segunda-feira, 22 de março de 2010

E depois da saída ?




Existe em inglês a palavra maze, que significa labirinto ou qualquer arranjo confuso, complicado. Com o acréscimo do prefixo a- (no sentido de determinação de uma forma particular), temos o verbo amaze, que significa surpreender ou espantar. Essa curiosa etimologia chama atenção ao fato de que a língua inglesa preservou o sentido de admiração que um labirinto provoca. Em que consiste essa admiração ou espanto ? Por que um labirinto costuma provocar algum tipo de reação extrema, que vai do medo ao encanto ?

Antes de mais nada, chamo atenção para a existência de duas formas de labirinto. A primeira, histórica, é aquela na qual o labirinto tem um centro, e a finalidade é justamente atingi-lo. Desde a Antiguidade, essa busca e nada menos que a busca pelo sentido: um ponto fixo que, após atingido, provocaria o fim das angústias. A partir da época clássica, esse sentido só pode ser o conhecimento de si mesmo. A tarefa é árdua e implica em perigos, há monstros caminhando pelo labirinto. A lenda do Minotauro é bem a gosto dos gregos, da mesma forma que a Odisséia, na qual Ulisses, perdido em meio a mares e ilhas e lidando com mil perigos, jamais abandona o projeto de retornar ao seu lar mítico, o reino de Ítaca, centro de seu labirinto pessoal.

A tradição cristã incorporou a forma do labirinto, colocando em seu centro nada menos que a salvação. Alguns homens do Renascimento, como Leonardo da Vinci, impregnados de cultura grega, identificavam na busca da salvação o ideal socrático da busca de si mesmo. E brincavam com isso, jogando com a forma do labirinto como, por exemplo, no teto do Palazzo Ducale da cidade de Mantova (imagem acima), desenhado por da Vinci, que certamente deixou amazed todos que o viram. Mais tarde, labirintos foram erguidos em jardins, para deleite da aristocracia do Antigo Regime.

Porém, existe uma outra forma de labirinto que se popularizou, talvez, a partir do século XIX. Essa segunda forma de labirinto – vamos chamá-lo de labirinto moderno – é aquela na qual entra-se por um lado e sai por outro. Ou seja, o objetivo não é mais atingir o centro, o sentido, mas sim a saída. Suas dificuldades serão superadas, há uma saída que leva necessariamente a algum lugar. Mas este não pode mais ser considerado o centro, o lugar de repouso e equilíbrio, o lar que encerra as dúvidas e incertezas. Além disso, não há monstros no labirinto moderno, o grande terror é simplesmente não encontrar a saída, permanecer perdido para sempre.

Oras, há uma produção literária copiosa a partir do século XIX que lida com o deslocamento espacial: a viagem de um lugar para outro em busca de alguma coisa, embora o objetivo nunca seja o retorno ao centro, mas o caminhar permanente. Por exemplo, Marlow subindo o rio em o Coração das Trevas ou mesmo Alice descendo ao País das Maravilhas. O Quixote de Cervantes talvez tenha sido um precursor, em sua labiríntica região da Mancha. Borges levou a exploração e descrição dos labirintos ao extremo, leiam, por exemplo, o conto “A Biblioteca de Babel”. Já Fernando Pessoa explodiu seus limites: no Livro do Desassossego, Bernardo Soares transforma o traçado geométrico do bairro da Baixa em Lisboa em um intricado labirinto, que ele percorre sem encontrar nem centro nem saída. Paradoxalmente, o errante Fernando Pessoa encontra-se hoje convertido em estátua, imobilizado em frente a um café lisboeta.

Estranho é o labirinto moderno, porque ele se funda na busca de uma saída que, uma vez encontrada, sugere a seguinte pergunta: e depois ? Pois o caminho prossegue. O que haverá depois da saída ? Talvez uma continuação do labirinto. A forma do labirinto moderno, comparado com o labirinto histórico, indica que a saída é externa ao ser. Assim, ele oculta o fato de que a busca continua, ele oculta o próprio fato de que existe uma busca.

Proponho nada menos que um retorno ao labirinto histórico, com todos seus perigos. Sabemos que todos os perigos desse labirinto estão contidos em nós mesmos. O Minotauro é parte homem, parte monstro: ele constitui a parte monstruosa de cada um de nós. Pois a busca do sentido significa enfrentar nossos próprios monstros, e enfrentá-los, e exorcizá-los se possível. A maior angústia do labirinto histórico é nos colocar diante de nós mesmos, com tudo que somos, como que diante de um espelho.
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Na minha infância, no PlayCenter, havia um Labirinto de Espelhos. Ele me deixava aterrorizado.

domingo, 14 de março de 2010

Dois personagens ilustres


Mindlin

Nunca dei muita bola para José Mindlin. Dele só sabia aquilo que se lê nas manchetes: empresário, rico, colecionador de livros. Apesar de não ter muito interesse ou curiosidade sobre sua pessoa, pensava que era bastante saudável um empresário gastar seu rico dinheirinho com livros e não com um mega apartamento em Miami e uma Ferrari na garagem. Porém, sempre me intrigou o uso do termo “colecionador de livros”. Seriam os livros objeto de coleção ? A manutenção de uma “coleção de livros” não seria a antítese de uma biblioteca ? Para pensar sobre o assunto, melhor começar com a identificação precisa do que é um objeto colecionável.

Pessoas colecionam selos, moedas antigas, imãs de geladeira, celulares ultrapassados, miniaturas de avião, latinhas de cerveja. Conheço pessoas que colecionam pedras e carros antigos. Leio sobre coleções de bonecas Barbie, curiosamente sempre mantidas por homens. Pensando em exemplos de objetos colecionáveis, pode-se começar a perceber suas características: são objetos materiais que não tem mais uso prático. Selos e moedas tornam-se objeto de coleção quando antigos, sem valor. Bonecas são colecionadas por homens adultos. Eu mesmo, quando criança, colecionava mapas de cidades do mundo: adulto, passei a visitá-las e a coleção deixou de existir.

Desprovidos de uso prático, os objetos colecionáveis ganham valor com o tempo: a raridade é um atributo sempre desejado nesse tipo de objeto. Finalmente, objetos colecionáveis permitem a formação de uma série, estando abertos à classificação. Gosto de pensar que todo colecionador tem algo em comum: um certo tipo de mente, uma propensão a arquivista. Mais ainda, os colecionadores parecem ter um desejo de ordenamento do mundo, o que reflete, certamente, uma sensação de estranhamento diante do mundo. Desajustado no mundo, o colecionador busca ordená-lo, passando a ser "dono" de uma coleção, senhor supremo de uma fatia desse mesmo mundo.

Não há dúvida que os livros passam longe de toda essa caracterização de objeto colecionável, pois o que dá valor ao livro não é necessariamente sua materialidade. Me parece que um “leitor de livros” tem uma relação muito mais estimulante com livros do que um mero “colecionador de livros”. Reconheço que a materialidade do objeto livro é um dado em si, e a própria preservação de livros antigos é um trabalho de inestimável valor. Mas, ainda assim, a idéia de uma coleção de livros soa mal.

Pois a coleção de livros é a antítese de uma biblioteca. Uma biblioteca é algo vivo, dinâmico, a que se tem acesso através da leitura. Muitas vezes algumas pessoas visitam meu apartamento e, após passarem pela biblioteca (que estranhamente é caminho obrigatório para o banheiro), perguntam, “Puxa, Gian, quantos livros ! Vc já leu todos ?”. Costumo responder coisas como: “Não, os dicionários, por exemplo, só li pela metade” (Umberto Eco diverte-se criando respostas novas para essa pergunta) . O fato é que bibliotecas não são depósitos de livros, lidos ou não lidos, colecionados ou não, classificados ou meramente empilhados.

Mas os objetos colecionáveis podem trazem outra característica. Muitas vezes, eles lidam com a memória. Assim, uma coleção acaba criando um espaço que transporta seu dono para algum lugar no passado. O ato de colecionar é mexer com esse passado, trazê-lo de volta e, quem sabe, reordená-lo. O colecionador se sente à vontade diante de sua coleção, e talvez aqui possamos entender o colecionador de livros, que simplesmente sente-se bem cercado de prateleiras cheias. Mindlin, que eu saiba, jamais escreveu algo como uma tese: o conteúdo dos seus livros nunca originou um pensamento original que merecesse ser divulgado. Porém, escreveu vários livros sobre sua coleção de livros, descrevendo as edições, explicando as condições que resultaram em uma determinada aquisição ou como foi obtida uma certa dedicatória.

Após sua morte, fiquei sabendo que a biblioteca de Mindlin era aberta, e parece que o próprio empresário facilitava a atuação de pesquisadores interessados em consultá-la. Assim, ele acabou convertendo sua coleção de livros em algo muito maior, uma verdadeira biblioteca.

Glauco

Para minha geração, Glauco não era apenas “aquele cara que desenhava na Folha”, mas um dos responsáveis pelo furacão que foi a produção de quadrinhos paulistana nos anos 1980. Não só ele, mas também Laerte e Angeli, o grupo conhecido como “Los Três Amigos”, título de uma série hilariante desenhada a seis mãos. Em uma época meio conservadora (como a atual) Glauco pôs em cena nada menos que um solteirão encalhado que queria transar com a mãe, o Geraldão, além de outros personagens impagáveis.

Não sabia de sua relação com a religião. Não sabia que sua religião era baseada no santo Daime. Não sabia que pessoas auto-intituladas Jesus Cristo batiam à sua porta. Só sei que tudo isso é uma pena.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Hey, apple !


Para quem não a conhece, trata-se da Annoying Orange, uma laranja tremendamente chata que vive perturbando os outros, quase sempre a partir da mesa ou bancada de cozinha onde vive. Em seus vídeos a Annoying Orange inferniza a vida de: uma maçã (Apple, sua vítima preferida, que a Annoying Orange busca sempre reencontrar), uma abóbora, uma pera, um tomate, um maracujá, um grapefruit, uma berinjela, duas bananas, um limão e outras laranjas; mas também do Papai Noel, de uma bola de futebol americano, outra de soccer, de um iPhone (que a laranja confunde com uma maçã – “Hahahaha, get it ? An Apple !” - diria a Annoying Orange), um Blackberry e do Jigsaw (o vilão da série de filmes “Jogos Mortais”).

Seus vídeos curtos (apenas dez, até agora) podem ser vistos em http://bit.ly/8Raq3y , e eu lembro da primeira vez que li uma referência à respeito, meio por acaso, ano passado, no Twitter. Desde então, tornei-me cada vez mais um fã da série e fui lentamente desvendando a personagem. Descobri que sua chatice reflete uma alma trágica, que vive em busca de companhia e, sobretudo, de aceitação.

A Annoying Orange é um personagem trágico por ser tremendamente solitário e infeliz na sua solidão. De fato, a Annoying Orange contempla a vida de uma posição absolutamente passiva, fruto de sua incapacidade de movimento e de suas sérias deficiências físicas: não tem braços nem pernas, sequer possui um nariz. Porém, essas deficiências jamais são vistas como obstáculos ou limitações, pelo contrário. A Annoying Orange passa o tempo todo exibindo suas proezas físicas, por mais que estas se limitem a coisas como: mover freneticamente a língua (fazendo ruídos), arrotar, cuspir sementes, cuspir suco de laranja, soprar bolhas de cuspe e tentar encostar a língua no nariz (mesmo não tendo nariz). Mas o que mais alegra a Annoying Orange é cantar e, sobretudo, contar piadas, sendo para isso necessário uma audiência que ela aguarda ansiosamente.

A ausência de companhia esvazia sua vida. “I’m bored” é seu comentário habitual nessas horas, “bored, bored, bored”. A chegada de outras frutas ou objetos é capaz de transfigurar a Annoying Orange, que imediantamente abre um imenso sorriso e começa a conversar. Na verdade, a Annoying Orange dispara uma série aparentemente interminável de piadas, que expressam um uso muito criativo da língua, multiplicando os jogos de palavra, expressões de duplo sentido e denominações originais. Assim, para a criatividade infinita da Annoying Orange um tomate torna-se um toe-may-toe, uma abóbora (pumpkin) torna-se plumpkin, Santa Claus torna-se Sandy Claus (após confessar que gosta de praia) e uma grande berinjela roxa torna-se ninguém menos do que o dinossauro Barney. Muitas vezes, é verdade, seu humor beira a escatologia. Seja como for, nada inibe a Annoying Orange em sua busca de contato “humano”.

Em seu caminho, a Annoying Orange encontra a maçã, Apple, por quem ela nutre um grande afeto. De fato, em diversos episódios a Annoying Orange imagina ter reencontrado sua querida Apple, o que sempre lhe causa muita alegria. A solidão faz com que a Annoying Orange busque desesperadamente alguém, como a abóbora (que ela confunde com uma grande laranja, “um irmão mais velho”). Isso para não falar do maracujá, fêmea, que visivelmente seduz a Annoying Orange.

Infelizmente, as frutas que passam pelo caminho da Annoying Orange costumam ter um fim miserável: quase sempre são “mortas” a golpes de faca manipulada por um humano, de quem só vemos o braço. E aqui começo a explicar porque a Annoying Orange tanto me encanta.

A morte das frutas a golpes de faca quase sempre ocorre após um momento de desabafo, em que elas reclamam da chatice da Annoying Orange e pedem desesperadamente que as deixe em paz. Assim, no primeiro episódio, a Apple dá uma bronca imensa na Annoying Orange e pede que ela se cale: “I can’t even hear myself thinking ! - segue-se o golpe de faca, matando a maçã. No segundo episódio, a abóbora também pede que a Annoying Orange se cale, destruindo suas ilusões ao dizer, quase gritando “I’m not your brother!” - segue-se a faca, matando a abóbora. No quinto episódio, a Annoying Orange encontra outra laranja, tremendamente arrogante, que diz, “I tell the best jokes in the world!” - segue-se o golpe de faca matando a laranja arrogante, e assim por diante.

Chama atenção que, em todos os casos: 1) a Annoying Orange anuncia o golpe friamente, dizendo: knife; 2) suas mortes sempre ocorrem após uma demonstração de arrogância ou de recriminações feitas ao comportamento da Annoying Orange. Oras, certa ocasião, revendo um dos vídeos pela centésima vez, me ocorreu que antes de cada morte a Annoying Orange talvez não diga knife, mas naive. Isso aponta para a possibilidade de a Annoying Orange ter um olhar tremendamente crítico sobre as outras pessoas, ou melhor, frutas. Sempre que uma delas exibe um comportamento arrogante ou tenta ensinar modos e dar uma lição de moral, a Annoying Orange friamente percebe como elas são bobas, inocentes, dizendo, naive. É como se ela dissesse: “De que adianta tudo isso ? Para que essa pose toda, vamos todos morrer um dia ! Vc fica aí fazendo pose e mal sabe que uma faca vai despencar sobre sua cabeça a qualquer momento".

A Annoying Orange lembra que, como as demais frutas, talvez não devessemos nos levar assim tão á sério.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Duas culturas

Metrô de Paris: coelhos meigos .



Metrô de Tóquio: kamikazes alucinados.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

"Foodies"



– Amanhã eu vou levar a Dani até Santos para ver a avó, daí eu aproveito e dou uma esticada até o Guarú pra pegar onda.

A informação foi gritada na mesa ao lado, por um rapaz muito grande, muito forte, que mal sentou à mesa e já começou a falar no celular em um volume muito maior do que o ambiente permitia. Muitas pessoas fazem isso, elevam o volume alguns decibéis quando falam ao celular. Outras – percebam, é muito curioso ! – aumentam o volume quando falam de algo de que se orgulham. Avós falando dos feitos dos netos, pessoas tolas falando de seus estilos de vida glamurosos, o Gian citando Nietzsche. (Sério, uma vez me vi fazendo isso e olhando para o lado, para perceber se as pessoas repararam na minha erudição. Quando me dei conta que ninguém sequer dava a bola para mim, percebi a arrogância).

O ambiente em que eu me encontrava era um restaurante excepcionalmente bom, mas também excepcionalmente cheio de novos-ricos. Suspeitei disso na primeira vez que lá fui, e agora confirmava meus temores na segunda vez que visitava o lugar. O grupo ao meu lado incluía não só o surfista de fim de semana, mas também uma mulher extremamente perfumada (que felizmente sentou na cadeira mais distante; seu caro perfume não iria estragar meu paladar) e uma terceira pessoa, mais discreta. Assim que o troglodita falastrão desligou o celular, virou para seus amigos de mesa e disse, no mesmo volume de sua conversa telefônica:

– Então.... amanhã eu vou levar a Dani para Santos para ver a avó, daí eu aproveito e dou uma esticada até o Guarú pra pegar onda.

O sentido todo dessa conversa não é, pela enésima vez, exibir minha intolerância (como sempre, coberta por uma espessa máscara de civilidade), mas observar que, de fato, existem infinitos fatores que fazem da refeição uma experiência prazerosa, e o entorno é fundamental. Como usufruir de um suculento côte de boeuf niçoise ouvindo gritos na mesa ao lado ? Como aproveitar um borgonha Dominique-Laurent sentindo o aroma de J’Adore que vem da perua mais próxima ? Uma grande refeição pede alguma seriedade e há outros fatores, além da comida, que são fundamentais no sentido de elevar a experiência. Por exemplo, recentemente concluí que apreciar uma refeição tem algo a ver com o suave estado de euforia provocado pelo vinho, uma vez que ele aguça os sentidos. Outro exemplo: uma grande refeição pede uma certa preocupação estética e, convenhamos, todos nós por aqui aprendemos isso com a culinária japonesa a partir dos anos 90.

Claro que eu gosto de gritar em certas mesas (ou debaixo de certas mesas, mas é melhor não entrar em detalhes aqui). Claro que os perfumes Dior são provocantes e sedutores. Claro que eu como coisas acompanhadas de coca-cola. Claro que eu como gororobas feiosas e gosmentas tipo vatapá, aliás eu adoro vatapá. Mas cada coisa em seu lugar, e comportamentos adequados nos locais adequados são uma expressão da tal civilidade que se confunde com arrogância. Uma refeição deve expressar essa civilidade, essa adequação ao local. Diria até que uma refeição pode ser uma experiência tão rica que, no seu apelo a todos os sentidos, se aproxima da Gesamtkunstwerk de Wagner, a obra de arte total. Sim, citações em alemão também têm algo de arrogante, fazer o quê ? Não dá mais pra voltar atrás e mudar o repertório da minha vida. Sigamos em frente.

Anthony Bourdain, meu cozinheiro pop preferido, nos diz coisas interessantes. Ele é um grande crítico da arrogância no trato com a comida, com a vida - claro, ele denuncia a arrogância enquanto belisca, por exemplo, um coronet de tartare de salmão, mas isso não vem ao caso. O fato é que Bourdain observa que, se perguntarmos a um condenado à morte qual seria sua preferência para uma última refeição, ou seja, qual o sabor que ele gostaria de levar como última lembrança terrena, a resposta jamais seria uma refeição gloriosa de um chef premiado em restaurante superior. Na hora H, todos dispensariam as novas sensações, refugiando-se no inesperado: o feijão com arroz que se comia na infância, o bolinho de chuva que a vó fazia, a pizza da esquina nos sábados à noite em Praia Grande quando não se tinha mais o que fazer. E aqui contemplamos o eterno retorno da bête noire do blog: a memória.

As grandes experiências gastronômcias brincam com nossa memória. Cada gosto que sentimos imediatamente provoca mil lembranças, e isso acontece mesmo quando não encontramos nele nenhum paralelo, nada para comparar. Nesse caso, estamos diante do “gosto novo”: não uma mistura de gostos antigos, mas algo essencialmente novo, e isso é uma experiência e tanto, pois cria-se uma nova camada na memória. Diante de uma experiência tão íntima como essa, chamamos as pessoas queridas, e compartilhamos com elas a nossa mesa, nossa memória, nossa intimidade. Há algo de profundamente social, de humano em uma refeição compartilhada. Tal reflexão nos faz entender melhor a experiência oposta, o significado dos refeitórios e dos “por quilo” da hora do almoço. Diante de simples colegas de trabalho, nada de intimidades; no lugar de uma refeição séria, apenas uma experiência alimentar quase que pré-histórica, pré-civilização: sair para buscar a comida, tendo como arma uma bandeja.

Volto ao episódio que iniciou o blog. Na mesa ao lado, um quarto convidado chegou, pouco mais tarde que o trio original. Logo que sentou, perguntou para todos na mesa, “E aí, o que vocês vão fazer no fim de semana ?”

O troglodita sorriu, preparando sua resposta.

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[PS: A foto do post não tem nada a ver, apenas cansei de abrir o blog e ver essa imagem deprimente logo abaixo, sobre trotes. Então, resolvi dar o primeiro passo no sentido de transformar o blog em Gesamtekunstwerk: apresentar uma imagem bela, na sua aparente simplicidade. A moça é Tang Wei, conhecida pelo filme Desejo e perigo. O fotógrafo, infelizmente, ignoro. Já o restaurante onde ocorreu o episódio citado é o Pomodori.]

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Tá rindo de quê ?


Nada como viajar. Onde mais poderia recolher essas cenas ?

Cena 1: Estação do metrô Montparnasse, 18h, muito movimento. Na catraca, meu bilhete não é aceito, sabe-se lá porque. Ao dar meia volta para tentar passar novamente, causo um transtorno infinito na multidão em movimento. À minha frente, uma jovem senhora diz: “Passe comigo, rápido”. Hesitei por uma fração de segundo. Seu impulso de bondade significaria que eu seria obrigado a passar pela catraca dando-lhe nada menos que uma bela e inevitável encoxada. “Allez-y!”, disse ela, e eu fui, meio envergonhado, balbuciando um “Merci beaucoup”.

Cena 2: A agência de turismo, por um motivo qualquer, não fez a reserva para a visita ao Museu d’Orsay. Tendo chegado antes do grupo, me apressei em fazê-la. Infelizmente, o número de telefone do serviço de reservas não respondia, passei uma manhã inteira no Hotel ligando sem sucesso. Saindo à tarde, acho o número do telefone do Museu no bolso do sobretudo e resolvo ligar de uma cabine telefônica, assim, no meio do nada. Claro, dessa vez fui atendido. Infelizmente, não lembrava de meu endereço em Paris (somente o nome do Hotel), não tinha nem acesso a email com impressora e nem fax para receber o documento de reserva e, sem lápis ou caneta, não consegui sequer memorizar o número da minha reserva. Meio pessimista, desliguei o telefone. Pois a funcionária pesquisou os hotéis de Paris, ligou para meu hotel, confirmou que eu estava lá hospedado, enviou o fax e disse que eu não precisaria me preocupar com o número da reserva. No dia da visita, sequer foi cobrada a entrada no Museu, pois todos acreditaram na minha palavra de que era professor e aqueles eram meus alunos.

Cena 3: A doce Idália, nossa guia em Lisboa, conversando com o grupo do ano passado. Os alunos ficaram perplexos ao saberem que ela não cursou uma Universidade, mesmo sendo uma pessoa tremendamente culta, bem falante e com amplo domínio da história dos locais visitados e da cultura portuguesa em geral. Para uma certa classe média brasileira não ter ensino superior é quase sinônimo de ignorância.

* * *

Mas o que significa tudo isso ? Acredito que tais cenas exponham nossas fraturas. Na cena do metrô, a jovem senhora foi gentil e minha primeira reação foi maliciosa. Seu ato, impulsivo e irrefletido (dada a própria rapidez da situação) expressa um universo de valores: se um cidadão tem dificuldades, devo ajudá-lo. (Imagine a mesma cena no Brasil ? A jovem senhora jamais iria oferecer uma gentileza dessas, sob o risco de ter que aguentar no mínimo uma conversa fiada do tipo "Oi, você vem sempre nessa catraca?") Trata-se, sobretudo, de valores republicanos, fundados na igualdade e respeito mútuo dos cidadãos. Se não houver essa confraternização mínima na sociedade civil, como exigir algo do Estado ? Se trato os demais cidadãos como objetos a serem usados em meu benefício, como exigir que o Estado não faça o mesmo ? (Sem inocência: não sei se a jovem senhora, modelo de cidadania, agiria da mesma forma se eu não fosse branco e aculturado).

Daí a segunda cena, da moça do Museu que agiu como se deve: se um grupo de estudantes (ainda mais estrangeiro) quer visitar o Museu, a principal obrigação do funcionário é prestar toda ajuda possível. Que diferença de nossa prática tropical e anti-republicana ! Entre nós, o que importa é criar hierarquias, definir limites e afirmar uma posição de superioridade a partir desses limites. (Reflexo, talvez, da sociedade escravocrata, essa pesada herança que ainda carregamos e que fazia com que fosse fundamental definir uma demarcação dizendo: não sou escravo ou não sou mais escravo ou, melhor ainda, nunca fui escravo). Quantas vezes não observamos o funcionário que vê na sua função uma forma de exercer o seu poder, de estabelecer uma linha demarcatória ? No Brasil, o padrão do funcionário público (ou do funcionário, em geral, sobretudo quando uniformizado; a esse respeito, lembre-se do post “Pequenos Poderes”, http://bit.ly/cW2yfM ) é criar o máximo de dificuldades, podendo assim multiplicar ao infinito as situações em que ele exerce sua autoridade, vista como algo a ser usufruído. Se me humilham na vida cotidiana, eu me vingo sempre que estou por trás do balcão ou cada vez que visto meu uniforme.

Aqui chego onde queria. O trote, alegremente praticado nesses dias abafados de baixo verão. Sempre tenho vontade de perguntar aos calouros, quando se submetem sorridentes às humilhações mais atrozes: “Tá rindo de quê” ? A frase do ano foi recolhida pela Folha de São Paulo, em entrevista com calouro da USP. Em meio a sorrisos, o rapaz disse: “É meio humilhante, mas a gente agüenta porque, em compensação, poderemos fazer o mesmo nos calouros no ano que vem”. Sen-sa-cio-nal. Submeter-se à humilhação está justificado, pois dá o direito de humilhar outras pessoas.

Que estranho raciocínio é esse ? O sentido do trote leva à sua perpetuação, uma de suas justificativas essenciais é fazê-lo continuar existindo. A participação no ritual do trote, por parte dos calouros, significa: Estou dentro, existe uma linha estabelecida que foi ultrapassada. Agora, assim como o funcionário que inferniza a vida das pessoas, vou exercer o trote para deixar bem claro, Eu sou do grupo, eu posso aquilo que os outros não podem. Em última análise: eu agüento o trote porque isso me faz superior às outras pessoas. O fedor do fascismo torna-se subitamente muito forte. Como no fascismo, é punido quem não participa da verdade estabelecida (e dos rituais que visam celebrá-la, como o trote). Fugir do trote significa ser vítima de não-socialização, aquele que recusa o trote torna-se um pária na faculdade.

Finalmente, a última cena, que confirma a forma como fetichizamos a Universidade, como a consideramos um desses limites que ajudam a definir hierarquias sociais. “Como assim a Idália não fez faculdade ? Mas ela é uma das nossas ! Ela é tão legal, tão esperta...!” No mesmo registro, da fetichização da Universidade, acrescento uma constatação surpreendente, também recolhida em viagem: em Paris, turistas brasileiros, e somente brasileiros, tiram foto diante da Sorbonne, lá na entrada da rue des Écoles. Uma cena que surpreende alguns passantes, e que testemunho já há anos.

Cumprindo alegremente a função de incomodar a vida das pessoas (tarefa imprescindível para quem escreve), concluo: lembre-se disso em 2011, calouro feliz, ao perpetrar o trote você não se distanciará muito de um porco fascista.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"Como se não restasse nada no mundo..."


Quando eu era mais jovem, todo tipo de gente falava comigo – disse ela. – Contavam todo tipo de coisas. Histórias fascinantes, histórias belas, estranhas. Mas, passado certo ponto, ninguém mais conversa comigo. Nem meu marido, nem meu filho, nem meus amigos... ninguém. Como se não restasse nada no mundo do que se conversar. Às vezes, sinto como se meu corpo estivesse se tornando invisível, como se você pudesse enxergar através de mim.

Em um recente (e alegre) colóquio, percebemos como todos gostam de ouvir histórias. De fato, quando crianças, o nosso próprio desconhecimento do mundo faz de cada relato uma descoberta. A escola tem isso, as primeiras aulas de Ciências que temos no Ensino Fundamental são absolutamente cativantes (até que, em um certo momento, elas se transformam em entediantes exercícios de aplicação de fórmulas instrumentais). Seja como for, lembro até hoje do austero professor Walter, da 5ª série, com seu forte sotaque alemão, nos encantando com sua narrativa sobre a experiência dos hemisférrios de Magdeburg.

Ao longo do tempo, conforme nossos gostos vão se sofisticando, passamos a ter prazer em histórias cada vez mais intrincadas, “difícieis” até, mas que causam o mesmo espanto dos relatos infantis. Desaparecem os grunhidos de entendimento (“ahhhnnn!”) e surgem as sobrancelhas levemente erguidas; saem as risadas escrachadas e aparecem os discretos sorrisos irônicos. E que nos dão o mesmo prazer, agora em versão adulta.

Há algo dramático na constatação de que, a partir de um certo momento na vida, simplesmente deixamos de ouvir histórias. A expressão “desencantamento do mundo” já foi utilizada para descrever esse processo. Claro, o que nos força a isso é evidente: o envolvimento cada vez maior com as coisas práticas do cotidiano; o fato de que, quando encontramos nosso lugar no mundo adulto, quase sempre cessam as descobertas, e vivemos nada menos que o empobrecimento da experiência. Encontramos alívio nos filmes, nos livros, mas o fato incontornável continua sendo: não nos sentamos mais em grupo, em torno de uma fogueira imaginária, para ouvirmos relatos fantásticos. Não vemos mais no Outro um depositário de experiências que possam enriquecer nossa vida.

Nas mesas de bar e restaurantes (cada vez mais próximas umas das outras, parece que agora é moda), somos obrigados a ouvir conversas absolutamente entediantes, seja sobre a vida profissional ou amorosa, seja sobre as férias ou compras, sempre compras. E percebam como essas conversas são intercambiáveis: a frase que começa em uma mesa pode ser concluída com um fiapo de conversa que ouvimos na outra. Mais curioso ainda: quanto mais fino (ou pretencioso) é o estabelecimento, mais pobre o conteúdo das conversas, embora relatem episódios ocorridos em cenários mais chiques: não tenho dúvida de que as conversas entreouvidas no Kintaro são infinitamente mais interessantes dos que as do Erick Jacquin.

A solução é... Dessa vez não tem solução. Apenas constato. E lembro o fragmento que abre o post, de Murakami, meu atual autor pop preferido. Trata-se de mais uma daquelas pequenas sacadas que povoam seus livros e que vamos descobrindo de repente, no meio da narrativa. E que trazem de volta algum encantamento, nos fazendo erguer as sobrancelhas e sorrir discretamente.