quinta-feira, 23 de julho de 2009

La joie et la tristesse



Desde há muito Paris deixou de ser uma cidade e passou a ser uma marca, tão falada e comentada, disputada e visitada, que dificilmente percebemos que ainda existe uma cidade debaixo daquela massa compacta e espessa dos discursos e imagens. De tão citada, mostrada e reproduzida, Paris passou a ser uma cidade imaginária.

Paris vende, ainda mais no Brasil depois que a valorização da moeda nos tornou a todos uns globetrotters: agora a classe média pode ir a Europa, e Paris passou a fazer parte da memória afetiva de multidões de brasileiros. A indústria cultural se move. Nos cinemas, a simples presença do nome da cidade no título do filme, já serve para atrair milhares de saudosos de Paris. Nas livrarias, não é raro uma prateleira dedicada a Paris, e que apresenta muito mais que os tradicionais guias de viagem. Camisetas e roupas com o nome Paris também estão por todos os lados. Pois Paris foi engolida e cada vez que cruzamos com essa Paris imaginária, ela se torna mais imaginária do que nunca.

Todavia, no meio da avalanche, há tesouros a serem descobertos. Ontem revi “Paris, je t’aime” – título mais apelativo impossível – e descobri que gostei do filme muito mais do que poderia imaginar. Trata-se, basicamente, de uma seleção de curtas e algumas das histórias contadas no filme melhoraram tremendamente com o tempo. Segue abaixo a fala final de Carol, personagem interpretada pela atriz norte-americana Margo Martindale, no último episódio do filme, “14e Arrondissement” (direção Alex Payne):

Et puis, quelque chose m’a arrivé, quelque chose difficile de décrire.

(silêncio)

Assise lá, un être seule dans un pays étranger, loin de toutes les gens que je connais, un sentiment est venu a moi. C’était comme je me souvenait de quelque chose que je n’ai jamais connu ou que j’avais attendu toujours, mais je ne savait pourquoi. Peut-être c’était quelque chose que j’avait oublié ou quelque chose que m’a manqué toute la vie. Seulemant je pouvait dire que j’ai senti, au même temps, la joie et la tristesse, mais pas trop tristesse, parce que je me sentait vivant. Oui, vivant.

Vai sem tradução, o francês dela é impagável, intraduzível. O trecho tem que ser ouvido, mais do que lido: veja o episódio todo em http://bit.ly/Ns0gD , com legendas em inglês. Além disso, o trecho citado acima faz lembrar um fragmento de Camus, que apareceu no blog no início do ano: http://bit.ly/4livo3 .

Deixo as palavras de Carol como despedida. Nos próximos dias, os alegres colóquios serão realizados em Ouro Preto, só voltando em agosto. Abraços a todos.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Ainda o Beco...



(Completo o texto iniciado no último post, mantendo a distinção entre grafitti e pixação).

Pixação & Transgressão

Desde há muito está disseminada a idéia de que transgredir é bonito. A partir dos anos 60, com a crítica à sociedade administrada e a imbecilização do cotidiano, a transgressão passou a ser vista como forma de contestação. Meio século depois, a transgressão foi banalizada, esse discurso caiu no vazio. Na década de 1960 uma juventude trangressora tomou as ruas em nome de utopias; a luta fracassou e deixou no ar uma pergunta amarga: como destituir os poderes se de antemão já estava descartada a criação de novos poderes ? O movimento fracassou (nenhum sucesso era possível), as utopias não vingaram. Sobrou apenas o desejo de manter o comportamento transgressor, agora pintado com cores anarquistas.

Tal comportamento está presente nos grupos de pixadores, que orgulhosamente ostentam o nome libertário de “coletivos”. Certos pixadores rejeitam até o princípio da autoria: qualquer um do grupo pode assinar vício ou fds ou susto's, só para citar alguns dos mais visíveis. E, para fazer parte do coletivo, basta pixar, mais libertário que isso impossível.

Porém, a questão anarquista observada pelo viés da pixação, acaba expondo os limites do movimento. Uma sociedade é livre quando seus indivíduos não estão submetidos à opressão, por exemplo, das leis impostas pelo estado. Dessa forma, uma sociedade anarquista deve estar fundada na auto-disciplina e no respeito a valores comuns. O pixo enquanto forma de transgressão anarquista resulta na deterioração do espaço que deveria ser público. Ao invés de destruir o privado (que pode ser fonte de desigualdade etc.), o pixador destrói espaços que deveriam ser de encontro, de trocas, de sociabilidade; justamente aquilo que, supostamente, deveria ser valorizado. Curiosamente, espaços ultra-pixados são evitados pelas pessoas e freqüentados somente pelos pixadores. A criação desses espaços exclusivos através da pixação resulta no oposto do libertário, ou seja, um comportamente seletivo, excludente e, no seu limite, fascista.

Pixação & Deterioração

Falo de pixação enquanto deterioração não porque o pixo destrói prédios “bonitos”, que, afinal, são tão escassos em São Paulo. Simplesmente constato que pixação (ao contrário do grafitti) dá idéia de abandono e marginalidade. Daí para a atuação do crime organizado é um pequeno passo, e dada a situação de quase guerra civil que vivemos, o pixo vai efetivamente contra o que é de interesse coletivo.

Interessante pesquisa foi feita em uma universidade holandesa (Groningen ?), suas conclusões confirmam o que constatamos diariamente em São Paulo. O experimento foi realizado ao longo das estações (de arquitetura padronizada) de uma linha de trem de subúrbio. Em todas elas havia um estacionamento de bicicletas, encostado na parede do fundo da estação. Os pesquisadores retiraram todas as latas de lixo dos estacionamentos, pixaram as paredes de metade das estações e, em um determinado dia, deixaram nas bicicletas estacionadas um folheto de propaganda qualquer. Em seguida, observaram a reação das pessoas. Nas estações não-pixadas, quase 100% dos donos de bicicletas amassaram e guardaram o folheto de propaganda no bolso, provavelmente para jogar na próxima lata de lixo. Nas estações pixadas, cerca de metade dos donos de bicicleta amassaram a propaganda e jogaram no chão. Pixo da idéia de abandono, gera mais abandono e sujeira ainda.

Na Universidade de Columbia, um experimento semelhante com janelas quebradas: diante de uma fachada com janelas quebradas, as pessoas não se incomodam de jogar lixo. Ou seja: pixação destrói.

(“Ah, mas é bom criar sujeira para contestar a hipocrisia da sociedade burg...” zzzzzzzzzzzzzz... rrrrrrrrrooooonnnnccc... zzzzzzzzzzzzzzzzz...)

Pixação & Existência

Zezão dizia que começou a pixar seu nome para provar sua existência. Isso ocorreu na época em que trabalhava como moto-boy e, segundo ele, era uma pessoa invisível: não recebia bons dias, as pessoas fechavam o vidro do carro quando ele se aproximava. Os únicos que percebiam sua existência eram seguranças de banco, que invariavelmente deixavam-no preso na porta giratória, desconfiados de sua atitude (?) suspeita.

E aqui ele pôs o dedo na ferida. Pois vivemos cercados de pessoas invisíveis, pessoas próximas de nós, a quem nunca notamos a existência. Ou, o mais comum: notamos a existência, mesmo assim seguimos em frente, passamos reto. Quem está lendo esse blog provavelmente nunca foi invisível, mas, pergunte-se se já tratou alguém assim. Porteiros, empregadas, faxineiros, mendigos, pedintes... a lista é infinita. Diante da agressividade do nosso silêncio, como se queixar de um “grito de existência” na forma de pixo ? Como não ser tolerante com quem costuma ser vítima cotidiana da intolerância ? Portanto, viva o pixo existencial, desprovido de ideologia barata! Por mais destruidores que sejam seus efeitos, essa é a cidade em que vivemos, e a quantidade gigantesca de pixações em todas as paredes da cidade da testemunho de quantas pessoas estão gritando desesperadas, quantas pessoas estão em busca de expressão.

Daí uma pergunta: será que não é possível que essas pessoas se expressem de uma forma que vá além de por o nome na parede ? É aqui que a pixação pode virar grafitti.

Pixação & Estética

Há uma estética das letras rúnicas, agressivas do alfabeto da pixação paulistana. No Beco do Batman, um dos grafiteiros transformou a forma do pixo em um padrão agregado á sua pintura (foto acima). Poucos anos atrás, o Itaú Cultural na Av. Paulista passou por uma reforma e cobriu a obra com um tapume branco, divertidamente pixado com um padrão desse tipo. No Cemitério São Paulo, pixadores foram apresentados á arte em cerâmica e puseram seus rabiscos ao longo do comprido muro branco, em espaços simétricos, e o resultado foi surpreendente.

O ponto é: há um gigantesco potencial estético nos garranchos dos pixadores. Há uma enorme energia criativa – sob a forma de vontade de expressão – por trás da ação dos pixadores. Aliás, toda essa reflexão surgiu a partir dos alegres colóquios que se iniciaram com visitas à galeria Choque Cultural e, principalmente, à sua recém encerrada exposição de arte gráfica. Se a pixação for desprovida de um viés ideológico bobo, ela pode se converter, junto com o grafitti, em uma forma de arte singular. Pode até ajudar a definir os rumos de uma nova arte possível no novo milênio, após quase um século de crise da arte.

domingo, 12 de julho de 2009

Beco do Batman



Dos alegres colóquios realizados ultimamente no Beco do Batman – verdadeiro museu a céu aberto do grafitti –fica a suspeita de que a arte de rua é o futuro da arte, justamente por salvá-la da perda de sentido.

Hoje, quando vamos ao museu, topamos com as famosas “instalações”, quase sempre herméticas, isto é, absolutamente incompreensíveis sem um manual de instruções devidamente oferecido pelo artista. Ou então, cruzamos com aquelas propostas de “chocar a platéia burguesa”, como se, a essa altura, alguém ainda tivesse alguma sensibilidade para ser chocada. (Hoje em dia, depois de Auschwitz e Hiroshima, expor um urinol não consegue provocar outra reação além de um bocejo entediado). Finalmente, há essa mania boba de querer superar a vanguarda da semana passada, se convertendo na vanguarda da vanguarda, pelo menos até a semana que vem: sem a compreensão de toda a história da arte, incluindo as últimas dissidências conceituais entre grupelhos semi-desconhecidos, não se consegue entender porque tal artista resolveu usar sua obra para “questionar a arte” pela milésima vez.


A arte de rua traz de volta pelo menos três elementos que se perderam desde que se iniciou aquele surdo diálogo com si próprio que tem caracterizado a arte nos últimos anos. Em primeiro lugar, o grafitti nos coloca diante do inesperado, e isso tem a ver com o próprio suporte usado pelo artista: nada menos que a cidade. No meio de uma entediante jornada do cotidiano, viramos uma esquina e damos com uma súbita explosão de cores. Equipamentos urbanos cinzas, funcionais, desinteressantes passam a ganhar interesse ao se transformarem em formas inéditas.

Além disso, o grafitti nos faz olhar diferente. Claro que aqui cabe uma ressalva: não é por ser uma pintura e estar na rua que o grafitti ganha automaticamente estatuto de obra de arte. Porém, muitas dessas obras conseguem, e passam a pedir um tempo de contemplação maior do que o dispensado em uma passagem rápida, talvez de carro ou ônibus. Quando oferecemos esse tempo, descobrimos no grafitti coisas que não havíamos percebido da primeira vez, acabamos por perceber um novo significado (ou novos múltiplos significados) na imagem que contemplamos.

Finalmente, o grafitti abre espaço para a reflexão. Trata-se da arte na rua, que se oferece aos cidadãos de uma cidade que rejeita o espaço público. Dessa forma, o grafitti nos convida a reocupar esse espaço ou pelo menos chama atenção para sua deterioração. Seu suporte principal é o muro, e é chocante a quantidade de muros que nos cercam, sinalizando insegurança e exclusão, ao mesmo tempo em que chamam atenção para a pobreza da arquitetura que nos cerca (uma arquitetura que multiplica ao infinito as superfícies verticais brancas ou cinzas; seja como for, logo sujas).

Há que diferenciar grafitti de pixação, já comecei a fazê-lo nos posts de 27 de outubro (http://bit.ly/RbJ87 e http://bit.ly/4u9zKe) e 2 de novembro (http://bit.ly/BG9kf ) do ano passado. Porém, a primeira visita com os alunos ao Beco do Batman e o alegre colóquio com Zezão, grafiteiro inspirado, ajudou a colocar a questão da pixação em um novo plano. Volto ao assunto no próximo post.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sob efeito hipnótico




Não resisti, comprei o quadro. Agora passarei os próximos dias sob efeito hipnótico das cores e formas que terei diante de mim. Ficarei paralisado, cada vez que sentar no sofá em pleno deleite solitário, e ouvirei o fantasma de Michelangelo cochichar no meu ouvido que a obra de arte pede a solidão para produzi-la ou contemplá-la. Pensarei obsessivamente no significado de ter uma obra de arte para mim e só para mim, para ninguém mais. Mas saberei que o artista que agora financio – tornei-me um mecenas ? – permanece engajado na sua arte, e sua arte é de rua. O preço que paguei pelo meu prazer pessoal libertará o artista para que ele permaneça produzindo para as pessoas, tendo a cidade como suporte.

Saberei que tenho sobre a brancura imaculada da parede de casa um quadro com imagens que pertencem à rua. Terei convidados para o jantar sentados diante da inscrição “PIXELTOSCO” em azul vibrante, e saberei que a maior parte deles jamais conseguirá ler essas palavras, escritas com a grafia mais tortuosa dos muros de São Paulo. Ficarei dias pensando em como aquela superposição alucinada de inscrições em uma tela de 200 x 150 cm resultou em uma beleza plástica impressionante.

Sim, terei que viver com a lembrança vergonhosa de que, ao saber do preço, eu pedi um desconto na obra de arte. Mas tanto faz, a compra foi feita, resta apenas aguardar a entrega. E hoje, uma quinta-feira em que chove mais que a Lisboa de Bernardo Soares e a Los Angeles de Blade Runner, a galeria diz que fará a entrega da tela, a partir das 14h. Curiosamente - máximo da coincidência - no mesmo dia e horário em que a loja de material de construção prometeu entregar minha privada nova.

Toca o interfone: subitamente, vivo um momento Duchamp.


domingo, 21 de junho de 2009

Pequenos poderes



Dia desses, falando sobre a Revolução Francesa, surgiu a lembrança de que os mais fanáticos defensores do Rei, no processo revolucionário, eram “novos-aristocratas”, ou seja, burgueses que haviam recebido títulos de nobreza por serviços prestados à monarquia. De fato, durante décadas que antecederam a Revolução muitos burgueses aspiravam obter títulos de nobreza, e puxavam o saco do Rei até não mais poder para obtê-los. Tornar-se nobre era uma ambição de muitos burgueses, viver dos privilégios concedidos pelo Rei, um ideal. “Pai rico, filho nobre, neto pobre” foi um ditado que surgiu na época do absolutismo, numa referência à forma como burgueses tornavam-se nobres e, em seguida, deixavam de lado os negócios, passando a viver dos favores do Rei. Uma vez tendo obtido privilégios, lutaram até a morte para mantê-los.

A história toda me lembra os kapos de Auschwitz. Nos campos de extermínio mantidos pelo regime nazista, os kapos eram prisioneiros judeus que ficavam encarregados dos serviços mais sujos ou cansativos, aqueles que os alemães achavam indignos de fazer. Por exemplo, o trato cotidiano com os demais prisioneiros. Por serem eles mesmos judeus, os kapos sabiam que sua sobrevivência só seria garantida se eles desempenhassem com eficiência seu trabalho, tornando-se de certa foram insubstituíveis para seus mestres alemães. Assim, os kapos muitas vezes tratavam os prisioneiros judeus com mais violência que os próprios alemães. Cito um trecho do “Dicionário dos Campos De Concentração”:

Cada vez que um novo transporte de prisioneiros chegava em Mathausen, o kapo August Adam separava os professores, advogados, juízes e religiosos e perguntava cinicamente a eles; “Você é um advogado ? Um professor ? Que bom ! Está vendo este triângulo verde ? Significa que sou um matador. Tenho cinco condenações: uma por assassinato e quatro por roubo. E aqui quem manda sou eu. O mundo virou de cabeça para baixo, não ? Você me entende ? Precisa de um tradutor ? Pois aqui está ele.”, e dizendo isso apontava para o porrete com o qual passava a espancar os prisioneiros. Depois de satisfeito, organizava uma Scheisskompanie e os mandava para esvaziar as fossas.
Mas talvez eu esteja citando exemplos extremos ou distantes demais de nossa realidade. Permitam-me lembrar um triste episódio pelo qual passei poucos anos atrás, quando o destino me obrigou a tirar um daqueles afamados vistos de entrada para os Estados Unidos. O processo todo beira a violência e humilhação: desde as longas conversas telefônicas com gravações (devidamente cobradas), passando pelo pagamento de uma taxa abusiva, lista de espera e, no dia selecionado para a entrevista, uma fila interminável. Organizando a fila, do lado de fora do Consulado, os seguranças: funcionários brasileiros, devidamente uniformizados, com cassetetes na cintura e uma bandeira dos Estados Unidos no ombro. Alguém pode imaginar a arrogância e o autoritarismo desses imbecis, uma vez usando um uniforme com a bandeira americana ? O estúpido poderzinho a eles atribuído subia à cabeça de forma atroz.

Aqui, mais uma vez, lembro da experiência do nazi-fascismo. O nazi-fascismo encontrou campo para seu florescimento em momentos de crise e humilhação social, como na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial ou o resto do mundo durante a Grande Depressão. Para o indivíduo desempregado, empobrecido, humilhado, o nazi-fascismo propunha um discurso grandiloqüente, um sentido de missão e, sobretudo, um uniforme e uma função dentro de um quadro hierárquico que permitia o exercício da autoridade. Resgatava-se assim a auto-estima perdida pelo indivíduo, nem que para mantê-la viva fosse necessário agredir ou humilhar outros indivíduos. Para os pobres seguranças fascistinhas do Consulado americano, uma posição de autoridade e um uniforme com a bandeira americana no ombro significaria, provavelmente, o fim de uma vida de humilhações. Afinal, quem vai trabalhar em uma empresa de segurança privada senão alguém que já está na fronteira da marginalidade ?

Mas os pequenos poderes proto-fascistas com os quais cruzamos no cotidiano não assumem somente a forma de autoritarismo armado. A fúria organizadora também tem o seu papel. E aqui entram em cena aqueles cegos burocratas, com seu desejo autoritário de controlar o mundo, disciplinando os corpos, estabelecendo critérios de uma suposta normalidade. Na sua fúria normativa, eles não podem ver um fato sem criar uma regra, não conseguem interpretar um comportamento sem pressupor um desvio. Nesse papel, alguns síndicos de prédio são imbatíveis. Em 2º lugar na minha lista de síndico-fascista-preferido-de-todos-os-tempos está a Sra.N., pacata funcionária aposentada, síndica de um edifício que freqüento. Aliás, ela é uma ex-diretora de escola (me parece que a mulher nasceu para fazer as regras serem cumpridas). Incorruptível, porém dotada de uma fúria normativa assustadora. Recentemente, afixou um pequeno quadro na mesa do porteiro, de costas para ele e voltado para quem chega: “Favor não distrair a atenção do porteiro”. Preocupada com a segurança do edifício, a nossa brava síndica jogou no lixo a humanidade do porteiro, julgando-o incapaz de agir por conta própria ou tomar suas próprias decisões, tratando-o como um animal enjaulado que não deve ser alimentado ou coisa parecida.

E aos que não entenderam nada do porque desse post, apenas confesso: escrevo com raiva. E dedico cada linha do post ao síndico do edifício onde estaciono meu carro, o síndico número um da minha lista, o homem que criou o conceito de Volksgemeinschaft de condomínio. Sieg Heil !

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Na imagem, o kapo Georg, no campo de Dora, desenhado por Leon Delarbre em 1944 (extraído de www.memoire-juive.org/kapos.htm )

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Ouro Preto


O primeiroAdicionar imagem frio do ano aguça a memória. O inverno traz Ouro Preto, que sempre foi e sempre será uma cidade infinita. Nunca se deve deixar de voltar para Ouro Preto, em cada viagem algo novo sempre é descoberto. A partir da regularidade da viagem (todo ano, em julho, de ônibus, levando um grupo) uma questão surge e fica no ar: se a cidade é sempre a mesma e os lugares visitados são os mesmos, o que muda ? Só pode ser o viajante, que vai se redescobrindo como uma pessoa diferente a cada retorno, e sabemos que isso é que dá valor a uma viagem.
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Gostaria de poder falar sobre Ouro Preto da mesma forma que o Paulão, antigo professor de História do Brasil do Anglo. Se não com as mesmas palavras com que ele me apresentou a cidade pela primeira vez, pelo menos com a mesma paixão com a qual ele descrevia Ouro Preto em sala de aula, falando da Inconfidência Mineira, e que fez com que um aluno, em um momento qualquer da década de 1980 desabafasse: “Pô, Paulão, por que você não leva a gente pra Ouro Preto ?”. Assim nasceu a primeira viagem do Anglo para as cidades históricas de Minas Gerais.

Entrei na aventura bem mais tarde, como convidado, e jamais esquecerei cada detalhe da primeira vez que estive em Ouro Preto, em 1999. A paisagem surpreendente, o ar da montanha, a visão noturna do Colégio onde nos hospedamos, a arquitetura da cidade explicada minuciosamente pelo Paulão. Os becos estreitos cobertos de névoa, ganhando ares de mistério. O frio da cidade contrastando com o fogo das paixões.

Porém, o aspecto mais encantador da viagem sempre foi a possibilidade do convívio entre as pessoas sem as restrições habituais do cursinho, como os horários rígidos balizados pelo toque do sinal ou mesmo o número excessivo de pessoas. Em Minas, os encontros se multiplicam e, sob o impacto das descobertas do dia ou mesmo da cachaça de Minas, acabam por transformar cada conversa em um Alegre Colóquio. Paulão era mestre no colóquio de botequim, falando de história, de música, da MPB que ele tanto gostava, das lembranças de viagens anteriores com outras turmas, de sua vida dura de estudante durante o regime militar. Paulão falava sobre o que era ser negro no Brasil. E tudo isso no meio de noites infindáveis, sob o espetacular firmamento de Ouro Preto, pelo menos antes que a névoa começasse a cair na alta madrugada.

Herdei a viagem em 2003 (estranha herança sem testamento), e imprimi o meu caráter ao roteiro: menos história do Brasil, mais história da Arte; menos pinga com mel, mais Filosofia. Foi quando fiz as minhas próprias descobertas, imediatamente compartilhadas com os alunos, como a obra do mestre Athaíde e seus anjinhos ou a igreja do Rosário e sua surpreendente fachada curva. Todavia, a parte que mais me honra nessa herança é a possibilidade de ser o novo anfitrião de Alegres Colóquios cada vez mais vibrantes.

As turmas de 2007 e 2008 foram talvez as melhores em todos os tempos, e passaram a fazer parte dessa longa corrente que dura já mais de vinte anos. E é isso que me empolga em manter a tradição da viagem: compartilhar descobertas, ir além da nossa experiência de cursinho limitada por quatro paredes, proporcionar o mesmo espanto que tive ao contemplar o barroco mineiro (que me ensinou um novo olhar), sentir o impacto da memória das minas. Me empolgo ao proporcionar a todos a possibilidade de fazer parte dessa corrente.

Leio comentários no blog de pessoas que estiveram na viagem cinco, seis anos atrás e hoje acompanham minhas divagações: agora não são mais alunos, mas continuam sendo companheiros de descobertas. Fico sensibilizado e não consigo deixar de imprimir a esse post um caráter emotivo, assumindo o lado confessional que sempre tento evitar desde que inaugurei o blog.

Faço a todos que me lêem um convite para participar de Alegres Colóquios nas cidades históricas de Minas Gerais, do dia 22 ao 26 de julho, ou então de 27 a 31. Quem não for mais do Anglo que se sinta convidado do mesmo jeito, sempre fico feliz em receber ex-alunos no grupo.

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Na foto, a turma de 2007 descobre, perplexa, as imagens que se escondem nas sombras da escultura de Aleijadinho. As caras são ótimas: alguns enxergam, ficam encantados; outros ainda não e forçam a vista apertando os olhos. À direita, um menino esfrega os olhos, exausto. Nessa hora, minha explicação não basta: as pessoas tentam se ajudar umas às outras, tentam ensinar como olhar diferente.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sobre vinhos & homens



Errazuriz Pinot Noir Reserva, 2006

Recomendaram-me esse vinho semanas atrás, topei com ele por acaso em um jantar. Ao escolhê-lo, fui tratado com alguma cerimônia: o maitre acompanhou a abertura da garrafa e aguardou até que eu estivesse satisfeito. Limito-me a dizer que o vinho agradou muito, dispenso o vocabulário arrogante dos eno-chatos para descrevê-lo (“ambicioso!”, “retrogosto suave!”, “aroma de dálias... não, begônias!”). Se por um lado os especialistas usam palavras que consideramos estranhas para descrever um vinho, por outro passamos a entendê-las com o tempo. Por exemplo, fala-se da “complexidade” de um vinho e naquela noite, de fato, diversos sabores e odores foram despertados a partir o primeiro gole que tomei. Relaxei e me felicitei pela escolha, sabendo que estaria em boa companhia pela noite afora.

O cardápio eclético acompanhou bem o vinho, mas ainda sim tive o cuidado de limpar a boca com pão e água antes de cada gole. Para não ter que pedir uma segunda garrafa de vinho tão caro, fui controlando cada gole, transformando cada toque dos lábios na taça, cada aproximação do nariz na superfície do líquido em uma momento de seriedade e dedicação. Porém, a noite foi passando e o vinho simplesmente foi morrendo. Não lembro do segundo gole, mas lá pelas tantas – e perfeitamente sóbrio – percebi que o vinho não justificava tanta devoção. Ao final, deixei sobrando uns dois dedos na taça.

Que teria acontecido ? Cruzei com um vinho fino, bem cuidado e bem preservado que ao ser aberto, explodiu com todo seu vigor e aroma, dominando todo espaço sensorial à sua volta, mas que teve nessa explosão sua única manifestação de vida. Talvez a matéria-prima, o fruto mesmo do qual se extraiu o vinho, não estivesse à altura, não tivesse personalidade suficiente para impor seu sabor para além de alguns poucos minutos. Preservarei na memória um excelente primeiro gole e certamente abrirei outras garrafas de Errazuriz, mas saberei que os prazeres oferecidos serão apenas passageiros.

Chateau Moulin de Brion, 2003

“Sempre é melhor pedir um vinho francês, porque mesmo quando ele não é bom, é bom”, ouvi certa vez de um conhecido. Na França, os padrões são outros e é certamente com olho gordo que abrimos, por exemplo, um vinho superieur do Medoc. Aproveitamos cada detalhe, a começar pelo som da rolha saindo da garrafa: um leve rangido conforme ela vai sendo puxada e esfregada de encontro à parede da garrafa e, subitamente um “tloc”, barulho explosivo porém discreto, que já desperta a imaginação para os odores saindo para fora da garrafa. Segue-se a bela visão do líquido sendo derramado na taça, revelando sua cor ao delicioso som do líquido se espalhando, ocupando espaço.

Estava em casa, concentrado, quando abri esse vinho. Foi com expectativa que segui todo ritual e me concentrei nos pequenos detalhes da abertura da garrafa. Me aproximei do vinho lembrando o dia em que tomei meu primeiro bordeaux superior, antecipando os sabores que iria experimentar. Dei um gole voluptuoso, deixei escorrer o líquido em volta da língua, sentindo o aroma excitar meu nariz e, antes mesmo de engolir, me dei conta de uma estranha falta de sabor, de um inesperado e muito leve adocicado que não tinham nada a ver com a nobreza de um bordeaux. Estranhei o gosto daquela bebida quase insossa. Pensei, quem sabe, nas mazelas do armazenamento. Lembrei que 2003 foi o ano da canicule, um verão terrível que pela primeira vez chamou atenção da França sobre o aquecimento global ao mesmo tempo em que as uvas secavam, adocicadas, nas videiras. Cheguei a lembrar do escândalo de 1985, quando vários produtores europeus foram surpreendidos acrescentando anti-congelantes para motor diesel em suas garrafas, alterando – e muito – o sabor da bebida.

Seja como for, resolvi enfrentar o vinho. Deixei-o respirar, derramando todo o conteúdo da garrafa no decanter. Percebi que pelo menos sua cor era belíssima. Esperei, tomei um segundo gole da taça e comecei a achar que talvez o vinho não fosse tão ruim assim. (Ou será que minha boca estava anestesiada ?). A dor no bolso me fez lutar contra o vinho por toda a noite e, ao longo das horas, o vinho foi se revelando. A segunda taça, vertida do decanter, apresentou um equilíbrio insuspeito. Seguiu-se uma terceira taça e, em breve, percebi que o próprio gosto do vinho foi mudando ao longo da noite, se aprimorando. O vinho foi se “encaixando” com o tempo, a ponto de despertar o desejo de que aquela garrafa não acabasse nunca. Seria isso o que os especialistas chamam de um vinho com personalidade ? Pois ela acabou se impondo em uma da melhores garrafas que jamais abri.


Castelo di Brolio, 1998

A extrema complexidade e infinita diversidade dos vinhos acabam por transformá-los na bebida humana por excelência. Pois os vinhos, na verdade, são como os humanos. Alguns deles se apresentam fortemente impactantes no primeiro contato, dominantes e sedutores, mas seu vigor é passageiro, não sobrevivem à experiência do tempo, seja na curta duração de uma noite, seja no longo prazo, esperando o envelhecimento. Outros passam desapercebidos, alguns chegam até a transmitir uma má impressão, mas vão se revelando aos poucos. Primeiro percebemos um detalhe, depois outro, em seguida mais um e, quando menos esperamos, uma personalidade cativante se desvenda. E aí chegamos ao terceiro vinho que quero comentar.

Durante muito tempo tive uma garrafa de Castelo di Broglio 1998. Várias vezes sentei-me na poltrona vermelha da sala, com um belo livro nas mãos e, interrompendo a leitura, em pleno silêncio da noite, olhava para a prateleira onde repousam as garrafas de vinho. Naquele canto meio obscuro da sala, eu percebia a ponta vermelha da garrafa do Castelo di Broglio. Muitas vezes pensei, “Será que já está na hora de abri-la ?”. Outras tantas vezes me levantei, peguei a garrafa de fiquei olhando para ela. Levantando-a contra a luz, tentava perceber alguma tonalidade de vermelho por trás do vidro escuro. Nessas horas eu pensava: alguma coisa está acontecendo nessa garrafa, os sabores estão mudando. Se eu abrir essa garrafa hoje terei um vinho, se abrir em um ano terei outro. Uma garrafa de vinho é algo vivo, em transformação silenciosa, pronta para revelar seu segredo na hora certa, seja lá qual for essa hora, seja lá qual for esse segredo.

Volto para a analogia com as pessoas. As pessoas mais interessantes são como minha garrafa de Castelo di Broglio: não as que tem segredos tolos, mas aquelas que, em silêncio, estão mudando. Aquelas que, uma vez desvendadas, colocam-nos diante do inesperado. Quantas vezes não contemplamos uma face sabendo ou pelo menos imaginando a verdadeira explosão que está ocorrendo em seu interior ? Quantas vezes uma palavra (ou, em casos excepcionais, uma simples presença) pode despertar ou acelerar essas mudanças ? Da experiência de professor: passo muito tempo contemplando faces entediadas, mas eventualmente digo algo que provoca um rápido erguer de sobrancelha, uma ruga na teste, um movimento de cabeça. Um olho quase adormecido que se arregala. Nessas horas, tenho vontade de saber o que despertei, ou como minhas palavras estão sendo ouvidas: quero um retorno, uma volta. Pois uma pessoa, todas as pessoas, como uma garrafa de vinho, têm a capacidade de nos por diante de coisas novas, jamais experimentadas, seja sob a forma de pensamentos nunca imaginados, de sentimentos jamais vividos ou de reações inusitadas.

Pois então bebamos. Tomemos vinho, vamos nos embriagar de Humanidade.