
Quem lê o blog, já sabe: não tenho a menor paciência com a arte conceitual. Não tenho a mínima paciência com obras de arte que existem apenas em função de “discutir” a arte, e que são absolutamente incompreensíveis sem ter como referência toda a história da arte. São justamente essas obras que provocam o esvaziamento da arte e, em última análise, sua própria perda de sentido. Porém, são obras que os críticos e as pessoas que se envolvem com arte muitas vezes preferem, uma vez que esses, ao dedicarem uma vida ao estudo, conseguem entender a proposta aparentemente hermética que se esconde por trás de cada obra. Assim a arte se transforma em um estranho e exclusivo diálogo entre artistas e crítica, e quem não for da “turma” que se dane.
Diante da perplexidade provocada por estranhas instalações artísticas, diante da pergunta tornada universal, “Mas isso aqui é arte ?”, os especialistas e teóricos de plantão podem tecer seus belos discursos, ao mesmo tempo seduzindo platéias e provando sua superioridade sobre a maior parte dos mortais, pobrezinhos, tão incapazes de entender as coisas, ho, ho, ho ! A dinâmica da arte se transforma em um jogo de vaidades e em espaço de afirmações narcísicas (e eu sei muito bem do que estou falando porque sou capaz de jogar direitinho).
Está em cartaz nos cinemas a mais nova unanimidade, Inglorious Basterds (“Bastardos Inglórios”), de Quentin Tarantino, o mais novo e mais amado enfant terrible de Hollywood. Animado por uma infinidade de comentários favoráveis e elogiosos, da crítica que prezo e de amigos em cujo gosto acredito, dirigi-me ao cinema mais próximo em uma tarde de quarta-feira. Cinema quase vazio, temperatura fresca (contrastando com o calor insuportável do dia), projeção e som adequados, um pacote de Galetitas Havanna nas mãos e um daqueles inevitáveis (porém dessa vez elegante) encontros fortuitos com ex-aluno na saída.
Na tela, Tarantino manda ver. A história todo mundo conhece, uma divertida fantasia sobre a Segunda Guerra Mundial em que os judeus se vingam dos nazistas. No filme, ocorre uma verdadeira inversão das atrocidades realizadas em campos de concentração: são os nazistas que tem sua pele marcada para sempre, são os nazistas (incluindo Hitler) que são incinerados numa espécie de crematório gigante. Enquanto parque de diversões, o filme é apoiado por interpretações impagáveis, por exemplo, do coronel SS Hans Landa (Christoph Waltz) e seu cachimbo descomunal, para não falar do próprio tenente Aldo (Brad Pitt). Mas...
Mas acontece que Tarantino, como sempre, tece um infinito emaranhado de citações. Aliás, citações curiosas, uma vez que não são lembrados este ou aquele filme em particular, mas todos os filmes de guerra, toda a tradição hollywoodiana da Segunda Guerra Mundial. Se por um lado elas são divertidas, por outro me fazem perguntar: há alguma coisa por trás dessas citações ? Não seria Inglorious Basterds apenas um longo (e entediante) discurso do cinema sobre o cinema ? Os críticos e cineastas em geral adoraram, porque o filme celebra seu métier. E muitas pessoas adoraram Inglorious Basterds porque “pegaram” as citações, passando a se sentir parte da “turma”: está legitimada a prática de sair do cinema e sentar no boteco para ter conversas inteligentes sobre cinema (sobre a Mostra, sobre Tarantino), enquanto o populacho se espreme pra ver o filme do Michael Jackson.
Impossível usufruir do filme sem as citações. Começando do próprio título, Inglorious BastErds, com E e tudo. Sem ter a história do cinema na cabeça, a fala (e o sotaque) do tenente Aldo não tem graça nenhuma. Sem ter visto mil filmes de guerra, o impagável coronel Landa não tem sentido, os diálogos não tem significado. (Acrescento: sem ter visto mil filmes de western, a cena inicial na fazenda francesa perde um pouco de sentido). O próprio comportamento histriônico dos líderes nazistas, independente de ter ou não base histórica (e, curiosamente, alguns deles eram francamente bufões e caricatos na vida real) é referência a uma infinidade de vilões cinematográficos, e por aí vai. Sem as citações, lamento dizer que o filme é uma bobagem, com um roteiro sem pé nem cabeça que simplesmente não se sustenta. Por exemplo, no meio do filme, do nada, surge uma narração em off para explicar a história, que começa a escapar do controle. Ou então, o velho truque “tarantinesco” de fazer a narrativa avançar através de uma explosão de violência inesperada e visualmente exagerada. Ou ainda, o suspense que não funciona, como no caso da primeira aparição do sargento Donowitz, “The Bear Jew”, que acaba por deixar a platéia frustrada, com um sorriso amarelo (aliás, a platéia da sessão que fui, provavelmente alertada pela crítica de que o filme era “bom”, visivelmente forçava o riso em algumas partes). Isso para não falar dos longos momentos de tédio do filme (porque diabos aquela cena do porão demora tanto ?), que uma certa crítica se apressou em identificar como “o domínio do tempo” por Tarantino. Oras, poupem-me.
Não estou cego às virtudes do filme. É brilhante a idéia de exterminar os líderes nazistas em um cinema, a partir de um incêndio dantesco que começa na tela, com a queima de centenas de rolos de película. (Que se dane, a essa altura todo mundo já viu o filme). E o massacre ocorre justamente no dia da estréia de um filme nazista, daqueles produzidos por Goebbels celebrando o heroísmo do soldado alemão. O filme nos sugere – e isso é francamente genial – que os alemães foram derrotados pelo cinema, e a Segunda Guerra Mundial foi vencida “porque nossos cineastas são melhores do que os alemães”.
Porém, eles eram os melhores, porque hoje em dia apenas se repetem. Talvez Tarantino seja bem menos do que imaginamos.
Diante da perplexidade provocada por estranhas instalações artísticas, diante da pergunta tornada universal, “Mas isso aqui é arte ?”, os especialistas e teóricos de plantão podem tecer seus belos discursos, ao mesmo tempo seduzindo platéias e provando sua superioridade sobre a maior parte dos mortais, pobrezinhos, tão incapazes de entender as coisas, ho, ho, ho ! A dinâmica da arte se transforma em um jogo de vaidades e em espaço de afirmações narcísicas (e eu sei muito bem do que estou falando porque sou capaz de jogar direitinho).
Está em cartaz nos cinemas a mais nova unanimidade, Inglorious Basterds (“Bastardos Inglórios”), de Quentin Tarantino, o mais novo e mais amado enfant terrible de Hollywood. Animado por uma infinidade de comentários favoráveis e elogiosos, da crítica que prezo e de amigos em cujo gosto acredito, dirigi-me ao cinema mais próximo em uma tarde de quarta-feira. Cinema quase vazio, temperatura fresca (contrastando com o calor insuportável do dia), projeção e som adequados, um pacote de Galetitas Havanna nas mãos e um daqueles inevitáveis (porém dessa vez elegante) encontros fortuitos com ex-aluno na saída.
Na tela, Tarantino manda ver. A história todo mundo conhece, uma divertida fantasia sobre a Segunda Guerra Mundial em que os judeus se vingam dos nazistas. No filme, ocorre uma verdadeira inversão das atrocidades realizadas em campos de concentração: são os nazistas que tem sua pele marcada para sempre, são os nazistas (incluindo Hitler) que são incinerados numa espécie de crematório gigante. Enquanto parque de diversões, o filme é apoiado por interpretações impagáveis, por exemplo, do coronel SS Hans Landa (Christoph Waltz) e seu cachimbo descomunal, para não falar do próprio tenente Aldo (Brad Pitt). Mas...
Mas acontece que Tarantino, como sempre, tece um infinito emaranhado de citações. Aliás, citações curiosas, uma vez que não são lembrados este ou aquele filme em particular, mas todos os filmes de guerra, toda a tradição hollywoodiana da Segunda Guerra Mundial. Se por um lado elas são divertidas, por outro me fazem perguntar: há alguma coisa por trás dessas citações ? Não seria Inglorious Basterds apenas um longo (e entediante) discurso do cinema sobre o cinema ? Os críticos e cineastas em geral adoraram, porque o filme celebra seu métier. E muitas pessoas adoraram Inglorious Basterds porque “pegaram” as citações, passando a se sentir parte da “turma”: está legitimada a prática de sair do cinema e sentar no boteco para ter conversas inteligentes sobre cinema (sobre a Mostra, sobre Tarantino), enquanto o populacho se espreme pra ver o filme do Michael Jackson.
Impossível usufruir do filme sem as citações. Começando do próprio título, Inglorious BastErds, com E e tudo. Sem ter a história do cinema na cabeça, a fala (e o sotaque) do tenente Aldo não tem graça nenhuma. Sem ter visto mil filmes de guerra, o impagável coronel Landa não tem sentido, os diálogos não tem significado. (Acrescento: sem ter visto mil filmes de western, a cena inicial na fazenda francesa perde um pouco de sentido). O próprio comportamento histriônico dos líderes nazistas, independente de ter ou não base histórica (e, curiosamente, alguns deles eram francamente bufões e caricatos na vida real) é referência a uma infinidade de vilões cinematográficos, e por aí vai. Sem as citações, lamento dizer que o filme é uma bobagem, com um roteiro sem pé nem cabeça que simplesmente não se sustenta. Por exemplo, no meio do filme, do nada, surge uma narração em off para explicar a história, que começa a escapar do controle. Ou então, o velho truque “tarantinesco” de fazer a narrativa avançar através de uma explosão de violência inesperada e visualmente exagerada. Ou ainda, o suspense que não funciona, como no caso da primeira aparição do sargento Donowitz, “The Bear Jew”, que acaba por deixar a platéia frustrada, com um sorriso amarelo (aliás, a platéia da sessão que fui, provavelmente alertada pela crítica de que o filme era “bom”, visivelmente forçava o riso em algumas partes). Isso para não falar dos longos momentos de tédio do filme (porque diabos aquela cena do porão demora tanto ?), que uma certa crítica se apressou em identificar como “o domínio do tempo” por Tarantino. Oras, poupem-me.
Não estou cego às virtudes do filme. É brilhante a idéia de exterminar os líderes nazistas em um cinema, a partir de um incêndio dantesco que começa na tela, com a queima de centenas de rolos de película. (Que se dane, a essa altura todo mundo já viu o filme). E o massacre ocorre justamente no dia da estréia de um filme nazista, daqueles produzidos por Goebbels celebrando o heroísmo do soldado alemão. O filme nos sugere – e isso é francamente genial – que os alemães foram derrotados pelo cinema, e a Segunda Guerra Mundial foi vencida “porque nossos cineastas são melhores do que os alemães”.
Porém, eles eram os melhores, porque hoje em dia apenas se repetem. Talvez Tarantino seja bem menos do que imaginamos.





