segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Candy Crush Conatus




O jogo é de uma grande simplicidade: agrupar docinhos do mesmo tipo em uma sequência de casas, provocando seu esmagamento e contando pontos. Algumas variações incluem casas cobertas de gelatina, mais difíceis de dissolver, chocolates que se multiplicam feito células cancerígenas (dando ao chocolate uma estranha negatividade) e assim por diante. Ao ganhar pontos e limpar casas, o jogador está apto a mudar de fase. Estou na fase 86, conheço gente que passou de 200 e não há fim à vista. O jogo parece ser eterno e, sem dúvida, é viciante.

 E multidões se dedicam a ele. Há amigos de quem não recebo notícia, mas sou regularmente informado, via Facebook, de seus triunfos no Candy Crush. Outros amigos, que tomo por intelectuais refinados, volta e meia pedem-me “vidas”. Parentes, colegas de trabalho, pais de família, todos jogam. Por quê ? Qual o poder de atração de um jogo tão simplório ?

 Incialmente pensei em simples higiene mental: após um árduo dia de trabalho e demandas intelectuais, após horas a fio se preocupando com respostas racionais a problemas concretos, o Candy Crush oferece um momento de desligamento. Aprende-se a mecânica de Candy Crush rapidamente, joga-se quase sem pensar, e pequenas recompensas surgem sob a forma de sucessivas mudanças de fase. Graus crescentes de dificuldade entre as fases ajudam a provocar, periodicamente, uma sensação de satisfação.

 Todavia, a maior parte dos trabalhos que fazemos no cotidiano talvez já seja mecânica e não demande muita reflexão. Normalmente, as recompensas que temos por esse trabalho enfadonho são tão fúteis quanto as de Candy Crush: bens de consumo, cuja satisfação prometida se esgota pouco após a compra. Sendo assim, permanece a pergunta: qual o poder  de atração da saga de Candy Crush ?

 Há em Spinoza o difícil conceito de conatus, descrito pelo filósofo como algo semelhante a um “apego à vida”. Mais do que simples instinto de sobrevivência, o conatus expressa o desejo de efetivamente viver a vida, realizar a vida. Trata-se, ao que me parece, de um impulso essencial do ser humano, o desejo de querer “ir para frente” de buscar um “desenvolvimento” pessoal. O uso da palavra “desenvolvimento” pode parecer exagerado, e remeter a um aspecto econômico que não é obrigatório na efetivação do conatus; ao mesmo tempo, a referência a “pessoal” não pode limitar o conceito ao puro individualismo: realiza-se o conatus na vida em sociedade ou, como diria Spinoza, na Natureza.

 Mais tarde, Nietzsche desenvolveu o conceito de vontade de potência, que vai na mesma linha. É conhecida a carta de Nietzsche a Franz Overbeck, em 1881, na qual o filósofo alemão de diz maravilhado com a descoberta de Spinoza e afirma a grande proximidade com seu pensamento. Em Nietzsche fica claro o sentido da vontade de potência como o poder ou impulso de afirmar a vida, algo imperativo diante da doença que afetava cada vez mais a civilização.

 Atualizando Nietzsche, há muito em nossas práticas do cotidiano que nega a vida. O trabalho enfadonho com relógios de ponto e atividades repetidas diz não à vida; a excessiva quantidade de normas que regulamentam cada passo do dia a dia diz não à vida; ônibus lotados e mal cheirosos (em faixa preferencial ou não) dizem não à vida; síndicos de prédios e diretores de escola, guardiães da norma, dizem não à vida; o chefe que grita com o funcionário e o machão que assobia para a moça de minissaia dizem não à vida; salários indignos dizem não à vida; fast food diz não à vida; o crime (e a PM) dizem não à vida; escrever esse texto para entregar “no máximo até quinta-feira à tarde” diz não à vida.

 De minha parte, e diante de tantas limitações no dia a dia, tento compensar jogando Candy Crush. E peço para todos aqueles que têm facebook: ajudem-me a ter sucesso enviando-me mais vidas.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sobre piratas



Qual o espaço ocupado em nosso imaginário pela figura do pirata ? Por quê – seja onde for esse espaço – a figura do pirata provoca fascínio, que quase sempre inclui o poder de sedução em que pese seu estatuto de marginal ? Sequer é necessário lembrar da imagem midiática do capitão Jack Sparrow de Johnny Depp, arrancando suspiros sabe-se lá de quantas pessoas.

Partindo de uma definição trivial, identifico o pirata como o fora-da-lei que age por conta própria. Seu tempo é histórico, a ameaça que poderia eventualmente representar acaba se dissolvendo em um passado mais ou menos nebuloso (afinal, com exceção do especialista, quem pode afirmar com precisão em que época atuavam ?). Claro, não me refiro aqui a fenômenos contemporâneos, como os “piratas” da Somália: grupos tão violentos e desesperados (e reais) que a própria denominação “pirata” nesse caso pede as aspas. Descartando os “piratas” contemporâneos, incluo no conceito de pirata imaginário a sedução e o fascínio.

O pirata imaginário é competente, excepcionalmente competente, tanto que obriga a mobilização de forças excepcionais para combatê-lo. Ele é o melhor espadachim, o melhor navegador, o estrategista mais habilidoso. Além disso, o pirata age desprezando convenções, e assim fazendo constrói uma identidade absolutamente singular. À bordo do navio pirata, encontramos personagens únicos como Long John Silver, Capitão Gancho, Tristeza Sangrenta, Rackham o Vermelho, Sam o Caolho e Tom Perna-de-pau.

(Sim, há sites que geram um nome pirata para você. Vários sites. Por exemplo, em http://www.piratequiz.com/result.php , após preenmcher um divertido questionário, descobri que meu nome pirata seria  Dirty Sam Kid.    http://pirate.namegeneratorfun.com/  produziu para mim, meio aleatoriamente, o impagável  nome “John ‘Pieces of Eight’ Blighty, o mão sangrenta da Ilha dos Macacos”.)

Piratas são diferentes dos homens uniformizados que manejam os navios da Coroa, daquela multidão de capitães e tenentes e marinheiros, todos eles anônimos e intercambiáveis, que servem fielmente ao Rei, e a ele obedecem sem pensar.

Dos piratas, invejamos sua independência, sua identidade, sua competência. Sabemos que, por serem criaturas singulares, criam suas próprias normas. Talvez seja exatamente isso o que neles mais invejamos. Queremos ser piratas, porém faço uma advertência: sabemos que é bem difícil viver em uma sociedade na qual cada um cria suas próprias normas, em que cada um se considera um pirata.

Mesmo assim, sigo preservando o culto aos piratas, porque sei que eles nos ajudam a lembrar a precariedade da norma, das avaliações estreitas e dos rigorosos métodos  administrativos, em tudo que podem ter de limitador e até de destruidor do trabalho criativo. O administrador da fábrica que nunca pisou no chão da oficina, o contador que não sabe trocar uma lâmpada, o pedagogo que jamais teve uma classe cheia diante de si, aquele que faz as leis trabalhistas e não trabalha... esses são os anti-piratas por excelência, avançando rapidamente na construção de um mundo administrado, entediante, sem graça nenhuma.

 

sábado, 13 de julho de 2013

Depois de Junho




A – Estratégias da ilusão
 
A esquerda é dotada de visão arguta, e costuma brandir as armas da crítica como ninguém  (a ponto de o próprio ato de brandir as armas da crítica ser considerado por si só um gesto de esquerda). A direita quase sempre evita o debate, mais interessada que está em usufruir do status quo. Dessa forma, o pensamento crítico acaba sendo quase monopolizado pela esquerda, e é quando pode surgir uma estranha forma de alheamento da realidade que resulta na elaboração das estratégias da ilusão. O fenômeno é bastante comum: certos grupos, por simples falta (ou, vá lá, recusa) do diálogo tornam-se irremediavelmente descolados da realidade, debatendo, fechando-se e dando voltas em torno de si próprios. Referência: Intentona de 1935 e o imperdível livro do imperdível Paulo Sérgio Pinheiro, de onde tirei o subtítulo acima.
 
B – Parole, parole
 
Quando o discurso se faz na rua ou sobre o palanque (ou se manifesta em blogs...), ele deixa de ser preciso, e morre vítima do reducionismo mais sórdido e do maniqueísmo mais tolo. Raros são os momentos históricos em que um Lenin conseguia captar o espírito das massas e traduzi-lo em slogans curtos de impacto imediato. Talvez na sociedade russa pós-feudal (ahn ?) isso ainda fosse possível, mas a experiência do século 20 já mostrou o quão raro isso pode existir em uma sociedade complexa. Referência: dos totalitarismos à democracia formal (sem amarrá-los no mesmo feixe, mas observando a instrumentalização do discurso em ambos).
 
C – Violência gera violência
 
Ao iniciar um ato de violência, a resposta imediata inevitavelmente será a violência. A descida rumo aos instintos mais primários resulta em uma infantilização brutal, que acaba se manifestando em discussões tão bizantinas quanto pueris sobre “Quem começou primeiro” [sic]. No dia em que o filho morre nos braços da mãe, faz-se necessário parar e pensar se a luta vale a pena.  (“Mas, esperem um pouco, do jeito que está os filhos já estão morrendo nos braços das mães !”. A saída me parece bem mais complexa do que quebrar vidraças.) Referência: o euroterrorismo nos anos 70.
 
D – Estratégias da ilusão II
 
O capitalismo estimula valores como a competição, individualismo e lucro, bem como a realização do sucesso através da posse de objetos materiais, e do mais mágico de todos os objetos: o dinheiro. Nesse contexto, a corrupção é inerente ao sistema. Partindo dessa constatação e fazendo uma leitura rasa do materialismo marxista, a conclusão só pode ser: basta mudar a organização material da sociedade (sua ordem socioeconômica) que o universo de valores também irá mudar. O mecanicismo por trás dessa concepção é evidente, e três ou quatro modalidades de organização socioeconômica alternativas praticadas a partir do século 20 provaram o tamanho do problema e a apontaram para a persistência da corrupção, sob novas roupagens. Referência: modelos soviético, chinês, albanês. Khmer ? Chavismo ?
 
Volto às sociedades complexas. O bom Max Weber observava, argutamente, a criação de amplas estruturas burocráticas necessárias para efetivar a produção e a distribuição, bem como a administração de sociedades populosas e centros urbanos gigantescos. Privadas ou públicas. Oras, abolindo-se a atual organização socioeconômica e descartando-se os modelos históricos alternativos fracassados, alguém me diz como sobreviver como 7 bilhões de pessoas no planeta, sem as tais organizações burocráticas gigantescas, essas sim, corruptíveis na sua própria essência ?
 
Resumindo e colocando em outras palavras, em que sentido a luta deve se encaminhar ? Onde devem ser abertas as novas trincheiras ?
 
 

domingo, 23 de junho de 2013

De-sa-ba-fo

 
I
 
 
Não tenho a menor dúvida de que um grande pecado das gerações mais velhas é enxergar o presente com a vista turvada pelo passado. A suposta sabedoria vinda da experiência muitas vezes faz com que o novo seja simplesmente falsificado, evitando o entendimento. Por outro lado, as gerações mais jovens tendem a enxergar o que para elas é novo com um evento inédito na história. Dessa forma, parte-se alegremente para a repetição o que já foi, incluindo todos os seus erros. Nos dois casos, tanto para os mais velhos (sábios que pouco sabem) quanto para os mais jovens (virgens caminhando para o estupro), acabamos repetindo o passado, seja praticando a farsa ou lamentando a tragédia.
 
 
Diante disso, lamento constatar: perante a história, somos todos “os mais velhos” ou “os mais jovens”, não há exceções. Contam-se nos dedos aqueles que conseguiram captar o presente do seu tempo, em toda sua plenitude e com toda sua singularidade.
 
 
Um dia, diante da crise, Jânio pareceu ser aquele que entendeu o seu tempo, pairando acima das desavenças e anunciando o novo. Era mentira. Anos depois, foi a vez de Collor surgir como o profeta do tempo presente, o messias da Nova Era. E foi uma farsa. A grande questão hoje não seria: como evitar uma tragédia ?
 
 
II
 
 
Por que escrevo ? Não tenho dúvida que, por alguma uma estranha perversão epistemológica, penso melhor por escrito do que falando. Se o enunciado do meu discurso falado costuma ser, ao mesmo tempo, consistente e convincente – chegando às vezes na proximidade do belo – é porque antes ele foi previamente elaborado como escrita. Quanto ao debate impromptu, sou uma catástrofe: os argumentos me escapam, os esquecimentos são recorrentes e o esprit de l’escalier está sempre à espreita.
 
 
Dessa forma, tento entender as coisas através da escrita, e compartilho minha busca aqui ou ali – por exemplo, neste blog. Porém, seria tolo em não reconhecer que também existe um componente de vaidade na escrita, ainda mais quando se assina um texto. Sempre cito um episódio ocorrido nos últimos anos de vida de Foucault, quando o filósofo desabafou: “No fundo escrevemos porque desejamos ser amados”. (Claro, o estágio avançado de sua doença fez com quem ninguém se atrevesse a fazer o gracejo inevitável: “Então porque não escreve mais fácil, para que mais gente possa entendê-lo e, portanto, amá-lo ?”).
 
 
Aproveito a citação de Foucault para usar mais algumas de suas palavras como justificativa: “a escrita serve para cortar”. Para ferir. De que adianta uma escrita complacente ? Se não utilizar o discurso para abalar o chão onde me apoio e, se possível, remover o solo sob meus pés, de que serviria tudo isso ? Por o dedo na ferida das certezas é deslocá-las constantemente, e é acreditar que os valores, esses sim, devem ser chacoalhados um atrás do outro. Às vezes é muito mais fácil quebrar vidraças que valores.
 
 
III
 
 
Quando vi as ruas ocupadas por um punhado – e no começo era apenas isso, um punhado – de gente defendendo uma causa que, na sua especificidade inicial parecia ser diminuta, quando vi os ”suspeitos de sempre” (grupos como “juventude maoísta”, “Coletivo Anarco-Punk do Baixo Augusta” etc.) ocupando as ruas, eu confesso,   assumo e não peço condescendência: não dei a mínima bola. Foi quando escrevi o texto do dia 13 de junho, pela manhã, e aproveitei para “usar a faca”, inclusive pensando naqueles que participaram da manifestação do dia 11 e em seguida divulgaram fotos no facebook posando de heróis do instagram.
 
 
No mesmo dia, no final da tarde, não apenas a polícia baixou o cacete de forma violenta – o que talvez se justificasse no caso de uma multidão de Hitlers – como também o movimento ganhou em tamanho e pauta reivindicativa: não mais os centavos, mas mudanças na política de transporte público, reestruturação da Polícia com abolição da PM, etc. Claro, aderi: é o momento em que se sai da situação de conforto para berrar. Seguiu-se a passeata de segunda-feira, após a qual escrevi o texto sobre a necessidade de enterrar 1968: contra utopias e propostas vagas (portanto contra o que hoje é chamado “coxinização” do movimento), pedindo uma inclusão para quem saiu as ruas pela primeira vez (tentando fugir dos slogans da velha política maniqueísta. Claro, muitos dos que saíram às ruas pela primeira vez nos dias seguintes começaram a fazer passeata cantando “Eu sou brasileiro/ com muito orgulho/ Com muito amor”, e aí já é forçar a amizade).
 
 
Mesmo com mais essa volta do parafuso, ainda tento encarar o que é novo e enxergar o presente destruindo as lentes do passado. Não sei se tenho sucesso e, em caso negativo, já disse, não espero condescendência. Encerro com uma de minhas citações preferidas:
 
 
Acho que só devemos ler a espécie de livro que nos ferem e nos trespassam. Se o livro que estamos lendo não nos acorda com uma pancada na cabeça, porque o estamos lendo ? Por que nos faz felizes ? (...) Mas nós precisamos de livros que nos afetam como um desastre, que nos magoam profundamente, como a morte de alguém a quem amávamos mais do que a nós mesmos, como ser banido para a floresta longe de todos.  Um livro tem que ser como um machado para quebrar o mar de gelo que há dentro de nós. É nisso que eu creio. (Franz Kafka, “Carta a Oskar Pollok”, 1904)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Novas considerações desapaixonadas


1 – Suspeito que o movimento ganhou dimensão porque a classe média foi para as ruas. Pelo menos foi isso que vi no 17 de junho e nas, digamos, cem mil pessoas que lá estavam. Eram jovens, quase sempre bem vestidos, quase sempre brancos (isso é francamente perturbador), grande número de estudantes universitários. (E vamos combinar assim : ninguém deixa de ser classe média por estudar Sociais na USP, ok ?). Guardo na memória um comentário que ouvi de um grupo de trabalhadores uniformizados (da Eletropaulo ?) que contemplava a passeata: “Trabalhar que é bom essa gente não quer...”.
 2 – Ao ganhar dimensão, o movimento perde consistência: começam a ser ouvidas as propostas vagas, típicas de classe média: contra a corrupção, pela moralização. Ou ainda, o inevitável “contra os impostos”. Felizmente, essas propostas ainda são minoria, os vinte centavos e as consequentes melhorias no transporte público, bem como a mudança na política de transportes ainda dão a tônica do movimento. Cabe aqui, mais do que nunca, fechar um projeto, atrelar a mudança no transporte público à mudanças na própria estrutura dos governos municipais (por exemplo, em São Paulo, quem precisa de 55 vereadores ? O Tribunal de Contas e seus nababos, servem para que ? A Prefeitura ainda tem a petulância de ter gastos com marketing ?). Já vejo a maioria dos manifestantes de classe média devidamente sensibilizados por pautas como essa, e as propostas vazias começam a ser deixadas de lado.
 3 – Se a classe média sair do movimento, quem vai sobrar ? Haverá um chamado às massas proletárias ? Acredito que, se houver, não será atendido: a massa proletária transformou-se na classe C emergente. Será que diante das prestações do carro novo (aproveitando o IPI reduzido), alguém vai sair nas ruas para defender melhoras no buzão ? Estou evidentemente exagerando, mas acredito apontar para um problema muito sério: o projeto de inclusão pelo consumo pode ter “matado” o que sobrou das massas proletárias.
4 – Se a classe média for embora e as massas proletárias não comparecerem, a única coisa que vai sobrar para o movimento vai ser a violência, como única forma de preservar a duramente conquistada visibilidade. Mais um vez, escrevo no calor da hora: são 22h20 e começam a chegar notícias de lojas saqueadas e bens de consumo roubados no centro de São Paulo. Claro, legitimando a repressão; e o resultado é que se continuar assim ninguém mais vai para a rua, muito menos a classe média.
 5 – Num país onde se afronta a lei cotidianamente, partindo do estado e de sua máquina, respeitar a lei é quase um ato radical, e é a única forma de enfrentar a barbárie que encontrou uma forma de expressão no moralmente falido estado brasileiro.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Enterrando 1968

 



A cena foi vista na passeata do dia 17 de junho em São Paulo: o jovem começou a entoar o refrão de “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, um dos hits revolucionários de 1968, e ficou sozinho. Ninguém acompanhou. Foi quando tive a intuição de que as novas gerações finalmente não precisam mais viver – e, sobretudo, agir – sob a sombra de 1968.
 
Identifico um duplo legado de 1968. Em primeiro lugar, a reivindicação de utopias, conforme exemplificado pelos famosos slogans do maio de 68 francês (“A imaginação no poder”, “É proibido proibir”, “Sejamos realistas, peçamos o impossível”). Se por um lado tais slogans são de uma simpática beleza poética, e podem até sustentar manifestações durante, digamos, uma primavera, por outro são evidentemente de realização impossível. Ao invés de apontarem para um projeto, indicam tendências, que se perdem em meio a abstrações infinitas.
 
Em segundo lugar, o 1968 brasileiro trouxe a transformação da luta política em um confronto maniqueísta. A ditadura militar facilitava a tendência, sendo claramente identificada como um mal que deveria ser combatido, o que transformava todos os seus adversários no campo do bem. Uma vez que os líderes da luta contra a ditadura estavam no campo da esquerda, aguardava-se o surgimento do nosso Lenin, quem sabe na pele de um José Dirceu ou Vladimir Palmeira.
 
Oras, o 2013 brasileiro parte de uma reivindicação bastante concreta (contra o aumento das tarifas de ônibus urbano), e tira daí um verdadeiro projeto de mudanças. Se não revolucionárias, pelo menos capazes de transformar algo na vida das pessoas. Dentre outros, o que se ouve pelas ruas:
 
- transporte público de qualidade, incluindo preços seriamente subsidiados e mudança na ênfase das políticas públicas de transporte (que até hoje sempre beneficiaram transporte individual em prejuízo do coletivo);
- oposição à PEC 37, ao Estatuto do Nascituro, à “Bolsa Estupro”;
- reorganização completa das forças de segurança pública, incluindo a abolição das PMs.
 
Reinvindicações vagas e com alvos difusos (como “abaixo a corrupção”) mal se ouvem em meio ao barulho da multidão. Slogans anarquistas contra o “sistema” também se perdem. Ou melhor, acabam atrelados aos atos de violência repudiados pela ampla maioria dos que vão ás ruas. Acho.
 
Escrevo no calor da hora, e percebo os tradicionais partidos “de rua” (PSTU, PSOL, PCO) tem pouco espaço no movimento. O MPL se diz apartidário e, de fato, nas manifestações, a quantidade de bandeiras dos partidos ditos radicais é mínima. Hoje, lá pela tantas, ouvi brevemente um coro “Ei, PSTU, vai tomar... “ etc. Nesse sentido que entendo que o objetivo do movimento certamente não é implantar, sei lá, o centralismo democrático como primeiro passo para  a introdução da ditadura do proletariado. Enfim, até agora não apareceu nenhum candidato a Lenin em nenhum palanque. O que há de revolucionário é um desprezo generalizado à classe política, e mesmo quando vejo cenas de “vândalos” escalando o Congresso nacional, ameaçando o Legislativo carioca ou cercando o Palácio de Governo do Estado de São Paulo, não me incomodo muito.

Seja como for, 1968 deixa de projetar a sua sombra, que durante muito tempo impediu que se pensasse por conta própria, que se agisse por conta própria. Finalmente, 1968 está enterrado, e as gerações atuais não estão mais condenadas a repeti-lo, nem como farsa nem como tragédia.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Considerações desapaixonadas sobre a "baderna"



Sobre as manifestações ocorridas na cidade, nos últimos dias:

1 – A primeira pergunta é: quem são os manifestantes ? De imediato, identifico sua pluralidade. Há aqueles que vão às ruas por se oporem ao aumento das tarifas no transporte (acredito que sejam a minoria), há os chamados radicais, que aproveitam qualquer manifestação para expressar sua oposição ao “sistema” (são os que aparecem mais) e finalmente há os que aproveitam a mobilização para manifestar o seu descontentamento difuso (acredito que sejam a maioria). O descontentamento difuso, por sua vez, resulta do fato de que a democracia formal parece não resolver os problemas que afligem o cotidiano paulistano ou brasileiro, desde a paralisia urbana até a violência bárbara. O que está em jogo é a brutal ineficiência do Estado, e essa situação não parece que vai mudar, dadas as nulidades políticas que nos cercam (de Dilma a Alckmin, passando pela trágica constatação de que o grande plano B da nação é Aécio Neves Zero-à-esquerda). Em outras palavras, basta.

2 – Nas manifestações, há a Juventude Petista, mas um diretório do PT foi invadido; há a história trágica do policial solitário que iria ser linchado pelos manifestantes, mas que acabou sendo salvo por outros manifestantes; há os que são contra aumento da tarifa do transporte coletivo, mas chegam de carro próprio para a manifestação. O que importa aqui não é apontar contradições – que seria de nós sem elas ? – mas insistir ainda uma vez na pluralidade do movimento. Talvez essa seja sua grande riqueza.

3 – Sobre os que cometem atos de destruição: não sei qual o sentido de pixar (mais) uma parede. Ou de depredar o já precário transporte coletivo. Ou de prejudicar a vida de literalmente milhões, que só querem chegar em casa que depois de um dia de trabalho cansativo. Circula por aí uma imagem, supostamente engraçada, do famoso quadro da Queda da Bastilha, com um balão de diálogo acrescentado: “Sem quebrar nada pessoal”. A única graça possível está no paralelo entre Paris de 1789 e São Paulo de 2013. Lamento constatar, mas aqui não há uma Bastilha a ser tomada. Não existe uma revolução em andamento, para a frustração de muitos que participam do movimento.

4 – A crítica generalizada à cobertura da imprensa me causa espanto. Acredito que boa parte dessa crítica tenha um fundamento duvidoso: a mídia não publica a verdade. Oras, qual a novidade nisso ? Se um jornal chama os manifestantes de São Paulo de vagabundos e os de Istambul de ativistas, é porque há uma tomada de posição. E daí ? Melhor assim do que um veículo da imprensa que se anuncie como portador da verdade. Pensando nisso, começo a imaginar que muitos dos que reclamam da mídia o façam partindo de um outro fundamento, nem sempre admitido: a mídia não publica o que EU considero verdade. Nos dois casos, são bases bem frágeis para criticar a imprensa.


5 – Até quando vamos viver sob a sombra e a inspiração daqueles herois que combateram a ditadura ? Não duvido do heroísmo de alguém diante da tortura, mas penso em seu legado. Para muitos, ter um passado de luta é credencial para a construção de uma identidade presente. Diante da vigência do estado de Direito, as oportunidades de construir um currículo heróico como o desses combatentes do passado recente são escassas. Daí a necessidade de fazer coisas como invadir a reitoria da USP, ser perseguido pela polícia em alguma manifestação (qualquer manifestação). Tenho essa impressão ao constatar que um bocado de jovens de classe média, estudantes universitários (meus ex-alunos !) divulgam copiosamente sua participação nas manifestações através das redes sociais. Não haverá aqui uma manifestação do egoísmo pequeno-burguês em se aproveitar de um movimento popular para fins individualistas ?

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Democracia e fetiche



A reflexão surgiu quando ouvi o notório Renan Calheiros defendendo-se de críticas, logo após ser nomeado pelos seus pares Presidente do Senado (ou será que foi quando ouvi Sarney defendendo-se após ser nomeado nem lembro mais o quê ?): “Aqueles que criticam o Legislativo estão atacando a democracia”. Existe uma variação desse argumento, que é usada quando a imprensa critica um governante: “A imprensa não respeita os representantes eleitos pelo povo, prova de que ela é inimiga da democracia”.

Nos dois casos, trata-se de manifestações do que chamo fetichização da democracia. Como em todo fetiche, trata-se de um desvio do conceito, que passa a ser entendido de forma parcial, através de apenas um dos seus aspectos. Na verdade, no fetichismo, as coisas são entendidas apenas como aparência daquilo que são. Enfim, uma ilusão.

Na fetichização da democracia, tudo se resume ao voto, e somente ao voto. Todo governo eleito é considerado democrático, independente de suas ações, “afinal, foi o povo que escolheu”. Na fetichização da democracia, tudo está pronto para a violência contra o Estado de Direito, e o Judiciário está sempre sob ameaça. Na fetichização da democracia, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara assume abertamente posições homofóbicas, e tudo bem pois foi escolhido por um Congresso democraticamente eleito. Na fetichização da democracia, esvazia-se qualquer projeto nacional de longo prazo: tudo se resume a preservar no poder o “democrata” de plantão. Na fetichização da democracia, faz-se necessário agradecer aos eleitores, àquela maioria que fez o favor de eleger o governo: o populismo torna-se moeda corrente. Na fetichização da democracia, tudo vale para “salvar a democracia”, inclusive a violência: em 1964, o golpe foi justificado como forma de defendê-la.

As origens da fetichização da democracia (alguns preferem o termo democracia formal) podem ser encontradas naqueles momentos em que a democracia passa a ser uma simples bandeira de luta, e como tal transforma-se em slogan. Refiro-me a longos períodos de ditadura, em que a democracia não é praticada e transforma-se em um ideal, tendo início seu esvaziamento de conteúdo. (Em nossos caso brasileiro, de fato, os últimos anos do Regime Militar assistiram à luta pela redemocratização; porém, na época, por acaso alguém se perguntava que democracia queríamos ? Não, pois o inimigo era tão formidável que era melhor concentrar as forças e aglutinar as massas atrás de slogans fáceis como “Diretas Já”).

O segundo ingrediente necessário para a fetichização da democracia é a fragilidade das instituições, tradicionalmente submetidas aos desmandos dos poderosos. Fragilizadas, podem ser assaltadas pelos que agem “em nome do povo”. Chega, cansei de aspas: falo aqui de Chaves na Venezuela, de Erdogan na Turquia, de setores do PT em torno do governo federal. Observe como coloco esse nomes ao lado de esbirros como Calheiros, Sarney & Feliciano, além de uma nada nada discreta referência ao Regime Militar.

Desconfio que a luta desde há muito deixou de ser entre socialismo e capitalismo. Suspeito que se trate cada vez mais de lutar pela civilização contra a barbárie. Voltarei a isso.

 

domingo, 19 de maio de 2013

Mais constrangedor impossível

 
A foto é constrangedora sob todos os aspectos. Um automóvel. A compra de um automóvel. Balões coloridos celebrando o ato da compra do automóvel. Um comprador distraído surpreendido diante de uma câmera e sem tempo de pensar em uma rota de fuga.
 
Não gosto de automóveis. Imagino que as gerações futuras irão rir de nós: inventamos uma civilização tecnológica na qual um indivíduo, para se deslocar, leva consigo 700 quilos de ferro, aço, plástico e vidro, e ainda por cima emite poluentes no processo. A irracionalidade  da coisa toda é escandalosa.  Automóveis são, ao mesmo tempo, desastres ambientais e urbanísticos. Necessitam de largas vias asfaltadas (isto é, de solo impermeabilizado) para circular. Estimulam a agressividade e o individualismo, no âmbito do trânsito. Se levar em conta as condições de produção de automóveis na indústria, seja fordista ou toyotista, imagino que o desastre seja também social.
 
Choro lágrimas de sangue sempre que constato que, na cidade onde vivo, sou obrigado a possuir um automóvel, devido à absoluta precariedade do transporte público (entenda-se: insuficiência dramática de linhas de metrô). Por pior que seja, sem automóvel  meu deslocamento pela cidade se tornaria ao mesmo tempo mais restrito, arriscado e  dispendioso em tempo. Sendo assim, tenho que suportar a vergonha de possuir um automóvel.
 
O surgimento de uma nova geração de automóveis, compactos, me dá um pingo de otimismo para enfrentar o apocalipse motorizado. Gosto de pensar que a posse de um mini carro possa ser considerada como um humilde manifesto  contra a cultura dos carros e carrões, das cilindradas e potências, dos SUVs e da lei do mais forte. Sendo assim, eventualmente compro carros, compactos.
 
É quando percebo um dos aspectos mais constrangedores do complexo automobilístico: a venda para o consumidor final. Trata-se do mundo pervertido e sorridente das concessionárias e seus vendedores entusiásticos. Vendem carros, contribuem para a destruição, mas sempre sorrindo e oferecendo um cafezinho a cada etapa.  Aqui, não existem relações verdadeiras, mas apenas um mundo falso de sorriso, abraços e felicitações feitas sob balões coloridos.
 
No mundo nebuloso das concessionárias, apesar dos sorrisos eternos (e congelados) não existe nenhuma alegria verdadeira. O humor não é possível. Na concessionária, ao constatar que meu veículo novo, Fiat Cinquecento, é “cinza”, procuro na tabela de cores seu nome oficial. Os técnicos de marketing da Fiat são ótimos em nomear as cores, e batizaram meu cinza de “grigio sfrenato”. Sorrio e pergunto ironicamente para o vendedor, “Mas o freio desse carro é bom mesmo ?”. Não sou compreendido, porém ele continua sorrindo.
 
Depois das infinitas e kafkianas formalidades de praxe – que incluem assinar um documento,  devidamente reconhecido em cartório, afirmando que não troquei o motor do carro usado que dei como parte do pagamento por outro – chega finalmente a hora de pegar o carro novo. O menino que me apresenta o painel de instrumentos e suas infinitas funções (das quais usarei uns 10%, se tanto), é entusiástico como todas as pessoas na concessionária. Lá pelas tantas ele me apresenta o botão “ESC Sport”, que devo acionar quando quiser diminuir o risco de capotagem. Perguntei o que aconteceria se eu o deixasse desligado, e o rapaz, sorridente e incapaz a de prestar a mínima atenção no que eu dizia, continuou concentrado, recitando seu mantra agora sobre as múltiplas funções do computador de bordo. Seguiu-se a foto constrangedora que adorna o post.
 
Finalmente, já ia saindo quando o vendedor me alcançou e disse, inclinando-se sobre a janela: “Parabéns pelo carro. Você merece !”. Aquilo foi demais para mim. Disse: “Não, eu não mereço ! Talvez eu seja uma pessoa má ! Talvez eu tenha cometido crimes, o que você sabe de mim ?”.
 
Sem saber responder, ele continuou sorrindo.

 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Chutando cachorro morto...



...mas como saber se está morto mesmo ? E se personagens medíocres como o deputado Feliciano não forem uma aparição tardia da espiritualidade medieval, mas sim um sinal dos tempos ? Por via das dúvidas, deixo de lado o tédio que me provoca argumentar contra o fundamentalismo religioso e assesto minhas baterias contra essa triste personagem: que naufrague miseravelmente, é o meu desejo mais profundo.

 De início, faço duas observações. Em primeiro lugar, considero religião uma forma autêntica de lidar com a espiritualidade. Dada a existência de uma espiritualidade humana e da necessidade de lidar com coisas assustadoras como a morte, a religião aponta para uma saída, seja oferecendo uma espiritualidade pronta e acabada (bastando aos fiéis seguirem seus ensinamentos), seja oferecendo um feixe coerente de possibilidades (que os fiéis amarram como quiserem; o que me parece uma prática bastante comum hoje em dia, pensando na forma como se pratica o Cristianismo no Brasil, por exemplo). Repito, considero as duas práticas saudáveis, uma vez que ajudam a lidar com angústias humanas incontornáveis. E, cá entre nós, alguém pode me citar uma invenção mais genial do que vida após a morte ?

 Em segundo lugar, observo o desvio fundamentalista: trata-se de alargar o campo da religião até que ele tome conta de outras esferas da vida. Dessa forma, subordinam-se atividades sociais, iniciativas econômicas e práticas políticas aos ditames da religião. Aí a coisa complica. No campo da política, o próprio princípio republicano de cidadania torna-se agredido: qual o sentido de uma “bancada evangélica” no Congresso ? Defender a Bíblia ? Todavia, dada a realidade do Congresso brasileiro hoje, não há surpresas: a bancada evangélica é igual às outras, o pessoal tá lá pra defender a turma.

 Mas vamos às considerações mais famosas do deputado Feliciano. A primeira, é aquela citação bíblica do AntigoTestamento, postada em seu twitter:

Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato. O motivo da maldição é polêmico (...)

O que mais chama atenção na declaração do deputado, além da imbecilidade intrínseca, é a expressão “isso é fato”. Como assim, “fato” ? Tá na Bíblia é fato ??? Desde quando ? Trata-se de um sintoma do fundamentalismo religioso mais indigente, que toma a Bíblia como uma verdade absoluta e interpreta suas citações literalmente. Me entedia até as lágrimas ter que argumentar sobre o absurdo de considerar como verdade absoluta um texto, qualquer texto. Ainda mais um texto antiquíssimo, escrito sabe-se lá por quem, sabe-se lá deus (hahaha, “deus”) quando. Aliás, quem quiser maiores informações sobre o episódio bíblico citado pelo deputado, pode dar uma olhada em Genesis 7:21 a 7:29.

Outra pérola da sabedoria do deputado foi pronunciada nesse fim de semana. Durante um culto, e referindo-se aos protestos contra sua pessoa que ocorriam na porta do templo, afirmou:

Essa manifestação toda se dá porque, pela primeira vez na história desse Brasil, um pastor cheio de Espírito Santo conquistou o espaço que até ontem era dominado por Satanás.

É isso aí. O deputado Feliciano tem o Espírito Santo, e os outros não. Aqui chegamos no âmago da postura imbecilizante de certas religiões neoevangélicas:  seus membros têm o Espírito Santo, nós não.  Em caso extremo, somos identificados com Satanás.  

Não é sempre, mas a religião tem a incrível capacidade de emburrecer. No nosso caso, não basta mais achar graça das sandices do deputado Feliciano: sua crença, bem como suas palavras e atos (devidamente fundados nessa crença) nos levam até nada menos que as portas do fascismo.

domingo, 17 de março de 2013

Boteco x chique




É o mesmo caso de banheiro-público: uma contradição de termos. Foi em algum momento da década de 1990 que surgiram os primeiros “botecos-chiques” em São Paulo. De imediato, ironizei: como diabos um boteco pode ser chique ? Os dois conceitos me pareciam excludentes e a ideia, como um todo, uma falsificação. Para coroar minha indignação, e reforçando a defesa dos bares bons e sem frescura, formulei um princípio: quanto melhor o bar, pior o banheiro.

Claro, foi um erro. Em pouco tempo, percebi que o conceito de boteco-chique incluía coisas como, por exemplo, um cuidado excepcional na conservação e serviço do chopp pedido. Jovens leitores nem imaginam o abismo que separa o padrão do chopp de hoje com o de uns vinte anos atrás. Por exemplo, outrora o chopp era coroado por uma espuma pouco espessa e sem gosto, o que acabou gerando o hábito nacional de pedir chopp sem colarinho. Hoje em dia, o normal é um generoso e saboroso creme espesso, que deixam um bigode feliz no rosto alegre do bebum.

Mesmo frequentando os botecos-chiques, o princípio relativo aos bares permaneceu, e logo comecei a recolher lembranças de banheiros cujo decrepitude chegava ao ponto do pitoresco. Por exemplo, os do inesquecível Champion, um daqueles restaurantes chineses da Liberdade que nos ajudam a conhecer uma deliciosa culinária chinesa, baseada em frutos do mar e muito além dos afamados rolinhos primavera e frangos xadrez, deus-nos-livre. Em episódio devidamente registrado pela imprensa, um caranguejo foi encontrado passeando pelos seus banheiros. Ou aqueles Cafés parisienses, alguns excepcionalmente charmosos, mas que fazem questão de manter as históricas “privadas turcas”, tão arcaicas, tão anti-higiênicas, tão francesas.

Na minha memória, há um lugar reservado para o bar do querido Ezequiel, de Ouro Preto, um estabelecimento absolutamente precário tocado por sua irmã, Celita, na garagem da casa onde moram. Servindo cerveja e suas deliciosas cachaças artesanais –  “temperadas” com mel, chocolate ou ervas – Ezequiel decidiu anos atrás construir um banheiro anexo à sua garagem, talvez para poupar o muro dos vizinhos. No cubículo em que mal se consegue permanecer em pé e mover a porta ao mesmo tempo, o simpático barman instalou uma pia, uma privada e, sem ter como encaixar a caixa d’água no pequeno espaço, instalou-a do lado de fora, ao ar livre, com seu acionamento sendo possível apenas estendendo-se a mão para fora da janela (um dos vidros da janela foi propositalmente quebrado para permitir a manobra, veja a foto acima).

 Mas, o meu campeão na série banheiros pitorescos em todos os tempos foi o do velho Duarte, quando ainda mantinha seu estabelecimento ao lado do Anglo. Pois em uma das poucas vezes que fui até seu bar, tomei um par de cervejas, quis ir ao banheiro e logo vi a placa pendurada na porta, “Banheiro Quebrado”. Falei, “Pô, Duarte, e agora, como vou fazer ?”. Ao que o bravo bartender respondeu, me estendendo as chaves: “Que é isso, professor, pode ir. Eu só pus a placa pra desencorajar o uso”.


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Banheiro x público

 
 

          Há uma contradição evidente no termo “banheiro público”. Banheiros são locais de intimidade e atividade privada – o próprio uso desta palavra para designar o vaso sanitário é significativo. Uma parte dos atos realizados em banheiros podem ser compartilhados com outra pessoa, e quando isso acontece geralmente indica uma intimidade excepcional, por exemplo, aquela resultante de uma vida compartilhada. Porém, há outros desses atos que jamais dividimos, mesmo com o ser mais amado na situação de maior proximidade.



 O banheiro público coloca em cheque a privacidade desses atos, criando uma tensão evidente. Penso nisso sempre que entro em um banheiro público com pessoas de uma certa cultura – que não divulgo para não alimentar preconceitos – mas que aproveitam o espaço privado, mas nem tanto, do banheiro público, para soltar gases assim que entram, forçando uma intimidade nem um pouco desejada.
 
 [Interlúdio psicanalítico: esse chineses – ops ! escapou ! – agem mais ou menos como aquelas pessoas que contam alegremente seus sonhos noturnos, sem desconfiar que desvendam mais do seu inconsciente do que queremos saber. “Gian ! Sonhei que tinha uma joia preciosa que todos queriam roubar !” ou “Gian ! Sonhei com uma vagina dentada !”. Por favor, me poupem.]
 
 Lembro que nas escolas inglesas do século XIX – época de avanços incontestáveis, tanto na higiene quanto na invenção dos espaços privados – foram criados os banheiros coletivos. Os “reservados” dentro desses banheiros, eram os únicos espaços privados de que dispunham os jovens estudantes, normalmente submetidos a dormitórios coletivos, classes cheias e refeitórios comuns. Para combater “vícios privados”, havia o inspetor de banheiro, que percorria as latrinas com um pequeno espelho na ponta de um cabo de madeira: é daí que veio essa forma de controle do emprego de banheiros públicos, o vão das portas nos reservados.
 
 Há também o antigo mistério dos banheiros femininos, e do porque as mulheres tendem a ir em grupo ao banheiro. Durante muito tempo, tive várias fantasias (algumas francamente eróticas) com as misteriosas atividades que as mulheres desenvolviam durante suas idas coletivas e demoradas ao banheiro. Mas, felizmente, as redes sociais desvendaram o mistério: mulheres vão em grupo ao banheiro e lá permanecem muito tempo para tirar fotos no espelho fazendo biquinho.
 
 Finalmente, há também nos banheiros a experiência essencialmente privada do olhar-se no espelho. Claro, no banheiro público o ato é compartilhada, mas traz a lembrança de uma das experiências mais transcendentais que podemos ter, e que é essencialmente privada: a  contemplação do próprio corpo nu em um espelho.
 
 Certamente não existe nenhum interdito social em contemplar o corpo nu diante da pessoa amada ou em qualquer outra situação consensual que envolva outros individuos. Todavia, convenhamos que a contemplação do corpo nu é algo que passamos a maior parte da vida fazendo na absoluta solidão de um banheiro. E que experiência transcendente é essa ! Lembro de recente operação oftalmológica, que fez com que minha miopia – fiel companheira desde os 11 anos de idade – desaparecesse.  Subitamente, passei a ver a imagem do meu corpo no espelho na hora do banho, não mais como um borrão meio cor de rosa, mas com todos os seus detalhes. Meu deus, quantas berebas ! Quem é esse gordo imenso que ultimamente tenho chamado de “eu” ???
 
 Enfim, quase nunca temos consciência disso, mas no fundo devemos saber que a mensagem que o espelho nos passa é sempre a mesma. Como na formulação de Heráclito, jamais somos os mesmos ao nos olharmos diante do espelho: o corpo está mudando, o tempo está passando. Espelhos, mesmo quando não querem, nos lembram da finitude da vida.
 
 Os vampiros, imortais que são, não têm imagem projetada no espelho.

 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Boston abaixo de zero


Miami International Airport, 23 de janeiro, 7h53

Escala na Flórida, sempre uma oportunidade de observar o comportamento dos compatriotas fora de casa. Antigamente, era muito fácil identificar um brasileiro no exterior, sobretudo na Europa: bastava procurar alguém com um boné escrito NY ou um moleton de universidade americana ou as inevitáveis camisetas “Hard Rock Cafe – Miami”. Queríamos ser americanos. Hoje, por mais estranho que seja, os brasileiros se vestem com mais discrição, embora tenham conseguido mais do que nunca personificar o norte-americano: comportamo-nos como novos-ricos desvairados.

 
Doral Billiards, Miami, 23 de janeiro, 21h35
 
Quase um cenário de filme. Já no estacionamento percebo uma quantidade significativa de pick-ups e carros esporte. No interior enfumaçado (é permitido fumar), mesas de sinuca, cerveja em jarras, atendentes peitudas e telões exibindo vários esportes ao vivo. Por todos os lados, posters com mulheres voluptuosas anunciam exibição de UFC no fim de semana. Das paredes escorre testosterona.

 
ao longo da Freedom Trail, Boston, 24 de janeiro, 13h02
 
Boston também é chamada de Beantown, devido à fama de comedores de feijão que seus habitantes têm. Ou melhor, tinham: reviro a cidade em busca de um bom prato de feijão no estilo Boston e simplesmente não encontro. Em compensação, tem gente vendendo lobster bisque em qualquer esquina. Os bostonianos tornaram-se novos ricos desde há muito, e deixaram seus pratos de feijão no passado.

 
Estação do metrô Kendall/M.I.T., Cambridge, 24 de janeiro, 18h12
 
No metrô Kendall/M.I.T. há estranhas alavancas na parede da plataforma de embarque. Uma vez puxadas, elas imprimem movimento pendular a grupos de martelos pendurados no teto, entre as duas linhas de trem; os martelos, por sua vez, atingem longos cilindros sonoros de metal, produzindo som do badalar de sinos. Para quê ? Para nada: apenas para as pessoas se divertirem enquanto o trem não chega.

 
Kendall Square, Cambridge, 25 de janeiro, 8h48

Dez graus abaixo de zero, céu claro, previsão de neve só no fim de semana. Antes de sair do hotel, checar: luva, cachecol, gorro, protetor labial, gel para as mãos (há epidemia de gripe na cidade), mapa, carteira, passaporte, cartão do hotel, bilhetes do metro, celular, moedas, chave da fechadura da mala, óculos de leitura. Vou deixando um rastro de objetos perdidos pelo caminho.

 
Kendall Hotel, Cambridge, 25 de janeiro, 13h14
 
Do meu quarto do hotel tenho acesso à Wi-Fi ultrarrápida do M.I.T. Meu celular quase explode carregando páginas e páginas a fio da internet.

 
Park Street, Boston, 26 de janeiro, 11h26
 
Além de Harvard (20 mil alunos) e do M.I.T. (10 mil alunos), situados na vizinha cidade de Cambridge, a cidade de Boston – de seiscentos mil habitantes – ainda abriga a Norht Eastern University (20 mil alunos), a Boston University (30 mil alunos) e nada menos que 52 outras faculdades ou universidades menores. O resultado é que a média de idade da população é bastante baixa, e essa juventude transbordante é vista nas ruas o tempo todo, em grupos ou isolados, no metro ou de bicicleta. Em 70% dos casos carregam imensos copos de papel com café, em 80% dos casos estão digitando no celular.

 
Livraria Barnes & Noble, Prudential Center, Boston, 26 de janeiro, 12h10
 
Nessa imensa livraria, as estantes de Filosofia situam-se entre “Religion” e “New Age”.

 
M.I.T., Cambridge, 26 de janeiro, 19h49
 
Sábado à noite, maratona de ficção científica no cineclube no M.I.T. ! O programa anuncia nada menos que 4 filmes, além de pizza break e uma atração surpresa (a exibição do primeiro episódio para a TV de Star Trek, em cópia de 35mm). O programa termina às 6h da manhã do domingo, e nada menos que 140 Sheldons e Leonards compareceram. Impossível não pensar que, na mesma noite, em outra universidade bem longe daqui, o pessoal foi para a balada...

 
North End, Boston, 27 de janeiro, 15h27

 Havia um super-minhocão em Boston até a década de 1990. Além da feiúra habitual, o monstro de concreto enfrentava congestionamentos diários e foi responsável pela deterioração do entorno no nível do solo – o que, aliás, também é habitual nesse tipo de construção. Pois e não é que eles derrubaram o troço todo ? A cidade ganhou um longo parque, de quilômetros de extensão, facilitando a ligação do centro com North End e South End por pedestres que, dessa forma, puderam voltar às ruas.

 
Legal Sea Foods, Cambridge, 28 de janeiro, 17h43
 
“Six for six”, seis ostras por seis dólares é a promoção do happy-hour. Termina às 6h da tarde.

 
M.I.T., Cambridge, 29 de janeiro, 11h27
 
Pelas prateleiras do M.I.T., cruzo com um Principles of Quantic Mechanics, de autoria de um certo R.Shankar. Trata-se de uma introdução ao assunto, me explicam. Mas, peraí, R.Shankar ??? Impossível não lembrar de Ravi Shankar, tocador de cítara indiano e guru dos Beatles a partir de 1966. Fico imaginando que a dissolução da banda levou o músico indiano a perder popularidade. Desiludido, voltou para a Índia em busca de novas experiências místicas – o que o levou, obviamente, à mecânica quântica. Um pouco antes de me aprofundar no delírio, me explicam: R. é de Ramamurti, nada a ver com o mago dos Beatles.

 
Miami International Airport, 29 de janeiro, 17h19
 
No balcão da imigração. “Por favor, não me entregaram o formulário I-94 quando eu entrei. Eu não teria que devolvê-lo agora ?”. O guarda, de feições cubanas, pega meu passaporte vermelho, olha e me devolve dizendo: “Você não precisa de formulário I-94. Você é italiano”.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Arquétipos


Não há dúvida que ser competente dá trabalho, muito trabalho. Fique claro desde já que, ao usar o termo “competente”, me afasto um pouco do sentido corriqueiro da palavra – um misto de “empreendedorismo” (urgh !) com propensão a ganhar dinheiro a qualquer custo. No conceito de competêncina, prefiro enfatizar aquela dedicação à tarefa que resulta em um trabalho bem realizado.
 
É fácil perceber a competência na prática do trabalho manual, partindo do uso dos objetos produzidos. Penso nisso toda vez que entro no banheiro recém-reformado e só consigo manter a luz acesa, sem piscar, dando um murro no interruptor. Gostaria porém de pensar em competência na realização do trabalho intelectual, supostamente minha área central de atuação. Nessa área, o trabalho necessário à redação do texto consistente, à apresentação da tese original ou simplesmente à prática do pensamento rigoroso é tremendamente árduo.
 
Há, todavia, uma curiosa tendência de evitar (ou ser incapaz) de realizar o trabalho árduo e, em compensação, tentar demonstrar a competência assumindo traços de comportamento do intelectual comprovadamente competente. É o que eu chamo de cultura do arquétipo, e cito alguns exemplos imediatos.
 
Nas ciências Exatas, a figura do cientista desligado ou de comportamento extravagante tornou-se arquetípica – muitas anedotas e a famosa foto de Einstein estendendo a língua ajudaram a criar o arquétipo. Assim, muitos jovens físicos e matemáticos assumem comportamentos pouco convencionais, como tentativa de reforço a um trabalho acadêmico ao qual falta o brilhantismo.
 
Nas ciências Biológicas, ao que me parece, o arquétipo do brilhantismo passa pelo ateísmo. Transmite aquela imagem de cientista que entendeu efetivamente o evolucionismo e, com dificuldades em suas pesquisas acadêmicas, busca a aura de herói da ciência ao combater o obscurantismo religioso.
 
Porém, detenho-me nas ciências Humanas, área na qual o arquétipo da seriedade intelectual é nada menos que a melancolia. Para muitos, é necessário ser melancólico para ter credibilidade. A origem é evidente, Walter Benjamin, cujo obra é toda perpassada pelo  conceito de melancolia, vista pelo filósofo alemão como estado de espírito característico do sujeito moderno. Um dos pontos de partida é o pensamento de Freud, que aproximou a melancolia do luto tanto nos sintomas (paralisia, desânimo, tristeza) como nas origens (uma perda ou afastamento). Uma vez que a modernidade é fundada no transitório, no fugidio e no passageiro, a sensação de perda – fundamento do sentimento melancólico – passa a ser uma constante. No plano ético, essa perda relaciona-se com o afastamento do sujeito em relação ao Bem que, pelo menos na sua dimensão pública, transferiu-se para outras instâncias.
 
Numa estranha inversão, a genialidade da obra de Benjamin é obscurecida pela beleza dos textos, pela escrita fácil e elegante, que o faz um preferido de jovens estudantes das ciências Humanas. Acontece que além de conceituar a melancolia, Benjamin foi efetivamente um melancólico e seus bravos seguidores nas ciências Humanas, que nem sempre estão atentos às filigranas de seu pensamento, acabam incorporando apenas o arquétipo. Ser melancólico é ser benjaminiano, é estar por dentro. É ter credibilidade.
 
Penso na Universidade. Lembro-me de ter lido uma tese de doutorado da Letras, em que a autora caracterizava minuciosamente o trabalho de tradução, recheando sua análise com conceitos benjaminianos e terminando por concluir que todo tradutor é um melancólico – maior elogio impossível.
 
Penso nas esquerdas, que dominam a produção intelectual nas Humanas, pelo menos no Brasil (vai lá ler Gramsci e entenda porque). Nesse caso, o sentimento de perda, fundamento da melancolia, é real. A queda do modelo soviético levou junto uma alternativa à ordem capitalista, e a ideologia que lhe sustentava, queira ou não, ficou abalada. Nos últimos trinta anos, a palavra de ordem passou a ser: recolher os cacos, reconstruir a ideologia, olhar para o futuro, mas sempre sentindo o gosto amargo da perda.

 Penso no Poeta. Por que ele escreve ? Se dói, ele escreve para sedar a sua dor; se não dói, ele não estaria escrevendo, mas se divertindo por aí. Se perdeu, escreve para recuperar; se não houvesse perdido, estaria usufruindo e não escrevendo. Se está só, escreve para ter companhia; se já tem, vai aproveitá-la. Não haverá por trás de toda Lírica um sentimento negativo (e não seria Lírica a forma de ultrapassá-lo, produzindo, como efeito colateral, o Belo ?).
 
Penso no fascismo e seus sucedâneos. O otimismo desvairado fascista faz com que qualquer aparente bom-mocismo entusiástico seja visto com suspeita. Além disso, quando o anjo da História (e dá-lhe Benjamin) olha para trás, nos últimos cem anos ele tem que lidar com um rastro de destruição francamente devastador.
 
Penso em Ernesto Sábato, meu segundo autor argentino preferido. Lendo o romance “Sobre heróis e tumbas” (ainda estou na página 40, o termo melancolia/melancólico já apareceu cinco vezes) me deparo com o seguinte trecho:
 
...por isso os pessimistas são recrutados entre os ex-esperançados, pois para ter uma visão negra do mundo há que antes ter acreditado nele e em suas possibilidades. E é ainda mais curioso e paradoxal que os pessimistas, uma vez decepcionados, não estejam constante e sistematicamente desesperançados e que, de certo modo, pareçam dispostos a renovar sua esperança a cada instante, embora o dissimulem sob seu negro invólucro de amargos universais, devido a um certo pudor metafísico, como se o pessimismo, para manter-se forte e sempre vigoroso, precisasse de vez em quando de novo impulso produzido por uma nova e brutal decepção.
 
A melancolia produz melancolia. Tenho saudades de quando a melancolia era apenas um sentimento, e não um valor.