quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Feliz 2010


O tal do Cristo devia ser um cara impressionante. Morreu e as pessoas não pararam de falar dele, mais ou menos como o Sócrates. O problema é que algumas pessoas começaram a tentar monopolizar a herança de Cristo e criaram um troço chamado “igreja”, uma chatice. Já pensou se tivessem feito o mesmo com o Sócrates ? Os diálogos de Platão seriam lidos como um Evangelho, e os templos teriam por trás do altar uma taça de cicuta ao invés de um crucifixo. Numa eventual missa, o sermão seria substituído pelo diálogo com os crentes. Provavelmente o próprio sentido de crença seria discutido, e se o padre fosse um bom dialético, faria os fiéis duvidarem da sua crença: assim, a religião socrática teria como seu principal fim não salvar a alma, mas salvar seus membros da crença em uma única fé. Seria uma religião suicida e, cá entre nós, ela já existe com o nome de Filosofia, devidamente cultuada em grandes templos chamados Universidades.

Mas, divago. O que me preocupa é a forma como o aniversário do Cristo deu origem aos rituais natalinos que celebramos todo ano, religiosamente (ha! “religiosamente”!), queiramos ou não, acreditemos em religião ou não. Os três principais rituais natalinos são 1) trocar presentes; 2) falar sobre um certo “espírito natalino” e praticar coisas como sorrir para quem não gostamos e dar gorjetas para quem mal sabemos da existência durante o ano todo; 3) comer feito porcos gordos. Sobre presentes e espírito natalino, já falei no ano passado divirtam-se em http://bit.ly/6qsWeI . Sobre comer...

A.J.Liebling, meu gordo preferido, escreveu: “Mens sana in corpore sano é uma contradição em termos, uma fantasia de quem acha possível ter simultaneamente duas coisas excludentes. Ninguém em seu juízo perfeito pode se dar ao luxo de abrir mão dos prazeres debilitantes; nenhum ascético pode ser considerado sadio a ponto de merecer confiança. Hitler foi o arquétipo do homem abstêmio. Quando, na cervejaria, os outros alemães viram que ele estava bebendo água, deviam ter percebido logo que não era confiável”. Por trás do fragmento, há uma visão mordaz tanto sobre a crítica gastronômica quanto sobre a então “nova” cozinha francesa (velha já de anos), que introduziu o hábito das porções minúsculas. Liebling acreditava que o verdadeiro prazer de comer tem a ver com “fome”, ou melhor, com “gula”, que é a transformação da comida em objeto de prazer.

Acredito que seja possível fazer uma crítica gastronômica racional. Qualquer pessoa pode discorrer, com o devido treino, sobre ponto de cozimento, textura, complexidade de sabores. Mas fica faltando algo, que é nada menos que o gosto pela comida, ou melhor, o desejo pela comida, o que significa considerar o ato de comer como uma experiência que merece ser chamada de carnal, muito mais que sensorial. Falo aqui sobre a volúpia de comer

A volúpia faz do ato de comer algo que vai além da experiência animalesca (comer para sobreviver) e da própria experiência humana (discurso racional sobre o alimento). Comer voluptuosamente significa uma experiência radical, que nos aproxima do divino. Lembro dos textos de Benjamin sobre a comida, mais especificamente sobre comer figos: “Jamais provou uma iguaria, jamais degustou uma iguaria quem sempre a comeu com moderação. Assim se conhece talvez o prazer da comida, mas nunca a avidez por ela, o desvio do caminho plano do apetite, que leva à mata virgem da comezaina. É na comezaina, a saber, que estes dois se reúnem: a imoderação do desejo e a monotonia com que ele se sacia. Comer, isto significa antes de tudo: comer radicalmente”.

[Interlúdio pop: em Seinfeld, George Costanza - sempre ele - exemplifica os prazeres da vida de solteiro com a possibilidade de comprar um queijo inteiro para nele enterrar a boca, mordendo a ponto de esfregá-lo na cara como uma almofada, chafurdando em um mar de gostos e aromas e cores e consistências. A descrição de George é muito mais moderada, deixo aqui meu registro verbalmente exagerado de algo que no fundo também gostaria de fazer.]

Volto ao Natal e às festas de fim de ano, quando os exageros alimentares são a norma. Anos atrás, passei o fim de ano como convidado em uma família que tinha o hábito de preparar, na ceia de Natal, todas as carnes festivas possíveis: pernil, lombo, presunto, peru e chester. Para que o almoço do dia 25 não ficasse com cara de sobra, reforçava-se a refeição com uma picanha e, já que abriu a churrasqueira, umas lingüiças. Como eu era convidado, a família, de origem polonesa, fez questão de acrescentar uma iguaria típica: o delicado pirog, pastel de batata recheado com bacon e frito na banha de porco [foto]. Desnecessário dizer que adorei. Repeti os pirogs várias vezes.

Acredito que os excessos de fim de ano, sobretudo os natalinos, sejam uma forma de vingança contra os demais rituais da época. Mais do que em qualquer outra época do ano, somos obrigados a várias coisas, dar presentes, conviver com parentes (todos eles, mesmo aqueles que mal conhecemos), dar gratificações polpudas, participar de amigos-secretos, sorrir feito bestas. A cada garfada, nos vingamos, é o que nos resta. “Também te amo, tia, mas agora passa a costela”.

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PS.: Os textos de Benjamin sobre comida estão em "Imagens do pensamento", no volume II das Obras Escolhidas (Ed.Brasiliense). O fragmento de Liebling e outros textos deliciosos encontram-se no impagável Fome de Paris (Ediouro). Benjamin, coitado, era magro e chegou a passar fome. Liebling, que escrevia para a New Yorker, morreu aos 59 anos, com o fígado despedaçado e o coração entupido.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Quase auto-ajuda


Muitos perceberam a semelhança que existe, na língua inglesa, entre as palavras history/story (“história”) e storey/story (“andar” de um edifício). Os dicionários etimológicos nos informam que tais palavras têm a mesma origem no latim historia, e é uma referência, provavelmente, ao fato de que os edifícios mais altos na Idade Média européia tinham relatos pintados em sua fachada. Tais edifícios eram igrejas e os relatos, bíblicos. Acho essa explicação meio duvidosa. Se buscarmos as origens mais remotas dessas palavras, hipóteses bem mais instigantes poderão ser examinadas.

A palavra latina historia vem do grego historia (ϊστορία), uma daquelas palavras helênicas que têm vários significados: pesquisa, conhecimento, narrativa. A partir daí: historen (ίστορεω, indagar, pesquisar) e histor (ϊστωρ, homem sábio, juiz). Aprofundando um pouco mais, historia foi formada pelos gregos a partir da junção da palavra istos (ιστός) com o verbo roi (ροή, fluir). E aí vem a parte poética da coisa toda: istos literalmente significa bastão ou mastro, e a palavra é utilizada também como referência a uma determinada peça que serve para sustentar um tear. Por causa disso, um tecido trançado ou uma rede também era chamado pelos gregos de istos. Assim, história significa literalmente “a trama que flui”.

Istos, como sufixo, surge em uma infinidade de palavras gregas, sempre no sentido de firmeza, permanência, ponto fixo; remetendo sempre ao sentido original de bastão ou mastro. Assim, istemi (ϊστεμι, istos + emi, que é uma variação de “ego”, eu), significando: erguer, permanecer, ficar, instaurar, fazer surigir. Aliás, istemi deu origem ao alemão stehen e ao inglês stay. E já que estou falando em inglês, volto à questão que provocou essa reflexão: as semelhanças entre history/story e storey/story. Acredito que essa semelhança aponta para o sentido original da palavra história, que vai muito além da mera referência a paredes pintadas em igrejas medievais. De fato, acredito que quando escrevemos a história ou mesmo quando contamos uma história, o nosso objetivo é “por em pé” o passado, ou seja, ordenar nossa memória para que ela possa permanecer. É dessa forma que fazemos surgir nada menos que nossa identidade. Uma vez que o substrato da memória é o passado, acabamos por construir nossa memória (nossa história pessoal) como um edifício, com diversos andares, bem ordenados um depois do outro. A contagem numérica dos anos é uma forma extremamente prática de ordenar o passado e erguer o nosso eu, o nosso ego. Daí sim, a trama de nossa existência pode fluir à vontade, como se fosse um navio impelido pela vela solidamente presa ao mastro de nossa memória.

Recorro à essa avalanche erudita para refletir sobre o presente. É Natal, aproxima-se o ano novo. Impossível fugir das avaliações de fim de ano, da seleção de memórias que irão identificar a ano de 2009 como um dos andares de nossa existência. Esta é a época do ano em que nos dedicamos a transformar nossa vivência em memória, encontrando um lugar para o que já passou e refletindo sobre aquilo que vai continuar fazendo parte de nosso presente em 2010. Há aspectos francamente prosaicos nesse processo, pois lembraremos do ano que passou não só pelas pessoas que conhecemos ou pelos espaço que freqüentamos ou visitamos, mas também pelo universo pop no qual estamos mergulhados (e sua infinidade de músicas, filmes, vídeos); e é curioso como nem sempre temos controle sobre a construção dessa memória Como fazer com que “I gotta feeling” do Black Eyed Peas não seja a música do ano, aquela que irá nos transportar de volta para 2009 em qualquer momento do futuro que estejamos ? Ou então, como evitar identificações óbvias, do tipo “2008, ano do cursinho” e bizarras, como “2006, ano que tive hemorróidas” ?

Ainda assim, sugiro que nos dediquemos a essa tarefa de avaliação de fim de ano. Com uma ressalva: por um lado podemos ter um sentimento de perda nessa época do ano, levando em consideração tudo o que passou; mas por outro, podemos encarar essa época a partir de uma perspectiva de ganho. O que ganhamos em vivência é muito maior do que os ganhos práticos, quaisquer que sejam eles. Em 2009, construímos mais um pedaço de nossa história (sem a qual não somos nada), e para o qual podemos voltar quando quisermos, no respectivo andar de nossa memória.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Na chuva

(por Liniers)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Em princípio, tenho princípios


Gostamos de ver. Temos prazer em assistir. Platão, do seu jeito, já observou isso no livro V de A República, dizendo que todas as pessoas gostam de ver os espetáculos, os coros e as festas dionisíacas. Se forem deixadas em paz, as pessoas passarão toda a vida assistindo e, cá entre nos, na sua passagem mais famosa, Platão nos aponta para os pobres coitados no fundo da caverna, acorrentados mas incapazes de reagir, uma vez que estão entretidos com as sombras que passeiam pela parede.

De onde vem esse estranho encanto ? De onde vem esse sentimento agradável que sentimos, por exemplo, quando se apagam as luzes do cinema ? Mas não se trata apenas de ver, gostamos também de ouvir histórias. Penso no prazer que temos quando sentamos com os amigos, em um alegre colóquio, e nos preparamos para ouvir uma historia bem contada. (Nessas horas, às vezes até nos ajeitamos na cadeira para – estranho – ouvir melhor). Talvez gostemos de ver e ouvir porque temos o hábito de sempre nos situar dentro da historia, ou seja, de nos projetar no lugar dos protagonistas, avaliando nossas possíveis reações e comparando-as com as ações dos personagens de uma narrativa que se desenrola diante de nos. Assim, toda história nos coloca diante de um grande espelho.

[Interlúdio. No meu cotidiano, cruzo com isso o tempo todo, ganho meu pão enunciando discursos para audiências relativamente grandes, com graus de interesse diversos. Periodicamente, para ilustrar o que digo, conto uma historia pessoal. É quando ocorre a mágica: o interesse é redobrado, o silêncio torna-se maior do que o de costume. As canetas são largadas e todos olhares se erguem dos cadernos e dirigem-se aos meus olhos. O interesse é maior e as reações são mais autênticas quando a história se aproxima da vivência dos que me ouvem, ou seja, quando falo de minha experiência de vida escolar, familiar ou de vestibular.]

Há certos tipos de histórias que me encantam. Pouco comuns, são histórias – reais – cujo enredo de alguma forma me fascina. Por exemplo, aquelas histórias envolvendo pessoas que optam por permanecer totalmente passivas diante da vida. Não estou pensando em pessoas miseráveis, sem oportunidades, cujo nada fazer é sobretudo uma imposição, mas sim daquelas pessoas que têm todas as oportunidades na vida, seja no estudo ou no trabalho, mas que acabam optando por não fazer nada, absolutamente nada. Recentemente ouvi a história de um jovem que conheci anos atrás. Me contaram que ele parou de estudar, sequer fez cursinho, e mais tarde abandonou um curso técnico pela metade. Hoje, homem feito, não faz nada. Mora com a mãe e todos os dias acorda pela manha sem ter absolutamente nenhuma obrigação. Em seguida, sai de casa e vai arrumar algo para fazer, visitar um amigo no trabalho, lavar um carro, assistir futebol amador. Às vezes, pede 10 reais emprestado para alguém.

Impossível não lembrar do Bartleby, de Herman Melville, o homem que decidiu dizer não. Pois esses adoráveis ociosos levam a negação às últimas conseqüências. São, muitas vezes, tragédias familiares (“Aquele seu primo ? É um vagabundo”), mas eles quase sempre se tornam pessoas de boa índole, jamais mal-humoradas. Afinal, se não há trabalho nem obrigações financeiras, que motivo resta para irritação ?

Existe, todavia, um outro tipo de história que me fascina e talvez isso seja francamente perturbador. Refiro-me àquelas pessoas, quase sempre homens, quase sempre profissionais corretos e ao mesmo tempo pais dedicados e maridos atenciosos, que, ao final da vida, descobre-se serem chefes de duas famílias. Não são pessoas vulgares, daquelas que mantém uma amante ou um caso permanente, mas sim duas famílias, estruturadas e organizadas como tal.

Imagino o grau infinito de tensão que esses bígamos vivem, tentando articular compromissos, natais, aniversários, presentes e datas comemorativas. Obrigações escolares junto aos filhos, festas de empresa, além do convívio com sogras em dobro, parentes em dobro, isso para não falar de como justificar ou ocultar essa história dos próprios pais e irmãos. Esses bígamos são pessoas que criam a sua própria moral - além do bem e do mal - e vivem em função do segredo, de uma ética na qual a mentira se justifica. Contrariam os costumes, para não falar da lei. Claro, novamente estamos falando de uma tragédia familiar. O que diriam os filhos desses bígamos após descobrirem a verdade ? E suas mulheres ?

Tanto no caso dos ociosos quanto dos bigamos, não considero seriamente suas opções. Em princípio, tenho um punhado de princípios, seja no que se refere ao trabalho ou ao universo afetivo. Mas de alguma forma os invejo, não pelos seus atos em si, mas pelo que neles existe de inconformismo, de revolta surda diante de uma vida cujo roteiro já está previamente estabelecido. São pessoas que tem coragem de dizer não e de criar seus próprios valores. E aqui encontro mais um fator que me explica porque gostamos tanto de ouvir histórias: porque elas nos colocam em contato com vontades perturbadoras que talvez jamais sejam realizadas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Cinema bastardo


Quem lê o blog, já sabe: não tenho a menor paciência com a arte conceitual. Não tenho a mínima paciência com obras de arte que existem apenas em função de “discutir” a arte, e que são absolutamente incompreensíveis sem ter como referência toda a história da arte. São justamente essas obras que provocam o esvaziamento da arte e, em última análise, sua própria perda de sentido. Porém, são obras que os críticos e as pessoas que se envolvem com arte muitas vezes preferem, uma vez que esses, ao dedicarem uma vida ao estudo, conseguem entender a proposta aparentemente hermética que se esconde por trás de cada obra. Assim a arte se transforma em um estranho e exclusivo diálogo entre artistas e crítica, e quem não for da “turma” que se dane.

Diante da perplexidade provocada por estranhas instalações artísticas, diante da pergunta tornada universal, “Mas isso aqui é arte ?”, os especialistas e teóricos de plantão podem tecer seus belos discursos, ao mesmo tempo seduzindo platéias e provando sua superioridade sobre a maior parte dos mortais, pobrezinhos, tão incapazes de entender as coisas, ho, ho, ho ! A dinâmica da arte se transforma em um jogo de vaidades e em espaço de afirmações narcísicas (e eu sei muito bem do que estou falando porque sou capaz de jogar direitinho).

Está em cartaz nos cinemas a mais nova unanimidade, Inglorious Basterds (“Bastardos Inglórios”), de Quentin Tarantino, o mais novo e mais amado enfant terrible de Hollywood. Animado por uma infinidade de comentários favoráveis e elogiosos, da crítica que prezo e de amigos em cujo gosto acredito, dirigi-me ao cinema mais próximo em uma tarde de quarta-feira. Cinema quase vazio, temperatura fresca (contrastando com o calor insuportável do dia), projeção e som adequados, um pacote de Galetitas Havanna nas mãos e um daqueles inevitáveis (porém dessa vez elegante) encontros fortuitos com ex-aluno na saída.

Na tela, Tarantino manda ver. A história todo mundo conhece, uma divertida fantasia sobre a Segunda Guerra Mundial em que os judeus se vingam dos nazistas. No filme, ocorre uma verdadeira inversão das atrocidades realizadas em campos de concentração: são os nazistas que tem sua pele marcada para sempre, são os nazistas (incluindo Hitler) que são incinerados numa espécie de crematório gigante. Enquanto parque de diversões, o filme é apoiado por interpretações impagáveis, por exemplo, do coronel SS Hans Landa (Christoph Waltz) e seu cachimbo descomunal, para não falar do próprio tenente Aldo (Brad Pitt). Mas...

Mas acontece que Tarantino, como sempre, tece um infinito emaranhado de citações. Aliás, citações curiosas, uma vez que não são lembrados este ou aquele filme em particular, mas todos os filmes de guerra, toda a tradição hollywoodiana da Segunda Guerra Mundial. Se por um lado elas são divertidas, por outro me fazem perguntar: há alguma coisa por trás dessas citações ? Não seria Inglorious Basterds apenas um longo (e entediante) discurso do cinema sobre o cinema ? Os críticos e cineastas em geral adoraram, porque o filme celebra seu métier. E muitas pessoas adoraram Inglorious Basterds porque “pegaram” as citações, passando a se sentir parte da “turma”: está legitimada a prática de sair do cinema e sentar no boteco para ter conversas inteligentes sobre cinema (sobre a Mostra, sobre Tarantino), enquanto o populacho se espreme pra ver o filme do Michael Jackson.

Impossível usufruir do filme sem as citações. Começando do próprio título, Inglorious BastErds, com E e tudo. Sem ter a história do cinema na cabeça, a fala (e o sotaque) do tenente Aldo não tem graça nenhuma. Sem ter visto mil filmes de guerra, o impagável coronel Landa não tem sentido, os diálogos não tem significado. (Acrescento: sem ter visto mil filmes de western, a cena inicial na fazenda francesa perde um pouco de sentido). O próprio comportamento histriônico dos líderes nazistas, independente de ter ou não base histórica (e, curiosamente, alguns deles eram francamente bufões e caricatos na vida real) é referência a uma infinidade de vilões cinematográficos, e por aí vai. Sem as citações, lamento dizer que o filme é uma bobagem, com um roteiro sem pé nem cabeça que simplesmente não se sustenta. Por exemplo, no meio do filme, do nada, surge uma narração em off para explicar a história, que começa a escapar do controle. Ou então, o velho truque “tarantinesco” de fazer a narrativa avançar através de uma explosão de violência inesperada e visualmente exagerada. Ou ainda, o suspense que não funciona, como no caso da primeira aparição do sargento Donowitz, “The Bear Jew”, que acaba por deixar a platéia frustrada, com um sorriso amarelo (aliás, a platéia da sessão que fui, provavelmente alertada pela crítica de que o filme era “bom”, visivelmente forçava o riso em algumas partes). Isso para não falar dos longos momentos de tédio do filme (porque diabos aquela cena do porão demora tanto ?), que uma certa crítica se apressou em identificar como “o domínio do tempo” por Tarantino. Oras, poupem-me.

Não estou cego às virtudes do filme. É brilhante a idéia de exterminar os líderes nazistas em um cinema, a partir de um incêndio dantesco que começa na tela, com a queima de centenas de rolos de película. (Que se dane, a essa altura todo mundo já viu o filme). E o massacre ocorre justamente no dia da estréia de um filme nazista, daqueles produzidos por Goebbels celebrando o heroísmo do soldado alemão. O filme nos sugere – e isso é francamente genial – que os alemães foram derrotados pelo cinema, e a Segunda Guerra Mundial foi vencida “porque nossos cineastas são melhores do que os alemães”.

Porém, eles eram os melhores, porque hoje em dia apenas se repetem. Talvez Tarantino seja bem menos do que imaginamos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Aqui jazz




Aos 14 anos, eu me achava o máximo da malandragem ao cortar o cabelo no glorioso “Aqui Jazz – Cabeleireiros”, que existe ainda hoje diante do Cemitério da Aclimação. O local atraía todo o tipo de doidões e esquisitões do bairro, bem como qualquer jovem cabeludo que se achasse alternativo. No meio desse verdadeiro circo, despontava a figura do proprietário, o Magrão, sempre acompanhado de seu fiel braço direito, o Ameba, que eu desconfiava estar eternamente chapado.

É estranho que os cabeludos do bairro tivessem como ponto de encontro justo uma barbearia, mas isso diz muito sobre o frouxo grau de radicalismo dos jovens de classe média da época. Os anos de ouro do Movimento Jovem já haviam acabado há muito e, sob o peso da repressão dos últimos anos do Regime Militar (por essa época, também bastante frouxa), nosso radicalismo se limitava a ouvir discos de rock, dos dinossauros do rock (The Who, Deep Purple, Led Zeppelin) e a olhar com desprezo a moçadinha que ia dançar nas tardes de sábado ao som da disco music de então (Donna Summer, Sylvester e – deus me livre ! – Bee Gees). No "Aqui jazz", preferìamos aquelas bandas que dificilmente tocavam no rádio, exceto por uma ou outra baladinha besta do tipo Stairway to heaven. E, claro, nada de jazz.

Na época, quando se falava em jazz, eu pensava em algo do tipo dixieland, que era cultivado por umas poucas bandas em São Paulo. Das atrações estrangeiras que aqui chegavam, quase todas se esmeravam no fusion ou em outros sons experimentais e, convenhamos, começar a ouvir jazz por aí é um tiro no pé. Nunca esqueço um show de Chick Corea, transmitido pela TV Cultura, quando o músico americano sentou-se diante de um magnífico piano de cauda, inclinou-se diante de sua tampa aberta e começou a batucar na madeira do piano, para delírio da platéia e minha perplexidade total. Eu ainda levaria anos para conhecer o verdadeiro jazz, que foi vanguarda nos anos de 1920 e 1930, e que acabou dando origem a bebop, west coast e outras maravilhas.

Porque o jazz é feito de nuances, e pedem um ouvido minimamente competente. Da minha precária formação musical, resultou o longo tempo que levei para educar os ouvidos, sem método nenhum, sem conhecimento técnico, apenas ouvindo milhares e milhares de músicas, de todos os tipos, sem parar, ao longo de muitos anos. Acredito que todas as pessoas que gostam de música um dia chegam no mesmo ponto e passam a ouvir música adulta, jazz, ou mesmo música clássica.

Na verdade, não só o jazz, mas o mundo é feito de nuances, e é pena que elas se percam por simples desconhecimento. Nas aulas, enfatizo as nuances e as múltiplas leituras de obras de arte, eventualmente de uma ou outra música, do clássico ao blues. Mas não são apenas quadros, todo a natureza, todas as pessoas podem ser lidas de mil formas. Recentemente, em um alegre colóquio, até me falaram sobre as múltiplas leituras que são possíveis a partir da observação de um olho e de suas sutis mudanças de cores.

[Interlúdio pop: lembram-se do filme A garota com o brinco de pérola ? (se não conhecem, assistam). No filme, o pintor Vermeer diz para a jovem Griet (Scarlett Johansson, em um de seus primeiro papéis) olhar o céu e dizer a cor das nuvens. A moça, mal olhando pela janela diz, “Oras, elas são brancas”. Porém o pintor insiste e diz, “Olhe bem, olhe com atenção. Todas elas. São brancas mesmo ?” E o olhar da jovem Griet começa a perceber milhares de nuances e reflexos e texturas que ela, maravilhada, jamais havia percebido. Pois o grande livro do mundo nos fala o tempo todo, e é inesgotável a reserva de símbolos que ele emprega, como dizia o frei Guilherme em O Nome da Rosa. Ainda no registro da cultura pop, lembro de um episódio de Sex and the City, quando Carrie namorava um músico de jazz. Ele pergunta se ela gosta desse tipo de música e ela diz, “mas como vou gostar de um tipo de música que não se pode cantar junto, não se pode dançar ?” Trata-se de outra relação com a música, válida (por que não ?), mas que nada tem a ver com a sutiliza instrumental do jazz. Me arrisco a dizer que talvez mulheres se liguem à música com mais facilidade através de outros registros, por exemplo, o corpóreo: através da Dança.]

Porque o jazz tem alma. Assim como o blues, uma mesma canção de jazz é diferente cada vez que é tocada novamente. São os mesmos acordes, a mesma letra, a mesma tudo, e ainda assim a música sai diferente. Paradoxalmente, na música pop, canções diferentes parecem ser todas a mesma coisa. É por isso que muitas vezes os CDs de jazz apresentam, por exemplo, música 1, “Bag’s Groove – take one”; música 2, “Bag’s Groove – take two”; música três, “Bag’s Groove, take three”, e assim vai.

E porque é impossível falar do jazz sem falar da história do jazz (enquanto boa parte da música pop se resume ao mero aqui agora). Me encanta a história da disseminação do jazz, de como ele foi sendo descoberto no mundo inteiro. A Primeira Guerra Mundial foi decisiva, quando soldados norte-americanos (incluindo cerca de 200 mil negros) foram para a Europa, particularmente para a França, levando suas armas e seus instrumentos musicais. Após o conflito, muitos músicos negros ficaram, outros para lá se mudaram, fugindo da segregação racial e criando uma nova vida, com muito mais dignidade. Como o clarinetista Sidney Bechet e o trompetista Arthur Briggs, aos quais se juntou a cantora e dançarina Josephine Baker, todos atuando em Paris.

Na Alemanha, o jazz foi copiado por músicos brancos, e mais tarde acabou sendo considerado uma arte degenerada pelo regime nazista recém instalado; vejam no magnífico poster acima, como o jazz era visto pelos alemães. Na União Soviética, o grande desenvolvimento da música clássica sempre foi acompanhado da dedicação de seus músicos ao jazz, nas horas vagas. A cidade de Odessa, chegou a ser conhecida durante algum tempo como a New Orleans soviética, onde despontava a banda de Leonid Utyosov.

No início da Segundo Guerra Mundial, o gênero já estava estabelecido, e pode-se até dizer que o swing de bandas como a de Benny Goodman e Glenn Miller (que morreu na guerra) foram a trilha sonora do conflito. Mas nessa época já estava nascendo o bebop e, da mesma forma que no final da Primeira Guerra, ao final da Segunda não foram poucos os americanos que ficaram pela Europa, voltando a encher de jazz os cabarés esfumaçados de Berlim e Paris da Guerra Fria. Nessa época, mudou-se para Paris o saxofonista Johnny Griffin, e Sidney Bechet começou a ser chamado de “Le dieu”/“o Deus” pelos existencialistas. Também nessa época, Josephine Baker foi condecorada pelo próprio general De Gaulle, pelos serviços prestados junto à Resistência Francesa contra os nazistas.

Finalmente, chego onde queria: há cidades que incorporaram uma vocação jazzística, e Paris é, de longe, a mais importante delas. Outrora, os bares de jazz se multiplicavam na região de Montmartre, hoje em dia já é mais difícil encontrá-los. Mas, quando viajo, ainda gosto de freqüentar um ou outro porão onde se toca o bom jazz em Paris (e a aproximação da viagem do Anglo para a França me faz pensar se devo levar os jovens para algum desses adoráveis buracos). Para sentir o gosto do ambiente de jazz na capital francesa, recomendo uma das melhores programações de jazz do rádio, em http://www.tsfjazz.com/ (clique em “écouter l’antenne”). E divirtam-se.

sábado, 17 de outubro de 2009

Do não-negativismo enquanto paradigma



Gostei da escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016, mas não pelos jogos em si, que acho uma bobagem entediante. Em geral, considero os esportes olímpicos de uma tremenda infantilidade: apostar corrida, ver quem pula mais alto, ver quem é mais forte. Tais modalidades Olímpicas são simples celebrações da força bruta, e convém lembrar que Jogos Olímpicos nasceram (Grécia Antiga) ou renasceram (Europa, 1896) em épocas marcadas pela valorização da guerra ou da figura do guerreiro habilidoso, algo que, sinceramente, já deu o que tinha que dar. Acredito que hoje em dia as Olimpíadas (e mesmo o futebol) se consolidam devido à possibilidade que esses eventos têm de transferir para arenas neutras um certo furor nacionalista (proto-fascista) que de alguma forma todos possuímos, sublimando assim o nosso eventual e sempre desconfortável desejo de sangue. (ando lendo muito Luis Felipe Pondé, raios...)

Desprezo esportes olímpicos da mesma forma que na infância não achava graça nenhuma em apostar corrida (eu sempre perdia; hoje em dia me vingo escrevendo um blog). A melhor crítica ao esporte que vi está em um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, que é também um dos cinco filmes que eu levaria para uma ilha deserta (e que, curiosamente, trata de uma ilha deserta ), chamado Man Friday (no Brasil, Sexta-feira). Há um trecho absolutamente impagável de competição esportiva, uma corrida na praia entre Robinson Crusoé e Sexta-Feira, seguido de uma premiação patética ao som do grito das gaivotas. Mais eu não conto, apenas recomendo VIVAMENTE o filme.

Esportes com bola, por sua vez, tem outro significado. Primeiro porque incorporam um aspecto lúdico, de diversão, que vai muito além das brincadeiras infantis baseadas na força. Segundo, porque esportes com bola possibilitam uma enorme gama de movimentos corpóreos, que acabam muitas vezes por aproximá-los da dança, antítese da força bruta. E, finalmente, porque implicam em algum tipo de planejamento ou de estratégia para a vitória que traz junto alguma atividade do pensamento. Nesse sentido, esportes com bola têm como pré-requisito algo de minimamente cerebral, e não deixa de ser irônico observar que jogadores de futebol semi-alfabetizados e nada intelectualizados sejam dotados de uma capacidade de processamento de informação (articulando espaço, tempo, movimento) absolutamente surpreendente.

Isso para não falar das infinitas metáforas. A multiplicidade de eventos possíveis em uma mera partida de futebol abre-se para leituras que admitem “o épico, o trágico, o lírico, o cômico e o paródico”, citando o livro de José Miguel Wisnik, Veneno remédio: o futebol e o Brasil. Trata-se de um livro indispensável, de que se falou tão pouco, mas que deveria ser leitura obrigatória para entender o país, o esporte. Vejam por exemplo, os trechos brilhantes onde Wisnik comenta a Lógica do futebol, a onisciência do juiz e a questão do tempo.

Curiosamente os esportes com bola norte-americanos ainda se prendem à celebração da força bruta. Assim, no futebol americano, trata-se do embate puro e simples de dois corpos coletivos em função da ganho de terreno (diante do futebol americano, o Rugby passa a ter uma leveza insuspeita). Ou mesmo o baseball e o basquete (o mais plástico de todos os esportes norte-americanos), que são praticados de forma a repetir infinitas vezes um repertório reduzido de movimentos, produzindo dados em larga escala e permitindo o processamento desses dados em séries estatísticas infinitas. No futebol, séries estatísticas tem algo de patético e não costumam dizer nada.

Seja como for, celebro a escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica por dois motivos que nada tem a ver com o esporte. Primeiro, porque nossas cidades estão tão degradadas, mas tão degradadas que qualquer operação urbana torna-se indispensável, nem que para isso tenha que haver uma Olimpíada. Um evento como esse ajuda a pensar a cidade, a refletir sobre o tecido urbano. Um evento como esse significa que o mundo vai pousar os olhos sobre a cidade e, o que temos a oferecer ? Falta de metrô ? Fiação elétrica em postes ? (minhas duas atuais nêmesis...) Intolerável ! Pois então pensemos na cidade e mãos à obra. “Ah, mas a roubalheira...”, isso é outro problema, que deve ser encarado com Olimpíada ou sem Olimpíada. E que o imenso volume de recursos mobilizados seja motivo para que se encare o problema como nunca.

Porém, há um outro aspecto no Rio de Janeiro enquanto cidade olímpica. Nos últimos anos, as sedes de Olimpíadas ou são cidades normais de países em condições de receber tal tipo de mega evento (Londres, Sydney, Atlanta, Barcelona), ou cidades simbólicas (Atenas e não há outra), ou cidades emergentes, de países cuja “normalidade” é reconhecida (Seul, Pequim). Não tenho dúvida sobre o grupo onde Rio de Janeiro se encaixa. Pois há no ar esse estranho otimismo em relação ao Brasil, esse estranho reconhecimento de que o país, apesar dos seus problemas, é como os outros, e respeitável a ponto de sediar um evento como a Olimpíada.

Trata-se de uma mudança de paradigma. Nos acostumamos a pensar o Brasil como um lugar onde nada dá certo e, de fato, nada deu certo nas décadas de 1980 e 1990. Foi a época da grande estagnação (e, que lindo, também foram meus verdes anos !), que se prolongou até o início do novo século e que fez com que adotássemos o pessimismo realista como forma de enxergar o Brasil. O último momento de otimismo, o milagre econômico dos anos 1970, provou ser uma mentira: um crescimento falso, fundado em uma dívida que um dia explodiu. Se lembrarmos que a década de 1960 foi de crise política e ditadura, constatamos que o clima otimista simplesmente desapareceu ou nunca existiu na memória das pessoas. A última vez que ouvimos um discurso positivo sobre o Brasil, ele foi pronunciado pelo regime Militar nos anos 1970, e descobrimos em seguida que era uma mentira.

A escolha do Rio de Janeiro pode representar uma mudança de paradigma na forma como enxergamos o Brasil. Claro, rejeitamos qualquer otimismo inocente (pois a miséria, a violência e a disseminação de práticas políticas arcaicas batem à porta). Porém, ao mesmo tempo, desconfiamos que o pessimismo pode ser paralisante. Acho que finalmente chegou a hora do não-negativismo.


domingo, 11 de outubro de 2009

Refletindo sob(re) a chuva



Mal tinha dez anos quando comecei a falar da “minha chuva preferida”: é aquela que aparece nas primeiras páginas de “O Caso Girassol”, 17º volume das aventuras de Tintim, na edição cânone de 22 álbuns. Trata-se de uma narrativa soberba, poucas vezes um autor de história em quadrinhos foi tão feliz quanto Hergé na abertura de “O Caso Girassol”. Para recordar, a história começa com Tintim e o Capitão caminhando serenamente pelo campo, quando são surpreendidos pelo trovão que anuncia uma tempestade. A chuva marca o início de uma sucessão de fatos tremendamente perturbadores, que incluem raios cada vez mais próximos, corte na energia elétrica, chegada de personagens misteriosos e ameaçadores, tiros no parque, buracos de bala, vítimas que desaparecem e, sobretudo, vidros se estilhaçando por todos os lados. Todo o universo tranquilo e muito bem conhecido do castelo de Moulinsart desmorona a partir do início da tempestade.

Garoto, eu corria para reler pela centésima vez “O Caso Girassol” cada vez que uma tempestade de verão se anunciava. Tinha um estranho prazer em começar a ler a aventura ao mesmo tempo que percebia as inúmeras mudanças provocadas pelo início iminente da chuva: o vento morno que precede as tempestades de verão, portas e janelas batendo, gritos vindos dos fundos das casas vizinhas, na medida em que as donas de casa corriam para pegar a roupa estendida no varal. Logo, gotas imensas começavam a cair, lentamente preenchendo todo o espaço do chão seco, ao mesmo tempo em que um cheiro único, indescritível, se desprendia do chão, algo como uma mistura de vegetação e de pedra, mofo, cimento.

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Que estranha atração é essa que a chuva provoca ? Além de estranha, inesperada: apenas recentemente, graças ao Twitter, descobri como as pessoas gostam da chuva, anseiam pelo início da chuva e talvez de alguma forma se descubram sob a chuva. Na minha vida, fui acrescentando várias outras chuvas ao meu repertório de preferidas: a chuva ácida que cai sobre Los Angeles no futurista Blade Runner, a chuva interminável sobre Macondo em Cem Anos de Solidão. Ou ainda em um esquecido filme francês da década de 1950, Rififi. Seu diretor, o norte-americano Jules Dassin, fugitivo do macartismo, recriou a atmosfera do film-noir em Paris, fotografando a cidade de forma única: sem nenhuma das paisagens que fizeram a fama da cidade, mas apenas mostrando uma sucessão de ruas sempre molhadas, sempre após a chuva, sempre em preto e branco. (Subitamente, lembro de Walter Benjamin falando sobre a beleza do Sena: o rio é belo porque reflete a cidade, duplicando Paris).

Porém, as descrições de chuva na Lisboa de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa) são particularmente tocantes. Copio fragmentos de uma de suas descrições da chuva, no caso, de um final de tempestade:

Depois que os últimos pingos da chuva começaram a tardar na queda dos telhados (...) ouviu-se o abrir de janelas contra o desesquecimento do sol. Então, pela rua estreita, do fundo da esquina próxima, rompeu o convite alto do primeiro cuteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja fronteira reverberaram pelo espaço claro (...)

O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante esse cair esfiado de água sombriamente luminosa que destaca das fachadas sujas e ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou (...)

Mas que pensava eu antes de me perder a ver ? Não, sei. Vontade ? Esforço ? Vida ? Com um grande avanço de luz, sente-se que o céu é já quase todo azul. Mas não há sossego – ah, nem o haverá nunca ! – no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância fechada ao pó no sótão da casa alheia. Não há sossego – e, ai de mim !, nem sequer há desejo de o ter...

Foram esses trechos que me ajudaram a refletir sobre a chuva. O início e o fim da chuva são dois momentos em que o mundo – ou , mais precisamente, a cidade – se transforma diante de nossos olhos. Trata-se, portanto, de dois momentos privilegiados para contemplar o mundo a nossa volta e entendê-lo, talvez até a achar nosso lugar dentro dele. O início ou o fim da chuva representam um limiar, em que nossa faculdade de observação e compreensão das coisas é despertada: é quando desaparece o nosso olhar "de sempre", desprovido de sentido, com o qual contemplamos uma realidade cotidiana que se repete infinitas vezes e no qual estamos imersos. Em outras palavras, desaparece um olhar que é pura objetividade, e que nos mostra uma sucessão de atividades banais, de coisas entediantes e repetitivas que fazem grande parte de nosso dia a dia. Quando ultrapassamos o limiar, graças as mudanças provocadas pela chuva, emerge nossa subjetividade, que acaba por dar contexto e significado às coisas, que nos faz descobrir um sentido que está oculto na banalidade que, descobrimos, é só aparente. Assim, a paisagem vista pela janela mil vezes da mesma forma passa a apresentar uma multidão de figuras novas: o grito do cuteleiro, o martelar de pregos (ou mesmo a corrida da dona de casa rumo ao varal de roupa) todos eles vão ganhando forma e ocupando o universo das sensações a nossa volta, mais ou menos como um artista começa a despejar cor sobre uma tela. A cidade vai tomando forma como um organismo vivo diante de nossos olhos, e as infinitas particularidades que acabam por formar o todo, perdem o seu caráter de forma única a passam a ser uma construção cultural, um sentido.

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Volto para o Tintim. Na página 2 de “O Caso Girassol”, a chuva despenca com intensidade, e fatos perturbadores logo irão começar. O primeiro deles encontra-se no último quadrinho da página, um dos meus quadrinhos preferidos em toda obra de Hergé, e cujo significado total eu demorei a perceber. Na imagem, Tintim, o Capitão e o “bravo” Nestor correm da chuva, sem saber que estão sendo observados por um espião da Sildávia. Mas, no mesmo quadrinho, um espião da Bordúria observa o espião sildavo que observa nossos heróis. E, nessa estranha operação do olhar, nesse verdadeiro ziguezague de olhares que se superpõem sem nunca se cruzarem, há ainda um outro: o do leitor, que é o único que tem conhecimento do que acontece, o único que vê tudo.

Ter a experiência da chuva nos dá a ilusão de poder tudo saber, de quem sabe poder construir o mundo onde estamos, a partir de seu aparente desmembramento. E isso é o que mais desejam todos aqueles amantes da chuva, que não superaram a sensação de estranheza e desassossego que é estar no mundo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Tristeza




É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Não lembro quando foi a primeira vez que ouvi o Samba da Benção (por Vinicius de Moraes e Baden Powell), mas sei exatamente quando parei para prestar atenção na letra e em seguida chorei feito adulto. As circunstâncias não interessam, mas sim o fato de que se trata de um dos textos mais belos que jamais li. O contraste com Tom Jobim (“Tristeza não tem fim/ Felicidade sim”) é assustador: enquanto Vinicius – o branco mais preto do Brasil – ultrapassa com sua poesia o próprio conceito de tristeza, Jobim fica desfilando uma sucessão de lugares comuns (“A Felicidade é como uma gota de orvalho numa pétala de flor...”), nos fazendo suspeitar que, na verdade, ele não tem a mínima idéia do que está falando. Pois Vinicius já enterra a alegria logo de início, dizendo que é a melhor coisa que existe, para em seguida não mais voltar a falar no assunto. Porque o seu tema é a tristeza, e se não fosse tristeza não haveria o samba, a canção, a poesia. Sem tristeza não haveria arte e é a arte que nos ensina a lidar com essa estranha dimensão do humano que é a tristeza. Lembro de Cruz e Sousa, poeta negro (é curioso como a cor da pele aparece tanto quando se fala do assunto), chamado por Leminski de “Blues e Sousa”, e que como poucos sentiu a violência discriminatória, a dor de ser negro no Brasil. E escreveu: “Mas essa mesma algema de amargura/ Mas essa mesma desventura extrema/ Faz que tu’alma suplicando gema/ E rebente em estrelas de ternura”.

Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Lembro da crítica rasteira, burra, dizendo que Vinicius era um porco machista, que só via na mulher um objeto, “feita apenas para amar” e, pior, “Para sofrer pelo seu amor e pra ser só perdão”. A crítica é uma ciência grave, e que dela se afastem os que não entenderam nada. Na verdade, não existe nada menos machista do que “Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”, e segue-se a isso uma investigação sobre essa “qualquer coisa” tão misteriosa que as mulheres têm e que os homens desconhecem. Sofrer por amor ? Perdoar ? Que mistérios são esses, que comportamento estranho é esse que as mulheres têm ? E que as faz praticar essas coisas tão estranhas como amar, sofrer, perdoar... No Samba da Benção, Vinicius sugere que a mulher é capaz de uma transcendência, de algo que a coloca em contato com aquelas coisas das quais nós, pobres homens, só conseguimos nos aproximar através da arte. E essa transcendência, na verdade, é uma operação interna: mulheres não “entram em contato”, elas tem essa sensibilidade como parte integrante de seu ser. Talvez seja esse o sentido do “qualquer coisa de triste” que a mulher tem: a tristeza enquanto metáfora de um universo emocional que os homens apenas tateiam e tentam dar forma com suas criações externas, artísticas. Como o samba.

Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Hoje em dia pratica-se o culto à alegria. Ao menor sinal de tristeza, surge a suspeita de que isso seja o sintoma de algo pior, e a própria suspeita já mergulha o indivíduo no vórtex que leva à depressão: consulta, tratamento, ingestão de substâncias químicas e, no horizonte, o medo que resulta em pânico. Mas medo de quê, exatamente ? De não ser feliz como devemos ser felizes ? (aliás, a expressão por si só já é assustadora: "dever ser feliz"). Oras, a contemporaneidade elegeu a tristeza como inimigo, mas quem disse que nosso tempo é mais feliz que os outros ? Francisco Bosco, meu filósofo pop preferido, cita a leitura que Delleuze fez de Espinosa. A alegria ocorre quando se dá a realização de uma potência. Um escritor conquista a potência através do domínio da linguagem, um pintor através do domínio das cores e formas, e assim por diante. Portanto, não existe produção artística triste: todo blues melancólico que possui como tema o sofrimento, deixa de ser triste por ser a realização de uma potência. No fundo, a tristeza aponta para alguma coisa misteriosa, para algum lugar certamente dentro de nós mesmos. E no Samba da Benção, Vinicius termina por desvendar todo o mistério da tristeza: o bom samba “é uma forma de oração”, trazendo implícito que a fé e mesmo a esperança estão por trás de toda a tristeza. Pois um dia ela vai deixar de ser triste e, enquanto isso não ocorre, ouvimos um samba.


Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração




terça-feira, 15 de setembro de 2009

Primeiro aniversário




E eis que o blog completa um ano. Comemoro comendo bolo e lembrando três campeões de audiência:

Ouro Preto – 4 de junho, 2009 – 26 comentários

O texto deve ter mexido com as lembranças de quem foi na viagem (de fato, ninguém permanece indiferente a Ouro Preto). Além disso, falar sobre essa viagem mexe com a minha memória, com camadas espessas de memória que eu vou depositando naquela cidade a cada ano. Talvez daí o recorde de comentários: desde há muito percebi que quanto mais o texto desvenda algo essencialmente “meu”, mais ele tem leitores ou provoca comentários (de fato, os muitos textos que escrevo pensando a cidade tem uma média de leitura muito inferior; minhas ambiciosas resenhas cinematográficas então, quase passam desapercebidas). Desde o nascimento do blog, tento fugir do confessional, mas lentamente descubro que o texto ideal é aquele que parte do comentário sobre o fato corriqueiro para em seguida tentar desvendar algo do mundo.

Lazare Ponticelli – 16 de setembro, 2008 – 23 comentários

O obituário de Ponticelli, último soldado francês sobrevivente da Primeira Guerra Mundial. O texto saiu em The Economist, simplesmente traduzi e divulguei, após leitura em aula. Muito mais que um mero obituário, o texto fala de memória e talvez tenha sido a razão de sua aceitação. Mas confesso que me surpreendi com o sucesso do texto, e me impressiona mais ainda os 15 comentários em três dias, recorde total.

Che cossé l’amor – 31 de agosto, 2009 – 22 comentários

Escrito meio apressadamente, para dar conta de um tema que estava sempre à espreita e que era pedido por alguns. De propósito, deixei de lado a única visão do que talvez possa ser chamado de amor de fato: o amor unilateral, que não espera retorno, o amor incondicional, o amor de mãe por exemplo. A ironia foi deixar uma pista na trilha sonora: a divertida música de Pio Leyva – cubano das antigas – “Amor verdadero”, que conta a história de um desgraçado que foi abandonado por tudo e por todos, exceto pela mãe. Mas os leitores se apressaram em me apontar essa visão de amor, seja pessoalmente, seja em comentários. Por exemplo, na bela citação de Vieira (que eu não conhecia), mandada pela Mari:

Ora, vede, definindo S. Bernardo o Amor fino, diz assim: 'Amor non querit causam, nec fructum'; o Amor fino não busca causa nem fruto. Se amo porque me amam, tem o amor causa; Se amo para que me amem, tem fruto: o Amor fino não há de ter por quê nem para quê. Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; Se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? 'Amo, qui amo, como ut amem': Amo porque amo e amo para amar. Quem ama porque o amam é agradecido; Quem ama para que o amem é interesseiro; Quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino.
.
Também deixei de lado uma referência básica, O banquete, e a única pessoa que de alguma forma intuiu a opinião de Platão sobre amor foi certa comentarista anônima ("Ana") que, apesar de uma parca educação (e de uma contradição de termos) sugeriu que o discurso sobre amor jamais poderia ter um sujeito enunciante.

Seja como for, agradeço aos que acompanham o blog e espero que todos tenham tido, enquanto liam, ao menos metade da diversão que eu tive enquanto escrevia. Abraços e feliz aniversário !

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Che cossé l'amor ?



Volta e meia brinco de Filosofia: escolho um tema (vá lá, um conceito) e exploro, torturo, tento ampliar seu alcance, tento fazer nascer a “faísca” de que falava Platão. Dessa forma, assumo a atitude filosófica de me perguntar sobre o mundo à minha volta e convido os leitores para fazerem o mesmo. Porém, como diálogo, o troço todo nunca avança muito: um link para “comentários” e o longo tempo entre pergunta e resposta acabam desanimando a todos. Tenho certeza que o blog tem mais leitores passivos que colaboradores, mas sei que os leitores passivos partem da leitura do texto para suas próprias descobertas, animando os seus próprios alegres colóquios. E é justamente por quererem avançar nas suas descobertas e alimentar sua reflexão sobre este ou aquele assunto, que muitos me pedem para abordar alguns temas específicos. Dentre estes, o inominável sempre aparece: pedem-me que fale sobre o amor. Mas, como diria o perplexo guerreiro viking em Asterix e os Normandos, “Como posso fazer algo que desconheço?”

[Interlúdio pop: durante 27 anos, René Goscinny e Albert Uderzo produziram 24 volumes de As Aventuras de Asterix, um verdadeiro monumento cultural do século XX. Além de soberbamente engraçados, cada álbum de Asterix gira em torno de um ou dois assuntos explorados de forma genial: sob a capa espessa de um humor anárquico, existe quase uma proposta de reflexão sobre conceitos. Em Asterix e os Normandos, por exemplo, “discute-se” o conceito de medo. Após a morte de Goscinny (o responsável pelos textos) a obra foi tocada apenas pelo desenhista Uderzo, que foi incapaz de manter o pique: os álbuns passaram a ser entediantes, com os personagens repetindo seus comportamentos como verdadeiros clichês, e com interesses de mercado meio óbvios por trás de cada novo título.]

Tateio sobre o assunto. Usei a palavra inominável (alguns diriam inefável) porque mal sei se o amor existe ou, no mínimo, sou incapaz de chegar a um entendimento sobre o que seja o amor. Sei que tem algo a ver com a atração que sentimos por uma pessoa, mas antes que eu possa entendê-lo, sou perturbado pelo fato de que tal atração quase sempre vem atrelada ao desejo de posse.

Por que não nos limitamos apenas gostar, por que existe também o desejo de possuir ? Qual o mistério que se esconde por trás do desejo de posse que vem junto de todo amor ? Pois me parece que é justamente isso que caracterize o amor: gostar + possuir. Talvez seja por isso mesmo que muitas vezes, quando nos referimos ao ato sexual, usamos o verbo “possuir”, muito mais transcendente do que “transar” (do que “comer” então nem se fala). E talvez seja por isso que gostemos tanto de histórias de vampiro, evidentes metáforas do amor, uma vez que falam da posse física e espiritual de uma pessoa, em um tempo infinito. Histórias de vampiro nos fazem crer que o amor de fato existe.

Aqui se abre o aspecto mais perturbador de toda relação: queremos que o amor seja correspondido, mas isso faz com que além de possuidores, sejamos ao mesmo tempo objeto do desejo de posse de Outro. Quando sabemos que alguém quer nos possuir, de alguma forma nos sentimos envaidecidos (amados), ao mesmo tempo em que lamentamos o risco de perda da liberdade. Se eu sou objeto da posse de alguém, corro o risco de deixar de ser quem eu sou, de perder essa identidade pacientemente (dolorosamente) construída ao longo de anos. Da mesma forma, quando queremos possuir, sabemos que, ao exercer o controle sobre o Outro, a pessoa amada corre o risco de deixar de ser quem ela é: uma vez tornada objeto de nossa posse, ela deixa de possuir as características que despertaram o amor.

Mas, é possível a atração entre duas pessoas sem o desejo de possuir ? Certamente que é, mas nesse caso não será chamada de amor, portanto trata-se de um tipo de relação que não me interessa como objeto de reflexão. Considerando, portanto, que o desejo de possuir seja indissociável do que chamamos de amor, é possível que duas pessoas se possuam sem se “destruir” mutuamente ? Em outras palavras, um amor correspondido é possível ?

Primeira resposta: não, o amor é sempre unilateral, platônico, até. Toda realização do amor implica em sua morte. Dante amou Beatriz, e uma prova incontestável de seu amor foi a Divina Comédia. Na obra, o poeta florentino consumou seu amor com Beatriz apenas em verso, descrevendo uma cena idílica nas nuvens do Paraíso, canto 31, em meio a um concerto de anjos. Sabemos que Dante jamais dirigiu sequer uma palavra a Beatriz na vida real, suspeitamos que se eles fossem amantes reais, Dante jamais perderia seu tempo escrevendo algo como a Divina Comédia, preferindo obviamente ficar com sua amada, “possuindo-a”.

Segunda resposta: sim, o amor correspondido é perfeitamente possível, pois a destruição de uma individualidade não deve ser vista como negativa. Aliás, ao invés de “destruição”, melhor seria pensar em “construção” de algo novo. No amor, construímos uma nova identidade, nos descobrimos amando. Impossível, não lembrar de post recente, sobre fuga. Amor tem algo de fuga, no sentido de deslocamento. Pois o amor verdadeiro deve nos completar: quando se ama, brilha o entendimento.

domingo, 16 de agosto de 2009

De volta à Cidade




A força do dia fez com que eu me refugiasse numa caverna; no fundo havia um poço, no poço uma escada que abismava na treva inferior. Desci; por um caos de sórdidas galerias cheguei a uma vasta câmara circular, a muito custo visível. Havia nove portas naquele porão e oito davam para um labirinto que falazmente desembocava na mesma câmara; a nona (através de outro labirinto) dava para uma segunda câmara circular, igual à primeira. Ignoro o número total de câmaras; minha desventura e minha ansiedade as multiplicaram. O silêncio era hostil e quase perfeito, outro rumor não havia nessas profundas redes de pedra além de um vento subterrrâneo, cuja causa não descobri; sem ruído, perdiam-se entre as gretas fios de água enferrujada (...)

No fundo de um corredor, um muro não previsto me barrou os passos, uma remota luz caiu sobre ele. Ergui os olhos ofuscados: no vertiginoso, no mais alto, vi um círculo de céu tão azul que pareceu-me púrpura. Alguns degraus de metal escalavam o muro. O cansaço me relaxava, mas subi, só me detendo às vezes para pesadamente soluçar de felicidade. Fui divisando capitéis e astrágalos, frontões triangulares e abóbadas, confusas pompas de granito e mármore. Foi-me assim concedido ascender da cega região dos negros labirintos entretecidos à resplandecente Cidade.

O texto acima descreve com incrível semelhança a primeira vez que me aventurei sozinho pela imensa rede de metrô de uma cidade grande e me perdi por alguns instantes. Na verdade, acho que prolonguei voluntariamente minha situação de “perdido”, saindo em estações diferentes para ter surpresas, pegando a linha errada para ver onde iria parar. A cidade era Paris, o ano 1990 (a rede de metrô é a da figura acima). Foi assim que descobri, por exemplo, a Linha 6, que de repente deixa de ser subterrânea e oferece aos passageiros que vão na direção de Étoile uma magnífica vista da torre Eiffel.

O fragmento citado, todavia, não tem nada a ver com metrô, pelo contrário. É a descrição fantástica que o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) faz da “cidade dos imortais” em um dos contos do livro O Aleph. Seja como for, a idéia de um labirinto em que câmaras idênticas se sucedem, ligadas umas às outras por túneis e caminhos subterrâneos chega a ser quase precisa. As estações do metrô de Paris são muito semelhantes entre si: longas plataformas ferroviárias, com tetos como se fossem seções de cilindro, cobertos de azulejos brancos de uma ponta a outra. A monotonia das paredes de azulejo branco é quebrada pelos painéis publicitários (e os painéis se repetem em todas as estações, ajudando a criar o aspecto labiríntico em que as câmaras são de fato idênticas) e por uma placa azul turquesa, onde está escrito o nome da estação em branco.

Aliás, os nomes das 380 (repito, trezentos e oitenta) estações de Paris por si só já são uma delícia. Nomes de lugares, nomes de pessoas, nomes históricos. Nomes de batalhas ! Há milhões de fantasmas por trás de algumas estações que têm nomes das batalhas da França: Bir-Hakim (1942, cinco mil mortos), Iena (1806, trinta mil mortos), Sebastopol (1855, setenta mil mortos), Alésia (52 a.C., talvez cem mil mortos). Porém, o que chega a ser engraçado (ou no mínimo inusitado) são as estações que foram rebatizadas, e acabam tendo dois nomes. Por exemplo, a estação Barbés-Rochechouart, que reúne o nome de um revolucionário de 1848, Armand Barbés, com o de uma aristocrata do Antigo Regime, Marguerite de Rochechouart.

Mas o post de hoje não é sobre nada disso, e sim sobre uma notícia da semana que passou, segundo a qual a prefeitura de São Paulo irá gastar, nos próximos anos, algo em torno de 4 bilhões de reais com obras viárias. Ou seja, com avenidas para automóveis. Tal volume de recursos seria suficiente para construir cerca de 20 km de metrô. Trata-se de uma notícia escandalosa.

Há um princípio do urbanismo, comprovado desde há muito segundo o qual as “vias criam o seu próprio tráfego”. A idéia que a construção de avenidas e cada vez mais avenidas serve para “desafogar” o tráfego é uma mentira atroz. Lembro da recente construção da famosa Ponte Estaiada – com seus cabos imensos, como se a cidade já não tivesse fios demais pendurados sobre nossas cabeças – que foi justificada como uma forma de levar o tráfego rapidamente de um ponto para outro e que imediatamente se converteu em um verdadeiro estacionamento a céu aberto nos horários de pico. O princípio do urbanismo que citei surgiu a partir das fracassadas experiências ocorridas em Nova York a partir da ação de Robert Moses (1888-1981), que planejou o desenvolvimento da cidade dando prioridade aos automóveis. Sem a mínima preocupação com conservação, Moses derrubava bairros inteiros e degradava outros tantos para abrir avenidas, pontes e vias elevadas, tendo iniciado suas furiosas atividades de engenharia já na década de 1920. Quarenta anos depois, o modelo estava esgotado e a cidade paralisada.

Na cidade de São Paulo ainda estamos nas mãos dos carros, e décadas seguidas de abertura de avenidas asfaltadas não resolveram o problema do tráfego. O que é evidente, pois o problema de circulação não se resolve com automóveis (e um dia as gerações futuras irão rir de nós, constatando que para nos deslocarmos do ponto A até o ponto B levamos junto 700 kg de ferro, aço e borracha, emitindo poluentes no processo). Avenidas, obviamente, tem um efeito eleitoral magnífico, pois tem imensa visibilidade: 100 km de avenidas são mais visíveis que 20 km de metrô, dando impressão de que o prefeito construtor de avenidas asfaltadas é um sujeito que “faz” as coisas.

Os argumentos mentirosos para justificar tal uso imbecil de recursos são infindáveis: “Metrô é obrigação do Estado e não da Prefeitura”, repetem os sucessivos prefeitos, assumindo publicamente sua omissão. “Metrô leva muito tempo para ser construído, enquanto o problema do tráfego é imediato”, tal argumento tem sido utilizado há décadas para justificar a falta de iniciativa. De fato, se 30 anos atrás os recursos tivessem sido destinados ao metrô e não aos minhocões da vida... Mas o argumento do tempo que leva a construção do metrô aponta para outra tragédia: uma infinidade de avenidas asfaltadas pode ser construída durante um mandato de 4 anos, enquanto um simples trecho do metrô pode levar muito mais tempo, muito além do mandato de um prefeito ou governador. Portanto, estes jamais irão iniciar uma obra que será concluída por outro. E a cidade que se dane.

As mentiras não param. Os míseros 60 km do metrô de São Paulo estão divididos em cinco linhas... que cinco ? Existe UMA linha de metrô em São Paulo, a número 1, azul, Tucuruvi-Jabaquara. A linha 2, verde, é um mero ramal (nove estações) e a linha 3, vermelha, é apenas a adaptação de trilhos que já existiam na superfície desde há muito. Já a linha 4, amarela, prevista para 2010 (claro, ano de final de mandato do governador candidato à presidência), vai bater dois recordes negativos: maior tempo de construção e maior distância entre estações (aliás, terá somente 7 estações novas, sendo portanto mais um simples ramal). Finalmente, existe a linha 5 lilás, que leva do nada a lugar nenhum em 6 estações.

É uma vergonha. Todo o planejamento e construção do metrô de São Paulo desde a inauguração é prova de uma incompetência feroz, bem como da submissão do interesse público a ambições mesquinhas. Comparemos com outras cidades, que tiveram metrô inaugurado mais ou menos na mesma época que o de São Paulo (1974): Seul, hoje com 287 km em 10 linhas e Cidade do México, com 202 km em 11 linhas. E são linhas reais, e não de mentirinha como as nossas. Em nome de uma carreira política, destrói-se a cidade.

Defendo radicalmente o metrô porque é a única alternativa que temos. E porque em um transporte coletivo minimamente civilizado como o metrô, podemos nos livrar do isolamento destruidor (e quase assassino) dos carros, multiplicando as trocas e os encontros, ou seja, praticando o “viver junto” que é o princípio mais essencial e prazeroso das cidades.

Fugir (continuação)

O último post foi certamente um dos mais instigantes. Nos comentários, o conceito de "fugir" foi melhor delimitado, ou mesmo ampliado, e acabou ganhando novos significados que eu jamais havia pensado. Assim se cumpriu o projeto do blog: levar o pensamento adiante, para mim e para os leitores, como em um Alegre Colóquio.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Fugir




Anos trás precisei de documentos ( = provas) para um processo imbecil na justiça contra um certo estelionatário, na época proprietário de uma escola onde eu trabalhava. Naquela escola funcionava um caixa dois: os salários eram pagos “por dentro” e “por fora”, havendo inclusive duas contabilidades paralelas, uma legal outra ilegal. Eu achava curioso que os procedimentos eram idênticos nos dois casos, recibos, holerites e assinaturas para lá e para cá, mesmo na contabilidade paralela. A única diferença é que os procedimentos do caixa dois eram feitos todos em uma sala discreta, com portas abertas, é bem verdade, o troço todo era ao mesmo tempo secreto e do conhecimento de todos.

Percebi que se possuísse os documentos “secretos” do caixa dois teria um trunfo na justiça. Certa ocasião, fui à tal sala discreta da contabilidade e, quando peguei uma pilha de documentos para assinar recibos atrasados, perguntei à contadora: “Puxa, vocês não tem medo que alguém use esses papéis em um processo contra a escola ?”. A mocinha respondeu, “Ah, mas é por isso que esses papéis nunca saem dessa sala”. Foi o sinal. Larguei a caneta e, para sua surpresa, pus a pilha de documentos debaixo do braço e saí correndo pela escola.

Foi uma fuga maravilhosa. Ninguém poderia imaginar: um professor correto, correndo desabaladamente pelos corredores da administração, passando como um foguete em frente à sala do proprietário-estelionatário (que nada sabia do que se passava), atravessando a sala de espera, onde pais de alunos não entendiam o porquê da correria (claro, com a mocinha da contabilidade bufando atrás de mim). Passamos correndo pelo pátio, pegamos o corredor lateral que dava para a saída da escola, ela gritando “Pare ! Volte!”. Próximo ao portão, ela ainda tentou gritar para o porteiro que me detivesse: “Não deixe ele sair !”. Cumprimentei o porteiro, velho conhecido, alcancei a rua e parei, exausto. A mocinha, ofegante, me alcançou, mas já não era mais possível nenhuma ação. Apenas olhei para ela e para a escola atrás dela, onde algumas pessoas já olhavam pela janela, e me ocorreu que jamais voltaria naquele lugar.

Foi uma saída espetacular.

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Tento estabelecer claramente os significados de fugir e sair. O que diferencia um ato do outro ? A meu ver, sair dá idéia sobretudo de deslocamento. Mas o que faz esse deslocamento diferente do fugir ? Nos dois casos pode ser um deslocamento voluntário ou não, para longe ou para perto, tanto rápido quanto devagar. Em que circunstâncias uma saída passa a ser uma fuga ? Em outras palavras, do quê, exatamente, fugimos ?

Os gregos, com a perspicácia habitual, nos ajudam. A origem mais remota da palavra fugir vem de φεύγω (feugo), às vezes aparecendo como διαφεύγω , com o acréscimo da preposição δια- (através de, por meio de). Platão usa a expressão διαφεύγει με, no sentido de “isso me escapa”, ou seja, algo que ignoro. Em Isócrates, há πολλά με διαφεύγεν, que quer dizer “esqueci muitas coisas”. Aqui começamos a descobrir do que fugimos. Fugir significa não pertencer mais ao pensamento, o que põe em jogo o esquecimento. Na fuga, lidamos com a memória, saímos de uma situação ou de algo que não queremos mais que faça parte de nosso pensamento. Será que esse algo é uma parte de nós ? Quando fugimos, apagamos alguma coisa, criando assim um espaço em branco que pode ser construído talvez da forma que quisermos.

E é por isso que existe algo de transcendente em toda fuga. A fuga deve ser dramática, não existe fuga insidiosa ou discreta, pois esta se confunde com o mero desaparecimento. Um fuga não deve ser o fim, mas o início, pois quando fugimos nos reinventamos. A fuga significa fazer tábula rasa do passado, gerando a possibilidade de começar de novo, e é esse o sentido que aproxima o fugir da filosofia. Na filosofia devemos nos perguntar sobre as coisas que parecem óbvias, mas que descobrimos que não são: toda filosofia parte da fuga do senso comum, do mero entendimento das coisas ao nosso redor como dados.

Porém, às vezes pensamos estar fugindo quando simplesmente não enfrentamos. Pois há aqueles que fazem da fuga um modo de vida, e isso acaba impedindo a criação de qualquer coisa, ou mesmo a constituição de um eu. Nesses casos, no espaço em branco deixado pela fuga constrói-se um nada avassalador.

domingo, 2 de agosto de 2009

Senzala




Para quem foi para Ouro Preto, uma foto da senzala da Casa dos Contos, tal como era antes do verdadeiro crime museológico que presenciamos. Segue abaixo uma cópia da carta que enviei para a direção da Casa dos Contos no ano passado e que, como vimos, acabou não resultando em nada.


Ouro Preto, 15 de julho, 2008

Para:
Direção da Casa dos Contos
Centro de Estudos do Ciclo do Ouro
Ouro Preto, Minas Gerais

Prezado senhor,

Como professor de História do Curso Anglo de São Paulo (centro de excelência na preparação para vestibulares desde a década de 1950), tenho tido oportunidade de visitar a Casa dos Contos com grupos de alunos nos últimos dez anos. Trata-se, sem dúvida, de um dos pontos altos da viagem anual do Curso para as cidades históricas de Minas Gerais e sempre me chamou atenção o cuidadoso trabalho de restauração e exposição aí realizado.

Recentemente, tive a surpresa de constatar que a senzala foi transformada em uma sala de exposições, completamente tomada por mostruários e vitrines contendo uma infinidade de objetos que, apesar de bastante interessantes, acabaram por “matar” aquele espaço, tão significativo no conjunto da edificação.

O espaço vazio, silencioso e sombrio da senzala sempre foi um local privilegiado para a evocação da trágica experiência da escravidão e, mais de uma vez, observei meus alunos adolescentes em momentos de profunda introspecção (e, certamente, reflexão) diante do sentimento de ausência proporcionado por aquele espaço.

Agora, infelizmente, a senzala se encontra paradoxalmente cheia (de objetos) e vazia (de significado). Sua singularidade foi perdida: a quantidade excessiva de objetos expostos não apenas é desnorteante como desvia a atenção da própria senzala, hoje transformada em uma sala como outra qualquer. Seus mostruários evocam as vitrines dos afamados “shopping centers”, transformando uma experiência historicamente densa em um mero simulacro da experiência do consumo: a história deixa de abrir uma possibilidade de reflexão e dá origem à uma atividade banal, empobrecida. (Insisto: essa perda de sentido contrasta com a própria riqueza dos objetos expostos que, francamente, devem ser retirados daquele espaço).

Impossível não lembrar do conceito benjaminiano de aura: “uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais próxima que ela esteja”. A de senzala foi jogada no lixo, a experiência de uma visita à Casa dos Contos é hoje bem menos interessante do que outrora. E, para os que a conheceram no passado, trata-se de uma experiência quase angustiante.

Acredito que a Direção da casa dos Contos levará em consideração minhas observações, no seu objetivo de preservar a memória de Ouro Preto, compreendendo e valorizando a História e a preservação da memória não como espetáculo, mas, sobretudo, como instrumento de reflexão.

Atenciosamente,

Gianpaolo Dorigo

- Bacharel e Licenciado em História pela Universidade de São Paulo
- Mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
- Bolsista do CNPQ junto ao Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga) em 1987-1989.
- Pesquisador visitante junto ao
Musée Royal de l’Armée et d’Histoire Militaire de Bruxelas, Bélgica (1990)
- Professor do Curso Anglo-vestibulares desde 1991.
- Autor de livros didáticos de História e Filosofia para Ensino Médio pelas editoras Scipione e Anglo.
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PS.: Sobre o termo "local de memória" (lieu de mémoire), conforme usei neste ano: trata-se de conceito de largo uso na historiografia francesa recente, cunhado pelo historiador Pierre Nora. O também historiador, inglês, Colin Jones explica: "Designa uma instituição ou local em que se focou a consciência histórica de um povo e que ao longo do tempo recebeu contínuas incrustrações da memória coletiva".

quinta-feira, 23 de julho de 2009

La joie et la tristesse



Desde há muito Paris deixou de ser uma cidade e passou a ser uma marca, tão falada e comentada, disputada e visitada, que dificilmente percebemos que ainda existe uma cidade debaixo daquela massa compacta e espessa dos discursos e imagens. De tão citada, mostrada e reproduzida, Paris passou a ser uma cidade imaginária.

Paris vende, ainda mais no Brasil depois que a valorização da moeda nos tornou a todos uns globetrotters: agora a classe média pode ir a Europa, e Paris passou a fazer parte da memória afetiva de multidões de brasileiros. A indústria cultural se move. Nos cinemas, a simples presença do nome da cidade no título do filme, já serve para atrair milhares de saudosos de Paris. Nas livrarias, não é raro uma prateleira dedicada a Paris, e que apresenta muito mais que os tradicionais guias de viagem. Camisetas e roupas com o nome Paris também estão por todos os lados. Pois Paris foi engolida e cada vez que cruzamos com essa Paris imaginária, ela se torna mais imaginária do que nunca.

Todavia, no meio da avalanche, há tesouros a serem descobertos. Ontem revi “Paris, je t’aime” – título mais apelativo impossível – e descobri que gostei do filme muito mais do que poderia imaginar. Trata-se, basicamente, de uma seleção de curtas e algumas das histórias contadas no filme melhoraram tremendamente com o tempo. Segue abaixo a fala final de Carol, personagem interpretada pela atriz norte-americana Margo Martindale, no último episódio do filme, “14e Arrondissement” (direção Alex Payne):

Et puis, quelque chose m’a arrivé, quelque chose difficile de décrire.

(silêncio)

Assise lá, un être seule dans un pays étranger, loin de toutes les gens que je connais, un sentiment est venu a moi. C’était comme je me souvenait de quelque chose que je n’ai jamais connu ou que j’avais attendu toujours, mais je ne savait pourquoi. Peut-être c’était quelque chose que j’avait oublié ou quelque chose que m’a manqué toute la vie. Seulemant je pouvait dire que j’ai senti, au même temps, la joie et la tristesse, mais pas trop tristesse, parce que je me sentait vivant. Oui, vivant.

Vai sem tradução, o francês dela é impagável, intraduzível. O trecho tem que ser ouvido, mais do que lido: veja o episódio todo em http://bit.ly/Ns0gD , com legendas em inglês. Além disso, o trecho citado acima faz lembrar um fragmento de Camus, que apareceu no blog no início do ano: http://bit.ly/4livo3 .

Deixo as palavras de Carol como despedida. Nos próximos dias, os alegres colóquios serão realizados em Ouro Preto, só voltando em agosto. Abraços a todos.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Ainda o Beco...



(Completo o texto iniciado no último post, mantendo a distinção entre grafitti e pixação).

Pixação & Transgressão

Desde há muito está disseminada a idéia de que transgredir é bonito. A partir dos anos 60, com a crítica à sociedade administrada e a imbecilização do cotidiano, a transgressão passou a ser vista como forma de contestação. Meio século depois, a transgressão foi banalizada, esse discurso caiu no vazio. Na década de 1960 uma juventude trangressora tomou as ruas em nome de utopias; a luta fracassou e deixou no ar uma pergunta amarga: como destituir os poderes se de antemão já estava descartada a criação de novos poderes ? O movimento fracassou (nenhum sucesso era possível), as utopias não vingaram. Sobrou apenas o desejo de manter o comportamento transgressor, agora pintado com cores anarquistas.

Tal comportamento está presente nos grupos de pixadores, que orgulhosamente ostentam o nome libertário de “coletivos”. Certos pixadores rejeitam até o princípio da autoria: qualquer um do grupo pode assinar vício ou fds ou susto's, só para citar alguns dos mais visíveis. E, para fazer parte do coletivo, basta pixar, mais libertário que isso impossível.

Porém, a questão anarquista observada pelo viés da pixação, acaba expondo os limites do movimento. Uma sociedade é livre quando seus indivíduos não estão submetidos à opressão, por exemplo, das leis impostas pelo estado. Dessa forma, uma sociedade anarquista deve estar fundada na auto-disciplina e no respeito a valores comuns. O pixo enquanto forma de transgressão anarquista resulta na deterioração do espaço que deveria ser público. Ao invés de destruir o privado (que pode ser fonte de desigualdade etc.), o pixador destrói espaços que deveriam ser de encontro, de trocas, de sociabilidade; justamente aquilo que, supostamente, deveria ser valorizado. Curiosamente, espaços ultra-pixados são evitados pelas pessoas e freqüentados somente pelos pixadores. A criação desses espaços exclusivos através da pixação resulta no oposto do libertário, ou seja, um comportamente seletivo, excludente e, no seu limite, fascista.

Pixação & Deterioração

Falo de pixação enquanto deterioração não porque o pixo destrói prédios “bonitos”, que, afinal, são tão escassos em São Paulo. Simplesmente constato que pixação (ao contrário do grafitti) dá idéia de abandono e marginalidade. Daí para a atuação do crime organizado é um pequeno passo, e dada a situação de quase guerra civil que vivemos, o pixo vai efetivamente contra o que é de interesse coletivo.

Interessante pesquisa foi feita em uma universidade holandesa (Groningen ?), suas conclusões confirmam o que constatamos diariamente em São Paulo. O experimento foi realizado ao longo das estações (de arquitetura padronizada) de uma linha de trem de subúrbio. Em todas elas havia um estacionamento de bicicletas, encostado na parede do fundo da estação. Os pesquisadores retiraram todas as latas de lixo dos estacionamentos, pixaram as paredes de metade das estações e, em um determinado dia, deixaram nas bicicletas estacionadas um folheto de propaganda qualquer. Em seguida, observaram a reação das pessoas. Nas estações não-pixadas, quase 100% dos donos de bicicletas amassaram e guardaram o folheto de propaganda no bolso, provavelmente para jogar na próxima lata de lixo. Nas estações pixadas, cerca de metade dos donos de bicicleta amassaram a propaganda e jogaram no chão. Pixo da idéia de abandono, gera mais abandono e sujeira ainda.

Na Universidade de Columbia, um experimento semelhante com janelas quebradas: diante de uma fachada com janelas quebradas, as pessoas não se incomodam de jogar lixo. Ou seja: pixação destrói.

(“Ah, mas é bom criar sujeira para contestar a hipocrisia da sociedade burg...” zzzzzzzzzzzzzz... rrrrrrrrrooooonnnnccc... zzzzzzzzzzzzzzzzz...)

Pixação & Existência

Zezão dizia que começou a pixar seu nome para provar sua existência. Isso ocorreu na época em que trabalhava como moto-boy e, segundo ele, era uma pessoa invisível: não recebia bons dias, as pessoas fechavam o vidro do carro quando ele se aproximava. Os únicos que percebiam sua existência eram seguranças de banco, que invariavelmente deixavam-no preso na porta giratória, desconfiados de sua atitude (?) suspeita.

E aqui ele pôs o dedo na ferida. Pois vivemos cercados de pessoas invisíveis, pessoas próximas de nós, a quem nunca notamos a existência. Ou, o mais comum: notamos a existência, mesmo assim seguimos em frente, passamos reto. Quem está lendo esse blog provavelmente nunca foi invisível, mas, pergunte-se se já tratou alguém assim. Porteiros, empregadas, faxineiros, mendigos, pedintes... a lista é infinita. Diante da agressividade do nosso silêncio, como se queixar de um “grito de existência” na forma de pixo ? Como não ser tolerante com quem costuma ser vítima cotidiana da intolerância ? Portanto, viva o pixo existencial, desprovido de ideologia barata! Por mais destruidores que sejam seus efeitos, essa é a cidade em que vivemos, e a quantidade gigantesca de pixações em todas as paredes da cidade da testemunho de quantas pessoas estão gritando desesperadas, quantas pessoas estão em busca de expressão.

Daí uma pergunta: será que não é possível que essas pessoas se expressem de uma forma que vá além de por o nome na parede ? É aqui que a pixação pode virar grafitti.

Pixação & Estética

Há uma estética das letras rúnicas, agressivas do alfabeto da pixação paulistana. No Beco do Batman, um dos grafiteiros transformou a forma do pixo em um padrão agregado á sua pintura (foto acima). Poucos anos atrás, o Itaú Cultural na Av. Paulista passou por uma reforma e cobriu a obra com um tapume branco, divertidamente pixado com um padrão desse tipo. No Cemitério São Paulo, pixadores foram apresentados á arte em cerâmica e puseram seus rabiscos ao longo do comprido muro branco, em espaços simétricos, e o resultado foi surpreendente.

O ponto é: há um gigantesco potencial estético nos garranchos dos pixadores. Há uma enorme energia criativa – sob a forma de vontade de expressão – por trás da ação dos pixadores. Aliás, toda essa reflexão surgiu a partir dos alegres colóquios que se iniciaram com visitas à galeria Choque Cultural e, principalmente, à sua recém encerrada exposição de arte gráfica. Se a pixação for desprovida de um viés ideológico bobo, ela pode se converter, junto com o grafitti, em uma forma de arte singular. Pode até ajudar a definir os rumos de uma nova arte possível no novo milênio, após quase um século de crise da arte.

domingo, 12 de julho de 2009

Beco do Batman



Dos alegres colóquios realizados ultimamente no Beco do Batman – verdadeiro museu a céu aberto do grafitti –fica a suspeita de que a arte de rua é o futuro da arte, justamente por salvá-la da perda de sentido.

Hoje, quando vamos ao museu, topamos com as famosas “instalações”, quase sempre herméticas, isto é, absolutamente incompreensíveis sem um manual de instruções devidamente oferecido pelo artista. Ou então, cruzamos com aquelas propostas de “chocar a platéia burguesa”, como se, a essa altura, alguém ainda tivesse alguma sensibilidade para ser chocada. (Hoje em dia, depois de Auschwitz e Hiroshima, expor um urinol não consegue provocar outra reação além de um bocejo entediado). Finalmente, há essa mania boba de querer superar a vanguarda da semana passada, se convertendo na vanguarda da vanguarda, pelo menos até a semana que vem: sem a compreensão de toda a história da arte, incluindo as últimas dissidências conceituais entre grupelhos semi-desconhecidos, não se consegue entender porque tal artista resolveu usar sua obra para “questionar a arte” pela milésima vez.


A arte de rua traz de volta pelo menos três elementos que se perderam desde que se iniciou aquele surdo diálogo com si próprio que tem caracterizado a arte nos últimos anos. Em primeiro lugar, o grafitti nos coloca diante do inesperado, e isso tem a ver com o próprio suporte usado pelo artista: nada menos que a cidade. No meio de uma entediante jornada do cotidiano, viramos uma esquina e damos com uma súbita explosão de cores. Equipamentos urbanos cinzas, funcionais, desinteressantes passam a ganhar interesse ao se transformarem em formas inéditas.

Além disso, o grafitti nos faz olhar diferente. Claro que aqui cabe uma ressalva: não é por ser uma pintura e estar na rua que o grafitti ganha automaticamente estatuto de obra de arte. Porém, muitas dessas obras conseguem, e passam a pedir um tempo de contemplação maior do que o dispensado em uma passagem rápida, talvez de carro ou ônibus. Quando oferecemos esse tempo, descobrimos no grafitti coisas que não havíamos percebido da primeira vez, acabamos por perceber um novo significado (ou novos múltiplos significados) na imagem que contemplamos.

Finalmente, o grafitti abre espaço para a reflexão. Trata-se da arte na rua, que se oferece aos cidadãos de uma cidade que rejeita o espaço público. Dessa forma, o grafitti nos convida a reocupar esse espaço ou pelo menos chama atenção para sua deterioração. Seu suporte principal é o muro, e é chocante a quantidade de muros que nos cercam, sinalizando insegurança e exclusão, ao mesmo tempo em que chamam atenção para a pobreza da arquitetura que nos cerca (uma arquitetura que multiplica ao infinito as superfícies verticais brancas ou cinzas; seja como for, logo sujas).

Há que diferenciar grafitti de pixação, já comecei a fazê-lo nos posts de 27 de outubro (http://bit.ly/RbJ87 e http://bit.ly/4u9zKe) e 2 de novembro (http://bit.ly/BG9kf ) do ano passado. Porém, a primeira visita com os alunos ao Beco do Batman e o alegre colóquio com Zezão, grafiteiro inspirado, ajudou a colocar a questão da pixação em um novo plano. Volto ao assunto no próximo post.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sob efeito hipnótico




Não resisti, comprei o quadro. Agora passarei os próximos dias sob efeito hipnótico das cores e formas que terei diante de mim. Ficarei paralisado, cada vez que sentar no sofá em pleno deleite solitário, e ouvirei o fantasma de Michelangelo cochichar no meu ouvido que a obra de arte pede a solidão para produzi-la ou contemplá-la. Pensarei obsessivamente no significado de ter uma obra de arte para mim e só para mim, para ninguém mais. Mas saberei que o artista que agora financio – tornei-me um mecenas ? – permanece engajado na sua arte, e sua arte é de rua. O preço que paguei pelo meu prazer pessoal libertará o artista para que ele permaneça produzindo para as pessoas, tendo a cidade como suporte.

Saberei que tenho sobre a brancura imaculada da parede de casa um quadro com imagens que pertencem à rua. Terei convidados para o jantar sentados diante da inscrição “PIXELTOSCO” em azul vibrante, e saberei que a maior parte deles jamais conseguirá ler essas palavras, escritas com a grafia mais tortuosa dos muros de São Paulo. Ficarei dias pensando em como aquela superposição alucinada de inscrições em uma tela de 200 x 150 cm resultou em uma beleza plástica impressionante.

Sim, terei que viver com a lembrança vergonhosa de que, ao saber do preço, eu pedi um desconto na obra de arte. Mas tanto faz, a compra foi feita, resta apenas aguardar a entrega. E hoje, uma quinta-feira em que chove mais que a Lisboa de Bernardo Soares e a Los Angeles de Blade Runner, a galeria diz que fará a entrega da tela, a partir das 14h. Curiosamente - máximo da coincidência - no mesmo dia e horário em que a loja de material de construção prometeu entregar minha privada nova.

Toca o interfone: subitamente, vivo um momento Duchamp.


domingo, 21 de junho de 2009

Pequenos poderes



Dia desses, falando sobre a Revolução Francesa, surgiu a lembrança de que os mais fanáticos defensores do Rei, no processo revolucionário, eram “novos-aristocratas”, ou seja, burgueses que haviam recebido títulos de nobreza por serviços prestados à monarquia. De fato, durante décadas que antecederam a Revolução muitos burgueses aspiravam obter títulos de nobreza, e puxavam o saco do Rei até não mais poder para obtê-los. Tornar-se nobre era uma ambição de muitos burgueses, viver dos privilégios concedidos pelo Rei, um ideal. “Pai rico, filho nobre, neto pobre” foi um ditado que surgiu na época do absolutismo, numa referência à forma como burgueses tornavam-se nobres e, em seguida, deixavam de lado os negócios, passando a viver dos favores do Rei. Uma vez tendo obtido privilégios, lutaram até a morte para mantê-los.

A história toda me lembra os kapos de Auschwitz. Nos campos de extermínio mantidos pelo regime nazista, os kapos eram prisioneiros judeus que ficavam encarregados dos serviços mais sujos ou cansativos, aqueles que os alemães achavam indignos de fazer. Por exemplo, o trato cotidiano com os demais prisioneiros. Por serem eles mesmos judeus, os kapos sabiam que sua sobrevivência só seria garantida se eles desempenhassem com eficiência seu trabalho, tornando-se de certa foram insubstituíveis para seus mestres alemães. Assim, os kapos muitas vezes tratavam os prisioneiros judeus com mais violência que os próprios alemães. Cito um trecho do “Dicionário dos Campos De Concentração”:

Cada vez que um novo transporte de prisioneiros chegava em Mathausen, o kapo August Adam separava os professores, advogados, juízes e religiosos e perguntava cinicamente a eles; “Você é um advogado ? Um professor ? Que bom ! Está vendo este triângulo verde ? Significa que sou um matador. Tenho cinco condenações: uma por assassinato e quatro por roubo. E aqui quem manda sou eu. O mundo virou de cabeça para baixo, não ? Você me entende ? Precisa de um tradutor ? Pois aqui está ele.”, e dizendo isso apontava para o porrete com o qual passava a espancar os prisioneiros. Depois de satisfeito, organizava uma Scheisskompanie e os mandava para esvaziar as fossas.
Mas talvez eu esteja citando exemplos extremos ou distantes demais de nossa realidade. Permitam-me lembrar um triste episódio pelo qual passei poucos anos atrás, quando o destino me obrigou a tirar um daqueles afamados vistos de entrada para os Estados Unidos. O processo todo beira a violência e humilhação: desde as longas conversas telefônicas com gravações (devidamente cobradas), passando pelo pagamento de uma taxa abusiva, lista de espera e, no dia selecionado para a entrevista, uma fila interminável. Organizando a fila, do lado de fora do Consulado, os seguranças: funcionários brasileiros, devidamente uniformizados, com cassetetes na cintura e uma bandeira dos Estados Unidos no ombro. Alguém pode imaginar a arrogância e o autoritarismo desses imbecis, uma vez usando um uniforme com a bandeira americana ? O estúpido poderzinho a eles atribuído subia à cabeça de forma atroz.

Aqui, mais uma vez, lembro da experiência do nazi-fascismo. O nazi-fascismo encontrou campo para seu florescimento em momentos de crise e humilhação social, como na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial ou o resto do mundo durante a Grande Depressão. Para o indivíduo desempregado, empobrecido, humilhado, o nazi-fascismo propunha um discurso grandiloqüente, um sentido de missão e, sobretudo, um uniforme e uma função dentro de um quadro hierárquico que permitia o exercício da autoridade. Resgatava-se assim a auto-estima perdida pelo indivíduo, nem que para mantê-la viva fosse necessário agredir ou humilhar outros indivíduos. Para os pobres seguranças fascistinhas do Consulado americano, uma posição de autoridade e um uniforme com a bandeira americana no ombro significaria, provavelmente, o fim de uma vida de humilhações. Afinal, quem vai trabalhar em uma empresa de segurança privada senão alguém que já está na fronteira da marginalidade ?

Mas os pequenos poderes proto-fascistas com os quais cruzamos no cotidiano não assumem somente a forma de autoritarismo armado. A fúria organizadora também tem o seu papel. E aqui entram em cena aqueles cegos burocratas, com seu desejo autoritário de controlar o mundo, disciplinando os corpos, estabelecendo critérios de uma suposta normalidade. Na sua fúria normativa, eles não podem ver um fato sem criar uma regra, não conseguem interpretar um comportamento sem pressupor um desvio. Nesse papel, alguns síndicos de prédio são imbatíveis. Em 2º lugar na minha lista de síndico-fascista-preferido-de-todos-os-tempos está a Sra.N., pacata funcionária aposentada, síndica de um edifício que freqüento. Aliás, ela é uma ex-diretora de escola (me parece que a mulher nasceu para fazer as regras serem cumpridas). Incorruptível, porém dotada de uma fúria normativa assustadora. Recentemente, afixou um pequeno quadro na mesa do porteiro, de costas para ele e voltado para quem chega: “Favor não distrair a atenção do porteiro”. Preocupada com a segurança do edifício, a nossa brava síndica jogou no lixo a humanidade do porteiro, julgando-o incapaz de agir por conta própria ou tomar suas próprias decisões, tratando-o como um animal enjaulado que não deve ser alimentado ou coisa parecida.

E aos que não entenderam nada do porque desse post, apenas confesso: escrevo com raiva. E dedico cada linha do post ao síndico do edifício onde estaciono meu carro, o síndico número um da minha lista, o homem que criou o conceito de Volksgemeinschaft de condomínio. Sieg Heil !

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Na imagem, o kapo Georg, no campo de Dora, desenhado por Leon Delarbre em 1944 (extraído de www.memoire-juive.org/kapos.htm )