quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Banheiro x público

 
 

          Há uma contradição evidente no termo “banheiro público”. Banheiros são locais de intimidade e atividade privada – o próprio uso desta palavra para designar o vaso sanitário é significativo. Uma parte dos atos realizados em banheiros podem ser compartilhados com outra pessoa, e quando isso acontece geralmente indica uma intimidade excepcional, por exemplo, aquela resultante de uma vida compartilhada. Porém, há outros desses atos que jamais dividimos, mesmo com o ser mais amado na situação de maior proximidade.



 O banheiro público coloca em cheque a privacidade desses atos, criando uma tensão evidente. Penso nisso sempre que entro em um banheiro público com pessoas de uma certa cultura – que não divulgo para não alimentar preconceitos – mas que aproveitam o espaço privado, mas nem tanto, do banheiro público, para soltar gases assim que entram, forçando uma intimidade nem um pouco desejada.
 
 [Interlúdio psicanalítico: esse chineses – ops ! escapou ! – agem mais ou menos como aquelas pessoas que contam alegremente seus sonhos noturnos, sem desconfiar que desvendam mais do seu inconsciente do que queremos saber. “Gian ! Sonhei que tinha uma joia preciosa que todos queriam roubar !” ou “Gian ! Sonhei com uma vagina dentada !”. Por favor, me poupem.]
 
 Lembro que nas escolas inglesas do século XIX – época de avanços incontestáveis, tanto na higiene quanto na invenção dos espaços privados – foram criados os banheiros coletivos. Os “reservados” dentro desses banheiros, eram os únicos espaços privados de que dispunham os jovens estudantes, normalmente submetidos a dormitórios coletivos, classes cheias e refeitórios comuns. Para combater “vícios privados”, havia o inspetor de banheiro, que percorria as latrinas com um pequeno espelho na ponta de um cabo de madeira: é daí que veio essa forma de controle do emprego de banheiros públicos, o vão das portas nos reservados.
 
 Há também o antigo mistério dos banheiros femininos, e do porque as mulheres tendem a ir em grupo ao banheiro. Durante muito tempo, tive várias fantasias (algumas francamente eróticas) com as misteriosas atividades que as mulheres desenvolviam durante suas idas coletivas e demoradas ao banheiro. Mas, felizmente, as redes sociais desvendaram o mistério: mulheres vão em grupo ao banheiro e lá permanecem muito tempo para tirar fotos no espelho fazendo biquinho.
 
 Finalmente, há também nos banheiros a experiência essencialmente privada do olhar-se no espelho. Claro, no banheiro público o ato é compartilhada, mas traz a lembrança de uma das experiências mais transcendentais que podemos ter, e que é essencialmente privada: a  contemplação do próprio corpo nu em um espelho.
 
 Certamente não existe nenhum interdito social em contemplar o corpo nu diante da pessoa amada ou em qualquer outra situação consensual que envolva outros individuos. Todavia, convenhamos que a contemplação do corpo nu é algo que passamos a maior parte da vida fazendo na absoluta solidão de um banheiro. E que experiência transcendente é essa ! Lembro de recente operação oftalmológica, que fez com que minha miopia – fiel companheira desde os 11 anos de idade – desaparecesse.  Subitamente, passei a ver a imagem do meu corpo no espelho na hora do banho, não mais como um borrão meio cor de rosa, mas com todos os seus detalhes. Meu deus, quantas berebas ! Quem é esse gordo imenso que ultimamente tenho chamado de “eu” ???
 
 Enfim, quase nunca temos consciência disso, mas no fundo devemos saber que a mensagem que o espelho nos passa é sempre a mesma. Como na formulação de Heráclito, jamais somos os mesmos ao nos olharmos diante do espelho: o corpo está mudando, o tempo está passando. Espelhos, mesmo quando não querem, nos lembram da finitude da vida.
 
 Os vampiros, imortais que são, não têm imagem projetada no espelho.

 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Boston abaixo de zero


Miami International Airport, 23 de janeiro, 7h53

Escala na Flórida, sempre uma oportunidade de observar o comportamento dos compatriotas fora de casa. Antigamente, era muito fácil identificar um brasileiro no exterior, sobretudo na Europa: bastava procurar alguém com um boné escrito NY ou um moleton de universidade americana ou as inevitáveis camisetas “Hard Rock Cafe – Miami”. Queríamos ser americanos. Hoje, por mais estranho que seja, os brasileiros se vestem com mais discrição, embora tenham conseguido mais do que nunca personificar o norte-americano: comportamo-nos como novos-ricos desvairados.

 
Doral Billiards, Miami, 23 de janeiro, 21h35
 
Quase um cenário de filme. Já no estacionamento percebo uma quantidade significativa de pick-ups e carros esporte. No interior enfumaçado (é permitido fumar), mesas de sinuca, cerveja em jarras, atendentes peitudas e telões exibindo vários esportes ao vivo. Por todos os lados, posters com mulheres voluptuosas anunciam exibição de UFC no fim de semana. Das paredes escorre testosterona.

 
ao longo da Freedom Trail, Boston, 24 de janeiro, 13h02
 
Boston também é chamada de Beantown, devido à fama de comedores de feijão que seus habitantes têm. Ou melhor, tinham: reviro a cidade em busca de um bom prato de feijão no estilo Boston e simplesmente não encontro. Em compensação, tem gente vendendo lobster bisque em qualquer esquina. Os bostonianos tornaram-se novos ricos desde há muito, e deixaram seus pratos de feijão no passado.

 
Estação do metrô Kendall/M.I.T., Cambridge, 24 de janeiro, 18h12
 
No metrô Kendall/M.I.T. há estranhas alavancas na parede da plataforma de embarque. Uma vez puxadas, elas imprimem movimento pendular a grupos de martelos pendurados no teto, entre as duas linhas de trem; os martelos, por sua vez, atingem longos cilindros sonoros de metal, produzindo som do badalar de sinos. Para quê ? Para nada: apenas para as pessoas se divertirem enquanto o trem não chega.

 
Kendall Square, Cambridge, 25 de janeiro, 8h48

Dez graus abaixo de zero, céu claro, previsão de neve só no fim de semana. Antes de sair do hotel, checar: luva, cachecol, gorro, protetor labial, gel para as mãos (há epidemia de gripe na cidade), mapa, carteira, passaporte, cartão do hotel, bilhetes do metro, celular, moedas, chave da fechadura da mala, óculos de leitura. Vou deixando um rastro de objetos perdidos pelo caminho.

 
Kendall Hotel, Cambridge, 25 de janeiro, 13h14
 
Do meu quarto do hotel tenho acesso à Wi-Fi ultrarrápida do M.I.T. Meu celular quase explode carregando páginas e páginas a fio da internet.

 
Park Street, Boston, 26 de janeiro, 11h26
 
Além de Harvard (20 mil alunos) e do M.I.T. (10 mil alunos), situados na vizinha cidade de Cambridge, a cidade de Boston – de seiscentos mil habitantes – ainda abriga a Norht Eastern University (20 mil alunos), a Boston University (30 mil alunos) e nada menos que 52 outras faculdades ou universidades menores. O resultado é que a média de idade da população é bastante baixa, e essa juventude transbordante é vista nas ruas o tempo todo, em grupos ou isolados, no metro ou de bicicleta. Em 70% dos casos carregam imensos copos de papel com café, em 80% dos casos estão digitando no celular.

 
Livraria Barnes & Noble, Prudential Center, Boston, 26 de janeiro, 12h10
 
Nessa imensa livraria, as estantes de Filosofia situam-se entre “Religion” e “New Age”.

 
M.I.T., Cambridge, 26 de janeiro, 19h49
 
Sábado à noite, maratona de ficção científica no cineclube no M.I.T. ! O programa anuncia nada menos que 4 filmes, além de pizza break e uma atração surpresa (a exibição do primeiro episódio para a TV de Star Trek, em cópia de 35mm). O programa termina às 6h da manhã do domingo, e nada menos que 140 Sheldons e Leonards compareceram. Impossível não pensar que, na mesma noite, em outra universidade bem longe daqui, o pessoal foi para a balada...

 
North End, Boston, 27 de janeiro, 15h27

 Havia um super-minhocão em Boston até a década de 1990. Além da feiúra habitual, o monstro de concreto enfrentava congestionamentos diários e foi responsável pela deterioração do entorno no nível do solo – o que, aliás, também é habitual nesse tipo de construção. Pois e não é que eles derrubaram o troço todo ? A cidade ganhou um longo parque, de quilômetros de extensão, facilitando a ligação do centro com North End e South End por pedestres que, dessa forma, puderam voltar às ruas.

 
Legal Sea Foods, Cambridge, 28 de janeiro, 17h43
 
“Six for six”, seis ostras por seis dólares é a promoção do happy-hour. Termina às 6h da tarde.

 
M.I.T., Cambridge, 29 de janeiro, 11h27
 
Pelas prateleiras do M.I.T., cruzo com um Principles of Quantic Mechanics, de autoria de um certo R.Shankar. Trata-se de uma introdução ao assunto, me explicam. Mas, peraí, R.Shankar ??? Impossível não lembrar de Ravi Shankar, tocador de cítara indiano e guru dos Beatles a partir de 1966. Fico imaginando que a dissolução da banda levou o músico indiano a perder popularidade. Desiludido, voltou para a Índia em busca de novas experiências místicas – o que o levou, obviamente, à mecânica quântica. Um pouco antes de me aprofundar no delírio, me explicam: R. é de Ramamurti, nada a ver com o mago dos Beatles.

 
Miami International Airport, 29 de janeiro, 17h19
 
No balcão da imigração. “Por favor, não me entregaram o formulário I-94 quando eu entrei. Eu não teria que devolvê-lo agora ?”. O guarda, de feições cubanas, pega meu passaporte vermelho, olha e me devolve dizendo: “Você não precisa de formulário I-94. Você é italiano”.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Arquétipos


Não há dúvida que ser competente dá trabalho, muito trabalho. Fique claro desde já que, ao usar o termo “competente”, me afasto um pouco do sentido corriqueiro da palavra – um misto de “empreendedorismo” (urgh !) com propensão a ganhar dinheiro a qualquer custo. No conceito de competêncina, prefiro enfatizar aquela dedicação à tarefa que resulta em um trabalho bem realizado.
 
É fácil perceber a competência na prática do trabalho manual, partindo do uso dos objetos produzidos. Penso nisso toda vez que entro no banheiro recém-reformado e só consigo manter a luz acesa, sem piscar, dando um murro no interruptor. Gostaria porém de pensar em competência na realização do trabalho intelectual, supostamente minha área central de atuação. Nessa área, o trabalho necessário à redação do texto consistente, à apresentação da tese original ou simplesmente à prática do pensamento rigoroso é tremendamente árduo.
 
Há, todavia, uma curiosa tendência de evitar (ou ser incapaz) de realizar o trabalho árduo e, em compensação, tentar demonstrar a competência assumindo traços de comportamento do intelectual comprovadamente competente. É o que eu chamo de cultura do arquétipo, e cito alguns exemplos imediatos.
 
Nas ciências Exatas, a figura do cientista desligado ou de comportamento extravagante tornou-se arquetípica – muitas anedotas e a famosa foto de Einstein estendendo a língua ajudaram a criar o arquétipo. Assim, muitos jovens físicos e matemáticos assumem comportamentos pouco convencionais, como tentativa de reforço a um trabalho acadêmico ao qual falta o brilhantismo.
 
Nas ciências Biológicas, ao que me parece, o arquétipo do brilhantismo passa pelo ateísmo. Transmite aquela imagem de cientista que entendeu efetivamente o evolucionismo e, com dificuldades em suas pesquisas acadêmicas, busca a aura de herói da ciência ao combater o obscurantismo religioso.
 
Porém, detenho-me nas ciências Humanas, área na qual o arquétipo da seriedade intelectual é nada menos que a melancolia. Para muitos, é necessário ser melancólico para ter credibilidade. A origem é evidente, Walter Benjamin, cujo obra é toda perpassada pelo  conceito de melancolia, vista pelo filósofo alemão como estado de espírito característico do sujeito moderno. Um dos pontos de partida é o pensamento de Freud, que aproximou a melancolia do luto tanto nos sintomas (paralisia, desânimo, tristeza) como nas origens (uma perda ou afastamento). Uma vez que a modernidade é fundada no transitório, no fugidio e no passageiro, a sensação de perda – fundamento do sentimento melancólico – passa a ser uma constante. No plano ético, essa perda relaciona-se com o afastamento do sujeito em relação ao Bem que, pelo menos na sua dimensão pública, transferiu-se para outras instâncias.
 
Numa estranha inversão, a genialidade da obra de Benjamin é obscurecida pela beleza dos textos, pela escrita fácil e elegante, que o faz um preferido de jovens estudantes das ciências Humanas. Acontece que além de conceituar a melancolia, Benjamin foi efetivamente um melancólico e seus bravos seguidores nas ciências Humanas, que nem sempre estão atentos às filigranas de seu pensamento, acabam incorporando apenas o arquétipo. Ser melancólico é ser benjaminiano, é estar por dentro. É ter credibilidade.
 
Penso na Universidade. Lembro-me de ter lido uma tese de doutorado da Letras, em que a autora caracterizava minuciosamente o trabalho de tradução, recheando sua análise com conceitos benjaminianos e terminando por concluir que todo tradutor é um melancólico – maior elogio impossível.
 
Penso nas esquerdas, que dominam a produção intelectual nas Humanas, pelo menos no Brasil (vai lá ler Gramsci e entenda porque). Nesse caso, o sentimento de perda, fundamento da melancolia, é real. A queda do modelo soviético levou junto uma alternativa à ordem capitalista, e a ideologia que lhe sustentava, queira ou não, ficou abalada. Nos últimos trinta anos, a palavra de ordem passou a ser: recolher os cacos, reconstruir a ideologia, olhar para o futuro, mas sempre sentindo o gosto amargo da perda.

 Penso no Poeta. Por que ele escreve ? Se dói, ele escreve para sedar a sua dor; se não dói, ele não estaria escrevendo, mas se divertindo por aí. Se perdeu, escreve para recuperar; se não houvesse perdido, estaria usufruindo e não escrevendo. Se está só, escreve para ter companhia; se já tem, vai aproveitá-la. Não haverá por trás de toda Lírica um sentimento negativo (e não seria Lírica a forma de ultrapassá-lo, produzindo, como efeito colateral, o Belo ?).
 
Penso no fascismo e seus sucedâneos. O otimismo desvairado fascista faz com que qualquer aparente bom-mocismo entusiástico seja visto com suspeita. Além disso, quando o anjo da História (e dá-lhe Benjamin) olha para trás, nos últimos cem anos ele tem que lidar com um rastro de destruição francamente devastador.
 
Penso em Ernesto Sábato, meu segundo autor argentino preferido. Lendo o romance “Sobre heróis e tumbas” (ainda estou na página 40, o termo melancolia/melancólico já apareceu cinco vezes) me deparo com o seguinte trecho:
 
...por isso os pessimistas são recrutados entre os ex-esperançados, pois para ter uma visão negra do mundo há que antes ter acreditado nele e em suas possibilidades. E é ainda mais curioso e paradoxal que os pessimistas, uma vez decepcionados, não estejam constante e sistematicamente desesperançados e que, de certo modo, pareçam dispostos a renovar sua esperança a cada instante, embora o dissimulem sob seu negro invólucro de amargos universais, devido a um certo pudor metafísico, como se o pessimismo, para manter-se forte e sempre vigoroso, precisasse de vez em quando de novo impulso produzido por uma nova e brutal decepção.
 
A melancolia produz melancolia. Tenho saudades de quando a melancolia era apenas um sentimento, e não um valor.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Futebóis

 
Prólogo
 
 Admito: falar mal de futebol é uma delícia, falar mal de torcida é melhor ainda – e fácil, ainda por cima. Intolerância, violência, comportamento de horda, além da certeza de que o torcedor “normal” (aquele que não espanca pessoas de outras torcidas) é de alguma forma cúmplice da barbárie geral. Futebol profissional, ainda por cima, é nada mais que uma bobagem, e a administração do futebol beira a criminalidade - isso pra não falar do aspecto “Pão e Circo” da coisa toda. Futebol profissional, no fundo é apenas ódio, estupidez e emoções baratas.
 
Resta o problema de como conciliar essa visão pessimista com o fato incontestável de que o jogo em si é legal, e ir ao estádio é a quintessência do prazer futebolístico, mais até do que a própria prática do jogo, com suas botinadas e “vitórias a qualquer custo”. Fora das quatro linhas, podemos assistir, com a possibilidade de transformar o jogo em narrativa, dar-lhe nova dimensão através da narrativa. Cena primordial: Nelson Rodrigues, míope feito uma toupeira, acompanhando sabe-se lá o que das arquibancadas do Maracanã, para escrever seu comentário sobre o jogo no jornal do dia seguinte.
 
Enfim, periodicamente – e em segredo – dirijo-me a estádios, para acompanhar os jogos mais diversos. Sem preferências clubísticas (nos últimos meses vi jogos de Santos, Portuguesa, São Paulo, Corínthians, para citar só os da cidade) e aproveitando para conhecer lugares por aí (do Municipal de Sorocaba ao Parc des Princes, passando pelas mil vezes que fui ao meu preferido, o Pacaembu).
  
Cena 1 – entrada do estádio
 
Dia desses, alegre e fagueiro, sigo para o Morumbi, depois de anos sem sequer chegar perto do bairro. Compro caros ingressos nas cadeiras cobertas, chego cedo para evitar trânsito e levo um exemplar da revista Cult (“dossiê Adorno”) para ficar lendo antes do jogo.
 
Os torcedores são revistados, como de hábito e, para minha surpresa, o tradicional guarda troglodita que me apalpa proíbe que eu entre com a revista. Pergunto por que, e ele me diz que alguns torcedores põem fogo em jornais, criando pequenos incêndios. Digo que minha revista não é um jornal e que havia acabado de comprá-la.
 
 Ele sequer respondeu. Com um sorriso assustadoramente inexpressivo, o guarda olhou nos meus olhos e arremessou a revista para o lixo, enquanto esperava – ainda sem dizer nada e ainda sorrindo – que eu desse lugar ao próximo torcedor a ser revistado. Foi um dos olhares mais assustadores que recebi na vida. Imaginei que, nos porões, torturadores davam esses sorrisos, enquanto prosseguiam impassivelmente no exercício de suas atividades. Senti um calafrio na espinha.
 
Claro, sobrevivi ao episódio e logo estava fazendo piadas sobre o fato de que a minha revista pelo policial tinha sido logicamente exemplar: ele tomou nada menos que a minha revista.
 
Cena 2 – já dentro do estádio
 
 
E vamos lá, após a revista e sem a revista, assistir a um jogo do São Paulo. Atrás de mim, um moleque, nos seus 7 ou 8 anos, berrando feito um louco. Desde o anúncio dos jogadores pelo alto-falante, e durante toda a partida, mesmo nos momentos menos emocionantes, o petiz se esganava. Tinha uma preferência especial por Luís Fabiano, a quem ele encorajava, aconselhava, xingava, ou simplesmente gritava o nome,  prolongando e modulando o último "O"  até atingir níveis insuportáveis.
 
 
As pessoas nas cadeiras olhavam para trás espantadas, ele incomodava a todos em um raio de uns vinte metros e, caramba, estava exatamente atrás de mim. Depois de um dos gritos, particularmente ardido, olhei para trás e o pai, desolado, como que se desculpou com o olhar. Me perguntei porque diabos esse pai banana não conseguia controlar o filho. Pois ele não chamou atenção do fedelho nem uma vez sequer.
 
 
Lá pelas tantas, o bacuri virou para o pai e desabafou, baixinho, só quem estava muito perto (=eu) ouviu: “Puxa , pai estou tão feliz de estar aqui com você hoje ! Sabe, eu nem dormi direito essa noite de tão feliz que estava em vir no jogo...”.
 
 
Puxa vida. Vai se foder. Me derreti todo. Como é que uma coisa que gera tanto ódio e tanta estupidez como o futebol é capaz de mexer com emoções e aproximar pai e filho desse jeito ? Fiquei imaginando não só a ansiedade do pequenino, mas a memória que ele construiu desse dia que será, certamente, inesquecível em sua vida. Mas será que essa emoção autêntica vai sobreviver à lavagem cerebral futebolística ? Será que o garoto irá necessariamente se transformar em um torcedor fanático com tendências homicidas e, convenhamos, fascistas ? Haverá um meio termo possível ?
 
 
O comentário do menino deixou um raio de esperança. E depois de ouvi-lo, não tive mais coragem de olhar para trás com cara de bravo sequer uma vez.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Dois heróis da década de 1950


 
Oscar Niemeyer
 
Viver 104 anos já é uma forma de heroísmo. O repertório de lembranças acumuladas e o simples fato de sobreviver com lucidez diante dessa massa avassaladora já convertem o centenário em alguém que ultrapassa os feitos humanos, que se projeta para além do homem. Há porém alguma coisa triste no artista longevo: o tempo pode condená-lo à eterna repetição de si mesmo, e sua obra, a uma caricatura do que passou.

A arquitetura de Niemeyer é inseparável de seu tempo. Nas décadas de 1940 e 1950, ninguém dava muita bola ao ambientalismo, ou muito menos à – odeio essa palavra – sustentabilidade. Para os arquitetos dessa geração, amplas superfícies impermeabilizadas eram perfeitamente aceitáveis, assim como grandes edifícios envidraçados nos trópicos, consumindo energia elétrica violentamente em suas máquinas de ar enlatado.

Tampouco preocupava-se com a ligação do edifício com o entorno. Alguns pensavam o edifício como um monumento, uma marca a ser deixada na paisagem, e pobre da cidade que tivesse que conviver com uma multidão de monumentos empilhados, com a marca pessoal de cada arquiteto se perdendo no meio de um conjunto amorfo. Para essa geração, a saída era construir cidades inteiras, e Niemeyer foi um dos poucos que teve essa possibilidade.

No plano puramente estético, Niemeyer conviveu com o modernismo e a possibilidade da construção de edifícios brincando com formas geométricas. É um dos pais daquilo que eu chamo de “arquitetura de maquete” (aquilo que se ensina nas escolas de arquitetura hoje em dia): edifícios com formas geométricas básicas, que até ficam bonitinhos na maquete, mas que, uma vez construídos, parecem fora de qualquer dimensão humana.

A própria revolução das formas curvas, com as quais Niemeyer supostamente rompeu a rigidez da geometria modernista, pode ter tido o seu momento nos anos 1950. Todavia, uma vez repetida ad nauseam nos próximos 60 anos, acabou desvendando aquilo que ela efetivamente é: um uso exagerado do concreto, com tudo que ele tem de sujeira e rápida obsolescência. (No mundo de Niemeyer, provavelmente o Estado seria responsável pela manutenção impossível das superfícies curvas de concreto, não importando o custo. Sua arquitetura sempre foi tão utópica e falida quanto o estado socialista em que acreditou).

David Brubeck

Enquanto músicos negros faziam jazz em Nova York, um branquelo judeu da Costa Oeste tentava fazer o mesmo. E não é que conseguiu ? Acabou criando sua própria linguagem, e deixou para a Humanidade Take Five, em que eu sempre penso quando imagino uma Música Perfeita.

Depois do sucesso estrondoso na década de 1950, saiu em busca da renovação, não encontrando, infelizmente, nada que se comparasse ao disco Time out, de 1959. Ao contrário do outro herói, seu contemporâneo, David Brubeck não se contentou com a eterna repetição de si mesmo, e muito menos foi canonizado em vida.

Ainda assim, a música de David Brubeck, por mais imaterial que seja, preenche mais espaços no espírito do que todos os prédios de Niemeyer e suas toneladas de concreto.

 

 

sábado, 17 de novembro de 2012

El bullying

 
Sempre me causou perplexidade o bullying, não pelo ato em si e muito menos pelo uso do termo em inglês (a essa altura já estamos todos used to), mas sim pela sua quase criminalização e pelo fato de existir um termo específico para esse conjunto de maldades e maus tratos que sempre fizeram parte do convívio social. Sobretudo entre jovens e adolescentes, que são cruéis, tremendamente cruéis, entre si, sempre foram, sem que em outras épocas tantas pessoas julgassem estar “sofrendo” bullying. Pode-se imaginar época mais cruel que o período, digamos, dos onze aos quinze anos de idade ? Penso em todas as ignomínias que presenciei e alegremente pratiquei nessa época da vida, e todos faziam isso e todos “sofriam” igualmente com isso.

 E, no entanto, fazia-se muito menos terapia.

Os apelidos eram cruéis. Lá pela 6ª série, havia um menino obeso, excepcionalmente obeso e que ainda por cima tinha o arcaico nome de Orlando. Claro, todos os chamávamos de Gorlando ou Gordolando, para sua fúria (e nossa diversão). Havia também o menino negro (o único que frequentava a escola privada de classe média, cheia de alunos branquelos). Era alegremente chamado de Berinjela, sem que ninguém se importasse muito seriamente com isso. O ponto culminante da prática de apelidos sórdidos veio com o Manuel, menino que entrou na 8ª série no meio do ano, além de tudo morador de uma cidade do ABC, e tudo isso já seria motivo suficiente para torná-lo Cristo honorário da turma. Pois este menino era alto, muito magro, com o rosto cavado e fundos olhos azuis, o que lhe valeu o singelo apelido de Holocausto.

E, no entanto, tomava-se muito menos antidepressivos.

Os xingamentos eram cruéis. Qualquer erro ou engano cometido era saudado com gritos de “retardado” ou “mongolóide”. O cuidado ao vestir era importante, não no sentido de exibir alguma riqueza, mas de evitar combinações que trouxessem o – ok, odioso  – epíteto de “baiano”. Ao mesmo tempo, comportamentos que indicassem a não compreensão da psotura adequada para esta ou aquela situação, na hora denunciavam o “maloqueiro”. Assim como os apelidos, os xingamentos eram discriminatórios, sublinhavam as diferenças, e mostravam como o todo buscava ser homogêneo. Éramos pequenos fascistas, todos nós.

E, no entanto, as pessoas não saíam por aí invadindo escolas e baleando os colegas.

No meio do circo dos horrores, aprendíamos a nos defender e, com o tempo, abandonávamos as práticas mais sórdidas, introjetando normas morais e aprendendo à força princípios de sociabilidade. Hoje, com a obrigação de combatermos o bullying, devemos proteger crianças frágeis e sensíveis que, provavelmente, jamais aprenderão a caminhar por conta própria, permanecendo crianças para sempre. Retardados para sempre.
 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mostra & Metas

 


Entrei com tudo na programação da Mostra Internacional de Cinema deste ano, depois de longo afastamento. O fato de logo o primeiro filme que assisti ter sido muito bom me animou a estabelecer uma meta ambiciosa: assistir 14 filmes em 14 dias de Mostra. Jamais cheguei nem perto dessa marca em outras edições.

 O tal filme que me seduziu foi Cinejornal, um documentário russo, mais precisamente, um recorte de trechos de cinejornais soviéticos da década de 1950, com direito a discursos de Khruschev e tudo mais. As imagens, em preto e branco, são belas e o texto original dos cinejornais foi suprimido, restando apenas a fala das pessoas em entrevistas, depoimentos, peças teatrais e por aí vai. A legenda, em inglês, estava incompleta, e alguns trechos de até quatro minutos foram exibidos sem nenhuma legenda, apenas com o som original em russo. Mas pouco importa, isso faz parte do charme da Mostra.

 Além da pura beleza plástica das imagens, o filme mostra aspectos do cotidiano da União Soviética da época, quando ainda havia um espantoso crescimento econômico, pouco antes do início da longa estagnação que se iniciaria com Brezhnev a partir do final dos anos 1960. Além disso, a reconstrução do pós-guerra e a ênfase de Kruschev na melhoria das condições de vida da população ajudam a alimentar um clima de autêntico otimismo, amplificado pela propaganda oficial.
 
Os Planos Quinquenais ainda eram vistos como uma ferramenta adequada para “atingir e ultrapassar” os Estados Unidos, na famosa frase de Khruschev, infelizmente não mostrada no filme. O Comunismo ainda estava no horizonte e, lá pelas tantas, um analista afirma que em mais uns 20 anos, a transição estará completa e o sistema implantado.

Nesse contexto, chama atenção a verdadeira obsessão  das imagens produzidas pelo jornalismo soviético em mostrar como os Planos estão sendo cumpridos com folga. Assim, vemos um operário recebendo um prêmio, pois graças a uma ideia sua a produção da usina siderúrgica ultrapassou as metas estabelecidas pelo Plano. Mais adiante, um repórter de rádio entrevista o maquinista de um grande comboio ferroviário que afirma, orgulhosamente, ter acrescentado dois vagões a mais do que o previsto, uma vez que sua habilidade de condutor  e o conhecimento da linha o permitiam conduzir com segurança um trem deste tamanho. Finalmente, as colheitas de trigo na Fazenda Coletiva número X, da Ucrânia, superaram todas as expectativas, graças ao empenho dos cientistas soviéticos e dos camponeses em seu trabalho conjunto na melhoria da semeadura. Em outras palavras: as metas são sempre atingidas e ultrapassadas.

Impossível não pensar no mundo corporativo e na forma como o discurso e a prática das metas generalizou-se no capitalismo triunfante. Venda de unidades, satisfação dos clientes, captação de matrículas, há sempre uma meta numérica a ser atingida, e, num dado intervalo de tempo, um gráfico deve ser produzido, com suas curvas ideais se projetando rumo ao infinito. É como se o fervor revolucionário dos Comissários do Povo agora se transferisse para uma moderna casta de engravatados, que lidam com multidões de números, estabelecendo metas, definindo estratégias e apresentando orgulhosamente a superação dessas metas nas reuniões de acionistas, que é como o Politburo todo poderoso agora é chamado.

Tanto nos Comissários do Povo quanto na casta dos engravatados, o triunfalismo entusiástico é o mesmo, bem como a alegre empolgação com a superação das metas. Também se assemelham os volteios dialéticos e a lógica tortuosa que justificam as curvas que surpreendentemente não seguem as previsões ambiciosas pré-estabelecidas. Finalmente, o furor com que as cabeças são cortadas e os bode-expiatórios são apontados: alguém falhou, mas nunca o sistema. E se na União Soviética tudo era feito em nome do Comunismo, hoje o entusiasmo todo se esgota no presente e na possibilidade imediata de realização de lucros  no sistema financeiro.

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Volto à Mostra. Meu objetivo pessoal neste ano é assistir 14 filmes em 14 dias. Prometo que me esforçarei ao máximo para não atingir a meta.