quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cool memories




O hábito é indissolúvel da experiência de habitar. (Heidegger)

  

Uma mudança equivale a meio incêndio, não apenas pela destruição provocada pelos profissionais encarregados do transporte, mas sobretudo pela fúria higienizadora que leva a abarrotar latas de lixo durante a preparação. Aqui não há lugar para sentimentalismos: objetos, fotos, cartas, memórias, tudo submerge diante da necessidade imperativa de criar espaço e poupar trabalho. Seria o racionalismo a causa última da leveza de espírito ?

Lembro daquela imagem descrita em um antigo obituário em The Economist: as memórias são como fotos esquecidas no fundo das gavetas. Com o tempo, elas vão ficando amareladas, em alguns casos até mofadas. Não raro, escorregam para trás da gaveta e nesse caso nunca mais lidamos com elas. Até que, na mudança, todas reaparecem. As últimas noites passadas no antigo lar são assombradas por inúmeros fantasmas.

Fotos eletrônicas tem a singularidade de serem transportadas em grande número dentro de práticos discos rígidos. Ou, melhor ainda: são preservadas na nuvem. Mas são fotos tiradas aos milhares, selfies irrelevantes, pratos de almoços “inesquecíveis” sobre os quais já nem lembramos onde foram ou na companhia de quem,  multidões de pessoas anônimas e sorridentes, paisagens de viagem indistintas: todas as praias são iguais, a décima segunda catedral gótica da semana já se confunde com a terceira ...ou seria com a quinta ?

O novo lar é branco, é frio. As paredes ainda estão nuas, os quadros permanecem embalados, encostados em um canto. O edifício parece desabitado: ainda não encontrei ninguém nos corredores, no elevador ou na garagem. Um toque inesperado de calor é a proximidade com a rua: ouço conversas de passantes, portões que se abrem e fecham, descubro que alguém no 32 pediu pizza, ouço a porta da padaria fechando.

Olhando os passarinhos que circulam pela pequena sacada – a vizinha invisível os alimenta com frutas – sigo seus voos incertos até os fios elétricos, até os galhos de uma ou outra árvore. Observando os pássaros dessa nova paisagem, vejo pousado lá no alto uma ave melancólica: uma jovem sentada na sua sacada, uns seis andares acima de mim do outro lado da rua, fuma seu cigarro e observa a paisagem silenciosa dos prédios no entorno: janelas sempre fechadas de ambientes climatizados, cujos moradores só saem à rua em carros provavelmente blindados com vidros escurecidos. Vão ao shopping, provavelmente.

Ligar o gás, conectar à internet, pintar a parede, entregar os móveis, instalar não sei mais o quê... Uma galeria proletária com toda a sua diversidade desfila diante desse espaço ainda estranho onde moro. Alguns são explicitamente corintianos. O eletricista, empolgado por voltar ao bairro, me mostra as fotos que tirou da famosa tempestade de granizo semanas atrás.

Acordo pela quarta manhã seguida no novo lar. Finalmente dormi bem: tive sonhos. Em breve, a moça que faz a limpeza voltará aqui. O jornal já é entregue habitualmente na porta de casa. O chuveiro do novo banheiro parece a nave Enterprise e, elétrico, emite um suave zumbido a cada banho. Recebo uma visita, conversamos, abrimos uma cerveja. A moça seis andares acima fuma novamente o seu cigarro. Lentamente, vou habitando o novo lar com memórias.

2 comentários:

Santa Casa disse...

Seja feliz em sua nova casa, Gian,
Ah, e já ia me esquecendo (talvez de tão praxe): ótimo texto.

Forte abraço,

Marcelo Pierri Chiariello

jotacosteleta disse...

Parabéns professor, o senhor merece. Assinado: ouvinte da "frase" em 2009.