quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Dois vícios do debate



Primeiro, a busca forçada de consensos. É curioso como muitos debates acabam tornando-se mornos na medida em que se busca desesperadamente pontos de contato entre os debatedores. Essa busca de um terreno comum de opinião acaba deixando de lado as diferenças até que elas simplesmente morram: dessa forma o pensamento não caminha sequer um milímetro, e as mesmas questões voltam a ser debatidas infinitas vezes, sempre de forma inconclusiva. Trata-se de uma posição de conforto que evita criar divisões, por exemplo, entre um grupo de amigos ou familiares ou profissionais, pessoas que provavelmente deverão continuar convivendo por algum tempo.

Oras, acredito que é possível sim discordar e sair para tomar uma cerveja em seguida. Por que diferentes opiniões sobr eo mundo devem resultar em inimizades, rivalidades ou ódios pessoais ? Aristóteles, por acaso, deixou de se sentar à mesa com Platão ? Algum dia deixou de se referir a ele como mestre ?

Todavia, há situações em que o debate acaba criando inimizades, e aqui vem o segundo vício. Trata-se de vício decorrente do nosso renascido maniqueísmo: rejeitar o consenso ou qualquer posição intermediária em nome da “luta de classes”. Ou seja, em cada debate, só existem duas opiniões possíveis, a progressista (ou de esquerda) e a reacionária (ou seja, de direita). Tal posição é surpreendentemente comum hoje em dia no Brasil, na América Latina, e representa um brutal empobrecimento do debate. Ao defender tal visão anacrônica da luta de classes, aquele que tem uma opinião diferente da sua é seu “inimigo de classe”, portanto um obstáculo à emancipação da sociedade (ou, pior, um baderneiro de esquerda), Jamais há que se tomar uma cerveja com tal monstro.

Por “visão anacrônica da luta de classes” entendo aquela que o Marx desenvolveu no século XIX e continua sendo aceita sem mudanças até hoje. Pergunto: se o determinismo economicista do marxismo já está devidamente morte e enterrado nas ciências humanas em geral, por quê a identidade de classes continua subordinada a ele ? Será que a identidade de um indivíduo não passa por outros fatores além da sua simples posição do na estrutura da produção ? Voltarei a isso um dia.

Seja como for, rejeito esses vícios em nome daquilo que o debate jamais deve se abster de procurar: o entendimento das coisas.


3 comentários:

Ji Min Lee Jimini disse...

Durante a leitura, lembrei da sua aula que tratava sobre "Tese + Antítese = Síntese". Ainda você utilizou como um exemplo "Pão + Manteiga = Pão na chapa".
Saudades das suas aulas!

Abraço.

Diego Bacarva disse...

Temos tempo e companhia pra correr e só.
Gian, fico muito agradecido com a advertência. Porém em aula uma triste exigência administrativa me martela, que esse esperto professor se dispõe de um fiapo de tempo para o colóquio. Sem falar nos colegas, neófitos coitados. Me reconheço no olhar de centelha daquele corajoso aluno que sobe ao tablado no fim da aula. De boca aberta pra falar e de boca aberta pra ouvir um rápido desfecho e se contentar (em muitos casos) com sua pergunta rebatida pelo mestre. Uma hóstia que se engasga. É preciso esperança.
Fora da escola moderna, as vezes, se tem um amigo que se dispõe de ouvido e vontade, mas quase sempre esse amigo pede uma cerveja. Grande consenso. Idem família.
Também ouço as lamúrias de gente da Universidade, dessas de nome. Me adiantaram que por lá o debate é escasso, o "pensamento em feixe" é tão presente quanto a internet e que, vejam só, a cerveja é abundante. Grande consenso. Mas é preciso esperança, como este portal, que por mais esteja cumprindo a função "persona" das redes sociais, também instrui. Não é uma Ágora, mas muito alivia o espírito deste estudante.

Jefferson Evaristo disse...

Lembro-me de uma palestra que assisti no auditório da Historia na FFLHC em que o palestrante era Plinio de Arruda Sampaio,nao me lembro ao certo o tema da palestra,mas lembro-me sim que apos a explanação foi aberto espaço para perguntas e uma delas foi justamente sobre o pq direita e esquerda nao procuram um consenso,nao tentam fazer uma sintese do q ha de melhor nas duas propostas. O resultado foi que não deixaram o rapaz concluir a pergunta tamanho era a quantidade de vaias. Isso exemplifica bem a falta de disposição que ha em ambos os lados para consensos.