quarta-feira, 30 de março de 2011

O Velho Escritor



Foi no meio da agitação de fim de tarde de uma grande livraria que eu vi o Velho Escritor. Ele estava afundado em uma daquelas poltronas que fazem as pessoas parecerem menores do que efetivamente são, diante de prateleiras de DVDs e jovens vendedores e compradores, todos eles muito apressados. Anônimo, discreto, cinza, com visível dificuldade de locomoção – percebida pela bengala apoiada a seu lado – e gestos muito lentos, o Velho Escritor contemplava as pessoas coloridas à sua volta.

A lembrança de muitas fotos que vi fez com que eu o identificasse, e imediatamente me chamou atenção o contraste entre a pessoa frágil, que parecia quase esquecida em um canto da Livraria, e a mente ágil, que eu conhecia através de seus escritos. Na verdade eu li apenas um livro de sua autoria, que considero uma pequena obra-prima, mas também o conheço pelo seu trabalho realizado ao traduzir grande parte dos livros de Kafka. Sua dedicação à obra de Kafka certamente é um indício de seus interesses e do seu pensamento e, na pequena obra prima que escreveu, a descrição de uma certa cidade do interior paulista muitas vezes alcança tons surreais dignos do autor tcheco.

[Interlúdio Biblioteca-de-Babel: tenho orgulho de minha biblioteca particular e ciúmes dos livros que a compõem. Acredito possuir uns 4 ou 5 mil volumes, quase todos expostos em prateleiras projetadas por mim e adequadas não só aos seus tamanhos diversos, mas também à exibição meio arrogante de minha (vã) cultura. Divirto-me organizando as prateleiras, “promovendo” livros queridos aos lugares mais nobres e “rebaixando” livros dos quais já cansei a lugares mais remotos. Já faz alguns anos que a pequena obra-prima do Velho Escritor encontra-se em lugar nobre, na altura dos olhos, quase no centro da prateleira dos livros de ficção.]

A idéia foi imediata, sequer pensei quando me dirigi ao andar inferior da Livraria e, buscando na letra C, lá encontrei um exemplar da sua pequena obra-prima. Imediatamente tomei o exemplar em mãos e fui ter com o Velho Escritor, ainda afundado na sua poltrona. Aproximei-me pedindo desculpas (quais pensamentos nobres eu estaria interrompendo ? Ok, talvez ele só estivesse pensando na sopa que tomaria no jantar) e disse que ficaria muito feliz se tivesse uma dedicatória em meu exemplar. “Que curioso”, disse o Velho Escritor, “eu estava justamente pensando em que fim levou este livro”.

Trocamos algumas palavras rapidamente, tive oportunidade de lembrar que conhecia a cidade do interior em que se desenrola a trama do livro. Acrescentei que, além de me provocar lembranças, o livro sempre me surpreendeu pela firmeza da narrativa e delicadeza da história. Logo nos despedimos – “Boa sorte”, disse ele – e seguimos cada um para um canto.

Seja como for, hoje posso ler a singela inscrição logo no início do segundo exemplar que agora possuo do Resumo de Ana:

"Ao Gian, com o prazer e a surpresa, o melhor abraço do

Modesto Carone

30 / março 2011"


quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre textos difíceis

Como lidar com textos considerados “difíceis” ? O que fazer diante de uma leitura hermética, que parece não conduzir a lugar nenhum ou que se perde em meandros labirínticos ? A questão é tanto mais premente quanto constato que um número expressivo de meus jovens leitores é, sobretudo, formado por universitários recém entrados na academia e, não raro, ferozes críticos da erudição.

Adoro a ferocidade de jovens universitários. Orgulhosos de seus feitos acadêmicos – que são basicamente limitados, nessa altura, a entrar em uma boa faculdade – acabam usando isso como fundamento “espiritual” e inconsciente para assumir posturas iconoclastas. Meus cabelos brancos e meu suposto pertencimento ao stablishment (embora eu não saiba exatamente qual, além das fileiras humildes do proletariado) acabam por me transformar em alvo de certas investidas intelectuais. Já vi esse filme: cabe a mim desviar-me das pedras arremessadas e tentar levar adiante um debate que, se por um lado nunca dura muito tempo, por outro torna-se interessante justamente devido à fúria iconoclasta juvenil.

Pois eis que, recentemente, em rápido colóquio pela internet (não menos alegre por causa disso), saí em defesa dos textos “difíceis”. Comecei usando a famosa citação de Theodor Adorno segundo a qual a complexidade da realidade faz com que os textos que a descrevem ou tentem entendê-la sejam também necessariamente complexos. Claro que é provocação, pois sabemos que linguagem e mundo são coisas bastante diferentes. (Mas até que ponto ? Longa história). Após uma saudável e inteligente troca de argumentos com meus interlocutores – cuja ferocidade logo deu lugar à serenidade – surgiu um consenso segundo o qual o emprego de uma linguagem “difícil” pode ser perdoado, desde que não seja feito inutilmente (ou seja, quando há alternativas “fáceis”) e nem seja simples exibição de erudição (o que resulta em mera arrogância).

Os consensos me irritam, e a questão continuou me perseguindo mesmo depois do fim do colóquio. Mesmo porque poucos meses atrás, diante da obrigação de ler determinado livro de um “certo” Gilles Delleuze e da minha hesitação em iniciar a leitura do texto, comecei a reclamar longamente sobre a prolixidade e, sobretudo, sobre a aparente falta de sentido de sua escrita. A grande ironia é que eu estava diante de um livro de Delleuze justamente intitulado Lógica do sentido. Fui obrigado a enfrentar e resolver certas questões referentes à minha opinião sobre textos difíceis antes de começar a ler o a tal Lógica do sentido.

A forma como resolvi essas questões me fizeram encarar com mais coragem os “textos difíceis” e me levaram ao ponto de me tornar defensor deles, como por exemplo no recente colóquio citado. O emprego freqüente da palavra “ciência” pelos meus jovens interlocutores me chamou atenção para a forma como lidamos com os textos. Acredito que os que cobram a simplicidade da escrita buscam, acima de tudo, objetividade nos textos lidos. Se um autor pensa de uma determinada maneira, que ele diga claramente o que pensa e pronto. Parece racional, não ? Afinal, tantos autores na “história da ciência” foram simples e claros em suas proposições e argumentos...
.
Oras, me pergunto se não haveria uma outra ordem de textos (correspondente a um outro tipo de pensamento), que deva fazer da "dificuldade" sua própria matéria, partindo do pressuposto de que o pensamento não se esgota no texto. Tento ser mais claro: se eu tenho uma opinião e tento transmiti-la, é meu dever ser claro. Porém, se eu parto do princípio que minha opinião não é definitiva – por exemplo, devido à complexidade do tema abordado – tenho a possibilidade de multiplicar os planos possíveis de leitura do meu texto (ou seja, sua complexidade/dificuldade) para que o leitor possa ir além do que fui na investigação do problema proposto. Nesse sentido, um texto passa a se abrir para várias possibilidades de leitura, para muito além daquilo que o autor “quis dizer”.

A analogia que faço é com a pintura. Todos podem ver e apreciar uma pintura figurativa. Há uma infinidade de discursos ou interpretações possíveis a partir da contemplação, por exemplo, de uma Mona Lisa. Porém todos eles devem necessariamente partir do fato incontestável de que se trata de uma mulher parada, vestida de preto e contemplando os observadores com um sorriso discreto. Queiramos ou não, essa é a figura que se apresenta diante dos nosso olhos, e identificamos sua forma porque temos o referencial incontornável da realidade a partir do qual fazemos uma comparação.

Porém, como agir diante de uma tela abstrata ? O trabalho, mental ou interpretativo, solicitado é certamente maior do que no caso de uma tela figurativa. Muitas vezes, o artista sequer imagina o alcance daquilo que vai ser pensado ou sentido a partir da contemplação de sua obra. Uma tela abstrata, assim como textos “difíceis”, representa sobretudo uma abertura para o pensamento, um convite para um trabalho do pensamento que pode ser bastante árduo. da mesma forma, em um texto “difícil” trata-se da possibilidade de “ir além do conceito”, só para citar o velho Adorno ainda uma vez.

Penso também na poesia. O sentido de uma poesia não se esgota no significado das palavras empregadas. Ler uma descrição sobre o rio que passa na minha aldeia pode ser entediante, mas também pode nos levar a verdadeiras sínteses metafísicas. Ou então, para continuar com as metáforas líricas, pedras que surgem no meio do caminho devem ser vistas menos como simples objetos e mais como uma possibilidade de criação de sentido. Quando um texto nos leva a isso, ele certamente cumpriu sua função, tenhamos ou não entendido exatamente o que o autor quis dizer.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Bostonians


17 de fevereiro, 13h35, Logan Airport, Boston.

Boston é o berço da independência dos Estados Unidos, mas é também o berço de uma certa cultura WASP. Penso nisso assim que chego na cidade e vejo as figuras assustadoras de bostonianos loiros de olhos azuis e rostos duros saindo da classe executiva do vôo American Airlines 2062 Miami-Boston. Dessas figuras engravatadas emana poder, quase tanto quanto dos engravatados de Wall Street. Porém, em Boston, ao contrário de Nova York, não se trata do poder econômico mas do político. Boston lembra os Kennedys, lembra Obama e a Harvard Law School que, por sua vez, alimenta a Suprema Corte dos Estados Unidos. Mas não esqueçamos que Boston é também a cidade de Sacco e Vanzetti.

17 de fevereiro, 14h30, M.I.T., Cambridge.

Chego correndo para uma aula no glorioso Massachussetts Institute of Technology. O assunto é História da Física, o professor vai continuar abordando o desenvolvimento da teoria da relatividade como tem feito nas últimas aulas. Que esperar de uma aula em um dos institutos de tecnologia mais avançados do mundo ? Pois a aula foi basicamente giz, lousa e um professor inspirado. Sem nenhum recurso material mais sofisticado, o professor deu o seu recado com uma competência e serenidade profissional exemplares. Sem querer, me vejo aprendendo algo sobre os diagramas de Minkowski.

17 de fevereiro, 14h45, M.I.T., Cambridge.

Quanto aos alunos do M.I.T., ao invés de uma multidão de Sheldons e Leonards, encontro uma turma bem normalzinha, inclusive no seu desinteresse pela aula. À minha frente, alguns dos alunos que usam note-book checam email e facebook a cada 15 minutos. Ao meu lado, uma imbecil passou metade da aula se dedicando a um joguinho qualquer no seu iPhone.

18 de fevereiro, 9h50, Haymarket, Boston

Nevou muito neste inverno, embora eu tenha sido agraciado com alguns dias bem amenos. Porém, a neve permanece acumulada nas ruas em volume espantoso. Não é raro caminhar pela calçada em uma pequena trilha, entre compridos montes de neve empilhada que chegam a um metro e meio de altura. Nos parques, impressionantes montanhas de neve são empilhadas para permitir a circulação de carros e pessoas nas redondezas. E a previsão do tempo anuncia mais nevascas para a próxima semana. Que fazer com tanta neve ? O prefeito sugere nada menos do que uma mega operação para jogá-la no mar. A imprensa, bem humorada, chama o projeto de Boston Snow Party.

18 de fevereiro, 16h20, M.I.T., Cambridge

Há turistas que se dão ao trabalho de visitar o M.I.T., e verdadeiras excursões são organizadas com esse propósito. Alguns laboratórios chegam a afixar cartazes em suas janelas proibindo fotos. Mas os turistas são insaciáceis, e observo que a maior parte deles são chineses. Curiosamente, enquanto chineses fazem turismo em Universidades, os japoneses em geral se concentram nos Museus de arte. Já os brasileiros vão às compras. E assim está traçado o destino do século XXI: a tecnologia será chinesa, a estética japonesa e os trouxas seremos nós.

18 de fevereiro, 19h25, Kendall Hotel, Cambridge.

Cambridge – cidade vizinha a Boston e sede do M.I.T. e Harvard – transpira vida universitária. Divido o simpático hotel onde me hospedo com pais em visita aos filhos universitários e jovens estudantes que vieram passar o fim de semana na cidade, para participar de uma Olimpíada de Matemática ou algo do gênero. No lobby do hotel, tomando um vinho da Califórnia, converso com um engenheiro espacial italiano que veio encontrar o filho. Passo toda a conversa segurando o riso e me contendo para não soltar uma ironia qualquer sobre o insuspeito Programa Espacial Italiano. Quais seriam suas metas ? Colocar um rigatoni em órbita até o final da década ?

18 de fevereiro, 21h15, Union Oyster House, Boston

Resumo de Boston: peixe, marisco, peixe, peixe, lagosta, marisco, peixe, ostras e peixe. E, para esquentar, um prato de clam chowder.

19 de fevereiro, 11h25, Museum of Fine Arts, Boston

Há um belo Museu de Artes em Boston, com uma simpática e abrangente coleção de arte ocidental e incluindo peças que vão do Egito antigo até a época contemporânea, e tudo isso sem descuidar das particularidades locais, com vasto espaço dedicado à arte norte-americana (incluindo afro-american e native-american). Pode-se questionar a validade de um Museu tão enciclopédico, mas seu efeito didático é excepcional. A possibilidade de encontrar Picasso a poucos corredores de distância de máscaras africanas é francamente estimulante. Da sala dedicada ao "impressionismo em Boston” destaquei o quadro que abre o post, de um certo Frederick Childe Hassam, chamado Boston Common at twilight.

19 de fevereiro, 16h10, North End, Boston

Em uma cidade tão WASP, há católicos por todos os lados, irlandeses, portugueses e, sobretudo, italianos. Estes se concentram em North End, bairro simpático pela sua arquitetura red brick e pelo sotaque de seus habitantes: pelas ruas, todas as pessoas falam como se fossem membros da família Corleone. Além disso, North End cheira bem graças ao saboroso aroma que sai de suas muitas cantinas, doceiras, padarias e pizzarias. Entro na Mike’s Pastry, famosa pelos seus cannoli e peço um simples. O atendente leva meu doce até o caixa, mas a moça do caixa se atrapalha tentando abrir um pacote de chicletes e me ignora por um instante. Não resisto. Finjo de bravo e digo a ela: “Leave the gum, take the cannoli”.

20 de fevereiro, 10h15, Miami International Airport, Miami

Não há vôos diretos de Boston para São Paulo, devo fazer uma conexão. Chegando ao aeroporto de Miami, ouço por toda a parte pessoas falando em espanhol. Ufa, finalmente estou de volta aos Estados Unidos.


__________________________________

(Agradeço ao alegre casal Lucas e Clarissa pela calorosa acolhida em pleno inverno da Nova Inglaterra)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Drops


Nem lá nem cá

Legalmente, minhas férias acabaram. Estou em um “período sem atividades, à disposição do Curso”, mas sei que nada acontece nesses dias. Um ano acabou e outro ainda não começou, para alguns ainda estamos em férias para outros não. Para muitos é época de matrículas em faculdade, mudança de cidade. Na TV, campeonatos estaduais de futebol; no cinema, filmes do ano passado. Quanto a mim, já voltei de uma viagem, mas ainda há outra por fazer. E o calor só aumenta a sensação de limbo.

Memória

“De que afinal somos feitos” – perguntou-se Ferreira Gullar –, “de matéria ou de memória ? Memória não é passado ? Tendo a pensar, fora da lógica aparente, que tudo é presente, todo o vivido, só que, em geral, estamos ocupados demais com o agora para nos darmos conta disso”. Portanto, resta-nos a memória, que nos constitui. E eu acrescento: em épocas de limbo, quando o “agora” fica suspenso, o que nos resta é jogar com a memória.

Borges

Citando Homero, na Odisséia: “Os deuses provocam desventuras entre os homens para que as gerações futuras tenham o que cantar”. Claro que esse cantar invoca a poesia e, como os gregos bem sabiam, a memória. Borges conclui: “Fomos feitos para a arte, fomos feitos para a memória e a poesia; ou fomos feitos, quem sabe, para o esquecimento [pois somos mortais]. Mas algo sobra; e esse algo é a história ou a poesia, que não são essencialmente distintas”.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Fazer amor




Incomodam-me certos usos do verbo fazer. Agora, recém chegado de viagem, penso nas muitas conversas que tive com as multidões barulhentas de brasileiros que viajam para o exterior hoje em dia. Nessas conversas, as referências a viagens realizadas frequentemente eram acompanhadas do verbo fazer. Dessa forma, conheci pessoas que esse ano fizeram Inglaterra, Espanha e França, ou quando foram para a Itália fizeram Roma, Florença e Veneza, e até um mais inspirado que pretende fazer o litoral da Croácia no verão.

A fúria realizadora não se limita aos destinos das viagens, mas a locais específicos. Assim, pode-se fazer o Louvre e a Torre Eiffel em um dia, deixando para fazer Versalhes e Champs Elisées no outro. O ponto culminante dessa orgia empreendedora está na história que ouvi em um alegre colóquio, em que foi citado um parente de não sei mais quem e que, ao visitar museus, ia passando pelos quadros sem parar, apontando rapidamente para cada um e dizendo: “Já vi... já vi... já vi...”. Acho que é essa a mentalidade que faz com que as pessoas tirem fotos ao lado de quadros famosos: fiz o Louvre, já vi tudo e aqui está a prova.

Mas há também a possibilidade de usar esse verbo tão dinâmico para as compras. Assim, é sempre bom reservar um tempo da viagem para fazer a Zara, fazer a galeria Lafayette, fazer o free-shop, e por aí afora. A meu ver, o uso excessivo do verbo fazer reflete a instrumentalidade em que se converteu a experiência que está sendo descrita. Não importa o lugar visitado, mas o ato da visita. Não importa o quadro contemplado, mas o ato físico de percorrer o Museu. Não importa o objeto comprado, mas o fato de compras terem sido realizadas. Trata-se da própria essência do “empreendedorismo”, palavra tão em moda nesses tristes dias: a ênfase está no agir, não importa em relação a que. Fazer é um fim, e não um meio para usufruir das coisas.

[interlúdio bem pouco pop: lembro de velhos filósofos alemães que chegaram a essa mesma conclusão, mas não a partir da análise de viagens ou visitas a museus ou compras, mas investigando as origens do totalitarismo, ou mesmo tentando entender o Holocausto. O deslocamento de ênfase para os fins acaba resultando em um desprezo em relação aos objetos que se encontram no caminho da realização, mas acontece que às vezes esses objetos são pessoas. Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa no Livro do Desassossego, teve essa mesma intuição, e eu escrevi uma dissertação de mestrado falando disso.]

E aqui chegamos ao ponto. Fazer amor, uma expressão que é usada amiúde e, lamento constatar, com o mesmo sentido instrumental dos outros usos do verbo fazer. Outrora, achava que fazer amor era mero anglicismo, simples tradução impensada de make love. Eu evitava usar a expressão, mas há poucos equivalentes adequados. Transar soa para mim como uma gíria dos anos 70 que teve uma sobrevida, e meter é quase tão chulo quanto trepar. Fazer sexo parece artificial, enquanto copular parece saído dos manuais de medicina e fornicar soa proibitivamente bíblico. Claro, minha dificuldade em encontrar uma palavra adequada para descrever o ato sexual já foi objeto de escrutínio, eu apenas poupo os leitores de conclusões que me desvendariam mais do que posso tolerar.

Com o tempo, passei a me acostumar com o termo fazer amor, pois de fato muitas vezes há uma instrumentalização do ato sexual. Longe de qualquer puritanismo, acho que essa instrumentalização pode ser autêntica: damo-nos prazeres físicos de diversas formas, fazer amor é uma delas. Em outras palavras, às vezes realizamos o ato sexual como comemos chocolates.

Porém, muito além de fazer amor, há outra forma de realizar o ato sexual, da mesma forma que podemos viajar ou visitar museus de forma diferente da instrumental. Trata-se de deslocar a ênfase do fazer para o amor, incluindo todas as implicações transcendentes contidas nesta palavra. Trata-se de experiência sobre a qual temos bem pouco controle, e felizes são aqueles que – tendo encontrado um objeto para esse afeto profundo que chamamos amor – acabam por consumá-lo no ato sexual. Pois não existe experiência mais completa que o amor físico acompanhado do amor espiritual que, ao mesmo tempo, amplia a elevação espiritual (temos vontade de dizer “eu te amo” durante o ato) e multiplica a sensação física (que, mesmo restrita ao plano material, passa a ir além do gozo puro e simples).

E de tudo isso, a única coisa que posso concluir é: amemos, seja lá como for.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

"On the road again"


Talvez por ter sido a primeira, aquela foi a viagem mais mal planejada de todos os tempos. Tinha hospedagem barata e transporte coletivo gratuito garantidos na cidade durante um mês, mas logo percebi que meu dinheiro só iria durar esse tempo todo se eu levasse uma existência quase miserável. Em pouco tempo estabeleci uma rotina (eu precisava de uma rotina para não enlouquecer): acordava pelas 9h, tomava o humilde café da manhã (café puro, uma baguete com manteiga) no foyer de estudantes da inacreditável Faculdade de Teologia Protestante de Paris e saía para a cidade.

Dia sim dia não, comprava um Libération e ficava lendo diante da Fonte dos Médici. Em seguida batia perna pelo quartier latin, ia às livrarias, fuçava as prateleiras, lia toneladas de histórias em quadrinhos sem pagar. Por volta de 13h, voltava para o foyer, comia um croissant no caminho, cochilava, muitas vezes ouvindo o barulho peculiar das sirenes da polícia francesa – havia um quartel logo ao lado. Às vezes ficava apenas olhando as árvores pela janela. Naquela hora fazia calor, muito calor, o mês de julho daquele ano é preservado na memória dos parisienses como o mês da canicule, do calor infernal, com temperaturas que chegavam a 35°. O calor excessivo secava as árvores e amarelava as folhas, dando à paisagem um inesperado aspecto outonal.

Quando refrescava um pouco eu saía, pegava o metrô e ia andar pela a cidade. Fui a todos os lugares possíveis (e também a alguns imaginários), visitei todos os locais que não precisava pagar, conheci a rede de metrô de Paris como poucos. Fui a lugares muitas vezes ignorados pelos turistas, como o parque Buttes-Chaumont e as casinhas em volta da Place d’Italie, os ateliers de La Ruche e a Cité Universitaire. Mais tarde, 20h, com o dia ainda claro, voltava para o foyer tomava um banho (as duchas ficavam no fim do corredor e mesmo com o calor eu era um dos poucos hóspedes que as utilizava) e ia perambular pela rue Daguerre, comer comida de rua boa e barata.

Foi em um desses dias quentes, voltando de metrô para meu “lar” parisiense, que vivi uma pequena epifania. Estava na linha 6, no trecho elevado ainda próximo à torre Eiffel [foto acima], quando dois turistas americanos, jovens, cabeludos e carregando um violão, entraram no vagão e começaram a cantar. Da linha elevada via-se pelas janelas do trem o céu alaranjado e, diante dessa moldura, a dupla muito afinada cantava o country “On the road again”, de Willie Nelson. Pediam moedas para os passageiros. Foi naquele exato momento – ouvindo os dois cabeludos em um vagão lotado e mal cheiroso de metrô, ao mesmo tempo em que me sentia muito solitário e sem dinheiro – percebi: nada daquilo importava. Eu estava na estrada.

Por pior que seja a viagem, ela é sempre melhor que não viajar.
.......................................................

Nos próximos dias, os alegres colóquios serão realizados em outras cidades, sob outros ares. Boas viagens para todos nós.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O banho

.
.
Hesitei bastante antes de apresentar esse vídeo, mas não resisti. A hesitação tinha a ver com a divulgação ou uso da imagem de uma pessoa real... com que direito eu poderia fazer uma coisa dessas ? Evito imprimir ao blog um caráter confessional (e nem sempre consigo), tendo por justificativa o princípio de que a minha pessoa privada deve ser resguardada. Portanto, com que direito eu poderia divulgar algo sobre outra pessoa privada ?
.
Mas, que se dane, trata-se de uma pessoa pequenina, e não tenho nada de dramático a revelar (ainda que essa pessoinha apareça nua na imagem que divulgo !). Trata-se do pequeno R. - como se fossem necessário tantos pudores a essa altura - em uma imagem feita quando ele tinha lá seus sete ou oito meses de idade. Quando recebi esse vídeo por email, não consegui parar de assistí-lo, e mesmo hoje, quando o vejo, é muito difícil me limitar a uma única reprodução.

A cena toda é de uma simplicidade inacreditável. Vejam o vídeo. O pequeno R. toma banho e se concentra na seríssima atividade de bater a mão na água, gesto que ele faz repetidas vezes. Com sua atenção despertada, talvez, por um som ou um movimento, o pequeno olha para o lado e vê uma pessoa, justamente quem o gravava. Trata-se de uma pessoa querida, R. a reconhece e não consegue conter um sorriso imenso. E pronto, acabou a cena.

O que há de tão encantador nessas imagens ? O que me faz assisti-la ininterruptamente, com a mesma concentração do pequeno R. batendo suas mãos na água ? Por que chego à beira das lágrimas quando vejo imagens aparentemente tão banais ?

Porque, na verdade, elas não tem nada de banais. Chamo atenção para o fato de que o nosso pequeno personagem principal está se dedicando a uma experiência importantíssima, bater as mãos na água, que faz parte daquele conjunto de atividades extremamente complexas que realizamos sem parar lá por essa idade. Trata-se, nada mais e nada menos, de apreender formas de espaço e tempo, bem como o movimento das coisas, justamente relacionado a essas variáveis. Durante aquele momento captado na imagem que vemos, o cérebro de R. está em uma atividade intensa, realizando operações provavelmente muito mais complexas do que aquelas que eu realizo enquanto escrevo esse texto ou quando você o lê. Daí a sua concentração e dedicação que o desligam do mundo ao redor.

Porém, na segunda parte do vídeo, o pequeno olha para o lado. É quando podemos perceber a sua interioridade, que também se encontra em construção. Seu sorriso é espontâneo, não tem mediação nenhuma, é pura expressão do afeto, justamente no momento em que esses afetos são construídos. O pequeno R. já consegue reconhecer as pessoas e, quando ele identifica alguém que até o momento foi fonte inesgotável de amor, ele não consegue evitar o sorriso. Trata-se de resposta afetuosa à quem primeiro lhe dedicou o afeto.

Impossível não nos projetarmos no pequeno R. Sua capacidade de concentração em uma atividade simples, e a forma como essa atividade simples o entretém, me faz pensar em nossos vãos divertimentos. Penso na complexidade inútil dos aparelhos eletrônicos e digitais que nos trazem uma infinidade de sons e imagens e que nos ocupam por horas e horas a fio. Notebooks. Celulares. Wii. Playstation. Atualizar redes sociais. Fazer compras. Em 2010, me entretive loucamente com um Fiat Cinquecento. Conheço uma pessoa que se entretém lendo “Mil Platôs” de Delleuze nos intervalos de suas atividades diárias. Não abro mão de me ocupar com essas coisas, mas as imagens de R. me fazem pensar se não estou deixando para trás coisas simples, se não estou me deixando de dar valor para coisas que seriam, por sua simplicidade, mais autênticas, mais reais.
.
Mas há algo mais perturbador no vídeo. Todos passamos pelo que o pequenino passou, e aqui me refiro à descoberta dos afetos. Me pergunto o que fazemos com a espontaneidade desses afetos, se eles não acabam submersos em uma rede complexa de jogos sociais e obrigações materiais. O pequeno R. nos lembra que diante das atividades do cotidiano, por mais envolventes que sejam, não existe nenhuma que seja mais intensa que o afeto, e todas essas atividades deveriam ser deixadas de lado, a qualquer momento, e sempre, para podermos responder com um sorriso àqueles que nos amam.