O início da temporada de vestibulares fez com que todos se calassem, é como se todos tivessem parado de pensar para estudar loucamente (no que estão certos). Ao mesmo tempo, os últimos “alegres colóquios” não renderam muita coisa, e me vejo na obrigação de compartilhar pensamentos que tenho tido por conta própria – porém dos quais fazem parte esse nosso estranho convívio. A leitura apressada do livro de Theodor Adorno, As estrelas descem à terra (agora em português: São Paulo, Ed.Unesp, 2008) e alguns momentos de ócio matinal me levaram à reflexão que ando compartilhando por aí. Apesar de solitária, eu a compartilho: a alternativa é abandonar o blog temporariamente . De fato, o último post, com texto de Ítalo Calvino, foi quase solenemente ignorado pelos alegres seguidores do blog. Suspeito que se não puser nada de mim nos textos, ninguém dará a mínima atenção ao que escrevo.
Sigo Adorno ao meu jeito, falando de horóscopos e do que leva as pessoas a lerem horóscopos. Jamais chegarei ao grau de refinamento de Adorno, que diz coisas como: “O envolvimento com astrologia pode oferecer àqueles que se deixam levar por ela um substituto para o prazer sexual de natureza passiva. Em primeira instância, isso significa a submissão à força desenfreada do poder absoluto...” (p.47) e por aí vai. Mas, posso dizer que as colunas de astrologia propõem uma estranha relação entre o racional e o irracional, na medida em que mobilizam todo um obscuro campo de saber com uma finalidade eminentemente prática ou utilitária, sendo o utilitarismo o fim último de uma razão instrumental. Ao consultar meu horóscopo de hoje na Folha de São Paulo, descobri que a Lua está em Vênus, o que parece me trazer perspectivas extremamente favoráveis no campo sentimental (são 20h55, até agora as expectativas foram todas frustradas). Já em O Estado de São Paulo, fiquei sabendo que eu devo tomar cuidado ao julgar as pessoas, porque também serei julgado, conforme dizem os “livros sagrados”. Por não ser leitor assíduo desse tipo de Literatura, fiquei na mesma. Esperava algo mais prático, como aquelas colunas de horóscopo mais sofisticadas que separam as diversas esferas da existência: amor, trabalho, família.
O lado racional do horóscopo está em oferecer diretrizes para a ação de uma pessoa, visando, obviamente, seu bem-estar e sobrevivência. Assim, trata-se do primeiro antepassado da auto-ajuda. Isso nos leva ao leitor de horóscopo, identificado necessariamente como alguém inseguro, que precisa de tais orientações. Em outras palavras, alguém que duvida da própria capacidade de assumir o controle do seu destino, perdido diante de um mundo que aparece como ameaçador. Já a irracionalidade se encontra na fonte do discurso astrológico: um saber oculto, com forte dose de misticismo, e que ganha credibilidade justamente por essa base irracional. Explico: para um desesperado, se a condução racional da vida não está dando certo, sua condução a partir de princípios irracionais aparece como uma alternativa perfeitamente viável.
[Interlúdio pop: em Seinfeld, o personagem George Costanza, um fracassado por excelência, diante do colaaaapso de todos os seus projetos de vida, resolve simplesmente fazer o oposto de tudo que sua razão indica. Os resultados são hilariantes. Uma fina análise do episódio está em em Jason Holt, “The Costanza Maneuver: is it Rational for George to ‘do the opposite’?”; pp.121-138 in: W. IRWIN, Seinfeld and Philosophy – Chicago, Open Court, 2000; há em português.]
Observe a diferença entre a fonte irracional do discurso e o agir irracional: o astrólogo não sugere que se façam loucuras, quase sempre apontando uma conduta serena para a existência dos leitores; porém, a fonte desse aconselhamento permanece distante, obscura. Sua credibilidade provém não só do desejo dos que o lêem, mas de uma certa aura mística que envolve seu saber (um saber que está muito além do nosso conhecimento e do próprio conhecimento científico), seu discurso (carregado de metáforas e referências dúbias) e de sua imagem. Quiroga, astrólogo do Estado, se deixa fotografar ao lado de sua coluna diária, de olhos apertados (ou “olhar penetrante”, como queiram) e roupa preta fechada até o pescoço, em pleno estilo Paulo Coelho (o bruxo por excelência). Da mesma forma, a “vidente”, que trabalha sua imagem e que somente irá ler a sua mão em um local específico, cheirando a incenso, com luz diminuída (ela sempre atende por um nome meio cigano, meio exótico, Zoraide, Zuleika).
E aí chegamos ao ponto (sigo dialogando com Adorno). Há algo de muito semelhante entre essa relação racional-irracional proposta pelos horóscopos ou leitura de horóscopos e o processo que resultou na ascensão do nazismo na Alemanha da República de Weimar. No olho do furacão, encontra-se o alemão da época do Entre-Guerras, para quem nada parecia dar certo. Após uns quarenta anos gloriosos após a unificação, o mundo subitamente desabou na cabeça dos alemães: guerra, derrota, humilhação, revolução e guerra civil, hiperinflação. Quando parecia que as coisas iam melhorar, sobreveio a crise de 29, a Grande Depressão. Tudo dava errado. Nas palavras clássicas de Walter Benjamim (aliás, amigo de Adorno); “...porque nunca houve experiências mais desmoralizadoras que a experiência estratégica da guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes” (“Experiência e Pobreza” in Obras escolhidas. São Paulo, Brasiliense, 1994; vol.1, p115.)
Se a política tradicional e a ciência econômica, com toda suas racionalidades, não resolviam os problemas, algo de novo deveria ser experimentado. E eis que surgiu Hitler, com seu discurso tão pouco ortodoxo. Falando para as massas, Hitler dizia reconstruir o Reich (o terceiro), restaurando a grandeza do povo alemão, de raça superior. O sentimento völkisch dos alemães os diferenciava do resto da Humanidade, e bastaria afastar tudo aquilo que não era alemão – o comunismo, o judaísmo – para que a raça ariana triunfasse. O Geist (espírito) alemão era uma garantia de que tudo iria dar certo. (Lembremos de um episódio ocorrido já durante a guerra, quando os generais sugeriram que a indústria alemã passasse a copiar e produzir os tanques russos T-34, tão marcadamente superiores aos tanques alemães. A proposta foi rejeitada por Hitler, ao dizer que qualquer arma alemã era necessariamente superior às russas, por ter sido projetada por um engenheiro alemão, construída por um operário alemão e disparada por um soldado alemão: todos eles investiram um pouco do seu Geist alemão, seja no projeto, no apertar das porcas, no disparo da arma).
Hitler trazia além do discurso irracional, a imagem do enunciador místico. Lembramos dos estranhos rituais do Partido Nazista e sua simbologia rúnica; lembremos das cenas iniciais do filme de Leni Rifenstahl, Triumph des Willens, “O Triunfo da Vontade”, em que Hitler aparece como um enviado dos céus; lembremos das seitas místicas que diziam que Hitler era um medium. O resultado foi a entrega de toda uma nação a um indivíduo, partindo daí o exercício de um poder desmedido e assassino. Parafraseando Ingmar Bergman, em Ovo da Serpente: “Quem tiver o discurso e falar sobre as emoções terá todo o poder”.
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Agora posso completar a volta do parafuso. Ao lidar com pilhas de vestibulandos, encontro pessoas que estão em evidente situação de insegurança diante de um mundo que pela primeira vez parece ser ameaçador: há escolhas a serem feitas, elas dependem somente do sujeito, elas irão afetar toda sua vida. A incerteza passa a prevalecer, junto dela a insegurança, tudo que é sólido desmancha no ar. Será que todos os alunos de cursinho tornam-se, portanto, leitores de horóscopo ? Claro que não, mas cedem com uma facilidade estupenda ao canto da sereia de um discurso que trafega entre o racional e o irracional. Porque em sua vida surge o professor de cursinho, com seu comportamento muitas vezes excêntrico, fazendo coisas que as pessoas não costumam fazer, dizendo coisas que não se costuma ouvir por aí, mas ao mesmo tempo, despertando interesse sobre assuntos até então vistos com desdém, à luz de uma racionalidade explícita.
E aqui mora o perigo. Ao mesmo tempo que trafegam entre o racional e o irracional, os professores de cursinho vêem uma aura mítica criar-se ao seu redor. Pelos orkuts da vida, multiplicam-se as páginas de fofocas sobre professores, onde multidões de anônimos (sempre anônimos) constroem um discurso infinito feito de amores, ódios, lendas, intrigas, investigações sobre o passado, previsões sobre o futuro, especulações as mais diversas. Sem nunca chegar perto da verdade (tornada impossível pela própria multiplicidade de relatos ao mesmo tempo anônimos e contraditórios), essas páginas são um testemunho da mitificação dos professores, como o são as inocentes conversas sobre cursinho, de irmão mais velho com irmãos mais novos, ou até de pais para filhos, ou as breves aparições públicas do professor fora do espaço do cursinho, ou mesmo blogs de professores (tão desprezados quando não incluem um mínimo de desvendamento de suas personalidades).
Para provocar, eu diria que professores se tornam figuras míticas diante de pessoas inseguras, não é preciso muito para que passem a ser possuidores de imenso poder. Lembrem quantas vezes ao longo do ano alunos não sabiam o que fazer e simplesmente seguiram uma opinião do professor, ou mesmo fizeram aquilo que os professores queriam que eles fizessem. Em alguns instantes, os alunos de cursinho lembram a famosa frase de Goering ao Führer: “A partir de hoje, minha consciência chama-se Adolf Hitler”. Pensemos nisso e, sobretudo, pensemos que essa proposta de reflexão dá bem a medida dos riscos que corremos todos nós – no fundo, pessoas inseguras, todos, nós, sempre.
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Na foto, o Relógio Astronômico de Praga.