domingo, 26 de dezembro de 2010

Outra citação


Eu me inclino perante a memória, perante a memória de qualquer pessoa. Quero deixá-la intacta, pois ela pertence ao ser humano que existe para ser livre. Não oculto minha repugnância por aqueles que se permitem submetê-la a operações cirúrgicas, até que ela se assemelhe à memória dos demais. Que operem o nariz, os lábios, as orelhas, a pele e os cabelos, o quanto quiserem operar; que implantem olhos de outra cor, se tiver que ser assim; também corações estranhos, que pulsem por mais de um ano; que apalpem tudo, aparem, alisem, igualem, mas que deixem a memória em paz.

Elias Canetti, Uma luz em meu ouvido. Instigante mesmo é o conceito de liberdade que surge do texto: ser livre é possuir memória.
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A partir de hoje, começo a ilustrar os posts com imagens captadas por pessoas "reais". A foto acima foi devidamente roubada de Bianca T.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Luz e sombra



Luz

Adoro as decorações de Natal, as luzes fazem-me rir. Quase sempre, nos condomínios, a iluminação de Natal é de um mau gosto assombroso. O roteiro é quase sempre o mesmo: o síndico libera uma verba, manda um funcionário comprar alguns rolos de luzinhas feitas na China e orienta-o vagamente sobre como e onde instalar as luzes. O funcionário, mal remunerado e desanimado, não raro recém chegado de um distante rincão da pátria amada idolatrada salve-salve, tem lá suas idéias. E aí começam as tragédias.

Na hora da compra, ninguém percebeu uma sutil diferença: dois dos rolos de luzinhas coloridas são de um tipo e três rolos são de outro tipo. Resultado, quando a instalação fica pronta, uma parte pisca e outra não. Depois de alguns anos, algumas luzes já queimaram, outras não, a a instalação vai ficando cada vez mais assimétrica, torta, sem sentido

Ou então: a verba para as luzinhas não foi suficiente, algumas árvores serão totalmente cobertas de luz, enquanto outras só terão um metro de tronco iluminado. Ou ainda (uma das minhas decorações preferidas): as luzes comprados são do estilo “mangueira”, e a árvore enfeitada parece subitamente estar sendo estrangulada por uma cobra (veja a imagem). Nesse sentido, ao invés da remissão ao nascimento de Cristo, a iluminação faz referência à iconografia cristã da Queda: uma serpente envolve a árvore do fruto proibido, Adão e Eva acabaram de ser expulsos do Éden.

Gosto muito também daqueles condomínios que se omitem, e o resultado é cada apartamento instalando uma luz diferente em suas janelas ou sacadas. Algumas coloridas outras não, algumas piscando outras queimadas. Também gosto quando o inspirado morador compra dezenas de metros de luzes e faz seu próprio desenho na janela, com um resultado ininteligível: aquilo que vejo piscando no prédio em frente é um Papai Noel sorridente ou os sargentos Yegorov e Kantariya hasteando a bandeira soviética no Reichstag em 1945 ?

Sim, também temos as luzes de Natal na avenida Paulista, que trafegam entre o bom gosto e o novo-riquismo kitsch. Mas nada se compara às verdadeiras luzes de Natal dos automóveis parados na avenida, à noite, com famílias inteiras “passeando de carro”, um hábito paulistano que eu imaginava abolido desde o século passado.

Sombra

Santa is how satan spells his name when he wants to trick us, diz a sabedoria anglo-saxônica. Palavras que devem ser levadas a sério se lembrarmos que a figura do bom velhinho nasceu de uma adaptação norte-americana da lenda do santo grego São Nicolau. Dizem que foi em 1822 que um professor de literatura grega em Nova York, um certo mr. Moore, escreveu um poema para seus filhos, adaptando a lenda do santo, famoso por deixar sacos de moedas na chaminé da casa de pessoas que se encontravam em dificuldades financeiras. No poema de Moore, Nicolau virou uma bondoso e sorridente velhinho, que saía do pólo norte em um trenó puxado por renas e distribuía presentes para crianças no Natal.

A história toda tem um ar nórdico, germânico ou escandinavo, ainda mais se lembrarmos que o Natal no dia 25 de dezembro foi uma invenção da Igreja em seus primórdios, e que pretendia adaptar suas cerimônias aos costumes bárbaros. Assim, a celebração do nascimento de Cristo - cujo dia exato ninguém tem a mais vaga idéia de quando foi - passou a ser comemorada durante o solstício de inverno, tradicional cerimônia religiosa germânica.

Há outra tradição nórdica na jogada: desde há muito a Finlândia se orgulha de ser a casa oficial do bom velhinho, que viveria no norte do país, na Lapônia, já bem dentro do Círculo Polar Ártico. Até hoje o correio da Finlândia se dá ao trabalho de responder todas as cartas endereçadas a Santa Claus / FIN-96930 Arctic Circle / Rovaniemi - Finlândia . Tente escrever uma cartinha, ainda há tempo, veja o que acontece.

A preocupação em traçar as origens nórdicas do personagem reflete uma tentativa de entendê-lo melhor. Deixo de lado o nome “Papai Noel” e me detenho em “Santa Claus”. O jogo de palavras santa/satan torna-se mais instigante quando lembramos que, no inglês, Old Nick é um apelido usado normalmente como referência ao demônio, e Claus, lembramos, vem de Nicolau. A cor vermelha ligada a ambos pode ser mera coincidência, mas a identificação tanto do demônio quanto do bom velhinho com as chamas – lembre-se que o local de chegada do Papai Noel é a lareira – nos faz pensar que talvez não seja tanta coincidência assim. E o golpe de misericórdia que faz com que deixemos de lado de uma vez por todas as nossas ilusões infantis: a atuação do demônio e do Papai Noel tem o mesmo fundamento ético. Pois trata-se de punir quem não tem um bom comportamento.
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Feliz Natal, se puder.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma citação


A multiplicidade dos professores era surpreendente; é a primeira diversidade de que se é consciente na vida. Que eles ficassem tanto tempo parados à nossa frente, expostos em cada um de seus movimentos, sob incessante observação, hora após hora o verdadeiro objeto do nosso interesse, sem poderem se afastar durante um tempo precisamente delimitado; a sua superioridade, que não queremos reconhecer de uma vez por todas e que nos torna perspicazes, críticos e maliciosos; a necessidade de acompanhá-los sem que queiramos nos esforçar demais, pois ainda não nos tornamos trabalhadores dedicados e exclusivos; também o mistério que envolve sua vida fora da escola, quando não estão à nossa frente como atores, representando a si próprios; e, mais ainda, a alternância dos personagens, um após outro, no mesmo papel, no mesmo lugar e com a mesma intenção, portanto, eminentemente comparáveis - tudo isso, em seu efeito conjunto, é outra escola, bem diferente da escola formal, uma escola que ensina a diversidade dos seres humanos; se a tomarmos um pouco a sério, resulta na primeira escola em que conscientemente estudamos o homem.


Elias Canetti, A língua absolvida. O texto me chamou atenção de um jeito peculiar: despertou lembranças de quando era aluno.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

L’esprit de l’escalier



A expressão é francesa, e remonta à Revolução, aos dias de debates árduos e violentos no recém criado Legislativo. Muitas vezes, um orador subia à tribuna da Assembléia ou Convenção de deputados e tinha que enfrentar as críticas barulhentas de seus opositores, bem como as ironias dirigidas contra ele, ditos jocosos e insinuações maliciosas: a Revolução Francesa foi como que uma idade de ouro da retórica. E foi quando despontaram oradores brilhantes como Robespierre e Danton, cujos discursos – seja da tribuna ou das galerias – cortavam como uma lâmina (a metáfora chega a ser sombria).

Muitas vezes, um orador era criticado no meio do discurso e não conseguia argumentar a altura. Provavelmente vaiado ou apupado, descia as escadas de tribuna e, frequentemente, era só nessa hora que vinha uma boa resposta às críticas que tinha ouvido. Mas já era tarde, sua espirituosidade só se manifestou na escadaria. Esse é o “espírito da escada”.

Conhecemos bem a sensação em todo tipo de discussão da vida cotidiana: a resposta esperta, o argumento decisivo só nos visita quando acabou a conversa, no dia seguinte, na semana seguinte. Nas Ciências Humanas, no debate, a experiência é recorrente. Historicamente, o grande mestre das respostas rápidas é Winston Churchill, inúmeros episódios são atribuídos a ele. O meu preferido envolve um debate no Parlamento inglês, no início do século XX, envolvendo ativistas do nascente movimento feminista, então em plena luta pelo direito de voto feminino. O qual Churchill, claro, era contra. Depois de debates acalorados, a líder das ativistas, furiosa, disse a ele: “O senhor é uma pessoa odiosa. Saiba que se fosse meu marido, eu poria veneno no seu chá”. Ao que Churchill respondeu, de imediato: “Se eu fosse seu marido, tomaria o chá”.

Mas há algo melhor. Grande rival de George Bernard Shaw, Churchill certa ocasião teria recebido convites para a estréia da mais recente peça do dramaturgo irlandês. Shaw, irônico, enviou os convites e uma carta tremendamente irônica: “Apesar de nossas diferenças de opinião, ficaria feliz com sua presença na estréia de minha mais recente peça. Envio dois convites: um para o senhor e outro para um amigo... se tiver”. O inabalável Churchill respondeu com amabilidade, dizendo em carta: “Lamentavelmente, compromissos me impedem de comparecer na estréia de sua mais recente peça. Porém faço questão de presenciar uma próxima exibição... se tiver”.

Nas aulas, julgam-me espirituoso, mas é engano. Depois de anos e anos, já antecipo reações dos alunos, e já tenho um repertório de respostinhas inteligentes que sempre parecem inventadas na hora, mas não são: não raro, eu simplesmente as roubei anos atrás de alunos verdadeiramente espirituosos. Porém, uma única vez o espírito da escada não me abandonou, inspirando-me em um episódio meio grosseiro do cotidiano. Foi em uma padaria meio vazia, em um domingo à noite. Além de mim, encontrava-se na padaria somente um outro freguês, um jovem negro, de gestos e vestimenta francamente afeminados. Logo na minha frente, ele falou algo para o caixa, com forte sotaque de algum lugar do nordeste, pagando sua conta e partindo logo em seguida.

Assim que se foi, o dono da padaria, que estava no caixa, olhou para mim com um sorriso unilateralmente cúmplice e teve o disparate de dizer: “Esse aí, além de preto e viado é baiano”. Mesmo sem a elegância de um Churchill, respondi de bate-pronto: “E o senhor, além de português e burro é fascista”.

Nunca mais voltei naquela padaria.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Cultura de boteco



Em uma terça-feira chuvosa, chego no Veloso dez minutos antes de abrir, e já vejo pessoas se amontoando na calçada, enquanto os garçons se apressam em preparar as mesas e abrir os toldos diante da fachada. Refiro-me ao bar Veloso de São Paulo, que aproveita do fato de estar situado na rua Conceição Veloso, na Vila Mariana, para fazer uma discreta homenagem ao homônimo carioca.

Depois que as portas finalmente se levantam, em pouco tempo o bar está lotado e começa a se formar o tradicional aglomerado em sua porta. Um aglomerado feliz, pois os garçons servem os clientes normalmente, no meio da rua, igualzinho ao tradicional Bar do Léo da rua Aurora. Dentro do Veloso, grupos conversam, bebem, pedem petiscos, se conhecem. Lembro do sambista Monarco, da Velha Guarda da Portela, contando um causo no documentário sobre Paulinho da Viola: “Saímos de lá e paramos em um boteco. Pedimos uma cerveja e fomos ficando por ali, esperando a vida melhorar...”. Lembro também do impagável Chico Bacon de Caco Galhardo, que leva um tubo de super bonder no boteco e aplica no assento da cadeira antes de sentar.

São pessoas que praticam a cultura de boteco, que sempre me intrigou. Não me refiro a sair sábado à noite para encontrar os amigos em um bar e sociabilizar, mas de uma prática muito mais sutil, que chega a ser essencial para alguns, quase um estilo de vida: passar no boteco em um dia de semana, depois do trabalho ou a qualquer hora, ir ao boteco sem compromisso ou mesmo sozinho, sabendo que lá sempre tem alguém pra conversar. Ou, como dizia Vinicius de Moraes, apenas para “falar sem dizer grande coisa”. Cultura de boteco implica em freqüentar os mesmos botecos (que existem faz tempo e não são modas passageiras), conhecer os garçons e ser chamado pelo nome (e não pelo impessoal “doutor”), fazer pedidos sem ver o cardápio, e, finalmente – suprema glória – ter um lugar fixo, seja em mesa ou balcão.

De onde vem essa disposição de passar horas conversando, bebendo, fazendo nada ? Por que algumas sociedades tem cultura de boteco e outras não ? Pub, izakayá, brasserie ou cafe, biergarten ou brauhaus, pivo bar, meyhane... na verdade, é bem capaz que todas as culturas valorizem sua modalidade de boteco. A pergunta passa a ser: porque algumas culturas não tem boteco ?

Lembro imediatamente da cultura norte-americana de classe média, dos suburbs com quadras e quadras de casinhas brancas e gramados verdinhos: esses bairros residenciais não tem botecos. Cercados de highways e sem transporte coletivo viável (lembre-se, trata-se da cultura do automóvel), partindo dos suburbs é praticamente inviável freqüentar um boteco ou pub decente downtown.

(interlúdio pop: em um dos infinitos episódios de Os Simpsons, Homer sobe de vida e muda-se para um suburb elegante. Com o marido no trabalho, as crianças na escola e empregados mexicanos para cuidar da casa, Margie... bebe. O tédio da vida no suburb acaba por transformá-la em uma alcoólatra solitária. No mesmo registro, Cheers foi uma série de sucesso, que se passava em um pub na velha Boston. Após o fim da série, um de seus personagens muda-se para a moderna Seattle e deixa de freqüentar botecos. Em Frasier – uma das minhas séries favoritas de todos os tempos – boteco é visto como algo decadente, pouco sofisticado e ultrapassado. Sem freqüentar pubs, o personagem Frasier lamenta-se da solidão e tem nostalgia dos tempos de Boston, dos tempos de pub)

Volto ao Veloso. Meses atrás, enquanto tomava um chope na calçada esperando uma mesa vagar (e de posse de uma comanda que identificava meu lugar como “poste”), vi uma cena deslumbrante. Desequilibrando-se em meio à multidão, um garçom e uma bandeja com no mínimo uma dúzia de chopes – em copos tulipa, dos antigos – tropeçaram diante de mim. Subitamente, vi na minha direção um jorro amarelo, de chope gelado, despencando como uma verdadeira cachoeira de desenho animado do Pica-pau. Não apenas a imagem foi linda, uma cascata dourada de chope espumante, mas também o som daquele líquido vertendo na minha direção e, infelizmente, sem me atingir (acho que naquele dia quente eu ansiava por um banho gelado). Seguiu-se o splash! no asfalto e o som estranhamente excitante de uma dúzia de copos quebrando.

Mas o mais curioso foi o silêncio consternado que se fez em seguida, em todo bar e na calçada lotada. Foi como se todos fizessem um minuto de silêncio em lembrança ao chope desperdiçado. Em seguida, voltaram aos seus assuntos e continuaram no bar, esperando a vida melhorar.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Fachadas antigas


Há um tipo de casa que cada vez menos se vê em São Paulo, mas que já foi a cara da cidade. Construídas em terrenos compridos – pouca frente e muito fundo – foram residências de famílias de classe média (numa época em que São Paulo era uma cidade de classe média), e seus últimos exemplares podem ser vistos em velhos bairros italianos como Liberdade, Bexiga e no começo da Zona Leste, a partir da Móoca. Essas casas eram feitas por habilidosos mestres pedreiros de origem européia, que aprenderam seu ofício trabalhando com gesso, torcendo ferro e entalhando pedra nos canteiros de obras europeus do final do século 19.

Encontrei essas casas pelo interior do estado, em Campinas, Sorocaba e Jundiaí, e me pergunto se elas existem em número expressivo por outros estados. Ao longo do século 20 essas casas foram se deteriorando: na minha infância, cheguei a ver muitas delas transformadas em pensões, verdadeiros cortiços onde se amontoavam trabalhadores pobres e migrantes recém chegados do nordeste. Mais tarde, essas casas foram sendo simplesmente derrubadas.

Suas fachadas se repetem: duas janelas gradeadas baixas que iluminam o porão, duas janelas mais acima que se abrem para a sala e um portão lateral, quase sempre de ferro trabalhado, e que infelizmente não aparece na foto acima. O aspecto retangular e simétrico das fachadas, em que pese o portão lateral, sugere uma inspiração neo-clássica. Porém, os excessos ornamentais de diversos estilos acabam “poluindo” a obra, notadamente no alto da fachada, onde o pedreiro dava o seu toque pessoal enchendo o frontão quadrado de volutas e meandros de inspiração art-nouveau, bem como de cornijas e ornamentos em geral. No centro do frontão, a data em que foi concluída a obra: 1900, 1910, 1915, acompanhando mais ou menos os últimos momentos do surto de urbanização trazido pela cafeicultura.

A planta dessas casas é sempre a mesma, com poucas variações. O portão lateral e a pequena escada logo à sua frente dão acesso a um comprido terraço que acompanha a extensão da casa em um de seus lados, com o chão coberto de ladrilhos de cimento hidráulico, no nível dos aposentos. Logo no começo do terraço, uma porta se abre para a sala, iluminada pelas duas janelas abertas para a rua. Da sala sai um comprido e escuro corredor que se abre para dois ou três quartos, cujas janelas se abrem para o também comprido terraço lateral. No fundo desse corredor, a área de serviço, com banheiro e cozinha lado a lado, mais a escada para o porão. Um pequeno quintal ao fundo completa o conjunto.

Nunca entrei em uma casa dessas, me limitando a observar as fachadas, estudar as plantas e imaginar o tipo de vida que se levou nesses aposentos. Na escola, tive que ler “Éramos seis”, e imaginava que Dona Lola e sua família vivessem em uma casa como essa. Mais tarde, em meus momentos “The Sims”, cansei de construir bairros inteiros de casas como essas.

Nos anos 1920, tais casas começaram a escassear. A industrialização construiu bairros operários de casas geminadas, bem mais modestas. Quanto à classe média, a década iria trazer um estranho surto de nacionalismo arquitetônico, que assumiu a forma de um neo-colonial bastante peculiar. A foto abaixo mostra um posto de gasolina da Shell (ou Anglo-mexican Oil Company), em estilo neo-colonial dos anos 20. A Shell construiu dezenas de postos idênticos e espalhou-os pelo país, há pelo menos dois deles bastante bem conservados no alcance de uma caminhada da minha casa.

Já nos anos 1930, esse neo-colonial caducou, e o “modernismo” chegou à arquitetura paulistana, importado sob a forma de Art-deco.

sábado, 30 de outubro de 2010

O direito à paisagem. Vista da rua.



Costuma-se chamar “revolução copernicana” a transformação operada por Kant na teoria do conhecimento. O termo refere-se à mudança que Copérnico teria provocado na nossa forma de olhar: o que veríamos, ou COMO veríamos o universo se não estivéssemos em seu centro ? Pois a teoria de Kant implica justamente em uma mudança no olhar, superando tanto a visão racionalista quanto a empirista, que dominaram a Filosofia por uns bons dois mil anos. Sem entrar em detalhes, para a tradição do racionalismo (que, passando por Descartes remonta a Platão), a mente cria coisas, enquanto que para a tradição do empirismo (que, passando pelos ingleses, encontra suas raízes em Aristóteles), a mente se adapta às coisas. A revolução copernicana de Kant criou a concepção de que as coisas se adaptam à mente, ou seja, é impossível o conhecimento das coisas sem o seu processamento pelas estruturas cognitivas do homem.

Em certo sentido, também a Ética kantiana fundava-se nessa operação do olhar. Como um desdobramento do imperativo categórico, Kant escreveu: “Age de tal maneira que tartes a humanidade em tua própria pessoa e na pessoa de cada outro ser humano, jamais meramente como um meio, porém sempre ao mesmo tempo como fim”. Isso significa que agira moralmente implica na árdua tarefa de reconhecer no Outro um Sujeito, e não um mero objeto, um meio diante da satisfação de nossas necessidades.

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A imagem da propaganda, em página dupla, me chamou atenção durante a leitura dos jornais no domingo passado, e continuou aparecendo nos periódicos desde então. Mais do que chamar atenção, na verdade levei um susto quando virei a página e vi a imagem. Por trás da idílica paisagem de bosques e lago, rapidamente identificada pelo texto como o Parque do Ibirapuera, surge a aparição ao mesmo tempo monstruosa e fantasmagórica de uma torre de uns trinta andares; e o traçado do edifício em linha branca, deixando transparecer o fundo azul, reforça o caráter espectral da imagem.

Segue-se o texto: “Mais do que uma simples paisagem, uma obra de arte viva”. Dispenso qualquer comentário sobre o caráter artístico do prédio, mais um exemplo da má arquitetura paulistana. Também deixo passar o contraste entre o emprego da palavra “vivo” para descrever a ilustração fantasmagórica. O que mais me chamou atenção foi a referência à paisagem, reforçada pelo texto seguinte: “Dois magníficos terraços que emolduram perfeitamente o cenário marcante do Ibirapuera ao fundo”. Foi aqui que lembrei de Kant e sua operação do olhar.

O Ibirapuera aparece aqui como mera paisagem vista da janela, jamais se concebendo que alguém vá freqüentá-lo de fato, levando, portanto, seu olhar para o Parque. Ou então, o Ibirapuera será freqüentado sim, mas a paisagem vista do Parque estará irremediavelmente destruída, cercado cada vez mais por torres medonhas. Mas pouco importa. O horizonte visto do espaço público não interessa, desde que seja preservada a paisagem que vejo de dentro do meu espaço privado, ainda mais se emoldurada por "magníficos terraços". E é sempre assim. Em São Paulo, ignora-se a paisagem vista da rua, constroem-se torres ao lado de igrejas centenárias, tampa-se o horizonte com uma profusão de paredes e superfícies verticais cinzas, sempre cinzas. Às vezes, chega-se ao requinte de tapar o céu com um viaduto.

Depois reclamam quando o pixo contra-ataca.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Uma foto qualquer



A foto é aparentemente banal, e o fotógrafo certamente não pensou em suas múltiplas implicações quando, meio ao acaso, apontou para mim a câmara e registrou a cena: à bordo de um barco, olhando para o horizonte, em uma manhã de sol. A única justificativa para a foto ser tirada: o braço de mar por onde passa o barco é o Bósforo e, no horizonte, começa a Ásia.

Minha primeira reação à foto também foi trivial e, como sempre acontece quando vemos nossas próprias fotos – ou, pior, ouvimos nossa voz gravada – egocêntrica e autocrítica: que perfil horrível ! Que barba escandalosa ! Que nariz turco, que faz de mim uma espécie de xerox do sultão Mehmet VI (sem o harem, infelizmente), que quase sempre se fazia retratar de perfil.

Por pior que achasse a foto, não conseguia deixar de observá-la e, lentamente, suas formas foram se revelando para mim. Talvez fosse o jeito como meu braço (no primeiro plano) e o litoral da Ásia (ao fundo), ajudem a determinar espaços geométricos no plano da foto, quadrados, triângulos. Sempre tem algo de cubismo na decomposição das imagens em formas geométricas, gosto muito quando o efeito é obtido através de fotos. Por exemplo, veja a imagem feita por Cristiano Mascaro, “Árvore em Cachoeira” (2002): http://bit.ly/bgM7kE.

Porém, muito mais do que dividir o espaço em formas geométricas, o meu braço e o litoral da Ásia apresentam uma estranha simetria: estendidos em um sentido vagamente horizontal (pois a foto está um pouco torta, o litoral está levemente inclinado para a direita), apresentando um suave ondulado, como que reproduzindo as ondas do Bósforo que eles emolduram. Pois meu braço e o litoral da Ásia foram o que me chamou atenção para o conjunto surpreendente de simetrias que essa imagem apresenta.

Refletir o céu no mar já é quase um lugar comum, e aqui céu e mar como que têm vida própria (um é quadrado, outro é triângulo). Mas os reflexos da luz no mar repetem-se no céu, sob a forma de fiapos de nuvens, e aqui está uma simetria. Da mesma forma, as finas barras brancas que sustentam o parapeito onde apoio meu braço como que se reproduzem no meu ombro, nas dobras da camisa embranquecidas pela luz do sol; e a agressividade das linhas repetidas é suavizada pelo semi-círculo que as envolve, sob a forma de uma bóia, além do parapeito, ou de minha gola redonda, de onde irradiam os vincos da camisa.

O olhar atento percebe ainda mais uma simetria no litoral ao fundo. À esquerda, o mastro onde tremula uma bandeira turca, símbolo da República secular; e á direita a torre de um minarete, de onde os clérigos gritam as orações diárias, símbolo do Islamismo. Trata-se da maior tensão que existe na Turquia de hoje, ser ocidental ou oriental, moderno ou tradicional, religioso ou leigo. Ou na tensão de sempre: viver nas margens do Bósforo implica este ponto de inflexão, onde cada um coloca em jogo o seu próprio ser. As margens do Bósforo são como espelhos - invertidos, quase sempre -, e enxergar a própria imagem implica no trabalho cuidados de desconstruir todas as inversões.

Envolvida nesse jogo curioso, paira, na foto, uma única imagem que não tem seu duplo, aparentemente escapando de qualquer simetria. Sou EU, reduzido a um mero rosto que se projeta olhando sabe-se lá para quê. Pairando como forma maciça, escura, e dominando todo canto esquerdo da foto, só posso buscar um paralelo à minha frente, no local para onde olho, infelizmente fora do enquadramento da foto. Mas quem disse que eu olho para algum lugar ? Tenso, quem sabe imerso em pensamentos, apenas tenho diante de mim o CÉU, diáfano, claro, dominando todo canto direito da foto, justamente lá onde há poucas nuvens. E é somente nele que posso traçar alguma simetria.

Como em todas as imagens criadas na foto, trata-se de uma imagem refletida. Pois eu sou o oposto do céu e, por mais que pense diferente e tenha os pés no chão, só consigo uma aproximação de mim mesmo diante desse mesmo céu.

sábado, 2 de outubro de 2010

Istanblues





24 de setembro, hora indeterminada, sobre o Atlântico

“Por favor, solicitamos a presença de um doutor. Comparecer com urgência à cabine do fundo do avião”, grita o alto falante à bordo do vôo TK0014 da Turkish Airways rumo à Istambul. Achei curioso que não chamaram um médico, mas um doutor. Será que podia ser alguém de Humanas ? Será que eles estavam necessitando de um doutor, digamos, em Filosofia ? Imagino a emergência: o doutor em Filosofia chega afobado na cabine do fundo e encontra um passageiro angustiado, sofrendo calafrios, que pergunta com a voz rouca (enquanto a aeromoça tenta afrouxar sua gravata): “Doutor... me ajude... será que a ontologia pura serve apenas para dar forma ao entendimento ?” E o filósofo responde – como se fosse um dentista chamado para atender um ataque cardíaco: “Xeeeeee, lamento, mas minha área é a Estética”.

24 de setembro, 18h34, Aeroporto Internacional de Istambul

A vingança turca. Ressentidos por não serem aceitos na União Européia, os turcos se vingam. A entrada na Turquia só é permitida mediante um visto que é emitido no próprio Aeroporto, quando se chega no país. Porém, para algumas nacionalidades o tal visto não é necessário. No Aeroporto, vejo uma fila enorme de italianos, alemães, franceses, espanhóis, todos eles aguardando o demorado visto. Como brasileiro, sou dispensado de visto, e passo ao lado da fila dançando um samba.

24 de setembro, 23h49, um meyhane em Sultanahmet

O som das borbulhas de dezenas de narguiles sendo aspirados ao mesmo tempo. Cheiro adocicado de tabaco. Café turco, forte. Ao meu lado, dois turcos jogam gamão.

25 de setembro, 11h36, mesquita de Sultanahmet

É gratuita a entrada na famosa Mesquita Azul, aquela que foi construída diante de Santa Sofia para rivalizar em grandeza com o templo bizantino. Na saída, um funcionário pede uma contribuição em dinheiro para a manutenção da mesquita. Sensibilizado pela generosidade do ingresso grátis (e estimulado pelo pouco valor do dinheiro turco), deposito 5 liras na urna. Imediatamente, o funcionário me passa um recibo. Penso comigo: “Uma indulgência !” Agora, o paraíso islâmico é todo meu.

26 de setembro, 16h32, porta de hotel

Conversa com um turco: “O que você acha de Orhan Pamuk ?”. “Ah, aqui não gostamos muito dele, não. É um filhinho de papai, sua opinião é a da elite rica da cidade”. Tento argumentar que condenar a estética em função da origem social é um procedimento arriscado, e que seus escritos provavelmente irão sobreviver até bem depois que a atual estrutura de classes da Turquia mudar. E chamo atenção para o conceito de hüzün (=melancolia), que passou a ser fundamental para se pensar a cidade desde que Pamuk o discutiu. “Isso é bobagem”, diz o interlocutor turco, “a tal hüzün de Istambul não existe”. Como não existe ? Então eu posso dizer que o princípio segundo o qual “só Alá é Deus e Maomé é seu profeta” não existe só porque eu não acredito nisso ? Subitamente, o turco perde interesse na conversa.

26 de setembro, 19h05, entrada do mosteiro de dervixes de Mevlana

Nesses tempos tão corretos, me provoca um sorriso o cartaz afixado na entrada do mosteiro: “Este edifício NÃO é adequado para cadeiras de rodas”.

26 de setembro, 19h34, salão do mosteiro dos dervixes de Mevlana

Entra a banda dos dervixes, com seus longos chapéus cilíndricos. Em meio à solenidade de seus movimentos rituais de apresentação, subitamente lembro-me dos Keystone Cops, e sinto uma vontade desesperada de rir. Porém, logo começa a música e eu fico mudo de admiração. Quando os dervixes começam a rodopiar, chego próximo de um transe extático.

27 de setembro, 10h59, Palácio do Sultão (Topkapi)

A entrada do harem continua sendo um lugar assustador. Um beco estreito, ganchos para iluminação com lâmpadas de óleo, uma fileira de portas entreabertas com os aposentos dos truculentos eunucos, um corredor escuro no final. Era essa a primeira visão que as moças – seqüestradas em todo Império Otomano – tinham do palácio luxuoso onde passariam o resto de suas vidas. Sua maior aspiração: serem escolhidas como uma das “favoritas” e, com sorte, gerarem o príncipe herdeiro.

27 de setembro, 21h05, Sultanahmet

A comida de rua em Istambul é boa, aprendi isso da outra vez que aqui estive. Morrendo de vontade de comer um kokoreç - uma espécie de kebab feito com intestinos de carneiro - pergunto ao garçon de um dos muitos restaurantes de Sultanahmet, bairro dos hotéis ao lado de Santa Sofia: “Onde eu posso comer um kokoreç?”. Assutado, ele me responde, “Hayir ! Não, kokoreç não tem mais ! É contra as normas de higiene da União Européia !”. Penso se seria elegante da minha parte lembrar que a Turquia não faz parte da União Européia, mas prefiro ser simpático. Depois de muito insistir, ele me passa, quase em segredo, um endereço em Beyoglu. E acrescenta em voz baixa: “Best kokoreç in town !”. (http://sampiyonkokorecci.com/)

28 de setembro, 9h45, rua Akbiyik


Conversa com um turco: “Você se sente mais asiático ou mais europeu ?”. A resposta vem direto: “Ah, sem dúvida, mais asiático.” Suspeito que se um turco fizesse a mesma pergunta ele responderia: “Mais europeu”. Viver entre o Oriente e o Ocidente, o tradicional e o moderno, deixa todos os turcos meio esquizofrênicos.

28 de setembro, 17h52, Santa Sofia

De onde vêm esses olhos azuis e cabelos claros de alguns turcos ? Várias origens, e uma delas se encontra nos guerreiros vikings contratados como mercenários a partir do século X pelos imperadores bizantinos. Tais guerreiros, denominados varegues, chegaram a ter um papel importante na defesa de Constantinopla contra o saque realizado pela Quarta Cruzada (1204). Enquanto não se dedicavam a atividades guerreiras, os varegues deviam perambular por Constantinopla e eis que, nos parapeitos internos da Santa Sofia, encontram-se inscrições feitas por esses guerreiros nórdicos em seu alfabeto rúnico. Gravadas no mármore por espadas, assinalam os nomes de “Halfdan” e “Ari”, verdadeiros precursores da pichação.

29 de setembro, 8h12, Aeroporto Internacional de Istambul

Na livraria do aeroporto, encontra-se à venda a edição de bolso (completa, em turco) de O Capital de Marx



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(foto: Ara Güler)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Considerações desapaixonadas sobre as eleições


1 – O que mais chama a atenção nas eleições, ultimamente, é que elas não mais envolvem questões de vida ou morte. No fim do regime militar e durante os anos da chamada consolidação democrática (anos 1990) simplesmente não se cogitava em votar nos esbirros da ditadura (ARENA/ PDS), em seus filhotes (Maluf, Sarney), nos sobreviventes de outra era (Jânio) ou na barbárie pura e simples (Collor). Quem votasse ou apenas demonstrasse simpatia por essas figuras simplesmente não era digno de pertencer a um círculo de amizades ou então gerava piedade (“Coitado, vai votar no Maluf...”). Nesse sentido, os 16 anos de FHC e Lula civilizaram o jogo político, ou pelo menos afastaram das eleições presidenciais as figuras mais sinistras. Diante dos Berlusconis e Bushes da vida, FHC e Lula são papa fina.

2 – Curiosamente, a polarização PT x PSDB às vezes ainda gera estranhos ódios: há tucanos que não conversam com petistas (afinal, “Lula é Mussolini”), e há petistas que assumem ar de denúncia quando se referem ao tucanato como “a direeeeeeita!”. Curioso, pois sabemos que tanto Dilma quanto Serra, uma vez eleitos, vão adotar as mesmas diretrizes básicas de governo: manutenção da estabilidade econômica, algum tipo de gerenciamento da miséria (esquemas do tipo Bolsa Família) e aliança com a parte da banda podre da política que lhe cabe. Isso para não falar da sórdida tendência que os membros de seus partidos têm de cuidar do Estado como se fosse um condomínio privado.

3 – Com Lula e o PT, consolidou-se a idéia de que o Estado é um papai provedor, e isso causa danos à política: o voto entra no esquema do “é dando que se recebe”, e a política passa longe de princípios ou projetos de longo prazo, reduzindo-se a uma sucessão de promessas rasteiras e troca de favores visando fins imediatos. Mas quem disse que com o PSDB é diferente ?

4 – Diante desse contexto – e sabendo que, seja qual for o resultado, a barbárie não irá vencer – começo a vislumbrar uma saída: diante da permanência da polarização PT x PSDB, votar sempre em quem for oposição, como forma de punir os escândalos da vez. Otimista, imagino que isso talvez resulte em moderação na prática de transformação do Estado em condomínio privado.

5 – Porém, é um erro partir das muitas semelhanças e concluir que não há diferença alguma entre PT e PSDB, Dilma e Serra. Em princípio, espera-se de um governo PT uma ênfase na distribuição, como exemplificado no governo Lula pela saudável tendência de aumento do salário mínimo. Porém, e a produção ? Os ventos internacionais favoráveis e a hábil ação de Lula na crise de 2008/2009 ajudaram a criar o clima de otimismo vigente. Mas, há algum plano que vá além de aproveitar a maré ? O país corre o risco de desindustrialização (mas corre mesmo ? qual o tamanho desse risco ?) e, sendo assim, não seria o caso de aproveitar o momento e adotar uma política industrial consistente, visando promover um profundo avanço no setor produtivo (para além da exportação de produtos primários ou semi-manufaturados) ?

6 – Em Serra, há uma promessa de valorizar a produção, embora nem sempre fique muito claro como. E a tão proclamada competência gerencial dos tucanos é altamente suspeita: veja a situação de caos prolongado em que a capital do Estado de São Paulo se mantém, após anos de gerenciamento tucano. Seja como for, a promessa de ênfase na produção traz a possibilidade de um resultado social que vai além do mero assistencialismo: aproveitar a expansão econômica e ampliar maciçamente o número de assalariados com carteira assinada. Mas isso basta ?

7 – Enfim, o que são as eleições ? Seu aspecto ritual me encanta: um feriado, um dia diferente, amplo movimento de pessoas, ruas cheias, encontros que se repetem a cada quatro anos. Por trás do rito, a lembrança: a coisa toda (o Estado, a política) deve existir em nome das pessoas, do “povo”. Para além da prática ritual das eleições, há que consolidar instituições que, de fato, ponham o Estado para funcionar em benefício dessas pessoas. Resta saber se a tarefa é possível.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Segundo aniversário


De onde vem a vontade de aprender ? Acredito que, em seus primeiros anos, a criança até se empolga com a escola, que satisfaz o seu desejo de tornar-se mais “espertinha”, portanto digna do afeto dos pais que a parabenizam pelas notas e pelo desempenho escolar em geral. No entanto, logo sobrevém o tédio: a criança amadurece, suas demandas afetivas deslocam-se para além do espaço familiar e, por essa época, a escola passa a divulgar um saber meramente instrumental. Uma multidão de atividades carregadas de lógica matemática, a descrição racional de uma infinidade de objetos do mundo e da melhor forma de utilizá-los visando o bem-estar do homem, uma coleção de objetos isolados que devem ser descritos e suas relações racionalmente explicadas, de preferência sem dar margem a nenhuma dúvida (afinal, como fazer provas depois ?).

Diante de cada pergunta, uma resposta; diante de cada dúvida, uma certeza; diante de cada conseqüência, uma causa. Observando a forma como se organiza o Ensino Médio e a exposição dos alunos a esse discurso ininterrupto de uma razão que tudo explica, eu me indago: onde ficam as incertezas e as surpresas ? Onde ficam as perguntas sem respostas ? Onde ficam as conseqüências sem causas ? Oras, tais indagações são importantes, pois é graças a elas que continuamos perguntando e, no limiar desse questionamento, encontra-se nós mesmos, como já sabia Sócrates. O problema é que não há muito espaço na escola para a indagação sobre o sujeito, e justamente numa época da vida – a adolescência – em que esse questionamento é fundamental.

A essa altura, difícil é a função do professor, que deve fazer renascer o desejo de aprender. Seus instrumentos incluem a sedução, através da enunciação de um discurso adequado aos seus ouvintes, e a identificação, pois os alunos devem reconhecer no professor o depositário de um saber que deve ser obtido. Desejo-sedução-identificação: o jogo do saber, como bem sabia Platão, traz junto uma série de riscos e, para o professor, o maior deles é a vaidade. Trata-se do saber-se amado, e é necessário um certo esforço para agir em conformidade com essa situação mantendo-se à altura do desejo de saber dos alunos, nada mais do que isso. Quanto aos alunos, o risco é a idolatria, primeiro passo para deixar de pensar por conta própria.

No seu segundo aniversário, lembro que o blog surgiu da vontade de alimentar esse desejo de saber, que nasce na sala de aula e que às vezes é limitado pelas restrições práticas que nos cercam. Sei que quanto mais alimento nos outros o fogo do saber, mais brilha o meu próprio fogo, e disso se extrai – assim espero – uma experiência compartilhada que ajuda a manter a vida de cada um de nós em constante escrutínio.

Feliz aniversário e obrigado a todos os alegres seguidores.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Pas de faune ce soir



Não sei exatamente que horas eram, mas eu estava no terraço quando começou a chover no fim de semana. A chuva começou fraca e mesmo o vento não chegava a perturbar, a temperatura apenas começava a cair naquela hora. Notei que as árvores estavam esquisitas: depois da longa seca, as folhas – algumas amareladas – estavam apenas frouxamente presas em seus cabos e agitavam-se de forma singular, pois o vento não tinha força suficiente nem para dobrar os galhos, nem para arrancá-las. Nas árvores imóveis, apenas folhas balançavam, como que rodopiando em torno de seus eixos, fazendo rápidos movimentos giratórios. Dessa forma, as folhas, as árvores pareciam bastante alegres, é como se celebrassem a chegada da chuva depois de tanto tempo.

A imagem que me veio à cabeça, imediatamente, foi a de um ballet, com centenas de folhas-bailarinas se agitando em uma fremente coreografia. O insight veio em seguida: imaginei que talvez o homem tenha inventado a dança por mimese, copiando as árvores, as folhas das árvores em um vento de chuva. Não é difícil imaginar uma situação em que grupos humanos, coletores-caçadores, talvez já agricultores ou seja lá o que fossem, saindo de seus abrigos, felizes com a chuva e identificando no movimento das folhas a mesma alegria que sentiam. E imediatamente copiando esses movimentos com seus corpos.

[Interlúdio: “Consulte sempre um Antropólogo”, é um adesivo que jamais vi afixado em nenhum vidro de carro. Mas, que eles fazem falta às vezes fazem, e poderiam estar agora nos entretendo, a falar sobre coisas arquetípicas como danças-da-chuva e tudo mais. Um brinde a Jimmy Cliff-ord Geertz e seu estudo seminal sobre as brigas de galo na Jamaica.]

Seja como for, tive uma estranha epifania ao perceber que experimentava um sentimento idêntico ao de meus ancestrais neolíticos. Por um instante, tive o impulso de dançar com as árvores, no terraço mesmo, conforme a chuva começava a apertar. A vontade era de sair na chuva, fechar os olhos e deixar o corpo acompanhar o vento e o movimento das folhas, sentindo ao mesmo tempo o frio da água escorrendo pelo corpo. Seria um espetáculo bizarro diante das janelas dos vizinhos, mas estes, que se danem, a essa altura já viram de tudo.

Claro que não fiz nada disso, apenas voltei para o sofá e comecei a refletir sobre a dança, e tudo que ela tem de impensado e espontâneo. Distanciando-se de outras artes, a dança pode ser a mais irracional expressão estética humana, e nem por isso a menos bela ou autêntica. Na dança, não há necessariamente uma “moral” ou “mensagem” a ser passada, trata-se sobretudo de entrega, com tudo que isso traz de risco, de coragem, de vontade. A dança é exaltação dionisíaca, para usar o termo do velho Nietzsche, figura constante nestes alegres colóquios. Sabemos que duas das mais perigosas características de Nietzsche são escrever em aforismos e usar metáforas. Com os aforismos, tornou-se pop: todo mundo sempre tem uma ou duas de suas frasezinhas bem decoradas (e mal compreendidas) guardadas no bolso do colete para usar em uma culta mesa de bar. Com as metáforas, tornou-se mais pop ainda, com as pessoas adorando histórias sobre velhos eremitas que descem da montanha e saem gritando que deus morreu e outras coisas divertidas.

Pois o andarilho de Sils-Maria frequentemente usava a metáfora da dança e, para ficar em seus mais rápidos e conhecidos aforismos, cito: “É necessário que o caos vos habite para que possa dar a luz a uma estrela bailarina” e “Só acreditaria em um deus que soubesse dançar”. Nos dois casos a dança surge como a metáfora da realização humana mais sublime, ou melhor, daquele tipo de realização que nos leva para além do humano.
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Para os interessados, a São Paulo Companhia de Dança apresentará nesse fim de semana um programa altamente promissor, incluindo o “Prélude à l’aprés-midi d’un faune”, de Debussy (que – lembremos – quando coreografado por Nijinsky em 1912 provocou um impacto semelhante ao que teria no ano seguinte a “Sagração da Primavera”, que tanto tenho citado por aí).

domingo, 22 de agosto de 2010

Da desculpa como auto-de-fé




Em 1481, a Inquisição espanhola - sempre tão precoce - realizou o primeiro auto-de-fé, cerimônia pública de expiação dos pecados. A prática se generalizou pela cristandade, sendo particularmente comum nas monarquias ibéricas. Consta que o último auto-de-fé foi realizado na Espanha, já em 1821. Goya, artista espanhol, pintou o quadro acima poucos anos antes, mostrando uma dessas cerimônias: os acusados assumem publicamente sua culpa e envergam os sambenitos, trajes especiais e particularmente ridículos e humilhantes, de uso obrigatório pelos condenados.

Reduzindo o ritual do auto-de-fé ao seu padrão básico, temos: cerimônia pública, humilhação ritual e perdão como resultado. Impossível deixar de pensar em como existe, hoje em dia, o estranho hábito de praticar um pedido de desculpas como se fosse um auto-de-fé. Um erro é cometido, alguém sofre os efeitos e, depois do mal feito, tudo se resolve com um humilde pedido de desculpas, muitas vezes visto como expressão de grandeza de caráter, mas que é na realidade um mero artifício para se por uma pedra no que agora virou passado. Acho que é nesse contexto que as pessoas “perdoam”, ou seja, aceitam as desculpas: perdoar/per-donare (= por presente), é quando damos um presente para aquele que errou, que fez um mal, independente de qualquer arrependimento.

Porém, isso não basta.

Lembro de meu sobrinho, criança, aprendendo o significado das palavras lá com seus dois ou três anos de idade. Após descobrir o significado da palavra “desculpa” (ou melhor, após descobrir os efeitos provocados pela simples enunciação da palavra "desculpa") o pequeno, durante alguns dias, passou a ter o hábito de fazer coisas sabidamente erradas, para em seguida testar o amor dos pais pedindo desculpas. Lembro de um almoço de família e do moleque, ao meu lado, pegando o copo de plástico cheio de coca-cola, inclinando-se para o lado e derramando propositalmente o conteúdo no chão, enquanto olhava para os adultos na mesa. Antes de qualquer manifestação de reprovação o monstrinho já foi lançando um “di-cu’pa”, ao mesmo tempo encantador e malandro.

A meu ver, uma desculpa envolve dois aspectos que quase nunca são cogitados por quem a pede, na pressa de ver sua situação resolvida e de ser perdoado. Primeiro, o reconhecimento do erro; segundo, e intimamente relacionado a isso, a garantia de que o erro nunca mais irá se repetir. Mas não é isso que vejo acontecer: as pessoas saem disparando suas desculpas por aí a torto e a direito, como se fossem fogos de artifício, e tudo se resolve. E daqui a uns poucos dias novas desculpas serão necessárias.

Não, este não é um post confessional. Fujo deles, como todos sabem. Se você cruzou comigo - sei lá, na última semana - não pense que aqui vai alguma indireta. Apenas andei pensando no assunto, é só. E me desculpem os que não gostaram.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

"...uma forma luminosa"


Curioso como algumas expressões se tornam um jargão, que progressivamente vai se afastando de seu sentido original. No mundo escolar uma das mais comuns, de uns tempos pra cá, é discutir conceito. As pessoas adoram discutir conceitos, vivem sofisticando suas práticas discursivas dizendo que discutiram conceitos quando, na verdade, na maior parte dos casos, apenas apresentaram definições.

Há diferenças entre conceito e definição. Como de hábito, lanço mão da etimologia para começar a entender as diferenças. A palavra definição vem do latim de-finitio, em que finitio dá idéia de fim, final, encerramento. Pois é esse justamente o sentido das definições: elas encerram um significado dentro de limites bem precisos. Trata-se, sem dúvida, de uma função importante. Pois as palavras devem ter significados precisos, sem isso é impossível um pensamento rigoroso e, em última análise, a própria filosofia. Todavia, definições não constroem conhecimento, e uma consulta ao dicionário, por mais instrutiva que seja, não faz o saber avançar sequer um milímetro.

conceptus tem o mesmo radical de conceber, concepção. Aqui, o sentido é de criar, portanto ir além do limite estreito das definições, que agora serão tomadas apenas como ponto de partida. Trata-se do procedimento filosófico por excelência, e Delleuze, no seu livro O que é Filosofia?, é taxativo: “Filosofar é criar conceitos”. Adorno falava de “ir além do conceito, através do conceito”, enquanto Francisco Bosco – meu filósofo pop preferido, em citação que vivo repetindo por aí – dá uma ideia melhor do árduo trabalho do conceito quando escreve: “O conceito é portanto uma pequena batalha que se trava em meio ao caos, a fim de fazer dele ressair, por meio de um meticuloso bordado semântico, uma forma luminosa”.

Por exemplo, uma definição da palavra trabalho pode ser encontrada no dicionário: trata-se de “aplicação da força e faculdades humanas para atingir um determinado fim”. Porém, uma discussão do conceito de trabalho inclui levar em consideração que essa atividade pode ser vivida de diferentes formas, resultando não apenas em práticas de trabalho distintas, mas também abrindo caminho para a identificação de diferentes éticas do trabalho.

O primeiro sentido da palavra trabalho remonta à etimologia latina do verbo trabalhar, tripaliare, com o significado original de “extrair as tripas”. Trata-se de uma referência ao sofrimento imposto aos escravos. Nesse sentido, o trabalho é visto como um sacrifício a que se deve dedicar em troca de uma remuneração em dinheiro e quando vejo os olhares sombrios de muitas pessoas em seus postos de trabalho, imagino que elas de fato “deixaram suas almas” na porta de entrada da fábrica ou empresa, para poderem pegá-la de volta na saída. A expressão deixar a alma na porta do trabalho é da pensadora francesa Simone Weil que, na década de 1930, abandonou o conforto de sua família para experimentar a vida de operária. Da experiência resultou um relato pungente, “Da condição operária”, que deveria ser leitura escolar obrigatória.

Porém, há outro significado para a palavra trabalho, que pode ser entendido enquanto praxis, uma prática constitutiva do ser. Essa visão está presente em Marx que, inclusive, identificava na habilidade e organização para o trabalho uma especificidade do humano (que ele pretendia resgatar criando um novo sistema social e econômico etc). O trabalho como praxis implica em fazer da atividade uma parte inseparável da sua vida, e chegam a ser comuns os casos daqueles que caem em profunda melancolia quando afastados do trabalho por algum motivo. Sem entrar em detalhes, lembro da interpretação psicanalítica da melancolia, um sentimento associado ao luto, uma vez que ambos resultam em conviver com a perda. Aqui, estamos lidando com nada menos que a perda de uma parte de si mesmo.

No primeiro caso - tripaliare - existe uma separação entre o mundo da vida e o mundo do trabalho, e o próprio conceito de lazer só pode ser pensado a partir dessa separação. Pois lazer é a negação do trabalho, é o tempo que deve ser aproveitado, pois se encontra longe do sofrimento. É o tempo que deve ser preenchido, uma vez que, se o trabalho não constitui o ser, o tempo torna-se vazio e sem sentido. Já no segundo caso - praxis - o mundo do trabalho é parte integrante do mundo da vida, não cabendo a separação tempo livre x tempo de trabalho. Oras, as duas formas de vivenciar a experiência do trabalho (ou os dois significados que são ao mesmo tempo parte integrante do conceito e indissolúveis da experiência do trabalho), implicam em duas éticas do trabalho distintas.

Para os que vivem o trabalho como sofrimento, o que conta é a sobrevivência, uma vez que a atividade é vista como pouco mais que um ganha pão. Neste caso, o trabalho incorpora os jogos de poder, fundamentais na luta pela sobrevivência dentro do ambiente de trabalho, e o resultado é uma atuação marcada pelo medo e paralisia. Já para os que vivem o trabalho como parte constitutiva de si mesmo, a realização encontra-se no trabalho bem-feito, visto como finalidade e parte integrante do conhecimento próprio enquanto sujeito. Aqui abre-se o espaço para a cooperação ( lembrando do caráter social e coletivo do trabalho), que incorpora o diálogo entre as partes e a constituição de laços que incluem a tão difícil amizade entre adultos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Em busca da música perfeita 2



Yo me voy temprano para el batey
Que en La Habana, se acabo el yarey


A Revolução de 1959 matou um pouquinho a música cubana. As gravadoras multinacionais deixaram a ilha, os grandes cassinos e night-clubs foram inicialmente fechados e depois reestruturados, com seus donos mafiosos muitas vezes sendo presos ou simplesmente fugindo para Miami. O bloqueio norte-americano também não ajudou muito, fechando as gravadoras aos músicos que não se exilassem. Seja como for, de uma hora para outra, os grandes da música cubana perderam seus palcos e microfones: o novo regime sempre desconfiou de suas ligações seja com o submundo do crime organizado, seja com as multinacionais norte-americanas.

Alguns músicos fugiram da ilha, outros amargaram uma espécie de “exílio interno”: Ruben Gonzáles conta que ficou anos sem encostar em um piano. Outros simplesmente morreram, como Benny Moré e seu fígado estraçalhado. Enquanto isso, o novo regime nomeou novos artistas e mesmo o novo estilo oficial: a nueva trova, misto de bossa-nova com folk-song e música de protesto. Imagine João Gilberto cantando uma música de Bob Dylan com uma letra falando sobre Che Guevara. Aí está a nueva trova.

Me gusta la población, el bullicio e el gentio
También me gusta el bohio que yo tengo em el batey

Certamente, saíram coisas boas. Há músicas de Silvio Rodrigues, Pablo Milanés ou Carlos Puebla que acabaram se transformaram em clássicos cubanos. Mas o inebriante ritmo do son cubano, bem como seu apelo dançante se perderam. Nas ruas de Havana, fora dos palcos oficiais, veio o contra ataque a partir dos anos 70: a música de barrio, com grandes bandas marcadas pela forte seção de metais e muita, mas muita percussão de alta qualidade. Tocada em lugares improvisados, por todos os cantos e periferias de Havana, o son dançante dos bairros faz lembrar as big bands da era de ouro da música cubana pré-revolucionária, incluindo uma nova geração de instrumentistas de alto padrão, tocando longos e impressionantes improvisos que fizeram renascer as famosas descargas cubanas.

Enquanto isso, os sobreviventes da velha geração iam definhando. Em 1997, o músico americano Ry Cooder foi à Cuba, fez um filme e gravou uma compilação com os músicos que sobraram da época de ouro, intitulando o projeto de “Buena Vista Social Club”. Infelizmente, o tal do Ry Cooder meteu a mão na tradição cubana e elegeu um monte de cantores de bolero para formar sua coletânea, com um ou outro cantor de guajira (música “caipira” cubana) entoando suas músicas mais melancólicas. Para piorar, nosso bluesman branco acrescentou seus próprios solos de slide-guitar em várias gravações, criando uma sonoridade no mínimo bizarra e certamente bem pouco cubana.

Me gusta ver como el rio, por el valle se prolonga
Y ver del arbol la sombra, que adorna el sitio mio

O que poucos sabem é que, anos antes, em 1979, a gravadora estatal cubana Egren havia lançado o mesmo projeto – de resgatar os grandes nomes do passado –, e isso numa época em que muitos ainda estavam vivos. E aqui eles foram deixados à vontade, gravaram o que quiseram, improvisaram, inventaram, se divertiram. O resultado foi um dos discos mais vibrantes de todos os tempos, Los Heroes, e o enorme conjunto de mais de trinta músicos foi chamado de “Estrellas de Areito”.

É de chorar de tão bom.

Foi nessa compilação que encontrei a minha segunda música perfeita de todos os tempos: “Mi amanecer campesino”, com gloriosos 14 minutos e 55 segundos de duração (e o final em fading, pois os músicos poderiam ter continuado tocando e improvisando sobre o tema por mais alguns meses).

Mañana me voy temprano, me marcho al amañecer
Com el machete em la mano y el sombrero de yarey

A estrutura dessa música é a do tradicional son cubano: prelúdio (uma introdução, neste caso feita pelo coro); largo, quando o vocalista (ou sonero, aqui Pio Leyva) estabelece o tema da canção; e montuno, quando o sonero desenvolve frases introdutórias e o coro as responde. O montuno é o clímax de todo son cubano, pois é quando se fazem improvisações vocais e a demonstrações de virtuosismo instrumental. Em Mi amanecer campesino, sucedem-se solos de violino (Pedro Hernandéz), tres (Niño Rivera) e piano (Ruben Gonzalez), além do arrepiante trombone de Juan Pablo Torres.

Seria impossível descrever aqui, com palavras, o grau de maestria atingido por esses músicos. Chamo atenção, apenas, para uma certa passagem em que Ruben González começa a desenvolver seu solo no piano e, de repente, começa a tocar Alma de mujer, um antigo bolero. Do nada, sem nenhuma combinação prévia, entra a seção de cordas (os violinos) e continua a canção. Gonzalez reage e toma o bolero de volta, tudo isso enquanto a “cozinha” (baixo e percussão) mantém o ritmo. Até que o trombone de Juan Pablo Torres se insinua para acabar com a baderna e avisa que a música está acabando. Causa arrepios.

Yo me voy temprano para el batey
Que en La Habana, se acabo el yarey




#piadasnerds

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(ou: falta de assunto também dá post)
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Na Filosofia, brincava de escolher títulos bizarros para minha dissertação de mestrado. Criei um jogo que consistia em redigir títulos praticamente incompreensíveis (e algo bizarros), mas que ainda assim significassem alguma coisa. Agora, planejando o doutorado, trago de volta os melhores títulos. Escolha o seu.

1) A realidade enquanto auxiliar apriorístico de uma ética não-naturalista.

2) A hipóstase e o isolamento do puro livre-arbítrio enquanto pedra de toque do bolo ético-cultural dos epígonos kantianos.

3) A inversão de pólos do sujeito para o dessujeito: realce de uma agonística que faz da subjetivação uma imanência em exercício.

4) O pessimismo de matizes éticos em relação ao presente: inflexão geral de Hegel a Fichte ou simples kierkegaardização da dialética histórica hegeliana ?

5) O problema central da forma romanesca: acerto de contas artístico com as formas fechadas e totais que nascem de uma totalidade do ser integrada em si (com cada mundo das formas em si imanentemente perfeito).

6) A consciência da unidade total interna alcançada através do pensamento e da apreensão: a não manifestação da alma na natureza em que a unidade subjetiva não aparece como unidade em si .

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Viagem infinita




Costumo chamar de “trama da existência” toda aquela teia que construímos no cotidiano e da qual fazem parte desde o nosso de universo de relações pessoais até o espaço por onde circulamos habitualmente. Enredar-se na teia da existência significa estar cercado de um universo de referências seguras, dentro do qual podemos efetivamente habitar.

Chamo atenção para a semelhança entre o verbo habitar e as palavras habitual, hábitos. É na nossa trama da existência que praticamos os hábitos que resultam na criação de nossa habitação, o local onde nos sentimos seguros. O filósofo Martin Heidegger vai além, lembrando da semelhança que existe no alemão entre o tempo verbal bin (de ich bin, eu sou) e o verbo bauen (construir). Parte daí para apontar que a maneira como somos é a maneira como construímos o espaço em que habitamos. As múltiplas referências à etimologia das palavras alemãs e gregas – tão comum em Heidegger, e de que lanço mão tão frequentemente no blog – devem ser vistas como uma forma de aproximação da linguagem primitiva (ou Ursprache) indo-européia, ou seja, do sentido original das coisas no momento mesmo em que essas coisas começaram a ser nomeadas. Da sua essência, diria o eremita da Floresta Negra.

Dessa forma, através da trama da existência construímos o nosso ser. Mas isso não basta. Quantas vezes não desejamos simplesmente sumir, desaparecer desse entorno ? Se por um lado a teia que nos envolve é garantia de segurança, por outro deixa muito pouco a ser descoberto, por mais que deixemos certos espaços a serem explorados como se fossem novos. “Hoje vou sair com uma pessoa diferente” ou “Amanhã vou para a churrasco em um bairro novo” ainda fazem parte dessa teia, constituindo uma brecha antecipada, com a finalidade de evitar o tédio puro e simples. (Mas quantas pessoas não se negam mesmo essas pequenas aberturas, permanecendo seguramente instaladas em seu tédio cotidiano ?).

Daí a necessidade da viagem, palavra da qual tiram-se dois significados possíveis. Em primeiro lugar existe a viagem física, o deslocamento para além dos espaços habituais. Além disso, existe a viagem enquanto operação do pensamento, que é experiência bastante comum: quantas vezes não percebemos que uma pessoa “está viajando”, ou seja, completamente descolada da realidade que a cerca ?

Chego ao meu ponto de reflexão. Só vejo a viagem física como ruptura da teia da existência quando ela é feita dentro de uma certa radicalidade, que inclui transformá-la também em experiência do pensamento. “Descer para o litoral no fim de semana” ou “Ir para Campos com os amigos” podem ser aventuras válidas, mas dificilmente constituem uma experiência que leve para além do conhecido ou que rompa com a teia da existência.

Como transformar a vigem física na experiência transcendente do pensamento ? Talvez partindo da própria especificidade de atravessar um espaço de dimensões tão grandes que implicam em uma redefinição da relação com o tempo. Durante a longa viagem, dentro do espaço sem graça do avião ou do ônibus, abre-se a possibilidade para um momento de introspecção. Além disso, na chegada, o contato com hábitos culturais diferentes (língua, alimentação, clima) exige uma redefinição do habitual em cada um, com Heidegger nos lembrando da importância de habitar na constituição do ser. Perdemos o nosso chão, devemos nos redescobrir, e daí vem o medo, como bem apontou Camus:

O que dá valor à viagem é o medo. É o fato de que, num certo momento quando estamos tão longe de nosso país, somos tomados por um vago receio e pelo desejo instintivo de voltar à proteção de velhos hábitos. Nesse momento, atravessamos uma cascata de luz e ali está a eternidade. Viajar é uma ciência grande e grave que nos traz de volta a nós mesmos.

Finalmente, a viagem se transforma em experiência transcendente quando, antes da partida, antecipamos mentalmente sua realização e, após a chegada, reconstruímos cada etapa com ajuda da memória. Nesses momentos, viajar em grupo ganha significado: cada um antecipa e, sobretudo, reconstrói a viagem através de seu próprio olhar. A troca das experiêncais, o contato com a multiplicidade dos olhares e narrativas de quem esteve junto viajando, permite que cada viagem seja repetida mil vezes, com a transformação das experiências vividas em algo novo cada vez que elas se repetem em nossa mente ou em alegres colóquios com os companheiros de viagem.

Aos que partem de férias, boas viagens.

domingo, 20 de junho de 2010

Drops



Inteligere

Sempre me incomodou o uso da palavra inteligência. O que queremos dizer quando falamos que alguém é inteligente ? Da etimologia, sabemos que a palavra vem do latim inter (entre) e legere (ler). Porém, o sentido original de legere é do grego, legein, palavra de múltiplos sentidos, desde descrever/falar ate selecionar/escolher. O termo aparece, por exemplo, em Homero e vejam como grego é divertido: para combater os troianos era necessário λέγω άνδρας άρίστους /lego andras aristous, "escolher os homens mais valentes". E é claro que legein no sentido de dizer nos remete diretamente a logos, a palavra falada racional.

Essas considerações nada tem a ver com o uso comum da palavra inteligente. Seu uso reflete a forma como fetichizamos a inteligência: identificamos a pessoa inteligente como aquela capaz de realizar raciocínios lógicos-dedutivos. Assim, o inteligente é aquele que tem uma alta performance, por exemplo, resolvendo problemas matemáticos. Existe até um “quociente de inteligência” (deus me livre!), obtido através de um teste; muito embora seja evidente que a simples idéia de que inteligência possa ser medida e expressa em números já reflete uma visão de mundo tremendamente instrumental.

Pois há componentes na inteligência que vão muito além do raciocínio lógico. Claro, não se deve confundir inteligência com erudição, esta outra forma de fetichização da inteligência, dessa vez no âmbito das assim chamadas Ciências Humanas. Pois a verdadeira inteligência, a capacidade de inter-legere, implica em uma forte dose de criatividade, e esta, lamento constatar, não pode ser medida mas somente praticada. E aqui surgem os pré-requisitos para o seu despertar: a reflexão (enquanto atividade solitária, parente do repouso; se possível, próxima do devaneio, aquele estado intermediário entre pensamento e sonho) e mesmo o diálogo (o alegre colóquio de Platão, inspiração constante do blog e expressão de suas ambições intelectuais).

Sobre a criatividade enquanto parte da inteligência, escreveu Andrew Wiler: “Para alcançar essa (...) idéia nova, é necessário um longo período de atenção ao problema sem qualquer distração. É preciso pensar só no problema e nada mais – só se concentrar nele. Depois você para. Então parece ocorrer uma espécie de relaxamento durante o qual o subconsciente aparentemente assume o controle. E é aí que surgem as idéias novas”. O autor é um matemático inglês, que simplesmente demonstrou o teorema de Fermat, e sua referência ao relaxamento e à entrega ao subconsciente são significativas.

Copa do Mundo

O goleiro da Alemanha chama-se Neuer (pronuncia-se Nóia, imagino-o fumando crack nas ruas do Centro); o atacante grego Salpingidis é tremendamente parecido com Platão (dos relatos que temos: baixo, atarracado, costas largas, nariz grego clássico). O som das vuvuzelas me faz pensar no zumbido interminável de insetos no meio de uma floresta africana úmida (nada menos parecido com a gélida África do Sul de junho).

Vou até a padaria e vejo um grupo se aglomerando junto a uma TV, para acompanhar o vibrante match entre Eslováquia e Paraguai. Enquanto isso, planejo onde assistir o próximo jogo do Brasil, se em casa, no bar ou no trabalho, e quem vou encontrar, quais as comidinhas, o que vou beber. Acredito que um imenso vazio irá tomar conta de nossas vidas quando a Copa do Mundo acabar. Mistah Kurtz, he dead.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ouro Preto



O primeiro frio do ano aguça a memória. O inverno traz Ouro Preto, cidade para qual nunca se deve deixar de voltar. Em cada viagem algo novo sempre é descoberto e, a partir da regularidade da viagem (todo ano, em julho, de ônibus, levando um grupo) uma questão surge e fica no ar: se a cidade é sempre a mesma e os lugares visitados são os mesmos, o que muda ? Só pode ser o viajante, que vai se descobrindo como uma pessoa diferente a cada retorno; sabemos que é isso que dá valor a uma viagem. Ouro Preto sempre foi e sempre será uma cidade infinita.

Gostaria de poder falar sobre Ouro Preto da mesma forma que o Paulão, antigo professor de História do Brasil do Anglo. Se não com as mesmas palavras com que ele me apresentou a cidade pela primeira vez, pelo menos com a mesma paixão com a qual ele descrevia Ouro Preto em sala de aula, falando da Inconfidência Mineira, e que fez com que um aluno, em um momento qualquer da década de 1980 desabafasse: “Pô, Paulão, por que você não leva a gente pra Ouro Preto ?”. Assim nasceu a primeira viagem do Anglo para as cidades históricas de Minas Gerais.

Entrei na aventura bem mais tarde, como convidado, e jamais esquecerei cada detalhe da primeira vez que estive em Ouro Preto, em 1999. A paisagem surpreendente, o ar da montanha, a visão noturna do Colégio onde sempre nos hospedamos, a arquitetura da cidade explicada minuciosamente pelo Paulão. Nomes escritos com giz no chão do Colégio. Becos estreitos cobertos de névoa, ganhando ares de mistério. O frio da cidade contrastando com o calor das paixões.

Porém, o aspecto mais encantador da viagem sempre foi a possibilidade do convívio entre as pessoas sem as restrições habituais do cursinho, como os horários rígidos balizados pelo toque do sinal ou mesmo o número excessivo de pessoas. Em Minas, os encontros se multiplicam e – sob o impacto das descobertas do dia ou mesmo da cachaça de Minas – acabam por transformar cada conversa em um Alegre Colóquio. Paulão era mestre no colóquio de botequim, falando de história, de música, da MPB que ele tanto gostava, das lembranças de viagens anteriores com outras turmas, de sua vida dura de estudante durante o regime militar. Paulão falava sobre o que era ser negro no Brasil. E tudo isso no meio de noites intermináveis, sob o espetacular firmamento de Ouro Preto, pelo menos antes que a névoa começasse a cair na alta madrugada.

Herdei a viagem em 2003 (estranha herança sem testamento), e imprimi o meu caráter ao roteiro: menos história do Brasil, mais história da Arte; menos pinga com mel, mais Filosofia. Foi quando fiz as minhas próprias descobertas, imediatamente compartilhadas com os alunos, como a obra do mestre Athaíde e seus anjinhos ou a igreja do Rosário e sua surpreendente fachada curva. Todavia, a parte que mais me honra nessa herança é a possibilidade de ser o novo anfitrião de Alegres Colóquios cada vez mais vibrantes.

As turmas de 2007 e 2008 foram talvez as melhores em todos os tempos, e passaram a fazer parte dessa longa corrente que dura já mais de vinte anos. E é isso que me empolga em manter a tradição da viagem: compartilhar descobertas, ir além da nossa experiência de cursinho limitada por quatro paredes, sentir o impacto da memória das minas, ter renovado o mesmo espanto que tive da primeira vez, ao contemplar o barroco mineiro (que me ensinou um novo olhar). Me empolgo ao proporcionar a todos a possibilidade de fazer parte dessa corrente.

Leio comentários no blog de pessoas que estiveram na viagem cinco, seis anos atrás e hoje acompanham minhas divagações: agora não são mais alunos, mas continuam sendo companheiros de descobertas. Fico sensibilizado e não consigo deixar de imprimir a esse post um caráter emotivo, assumindo o lado confessional que sempre tento evitar desde que inaugurei o blog.

Faço a todos que me lêem um convite para participar de Alegres Colóquios nas cidades históricas de Minas Gerais. Quem não for mais do Anglo que se sinta convidado do mesmo jeito, sempre fico feliz em receber ex-alunos no grupo.

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Na foto, a turma de 2007 descobre, perplexa, as imagens que se escondem nas sombras da escultura de Aleijadinho. As caras são ótimas: alguns enxergam, ficam encantados; outros ainda não e forçam a vista apertando os olhos. À direita, um menino esfrega as pálpebras, exausto. Nessa hora, minha explicação não basta: as pessoas tentam se ajudar umas às outras, tentam ensinar como olhar diferente.
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(postado originalmente em junho de 2009)

domingo, 30 de maio de 2010

Whatever works



Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da “história universal”: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer.

O trecho acima me veio logo à mente ao ouvir o monólogo que inicia o novo filme de Woody Allen, Whatever works, e expressa de alguma forma a visão de mundo de seu personagem principal Boris Yelnikoff (interpretado por Larry David, aliás, um dos criadores de Seinfeld). Essa visão nietzscheana esta presente, por exemplo, não só na sua desconfiança em relação ao “sentido” das coisas, mas à denúncia engajada de quem busca esse sentido. A visão mordaz da religião (facilitada pela estupidez explícita dos personagens religiosos do filme) e o elogio do acaso fazem parte do discurso nietzscheano de Yelnikoff.

Além de uma certa propensão ao isolamento (e a constatação de que possuem mentes brilhantes não reconhecidas pelos seus contemporâneos, meros inchworms), tanto o mal-humorado novaiorquino quanto o bigodudo alemão têm em comum a afirmação da pequenez do ser humano: somos nada, e nosso conhecimento e apenas uma frágil teia que construímos basicamente por que temos medo. Grãos de poeira jogados em um universo hostil, criamos fantasias que vão da moral à metafísica, da ciência à verdade, basicamente para nos sentirmos seguros. A metáfora da “teia” está no mesmo texto de onde foi tirado o fragmento que abre o post, Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, de 1873.

Com essa visão, Yelnikoff surge como um personagem niilista, e contagioso, ainda por cima. A própria Melody incorpora seu olhar e reclama após voltar de seu primeiro “date” novaiorquino: pessoas vazias, riem de tudo, se empolgam com tudo. Ou mesmo quando ela cruza com um rapagão boa pinta, Perry Singleton, passeando com os cachorros: “Posso caminhar com você ?”; “Ah, tudo bem, tanto faz, afinal todos estamos condenados mesmo”.

Mas Melody é a primeira a deixar de lado esse niilismo passivo (sigo os parágrafos 22 e 23 do livro de Nietzsche A Vontade de Poder). Sim, Melody aprendeu o niilismo passivo e logo passou a exercer o caráter destrutivo da visão de mundo de Yelnikoff, sempre pronto a não deixar pedra sobre pedra do universo de valores conhecido. Mas isso não satisfez Melody, ela seguiu em frente na sua busca... na sua busca por o quê ? Provavelmente na busca que ela iniciou quando fugiu de sua cidadezinha perdida no fim de mundo do Deep South norte-americano. Seguindo adiante com sua busca Melody passou a manifestar sintomas do que Nietzsche chamou de niilismo ativo: não se trata de substituir um artigo de fé por outro, mas seguir em frente rumo à realização da própria vida. Melody não se acomoda, rompe com Yelnikoff, segue em frente subvertendo seus valores como, aliás, seus pais fizeram (de forma radical) após chegarem em Nova York. Melody e seus pais de alguma forma expressam a vontade de poder, enquanto princípio criador e lei originária por trás de todo movimento do universo. São pessoas que estão se re-criando, enquanto Yelnikoff afunda na negatividade (até chegar ao ponto em que só a morte é solução).

Mas Yelnikoff é mais arguto que pensamos, ele aponta para outro tema nietzscheano, inseparável do princípio da vontade de poder (cuja explicação apenas esbocei logo acima): trata-se do eterno retorno. Considerando, como princípio, a existência de uma força constante no universo atuando em tempo infinito, toda idéia de finalidade ou sentido passa a ser descartada (desde que descartemos também o princípio de um deus criador); da mesma forma, o tempo infinito faz com que todas as conjunções de força possíveis já tenham ocorridos e só devam se repetir (acredite, a “eternidade” é tempo pra cacete!). Se todos os momentos vividos devem se repetir infinitas vezes pela eternidade, melhor aproveitá-los, vivê-los em sua plenitude.




Ao invés da ética cristã de responder pelos seus atos (e ser punido pelas faltas) no futuro, surge uma nova ética fundada em viver corretamente, aproveitando os momentos ao máximo (“sAdicionar imagemem prejudicar os outros”, acrescentaria Yelnikoff), para que sua repetição seja sempre bem-vinda. Sem buscar algum sentido ou finalidade, sem dogmas ou planos. Sem receitas. Whatever works.

sábado, 15 de maio de 2010

Em busca da música perfeita



Se sobrou alguma coisa de Deus no Ocidente, ela se encontra no vasto repertório de imagens, plásticas ou mentais, que o Cristianismo criou nos últimos dois mil anos. E continua criando, queiramos ou não. Por exemplo, nas imagens de Inferno e Paraíso que se oferecem à imaginação para que sejam constantemente recriadas, e eu me divirto inventando infernos e paraísos possíveis. Minha preferida, de longe, é certa visão do Paraíso que tive um dia, quando ouvia West End Blues, na gravação de Louis Armstrong em 1928, talvez a música perfeita.

Pensei nisso pela primeira vez quando me perguntei sobre a trilha sonora do paraíso. Qual música é tocada no céu, sendo repetida por toda a eternidade sem que ninguém jamais enjoe ? Claro, não se trata aqui de pensar seriamente em paraíso e inferno, mas simplesmente descobrir uma música que, de tão boa, provoque nada menos que uma epifania. Pois então, ponha West End Blues para tocar (http://bit.ly/9C70GP) e compartilhe minha visão.

introdução, trompete

Imagine que você agora morreu. A paisagem diante dos seus olhos, aparentemente desolada, é formada apenas por nuvens. (Talvez você vista um grande lençol branco, como o de Beatriz na Divina Comédia). Trata-se das portas do céu e, por um instante, você imagina o que acontecerá, se haverá um julgamento, se sua entrada será permitida. Subitamente, soa um trompete, anunciando que algo irá acontecer.

todos tocam juntos

Por todos os lados, surge uma revoada de anjos mulatinhos, como os que foram pintados pelo mestre Ataíde na Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto. Eles tocam instrumentos, e flutuam à sua volta. Em pouco tempo, você percebe trombone, piano, clarinete, percussão. Alguns anjinhos talvez tragam uma lira nas mãos, mais para efeito visual do que sonoro (anjos devem carregar liras, mesmo que silenciosas).

um trombone se destaca

Um dos anjinhos toma a frente e sopra seu trombone. Ele é a cara do Raul de Souza. Você percebe que seu pé, descalço e mesmo sem querer, começa a acompanhar a música.

solo de clarinete com uma voz ao fundo

Mais um anjinho surge à sua frente, agora tocando um clarinete. Sua música vem junto com uma voz que surge sabe-se lá de onde. Uma voz meio rouca, que diz palavras incompreensíveis. Seria Deus ? Mesmo sem entendê-lo, você se deixa levar pela musicalidade e, pela primeira vez, percebe que o chão onde se encontra é de nuvens: você flutua.

solo de piano

Outro anjinho tem um piano. Ele toca sozinho agora (mas quantas mãos ele tem ?), e conforme toca, as nuvens vão se abrindo. Você percebe alguém se aproximando, um vulto, talvez ele traga um trompete nas mãos.

solo de trompete

É Deus. Ele se projeta das nuvens na sua direção, imenso, negro, tocando trompete. Como na imagem acima, como uma imagem em 3D no cinema. Ele segura a nota (si bemol ?) por um tempo infinito, talvez quatro compassos, e é justamente nesse momento que você começa a perceber o que é a eternidade. E Deus toca o instrumento usando todos os seus atributos: é divino.

final com piano

Quando volta o piano, acompanhando o trompete, você já não tem mais dúvidas. É o Paraíso. E você faz parte dele.

domingo, 9 de maio de 2010

Da amizade



Sempre achei estranho que, quando criança, sempre tinha um “melhor amigo”, e depois de uma certa idade isso desapareceu. Deixei de ter amigos ou perdeu-se o sentido de destacar um deles como “o melhor”? Penso nos critérios que usava para eleger um melhor amigo: sobretudo, era necessário que a primazia da amizade fosse mútua, mas, além disso, o quê mais ? Talvez uma certa afinidade nas brincadeiras. Com M., meu melhor amigo dos 8 aos 10 anos, líamos Asterix furiosamente; sabíamos os diálogos de cor e nos divertíamos fazendo citações que os outros não entendiam (se estivesse no Twitter, acrescentaria o tópico #infâncianerd). Com L. melhor amigo dos 11 aos 13, o que nos unia era a paixão por carrinhos de ferro em miniatura (muito embora, para ele o valor das miniaturas estava nos carros propriamente ditos – tornou-se engenheiro –; enquanto para mim, a graça era a possibilidade de recriar o mundo em uma dimensão controlável – tornei-me historiador). Seja como for, já com 14 anos não tinha mais necessidade ou interesse em eleger o “melhor amigo”. Talvez porque com essa idade as prioridades sociais passassem a ser outras.

Há um texto em que Borges fala dessas estranhas “amizades inglesas, que começam por excluir as confidências e que logo também omitem o diálogo”. Esse trecho me faz pensar no estatuto que as amizades masculinas ganham com o tempo. Pois a partir de uma certa idade, surge a experiência compartilhada do trabalho, criadora de laços que dificilmente podem ser chamados por outro nome que não amizade. Com os colegas de trabalho, não buscamos interesses comuns (ou estes aparecem apenas como secundários), apenas realizamos o trabalho que deve ser feito. Não há espaço para expor a interioridade, embora esta transpareça como parte de nosso ser (e um colega de trabalho atento irá percebê-la). No trabalho, simplesmente acumulamos a experiência do viver junto, e com o tempo vai nascendo essa solidariedade das trincheiras, o sentimento de que estamos todos no mesmo barco, por mais estranheza que cause o colega ao lado. Não importam se seus interesses são distintos do meu ou não, não importa se sua interioridade é mais fraturada que a minha: o que importa é que amanhã estaremos lá, juntos, como estivemos ontem. No trabalho, eu não irei eleger a figura transcendente do “melhor amigo”, mas jamais irei deixar o colega na mão. Com o tempo, as amizades do trabalho começam a lembrar as amizades infantis, pois sabemos quais colegas compartilham dos nossos gostos ou manias.

[Interlúdio pop. Friends parece louvar a amizade, mas é meio irreal: seus personagens são essencialmente infantis, aliás toda a graça da série vem de observar como crianças grandes lidam com as coisas da vida adulta. Por outro lado, Seinfeld é mais real, ao mostrar uma rede de amizades masculinas (e Elaine é tremendamente masculina na sua relação com os rapazes). Toda a graça de Seinfeld vem da forma sarcástica como eles se agridem ou tiram vantagem da fraqueza do outro no dia a dia; porém, na hora da necessidade, o amigo sempre estará presente. Os personagens de Friends usam o termo “melhor amigo”, os de Seinfeld, não.]

Mas estranho mesmo é a amizade entre homem e mulher, talvez a única forma possível de amizade adulta que não necessita nem da sociabilidade gerada pelo trabalho, nem do simples compartilhamento infantil de gostos e manias. Em uma amizade entre homem e mulher, cria-se uma cumplicidade e um grau de envolvimento encantadores, porém, sempre à beira do abismo: o risco da amizade transformar-se em algo além. Quando isso ocorre, valores que fundam a amizade são colocados em cheque: o desprendimento é substituído por um sentimento difuso de posse; a dedicação unilateral é substituída pelo desejo de ter algo em troca.

Quando o sentimento que leva a ultrapassar a amizade é mútuo, ela se transforma em outra coisa: uma relação, que deixa de ser objeto de minha reflexão. Mas quando esse sentimento é unilateral, então o melhor é tomar fôlego e construir uma travessia por cima do abismo: uma ponte, formada de silêncio e que, depois de uma árdua superação e contando com o efeito analgésico do tempo, acaba por levar a amizade para o plano mais elevado que possamos encontrar.

Nessas horas – e, sobretudo, durante a travessia – o importante é não olhar para o abismo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Depois do espelho

(continuação)

Alberto Manguel, em seu famoso ensaio sobre Alice no País das Maravilhas, desenvolve o tema da irracionalidade do mundo capitalista, analisando o comportamento do Chapeleiro Maluco. Trata-se do arquétipo do burguês, dispondo daquilo que não lhe pertence (afinal, a mesa de chá, na qual ele é soberano, pertence ao Coelho) e profundamente egoísta: lembremos que cada vez que o chá acaba, todos avançam uma cadeira, ou seja, somente ele, Chapeleiro, primeiro da fila, terá sempre uma xícara limpa diante de si. A mesa de chá pode ser entendida como o próprio mundo, que se torna devastado após a passagem do burguês. Senhor do tempo (“Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu”, diz a Alice, ameaçadoramente), ele ainda exerce a censura (calando a boca de Alice, mal ela começa a falar) e jamais prestando conta de seus atos: ao final do livro, no Julgamento, o Chapeleiro recusa-se a tirar o chapéu que, afinal, não lhe pertence, ele é apenas um vendedor de chapéus.

Mas, voltando à busca de Alice, qual o resultado de sua jornada ? Em que momento da narrativa (se é que em algum) nossa personagem se reconcilia com si mesmo, respondendo à pergunta que não para de persegui-la, “quem é você” ? A resposta aparece logo no capítulo 1, embora Alice não se dê conta. Após beber de uma garrafa e começar a encolher, Alice teme diminuir até desaparecer. E pergunta: “Nesse caso, como eu seria ? E tentou imaginar como é a chama de uma vela depois que ela se apaga. Pois não conseguia se lembrar de jamais ter visto tal coisa”. Desatenta, Alice ! Pois ela sabe muito bem o aspecto que algo tem depois que desaparece. Poucas páginas antes, enquanto caía na toca do Coelho, Alice pensou em Dinah, sua gata, e observou que esta sentiria sua falta à noite. Ou seja, uma vez que Alice desaparece, a única coisa que restaria seria sua memória, a saudade de Alice. E é aqui que ela passaria , finalmente, a existir, a ser: nós somos o que os outros percebem de nós. Nossa existência só é real na medida em que vivemos na mente de outra pessoa (metaforicamente, a gata Dinah).

Com essa conclusão, a frase da Duquesa (cap.9), aparentemente uma das frases mais confusas ou insanas de todo aquele universo louco, ganha uma nova dimensão:

“... e a moral disso é: ‘seja o que você parece ser’... Ou, trocando em miúdos, ‘Nunca imagine que você mesma não é outra coisa senão o que você poderia parecer aos outros do que o que você fosse ou poderia ter sido não fosse o que você não tivesse sido parecido a eles ser de outra maneira”

Através da memória, resgatamos essa presença na mente dos outros, portanto, nos damos conta da nossa existência. E a memória de Alice só irá ser provocada em Dinah porque entre as duas existe um afeto: a própria Alice passa a aventura recordando-se (chamando à memória) da sua gata querida. Nós só existimos nos outros - portanto, só percebemos nossa existência - quando provocamos afetos, que alimentam a memória e provocam a lembrança.

Ou, como diria a Duquesa: “... e a moral disso é, ‘Oh, é o amor, é o amor que faz o mundo girar’ ”.
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[O ensaio de A.Manguel chama-se "À mesa com o Chapeleiro Maluco" e está no livro do mesmo nome (pela Cia.das Letras) / A observação da Duquesa lembra tremendamente o último verso da Divina Comédia, quando Dante se refere a "l'amor che move il sole e l'altre stelle" / Agradeço ao pessoal do seminário PET-Direito (USP) pela inspiração].