segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Aqui jazz




Aos 14 anos, eu me achava o máximo da malandragem ao cortar o cabelo no glorioso “Aqui Jazz – Cabeleireiros”, que existe ainda hoje diante do Cemitério da Aclimação. O local atraía todo o tipo de doidões e esquisitões do bairro, bem como qualquer jovem cabeludo que se achasse alternativo. No meio desse verdadeiro circo, despontava a figura do proprietário, o Magrão, sempre acompanhado de seu fiel braço direito, o Ameba, que eu desconfiava estar eternamente chapado.

É estranho que os cabeludos do bairro tivessem como ponto de encontro justo uma barbearia, mas isso diz muito sobre o frouxo grau de radicalismo dos jovens de classe média da época. Os anos de ouro do Movimento Jovem já haviam acabado há muito e, sob o peso da repressão dos últimos anos do Regime Militar (por essa época, também bastante frouxa), nosso radicalismo se limitava a ouvir discos de rock, dos dinossauros do rock (The Who, Deep Purple, Led Zeppelin) e a olhar com desprezo a moçadinha que ia dançar nas tardes de sábado ao som da disco music de então (Donna Summer, Sylvester e – deus me livre ! – Bee Gees). No "Aqui jazz", preferìamos aquelas bandas que dificilmente tocavam no rádio, exceto por uma ou outra baladinha besta do tipo Stairway to heaven. E, claro, nada de jazz.

Na época, quando se falava em jazz, eu pensava em algo do tipo dixieland, que era cultivado por umas poucas bandas em São Paulo. Das atrações estrangeiras que aqui chegavam, quase todas se esmeravam no fusion ou em outros sons experimentais e, convenhamos, começar a ouvir jazz por aí é um tiro no pé. Nunca esqueço um show de Chick Corea, transmitido pela TV Cultura, quando o músico americano sentou-se diante de um magnífico piano de cauda, inclinou-se diante de sua tampa aberta e começou a batucar na madeira do piano, para delírio da platéia e minha perplexidade total. Eu ainda levaria anos para conhecer o verdadeiro jazz, que foi vanguarda nos anos de 1920 e 1930, e que acabou dando origem a bebop, west coast e outras maravilhas.

Porque o jazz é feito de nuances, e pedem um ouvido minimamente competente. Da minha precária formação musical, resultou o longo tempo que levei para educar os ouvidos, sem método nenhum, sem conhecimento técnico, apenas ouvindo milhares e milhares de músicas, de todos os tipos, sem parar, ao longo de muitos anos. Acredito que todas as pessoas que gostam de música um dia chegam no mesmo ponto e passam a ouvir música adulta, jazz, ou mesmo música clássica.

Na verdade, não só o jazz, mas o mundo é feito de nuances, e é pena que elas se percam por simples desconhecimento. Nas aulas, enfatizo as nuances e as múltiplas leituras de obras de arte, eventualmente de uma ou outra música, do clássico ao blues. Mas não são apenas quadros, todo a natureza, todas as pessoas podem ser lidas de mil formas. Recentemente, em um alegre colóquio, até me falaram sobre as múltiplas leituras que são possíveis a partir da observação de um olho e de suas sutis mudanças de cores.

[Interlúdio pop: lembram-se do filme A garota com o brinco de pérola ? (se não conhecem, assistam). No filme, o pintor Vermeer diz para a jovem Griet (Scarlett Johansson, em um de seus primeiro papéis) olhar o céu e dizer a cor das nuvens. A moça, mal olhando pela janela diz, “Oras, elas são brancas”. Porém o pintor insiste e diz, “Olhe bem, olhe com atenção. Todas elas. São brancas mesmo ?” E o olhar da jovem Griet começa a perceber milhares de nuances e reflexos e texturas que ela, maravilhada, jamais havia percebido. Pois o grande livro do mundo nos fala o tempo todo, e é inesgotável a reserva de símbolos que ele emprega, como dizia o frei Guilherme em O Nome da Rosa. Ainda no registro da cultura pop, lembro de um episódio de Sex and the City, quando Carrie namorava um músico de jazz. Ele pergunta se ela gosta desse tipo de música e ela diz, “mas como vou gostar de um tipo de música que não se pode cantar junto, não se pode dançar ?” Trata-se de outra relação com a música, válida (por que não ?), mas que nada tem a ver com a sutiliza instrumental do jazz. Me arrisco a dizer que talvez mulheres se liguem à música com mais facilidade através de outros registros, por exemplo, o corpóreo: através da Dança.]

Porque o jazz tem alma. Assim como o blues, uma mesma canção de jazz é diferente cada vez que é tocada novamente. São os mesmos acordes, a mesma letra, a mesma tudo, e ainda assim a música sai diferente. Paradoxalmente, na música pop, canções diferentes parecem ser todas a mesma coisa. É por isso que muitas vezes os CDs de jazz apresentam, por exemplo, música 1, “Bag’s Groove – take one”; música 2, “Bag’s Groove – take two”; música três, “Bag’s Groove, take three”, e assim vai.

E porque é impossível falar do jazz sem falar da história do jazz (enquanto boa parte da música pop se resume ao mero aqui agora). Me encanta a história da disseminação do jazz, de como ele foi sendo descoberto no mundo inteiro. A Primeira Guerra Mundial foi decisiva, quando soldados norte-americanos (incluindo cerca de 200 mil negros) foram para a Europa, particularmente para a França, levando suas armas e seus instrumentos musicais. Após o conflito, muitos músicos negros ficaram, outros para lá se mudaram, fugindo da segregação racial e criando uma nova vida, com muito mais dignidade. Como o clarinetista Sidney Bechet e o trompetista Arthur Briggs, aos quais se juntou a cantora e dançarina Josephine Baker, todos atuando em Paris.

Na Alemanha, o jazz foi copiado por músicos brancos, e mais tarde acabou sendo considerado uma arte degenerada pelo regime nazista recém instalado; vejam no magnífico poster acima, como o jazz era visto pelos alemães. Na União Soviética, o grande desenvolvimento da música clássica sempre foi acompanhado da dedicação de seus músicos ao jazz, nas horas vagas. A cidade de Odessa, chegou a ser conhecida durante algum tempo como a New Orleans soviética, onde despontava a banda de Leonid Utyosov.

No início da Segundo Guerra Mundial, o gênero já estava estabelecido, e pode-se até dizer que o swing de bandas como a de Benny Goodman e Glenn Miller (que morreu na guerra) foram a trilha sonora do conflito. Mas nessa época já estava nascendo o bebop e, da mesma forma que no final da Primeira Guerra, ao final da Segunda não foram poucos os americanos que ficaram pela Europa, voltando a encher de jazz os cabarés esfumaçados de Berlim e Paris da Guerra Fria. Nessa época, mudou-se para Paris o saxofonista Johnny Griffin, e Sidney Bechet começou a ser chamado de “Le dieu”/“o Deus” pelos existencialistas. Também nessa época, Josephine Baker foi condecorada pelo próprio general De Gaulle, pelos serviços prestados junto à Resistência Francesa contra os nazistas.

Finalmente, chego onde queria: há cidades que incorporaram uma vocação jazzística, e Paris é, de longe, a mais importante delas. Outrora, os bares de jazz se multiplicavam na região de Montmartre, hoje em dia já é mais difícil encontrá-los. Mas, quando viajo, ainda gosto de freqüentar um ou outro porão onde se toca o bom jazz em Paris (e a aproximação da viagem do Anglo para a França me faz pensar se devo levar os jovens para algum desses adoráveis buracos). Para sentir o gosto do ambiente de jazz na capital francesa, recomendo uma das melhores programações de jazz do rádio, em http://www.tsfjazz.com/ (clique em “écouter l’antenne”). E divirtam-se.

sábado, 17 de outubro de 2009

Do não-negativismo enquanto paradigma



Gostei da escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016, mas não pelos jogos em si, que acho uma bobagem entediante. Em geral, considero os esportes olímpicos de uma tremenda infantilidade: apostar corrida, ver quem pula mais alto, ver quem é mais forte. Tais modalidades Olímpicas são simples celebrações da força bruta, e convém lembrar que Jogos Olímpicos nasceram (Grécia Antiga) ou renasceram (Europa, 1896) em épocas marcadas pela valorização da guerra ou da figura do guerreiro habilidoso, algo que, sinceramente, já deu o que tinha que dar. Acredito que hoje em dia as Olimpíadas (e mesmo o futebol) se consolidam devido à possibilidade que esses eventos têm de transferir para arenas neutras um certo furor nacionalista (proto-fascista) que de alguma forma todos possuímos, sublimando assim o nosso eventual e sempre desconfortável desejo de sangue. (ando lendo muito Luis Felipe Pondé, raios...)

Desprezo esportes olímpicos da mesma forma que na infância não achava graça nenhuma em apostar corrida (eu sempre perdia; hoje em dia me vingo escrevendo um blog). A melhor crítica ao esporte que vi está em um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, que é também um dos cinco filmes que eu levaria para uma ilha deserta (e que, curiosamente, trata de uma ilha deserta ), chamado Man Friday (no Brasil, Sexta-feira). Há um trecho absolutamente impagável de competição esportiva, uma corrida na praia entre Robinson Crusoé e Sexta-Feira, seguido de uma premiação patética ao som do grito das gaivotas. Mais eu não conto, apenas recomendo VIVAMENTE o filme.

Esportes com bola, por sua vez, tem outro significado. Primeiro porque incorporam um aspecto lúdico, de diversão, que vai muito além das brincadeiras infantis baseadas na força. Segundo, porque esportes com bola possibilitam uma enorme gama de movimentos corpóreos, que acabam muitas vezes por aproximá-los da dança, antítese da força bruta. E, finalmente, porque implicam em algum tipo de planejamento ou de estratégia para a vitória que traz junto alguma atividade do pensamento. Nesse sentido, esportes com bola têm como pré-requisito algo de minimamente cerebral, e não deixa de ser irônico observar que jogadores de futebol semi-alfabetizados e nada intelectualizados sejam dotados de uma capacidade de processamento de informação (articulando espaço, tempo, movimento) absolutamente surpreendente.

Isso para não falar das infinitas metáforas. A multiplicidade de eventos possíveis em uma mera partida de futebol abre-se para leituras que admitem “o épico, o trágico, o lírico, o cômico e o paródico”, citando o livro de José Miguel Wisnik, Veneno remédio: o futebol e o Brasil. Trata-se de um livro indispensável, de que se falou tão pouco, mas que deveria ser leitura obrigatória para entender o país, o esporte. Vejam por exemplo, os trechos brilhantes onde Wisnik comenta a Lógica do futebol, a onisciência do juiz e a questão do tempo.

Curiosamente os esportes com bola norte-americanos ainda se prendem à celebração da força bruta. Assim, no futebol americano, trata-se do embate puro e simples de dois corpos coletivos em função da ganho de terreno (diante do futebol americano, o Rugby passa a ter uma leveza insuspeita). Ou mesmo o baseball e o basquete (o mais plástico de todos os esportes norte-americanos), que são praticados de forma a repetir infinitas vezes um repertório reduzido de movimentos, produzindo dados em larga escala e permitindo o processamento desses dados em séries estatísticas infinitas. No futebol, séries estatísticas tem algo de patético e não costumam dizer nada.

Seja como for, celebro a escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica por dois motivos que nada tem a ver com o esporte. Primeiro, porque nossas cidades estão tão degradadas, mas tão degradadas que qualquer operação urbana torna-se indispensável, nem que para isso tenha que haver uma Olimpíada. Um evento como esse ajuda a pensar a cidade, a refletir sobre o tecido urbano. Um evento como esse significa que o mundo vai pousar os olhos sobre a cidade e, o que temos a oferecer ? Falta de metrô ? Fiação elétrica em postes ? (minhas duas atuais nêmesis...) Intolerável ! Pois então pensemos na cidade e mãos à obra. “Ah, mas a roubalheira...”, isso é outro problema, que deve ser encarado com Olimpíada ou sem Olimpíada. E que o imenso volume de recursos mobilizados seja motivo para que se encare o problema como nunca.

Porém, há um outro aspecto no Rio de Janeiro enquanto cidade olímpica. Nos últimos anos, as sedes de Olimpíadas ou são cidades normais de países em condições de receber tal tipo de mega evento (Londres, Sydney, Atlanta, Barcelona), ou cidades simbólicas (Atenas e não há outra), ou cidades emergentes, de países cuja “normalidade” é reconhecida (Seul, Pequim). Não tenho dúvida sobre o grupo onde Rio de Janeiro se encaixa. Pois há no ar esse estranho otimismo em relação ao Brasil, esse estranho reconhecimento de que o país, apesar dos seus problemas, é como os outros, e respeitável a ponto de sediar um evento como a Olimpíada.

Trata-se de uma mudança de paradigma. Nos acostumamos a pensar o Brasil como um lugar onde nada dá certo e, de fato, nada deu certo nas décadas de 1980 e 1990. Foi a época da grande estagnação (e, que lindo, também foram meus verdes anos !), que se prolongou até o início do novo século e que fez com que adotássemos o pessimismo realista como forma de enxergar o Brasil. O último momento de otimismo, o milagre econômico dos anos 1970, provou ser uma mentira: um crescimento falso, fundado em uma dívida que um dia explodiu. Se lembrarmos que a década de 1960 foi de crise política e ditadura, constatamos que o clima otimista simplesmente desapareceu ou nunca existiu na memória das pessoas. A última vez que ouvimos um discurso positivo sobre o Brasil, ele foi pronunciado pelo regime Militar nos anos 1970, e descobrimos em seguida que era uma mentira.

A escolha do Rio de Janeiro pode representar uma mudança de paradigma na forma como enxergamos o Brasil. Claro, rejeitamos qualquer otimismo inocente (pois a miséria, a violência e a disseminação de práticas políticas arcaicas batem à porta). Porém, ao mesmo tempo, desconfiamos que o pessimismo pode ser paralisante. Acho que finalmente chegou a hora do não-negativismo.


domingo, 11 de outubro de 2009

Refletindo sob(re) a chuva



Mal tinha dez anos quando comecei a falar da “minha chuva preferida”: é aquela que aparece nas primeiras páginas de “O Caso Girassol”, 17º volume das aventuras de Tintim, na edição cânone de 22 álbuns. Trata-se de uma narrativa soberba, poucas vezes um autor de história em quadrinhos foi tão feliz quanto Hergé na abertura de “O Caso Girassol”. Para recordar, a história começa com Tintim e o Capitão caminhando serenamente pelo campo, quando são surpreendidos pelo trovão que anuncia uma tempestade. A chuva marca o início de uma sucessão de fatos tremendamente perturbadores, que incluem raios cada vez mais próximos, corte na energia elétrica, chegada de personagens misteriosos e ameaçadores, tiros no parque, buracos de bala, vítimas que desaparecem e, sobretudo, vidros se estilhaçando por todos os lados. Todo o universo tranquilo e muito bem conhecido do castelo de Moulinsart desmorona a partir do início da tempestade.

Garoto, eu corria para reler pela centésima vez “O Caso Girassol” cada vez que uma tempestade de verão se anunciava. Tinha um estranho prazer em começar a ler a aventura ao mesmo tempo que percebia as inúmeras mudanças provocadas pelo início iminente da chuva: o vento morno que precede as tempestades de verão, portas e janelas batendo, gritos vindos dos fundos das casas vizinhas, na medida em que as donas de casa corriam para pegar a roupa estendida no varal. Logo, gotas imensas começavam a cair, lentamente preenchendo todo o espaço do chão seco, ao mesmo tempo em que um cheiro único, indescritível, se desprendia do chão, algo como uma mistura de vegetação e de pedra, mofo, cimento.

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Que estranha atração é essa que a chuva provoca ? Além de estranha, inesperada: apenas recentemente, graças ao Twitter, descobri como as pessoas gostam da chuva, anseiam pelo início da chuva e talvez de alguma forma se descubram sob a chuva. Na minha vida, fui acrescentando várias outras chuvas ao meu repertório de preferidas: a chuva ácida que cai sobre Los Angeles no futurista Blade Runner, a chuva interminável sobre Macondo em Cem Anos de Solidão. Ou ainda em um esquecido filme francês da década de 1950, Rififi. Seu diretor, o norte-americano Jules Dassin, fugitivo do macartismo, recriou a atmosfera do film-noir em Paris, fotografando a cidade de forma única: sem nenhuma das paisagens que fizeram a fama da cidade, mas apenas mostrando uma sucessão de ruas sempre molhadas, sempre após a chuva, sempre em preto e branco. (Subitamente, lembro de Walter Benjamin falando sobre a beleza do Sena: o rio é belo porque reflete a cidade, duplicando Paris).

Porém, as descrições de chuva na Lisboa de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa) são particularmente tocantes. Copio fragmentos de uma de suas descrições da chuva, no caso, de um final de tempestade:

Depois que os últimos pingos da chuva começaram a tardar na queda dos telhados (...) ouviu-se o abrir de janelas contra o desesquecimento do sol. Então, pela rua estreita, do fundo da esquina próxima, rompeu o convite alto do primeiro cuteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja fronteira reverberaram pelo espaço claro (...)

O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante esse cair esfiado de água sombriamente luminosa que destaca das fachadas sujas e ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou (...)

Mas que pensava eu antes de me perder a ver ? Não, sei. Vontade ? Esforço ? Vida ? Com um grande avanço de luz, sente-se que o céu é já quase todo azul. Mas não há sossego – ah, nem o haverá nunca ! – no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância fechada ao pó no sótão da casa alheia. Não há sossego – e, ai de mim !, nem sequer há desejo de o ter...

Foram esses trechos que me ajudaram a refletir sobre a chuva. O início e o fim da chuva são dois momentos em que o mundo – ou , mais precisamente, a cidade – se transforma diante de nossos olhos. Trata-se, portanto, de dois momentos privilegiados para contemplar o mundo a nossa volta e entendê-lo, talvez até a achar nosso lugar dentro dele. O início ou o fim da chuva representam um limiar, em que nossa faculdade de observação e compreensão das coisas é despertada: é quando desaparece o nosso olhar "de sempre", desprovido de sentido, com o qual contemplamos uma realidade cotidiana que se repete infinitas vezes e no qual estamos imersos. Em outras palavras, desaparece um olhar que é pura objetividade, e que nos mostra uma sucessão de atividades banais, de coisas entediantes e repetitivas que fazem grande parte de nosso dia a dia. Quando ultrapassamos o limiar, graças as mudanças provocadas pela chuva, emerge nossa subjetividade, que acaba por dar contexto e significado às coisas, que nos faz descobrir um sentido que está oculto na banalidade que, descobrimos, é só aparente. Assim, a paisagem vista pela janela mil vezes da mesma forma passa a apresentar uma multidão de figuras novas: o grito do cuteleiro, o martelar de pregos (ou mesmo a corrida da dona de casa rumo ao varal de roupa) todos eles vão ganhando forma e ocupando o universo das sensações a nossa volta, mais ou menos como um artista começa a despejar cor sobre uma tela. A cidade vai tomando forma como um organismo vivo diante de nossos olhos, e as infinitas particularidades que acabam por formar o todo, perdem o seu caráter de forma única a passam a ser uma construção cultural, um sentido.

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Volto para o Tintim. Na página 2 de “O Caso Girassol”, a chuva despenca com intensidade, e fatos perturbadores logo irão começar. O primeiro deles encontra-se no último quadrinho da página, um dos meus quadrinhos preferidos em toda obra de Hergé, e cujo significado total eu demorei a perceber. Na imagem, Tintim, o Capitão e o “bravo” Nestor correm da chuva, sem saber que estão sendo observados por um espião da Sildávia. Mas, no mesmo quadrinho, um espião da Bordúria observa o espião sildavo que observa nossos heróis. E, nessa estranha operação do olhar, nesse verdadeiro ziguezague de olhares que se superpõem sem nunca se cruzarem, há ainda um outro: o do leitor, que é o único que tem conhecimento do que acontece, o único que vê tudo.

Ter a experiência da chuva nos dá a ilusão de poder tudo saber, de quem sabe poder construir o mundo onde estamos, a partir de seu aparente desmembramento. E isso é o que mais desejam todos aqueles amantes da chuva, que não superaram a sensação de estranheza e desassossego que é estar no mundo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Tristeza




É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Não lembro quando foi a primeira vez que ouvi o Samba da Benção (por Vinicius de Moraes e Baden Powell), mas sei exatamente quando parei para prestar atenção na letra e em seguida chorei feito adulto. As circunstâncias não interessam, mas sim o fato de que se trata de um dos textos mais belos que jamais li. O contraste com Tom Jobim (“Tristeza não tem fim/ Felicidade sim”) é assustador: enquanto Vinicius – o branco mais preto do Brasil – ultrapassa com sua poesia o próprio conceito de tristeza, Jobim fica desfilando uma sucessão de lugares comuns (“A Felicidade é como uma gota de orvalho numa pétala de flor...”), nos fazendo suspeitar que, na verdade, ele não tem a mínima idéia do que está falando. Pois Vinicius já enterra a alegria logo de início, dizendo que é a melhor coisa que existe, para em seguida não mais voltar a falar no assunto. Porque o seu tema é a tristeza, e se não fosse tristeza não haveria o samba, a canção, a poesia. Sem tristeza não haveria arte e é a arte que nos ensina a lidar com essa estranha dimensão do humano que é a tristeza. Lembro de Cruz e Sousa, poeta negro (é curioso como a cor da pele aparece tanto quando se fala do assunto), chamado por Leminski de “Blues e Sousa”, e que como poucos sentiu a violência discriminatória, a dor de ser negro no Brasil. E escreveu: “Mas essa mesma algema de amargura/ Mas essa mesma desventura extrema/ Faz que tu’alma suplicando gema/ E rebente em estrelas de ternura”.

Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Lembro da crítica rasteira, burra, dizendo que Vinicius era um porco machista, que só via na mulher um objeto, “feita apenas para amar” e, pior, “Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”. A crítica é uma ciência grave, e que dela se afastem os que não entenderam nada. Na verdade, não existe nada menos machista do que “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”, e segue-se a isso uma investigação sobre essa “qualquer coisa” tão misteriosa que as mulheres têm e que os homens desconhecem. Sofrer por amor ? Perdoar ? Que mistérios são esses, que comportamento estranho é esse que as mulheres têm ? E que as faz praticar essas coisas tão estranhas como amar, sofrer, perdoar... No Samba da Benção, Vinicius sugere que a mulher é capaz de uma transcendência, de algo que a coloca em contato com aquelas coisas das quais nós, pobres homens, só conseguimos nos aproximar através da arte. E essa transcendência, na verdade, é uma operação interna: mulheres não “entram em contato”, elas tem essa sensibilidade como parte integrante de seu ser. Talvez seja esse o sentido do “qualquer coisa de triste” que a mulher tem: a tristeza enquanto metáfora de um universo emocional que os homens apenas tateiam e tentam dar forma com suas criações externas, artísticas. Como o samba.

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Hoje em dia pratica-se o culto à alegria. Ao menor sinal de tristeza, surge a suspeita de que isso seja o sintoma de algo pior, e a própria suspeita já mergulha o indivíduo no vórtex que leva à depressão: consulta, tratamento, ingestão de substâncias químicas e, no horizonte, o medo que resulta em pânico. Mas medo de quê, exatamente ? De não ser feliz como devemos ser felizes ? (aliás, a expressão por si só já é assustadora: "dever ser feliz"). Oras, a contemporaneidade elegeu a tristeza como inimigo, mas quem disse que nosso tempo é mais feliz que os outros ? Francisco Bosco, meu filósofo pop preferido, cita a leitura que Delleuze fez de Espinosa. A alegria ocorre quando se dá a realização de uma potência. Um escritor conquista a potência através do domínio da linguagem, um pintor através do domínio das cores e formas, e assim por diante. Portanto, não existe produção artística triste: todo blues melancólico que possui como tema o sofrimento, deixa de ser triste por ser a realização de uma potência. No fundo, a tristeza aponta para alguma coisa misteriosa, para algum lugar certamente dentro de nós mesmos. E no Samba da Benção, Vinicius termina por desvendar todo o mistério da tristeza: o bom samba “é uma forma de oração”, trazendo implícito que a fé e mesmo a esperança estão por trás de toda a tristeza. Pois um dia ela vai deixar de ser triste e, enquanto isso não ocorre, ouvimos um samba.


Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração




terça-feira, 15 de setembro de 2009

Primeiro aniversário




E eis que o blog completa um ano. Comemoro comendo bolo e lembrando três campeões de audiência:

Ouro Preto – 4 de junho, 2009 – 26 comentários

O texto deve ter mexido com as lembranças de quem foi na viagem (de fato, ninguém permanece indiferente a Ouro Preto). Além disso, falar sobre essa viagem mexe com a minha memória, com camadas espessas de memória que eu vou depositando naquela cidade a cada ano. Talvez daí o recorde de comentários: desde há muito percebi que quanto mais o texto desvenda algo essencialmente “meu”, mais ele tem leitores ou provoca comentários (de fato, os muitos textos que escrevo pensando a cidade tem uma média de leitura muito inferior; minhas ambiciosas resenhas cinematográficas então, quase passam desapercebidas). Desde o nascimento do blog, tento fugir do confessional, mas lentamente descubro que o texto ideal é aquele que parte do comentário sobre o fato corriqueiro para em seguida tentar desvendar algo do mundo.

Lazare Ponticelli – 16 de setembro, 2008 – 23 comentários

O obituário de Ponticelli, último soldado francês sobrevivente da Primeira Guerra Mundial. O texto saiu em The Economist, simplesmente traduzi e divulguei, após leitura em aula. Muito mais que um mero obituário, o texto fala de memória e talvez tenha sido a razão de sua aceitação. Mas confesso que me surpreendi com o sucesso do texto, e me impressiona mais ainda os 15 comentários em três dias, recorde total.

Che cossé l’amor – 31 de agosto, 2009 – 22 comentários

Escrito meio apressadamente, para dar conta de um tema que estava sempre à espreita e que era pedido por alguns. De propósito, deixei de lado a única visão do que talvez possa ser chamado de amor de fato: o amor unilateral, que não espera retorno, o amor incondicional, o amor de mãe por exemplo. A ironia foi deixar uma pista na trilha sonora: a divertida música de Pio Leyva – cubano das antigas – “Amor verdadero”, que conta a história de um desgraçado que foi abandonado por tudo e por todos, exceto pela mãe. Mas os leitores se apressaram em me apontar essa visão de amor, seja pessoalmente, seja em comentários. Por exemplo, na bela citação de Vieira (que eu não conhecia), mandada pela Mari:

Ora, vede, definindo S. Bernardo o Amor fino, diz assim: 'Amor non querit causam, nec fructum'; o Amor fino não busca causa nem fruto. Se amo porque me amam, tem o amor causa; Se amo para que me amem, tem fruto: o Amor fino não há de ter por quê nem para quê. Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; Se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? 'Amo, qui amo, como ut amem': Amo porque amo e amo para amar. Quem ama porque o amam é agradecido; Quem ama para que o amem é interesseiro; Quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino.
.
Também deixei de lado uma referência básica, O banquete, e a única pessoa que de alguma forma intuiu a opinião de Platão sobre amor foi certa comentarista anônima ("Ana") que, apesar de uma parca educação (e de uma contradição de termos) sugeriu que o discurso sobre amor jamais poderia ter um sujeito enunciante.

Seja como for, agradeço aos que acompanham o blog e espero que todos tenham tido, enquanto liam, ao menos metade da diversão que eu tive enquanto escrevia. Abraços e feliz aniversário !

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Che cossé l'amor ?



Volta e meia brinco de Filosofia: escolho um tema (vá lá, um conceito) e exploro, torturo, tento ampliar seu alcance, tento fazer nascer a “faísca” de que falava Platão. Dessa forma, assumo a atitude filosófica de me perguntar sobre o mundo à minha volta e convido os leitores para fazerem o mesmo. Porém, como diálogo, o troço todo nunca avança muito: um link para “comentários” e o longo tempo entre pergunta e resposta acabam desanimando a todos. Tenho certeza que o blog tem mais leitores passivos que colaboradores, mas sei que os leitores passivos partem da leitura do texto para suas próprias descobertas, animando os seus próprios alegres colóquios. E é justamente por quererem avançar nas suas descobertas e alimentar sua reflexão sobre este ou aquele assunto, que muitos me pedem para abordar alguns temas específicos. Dentre estes, o inominável sempre aparece: pedem-me que fale sobre o amor. Mas, como diria o perplexo guerreiro viking em Asterix e os Normandos, “Como posso fazer algo que desconheço?”

[Interlúdio pop: durante 27 anos, René Goscinny e Albert Uderzo produziram 24 volumes de As Aventuras de Asterix, um verdadeiro monumento cultural do século XX. Além de soberbamente engraçados, cada álbum de Asterix gira em torno de um ou dois assuntos explorados de forma genial: sob a capa espessa de um humor anárquico, existe quase uma proposta de reflexão sobre conceitos. Em Asterix e os Normandos, por exemplo, “discute-se” o conceito de medo. Após a morte de Goscinny (o responsável pelos textos) a obra foi tocada apenas pelo desenhista Uderzo, que foi incapaz de manter o pique: os álbuns passaram a ser entediantes, com os personagens repetindo seus comportamentos como verdadeiros clichês, e com interesses de mercado meio óbvios por trás de cada novo título.]

Tateio sobre o assunto. Usei a palavra inominável (alguns diriam inefável) porque mal sei se o amor existe ou, no mínimo, sou incapaz de chegar a um entendimento sobre o que seja o amor. Sei que tem algo a ver com a atração que sentimos por uma pessoa, mas antes que eu possa entendê-lo, sou perturbado pelo fato de que tal atração quase sempre vem atrelada ao desejo de posse.

Por que não nos limitamos apenas gostar, por que existe também o desejo de possuir ? Qual o mistério que se esconde por trás do desejo de posse que vem junto de todo amor ? Pois me parece que é justamente isso que caracterize o amor: gostar + possuir. Talvez seja por isso mesmo que muitas vezes, quando nos referimos ao ato sexual, usamos o verbo “possuir”, muito mais transcendente do que “transar” (do que “comer” então nem se fala). E talvez seja por isso que gostemos tanto de histórias de vampiro, evidentes metáforas do amor, uma vez que falam da posse física e espiritual de uma pessoa, em um tempo infinito. Histórias de vampiro nos fazem crer que o amor de fato existe.

Aqui se abre o aspecto mais perturbador de toda relação: queremos que o amor seja correspondido, mas isso faz com que além de possuidores, sejamos ao mesmo tempo objeto do desejo de posse de Outro. Quando sabemos que alguém quer nos possuir, de alguma forma nos sentimos envaidecidos (amados), ao mesmo tempo em que lamentamos o risco de perda da liberdade. Se eu sou objeto da posse de alguém, corro o risco de deixar de ser quem eu sou, de perder essa identidade pacientemente (dolorosamente) construída ao longo de anos. Da mesma forma, quando queremos possuir, sabemos que, ao exercer o controle sobre o Outro, a pessoa amada corre o risco de deixar de ser quem ela é: uma vez tornada objeto de nossa posse, ela deixa de possuir as características que despertaram o amor.

Mas, é possível a atração entre duas pessoas sem o desejo de possuir ? Certamente que é, mas nesse caso não será chamada de amor, portanto trata-se de um tipo de relação que não me interessa como objeto de reflexão. Considerando, portanto, que o desejo de possuir seja indissociável do que chamamos de amor, é possível que duas pessoas se possuam sem se “destruir” mutuamente ? Em outras palavras, um amor correspondido é possível ?

Primeira resposta: não, o amor é sempre unilateral, platônico, até. Toda realização do amor implica em sua morte. Dante amou Beatriz, e uma prova incontestável de seu amor foi a Divina Comédia. Na obra, o poeta florentino consumou seu amor com Beatriz apenas em verso, descrevendo uma cena idílica nas nuvens do Paraíso, canto 31, em meio a um concerto de anjos. Sabemos que Dante jamais dirigiu sequer uma palavra a Beatriz na vida real, suspeitamos que se eles fossem amantes reais, Dante jamais perderia seu tempo escrevendo algo como a Divina Comédia, preferindo obviamente ficar com sua amada, “possuindo-a”.

Segunda resposta: sim, o amor correspondido é perfeitamente possível, pois a destruição de uma individualidade não deve ser vista como negativa. Aliás, ao invés de “destruição”, melhor seria pensar em “construção” de algo novo. No amor, construímos uma nova identidade, nos descobrimos amando. Impossível, não lembrar de post recente, sobre fuga. Amor tem algo de fuga, no sentido de deslocamento. Pois o amor verdadeiro deve nos completar: quando se ama, brilha o entendimento.

domingo, 16 de agosto de 2009

De volta à Cidade




A força do dia fez com que eu me refugiasse numa caverna; no fundo havia um poço, no poço uma escada que abismava na treva inferior. Desci; por um caos de sórdidas galerias cheguei a uma vasta câmara circular, a muito custo visível. Havia nove portas naquele porão e oito davam para um labirinto que falazmente desembocava na mesma câmara; a nona (através de outro labirinto) dava para uma segunda câmara circular, igual à primeira. Ignoro o número total de câmaras; minha desventura e minha ansiedade as multiplicaram. O silêncio era hostil e quase perfeito, outro rumor não havia nessas profundas redes de pedra além de um vento subterrrâneo, cuja causa não descobri; sem ruído, perdiam-se entre as gretas fios de água enferrujada (...)

No fundo de um corredor, um muro não previsto me barrou os passos, uma remota luz caiu sobre ele. Ergui os olhos ofuscados: no vertiginoso, no mais alto, vi um círculo de céu tão azul que pareceu-me púrpura. Alguns degraus de metal escalavam o muro. O cansaço me relaxava, mas subi, só me detendo às vezes para pesadamente soluçar de felicidade. Fui divisando capitéis e astrágalos, frontões triangulares e abóbadas, confusas pompas de granito e mármore. Foi-me assim concedido ascender da cega região dos negros labirintos entretecidos à resplandecente Cidade.

O texto acima descreve com incrível semelhança a primeira vez que me aventurei sozinho pela imensa rede de metrô de uma cidade grande e me perdi por alguns instantes. Na verdade, acho que prolonguei voluntariamente minha situação de “perdido”, saindo em estações diferentes para ter surpresas, pegando a linha errada para ver onde iria parar. A cidade era Paris, o ano 1990 (a rede de metrô é a da figura acima). Foi assim que descobri, por exemplo, a Linha 6, que de repente deixa de ser subterrânea e oferece aos passageiros que vão na direção de Étoile uma magnífica vista da torre Eiffel.

O fragmento citado, todavia, não tem nada a ver com metrô, pelo contrário. É a descrição fantástica que o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) faz da “cidade dos imortais” em um dos contos do livro O Aleph. Seja como for, a idéia de um labirinto em que câmaras idênticas se sucedem, ligadas umas às outras por túneis e caminhos subterrâneos chega a ser quase precisa. As estações do metrô de Paris são muito semelhantes entre si: longas plataformas ferroviárias, com tetos como se fossem seções de cilindro, cobertos de azulejos brancos de uma ponta a outra. A monotonia das paredes de azulejo branco é quebrada pelos painéis publicitários (e os painéis se repetem em todas as estações, ajudando a criar o aspecto labiríntico em que as câmaras são de fato idênticas) e por uma placa azul turquesa, onde está escrito o nome da estação em branco.

Aliás, os nomes das 380 (repito, trezentos e oitenta) estações de Paris por si só já são uma delícia. Nomes de lugares, nomes de pessoas, nomes históricos. Nomes de batalhas ! Há milhões de fantasmas por trás de algumas estações que têm nomes das batalhas da França: Bir-Hakim (1942, cinco mil mortos), Iena (1806, trinta mil mortos), Sebastopol (1855, setenta mil mortos), Alésia (52 a.C., talvez cem mil mortos). Porém, o que chega a ser engraçado (ou no mínimo inusitado) são as estações que foram rebatizadas, e acabam tendo dois nomes. Por exemplo, a estação Barbés-Rochechouart, que reúne o nome de um revolucionário de 1848, Armand Barbés, com o de uma aristocrata do Antigo Regime, Marguerite de Rochechouart.

Mas o post de hoje não é sobre nada disso, e sim sobre uma notícia da semana que passou, segundo a qual a prefeitura de São Paulo irá gastar, nos próximos anos, algo em torno de 4 bilhões de reais com obras viárias. Ou seja, com avenidas para automóveis. Tal volume de recursos seria suficiente para construir cerca de 20 km de metrô. Trata-se de uma notícia escandalosa.

Há um princípio do urbanismo, comprovado desde há muito segundo o qual as “vias criam o seu próprio tráfego”. A idéia que a construção de avenidas e cada vez mais avenidas serve para “desafogar” o tráfego é uma mentira atroz. Lembro da recente construção da famosa Ponte Estaiada – com seus cabos imensos, como se a cidade já não tivesse fios demais pendurados sobre nossas cabeças – que foi justificada como uma forma de levar o tráfego rapidamente de um ponto para outro e que imediatamente se converteu em um verdadeiro estacionamento a céu aberto nos horários de pico. O princípio do urbanismo que citei surgiu a partir das fracassadas experiências ocorridas em Nova York a partir da ação de Robert Moses (1888-1981), que planejou o desenvolvimento da cidade dando prioridade aos automóveis. Sem a mínima preocupação com conservação, Moses derrubava bairros inteiros e degradava outros tantos para abrir avenidas, pontes e vias elevadas, tendo iniciado suas furiosas atividades de engenharia já na década de 1920. Quarenta anos depois, o modelo estava esgotado e a cidade paralisada.

Na cidade de São Paulo ainda estamos nas mãos dos carros, e décadas seguidas de abertura de avenidas asfaltadas não resolveram o problema do tráfego. O que é evidente, pois o problema de circulação não se resolve com automóveis (e um dia as gerações futuras irão rir de nós, constatando que para nos deslocarmos do ponto A até o ponto B levamos junto 700 kg de ferro, aço e borracha, emitindo poluentes no processo). Avenidas, obviamente, tem um efeito eleitoral magnífico, pois tem imensa visibilidade: 100 km de avenidas são mais visíveis que 20 km de metrô, dando impressão de que o prefeito construtor de avenidas asfaltadas é um sujeito que “faz” as coisas.

Os argumentos mentirosos para justificar tal uso imbecil de recursos são infindáveis: “Metrô é obrigação do Estado e não da Prefeitura”, repetem os sucessivos prefeitos, assumindo publicamente sua omissão. “Metrô leva muito tempo para ser construído, enquanto o problema do tráfego é imediato”, tal argumento tem sido utilizado há décadas para justificar a falta de iniciativa. De fato, se 30 anos atrás os recursos tivessem sido destinados ao metrô e não aos minhocões da vida... Mas o argumento do tempo que leva a construção do metrô aponta para outra tragédia: uma infinidade de avenidas asfaltadas pode ser construída durante um mandato de 4 anos, enquanto um simples trecho do metrô pode levar muito mais tempo, muito além do mandato de um prefeito ou governador. Portanto, estes jamais irão iniciar uma obra que será concluída por outro. E a cidade que se dane.

As mentiras não param. Os míseros 60 km do metrô de São Paulo estão divididos em cinco linhas... que cinco ? Existe UMA linha de metrô em São Paulo, a número 1, azul, Tucuruvi-Jabaquara. A linha 2, verde, é um mero ramal (nove estações) e a linha 3, vermelha, é apenas a adaptação de trilhos que já existiam na superfície desde há muito. Já a linha 4, amarela, prevista para 2010 (claro, ano de final de mandato do governador candidato à presidência), vai bater dois recordes negativos: maior tempo de construção e maior distância entre estações (aliás, terá somente 7 estações novas, sendo portanto mais um simples ramal). Finalmente, existe a linha 5 lilás, que leva do nada a lugar nenhum em 6 estações.

É uma vergonha. Todo o planejamento e construção do metrô de São Paulo desde a inauguração é prova de uma incompetência feroz, bem como da submissão do interesse público a ambições mesquinhas. Comparemos com outras cidades, que tiveram metrô inaugurado mais ou menos na mesma época que o de São Paulo (1974): Seul, hoje com 287 km em 10 linhas e Cidade do México, com 202 km em 11 linhas. E são linhas reais, e não de mentirinha como as nossas. Em nome de uma carreira política, destrói-se a cidade.

Defendo radicalmente o metrô porque é a única alternativa que temos. E porque em um transporte coletivo minimamente civilizado como o metrô, podemos nos livrar do isolamento destruidor (e quase assassino) dos carros, multiplicando as trocas e os encontros, ou seja, praticando o “viver junto” que é o princípio mais essencial e prazeroso das cidades.