma freguesia de gosto duvidoso, ajudam na proliferação da Arquitetura Pueril. O McDonalds é o modelo arquetípico, e se levarmos em consideração que qualquer vizinhança do McDonalds é necessariamente suja (devido ao volume absolutamente espantoso de detritos produzido pela indústria do fast-food), o resultado é a destruição de mais e mais áreas da cidade.

Repetindo-se como tragédia, a Arquitetura Pueril vai além das grandes redes, multiplicando-se por toda a cidade e tragando os espaços. Shopping Centers são pródigos nesse “estilo”, edifícios baratos de classe média (e alguns caros também), bem como os terríveis buffets infantis e pré-escolas, que desde cedo acostumam a criança ao mau gosto visual. Ainda pior, há uma modalidade de Arquitetura Pueril disfarçada de arquitetura adulta: trata-se do afamado neo-clássico paulistano. Aqui, as cores berrantes são substituídas por cores mortas, e os blocos de pré-moldados são empilhados de forma mais ou menos homogênea, visando dar um ar de elegância ou jeitão aristocrático. Trata-se, por excelência, da arquitetura nouveau-riche (tão indigente quanto a vieux-pauvre).

De onde vem tanta indigência ? Presumo que uma de suas origens seja a arquitetura de auto-estrada, made in USA, em que os estabelecimentos comerciais devem ser identificados claramente pelo que são a longa distância e em alta velocidade. Daí as formas simples e cores fortes. O triunfo do Modernismo, e seu apelo à simplicidade e superfícies lisas também tem algo a ver, certamente. O individualismo triunfante tem seu papel, uma vez que cada edifício é projetado para ser um fim em si mesmo, e que se dane o entorno.

Porém, temo que sua origem e proliferação esteja relacionada também a outra questão. Já repararam como a Arquitetura Pueril lembra as toscas maquetes de alunos de primeiro ano de arquitetura ? Na sua simplicidade atroz e na limitação da construção à superposição de volumes básicos, as semelhanças são gritantes. Sabemos que no primeiro ano de arquitetura o uso dessas formas, bem como sua manipulação, tem lá sua função, estimulando e provocando o jogo da criatividade, mas ninguém imagina que essas pequenas maquetes darão origem a edifícios reais um dia. Pois a Arquitetura Pueril ousa construí-los: repare como as construções parecem mesmo edifícios em miniatura que foram erguidos fora da escala mínima de onde nunca deveriam ter saído.

E aqui descobrimos a origem da proliferação da Arquitetura Pueril: o mau arquiteto que passa sua vida preso ao modelo estético da maquete e do bloquinho colorido, sem desconfiar que à sua volta existe algo vibrante chamado CIDADE.
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PS. Sobre a foto, trata-se de loja na avenida Aclimação. O prédio à esquerda também é pueril: um maquetão de uns 15 andares, com poucas janelas quadradas e paredes cinzas, nuas, ao qual foram encaixados alguns triângulos e losangos com função de terraço. Os postes onipresentes e a fiação elétrica aérea completam a devastação da esquina .

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Grafite novo perto do Anglo


Rua Tamandaré, entre o Anglo e a Igreja Ortodoxa Russa.