Há uma contradição evidente no termo “banheiro público”. Banheiros são locais de intimidade e atividade privada – o próprio uso desta palavra para designar o vaso sanitário é significativo. Uma parte dos atos realizados em banheiros podem ser compartilhados com outra pessoa, e quando isso acontece geralmente indica uma intimidade excepcional, por exemplo, aquela resultante de uma vida compartilhada. Porém, há outros desses atos que jamais dividimos, mesmo com o ser mais amado na situação de maior proximidade.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Banheiro x público
Há uma contradição evidente no termo “banheiro público”. Banheiros são locais de intimidade e atividade privada – o próprio uso desta palavra para designar o vaso sanitário é significativo. Uma parte dos atos realizados em banheiros podem ser compartilhados com outra pessoa, e quando isso acontece geralmente indica uma intimidade excepcional, por exemplo, aquela resultante de uma vida compartilhada. Porém, há outros desses atos que jamais dividimos, mesmo com o ser mais amado na situação de maior proximidade.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Boston abaixo de zero
Miami International Airport, 23 de
janeiro, 7h53
Escala na Flórida, sempre uma
oportunidade de observar o comportamento dos compatriotas fora de casa. Antigamente,
era muito fácil identificar um brasileiro no exterior, sobretudo na Europa:
bastava procurar alguém com um boné escrito NY ou um moleton de universidade
americana ou as inevitáveis camisetas “Hard Rock Cafe – Miami”. Queríamos ser
americanos. Hoje, por mais estranho que seja, os brasileiros se vestem com mais
discrição, embora tenham conseguido mais do que nunca personificar o norte-americano:
comportamo-nos como novos-ricos desvairados.
Doral Billiards, Miami, 23 de janeiro,
21h35
Quase um cenário de filme. Já no
estacionamento percebo uma quantidade significativa de pick-ups e carros esporte.
No interior enfumaçado (é permitido fumar), mesas de sinuca, cerveja em jarras, atendentes
peitudas e telões exibindo vários esportes ao vivo. Por todos os lados, posters com
mulheres voluptuosas anunciam exibição de UFC no fim de semana. Das paredes escorre
testosterona.
ao longo da Freedom Trail, Boston, 24 de
janeiro, 13h02
Boston também é chamada de Beantown,
devido à fama de comedores de feijão que seus habitantes têm. Ou melhor, tinham:
reviro a cidade em busca de um bom prato de feijão no estilo Boston e simplesmente
não encontro. Em compensação, tem gente vendendo lobster bisque em qualquer
esquina. Os bostonianos tornaram-se novos ricos desde há muito, e deixaram seus
pratos de feijão no passado.
Estação do metrô Kendall/M.I.T., Cambridge,
24 de janeiro, 18h12
No metrô Kendall/M.I.T. há estranhas
alavancas na parede da plataforma de embarque. Uma vez puxadas, elas imprimem
movimento pendular a grupos de martelos pendurados no teto, entre as duas
linhas de trem; os martelos, por sua vez, atingem longos cilindros sonoros de
metal, produzindo som do badalar de sinos. Para quê ? Para nada: apenas para as
pessoas se divertirem enquanto o trem não chega.
Kendall Square, Cambridge, 25 de
janeiro, 8h48
Dez graus abaixo de zero, céu claro, previsão de neve só no fim de semana. Antes de sair do hotel, checar: luva, cachecol, gorro, protetor labial, gel para as mãos (há epidemia de gripe na cidade), mapa, carteira, passaporte, cartão do hotel, bilhetes do metro, celular, moedas, chave da fechadura da mala, óculos de leitura. Vou deixando um rastro de objetos perdidos pelo caminho.
Dez graus abaixo de zero, céu claro, previsão de neve só no fim de semana. Antes de sair do hotel, checar: luva, cachecol, gorro, protetor labial, gel para as mãos (há epidemia de gripe na cidade), mapa, carteira, passaporte, cartão do hotel, bilhetes do metro, celular, moedas, chave da fechadura da mala, óculos de leitura. Vou deixando um rastro de objetos perdidos pelo caminho.
Kendall Hotel, Cambridge, 25 de janeiro,
13h14
Do meu quarto do hotel tenho acesso à
Wi-Fi ultrarrápida do M.I.T. Meu celular quase explode carregando páginas e
páginas a fio da internet.
Park Street, Boston, 26 de janeiro, 11h26
Além de Harvard (20 mil alunos) e do
M.I.T. (10 mil alunos), situados na vizinha cidade de Cambridge, a cidade de Boston – de seiscentos
mil habitantes – ainda abriga a Norht Eastern University (20 mil alunos), a Boston
University (30 mil alunos) e nada menos que 52 outras faculdades ou
universidades menores. O resultado é que a média de idade da população é bastante
baixa, e essa juventude transbordante é vista nas ruas o tempo todo, em grupos ou
isolados, no metro ou de bicicleta. Em 70% dos casos carregam imensos
copos de papel com café, em 80% dos casos estão digitando no celular.
Livraria Barnes & Noble, Prudential
Center, Boston, 26 de janeiro, 12h10
Nessa imensa livraria, as estantes de Filosofia
situam-se entre “Religion” e “New Age”.
M.I.T., Cambridge, 26 de janeiro, 19h49
Sábado à noite, maratona de ficção
científica no cineclube no M.I.T. ! O programa anuncia nada menos que 4 filmes,
além de pizza break e uma atração surpresa (a exibição do
primeiro episódio para a TV de Star Trek, em cópia de 35mm). O programa termina
às 6h da manhã do domingo, e nada menos que 140 Sheldons e Leonards compareceram. Impossível não pensar que, na mesma noite, em outra universidade bem
longe daqui, o pessoal foi para a balada...
North End, Boston, 27 de janeiro, 15h27
Legal Sea Foods, Cambridge, 28 de janeiro,
17h43
“Six for six”, seis ostras por seis
dólares é a promoção do happy-hour. Termina às 6h da tarde.
M.I.T., Cambridge, 29 de janeiro, 11h27
Pelas prateleiras do M.I.T., cruzo com
um Principles of Quantic Mechanics, de autoria de um certo R.Shankar. Trata-se
de uma introdução ao assunto, me explicam. Mas, peraí, R.Shankar ??? Impossível
não lembrar de Ravi Shankar, tocador de cítara indiano e guru dos Beatles a partir
de 1966. Fico imaginando que a dissolução da banda levou o músico indiano a perder
popularidade. Desiludido, voltou para a Índia em busca de novas experiências místicas
– o que o levou, obviamente, à mecânica quântica. Um pouco antes de me aprofundar no delírio, me explicam: R. é de Ramamurti, nada a ver com o mago dos Beatles.
Miami International Airport, 29 de janeiro,
17h19
No balcão da imigração. “Por favor, não
me entregaram o formulário I-94 quando eu entrei. Eu não teria que devolvê-lo
agora ?”. O guarda, de feições cubanas, pega meu passaporte vermelho, olha e me
devolve dizendo: “Você não precisa de formulário I-94. Você é italiano”.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Arquétipos
Não há dúvida que ser competente dá trabalho,
muito trabalho. Fique claro desde já que, ao usar o termo “competente”, me
afasto um pouco do sentido corriqueiro da palavra – um misto de “empreendedorismo”
(urgh !) com propensão a ganhar dinheiro a qualquer custo. No conceito de
competêncina, prefiro enfatizar aquela dedicação à tarefa que resulta em um
trabalho bem realizado.
É fácil perceber a competência na prática
do trabalho manual, partindo do uso dos objetos produzidos. Penso nisso toda
vez que entro no banheiro recém-reformado e só consigo manter a luz acesa, sem
piscar, dando um murro no interruptor. Gostaria porém de pensar em competência
na realização do trabalho intelectual, supostamente minha área central de
atuação. Nessa área, o trabalho necessário à redação do texto consistente, à
apresentação da tese original ou simplesmente à prática do pensamento rigoroso
é tremendamente árduo.
Há, todavia, uma curiosa tendência de evitar
(ou ser incapaz) de realizar o trabalho árduo e, em compensação, tentar demonstrar
a competência assumindo traços de
comportamento do intelectual comprovadamente competente. É o que eu chamo
de cultura do arquétipo, e cito alguns exemplos imediatos.
Nas ciências Exatas, a figura do
cientista desligado ou de comportamento extravagante tornou-se arquetípica –
muitas anedotas e a famosa foto de Einstein estendendo a língua ajudaram a
criar o arquétipo. Assim, muitos jovens físicos e matemáticos assumem
comportamentos pouco convencionais, como tentativa de reforço a um trabalho
acadêmico ao qual falta o brilhantismo.
Nas ciências Biológicas, ao que me
parece, o arquétipo do brilhantismo passa pelo ateísmo. Transmite aquela imagem
de cientista que entendeu efetivamente o evolucionismo e, com dificuldades em
suas pesquisas acadêmicas, busca a aura de herói da ciência ao combater o
obscurantismo religioso.
Porém, detenho-me nas ciências Humanas, área
na qual o arquétipo da seriedade intelectual é nada menos que a melancolia. Para muitos, é necessário
ser melancólico para ter credibilidade. A origem é evidente, Walter Benjamin,
cujo obra é toda perpassada pelo conceito
de melancolia, vista pelo filósofo alemão como estado de espírito
característico do sujeito moderno. Um dos pontos de partida é o pensamento de Freud, que aproximou a melancolia do
luto tanto nos sintomas (paralisia, desânimo, tristeza) como nas origens (uma perda
ou afastamento). Uma vez que a modernidade é fundada no transitório, no fugidio
e no passageiro, a sensação de perda – fundamento do sentimento melancólico –
passa a ser uma constante. No plano ético, essa perda relaciona-se com o
afastamento do sujeito em relação ao Bem que, pelo menos na sua dimensão pública,
transferiu-se para outras instâncias.
Numa estranha inversão, a genialidade da
obra de Benjamin é obscurecida pela beleza dos textos, pela escrita fácil e
elegante, que o faz um preferido de jovens estudantes das ciências Humanas. Acontece
que além de conceituar a melancolia, Benjamin foi efetivamente um melancólico e
seus bravos seguidores nas ciências Humanas, que nem sempre estão atentos às
filigranas de seu pensamento, acabam incorporando apenas o arquétipo. Ser melancólico
é ser benjaminiano, é estar por dentro. É ter credibilidade.
Penso na Universidade. Lembro-me de ter
lido uma tese de doutorado da Letras, em que a autora caracterizava
minuciosamente o trabalho de tradução, recheando sua análise com conceitos
benjaminianos e terminando por concluir que todo tradutor é um melancólico – maior
elogio impossível.
Penso nas esquerdas, que dominam a produção
intelectual nas Humanas, pelo menos no Brasil (vai lá ler Gramsci e entenda porque).
Nesse caso, o sentimento de perda, fundamento da melancolia, é real. A queda do
modelo soviético levou junto uma alternativa à ordem capitalista, e a ideologia
que lhe sustentava, queira ou não, ficou abalada. Nos últimos trinta anos, a
palavra de ordem passou a ser: recolher os cacos, reconstruir a ideologia,
olhar para o futuro, mas sempre sentindo o gosto amargo da perda.
Penso no fascismo e seus sucedâneos. O
otimismo desvairado fascista faz com que qualquer aparente bom-mocismo
entusiástico seja visto com suspeita. Além disso, quando o anjo da História (e
dá-lhe Benjamin) olha para trás, nos últimos cem anos ele tem que lidar com um
rastro de destruição francamente devastador.
Penso em Ernesto Sábato, meu segundo
autor argentino preferido. Lendo o romance “Sobre heróis e tumbas” (ainda estou
na página 40, o termo melancolia/melancólico já apareceu cinco vezes) me deparo
com o seguinte trecho:
...por
isso os pessimistas são recrutados entre os ex-esperançados, pois para ter uma
visão negra do mundo há que antes ter acreditado nele e em suas possibilidades.
E é ainda mais curioso e paradoxal que os pessimistas, uma vez decepcionados,
não estejam constante e sistematicamente desesperançados e que, de certo modo,
pareçam dispostos a renovar sua esperança a cada instante, embora o dissimulem
sob seu negro invólucro de amargos universais, devido a um certo pudor
metafísico, como se o pessimismo, para manter-se forte e sempre vigoroso,
precisasse de vez em quando de novo impulso produzido por uma nova e brutal
decepção.
A melancolia produz melancolia. Tenho
saudades de quando a melancolia era apenas um sentimento, e não um valor.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Futebóis
Prólogo
Resta
o problema de como conciliar essa visão pessimista com o fato incontestável de que o jogo
em si é legal, e ir ao estádio é a quintessência do prazer futebolístico, mais
até do que a própria prática do jogo, com suas botinadas e “vitórias a qualquer
custo”. Fora das quatro linhas, podemos assistir,
com a possibilidade de transformar o jogo em narrativa, dar-lhe nova dimensão
através da narrativa. Cena primordial: Nelson Rodrigues, míope feito uma
toupeira, acompanhando sabe-se lá o que das arquibancadas do Maracanã, para
escrever seu comentário sobre o jogo no jornal do dia seguinte.
Enfim,
periodicamente – e em segredo – dirijo-me a estádios, para acompanhar os jogos
mais diversos. Sem preferências clubísticas (nos últimos meses vi jogos de
Santos, Portuguesa, São Paulo, Corínthians, para citar só os da cidade) e
aproveitando para conhecer lugares por aí (do Municipal de Sorocaba ao Parc des
Princes, passando pelas mil vezes que fui ao meu preferido, o Pacaembu).
Cena 1 – entrada
do estádio
Dia desses, alegre
e fagueiro, sigo para o Morumbi, depois de anos sem sequer chegar perto do
bairro. Compro caros ingressos nas cadeiras cobertas, chego cedo para evitar
trânsito e levo um exemplar da revista Cult (“dossiê Adorno”) para ficar lendo
antes do jogo.
Os
torcedores são revistados, como de hábito e, para minha surpresa, o tradicional
guarda troglodita que me apalpa proíbe que eu entre com a revista. Pergunto por
que, e ele me diz que alguns torcedores põem fogo em jornais, criando pequenos
incêndios. Digo que minha revista não é um jornal e que havia acabado de comprá-la.
Ele sequer respondeu. Com um sorriso
assustadoramente inexpressivo, o guarda olhou nos meus olhos e arremessou a
revista para o lixo, enquanto esperava – ainda sem dizer nada e ainda sorrindo
– que eu desse lugar ao próximo torcedor a ser revistado. Foi um dos olhares
mais assustadores que recebi na vida. Imaginei que, nos porões, torturadores
davam esses sorrisos, enquanto prosseguiam impassivelmente no exercício de suas
atividades. Senti um calafrio na espinha.
Claro,
sobrevivi ao episódio e logo estava fazendo piadas sobre o fato de que a minha
revista pelo policial tinha sido logicamente exemplar: ele tomou nada menos que
a minha revista.
Cena 2 – já
dentro do estádio
E
vamos lá, após a revista e sem a revista, assistir a um jogo do São Paulo. Atrás de mim, um
moleque, nos seus 7 ou 8 anos, berrando feito um louco. Desde o anúncio dos
jogadores pelo alto-falante, e durante toda a partida, mesmo nos momentos menos
emocionantes, o petiz se esganava. Tinha uma preferência especial por Luís
Fabiano, a quem ele encorajava, aconselhava, xingava, ou simplesmente gritava o
nome, prolongando e modulando o último
"O" até atingir níveis insuportáveis.
As
pessoas nas cadeiras olhavam para trás espantadas, ele incomodava a todos em um
raio de uns vinte metros e, caramba, estava exatamente atrás de mim. Depois de
um dos gritos, particularmente ardido, olhei para trás e o pai, desolado, como
que se desculpou com o olhar. Me perguntei porque diabos esse pai banana não
conseguia controlar o filho. Pois ele não chamou atenção do fedelho nem uma vez
sequer.
Lá
pelas tantas, o bacuri virou para o pai e desabafou, baixinho, só quem estava
muito perto (=eu) ouviu: “Puxa , pai estou tão feliz de estar aqui com você
hoje ! Sabe, eu nem dormi direito essa noite de tão feliz que estava em vir no
jogo...”.
Puxa
vida. Vai se foder. Me derreti todo. Como é que uma coisa que gera tanto ódio e
tanta estupidez como o futebol é capaz de mexer com emoções e aproximar pai e
filho desse jeito ? Fiquei imaginando não só a ansiedade do pequenino, mas a memória
que ele construiu desse dia que será, certamente, inesquecível em sua vida. Mas
será que essa emoção autêntica vai sobreviver à lavagem cerebral futebolística
? Será que o garoto irá necessariamente se transformar em um torcedor fanático
com tendências homicidas e, convenhamos, fascistas ? Haverá um meio termo
possível ?
O
comentário do menino deixou um raio de esperança. E depois de ouvi-lo, não
tive mais coragem de olhar para trás com cara de bravo sequer uma vez.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Dois heróis da década de 1950
Oscar Niemeyer
Viver
104 anos já é uma forma de heroísmo. O repertório de lembranças acumuladas e o simples
fato de sobreviver com lucidez diante dessa massa avassaladora já convertem o
centenário em alguém que ultrapassa os feitos humanos, que se projeta para além
do homem. Há porém alguma coisa triste no artista longevo: o tempo pode condená-lo à eterna
repetição de si mesmo, e sua obra, a uma caricatura do que passou.
A
arquitetura de Niemeyer é inseparável de seu tempo. Nas décadas de 1940 e 1950,
ninguém dava muita bola ao ambientalismo, ou muito menos à – odeio essa
palavra – sustentabilidade. Para os arquitetos dessa geração, amplas
superfícies impermeabilizadas eram perfeitamente aceitáveis, assim como grandes
edifícios envidraçados nos trópicos, consumindo energia elétrica violentamente
em suas máquinas de ar enlatado.
Tampouco preocupava-se com a ligação do edifício com o entorno. Alguns pensavam o edifício
como um monumento, uma marca a ser deixada na paisagem, e pobre da cidade que
tivesse que conviver com uma multidão de monumentos empilhados, com a marca
pessoal de cada arquiteto se perdendo no meio de um conjunto amorfo. Para essa
geração, a saída era construir cidades inteiras, e Niemeyer foi um dos poucos
que teve essa possibilidade.
No
plano puramente estético, Niemeyer conviveu com o modernismo e a possibilidade
da construção de edifícios brincando com formas geométricas. É um dos pais
daquilo que eu chamo de “arquitetura de maquete” (aquilo que se ensina nas
escolas de arquitetura hoje em dia): edifícios com formas geométricas básicas,
que até ficam bonitinhos na maquete, mas que, uma vez construídos, parecem fora
de qualquer dimensão humana.
A
própria revolução das formas curvas, com as quais Niemeyer supostamente rompeu
a rigidez da geometria modernista, pode ter tido o seu momento nos anos 1950. Todavia, uma vez repetida ad nauseam nos próximos
60 anos, acabou desvendando aquilo que ela efetivamente é: um uso exagerado do
concreto, com tudo que ele tem de sujeira e rápida obsolescência. (No mundo de
Niemeyer, provavelmente o Estado seria responsável pela manutenção impossível
das superfícies curvas de concreto, não importando o custo. Sua arquitetura
sempre foi tão utópica e falida quanto o estado socialista em que acreditou).
David Brubeck
Enquanto
músicos negros faziam jazz em Nova York, um branquelo judeu da Costa Oeste tentava
fazer o mesmo. E não é que conseguiu ? Acabou criando sua própria linguagem, e
deixou para a Humanidade Take Five,
em que eu sempre penso quando imagino uma Música Perfeita.
Depois
do sucesso estrondoso na década de 1950, saiu em busca da renovação, não
encontrando, infelizmente, nada que se comparasse ao disco Time out, de 1959. Ao contrário do outro herói, seu contemporâneo,
David Brubeck não se contentou com a eterna repetição de si mesmo, e muito menos foi
canonizado em vida.
Ainda assim, a
música de David Brubeck, por mais imaterial que seja, preenche mais espaços no
espírito do que todos os prédios de Niemeyer e suas toneladas de concreto.
sábado, 17 de novembro de 2012
El bullying
Sempre me causou
perplexidade o bullying, não pelo
ato em si e muito menos pelo uso do termo em inglês (a essa altura já estamos
todos used to), mas sim pela sua
quase criminalização e pelo fato de existir um termo específico para esse
conjunto de maldades e maus tratos que sempre fizeram parte do convívio social.
Sobretudo entre jovens e adolescentes, que são cruéis, tremendamente cruéis,
entre si, sempre foram, sem que em outras épocas tantas pessoas julgassem estar
“sofrendo” bullying. Pode-se imaginar
época mais cruel que o período, digamos, dos onze aos quinze anos de idade ? Penso em
todas as ignomínias que presenciei e alegremente pratiquei nessa época da vida,
e todos faziam isso e todos “sofriam” igualmente com isso.
Os apelidos eram
cruéis. Lá pela 6ª série, havia um menino obeso, excepcionalmente obeso e que
ainda por cima tinha o arcaico nome de Orlando. Claro, todos os chamávamos de
Gorlando ou Gordolando, para sua fúria (e nossa diversão). Havia também o
menino negro (o único que frequentava a escola privada de classe média, cheia
de alunos branquelos). Era alegremente chamado de Berinjela, sem que ninguém se
importasse muito seriamente com isso. O ponto culminante da prática de apelidos
sórdidos veio com o Manuel, menino que entrou na 8ª série no meio do ano, além
de tudo morador de uma cidade do ABC, e tudo isso já seria motivo suficiente
para torná-lo Cristo honorário da turma. Pois este menino era alto, muito magro,
com o rosto cavado e fundos olhos azuis, o que lhe valeu o singelo apelido de
Holocausto.
E, no entanto,
tomava-se muito menos antidepressivos.
Os xingamentos
eram cruéis. Qualquer erro ou engano cometido era saudado com gritos de “retardado”
ou “mongolóide”. O cuidado ao vestir era importante, não no sentido de exibir
alguma riqueza, mas de evitar combinações que trouxessem o – ok, odioso – epíteto de “baiano”. Ao mesmo tempo,
comportamentos que indicassem a não compreensão da psotura adequada para
esta ou aquela situação, na hora denunciavam o “maloqueiro”. Assim como os apelidos,
os xingamentos eram discriminatórios, sublinhavam as diferenças, e mostravam
como o todo buscava ser homogêneo. Éramos pequenos fascistas, todos nós.
E, no entanto,
as pessoas não saíam por aí invadindo escolas e baleando os colegas.
No meio do circo
dos horrores, aprendíamos a nos defender e, com o tempo, abandonávamos as
práticas mais sórdidas, introjetando normas morais e aprendendo à força
princípios de sociabilidade. Hoje, com a obrigação de combatermos o bullying, devemos proteger crianças frágeis e
sensíveis que, provavelmente, jamais aprenderão a caminhar por conta própria,
permanecendo crianças para sempre. Retardados para sempre.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Mostra & Metas
Entrei com tudo
na programação da Mostra Internacional de Cinema deste ano, depois de longo
afastamento. O fato de logo o primeiro filme que assisti ter sido muito bom me
animou a estabelecer uma meta ambiciosa: assistir 14 filmes em 14 dias de
Mostra. Jamais cheguei nem perto dessa marca em outras edições.
Os Planos
Quinquenais ainda eram vistos como uma ferramenta adequada para “atingir e
ultrapassar” os Estados Unidos, na famosa frase de Khruschev, infelizmente não
mostrada no filme. O Comunismo ainda estava no horizonte e, lá pelas tantas, um
analista afirma que em mais uns 20 anos, a transição estará completa e o sistema
implantado.
Nesse contexto,
chama atenção a verdadeira obsessão das imagens produzidas pelo jornalismo
soviético em mostrar como os Planos estão sendo cumpridos com folga. Assim, vemos
um operário recebendo um prêmio, pois graças a uma ideia sua a produção da
usina siderúrgica ultrapassou as metas estabelecidas pelo Plano. Mais adiante,
um repórter de rádio entrevista o maquinista de um grande comboio ferroviário
que afirma, orgulhosamente, ter acrescentado dois vagões a mais do que o
previsto, uma vez que sua habilidade de condutor e o conhecimento da linha o permitiam conduzir
com segurança um trem deste tamanho. Finalmente, as colheitas de trigo na Fazenda
Coletiva número X, da Ucrânia, superaram todas as expectativas, graças ao
empenho dos cientistas soviéticos e dos camponeses em seu trabalho conjunto na
melhoria da semeadura. Em outras
palavras: as metas são sempre atingidas e ultrapassadas.
Impossível não pensar
no mundo corporativo e na forma como o discurso e a prática das metas
generalizou-se no capitalismo triunfante. Venda de unidades, satisfação dos
clientes, captação de matrículas, há sempre uma meta numérica a ser atingida,
e, num dado intervalo de tempo, um gráfico deve ser produzido, com suas curvas
ideais se projetando rumo ao infinito. É como se o fervor revolucionário dos
Comissários do Povo agora se transferisse para uma moderna casta de
engravatados, que lidam com multidões de números, estabelecendo metas, definindo
estratégias e apresentando orgulhosamente a superação dessas metas nas reuniões
de acionistas, que é como o Politburo todo poderoso agora é chamado.
Tanto nos
Comissários do Povo quanto na casta dos engravatados, o triunfalismo
entusiástico é o mesmo, bem como a alegre empolgação com a superação das metas.
Também se assemelham os volteios dialéticos e a lógica tortuosa que justificam as
curvas que surpreendentemente não seguem as previsões ambiciosas pré-estabelecidas.
Finalmente, o furor com que as cabeças são cortadas e os bode-expiatórios são
apontados: alguém falhou, mas nunca o sistema. E se na União Soviética tudo era feito
em nome do Comunismo, hoje o entusiasmo todo se esgota no presente e na
possibilidade imediata de realização de lucros no sistema financeiro.
* * *
Volto à Mostra.
Meu objetivo pessoal neste ano é assistir 14 filmes em 14 dias. Prometo que me
esforçarei ao máximo para não atingir a meta.
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