domingo, 21 de junho de 2009

Pequenos poderes



Dia desses, falando sobre a Revolução Francesa, surgiu a lembrança de que os mais fanáticos defensores do Rei, no processo revolucionário, eram “novos-aristocratas”, ou seja, burgueses que haviam recebido títulos de nobreza por serviços prestados à monarquia. De fato, durante décadas que antecederam a Revolução muitos burgueses aspiravam obter títulos de nobreza, e puxavam o saco do Rei até não mais poder para obtê-los. Tornar-se nobre era uma ambição de muitos burgueses, viver dos privilégios concedidos pelo Rei, um ideal. “Pai rico, filho nobre, neto pobre” foi um ditado que surgiu na época do absolutismo, numa referência à forma como burgueses tornavam-se nobres e, em seguida, deixavam de lado os negócios, passando a viver dos favores do Rei. Uma vez tendo obtido privilégios, lutaram até a morte para mantê-los.

A história toda me lembra os kapos de Auschwitz. Nos campos de extermínio mantidos pelo regime nazista, os kapos eram prisioneiros judeus que ficavam encarregados dos serviços mais sujos ou cansativos, aqueles que os alemães achavam indignos de fazer. Por exemplo, o trato cotidiano com os demais prisioneiros. Por serem eles mesmos judeus, os kapos sabiam que sua sobrevivência só seria garantida se eles desempenhassem com eficiência seu trabalho, tornando-se de certa foram insubstituíveis para seus mestres alemães. Assim, os kapos muitas vezes tratavam os prisioneiros judeus com mais violência que os próprios alemães. Cito um trecho do “Dicionário dos Campos De Concentração”:

Cada vez que um novo transporte de prisioneiros chegava em Mathausen, o kapo August Adam separava os professores, advogados, juízes e religiosos e perguntava cinicamente a eles; “Você é um advogado ? Um professor ? Que bom ! Está vendo este triângulo verde ? Significa que sou um matador. Tenho cinco condenações: uma por assassinato e quatro por roubo. E aqui quem manda sou eu. O mundo virou de cabeça para baixo, não ? Você me entende ? Precisa de um tradutor ? Pois aqui está ele.”, e dizendo isso apontava para o porrete com o qual passava a espancar os prisioneiros. Depois de satisfeito, organizava uma Scheisskompanie e os mandava para esvaziar as fossas.
Mas talvez eu esteja citando exemplos extremos ou distantes demais de nossa realidade. Permitam-me lembrar um triste episódio pelo qual passei poucos anos atrás, quando o destino me obrigou a tirar um daqueles afamados vistos de entrada para os Estados Unidos. O processo todo beira a violência e humilhação: desde as longas conversas telefônicas com gravações (devidamente cobradas), passando pelo pagamento de uma taxa abusiva, lista de espera e, no dia selecionado para a entrevista, uma fila interminável. Organizando a fila, do lado de fora do Consulado, os seguranças: funcionários brasileiros, devidamente uniformizados, com cassetetes na cintura e uma bandeira dos Estados Unidos no ombro. Alguém pode imaginar a arrogância e o autoritarismo desses imbecis, uma vez usando um uniforme com a bandeira americana ? O estúpido poderzinho a eles atribuído subia à cabeça de forma atroz.

Aqui, mais uma vez, lembro da experiência do nazi-fascismo. O nazi-fascismo encontrou campo para seu florescimento em momentos de crise e humilhação social, como na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial ou o resto do mundo durante a Grande Depressão. Para o indivíduo desempregado, empobrecido, humilhado, o nazi-fascismo propunha um discurso grandiloqüente, um sentido de missão e, sobretudo, um uniforme e uma função dentro de um quadro hierárquico que permitia o exercício da autoridade. Resgatava-se assim a auto-estima perdida pelo indivíduo, nem que para mantê-la viva fosse necessário agredir ou humilhar outros indivíduos. Para os pobres seguranças fascistinhas do Consulado americano, uma posição de autoridade e um uniforme com a bandeira americana no ombro significaria, provavelmente, o fim de uma vida de humilhações. Afinal, quem vai trabalhar em uma empresa de segurança privada senão alguém que já está na fronteira da marginalidade ?

Mas os pequenos poderes proto-fascistas com os quais cruzamos no cotidiano não assumem somente a forma de autoritarismo armado. A fúria organizadora também tem o seu papel. E aqui entram em cena aqueles cegos burocratas, com seu desejo autoritário de controlar o mundo, disciplinando os corpos, estabelecendo critérios de uma suposta normalidade. Na sua fúria normativa, eles não podem ver um fato sem criar uma regra, não conseguem interpretar um comportamento sem pressupor um desvio. Nesse papel, alguns síndicos de prédio são imbatíveis. Em 2º lugar na minha lista de síndico-fascista-preferido-de-todos-os-tempos está a Sra.N., pacata funcionária aposentada, síndica de um edifício que freqüento. Aliás, ela é uma ex-diretora de escola (me parece que a mulher nasceu para fazer as regras serem cumpridas). Incorruptível, porém dotada de uma fúria normativa assustadora. Recentemente, afixou um pequeno quadro na mesa do porteiro, de costas para ele e voltado para quem chega: “Favor não distrair a atenção do porteiro”. Preocupada com a segurança do edifício, a nossa brava síndica jogou no lixo a humanidade do porteiro, julgando-o incapaz de agir por conta própria ou tomar suas próprias decisões, tratando-o como um animal enjaulado que não deve ser alimentado ou coisa parecida.

E aos que não entenderam nada do porque desse post, apenas confesso: escrevo com raiva. E dedico cada linha do post ao síndico do edifício onde estaciono meu carro, o síndico número um da minha lista, o homem que criou o conceito de Volksgemeinschaft de condomínio. Sieg Heil !

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Na imagem, o kapo Georg, no campo de Dora, desenhado por Leon Delarbre em 1944 (extraído de www.memoire-juive.org/kapos.htm )

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Ouro Preto


O primeiroAdicionar imagem frio do ano aguça a memória. O inverno traz Ouro Preto, que sempre foi e sempre será uma cidade infinita. Nunca se deve deixar de voltar para Ouro Preto, em cada viagem algo novo sempre é descoberto. A partir da regularidade da viagem (todo ano, em julho, de ônibus, levando um grupo) uma questão surge e fica no ar: se a cidade é sempre a mesma e os lugares visitados são os mesmos, o que muda ? Só pode ser o viajante, que vai se redescobrindo como uma pessoa diferente a cada retorno, e sabemos que isso é que dá valor a uma viagem.
Adicionar imagem
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Gostaria de poder falar sobre Ouro Preto da mesma forma que o Paulão, antigo professor de História do Brasil do Anglo. Se não com as mesmas palavras com que ele me apresentou a cidade pela primeira vez, pelo menos com a mesma paixão com a qual ele descrevia Ouro Preto em sala de aula, falando da Inconfidência Mineira, e que fez com que um aluno, em um momento qualquer da década de 1980 desabafasse: “Pô, Paulão, por que você não leva a gente pra Ouro Preto ?”. Assim nasceu a primeira viagem do Anglo para as cidades históricas de Minas Gerais.

Entrei na aventura bem mais tarde, como convidado, e jamais esquecerei cada detalhe da primeira vez que estive em Ouro Preto, em 1999. A paisagem surpreendente, o ar da montanha, a visão noturna do Colégio onde nos hospedamos, a arquitetura da cidade explicada minuciosamente pelo Paulão. Os becos estreitos cobertos de névoa, ganhando ares de mistério. O frio da cidade contrastando com o fogo das paixões.

Porém, o aspecto mais encantador da viagem sempre foi a possibilidade do convívio entre as pessoas sem as restrições habituais do cursinho, como os horários rígidos balizados pelo toque do sinal ou mesmo o número excessivo de pessoas. Em Minas, os encontros se multiplicam e, sob o impacto das descobertas do dia ou mesmo da cachaça de Minas, acabam por transformar cada conversa em um Alegre Colóquio. Paulão era mestre no colóquio de botequim, falando de história, de música, da MPB que ele tanto gostava, das lembranças de viagens anteriores com outras turmas, de sua vida dura de estudante durante o regime militar. Paulão falava sobre o que era ser negro no Brasil. E tudo isso no meio de noites infindáveis, sob o espetacular firmamento de Ouro Preto, pelo menos antes que a névoa começasse a cair na alta madrugada.

Herdei a viagem em 2003 (estranha herança sem testamento), e imprimi o meu caráter ao roteiro: menos história do Brasil, mais história da Arte; menos pinga com mel, mais Filosofia. Foi quando fiz as minhas próprias descobertas, imediatamente compartilhadas com os alunos, como a obra do mestre Athaíde e seus anjinhos ou a igreja do Rosário e sua surpreendente fachada curva. Todavia, a parte que mais me honra nessa herança é a possibilidade de ser o novo anfitrião de Alegres Colóquios cada vez mais vibrantes.

As turmas de 2007 e 2008 foram talvez as melhores em todos os tempos, e passaram a fazer parte dessa longa corrente que dura já mais de vinte anos. E é isso que me empolga em manter a tradição da viagem: compartilhar descobertas, ir além da nossa experiência de cursinho limitada por quatro paredes, proporcionar o mesmo espanto que tive ao contemplar o barroco mineiro (que me ensinou um novo olhar), sentir o impacto da memória das minas. Me empolgo ao proporcionar a todos a possibilidade de fazer parte dessa corrente.

Leio comentários no blog de pessoas que estiveram na viagem cinco, seis anos atrás e hoje acompanham minhas divagações: agora não são mais alunos, mas continuam sendo companheiros de descobertas. Fico sensibilizado e não consigo deixar de imprimir a esse post um caráter emotivo, assumindo o lado confessional que sempre tento evitar desde que inaugurei o blog.

Faço a todos que me lêem um convite para participar de Alegres Colóquios nas cidades históricas de Minas Gerais, do dia 22 ao 26 de julho, ou então de 27 a 31. Quem não for mais do Anglo que se sinta convidado do mesmo jeito, sempre fico feliz em receber ex-alunos no grupo.

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Na foto, a turma de 2007 descobre, perplexa, as imagens que se escondem nas sombras da escultura de Aleijadinho. As caras são ótimas: alguns enxergam, ficam encantados; outros ainda não e forçam a vista apertando os olhos. À direita, um menino esfrega os olhos, exausto. Nessa hora, minha explicação não basta: as pessoas tentam se ajudar umas às outras, tentam ensinar como olhar diferente.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sobre vinhos & homens



Errazuriz Pinot Noir Reserva, 2006

Recomendaram-me esse vinho semanas atrás, topei com ele por acaso em um jantar. Ao escolhê-lo, fui tratado com alguma cerimônia: o maitre acompanhou a abertura da garrafa e aguardou até que eu estivesse satisfeito. Limito-me a dizer que o vinho agradou muito, dispenso o vocabulário arrogante dos eno-chatos para descrevê-lo (“ambicioso!”, “retrogosto suave!”, “aroma de dálias... não, begônias!”). Se por um lado os especialistas usam palavras que consideramos estranhas para descrever um vinho, por outro passamos a entendê-las com o tempo. Por exemplo, fala-se da “complexidade” de um vinho e naquela noite, de fato, diversos sabores e odores foram despertados a partir o primeiro gole que tomei. Relaxei e me felicitei pela escolha, sabendo que estaria em boa companhia pela noite afora.

O cardápio eclético acompanhou bem o vinho, mas ainda sim tive o cuidado de limpar a boca com pão e água antes de cada gole. Para não ter que pedir uma segunda garrafa de vinho tão caro, fui controlando cada gole, transformando cada toque dos lábios na taça, cada aproximação do nariz na superfície do líquido em uma momento de seriedade e dedicação. Porém, a noite foi passando e o vinho simplesmente foi morrendo. Não lembro do segundo gole, mas lá pelas tantas – e perfeitamente sóbrio – percebi que o vinho não justificava tanta devoção. Ao final, deixei sobrando uns dois dedos na taça.

Que teria acontecido ? Cruzei com um vinho fino, bem cuidado e bem preservado que ao ser aberto, explodiu com todo seu vigor e aroma, dominando todo espaço sensorial à sua volta, mas que teve nessa explosão sua única manifestação de vida. Talvez a matéria-prima, o fruto mesmo do qual se extraiu o vinho, não estivesse à altura, não tivesse personalidade suficiente para impor seu sabor para além de alguns poucos minutos. Preservarei na memória um excelente primeiro gole e certamente abrirei outras garrafas de Errazuriz, mas saberei que os prazeres oferecidos serão apenas passageiros.

Chateau Moulin de Brion, 2003

“Sempre é melhor pedir um vinho francês, porque mesmo quando ele não é bom, é bom”, ouvi certa vez de um conhecido. Na França, os padrões são outros e é certamente com olho gordo que abrimos, por exemplo, um vinho superieur do Medoc. Aproveitamos cada detalhe, a começar pelo som da rolha saindo da garrafa: um leve rangido conforme ela vai sendo puxada e esfregada de encontro à parede da garrafa e, subitamente um “tloc”, barulho explosivo porém discreto, que já desperta a imaginação para os odores saindo para fora da garrafa. Segue-se a bela visão do líquido sendo derramado na taça, revelando sua cor ao delicioso som do líquido se espalhando, ocupando espaço.

Estava em casa, concentrado, quando abri esse vinho. Foi com expectativa que segui todo ritual e me concentrei nos pequenos detalhes da abertura da garrafa. Me aproximei do vinho lembrando o dia em que tomei meu primeiro bordeaux superior, antecipando os sabores que iria experimentar. Dei um gole voluptuoso, deixei escorrer o líquido em volta da língua, sentindo o aroma excitar meu nariz e, antes mesmo de engolir, me dei conta de uma estranha falta de sabor, de um inesperado e muito leve adocicado que não tinham nada a ver com a nobreza de um bordeaux. Estranhei o gosto daquela bebida quase insossa. Pensei, quem sabe, nas mazelas do armazenamento. Lembrei que 2003 foi o ano da canicule, um verão terrível que pela primeira vez chamou atenção da França sobre o aquecimento global ao mesmo tempo em que as uvas secavam, adocicadas, nas videiras. Cheguei a lembrar do escândalo de 1985, quando vários produtores europeus foram surpreendidos acrescentando anti-congelantes para motor diesel em suas garrafas, alterando – e muito – o sabor da bebida.

Seja como for, resolvi enfrentar o vinho. Deixei-o respirar, derramando todo o conteúdo da garrafa no decanter. Percebi que pelo menos sua cor era belíssima. Esperei, tomei um segundo gole da taça e comecei a achar que talvez o vinho não fosse tão ruim assim. (Ou será que minha boca estava anestesiada ?). A dor no bolso me fez lutar contra o vinho por toda a noite e, ao longo das horas, o vinho foi se revelando. A segunda taça, vertida do decanter, apresentou um equilíbrio insuspeito. Seguiu-se uma terceira taça e, em breve, percebi que o próprio gosto do vinho foi mudando ao longo da noite, se aprimorando. O vinho foi se “encaixando” com o tempo, a ponto de despertar o desejo de que aquela garrafa não acabasse nunca. Seria isso o que os especialistas chamam de um vinho com personalidade ? Pois ela acabou se impondo em uma da melhores garrafas que jamais abri.


Castelo di Brolio, 1998

A extrema complexidade e infinita diversidade dos vinhos acabam por transformá-los na bebida humana por excelência. Pois os vinhos, na verdade, são como os humanos. Alguns deles se apresentam fortemente impactantes no primeiro contato, dominantes e sedutores, mas seu vigor é passageiro, não sobrevivem à experiência do tempo, seja na curta duração de uma noite, seja no longo prazo, esperando o envelhecimento. Outros passam desapercebidos, alguns chegam até a transmitir uma má impressão, mas vão se revelando aos poucos. Primeiro percebemos um detalhe, depois outro, em seguida mais um e, quando menos esperamos, uma personalidade cativante se desvenda. E aí chegamos ao terceiro vinho que quero comentar.

Durante muito tempo tive uma garrafa de Castelo di Broglio 1998. Várias vezes sentei-me na poltrona vermelha da sala, com um belo livro nas mãos e, interrompendo a leitura, em pleno silêncio da noite, olhava para a prateleira onde repousam as garrafas de vinho. Naquele canto meio obscuro da sala, eu percebia a ponta vermelha da garrafa do Castelo di Broglio. Muitas vezes pensei, “Será que já está na hora de abri-la ?”. Outras tantas vezes me levantei, peguei a garrafa de fiquei olhando para ela. Levantando-a contra a luz, tentava perceber alguma tonalidade de vermelho por trás do vidro escuro. Nessas horas eu pensava: alguma coisa está acontecendo nessa garrafa, os sabores estão mudando. Se eu abrir essa garrafa hoje terei um vinho, se abrir em um ano terei outro. Uma garrafa de vinho é algo vivo, em transformação silenciosa, pronta para revelar seu segredo na hora certa, seja lá qual for essa hora, seja lá qual for esse segredo.

Volto para a analogia com as pessoas. As pessoas mais interessantes são como minha garrafa de Castelo di Broglio: não as que tem segredos tolos, mas aquelas que, em silêncio, estão mudando. Aquelas que, uma vez desvendadas, colocam-nos diante do inesperado. Quantas vezes não contemplamos uma face sabendo ou pelo menos imaginando a verdadeira explosão que está ocorrendo em seu interior ? Quantas vezes uma palavra (ou, em casos excepcionais, uma simples presença) pode despertar ou acelerar essas mudanças ? Da experiência de professor: passo muito tempo contemplando faces entediadas, mas eventualmente digo algo que provoca um rápido erguer de sobrancelha, uma ruga na teste, um movimento de cabeça. Um olho quase adormecido que se arregala. Nessas horas, tenho vontade de saber o que despertei, ou como minhas palavras estão sendo ouvidas: quero um retorno, uma volta. Pois uma pessoa, todas as pessoas, como uma garrafa de vinho, têm a capacidade de nos por diante de coisas novas, jamais experimentadas, seja sob a forma de pensamentos nunca imaginados, de sentimentos jamais vividos ou de reações inusitadas.

Pois então bebamos. Tomemos vinho, vamos nos embriagar de Humanidade.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Fui logrado




Já faz algum tempo que deixei de ir ao MASP. Gosto muito do seu acervo, vivo recomendando para que as pessoas o visitem, mas desde há muito não concordo com sua política de exposições. Tal política assumiu um ar meio populista, enfatizando as mega-exposições, daquelas que aparecem na televisão e atraem multidões ruidosas. Por exemplo, Salvador Dali (1998), Guerreiros de Xi’an (2003) e gravuras de Goya (2007). Nada contra uma política voltada para a popularização da arte, mas muitas vezes desconfio que o objetivo dessas mostras é apenas bater recordes de público e, cá entre nós, é altamente duvidoso o bem que pode ser provocado por uma exposição muito movimentada. Nessas exposições, as pessoas são tantas que se formam filas diante dos quadros pendurados na parede, e é muito difícil pensar ou se dedicar a uma obra, uma vez que a fila anda e nos empurra para frente queiramos ou não. Ao mesmo tempo, a fila permanece a uma distância mínima das telas (o suficiente para que se leia a plaquinha diminuta com identificação da obra e artista), tornando impossível, por exemplo, contemplar uma grande tela a uma distância razoável, ou dar um passo atrás ou para o lado buscando uma outra luz, um outro olhar. E mais, as pessoas falam. Qualquer conversa em voz baixa (em tom de Museu) se transforma em um ruído de fundo insuportável quando multiplicada por 50, por 100.

Mas há outros indícios que apontam para a ênfase no populismo. A exposição Tesouros da Terra Santa (2008) fez a alegria dos evangélicos que, disciplinadamente, lotavam ônibus e seguiam seus pastores na visita a tão abençoada mostra. Antes disso, em 2007, uma exposição científica: “Darwin – descubra o homem e a teoria revolucionária que mudou o mundo”. Entre os objetos pessoais de Darwin, expunham-se ossadas de baleia e réplicas das tartarugas de Galápagos sob uma iluminação dramática. Qual o sentido dessa exposição no Museu de ARTE é algo que me escapa.

Claro, conhecendo a situação pré-falimentar da instituição entendemos sua política: tem que dar grana. E que se dane algum projeto culturalmente mais ambicioso. Enquanto isso, a Pinacoteca tem exibido nos últimos anos mostras pequenas e muito mais ricas (Imagens do Soberano, 2007; Taunay nos Trópicos, 2008), isso para não falar do MAM no Ibirapuera e do MAC, perdido na USP, sempre muito mais agradáveis de se visitar.

Porém, há um outro aspecto do atual projeto (?) do MASP que chama atenção: por sua riqueza, o acervo permite recortes temáticos e/ou cronológicos que podem dar origem a mostras interessantes. Por exemplo, tivemos recentemente as mostras de Portinari (séries Bíblica e Retirantes), de Toulouse-Lautrec em 2007 e a Brasiliana em 2006. É nesse contexto que está em cartaz atualmente a Mostra “Arte na França 1860-1960: o Realismo”, na qual parte importante do acervo do Museu se junta a algumas obras vindas de coleções da França e Portugal.

Que o Museu deseje expor seu acervo, nada contra. Que o Museu queira privilegiar os múltiplos recortes possíveis em um acervo rico, idem. Porém, após uma visita à exposição ficou a nítida impressão que o MASP “forçou a barra” para apresentar em uma exposição sobre Realismo obras que não tem nada a ver com o movimento. Assim, entramos na exposição e topamos com os tradicionais ícones do MASP, Manet, Monet, Cézanne, Van Gogh e chegamos a Picasso e Miró. Como assim ???

Na pintura, o Realismo foi um movimento sobretudo da segunda metade do século XIX que se inspirou nos avanços da ciência e da técnica ocorridos na época (Segunda Revolução Industrial ou Revolução Tecno-Científica). O artista passou a buscar a mesma objetividade com que os cientistas abordavam a natureza, e o resultado seria a representação da natureza “tal como ela é”, sem enfeites ou distorções. Diante da imagem pintada devemos ter a certeza de enxergar o real. A relação com o socialismo, em franca ascensão na época, é evidente: se os artistas começarem a representar a realidade (marcada pela exploração) do jeito que ela é, ajudarão a despertar as massas de seu torpor. Escreveu Gustave Courbet (1819-1877): "Sou democrata, republicano, socialista, realista, amigo da verdade e verdadeiro".

Se a arte busca expressar a verdade, então a hora do realismo parecia haver chegado. E, chegando no MASP, de cara cruzamos com uma tela de Courbet, porém logo percebemos que os realistas estão perdidos no meio de impressionistas, pós-impressionistas, cubistas, abstracionistas e, na parte final da mostra (pela qual passei quase correndo), algumas estranhas instalações bem contemporaneazinhas. O curador se defende:

A exposição faz um percurso por um século de arte produzida na França e levanta as questões das diversas e contraditórias manifestações do Realismo (...) E traz obras de artistas franceses e estrangeiros que produziram na França ou que por lá passaram. (http://masp.art.br/exposicoes/2009/franca/)

O problema é que os artistas apresentados na mostra que “produziram na França ou por lá passaram” não tinham lá muito a ver com “as diversas e contraditórias manifestações do realismo”. E segue o texto, tentando – sem muito sucesso – ser mais claro:

Estão incluídos trabalhos dos diversos movimentos e escolas, abordadas sob a perspectiva do Realismo - seus pontos de partida, suas versões e propostas. Nestes cem anos é possível perceber traços sucessivos de percepção do real: o tema desta exposição é a história desta interpretação, desta desfiguração e reconfiguração. (idem)

“Abordados sob a perspectiva do realismo” ? Agora entendi: se Picasso aparece na exposição é porque ele deve ser entendido na perspectiva do Realismo. Ou seja, o curador quer que contemplemos e tentamos entender a obra de Picasso sobre a perspectiva do real (que é a única perspectiva possível do Realismo). Trata-se aqui da mais pura tautologia, obviedade, porque o real no qual estamos imersos me parece um a priori para qualquer tipo de percepção ou interpretação da arte. E, quando começamos a desconfiar de empulhação, segue-se o coup-de-grâce: “o tema dessa exposição é a história desta interpretação”. Ou seja, o tema da exposição é como a arte se dedica à percepção do real sob diversas formas. Então tá. “Diversas formas”. Assim, o Realismo vai por água abaixo enquanto tema de uma exposição que resultou tão eclética.

Tento buscar uma explicação. A exposição ocorre no contexto do “Ano da França no Brasil”. Teria rolado alguma verba oficial ? Teria alguém proposto ao MASP, “Ei, vocês não querem participar do Ano da França no Brasil ? Vocês não tem algo a oferecer ?”. E daí o MASP inventou um tema francês fajuto, agrupou suas obras e... voilá, a verba chegou. E o mais irritante é que muitas das obras expostas são de fato interessantes, mas a sensação de que fui logrado me acompanhou quase desde que entrei. Acho que o público do MASP merece um tratamento um pouco mais sério.

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PS 1: Enquanto isso, no sub-solo do Museu, uma surpresa: a instigante, divertida e lúdica exposição de Vik Muniz. Recomendo vivamente.
PS 2: Claro, fui ao Masp terça-feira, dia de ingresso gratuito, o que só colaborou para o “efeito-multidão” ser mais dramático.
PS 3: A figura acima mostra uma tela de Gustave Courbet. Trata-se de um auto-retrato pintado em 1848 em que o artista demonstra uma assustadora semelhança com ninguém menos que o capitão Jack Sparrow.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sobre um rosto




O mito, de origem grega, todos conhecem: Urano (=Céu) nasceu espontaneamente do ventre de Gaia (=Terra), sem ter sido gerado por um pai qualquer. Ambos se casaram e tiveram como filhos seres gigantescos, os Titãs. Urano, ciumento, mantinha os filhos presos dentro da Terra. Gaia, porém, acabou incitando os filhos a se revoltarem contra o pai, e um deles, Cronos (=Tempo) não apenas liderou a luta como acabou castrando o pai e jogando seus testículos no mar. Estes, todavia, acabaram fecundando o mar e foi justamente da espuma das ondas que nasceu Afrodite, a deusa do amor.

Os romanos chamaram-na de Vênus, e foi com esse nome que suas representações plásticas mais elaboradas ficaram conhecidas. Um exemplo expressivo encontra-se na tela de Sandro Boticelli, O Nascimento da Vênus, pintada provavelmente em 1483. Nesta tela Vênus aparece brotando das águas, flutuando sobre uma concha. Tentando fazer bela a sua Vênus, o artista acabou por expressar o ideal universal da beleza renascentista.

Deixo de lado o corpo sinuoso e as ancas largas, me concentro no rosto da Vênus de Boticelli. Seu rosto se aproxima da perfeição, cada parte parece ter sido concebida pelos deuses. Ou melhor, cada parte parece ter sido concebida por um deus que, em seguida, morreu, garantindo que nunca mais tal perfeição seria repetida. Sua boca, ao invés de um traço indistinto, segue as linhas de um “M” muito discreto, com cada curva sutil indicando um lábio carnudo, porém não exagerado. Como se percebe, seu queixo é um pouquinho saltado, insinuando uma sombra entre sua ponta e o lábio inferior. Isso faz do lábio inferior até um pouco mais carnudo que o superior, como nas propagandas de cosméticos de hoje em dia. Os lábios têm a cor mais viva que a do rosto, mas estão longe de um vermelho vibrante ou sensual, limitando-se a perfeição de um rosado vivo.

O nariz da Vênus também é de uma perfeição impressionante: ao mesmo tempo pequeno e delicado, é incapaz de produzir uma sombra sequer no rosto. Imagino que esse nariz seja o modelo de não sei quantas cirurgias plásticas que se fazem por aí. Da mesma forma, os olhos, perfeitos, sem nenhum excesso, sem nenhuma ruga ou pé-de-galinha. São olhos grandes, que exibem como que em wide-screen sua fantástica cor. Na Itália, são chamados de occhi alpini, olhos alpinos, caracterizados por uma cor que não é nem verde e nem castanho, mas um pouco das duas ao mesmo tempo. A pele de sua face é lisa, imagina-se a sua maciez. Nas maçãs do rosto, um rosado muito sutil dá vida ao conjunto.

E aí é que está o ponto. Diante da perfeição das partes, o resultado final é de uma inexpressividade atroz. Me pergunto sinceramente se esse rosto, enquanto conjunto, de fato é belo. Às vezes o certinho é tão sem graça ! Onde está a diferença ? Onde está a forma que foge do modelo idealizado ? Onde está o traço distintivo que provoca a estranheza ? Ou melhor, onde está o traço distintivo que simplesmente provoca ? Brinco de imaginar a personalidade dessa mulher: deve ser uma pessoa sem vontade própria, sem gosto definido, para quem tudo está bom. Sua vida deve dizer “Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não preciso ser nada/ Pois tenho em mim toda beleza do mundo”. (continuação: “Espelhos do meu quarto...” e por aí vai).

Outro dia, em um Alegre Colóquio, perguntaram qual meu tipo de mulher. Trata-se de pergunta recorrente, todos acabam se perguntando, todos ouvem um dia, qual seu tipo de mulher, qual seu tipo de homem. Será que existe mesmo isso, um tipo de beleza que buscamos e com o qual um dia nos identificamos (e daí provavelmente partimos em busca do pleno êxtase amoroso) ? Duvido. Ao idealizarmos um tipo, acabamos criando modelos que, quando encontrados, jamais provocarão o encantamento: nós já sabemos como eles são. Diga o que quiser, critérios de beleza são, ao mesmo tempo, subjetivos e particulares. Subjetivos, porque cada um tem o seu; como decorrência, são particulares, pois não existe uma “beleza universal”. O meu critério de beleza é só meu, e eu sequer o conheço, limito-me a ficar alegremente surpreso quando de repente cruzo com ela.

Por outro lado, critérios dominantes que apontam para um modelo universal de beleza até existem, mas não lidam com o mundo real. E quando invadem a realidade provocam terror: não existe nada mais assustador do que cruzar com uma Barbie de carne e osso. E silicone.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Twitting




- Gian, entra no Twitter ?
- Não.
- Ah, entra vai ?
- Nãããããooooo...
- Eeeeeeeeentra...
- Tá booooooooooom eu entro !


Elas vêm como os bárbaros, as novas tecnologias. Seja em ondas furiosas, seja infiltrando-se vagarosamente nas fronteiras do cotidiano. Quando damos conta, fomos ultrapassados por elas, perdemos o sentido das coisas. De repente, surgiu um novo mundo, e dele nos vemos inapelavelmente excluídos.

Para evitar o mesmo destino de um Imperador romano (em que pese o discreto charme da decadência), vou-me envolvendo com novas tecnologias ou modismos. Se possível, transformo-os em meu benefício. Do orcúte, tirei a possibilidade de inventar inúmeras identidades, quase todas rigorosamente falsas. Do msn, a possibilidade de quase aposentar o telefone, em que pese minha lista reduzidíssima. Das hoje inevitáveis máquinas fotográficas em celulares, faço o registro de todos os botecos que freqüento (combinando a baixa resolução com a baixa gastronomia). Do twitter... oras, o que me traz o twitter ?

Inicialmente, o troço me pareceu instigante: informar ao universo o que estou fazendo a cada momento do dia. Para o historiador, o registro do cotidiano, mesmo no tempo presente, é uma fonte inesgotável de informações. Para o professor, uma forma de conhecer o universo dos alunos, tornando possível uma maior aproximação através da linguagem, referências, etc... Para o filósofo, a abertura de um campo de investigação existencial. Assim empolgado, entro na rede, supero o asco provocado pelo vocabulário pegajoso (“vc precisa estar logado para receber o primeiro follow”) e sigo em frente. Mas tudo isso para descobrir que, inicialmente, devo deixar de lado por um instante o historiador-professor-filósofo e por em cena o autor do twitter, ou seja, uma pessoa que tem uma vida, e a disposição de divulgá-la.

Aí começam os problemas. Subitamente, percebo que minha vida não tem nada de glamurosa. Um retrato fiel do meu dia (que jamais ousei publicar no twitter), seria algo absolutamente enfadonho:

06h00: acordar
06h26: café da manhã
08h13: em aula... etc.

Claro, sei que posso tentar fazer disso uma Odisséia:

06h00: acordo com os primeiros albores de uma manhã de outono.
06h26: o bravo cearense Agenor me serve mais um café da manhã na padoca.
08h13: revejo os amigos e me entrego ao prazer do trabalho... etc.


Soaria falso. Deixando de lado o registro cotidiano, pensei em usar o twitter para divulgar os insights brilhantes que tenho ao longo do dia, mas, lamento dizer, eles são bem poucos, nem tão brilhantes e sequer diários. Mais tarde, tentei usar o twitter para compartilhar gostos musicais, divulgar as músicas que aprecio. Assim,

10h56: Ouvindo Abertura Leonora nº3, Op.72a, de Beethoven
14h20: Ouvindo: “Belle nuit, ô nuit d’amour” (a ária "Barcarola" no 4° ato da ópera Les Contes d’Hoffmann, de Jacques Offenbach).

Pior, conseguiu soar mais falso ainda. Porém, sei que o twitter das pessoas mais célebres ou que viveram os momentos mais vibrantes da História também seriam enfadonhos. Luís XIV, em uma entrada rápida no seu diário, fez um comentário digno de twitter:

14 de julho, 1789: Saí para caçar à tarde. No mais, dia normal.

Deliro, pensando em como seria entediante o twitter de Nietzsche:

9h18: café da manhã na pensão em Sils-Maria
9h43: pensando
11h01: passeio à beira do lago
13h15: pensando mais um pouco
14h32: almoço seguido de sesta
16h41: pensando de novo
16h53: dor de cabeça
18h09: happy hour com Lou Salomé
20h46: pensar até dormir
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Isso quando a tecnologia não vira um fim em si mesmo:
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8h15: checando email
9h14: atualizando blog
9h45: vendo o orkut
10h03: checando twitter
10h47: checando G-mail
11h15: usando bluetooth
11h36: atualizando facebook
12h32: checando twitter
13h32: vendo o myspace
14h01: falando no skype
14h31: consultando o blackberry
14h44: checando o twitter

No fundo, o twitter satisfaz nossa ânsia por publicidade: queremos ser públicos, queremos ser acompanhados, queremos ter platéia (no horizonte, há um mesmo desejo: o que queremos mesmo é ser amados). Sei que não sou artista de cinema, astro da música ou jogador de futebol, então eu entro no twitter. E, ao entrar, descubro que as coisas mais bobas da minha vida podem ser interessantes, simplesmente porque agora são públicas.

Participamos do twitter pelo mesmo motivo que assistimos Big Brother (“assistimos” quem, cara pálida ?), ou vemos novela. Sabemos que é meio bobo, mas o twitter possibilita o jogo da mimese, da comparação, seja através da identificação ou da negação. Será que passamos o tempo todo nos colocando nas mesmas situações vividas pelos membros do twitter, assim como comparamos nossa vida com a dos personagens da novela ou do Big Brother ? (ué, “personagens” do Big Brother ? Mas eles não são pessoas reais ?).

Talvez o twitter, por mais imaterial que seja, nos permita recuperar algum sentido para a realidade, algo que foi perdido em algum momento lá pelo século passado.

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PS.: Pinçado em um twitter por aí: “Estranho como a gripe aviária, vaca louca e agora a pandemia do porco não atingem o mundo corporativo, onde a fauna e flora são completas”.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Nuit Blanche



Lá pelos lados do Círculo Polar Ártico, as noites costumam ser muito longas numa certa época do ano. Em São Petersburgo, antiga capital da Rússia, desde há muito existe o hábito de celebrar a noite mais longa do verão, a “noite branca”, com uma série de festas ao ar livre, envolvendo música, dança, banquetes, fogos de artifício, e que duram até as primeiras horas da manhã. A partir dos anos 90, para celebrar a unificação de Berlim pós-Guerra Fria, um evento semelhante começou a ocorrer anualmente na cidade. Algum tempo depois (2002), o prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, inaugurou a primeira “Nuit Blanche”, que passou a inspirar eventos semelhantes em todo o mundo. Em São Paulo, a Noite Branca (chamada de Virada Cultural) ocorre desde 2005.

A Virada Cultural representa talvez o único momento do ano em que São Paulo transforma-se em uma cidade em que vale a pena se viver. A meu ver o que dá gosto a uma cidade são aquelas pequenas surpresas que se espalham pelo tecido urbano: vira-se uma esquina e algo provoca espanto, olha-se para o lado e tem-se uma vista inesperada, caminha-se pelas ruas e algo acontece. Na Virada Cultural existe essa possibilidade de sair andando pela cidade e cruzar com coisas inesperadas, portanto jogue fora seu Guia da Virada (que saiu hoje na Folha e no Estado) e perca-se pelas ruas do Centro durante nossa noite mais longa.
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O que quero dizer é que uma cidade é prazerosa quando há uma descoberta a ser feita, e isso implica em andar a pé, pois só a caminhada a pé oferece o tempo necessário para proporcionar essa descoberta.Uma cidade é boa quando nela caminhamos sorrindo. A arquitetura certamente tem papel fundamental na trama das descobertas. Anos atrás fiquei absolutamente encantado com a cidade de Praga, pois cada fachada trazia algo que nunca tinha visto e mesmo cada interior me surpreendia, seja com um corredor ou uma escada ou uma simples fechadura, trabalhados de uma forma diferente, pensados de uma forma surpreendente. Porém, quase sempre dentro da estética Art Nouveau. Depois de uma semana na cidade, quando já estava quase começando a perceber os truques Art Nouveau, eis que viro uma esquina e me deparo com o edifício Ginger & Fred (foto), de Frank Gehry, plantado ao final de duas séries de fachadas fin-de-siécle. Foi a primeira vez que ouvi falar de Frank Gehry, aliás o prédio me surpreendeu tanto que eu tinha que saber quem havia sido seu arquiteto. A surpresa das formas, o suave movimento das linhas, além do caráter lúdico do edifício (expresso no seu próprio nome), tudo isso causou espanto, sorriso... deslocamento do mundo das formas banais do cotidiano.

Mas a arte também tem o seu papel no encantamento que uma cidade proporciona, e é por isso que os alegres leitores deste blog já se acostumaram com meu elogio à arte de rua, ao grafite, em oposição à pixação. A cidade é um espaço aberto à intervenção artística, e quanto mais essa intervenção for espontânea, melhor. Daí a graça da versão paulistana (2005) da Cow Parade, quando uma série de vacas de plástico em tamanho natural foi espalhada pela cidade, sempre pintadas em cores esdrúxulas, provocando uma surpresa, um sorriso. Saíamos do metrô e lá estava uma vaca, com seu aspecto imbecil e bovino, pintada de roxo e nos contemplando. Alegrava qualquer manhã. Ou ainda a graça dos flash mobs, como o recentemente realizado no parque do Ibirapuera: que cidade maravilhosa é essa, em que estamos andando e de repente topamos com a multidão engajada em uma intensa guerra de travesseiros ! Aliás, para quem assistia aos desenhos do Pica-pau, veja o flash mob mais engraçado de todos os tempos, ocorrido anos atrás ao lado do MASP: www.youtube.com/watch?v=i7m9xBK7BFY&feature=related. Morro de rir cada vez que revejo esse vídeo, lamento não ter estado lá.
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Penso em tudo isso enquanto planejo a viagem deste ano para Ouro Preto. Dentre todas, foi a cidade que mais me surpreendeu.