Costuma-se chamar “revolução copernicana” a transformação operada por Kant na teoria do conhecimento. O termo refere-se à mudança que Copérnico teria provocado na nossa forma de olhar: o que veríamos, ou COMO veríamos o universo se não estivéssemos em seu centro ? Pois a teoria de Kant implica justamente em uma mudança no olhar, superando tanto a visão racionalista quanto a empirista, que dominaram a Filosofia por uns bons dois mil anos. Sem entrar em detalhes, para a tradição do racionalismo (que, passando por Descartes remonta a Platão), a mente cria coisas, enquanto que para a tradição do empirismo (que, passando pelos ingleses, encontra suas raízes em Aristóteles), a mente se adapta às coisas. A revolução copernicana de Kant criou a concepção de que as coisas se adaptam à mente, ou seja, é impossível o conhecimento das coisas sem o seu processamento pelas estruturas cognitivas do homem.
Em certo sentido, também a Ética kantiana fundava-se nessa operação do olhar. Como um desdobramento do imperativo categórico, Kant escreveu: “Age de tal maneira que tartes a humanidade em tua própria pessoa e na pessoa de cada outro ser humano, jamais meramente como um meio, porém sempre ao mesmo tempo como fim”. Isso significa que agira moralmente implica na árdua tarefa de reconhecer no Outro um Sujeito, e não um mero objeto, um meio diante da satisfação de nossas necessidades.
__________________________________________
A imagem da propaganda, em página dupla, me chamou atenção durante a leitura dos jornais no domingo passado, e continuou aparecendo nos periódicos desde então. Mais do que chamar atenção, na verdade levei um susto quando virei a página e vi a imagem. Por trás da idílica paisagem de bosques e lago, rapidamente identificada pelo texto como o Parque do Ibirapuera, surge a aparição ao mesmo tempo monstruosa e fantasmagórica de uma torre de uns trinta andares; e o traçado do edifício em linha branca, deixando transparecer o fundo azul, reforça o caráter espectral da imagem.
Segue-se o texto: “Mais do que uma simples paisagem, uma obra de arte viva”. Dispenso qualquer comentário sobre o caráter artístico do prédio, mais um exemplo da má arquitetura paulistana. Também deixo passar o contraste entre o emprego da palavra “vivo” para descrever a ilustração fantasmagórica. O que mais me chamou atenção foi a referência à paisagem, reforçada pelo texto seguinte: “Dois magníficos terraços que emolduram perfeitamente o cenário marcante do Ibirapuera ao fundo”. Foi aqui que lembrei de Kant e sua operação do olhar.
O Ibirapuera aparece aqui como mera paisagem vista da janela, jamais se concebendo que alguém vá freqüentá-lo de fato, levando, portanto, seu olhar para o Parque. Ou então, o Ibirapuera será freqüentado sim, mas a paisagem vista do Parque estará irremediavelmente destruída, cercado cada vez mais por torres medonhas. Mas pouco importa. O horizonte visto do espaço público não interessa, desde que seja preservada a paisagem que vejo de dentro do meu espaço privado, ainda mais se emoldurada por "magníficos terraços". E é sempre assim. Em São Paulo, ignora-se a paisagem vista da rua, constroem-se torres ao lado de igrejas centenárias, tampa-se o horizonte com uma profusão de paredes e superfícies verticais cinzas, sempre cinzas. Às vezes, chega-se ao requinte de tapar o céu com um viaduto.
Depois reclamam quando o pixo contra-ataca.
Em certo sentido, também a Ética kantiana fundava-se nessa operação do olhar. Como um desdobramento do imperativo categórico, Kant escreveu: “Age de tal maneira que tartes a humanidade em tua própria pessoa e na pessoa de cada outro ser humano, jamais meramente como um meio, porém sempre ao mesmo tempo como fim”. Isso significa que agira moralmente implica na árdua tarefa de reconhecer no Outro um Sujeito, e não um mero objeto, um meio diante da satisfação de nossas necessidades.
__________________________________________
A imagem da propaganda, em página dupla, me chamou atenção durante a leitura dos jornais no domingo passado, e continuou aparecendo nos periódicos desde então. Mais do que chamar atenção, na verdade levei um susto quando virei a página e vi a imagem. Por trás da idílica paisagem de bosques e lago, rapidamente identificada pelo texto como o Parque do Ibirapuera, surge a aparição ao mesmo tempo monstruosa e fantasmagórica de uma torre de uns trinta andares; e o traçado do edifício em linha branca, deixando transparecer o fundo azul, reforça o caráter espectral da imagem.
Segue-se o texto: “Mais do que uma simples paisagem, uma obra de arte viva”. Dispenso qualquer comentário sobre o caráter artístico do prédio, mais um exemplo da má arquitetura paulistana. Também deixo passar o contraste entre o emprego da palavra “vivo” para descrever a ilustração fantasmagórica. O que mais me chamou atenção foi a referência à paisagem, reforçada pelo texto seguinte: “Dois magníficos terraços que emolduram perfeitamente o cenário marcante do Ibirapuera ao fundo”. Foi aqui que lembrei de Kant e sua operação do olhar.
O Ibirapuera aparece aqui como mera paisagem vista da janela, jamais se concebendo que alguém vá freqüentá-lo de fato, levando, portanto, seu olhar para o Parque. Ou então, o Ibirapuera será freqüentado sim, mas a paisagem vista do Parque estará irremediavelmente destruída, cercado cada vez mais por torres medonhas. Mas pouco importa. O horizonte visto do espaço público não interessa, desde que seja preservada a paisagem que vejo de dentro do meu espaço privado, ainda mais se emoldurada por "magníficos terraços". E é sempre assim. Em São Paulo, ignora-se a paisagem vista da rua, constroem-se torres ao lado de igrejas centenárias, tampa-se o horizonte com uma profusão de paredes e superfícies verticais cinzas, sempre cinzas. Às vezes, chega-se ao requinte de tapar o céu com um viaduto.
Depois reclamam quando o pixo contra-ataca.