A cena foi vista
na passeata do dia 17 de junho em São Paulo: o jovem começou a entoar o refrão de
“Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, um dos hits
revolucionários de 1968, e ficou sozinho. Ninguém acompanhou. Foi quando tive a
intuição de que as novas gerações finalmente não precisam mais viver – e, sobretudo,
agir – sob a sombra de 1968.
Identifico um duplo
legado de 1968. Em primeiro lugar, a reivindicação de utopias, conforme
exemplificado pelos famosos slogans do maio de 68 francês (“A imaginação no poder”,
“É proibido proibir”, “Sejamos realistas, peçamos o impossível”). Se por um
lado tais slogans são de uma simpática beleza poética, e podem até sustentar
manifestações durante, digamos, uma primavera, por outro são evidentemente de
realização impossível. Ao invés de apontarem para um projeto, indicam tendências,
que se perdem em meio a abstrações infinitas.
Em segundo
lugar, o 1968 brasileiro trouxe a transformação da luta política em um
confronto maniqueísta. A ditadura militar facilitava a tendência, sendo
claramente identificada como um mal que deveria ser combatido, o que
transformava todos os seus adversários no campo do bem. Uma vez que os líderes da luta contra a ditadura estavam no campo da esquerda, aguardava-se o surgimento do nosso Lenin, quem sabe na pele de um José Dirceu ou Vladimir Palmeira.
Oras, o 2013
brasileiro parte de uma reivindicação bastante concreta (contra o aumento das tarifas
de ônibus urbano), e tira daí um verdadeiro projeto de mudanças. Se não
revolucionárias, pelo menos capazes de transformar algo na vida das pessoas. Dentre outros, o que se
ouve pelas ruas:
- transporte público de qualidade, incluindo preços seriamente subsidiados e mudança na ênfase das políticas públicas de transporte (que até hoje sempre beneficiaram transporte individual em prejuízo do coletivo);
- oposição à PEC 37, ao Estatuto do Nascituro, à “Bolsa Estupro”;
- reorganização completa das forças de segurança pública, incluindo a abolição das PMs.
Reinvindicações
vagas e com alvos difusos (como “abaixo a corrupção”) mal se ouvem em meio ao barulho
da multidão. Slogans anarquistas contra o “sistema” também se perdem. Ou melhor,
acabam atrelados aos atos de violência repudiados pela ampla maioria dos que vão
ás ruas. Acho.
Escrevo no calor
da hora, e percebo os tradicionais partidos “de rua” (PSTU, PSOL,
PCO) tem pouco espaço no movimento. O MPL se diz apartidário e, de fato, nas
manifestações, a quantidade de bandeiras dos partidos ditos radicais é mínima.
Hoje, lá pela tantas, ouvi brevemente um coro “Ei, PSTU, vai tomar... “ etc. Nesse
sentido que entendo que o objetivo do movimento certamente não é implantar, sei lá, o centralismo
democrático como primeiro passo para a introdução
da ditadura do proletariado. Enfim, até agora não apareceu nenhum candidato a Lenin em nenhum palanque. O que há de revolucionário é um desprezo generalizado
à classe política, e mesmo quando vejo cenas de “vândalos” escalando o
Congresso nacional, ameaçando o Legislativo carioca ou cercando o Palácio de
Governo do Estado de São Paulo, não me incomodo muito.
Seja como for, 1968 deixa de projetar a sua sombra, que durante muito tempo impediu que se pensasse por conta própria, que se agisse por conta própria. Finalmente, 1968 está enterrado, e as gerações atuais não estão mais condenadas a repeti-lo, nem como farsa nem como tragédia.
Seja como for, 1968 deixa de projetar a sua sombra, que durante muito tempo impediu que se pensasse por conta própria, que se agisse por conta própria. Finalmente, 1968 está enterrado, e as gerações atuais não estão mais condenadas a repeti-lo, nem como farsa nem como tragédia.
2 comentários:
Um texto sóbrio em um momento volátil.
Adorei Gian
Arthur Borges
Uma consideração, pouco sóbria:
meu medo não é de seguirmos sob a sombra de 1968, e sim de começarmos a seguir sob a sombra de 1964.
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