domingo, 29 de maio de 2011

A balada de Helmwig

(no intuito de entreter os alegres leitores do blog, inauguro hoje um Folhetim, cuja continuidade é bastante duvidosa. Apesar da pesquisa histórica rigorosa, os fatos aqui narrados e os personagens citados são todos fictícios. Ou não, porque essas coisas, no fundo, a gente nunca sabe.) (trilha sonora: http://bit.ly/jdZH1m )


O grande Simonbert

Nossa história começa na época das grandes migrações, quando Simonbert atravessou o Reno e vagou por alguns anos pelos territórios do antigo Império. Seus olhos viram coisas que jamais iria esquecer: cidades em ruínas, povos em fuga, a fome fazendo seus estragos. Mães degolaram os filhos, e com seus corpos saciaram a fome. Diante de tanto sofrimento, o jovem Simonbert chorava, mas seu coração endurecia. Entrou em contato com a doutrina do homem na cruz e mesmo sem se converter passou a crer na sua mensagem de paz, sem no entanto descuidar da prática da guerra.

Simonbert tornou-se um grande guerreiro, mais por necessidade do que pelo gosto. Em pouco tempo, sua habilidade com as armas ficou conhecida, manejando com igual competência a espada e a maça, o martelo e a lança. Alguns guerreiros, provenientes de outros povos, passaram a segui-lo e certa ocasião, após sangrenta batalha, os bravos de Simonbert tomaram o castelo de Thamandor, que se tornou sua residência permanente. Das terras vizinhas vieram os camponeses, humildes, trazendo presentes e explicando os costumes da terra.

Thamandor prosperou. Seus guerreiros eram os mais habilidosos da região, fazendo incursões à cavalo pela Raetia e Panônia , navegando até a Mércia e Anglia. Partiam para fazer a guerra na primavera, retornando no outono com suas listas de territórios atravessados e castelos saqueados. Após a leitura das listas, realizava-se a maior festa do ano, com o sacrifício de bois e ovelhas, além de iguarias trazidas de longe e jarras de hidromel à vontade. Simonbert, ele mesmo participante de várias incursões, contava com o apoio e fidelidade de seus homens, e freqüentava alegremente as assembléias de guerreiros, tanto em torno da grande mesa do salão de Thamandor quanto em volta das altas fogueiras nos acampamentos de guerra.

E Simonbert acabou tornado-se rei, muitas vezes concedendo feudos a seus guerreiros. Mesmo assim, estes ainda frequentavam as assembléias, onde conversavam sobre seus feitos, trocavam suas experiências e prestavam homenagem ao maior de todos eles, Simonbert. Um dia, o rei passou a medir a habilidade de seus guerreiros através das orelhas cortadas de cavaleiros inimigos abatidos. Duas vezes por ano, Simonbert recebia gordos sacos de estopa cheios de orelhas, com os guerreiros recebendo os prêmios ofertados pelo rei para quem atingisse as maiores marcas. Foi quando Zydguell, que soltava fumaça pelas ventas, trouxe pela primeira vez um saco com 93 orelhas. Anos depois, Usbengar, que era bravo como os lobos, atingiu a marca de 95 orelhas. Finalmente, o bardo Marcylbert, que andava com o alforje sobre os ombros, começou a trazer 98 orelhas em cada saco.

O pequeno Helmwig

Pobre Simonbert, que jamais teve um herdeiro à sua altura. Seu filho, o pequeno e taciturno Helmwig, bem que tentou. Após alguns anos de treinamento formal, que incluíram uma viagem aos locais sagrados do Oriente, Helmwig passou a freqüentar as reuniões de guerreiros, sob os olhares suspeitos de Simonbert que não confiava na forma como o filho manejava a espada. Certo dia, após uma reunião em que Helmwig se gabava de sua habilidade e das mudanças que faria quando assumisse o lugar do pai – de acordo com o costume do reino –, Simonbert perdeu a paciência. Chamou sua atenção na frente dos guerreiros e disse:

– Você não está preparado para sentar-se à essa mesa. Venha, dê-me essa espada, farei melhor em guardá-la para você.

Cabisbaixo diante de tal humilhação, o pequeno Helmwig não teve coragem sequer de encarar os guerreiros que, com honra, não expressaram sua satisfação íntima de vê-lo derrotado e preferiram ocultar qualquer sorriso de escárnio diante daquele que, um dia, por bem ou por mal, ainda viria a ser seu rei. Para completar a humilhação, Simonbert ainda acrescentou:

– Vá. Vá ter com as mulheres, talvez elas lhe ensinem algo antes que você possa ter o respeito de todos.

Durante longos invernos, Helmwig vagou desapercebido pelos salões e terraços de Thamandor. Esteve com as mulheres, que o acolheram com simpatia. Elegeu como preferidas Angelred, que fazia contas como ninguém; Elanfled, que chefiava todas as outras e Hosarwid, que veio das altas montanhas e acreditava no deus como outrora acreditara no demônio. Nesse tempo todo, o pequeno Helmwig – sempre acompanhado de Milwin, o eunuco – ouvia o ruído infinito das conversas femininas e presenciava suas intrigas, participando delas como juiz supremo. Lentamente e sem saber, Helmwig passou a ter o gosto da conversa, porém sempre diante das mulheres e calando-se ou desaparecendo silenciosamente quando da aproximação de um guerreiro, praticando diante deles o silêncio hesitante e se escondendo, desconfiado, por trás da falta de ação

O reinado de Helmwig

A morte de Simonbert foi chorada por todos, mulheres e homens, tanto guerreiros como camponeses e clérigos. Para evitar uma luta interna, respeitou-se o costume da terra, e Helmwig tornou-se rei. De imediato, construiu uma sala do trono em Thamandor, alguns andares acima do salão onde se reuniam os guerreiros e próximo dos aposentos das mulheres que tanto lhe inspiravam confiança. Mandou dizer aos guerreiros que continuassem com suas campanhas de verão, que mantivessem o ritual das listas e que as orelhas decepadas continuariam sendo premiadas. Mas ele, Helmwig, jamais desceu à assembléia ou confraternizou com os guerreiros, para quem sequer conseguia olhar. Diziam até que ele se aconselhava com as mulheres. Pois em cada guerreiro Helmwig via uma sombra de seu pai e de sua humilhação na juventude. Em cada audiência ou conversa fortuita com um guerreiro, Helmwig mostrava sua insegurança.

Com o tempo, aprendeu a falar com os guerreiros, descobriu que o simples uso da coroa poderia provocar respeito. Por medo de ser humilhado e para não ter que ouvir a voz dos guerreiros, Helmwig passou a tecer uma fala ininterrupta. Entrevistas de quinze minutos acabavam sem que o guerreiro solicitante pudesse balbuciar uma ou duas palavras.

Ao mesmo tempo, Helmwig começou a mandar habilidosas embaixadas para territórios distantes, oferecendo proteção aos povos de longe. Vários senhores em vastos territórios, mesmo os mais afastados, todos conhecedores da força bélica dos guerreiros de Thamandor e temerosos de uma conquista, submeteram-se em vassalagem, configurando os Novos Territórios do reino. E aquilo que era um reino acabou se tornando quase um império.

Vinte anos após a passagem do cometa, iniciaram-se as incursões dos saxões, que passaram o ocupar os velhos guerreiros bem como uma nova e habilidosa geração de combatentes que já surgia à sombra da antiga. Enquanto os saxões eram derrotados, e pilhas cada vez maiores de orelhas eram coletadas, Helmwig desviava seu olhar para os Novos Territórios vassalos e suas riquezas aparentemente fabulosas. Foi quando teve a idéia de reforçar o império que se formava enviando os velhos guerreiros para instruir jovens cavaleiros em todos os Novos Territórios vassalos. Convocou uma reunião e, com empáfia, desceu para falar com os guerreiros reunidos em assembléia. Tomou a palavra, como de hábito sem aceitar interrupções, e falou da importância de reforçar os Novos Territórios para mantê-los, pois a disputa com outros reinos era intensa. Sugeriu que alguns dos velhos guerreiros passassem temporadas nos Novos Territórios, com a finalidade de adestrar os mais jovens.

– É do interesse de todos, é até um pedido que os guerreiros dos Novos Territórios nos fazem. Eles querem ser instruídos, saber como manejamos as armas e como nos preparamos para a guerra.

Em seguida, Helmwig começou a indicar as atribuições de cada guerreiro. Foi quando Grimann, que volta e meia trazia 100 orelhas de suas incursões, ergueu-se e ousou interromper a fala do rei:

– Posso estar enganado, mas não convém nos afastarmos do litoral quando a cada ano os saxões batem à porta. Se eu partir para Linz, no Danúbio, para onde me pretende enviar, e receber a notícia de que os saxões mais uma vez desembarcaram, terei que voltar às pressas. Chegarei exausto, assim como meu cavalo, e terei dificuldade para executar a atividade de guerreiro que sempre tão bem desempenhei.

Nesse momento, Helmwig se transformou. Vendo-se contestado e sentindo-se ameaçado, Helmwig sentiu a sombra do pai passando mais uma vez pela sua frente. Transtornado, gritou, feito uma criança:

– Sabe o que eu penso de você, na verdade, Grimann ? Que você tem medo ! Que você tem medo de encarar os guerreiros de Linz. Você tem medo que eles saibam que você não é tão melhor que eles assim... medo ! Medo !! MEDO !!!

E assim termina a triste história do pequeno Helmwig.

domingo, 15 de maio de 2011

Oh, shyn Higienópolis !

Se me perguntassem quais os maiores problemas da cidade onde moro, não hesitaria em responder: violência e pobreza, feiúra e um trânsito impossível. Deixo a violência e a pobreza para outra ocasião: são dois problemas imensos cuja solução está além da esfera de atuação da administração municipal e, portanto, menos sujeitos a atuação cotidiana dos cidadãos, bem diferente da feiúra e do trânsito.

Décadas de escolhas erradas fazem do trânsito de São Paulo ser o inferno que é. O postulado do urbanismo – já provado desde as reformas de Robert Moses em Nova York na década de 1960 – segundo o qual avenidas “criam” o seu próprio trânsito, tem sido ignorado desde há muito. O furor pavimentador bem como a idéia de que o prefeito deve deixar grandes obras para a população (de preferência concluídas durante o mandato de quatro anos) faz com que realizações de longo prazo, como o metrô, sejam solenemente ignoradas, incluindo aí o descaso do governo estadual. (Sempre lembrando a bela oportunidade de “fazer caixa” que uma grande obra viária proporciona em apenas quatro anos) Ao mesmo tempo, o desprezo com a estética faz com que a cidade seja uma das últimas do mundo que ainda tem fiação elétrica aérea, tornando a paisagem uma verdadeira plantação de postes de concreto irremediavelmente desalinhados e carregados de uma fiação pesada, suja e a cada vez mais densa.

Por trás desses descalabros, a mentalidade paulistana que valoriza o privado em detrimento do público. Se eu consigo ter ( = pagar por) um espaço privado satisfatório, para que me preocupar com o público ? Se eu tenho um belo automóvel – que me permite passar como um raio pelas ruas feias e cheias de gente, de preferência por um túnel – para que me preocupar com transporte coletivo ?

A cidade é um lixo, é só vai começar a deixar de ser com uma mudança de comportamento. Falo da necessidade de volta às ruas, de valorizá-las como local de encontro e não só de passagem. Por que Paris é legal e São Paulo não é legal (excetuando-se os lugares privados, claro) ? Porque as ruas de Paris são legais, andar pelos bairros - qualquer bairro - é legal. Oras, o espaço público deve ser convidativo e não agressivo, e um ponto de partida é lutar pela sua estética: calçadas regulares, fiação elétrica subterrânea, mais verde. Por que não aproveitar a queda na criminalidade (peraí, alguém acredita nos números oficias ? Bem, são os que temos) e promover o retorno às ruas ? Sair dos carros e ocupar as calçadas. Disso tudo faz parte valorizar o metrô. É a nossa única saída. “Ah, mas o metrô é cheio”; lógico, as linhas são poucas. “Ah, mas metrô é solução para longo prazo”; ok, faz vinte anos que acompanho o debate público e ouço esse argumento, já está mais do que na hora de fazer algo a respeito, não ?


Essa semana, alguns moradores de Higienópolis rejeitaram uma estação do metrô planejada usando como o argumento o fato de que traria muita gente e muita movimentação para o bairro, isso para não falar da possibilidade de instalação de comércio de rua, de camelôs, diante do local da futura estação. Amigo meu, morador do bairro, disse com convicção: “Queria ver se fosse você, que tivesse que conviver com um camelódromo na porta de casa”. Péssimo argumento, porque eu adoraria ter uma estação na porta de casa. Um estação do metrô não é sinônimo de camelódromo. Ter na porta de casa duas ou três barracas precárias é um preço mínimo a se pagar por mais metrô na cidade. Dizer “não” ao metrô, sob que circunstância for, significa contribuir para que a cidade continue um lixo. A forma como os bravos moradores bravos de Higienópolis reagiram denunciou sua excepcional opção pela afirmação do interesse privado diante do público, justamente em assunto vital para a cidade.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Tentando entender (e me divertindo enquanto isso)



Sem dúvida, o mundo da Guerra Fria era bem mais fácil de entender. Na época existiam dois blocos, duas ideologias, duas visões de mundo, e se você escolhia uma, a outra tornava-se inimiga. A ética subordinava-se a escolhas que eram bem mais do que simplesmente ideológicas: ser de esquerda implicava em abraçar a causa da Humanidade, que tudo justificava, ser de direita significava combater a possibilidade do totalitarismo, que tudo massacrava.

Poucos antes da Guerra Fria, o presidente norte-americano Franklyn Roosevelt teria dito uma frase que exprime bem o universo de valores que logo se tornaria predominante. Falando sobre o ditador anti-comunista da Nicarágua, Anastasio Somoza, que ainda sobreviveria no poder por longos anos, Roosevelt disse: “Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch”. Na importa o que você faça, o importante é jogar no time certo.

No Brasil, a situação era mais clara ainda. Havia a ditadura, e tudo se justificava diante do primado de combatê-la. Ou então, em um registro um pouco mais sinistro: haviam os “terroristas” de esquerda, e tudo se justificava para enfrentá-los. Tal postura refletia-se no cotidiano. Meu amigo mente... tudo bem, ele é de esquerda. Meu colega rouba... tudo bem, ele é anti-comunista. Após o final da luta armada, lá por volta de 1975, os radicalismos se abrandaram, mas a ética permaneceu dissolvida: não importavam os atos que se cometiam, mas a bandeira que se desfraldava.

Imagino que em certos casos viver ou crescer nesse mundo acabou gerando um, digamos, deficit ético. Pior ainda se levarmos em consideração que a geração que foi jovem nos anos 1970 teve em seguida que encarar as assim chamadas décadas perdidas de 1980 e 1990, talvez o pior momento da história econômica do Brasil em todos os tempos. As oportunidades de trabalho minguavam, as remunerações eram irrisórias e, durante muito tempo, a inflação devastadora. O clima generalizado de “salve-se quem puder” era deprimente. Diante da dura luta pela sobrevivência, os valores foram mais uma vez chacoalhados: tenho filhos para alimentar, pais idosos para cuidar... vou lá me preocupar com detalhes ? Abre logo o caixa dois. Fraude no imposto de renda. Caixinha. Esquemas. Foi a instauração generalizada dos fins justificando todos os meios. Agora, não era mais o caso de salvar a Humanidade ou enfrentar a barbárie: tratava-se de continuar vivo. Talvez o maior símbolo da época tenha sido o Plano Collor: em nome do combate à inflação, vale tudo, portanto que se confisquem as contas bancárias !

Cheguei tarde para luta contra a ditadura. Quando comecei a pensar no mundo para além do quintal de casa, o AI-5 já havia sido revogado. Meu “combate” se limitou a uma participação rápida no comício das Diretas-Já na Praça da Sé. O do Anhangabaú ? “Ah, vai estar muito cheio...”. (Mais tarde, teria fôlego para vaiar o candidato Collor em praça pública e, pela primeira vez, levar um spray de gás lacrimogêneo na cara). Porém, tive que encarar as décadas perdidas. Comecei a trabalhar no final dos anos 1980 e jamais esquecerei que com todo o meu impressionante primeiro salário, comprei um livro. Repito, um livro (o Drácula, de Bram Stoker).

Na época, diante de tais circunstâncias, deslizei na ética uma ou duas vezes (quem sabe três etc...). Porém, acredito que há pessoas que passaram por esses tempos sombrios e carregam um deficit ético até hoje.

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Dia desses identifiquei um comportamento bem pouco virtuoso em um Dinossauro sobrevivente da Guerra Fria. Ao denunciar certo procedimento duvidoso, tive que ouvir uma reação furiosa que começou com: “Puxa Gian, isso é patrulha ideológica, você está pior que a ditadura !” A frase saiu assim, de chofre, transbordou do inconsciente como verdadeira revelação: diante de fraqueza ética, desfraldaram-se bandeiras ideológicas, na tentativa de delimitar campos políticos para desqualificar o interlocutor. Insisti na argumentação serena (ok, fui irônico pra cacete), e ouvi em seguida: “O que você quer, tomar meu dinheiro ?”. De repente, o meu comentário técnico (vá lá, em tom de denúncia), provocou o medo da perda de meios de sobrevivência. Percebi que aquela conversa estava começando a provocar uma reação catártica.

Para encerrar, lá pelas tantas o Dinossauro me disse mais uma frase reveladora: “Pega essa sua ética e enfia no c. !” Nesse momento, dei um drible no esprit de l’escalier e respondi: “Bom, se eu enfiar a sua, não vai nem fazer cosquinha !”.

domingo, 24 de abril de 2011

Notas sobre a multidão



Ce grand malheur, de ne pouvoir être Seul

Em 1840, o escritor norte-americano Edgar Alan Poe escreveu o pequeno conto “O homem da multidão” (The man of the crowd). Trata-se da breve narrativa de um personagem (o narrador) que, de dentro de um café ou bar, contempla a passagem das pessoas na rua até que avista um certo indivíduo na multidão, “um velho decrépito de sessenta e cinco a setenta anos de idade”, com a expressão marcada por uma “absoluta idiossincrasia”. Obcecado com a visão, o narrador passa a segui-lo pelas ruas de Londres, tarefa que se estende por horas a fio e termina somente ao amanhecer, com o velho prosseguindo na sua caminhada aparentemente interminável e o narrador concluindo: “Esse velho (...) é o tipo e o gênio do crime profundo. Recusa-se a estar só. É o homem da multidão. Será escusado segui-lo: nada mais saberei a seu respeito ou a respeito de seus atos”.

O interesse histórico despertado na narrativa está no fato de que o principal “personagem” colocado em cena pelo autor, e objeto acurado de descrição nas primeiras páginas do conto, é nada menos do que a multidão. Trata-se de uma novidade, trazida à cena pelos avanços da Revolução Industrial ao longo do século XIX e pela acelerada urbanização daí decorrente. O fenômeno chamou atenção dos contemporâneos, que passaram a ver na multidão ao mesmo tempo um objeto de admiração e medo, e a descrevê-la alternadamente como massa amorfa e soma de infinitos detalhes.

O advento da multidão e, sobretudo, fazer parte da multidão, acabou implicando no desenvolvimento de certas habilidades. O morador da grande cidade deve aprender novas operações do olhar, que possibilitem a sua sociabilidade e possam servir até como garantia de sobrevivência. “Viver numa grande cidade implica o reconhecimento de múltiplos sinais. Trata-se de uma operação do olhar, de uma identificação visual, de um saber adquirido, portanto. Se o olhar do transeunte que fixa fortuitamente uma mulher bonita e viúva ou um grupo de moças voltando do trabalho, pressupõe um conhecimento da cor do luto e das vestimentas operárias, também o olhar do assaltante ou do policial, buscando ambos a sua presa, implica um conhecimento específico da cidade” (M.S.Bresciani – Londres e Paris no século XIX).

O narrador de Poe, observador da multidão de dentro do café, demonstra possuir um olhar bastante arguto que utiliza para caracterizar minuciosamente os personagens da multidão, como mostram bem as primeiras páginas do conto. Devemos acreditar nele quando vê algo “diabólico” no velho e passa a segui-lo: nesse momento, o narrador deixa de ser um observador da multidão e passa a fazer parte dela.

O que significa estar na multidão, ou ser parte da multidão ? Multidão é anonimato, refúgio: estar na multidão e não sair dela por si só já implica em possibilidade de crime cometido. Ou, como observou Walter Benjamin, a multidão atrai quem não se sente seguro na sua própria sociedade. Além disso, a leitura arguta de Benjamin chama atenção para o seguinte trecho no conto de Poe, que fala do fluxo das pessoas na rua: “pareciam apenas pensar em abrir caminho através da multidão...se recebiam um encontrão de outros transeuntes não se mostravam irritados, ajeitavam a roupa e seguiam em frente... se tivessem que parar, paravam de murmurar... se eram empurrados, cumprimentavam as pessoas que as tinham empurrado e pareciam muito embaraçadas”. No trecho, Benjamin identifica no comportamento da multidão uma mimese do trabalho na fábrica: age-se por reflexo, impensadamente. Estar na multidão traz alguma alienação, implica na familiaridade com o próprio processo de produção, cada vez mais automatizado.

As ruas da Londres de Poe são iluminadas por lampiões a gás cuja luz, mesmo quando mais intensa, é apenas “trêmula” e provoca “fanáticos efeitos” (“wild effects of light”). A “neblina úmida e espessa” apenas contribui para dar à multidão um aspecto cada vez maior de fantasmagoria. Ainda seguindo Benjamin, o conceito de fantasmagoria é fundamental para a própria compreensão da sociedade capitalista que ganhava corpo ao longo do século XIX: é a imagem de algo que está ausente, de uma projeção do pensamento sobre, por exemplo, um objeto. Na sociedade capitalista, essa imagem é considerada como o real: trata-se de considerar a ilusão como imagem mental que percebe o mundo. Já o indivíduo convertido em fantasmagoria é aquele cujo trabalho tornou-se mera abstração, não estando mais vinculado a uma habilidade específica ou tarefa a ser realizada, mas simplesmente unidade de força medida através do tempo.


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(O texto acima foi escrito como parte de uma atividade da cadeira de inglês do Anglo, com o nosso querido professor Pantoja. O conto de Poe, em inglês, pode ser lido na íntegra em: http://bit.ly/f3MwCK )

sábado, 9 de abril de 2011

Alô, alô, torcida do Flamengo

1 Me pergunto por que diabos no Brasil as tragédias atraem multidões. Quase sempre vestindo bermudão, chinelo e camiseta, pessoas podem ser vistas se acotovelando diante das câmeras de TV ou apenas paradas ao longe, contemplando a cena, mãos para trás e com os quadris inclinados, numa tentativa de descansar as pernas depois de tantas horas em pé. Se o episódio for no Rio de Janeiro, a camiseta invariavelmente será do Flamengo.


Acredito que o que leva essa gente para o palco das tragédias é o estranho e jamais confessado desejo de ver o sofrimento alheio, o que no fundo expressa uma forma de regozijo diante da própria sobrevivência. Acho até que é esse mesmo sentimento que leva as pessoas a darem uma desaceleradinha no carro e espichar a cabeça para fora da janela quando se passa ao lado de um acidente. Nessa hora, pouco importa piorar o trânsito que vai se formando em uma via já parcialmente interditada, o que interessa é ver sangue. Ou então, não é nada disso, apenas o desejo de se distrair do tédio.

O fenômeno está longe de ser novo. Lima Barreto, em Triste fim de Policarpo Quaresma, dá uma viva descrição da Revolta da Armada de 1893 no Rio de Janeiro, episódio que ele presenciou:

Os soldados já estavam nas trincheiras, armas à mão; o canhão tinha ao lado a munição necessária. Uma lancha avançava lentamente, com a proa alta assestada para o posto. De repente, saiu de sua borda um golfão de fumaça espessa: Queimou! -- gritou uma voz. Todos se abaixaram, a bala passou alto, zunindo, cantando, inofensiva. A lancha continuava a avançar impávida. Além dos soldados, havia curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um destes que gritara: queimou!

E assim sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à tropa, às trincheiras, atrapalhando o serviço; em outras, um cidadão qualquer, chegava ao oficial e muito delicadamente pedia: O senhor dá licença que dê um tiro? O oficial acedia, os serventes carregavam a peça e o homem fazia a pontaria e um tiro partia.

Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da cidade


2 Na tragédia do Realengo, a imagem mais impressionante talvez tenha sido a de um desses observadores anônimos (devidamente vestido de bermuda sem camiseta) beijando a mão do policial que deteve o Atirador. A mão direita, que efetuou o disparo. Nessa foto, a estúpida busca de heróis convive com o desejo de santificá-los, demonstrado por um ato de subserviência normalmente praticado em cerimônias religiosas (e mesmo nessas, o beija-mão sempre causa algum constrangimento). Parece que não era somente o Atirador que vivia em um estado de pobreza espiritual compensada por uma religiosidade mórbida: sua platéia também.

3 “Lavem meu corpo, me enrolem em branco, me enterrem ao lado de minha mãe”, diz o testamento do Atirador. E pronto, está tudo resolvido. Estranha essa relação com deuses que tudo perdoam. Até quando vamos continuar insistindo nessa bobagem de vida eterna e perdão para os “puros de alma” ? Penso que, no passado, quando o discurso da virtude era predominante e os vícios ocultados, qualquer pessoa que se achasse “anormal” (assassino, estuprador, pecador) remoía-se em uma culpa que, em casos extremos, talvez até contivesse seus piores impulsos. A isso dou o nome de Medo do Inferno.

Se outrora o “anormal” sentia-se doente diante da aparente virtude das demais pessoas, hoje, em plena liberdade dos costumes, ocorre uma inversão: é o “anormal” que passa a se achar virtuoso diante da sociedade corrompida. O mundo está errado, porém eu ainda entendo a palavra de deus. Daí o desejo de purificar as pessoas ou mesmo puni-las em nome de um deus que aceita e perdoa os poucos que ainda o seguem. A isso dou o nome de Certeza do Paraíso.

quarta-feira, 30 de março de 2011

O Velho Escritor



Foi no meio da agitação de fim de tarde de uma grande livraria que eu vi o Velho Escritor. Ele estava afundado em uma daquelas poltronas que fazem as pessoas parecerem menores do que efetivamente são, diante de prateleiras de DVDs e jovens vendedores e compradores, todos eles muito apressados. Anônimo, discreto, cinza, com visível dificuldade de locomoção – percebida pela bengala apoiada a seu lado – e gestos muito lentos, o Velho Escritor contemplava as pessoas coloridas à sua volta.

A lembrança de muitas fotos que vi fez com que eu o identificasse, e imediatamente me chamou atenção o contraste entre a pessoa frágil, que parecia quase esquecida em um canto da Livraria, e a mente ágil, que eu conhecia através de seus escritos. Na verdade eu li apenas um livro de sua autoria, que considero uma pequena obra-prima, mas também o conheço pelo seu trabalho realizado ao traduzir grande parte dos livros de Kafka. Sua dedicação à obra de Kafka certamente é um indício de seus interesses e do seu pensamento e, na pequena obra prima que escreveu, a descrição de uma certa cidade do interior paulista muitas vezes alcança tons surreais dignos do autor tcheco.

[Interlúdio Biblioteca-de-Babel: tenho orgulho de minha biblioteca particular e ciúmes dos livros que a compõem. Acredito possuir uns 4 ou 5 mil volumes, quase todos expostos em prateleiras projetadas por mim e adequadas não só aos seus tamanhos diversos, mas também à exibição meio arrogante de minha (vã) cultura. Divirto-me organizando as prateleiras, “promovendo” livros queridos aos lugares mais nobres e “rebaixando” livros dos quais já cansei a lugares mais remotos. Já faz alguns anos que a pequena obra-prima do Velho Escritor encontra-se em lugar nobre, na altura dos olhos, quase no centro da prateleira dos livros de ficção.]

A idéia foi imediata, sequer pensei quando me dirigi ao andar inferior da Livraria e, buscando na letra C, lá encontrei um exemplar da sua pequena obra-prima. Imediatamente tomei o exemplar em mãos e fui ter com o Velho Escritor, ainda afundado na sua poltrona. Aproximei-me pedindo desculpas (quais pensamentos nobres eu estaria interrompendo ? Ok, talvez ele só estivesse pensando na sopa que tomaria no jantar) e disse que ficaria muito feliz se tivesse uma dedicatória em meu exemplar. “Que curioso”, disse o Velho Escritor, “eu estava justamente pensando em que fim levou este livro”.

Trocamos algumas palavras rapidamente, tive oportunidade de lembrar que conhecia a cidade do interior em que se desenrola a trama do livro. Acrescentei que, além de me provocar lembranças, o livro sempre me surpreendeu pela firmeza da narrativa e delicadeza da história. Logo nos despedimos – “Boa sorte”, disse ele – e seguimos cada um para um canto.

Seja como for, hoje posso ler a singela inscrição logo no início do segundo exemplar que agora possuo do Resumo de Ana:

"Ao Gian, com o prazer e a surpresa, o melhor abraço do

Modesto Carone

30 / março 2011"


quarta-feira, 16 de março de 2011

Sobre textos difíceis

Como lidar com textos considerados “difíceis” ? O que fazer diante de uma leitura hermética, que parece não conduzir a lugar nenhum ou que se perde em meandros labirínticos ? A questão é tanto mais premente quanto constato que um número expressivo de meus jovens leitores é, sobretudo, formado por universitários recém entrados na academia e, não raro, ferozes críticos da erudição.

Adoro a ferocidade de jovens universitários. Orgulhosos de seus feitos acadêmicos – que são basicamente limitados, nessa altura, a entrar em uma boa faculdade – acabam usando isso como fundamento “espiritual” e inconsciente para assumir posturas iconoclastas. Meus cabelos brancos e meu suposto pertencimento ao stablishment (embora eu não saiba exatamente qual, além das fileiras humildes do proletariado) acabam por me transformar em alvo de certas investidas intelectuais. Já vi esse filme: cabe a mim desviar-me das pedras arremessadas e tentar levar adiante um debate que, se por um lado nunca dura muito tempo, por outro torna-se interessante justamente devido à fúria iconoclasta juvenil.

Pois eis que, recentemente, em rápido colóquio pela internet (não menos alegre por causa disso), saí em defesa dos textos “difíceis”. Comecei usando a famosa citação de Theodor Adorno segundo a qual a complexidade da realidade faz com que os textos que a descrevem ou tentem entendê-la sejam também necessariamente complexos. Claro que é provocação, pois sabemos que linguagem e mundo são coisas bastante diferentes. (Mas até que ponto ? Longa história). Após uma saudável e inteligente troca de argumentos com meus interlocutores – cuja ferocidade logo deu lugar à serenidade – surgiu um consenso segundo o qual o emprego de uma linguagem “difícil” pode ser perdoado, desde que não seja feito inutilmente (ou seja, quando há alternativas “fáceis”) e nem seja simples exibição de erudição (o que resulta em mera arrogância).

Os consensos me irritam, e a questão continuou me perseguindo mesmo depois do fim do colóquio. Mesmo porque poucos meses atrás, diante da obrigação de ler determinado livro de um “certo” Gilles Delleuze e da minha hesitação em iniciar a leitura do texto, comecei a reclamar longamente sobre a prolixidade e, sobretudo, sobre a aparente falta de sentido de sua escrita. A grande ironia é que eu estava diante de um livro de Delleuze justamente intitulado Lógica do sentido. Fui obrigado a enfrentar e resolver certas questões referentes à minha opinião sobre textos difíceis antes de começar a ler o a tal Lógica do sentido.

A forma como resolvi essas questões me fizeram encarar com mais coragem os “textos difíceis” e me levaram ao ponto de me tornar defensor deles, como por exemplo no recente colóquio citado. O emprego freqüente da palavra “ciência” pelos meus jovens interlocutores me chamou atenção para a forma como lidamos com os textos. Acredito que os que cobram a simplicidade da escrita buscam, acima de tudo, objetividade nos textos lidos. Se um autor pensa de uma determinada maneira, que ele diga claramente o que pensa e pronto. Parece racional, não ? Afinal, tantos autores na “história da ciência” foram simples e claros em suas proposições e argumentos...
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Oras, me pergunto se não haveria uma outra ordem de textos (correspondente a um outro tipo de pensamento), que deva fazer da "dificuldade" sua própria matéria, partindo do pressuposto de que o pensamento não se esgota no texto. Tento ser mais claro: se eu tenho uma opinião e tento transmiti-la, é meu dever ser claro. Porém, se eu parto do princípio que minha opinião não é definitiva – por exemplo, devido à complexidade do tema abordado – tenho a possibilidade de multiplicar os planos possíveis de leitura do meu texto (ou seja, sua complexidade/dificuldade) para que o leitor possa ir além do que fui na investigação do problema proposto. Nesse sentido, um texto passa a se abrir para várias possibilidades de leitura, para muito além daquilo que o autor “quis dizer”.

A analogia que faço é com a pintura. Todos podem ver e apreciar uma pintura figurativa. Há uma infinidade de discursos ou interpretações possíveis a partir da contemplação, por exemplo, de uma Mona Lisa. Porém todos eles devem necessariamente partir do fato incontestável de que se trata de uma mulher parada, vestida de preto e contemplando os observadores com um sorriso discreto. Queiramos ou não, essa é a figura que se apresenta diante dos nosso olhos, e identificamos sua forma porque temos o referencial incontornável da realidade a partir do qual fazemos uma comparação.

Porém, como agir diante de uma tela abstrata ? O trabalho, mental ou interpretativo, solicitado é certamente maior do que no caso de uma tela figurativa. Muitas vezes, o artista sequer imagina o alcance daquilo que vai ser pensado ou sentido a partir da contemplação de sua obra. Uma tela abstrata, assim como textos “difíceis”, representa sobretudo uma abertura para o pensamento, um convite para um trabalho do pensamento que pode ser bastante árduo. da mesma forma, em um texto “difícil” trata-se da possibilidade de “ir além do conceito”, só para citar o velho Adorno ainda uma vez.

Penso também na poesia. O sentido de uma poesia não se esgota no significado das palavras empregadas. Ler uma descrição sobre o rio que passa na minha aldeia pode ser entediante, mas também pode nos levar a verdadeiras sínteses metafísicas. Ou então, para continuar com as metáforas líricas, pedras que surgem no meio do caminho devem ser vistas menos como simples objetos e mais como uma possibilidade de criação de sentido. Quando um texto nos leva a isso, ele certamente cumpriu sua função, tenhamos ou não entendido exatamente o que o autor quis dizer.